Nuno Lobo Antunes: “Dizer que hiperatividade resulta de má educação é um insulto terrível aos pais”

Maio 19, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Carlos Manuel Martins

Entrevista do DN LIFE a Nuno Lobo Antunes no dia 7 de maio de 2019.

Sentidos, o livro lançado no fim do ano passado e que escreveu em colaboração com a equipa do PIN – Progresso Infantil, que coordena, tem 640 páginas e pretende responder às dúvidas de pais, técnicos e professores sobre perturbações do desenvolvimento e comportamento de crianças e adolescentes. O guião da entrevista tinha a pretensão de cobrir quase todas, mas o tempo não estica e Nuno Lobo Antunes não gosta de atrasos. Uma família e uma criança esperavam-no. São eles que importam. É sobre eles esta entrevista, é sobre eles o livro e é por causa deles que o médico de 65 anos e uma vasta experiência, nacional e internacional, não hesita em ir contra correntes.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Carlos Manuel Martins/Global Imagens

Amor e uma infância feliz é o melhor que podemos dar aos nossos filhos, disse uma vez. Não é tão fácil como parece, pois não?

Dar amor é fácil, já uma infância feliz não depende inteiramente dos pais. Essa história tem que ver com uma mãe que conheci, a quem tudo tinha corrido mal. O filho tinha uma doença horrível e tudo à volta dela desabava e ela mantinha um sorriso de uma serenidade extraordinária. Um dia perguntei-lhe como era possível manter aquela serenidade e ela respondeu: «porque tive uma infância feliz». Aquilo teve um enorme impacto em mim, pensar nesse porto de abrigo, nesse tempo, nessas memórias, aonde, à medida que a vida caminha, podemos sempre retornar.

A nossa obrigação como pais é procurar que os nossos filhos tenham uma infância feliz até porque, passada a infância, a felicidade deles depende cada vez menos de nós. Uma palavra de um amigo ou colega pode ser catastrófica e a palavra do pai ou da mãe passa a ter progressivamente menos relevância. Não interessa nada eu dizer que a minha filha é linda se a rapariga mais popular da turma diz que ela é feia.

Mas se nos primeiros anos de vida elogiar os seus feitos e conquistas estará a contribuir para a consolidação de uma autoestima e segurança difíceis de abalar mais tarde, até pela rapariga mais popular da escola, não é?

Exato.

Até que idade está a autoestima em construção?

Até ao fim da adolescência, sobretudo nas raparigas. Eu penso que, em geral, os rapazes vão de menos a mais [confiança] e as raparigas vão de mais a menos, ou seja, nelas, à medida que vão progredindo na adolescência, a fragilidade, a vulnerabilidade e a insegurança relativamente ao corpo vão aumentando. Depois as coisas mudam, mas entre o início da puberdade e a idade adulta, há uma grande vulnerabilidade, em especial nas raparigas.

Há diferença entre rapazes e raparigas no que diz respeito a perturbações do desenvolvimento e comportamento?

Há diferenças sensíveis, não só na incidência, maior nos rapazes, mas também na forma como algumas dessas perturbações se manifestam. Por exemplo, nas perturbações do espetro do autismo, creio que não serão diagnosticadas mais raparigas porque um certo isolamento é considerado até ajustado ao temperamento feminino.

Por outro lado, as dificuldades de interação nelas surgem bastante mais camufladas do que neles porque elas são melhores imitadoras, pedem emprestados estereótipos verbais, por exemplo, bué, tipo, a cena, palavras que nada significam, mas que de alguma maneira são identificadoras do grupo e da idade e levam a que as suas dificuldades de interação e até um menor vocabulário e léxico emocional passem despercebidos. Os rapazes, pelo contrário, tendem a utilizar uma linguagem mais sofisticada, mais pedante que soa esquisita entre os pares.

O autismo é por vezes “romantizado”, tanto na ficção, em séries e filmes, como na vida real, por exemplo com a história da jovem ativista Greta Thunberg. Isto é positiva ou contraproducente para as famílias que têm um filho com uma perturbação deste tipo?

Sim, as perturbações do espetro do autismo são muito cinematográficas, inspiram filmes e séries, como o The Good Doctor, por exemplo, mas essas são as exceções. A maior parte dos miúdos com perturbações do espetro do autismo não tem competências excecionais, muitos têm uma inteligência média ou abaixo da média, muitos não têm nenhuma competência extraordinária, têm é dificuldades.

Mas o pai do João, que tem síndrome de Asperger, não olha para o síndrome de Asperger no quotidiano, olha para o João, olha para o filho, o diagnóstico é um instrumento que lhe permite compreender algumas atitudes e comportamentos fora do comum e ter uma resposta mais ajustada, mas o João não deixa de ter um nome próprio para passar a ser um diagnóstico.

Quando se fala de um grande aumento de perturbações como o autismo ou a hiperatividade e o défice de atenção, que têm hoje um caráter de quase epidemia, isso deve-se a uma maior atenção às crianças, que leva a mais diagnósticos, ou será a sociedade atual, a forma como se organiza e outros fatores a isto associados que estão na base de um aumento destas perturbações?

Não temos a certeza absoluta, mas eu diria que será mais resultado de uma melhor deteção do que verdadeiramente de uma maior incidência. Dito isto, é difícil ter a certeza absoluta de que não existem fatores ambientais, mas se existem, não descobrimos ainda quais são. Por isso, diria que a fatia maior deve-se seguramente a uma maior atenção.

No caso da hiperatividade e défice de atenção, a medicação com ritalina está no centro da discussão. Muitos, entre os quais alguns médicos, afirmam que existe uma sobreprescrição. Porquê tanta polémica?

Não acho que exista qualquer discussão à volta da ritalina. Do ponto de vista científico, todos os estudos feitos com metodologias sérias chegaram à conclusão que para o tratamento da perturbação da hiperatividade e défice de atenção não existe nada tão eficaz como a medicação. Não existe, pois, qualquer polémica. A não ser talvez do tipo rede social.

Nenhum médico que trata esta condição tem qualquer dúvida quanto ao que afirmei. Qualquer consulta de PHDA, de norte a sul do país, está de acordo: é de longe a intervenção mais eficaz. Quanto a isso há zero dúvidas.

Portanto, todas essas vozes que se levantam contra a medicação são vozes de burro. São sobretudo vozes de quem não passou por isso e o mais injusto é que as outras vozes estão silenciadas, porque quem tem a experiência da medicação, quem tem miúdos medicados, está calado porque não quer identificar os miúdos, tem medo da exclusão, tem medo do dedo que aponta. As vozes dos milhares e milhares de famílias das crianças que beneficiam da medicação não se ouvem.

Há quem defenda também que há um sobrediagnóstico de PHDA e que a falta de regras, a falta de tempo dos pais ou mesmo a desadequação da escola poderão estar na origem de comportamentos que podem confundir-se com esta perturbação. Há até quem afirme que esta não existe e é uma invenção da indústria farmacêutica.

