Mitos sobre a perturbação de hiperactividade e défice de atenção

Novembro 29, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://lifestyle.publico.pt/ de 22 de outubro de 2016.

daniel-rocha

Por Carolina Viana, Joana Horta e Ricardo Lopes

A perturbação de hiperactividade e défice de atenção (PHDA) é uma perturbação neurocomportamental, ou seja, tem uma base neurológica e manifesta-se em termos comportamentais, atingindo cerca de 5% da população em idade escolar. Caracteriza-se por uma dificuldade acentuada na manutenção da atenção, do autocontrolo ou impulsividade, na gestão da frustração e na capacidade de gestão das funções cerebrais que nos permitem atingir diferentes objectivos, sejam eles a regulação da atenção, capacidade de planeamento, memória de trabalho, organização e/ou gestão de tempo

A PHDA surge tanto em rapazes como em raparigas, estando a diferença na manifestação dos sintomas. Normalmente, os rapazes são mais agitados do que as raparigas e, como tal, os sintomas de agitação motora, aquando de uma PHDA, são mais marcados e evidentes. Por seu turno, as raparigas apresentam sobretudo sinais de desatenção, sintomas que passam mais facilmente despercebidos, porque não perturbam o outro.

Ao contrário do que pensamos, a hiperactividade não é a característica mais marcante ou que causa maior desajustamento, mas sim a desatenção, que, ao manifestar-se nos diferentes contextos de vida das crianças e jovens, tem um impacto significativo na qualidade de vida dos mesmos. A agitação motora em si não é obrigatoriamente problemática: basta pensarmos que para explorar o mundo todas as crianças têm de se mexer.

Quando as funções mencionadas estão comprometidas, o impacto surge a vários níveis. Em contexto escolar, surgem as dificuldades na aprendizagem, na gestão do trabalho e na regulação do comportamento, quer com os adultos quer com os pares. Os professores vêem estes alunos como desafiadores, preguiçosos e mal-educados e os colegas como intrusivos, autoritários e “aqueles que chateiam”. Mais uma vez, o foco está nos comportamentos visíveis e mais desestabilizadores para quem convive com estes indivíduos. Quando, de facto, é a desatenção que compromete a aprendizagem em si, a compreensão dos outros e das pistas sociais, bem como a capacidade de resolução de problemas. São alunos que têm muita dificuldade em envolver-se em tarefas que exijam esforço mental prolongado e por isso são frequentemente apelidados de “preguiçosos”. A verdade é que muitas vezes se esforçam mais do que os outros, pois esta não é uma perturbação de “não saber” mas sim de “não fazer aquilo que se sabe” (Barkley, 1998).

Em contexto familiar, é frequente encontrarmos nos indivíduos com PHDA um ambiente marcado por conflitos na relação com os pais e irmãos. São crianças ou adolescentes que necessitam de supervisão constante, têm dificuldade em seguir instruções ou pedidos e parece que não ouvem o que lhes é dito, não porque os pais não imponham regras e limites, mas porque uma criança ou jovem com PHDA não consegue antecipar as consequências das suas acções. O problema advém de dificuldades na auto-regulação do comportamento e não da falta de disciplina em casa. Nos adultos com PHDA, estas características vão influenciar a gestão das tarefas domésticas e a relação com os outros.

No âmbito profissional, os adultos com PHDA são pouco organizados, têm dificuldade em seguir planos, em cumprir prazos e em gerir o seu próprio tempo. Por estas razões, o seu trabalho é inconstante e pode levar a mudanças repetidas de local de trabalho.

Esta perturbação também tem impacto a nível pessoal e social. Para além do estigma de que as crianças (e adultos) com PHDA são alvo — fruto das dificuldades comportamentais que apresentam —, também a compreensão das situações e regras sociais exigem capacidades de atenção que nem sempre estão presentes. Uma pessoa com PHDA pode não atender e “passar ao lado” de pequenas pistas sociais ou sinais discretos do outro (muitas vezes não verbais), não se apercebendo quando está a ser incorrecto. Importa assinalar que tudo isto acontece não porque quis, mas sim porque não conseguiu.

A PHDA é uma perturbação crónica que evolui ao longo da vida. Em cerca de 30% a 50% dos casos permanece até à idade