Bom, quanto à não existência do problema, só pode afirmar isso quem nunca teve um filho com um problema destes e ainda bem porque quem tem sente na pele o impacto da perturbação.

Quanto a ser resultado da falta de regras ou disciplina, às vezes em conferências perguntavam-me como é que eu sabia se uma criança era mal criada ou hiperativa, e eu durante algum tempo lutei com esta questão até chegar a uma resposta que é esta, verdadeiramente simples: uma criança mal criada não vai ao médico.

Só vão ao médico os que já tentaram tudo para ajudar a criança, já tentaram ser severos, já tentaram ser indulgentes, já tentaram ser assim às vezes e assado outras vezes, já deram tempo ao tempo, esperaram que se fizesse o clique, ouviram os conselhos da família, ouviram os conselhos do professor e em geral passam-se meses ou anos até que tomem a decisão de ir ao médico.

Até que ponto é negativo que algumas perturbações sejam tidas como falta de educação?

Dizer que a hiperatividade e défice de atenção é resultado de má educação é um insulto horrível a quem sofre e sofreu durante anos com uma criança que tem uma dificuldade que os pais não conseguem resolver. Não calcula a indignação que esse tipo de afirmações me provoca… porque eu vivo com as famílias e com o seu sofrimento.

Uma das histórias que conta no livro Sentidos, e me impressionou, é a de uma mãe e um pai que diziam que não se divorciavam porque nenhum deles queria ficar sozinho com o filho hiperativo. A PHDA é muito pesada para uma família a PHDA?

Sim, é muito pesado. Depende, obviamente, do grau, mas o número de divórcios aumenta de forma considerável. O facto de ser uma perturbação de cariz genético e por isso muitas vezes os próprios pais são pessoas poucos estáveis do ponto de vista emocional, também concorre para isso, mas é uma realidade que muitas famílias ficam prisioneiras: não podem ir a um café, não podem ir a uma festa, ninguém quer ficar com a criança, e isso tem um impacto terrível na vida das pessoas.

Se cada um de nós se interrogasse e perguntasse: com que facilidade daria eu ritalina ao meu filho? Todos diríamos que só em circunstâncias muito especiais. Ora bem, os outros pais, todos os pais que dão ritalina aos seus filhos, são pessoas iguais a nós. É de uma extraordinária arrogância pensarmos que somos melhores do que eles. Não somos. Eles estão é em situações mais difíceis. Portanto, provoca-me uma certa indignação e revolta todos os livros e psicólogos e pediatras que vejo a apontarem o dedo aos pais. Não sabem do que estão a falar.

É incutida muita culpa aos pais: porque não estão tempo suficiente, porque não educam como deve ser, porque não criam regras, porque criam regras a mais?

Eu acho que sim e estou em completo desacordo com isso. Acho que cada um de nós faz o melhor que pode e sabe. Somos muito melhores pais e mães do que os nossos antecessores e dedicamos muito mais tempo e atenção aos nossos filhos.

Um divórcio é sempre mau ou pode, pelo contrário, salvar uma infância?

Um divórcio é sempre mau, mas pode ser a menos má das soluções. Aqui não há regras e o médico tem pouco que ver com isso a não ser que o casal peça ajuda para terapia familiar, mediação ou aconselhamento.

Não tenho muito que dizer a esse respeito, visto que fui divorciado. Por vezes, as pessoas encontram-se em becos sem saída e essa é a melhor das soluções. Há imensos fatores que entram em linha de conta e é preciso perceber que os adultos também têm que viver a sua vida. Não se pode pensar só em termos do que é melhor para as crianças, tem que se pensar também no que é melhor para os adultos e geri-lo de forma a que seja o melhor para as crianças, acautelando o seu bem estar.

Em 40 anos de experiência como médico, o que mudou nas crianças e nas famílias portuguesas?

Mudou o que mudou na sociedade. Eu vou fazer 65 anos, tinha 20 anos quando se deu o 25 de abril, e a minha infância foi vivida numa família burguesa, grandemente privilegiada. Creio que as pessoas não têm a noção exata de que atualmente o cuidado que temos com as crianças é incrivelmente superior e melhor do que era há 40 anos. Eu acho que somos cada vez melhores pais, as crianças têm cada vez melhores condições e a igualdade de oportunidades, embora ainda não seja nem de longe nem de perto idêntica para todos, teve uma enorme evolução. Portanto, quando oiço muitas vezes pediatras e psicólogos famosos denunciarem a falta de tempo dos pais para as crianças, a vida de stress que as pessoas levam, acho completamente irreal se pensarmos no que é, e foi, o país globalmente.

Há muita gente que já esqueceu os homens e mulheres que nunca foram meninos e meninas.

Há 40 anos não havia adolescência, as crianças passavam diretamente da infância para a idade adulta, não era de todo raro famílias de 14, 15 crianças, e verdadeiramente não tinham infância, começavam a trabalhar cedíssimo, as raparigas tomavam conta dos mais novos, os rapazes iam trabalhar logo que podiam para contribuir para a economia doméstica.

Também não havia tecnologia que ajudasse às tarefas domésticas, nem dinheiro, nem educação…. a educação era feita à pancada. A violência sobre as mulheres hoje é chocante, mas não tem nada que ver com a que existia há 40 anos… as pessoas não têm noção do caminho que foi feito. Não quer dizer que não existam muitíssimas coisas por fazer ou que esteja tudo bem ou perfeito, mas é preciso ter consciência do caminho percorrido.

Se calhar, só é possível olhar para o tempo e a história em retrospetiva e não quando estamos a vivê-lo. Quais foram as grandes mudanças?

Por exemplo, a ideia de ter atividades extracurriculares, dança, música, desporto, a quantidade de miúdos que sabem nadar hoje, é praticamente universal… Até uma coisa tão simples como o acesso a férias de verão, quem é que tinha isso? As pessoas não têm noção. A preocupação que os pais têm hoje de passar o fim de semana com os filhos, nem que seja o domingo, brincar com eles, ir passear, isso é novo, é novíssimo. E tem sobretudo que ver com a melhoria considerável das condições de vida e o aumento da cultura, os pais são mais instruídos do que eram antes.

Os próprios temas a que me dedico – a hiperatividade, o défice de atenção, a dislexia – eram praticamente inexistentes, ou desconhecidos, há 30 ou 40 anos. Não dava para a escola, não dava para a escola, saltava fora. Há uns tempos, fui a Moçambique falar sobre estas questões e um jornalista moçambicano perguntou de que servia falar daquilo quando havia tanto por resolver e eu lá dei a volta ai texto, mas é evidente que muitas destas questões são preocupação de nação desenvolvida, que já resolveu as suas questões de base, de saúde, alimentação, de um teto para dormir.

Entrei para medicina com uma média miserável de 11,7 e costumo dizer que hoje não daria nem para ministro, mas porquê? Porque não havia numerus clausus, porque eram pouquíssimos aqueles cujos pais tinham dinheiro para eles entrarem na faculdade. Eu, filho da burguesia, tinha o meu caminho completamente livre para o curso superior, para aquilo que a minha mãe chamava de uma enxada. Hoje, as minhas filhas competem por igual com todas as outras adolescentes da idade delas e têm que provar que são tão boas ou melhores, caso contrário acabou-se.

Claro que o privilégio de se nascer numa família culturalmente evoluída continua a ser uma vantagem evidente, mas apesar de tudo passou a haver um equilíbrio de oportunidades que antigamente não existia. Quem tem hoje vinte ou trinta anos não tem consciência do caminho que foi feito e eu acho que é importante ter essa perspetiva. Não que iniba de fazer mais e melhor, mas que permita um certo orgulho do que foi a evolução da sociedade portuguesa.

«Todos os meus doentes têm o meu telefone e o meu e-mail»

Uma das questões abordadas no livro Sentidos é a da relação do médico com as famílias e de como deve ser gerida a transmissão de diagnósticos complicados. Como dizer a uns pais que o filho que idealizaram tem um problema? Como é que isso se gere?

Acho que não há maneiras boas de dizer coisas más, mas há maneiras melhores do que outras. Eu tenho fama de ser eventualmente demasiado duro no contacto com as pessoas, o que não deixa de me espantar um bocadinho, porque não corresponde de todo à imagem que tenho de mim mesmo, mas a questão é esta, e às vezes é mal compreendida: eu tenho um treino oncológico feito nos Estados Unidos, e esse treino oncológico de alguma forma moldou-me na verdade. Para mim prende-se com o respeito pela pessoa.

Nessa altura, trabalhava com crianças com cancro?

Sim e se alguém me perguntasse quanto tempo tinha de vida, eu diria o tempo provável, não torneava a questão, não me afastava dela, não dizia números que não fossem verdadeiros. Portanto, se acho que uma criança tem uma perturbação do espetro do autismo, digo: «eu acho que o seu filho tem uma perturbação do espetro do autismo». Não digo: «vamos ver, vamos esperar, ainda é muito cedo», não uso subterfúgios, que aparentemente é a atitude bondosa, mas que, por um lado, é uma atitude insuportavelmente paternalista do meu ponto de vista, e por outro não respeita nem a dignidade nem a inteligência de quem nos pede ajuda. E sobretudo não protege a criança, que vê adiados todos os cuidados que devia ter. Mas pago um preço por isto.

Se digo a alguém que o filho tem uma perturbação do espetro do autismo e depois os pais vão a outro lado, onde lhes é dito que não tem coisa nenhuma e que eu não sei do que estou a falar, evidentemente arrisco a que vão para as redes sociais dizer que, além de incompetente, tenho um conjunto de outros defeitos. É um risco que corro.

E qual é o preço que paga uma família que não aceita o diagnóstico?

O de ver adiado o tratamento. Mas eu sou antes de tudo advogado da criança, essa é que precisa de ser defendida. As pessoas pagam para ouvir o que penso, pagam a minha experiência, o meu treino, e não faz sentido que levem gato por lebre, que eu diga uma coisa diferente daquilo que penso, por muito duro que seja.

O acompanhamento a pais e irmãos de crianças com perturbações de desenvolvimento e comportamento é fundamental para o tratamento, não é?

Claro e nós no PIN – Progresso Infantil fazemos isso. Temos uma equipa multidisciplinar que acompanha não só as crianças como as famílias. A equipa do PIN é um conjunto de gente bem formada, quer do ponto de vista técnico quer do ponto de vista humano.

Há uma coisa que eu faço questão: todos os meus doentes têm o meu telefone e o meu e-mail e mesmo de férias não deixo de responder. É preferível dar uma má notícia e dizer “sempre que precisar de mim, estou aqui” do que estar com falinhas mansas e desaparecer da vista quando a criança ou a família precisam de ajuda, que é o que algumas vezes acontece.

O PIN é privado, nem todos têm acesso. A resposta pública portuguesa na área da saúde mental infantil é satisfatória?

Acho que é variável. Não podemos generalizar, haverá sítios onde é ótima e outros onde é péssima. Mas há um problema de base que é: eu tenho uma hora para uma primeira consulta, os médicos do serviço nacional de saúde não têm uma hora. O tempo para ouvir e para cuidar necessariamente não é o mesmo porque eles têm listas de espera infindas e estão muito limitados, trabalham em condições muito mais difíceis do que aquelas em que eu trabalho.

O PIN dá consultas online, para dar resposta a outras regiões do país. Quais os resultados dessa experiência?

Tem tido um sucesso imenso. Neste momento, temos acima de três centenas de crianças acompanhadas regularmente, espalhadas por todo o país e no mundo inteiro. Mas apesar de tudo são pessoas que têm dinheiro para pagar a mensalidade, têm computador, têm câmara, têm internet.

Portanto, permite que pessoas que vivem em Trás-os-Montes tenham acesso a cuidados de extrema qualidade, mas são pessoas que têm algum suporte económico e cultural e não é para todos os miúdos – têm que ter uma idade suficiente para ficarem uma hora ligados ao computador sem se levantarem dali. É algo que fez uma enorme diferença, a experiência tem sido fantástica, mas não é resposta para tudo nem para todos.

É muito crítico das terapias alternativas. Não admite vantagens de algumas delas como complemento à medicina tradicional?

É preciso separar um pouco as águas. Eu sou ferozmente contra coisas como a homeopatia, o reiki e esse tipo de patranhas. Em relação ao mindfulness, por exemplo, tenho sérias reservas quanto à evidência científica da sua utilidade, mas essa minha reserva não é partilhada por alguns dos meus colaboradores que utilizam a técnica e a acham útil.

Eu sou líder da equipa, mas não sou um ditador, daí que tenha dado espaço para que a técnica seja abordada no livro por quem tem experiência dela e nela acredita. O livro resulta de um trabalho coletivo da equipa do PIN e a minha função é dar esse espaço de liberdade às pessoas que trabalham comigo, que têm direito a pensar de forma diferente da minha, são mesmo incitadas a pensar de forma diferente.

Entre as perturbações do desenvolvimento e comportamento, quais são as que representam um maior desafio para as famílias?

Cada uma tem as suas implicações e tudo depende da intensidade de cada uma delas. Há perturbações do espetro do autismo que são gravíssimas e destruidoras de tudo quanto está à sua volta e tornam a vida num inferno como as há ligeiras e com muito menos impacto.

O que eu acho é que ainda não foi feito o caminho para compreender o comportamento humano, sobretudo aquele que tem aspetos atípicos que levam as pessoas a procurar ajuda. Penso que estamos a fazer um caminho de uma maior compreensão e integração do pensamento sobre estes miúdos, mas existe uma simplificação excessiva na categorização diagnóstica. Essa simplificação é necessária por um conjunto de razões – estatísticas, demográficas, científicas, económicas, burocráticas – que levam a essa compartimentalização, mas perante o caso individual, temos que pensar nos múltiplos fatores e interações que existem em cada criança.

É excecional fazer um diagnóstico de uma perturbação absolutamente pura sem outros fatores a influenciarem, mas para pensar desta maneira é preciso pensar, é preciso tempo e é preciso coragem de pensar diferente daquilo que parece ser o conhecimento instituído e é isso que nós aqui tentamos fazer. Podemos fazer uma medicina de altíssimo nível, não devemos nada a ninguém.

Sentidos tem como subtítulo o grande livro das perturbações do desenvolvimento e comportamento. Pretende ser uma espécie de bíblia nesta área, em que há tanta informação contraditória?

Eu diria que sim, embora exista uma diferença grande: é que ninguém vai reescrever a Bíblia, enquanto em relação a um livro deste tipo se calhar daqui a quatro anos vai ter que ser reescrito porque entretanto houve coisas que mudaram, o pensamento alterou-se, fizeram-se novas descobertas. Mas sim, pretende ser a bíblia do momento.

 

 

Histórias sensoriais : Vamos explorar os sentidos através de uma história – em maio na APPDA – Lisboa

Abril 30, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Reino Unido. Escola obrigou criança autista a usar colete refletor no recreio para estar sinalizada

Abril 10, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Observador de 9 de abril de 2019.

Charlie, de seis anos, teve de usar um colete refletor para ser distinguido no recreio por ter autismo. Mãe da criança fala em gesto “repugnante”. Escola garante que pais são informados de tudo.

Joanne Logan é mãe de cinco crianças, uma delas com autismo. Esta semana, a britânica chamou à atenção quando escreveu nas redes sociais uma publicação a denunciar o facto de a escola do seu filho Charlie, de seis anos, o obrigar a vestir um colete refletor para ser identificado no recreio. “Isto nunca deveria ter acontecido”, referiu a mãe numa publicação no Facebook.

Por considerar que se tratou de um gesto discriminatório, “repugnante” e que o sistema nas escolas deve mudar, Joanne decidiu tomar medidas legais contra a Escola Primária de Cherry Lane, em Londres, apontando que em nenhum momento foi informada sobre a decisão de vestir o filho com um colete refletor. Pelo contrário, a escola argumenta que todas as ações são realizadas sob a supervisão dos pais, com quem dizem trabalhar sempre em conjunto.

“Eu sabia que durante a pausa de almoço ele nem sempre tinha autorização para estar no recreio porque já foi acusado de magoar outras crianças. Eu sei que há um problema no qual a escola tem de trabalhar comigo, mas parece que eles acham que a melhor forma de lidar com isto é forçá-lo a utilizar um colete para que os professores saibam que é autista”, referiu Joanne Logan, citada pelo The Mirror.

Num vídeo que a britânica publicou no Facebook, Charlie surge a contar a sua história e a explicar o que costuma acontecer na escola. “Senti que era mau e errado e eu não queria utilizar [o colete], porque me estava a deixar de parte e mais ninguém o usava“, referiu a criança.

“Depois deste episódio aparecer nos jornais, decidi levar o caso ao meu advogado. Temos estado a lutar há muito tempo”, explicou a mãe de Charlie, acrescentando que que lançou uma campanha crowdfunding para conseguir financiar toda a ajuda legal necessária, mas também para ganhar o caso em nome de todas as famílias com crianças autistas.

“Apenas quero garantir que mais nenhuma criança autista precisa de ser colocada nesta situação”, referiu Joanne, que diz ainda conhecer vários casos semelhantes ao de Charlie. “Isto pode afetar a criança quando ela for mais velha. Eles percebem que são diferentes”, explicou.

 

 

 

Seminário Nacional Autismo-Formação para a inclusão – 12 outubro em Lisboa

Setembro 29, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://www.fpda.pt/seminario-ipa-autismo-formacao-para-inclusao

 

Um cão como ligação entre o mundo e uma criança autista

Abril 24, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 9 de abril de 2018.

Poderá um cão ajudar crianças com perturbação do espectro do autismo? O presidente da Associação Portuguesa de Cães de Assistência (APCA) não tem dúvidas: “Sim, pode.” Um cão, treinado, diz Rui Elvas, será um ponto de focalização para a criança, ajudando-a em momentos de maior ansiedade. “Uma ida ao centro comercial, com todos os estímulos visuais e sonoros, pode ser muito difícil para uma criança com autismo. Um cão de assistência será uma espécie de porto seguro”, exemplifica ao PÚBLICO o responsável pela APCA.

A associação, que nasceu há quatro anos, já treinou 11 cães para acompanhar crianças com perturbações do espectro do autismo, e dos 240 pedidos que tem em lista de espera, 70% são para este tipo de patologia. O primeiro a ser treinado, há dois anos, foi o Sinatra, um labrador. O último foi a cadela Lia, que aterrou no final da semana passada na Madeira, mesmo no meio da família de Francisco, de quatro anos, a quem, em Março de 2016, os médicos diagnosticaram autismo.

É ele que corre todo o comprimento do pequeno cais da praia de Machico, a segunda cidade da ilha, a 30 quilómetros a leste do Funchal. Uma após outra, vai retirando da praia de calhau rolado pequenas pedras que depois atira com cuidados mil para o mar. Lia, um cão-d’água português, está deitada a observar.

A interacção entre os dois é nula, neste momento. Rui Elvas nota que é cedo. Lia — o nome foi escolhido para rimar com “ia”, um dos poucos sons que Francisco já articula — tem quatro meses, e chegou à Madeira naquele mesmo dia. É o início de um processo longo de familiarização e treino, que, segundo Rui Elvas, vai ajudar a criança a lidar com as ansiedades e frustrações que acompanham o autismo.

“Enquanto os adultos pressionam a criança, o cão de assistência não pede nada em troca. Não exige, não força. Está simplesmente lá para ela”, sintetiza o presidente da APCA.

Carla Pereira, 47 anos, mãe de Francisco, quer acreditar que sim. Que vai ajudar a ligar o filho ao mundo. Conheceu a APCA no final do ano passado, no dia de Natal. Uma reportagem na televisão contava a história da entrega de um cão a uma família com três crianças com perturbações do espectro do autismo, nos Açores. “Estava a ver e pensei: porque não? Mal não irá fazer”, recorda ao PÚBLICO, enquanto acompanha o vaivém do filho, entre o início da praia e o meio do cais.

As dificuldades de linguagem e de socialização de Francisco confundiram no início a família e os médicos. “Pensámos que era surdez, e fizemos uma imensidão de exames, mas o Francisco não tinha problemas de audição”, conta Carla Pereira, que ensina Matemática na escola secundária da cidade.

Quando o diagnóstico de autismo foi feito, já a família desconfiava. O atraso na linguagem foi o primeiro sinal de alerta. As dificuldades de socialização, a confirmação.

Desde então, Francisco é acompanhado pelo Centro de Desenvolvimento da Criança, no Serviço de Pediatria do Hospital Dr. Nélio Mendonça, no Funchal. Terapia da fala. Terapia ocupacional. Psicologia. Quando falou com o neuropediatra sobre o que tinha vista na televisão, o clínico não se opôs. “Mal não fará”, ouviu Carla Pereira.

Em Fevereiro, dois meses depois de ter conhecido o trabalho da APCA, já Rui Elvas estava na Madeira a visitar a família. O objectivo é perceber quais são as necessidades da criança. O contexto familiar e que tipo de cão se adequa melhor.

“Não saltar, não ladrar”

Neste caso, foi escolhido um cão-d’água português, que, aponta Rui Elvas, é uma raça com características muito próprias que vão ao encontro das necessidades das crianças com perturbações do espectro do autismo. À cabeça, está a maior esperança média de vida (14/15 anos) quando comparada com outras raças, o que garante à partida mais tempo com a criança/jovem. “Em segundo lugar, amadurecem mais rápido, o que permite que comecem a ser treinados mais cedo”, enumera Rui Elvas, apontando para Lia, que se mantém imóvel e em silêncio. “Se fosse um labrador, com esta idade, não estava quieto”, compara o treinador.

Lia, continua, teve de esperar quatro meses para ser entregue, por ser essa a idade mínima para poder ser vacinada contra a raiva e viajar de avião. Não fosse isso, podia ter sido introduzida na família mais cedo. “O normal é acontecer entre as oito e as 12 semanas, para o cão se habituar aos movimentos muitas vezes bruscos e aos barulhos que as crianças fazem.”

Outra vantagem do cão-d’água é o pêlo. Esta raça, originária do Algarve, que ganhou nova vida em 2009 quando foi adoptada pelos Obama na Casa Branca, tem cabelo em vez de pêlo. “A questão das alergias não se coloca, o que é uma enorme vantagem.”

A primeira fase do treino do animal é a obediência, como se fosse um normal cão doméstico. “É importante estabelecer três regras simples: não saltar, não ladrar e não morder”, enumera Rui Elvas, que nesta fase, como na seguinte, se limita a orientar a família. “A ideia é supervisionar e facilitar, promovendo sempre a relação entre o cão e a nova família.”

O segundo momento do treino é mais técnico. Específico para a criança a quem o cão irá prestar assistência. No caso das perturbações de autismo, os cães são treinados para acompanhar a criança de forma a estarem presentes quando for necessário acalmá-las. “Existe muitas vezes a tendência para as crianças fugirem, e o cão é treinado para evitar isso.”

Tudo isto custa dinheiro. A aquisição, o treino e a certificação de um cão de assistência para crianças com autismo atingem os cinco mil euros. No Orçamento do Estado para este ano, por força de uma proposta do PAN, foi incluindo uma alínea que prevê o apoio financeiro às escolas que certificam os cães de assistência. Mas até agora nada foi concretizado. Por isso, a APCA tem de ser criativa. “Vamos retirando parcelas das famílias que podem pagar, para que outras, que não têm possibilidades económicas, possam também ser apoiadas” explica Rui Elvas. Muitas vezes não é suficiente. A associação tem recorrido ao crowdfunding ou a eventos para angariação de fundos, como o que aconteceu em Dezembro, nos Açores.

A APCA, que tem também treinado animais para a Dinamarca, Suíça, Alemanha, Luxemburgo, Angola e vai estar dentro de semanas em Inglaterra, nasceu em 2014 e integra, entre treinadores, terapeutas, veterinários e psicólogos, um total de 13 pessoas.

A ideia de constituir uma associação sem fins lucrativos surgiu quando uma família bateu à porta da K9 Training Center, a escola de treino canino que Rui Elvas mantém no Estoril, a perguntar se podiam treinar um cão de assistência para uma criança diabética. “Percebemos que essa área não estava a ser trabalhada e decidimos criar a associação para dar resposta a estas situações.”

Para além dos 11 cães treinados para dar assistência a crianças com autismo, a APCA já entregou outros oito, para patologias tão distintas como a diabetes (cães são treinados para supostamente detectarem crises de hipoglicemia) ou a mobilidade reduzida. O objectivo, diz Rui Elvas, é continuar a ajudar as pessoas.

 

A vida sob a perspectiva “mágica e única” de uma criança com autismo

Abril 3, 2018 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Kate Miller-Wilson

Texto do http://p3.publico.pt/ de 14 de maio de 2017.

Eian é uma criança de dez anos e tem uma perspectiva do mundo “mágica e única”, descreveu a mãe ao Huffington Post. O filho mais velho da fotógrafa Kate Miller-Wilson tem aquilo que é denominado de “autismo altamente funcional” e as suas fotografias retratam a experiência de “amar alguém com autismo”. A norte-americana, residente no estado do Minnesota, considera este conjunto de fotografias um escape criativo e emocional do seu quotidiano na companhia de Eian. “Quando nos focalizamos apenas nos desafios desta condição, não conseguimos ver a beleza; por outro lado, quando nos centramos apenas nas dádivas, deixamos de conseguir compreender os progressos e conquistas feitas por indivíduos com autismo, pelos seus pais e cuidadores”, explicou. O seu trabalho fotográfico é de natureza emocional, “pretende estabelecer uma relação com o espectador e oferecer um vislumbre sobre todas matizes que compõem o quotidiano de alguém no espectro [autista]”. Miller-Wilson sente dificuldade em estabelecer contacto visual com o filho enquanto o fotografa. Para ultrapassar o problema, a fotógrafa cria barreiras visuais entre os dois: vidro, gelo, são alguns exemplos. “Existe um ditado dentro da comunidade autista: ‘se conheceste uma pessoa com autismo, conheceste apenas uma pessoa com autismo’.” Ser pai ou mãe de uma criança com autismo pode ser um verdadeiro desafio. “É normal estar preocupado, zangado ou frustrado ou desesperadamente cansado”, comenta. “[Os pais] não têm de ser santos. Estes sentimentos tornam a experiência [de educar estas crianças] mais real e permitem-nos apreciar os momentos de felicidade que surgem.” Eian gosta de números e sente-se feliz com a exposição que as fotografias da mãe têm obtido online. Kate, por sua vez, espera que no futuro estes retratos sejam por ele interpretados como cartas de amor.

 

Workshop “O bebé nasce pela boca: voz, sujeito e clínica do autismo” 15 de Janeiro de 2018 em Lisboa

Dezembro 29, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.facebook.com/events/1516597765042128/

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdcfR5XVFJEgoYq0hbRcMBtUP2X7kMVxAYnogR1kJhxq1atwg/viewform

Bons livros para temas difíceis

Outubro 19, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://portcast.net/ de 14 de setembro de 2017.

por Catarina Stichini

Ainda a escrita não tinha sido inventada, já as pessoas passavam conhecimentos e aspetos culturais de geração em geração contando estórias. A tradição oral sempre ocupou um lugar fundamental na nossa sociedade, sendo os donos da oratória fonte de grande apreço e admiração. Ainda hoje, um evento especial é marcado com um discurso. E quem não se lembra das histórias contadas pelos avós?

Nos últimos anos, a arte do story telling, Hora do Conto em Portugal ou Contação de Histórias no Brasil, desenvolveu-se exponencialmente, tendo sido criado um novo espaço para os contadores. Se, por um lado, se verifica a necessidade de levar a leitura a mais crianças e assim promover um mundo mais justo e mais rico para todos, por outro lado não é raro encontrar eventos que a promovam, em bibliotecas ou livrarias, que assim atraem miúdos e graúdos até si.

O encanto e a magia que caracterizam estes encontros permitem a todos deixar-se levar pelas histórias e pela imaginação, contribuindo para a formação do indivíduo que, de uma forma ou de outra, se vê espelhado na narrativa.

Além de possuir este aspeto fantasioso, a literatura é também um veículo privilegiado para abordar assuntos complexos, uma vez que oferece aos interlocutores a possibilidade de projetarem na história o que não querem ou não conseguem discutir diretamente.

Existem, sem dúvida, aos milhares livros sobre todos os temas possíveis e imaginários, mas o que se passa nos nossos países? Que querem dizer os contadores de língua portuguesa? Em que livros transmitem o que sucede atualmente nas nossas famílias? Foi com esta ideia em mente que decidimos elaborar uma pequena lista de livros de autores de expressão portuguesa ideais para abordar temas difíceis.

Dez livros de que gostamos muito!

 

  1. Adoção – Flávia e o bolo de chocolate, de Míriam Leitão e Bruna Assis Abril (ilustração), Editora Rocco

Este livro fantástico e doce de Míriam Leitão aborda a adoção através de uma perspectiva diferente, simples e amável.

Rita sempre quis ter um filho ou filha e quando encontrou Flávia, foi amor à primeira vista. Rita sabia que Flávia seria sua filha e pronto, descomplicado assim. Flávia cresce bonita e feliz mas passa a não gostar da cor “marrom” de sua pele por não ser parecida com a de sua mãe. Ela passa a não gostar de nada que seja marrom. Então a mãe com delicadeza e amor vai mostrando e explicando que as pessoas possuem características próprias e diferentes e que este fator torna o mundo rico e cheio de beleza. A mãe também vai ensinando a sua filha que muitas coisas belas e boas têm a cor marrom, inclusive a cor da menina.

A premiada jornalista Míriam Leitão aborda temas delicados como adoção e questões raciais de forma delicada e suave para os pequenos. O livro é uma beleza e ainda conta com belas ilustrações de Bruna Assis Brasil, a autora ganhadora do Prêmio FNLIJ 2014 na categoria Escritor Revelação por seu livro infantil de estreia, A perigosa vida dos passarinhos pequenos, que também mostra que o mundo é feito de diferentes cores, pessoas e sabores.

 

  1. Autismo – Tom, de André Neves, Projeto Editora, 2012

Em Tom, Andre Néves nos presenteia com uma bela história de extraordinária sensibilidade. Tom é um menino que vive no silêncio de seus pensamentos e, por este motivo, todos tentam entendê-lo e querem saber o que se passa com ele, principalmente seu irmão. Durante a história, o irmão se questiona sobre o motivo de Tom não brincar, não falar, não reagir à vida a sua volta. Até que um dia, Tom convida seu irmão para dançar e conhecer seu mundo.

Linda e talvez um pouco melancólica, esta história nos abre inúmeras possibilidades de interpretações e troca de ideias. Uma delas é o universo do autismo.

  1. Cancro – A Matilde está careca, vários autores, José Souto Moura (ilustração), Prime Books, 2017

Livro dedicado ao cancro infantil, escrito por antigos alunos da Faculdade de Medicina de Lisboa. Conta a história de Pedro e de Matilde, colegas inseparáveis na escola até ao dia em que Matilde não aparece e Pedro descobre que ela tem uma doença com um nome muito estranho.

Texto escrito numa linguagem acessível e fatual, que transmite o afeto entre as crianças, as dificuldades desta doença e a esperança na cura.

O livro faz parte do Plano Nacional de Leitura em Portugal e pode encontrar sugestões da Operação Nariz Vermelho para o abordar na escola, com crianças do Ensino Básico (1º ao 9º ano de escolaridade), aqui.

  1. Doença e superação – Dulce a abelha, de Bartolomeu Campos de Queirós e Mariana Newlands (ilustração), Editora Alfaguara, 2015

Esta fábula encantadora e poética nos conta a história de Dulce, uma abelha que não nasceu para fabricar mel e não por culpa dela. Era diabética. Foi proibida – pela natureza – de comer açúcar. O que era doce lhe dava tonteiras e causava desmaios. Dulce sonhava em ser tantas coisas, formiga, borboleta, apenas para não parecer preguiçosa e desobediente aos olhos das outras abelhas. Ela tenta até o fim vencer suas limitações.

Uma história sobre o desenrolar da vida e da morte, com suas certezas e incertezas, onde Bartolomeu Campos de Queirós trata de temas muito importantes como aceitação, superação e perda com lirismo e a simplicidade de uma criança.

  1. Emigração e adaptação – A Rainha do Norte, Joana Estrela, Planeta Tangerina, 2017

Ser estrangeiro não é fácil.

Joana Estrela parte da lenda das amendoeiras e escreve a estória de uma jovem que se muda para um país muito diferente do seu. Refletindo a realidade de muitas famílias nos dias de hoje, o livro aborda os desafios e dificuldades que esta experiência representa, da língua e da comida às saudades dos que se deixam para trás, mas também o amor e a vontade de crescer e mudar. Uma história muito bonita e bem conseguida, quer a nível verbal quer a nível gráfico.

  1. Guerra – Que luz estarias a ler?, de Ana Biscaia (ilustração) e Pedro Mésseder (texto), Xerefé edições, 2014

Um livro que começou ao contrário, com os desenhos de Ana Biscaia (Prémio Nacional de Ilustração 2013) baseados em fotografias de uma menina a apanhar livros no meio de escombros num cenário de guerra. Seriam esses desenhos que serviriam de base ao texto de Pedro Mésseder, que assim acaba por ilustrar ilustrações com as suas palavras.

No livro, a menina é Aysha e procura livros para a escola que sonha ter no fim da guerra, altura em que se dedicará a pensar no que o seu amigo Kalil estaria a ler quando morreu.

Um livro forte e belo, tanto a nível textual como visual, que nos permite abordar temas tão difíceis como a guerra e a morte infantil através da discussão do amor aos livros e do papel da literatura neste mundo às avessas.

Que luz estarias a ler? está atualmente a ser trabalhado com alunos de Português, do Ensino Básico (1º – 6º ano), na Suécia.

  1. Identidade – Como tu, de Ana Luísa Amaral e Elsa Navarro (ilustração), Quid Novi, 2012

Tudo muda e se transforma. Como tu.

Escrito numa linguagem poética e do quotidiano, com a bondade e pureza a que nos habitua Ana Luísa Amaral, este livro mostra-nos como tudo cresce, muda e passa, como tudo deve ser respeitado, tal como a borboleta e o pé de feijão. Uma conversa com uma criança sobre o mundo que a rodeia, um belíssimo ponto de partida para discutir a amizade, a família, a solidão, a sexualidade, a vergonha, os medos que nos assombram, e muito mais.

Livro acompanhado por um CD com música original de António Pinho Vargas e interpretação de Gilberto Oliveira e Margarida Gonçalves.

  1. Paixão e desilusão amorosa – Eu gosto de ti. E tu?, de Inês Almeida e Nicholas Carvalho, Livros Horizonte, 2016

A primeira paixão, o primeiro desgosto, a primeira lição para aprender a dar tempo ao tempo, ultrapassar medos e confiar em nós mesmos. Um livro numa linguagem delicada, como é o tema, com bonitas ilustrações.

  1. Síndrome do X Frágil – Olá! Eu sou o Alexandre – Alexandre, o Ágil, de Ana Zanatti e Madalena Bastos (ilustração), Pais em Rede, 2016

O Alexandre é um menino curioso e irrequieto, que vive rodeado de amor, entrega e preserverança. Vive com a síndrome do X Frágil, caracterizada por sintomas como a hiperatividade, problemas de atenção e concentração, ansiedade e timidez social. A estória de Alexandre é verídica, e aqui é contada num tom lúdico e em verso, pensada quase para ser cantada a outros meninos; faz parte da coleção Meninos Especiais, que visa contar a estória de crianças com deficiências, nem sempre visíveis ou conhecidas do público geral, e alertar para as suas necessidades especiais.

Este livro foi financiado pela Associação Portuguesa da Síndrome X Frágil, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

  1. Um novo irmão – Eu só só eu, de Ana Saldanha e Yara Kono (ilustração), Editora Peirópolis, 2014

Um livro cheio de amor sobre tudo o que faz parte do mundo de um filho único: os seus brinquedos, os seus espaços, os seus afetos. E como tudo isso muda com um irmão, só seu.

Texto e ilustrações ideais para abordar o tema com crianças até aos 3 anos.

Sugerimos também:

  • Alice Beija-Flor, um PortCast da autoria de Jorge Reis, com exercícios de Catarina Stichini, para ler e ouvir e discutir a infância, a família e distúrbios alimentares. Versão lenta e grátis, aqui. Versão com exercícios, aqui.

Diga-nos o que acha e sugira outros livros!

 

Catarina Stichini é professora há mais de vinte anos, tendo já lecionado do ensino infantil ao universitário. Em 2014, foi nomeada para o Prémio de Melhor Professor da Universidade de Estocolmo, na Suécia, país onde é atualmente professora de Português Língua de Herança. Dedica parte do seu tempo ao www.portcast.net, uma plataforma para a aprendizagem de português através de podcasts. Tem um filho luso-sueco com 6 anos.

Gabriella Teixeira é formada em Comunicação Social e trabalha como professora de Português como Língua de Herança na Suécia. Apaixonada por literatura infantojuvenil, em 2015, criou o projeto, Cantinho da história na Suécia, onde realiza diversas contações de histórias em português nas bibliotecas de Estocolmo e também em Uppsala.

 

 

 

A cadela Mel vai à escola ajudar crianças com autismo

Junho 7, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do https://www.publico.pt/de 19 de maio de 2017.

A Mel é uma cadela golden retriever de 18 meses treinada para ajudar crianças com dificuldades Nelson Garrido

Projecto de terapia com cães em contexto escolar está em fase-piloto em Coimbra. Sessões ajudam a desenvolver a comunicação, a concentração e as competências sociais das crianças.

Camilo Soldado Paulo tem um autocolante vermelho na mão direita e outro azul na esquerda. Ana Barbosa Ribeiro, a técnica de terapia assistida, aponta para Mel – que tem também autocolantes coloridos iguais nas patas – e vai perguntando a Paulo, com seis e a frequentar o 1.º ano, (a pedido da escola não o identificamos pelo seu verdadeiro nome) qual corresponde a qual. A Mel é uma cadela golden retriever de 18 meses especialmente treinada para ajudar crianças com dificuldades.

Estas sessões de cinoterapia fazem parte de um projecto implementado na Escola Básica do Tovim, em Coimbra, pelo Centro de Apoio Social de Pais e Amigos da Escola (CASPAE), uma Instituição Particulares de Solidariedade Social, e envolve actualmente quatro crianças com autismo. O projecto funciona em contexto escolar. Além da cadela Mel e da técnica de terapia assistida Ana Ribeiro, fazem parte do projecto uma psicóloga e especialistas do estabelecimento do Agrupamento de Escolas Eugénio de Castro, que tem uma unidade de ensino estruturado para autistas.

A psicóloga Cátia Rodrigues, coordenadora do projecto de cinoterapia, explica que, depois de feito o diagnóstico das crianças, o plano de intervenção é desenhado de acordo com a necessidade de cada uma. Mel ajuda as crianças a treinar a capacidade de concentração, as competências sociais e de comunicação. Um dos objectivos é que “aprendam a ter comportamentos nos momentos adequados, como um bom dia, uma boa tarde, [a fazer] contacto visual com o outro ou a ter uma postura corporal adequada ao que está a sentir na altura”. Outro dos aspectos trabalhados é a psicomotricidade, como a diferença entre esquerda e direita, em exercícios como os que Paulo faz com os autocolantes.

O cão também tem horário

“As crianças com autismo têm hipersensibilidade a estímulos”, afirma Cátia Rodrigues, pelo que o simples toque no pêlo do cão já “é extraordinário para eles”. Olhar para a Mel é também terapia. “Por norma, uma criança com autismo não olha nos olhos de um adulto.” Mas se lhe pedem para descrever o focinho da cadela, a criança “vai indicar-nos os olhos e mantém-se ali a olhar”.

As sessões acontecem duas vezes por semana, podem ser em grupo ou individuais, e os exercícios dependem do plano de intervenção de cada criança. Para além das horas com a cadela, as crianças estão integradas em turmas com os restantes alunos. A terapia “influencia a interacção com os próprios colegas”, garante Carmen Cruz, coordenadora da Escola Básica do Tovim.

No sentido contrário, o facto de estes alunos frequentarem este espaço também tem efeito nas outras crianças da escola do Tovim. A responsável explica que ter contacto desde tão cedo com condições diferentes faz com que as restantes crianças lidem com a diferença e apreendam valores como “o altruísmo e a empatia”. Que “se coloquem no lugar do outro”, sintetiza.

O projecto está na fase-piloto e arrancou no final do ano lectivo passado. A presidente do CASPAE, Emília Bigotte, explica que há a possibilidade de alargá-lo a mais crianças, mas teria que envolver mais equipas e mais animais, o que está dependente de financiamento. “O cão também tem o seu horário de trabalho”, lembra a responsável, acrescentando que Mel e Ana Barbosa Ribeiro trabalham em regime de voluntariado.

Ultrapassar a fobia

Gaspar (nome fictício), também com seis anos e perito em puzzles, está ver um vídeo de desenhos animados com cães projectado numa tela da sala da escola onde anda no 1.º ano, enquanto Mel espera pacientemente sentada numa cadeira ao lado. Ver os episódios da Patrulha Pata, refere Cátia Rodrigues, é um dos métodos para combater a fobia a cães, caso de Gaspar que tem medo deles.

Márcia Sarapicos é a mãe da Matilde, uma das crianças que participa nas sessões de terapia com a Mel. Conta que aceitou que a filha, de 10 anos, participasse no programa porque ela “entrava em pânico quando via um cão na rua”. Matilde, a frequentar o 4.º ano, gosta de animais, mas tem medo. Agora, depois de um ano de terapia, já se notam progressos. “Já vai fazer festas”, diz Márcia Sarapicos. E “mesmo na parte da comunicação, também teve alguma evolução”.

É esta vertente que Cátia Rodrigues também está a estudar. Ao longo da fase-piloto, a psicóloga tem vindo a avaliar a eficácia do tratamento, com atenção à parte cognitiva, a comportamentos sociais e à parte comunicacional, tendo igualmente em conta o contexto sociodemográfico destas crianças. No próximo mês já deve ter resultados.

Apesar de o projecto ainda estar numa fase inicial e de ainda não haver resultados científicos, o impacto que as sessões têm nas crianças é observável, diz. A satisfação de Paulo está patente no rasgado sorriso que ostenta enquanto leva Mel pela trela a percorrer uma linha recta. O sorriso de Paulo é também descritível através de uma reacção química. Cátia Rodrigues refere que o contacto com o animal activa uma parte superfrontal do cérebro, num processo em que este vai produzir um neurotransmissor chamado oxitocina, que está associado à sensação de bem-estar. No sentido contrário, a produção da oxitocina vai diminuir outros neurotransmissores como o cortisol, “que aumenta o stress e a ansiedade”. “Daí as crianças terem uma melhor interacção com o cão do que connosco.”

Esse contacto com o animal leva a outros pequenos passos. Cátia Rodrigues conta que uma das crianças que frequentaram o programa tinha mutismo selectivo, perturbação na infância ligada à ansiedade ou fobia sociais. Não falava com os elementos do projecto nem com professores que não conhecia. “Ela saiu do projecto a dizer bom dia. São pequenas vitórias, mas que são grandes vitórias.”

Quase 2000 em unidades para o autismo

No presente ano lectivo, 903 crianças do 1.º ciclo estão a frequentar unidades de ensino viradas para a educação de alunos com perturbações do espectro do autismo, que se destinam aos casos mais severos. No conjunto do ensino básico, este número sobe para 1783. Já no ensino secundário desce para 161, o que mostra que muitos destes alunos não chegam a este nível de ensino, apesar de estar incluído na escolaridade obrigatória.

Os alunos com espectro do autismo podem requerer condições especiais para realizar as provas de aferição ou os exames. No ano passado, no conjunto do ensino básico, houve 530 alunos que, por essa razão, pediram a realização de provas adaptadas. Destes, 139 estavam no 2.º ano de escolaridade, em que a idade média de frequência ronda os sete anos. O maior grupo, com 218 alunos, frequentava o 9.º ano de escolaridade. C.V.

 

Excessiva empatia emocional impede crianças autistas de comunicar

Abril 13, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://sicnoticias.sapo.pt/ de 1 de abril de 2017.

© Jorge Lopez / Reuters

Uma excessiva empatia emocional impede as crianças com autismo de comunicarem com o mundo, segundo um estudo, o que representa uma mudança de paradigma na compreensão deste transtorno.

O Grupo de Investigação de Perinatalogia do Instituto de Investigação Sanitária de La Fe, em Valência, Espanha, avaliou a reação de crianças com e sem perturbação do espetro do Autismo perante expressões faciais de diferentes emoções e concluiu que o autismo não se caracteriza por falta de empatia, mas sim por um excesso de sensibilidade perante as emoções dos outros.

Com os dados e experiencias analisados na investigação, chega-se à conclusão de que o retraimento e o ensimesmamento das crianças com autismo é uma maneira de se protegerem perante um ambiente emocionalmente esmagador.

Segundo explicaram à EFE fontes do hospital, esta descoberta dignifica as perturbações do espetro do autismo – cujo dia mundial se assinala no domingo -, já que se caracterizam por um excesso de sensibilidade face às emoções e não por um defeito.

Os transtornos do espetro do autismo são considerados alterações do neurodesenvolvimento que podem provocar problemas de interação social, comunicacionais e comportamentais significativos.

Até ao momento, sempre se procurou modificar os comportamentos sociais atípicos das crianças com autismo, cuja origem se acreditava ser a falta de empatia.

Contudo, este estudo demonstra o contrário: que as crianças com autismo têm uma excessiva empatia quando atentam às emoções dos outros e é, precisamente, essa experiência avassaladora que os leva a retraírem-se e os impede de comunicar.

O artigo “Communication deficits and avoidance of angry faces in children with autism spectrum disorder” é da autoria da doutorada em psicologia clínica Ana García-Blanco e foi publicado na revista científica “Research in Developmental Disabilities”.

Com uma equipa do Grupo de Investigação de Perinatalogia e do serviço de psiquiatria de La Fe, Ana García-Blando avaliou 30 rapazes e raparigas autistas, com idades entre os seis e os 18 anos, e outros 30 sem a perturbação.

Foram apresentadas a todas estas crianças expressões faciais de tristeza, alegria, zanga e neutras e avaliou-se o modo como reagiam a esses rostos.

Os resultados mostraram que os rostos com carga emocional captavam a atenção de todas as crianças, independentemente de apresentarem ou não perturbação do autismo.

No entanto, quando as crianças autistas se mostraram capazes de exercer controlo sobre a sua atenção, preferiam evitar os rostos irritados, porque lhes causavam grade mal-estar, o que estará relacionado com os problemas de comunicação social que estas crianças apresentam.

As emoções captam a atenção das crianças com perturbação do autismo de maneira semelhante à das crianças sem o transtorno, mas, tão rapidamente como identificam uma emoção stressante, os autistas tendem a evitá-la, para acalmar o mal-estar que sentem.

Estas peculiaridades no processamento das emoções poderão ser um mecanismo subjacente aos problemas de comunicação social que estas crianças apresentam e contradizem a habitual tese que considera que o comportamento e os problemas cognitivos é que são os obstáculos que dificultam a sua comunicação.

Lusa

 

 

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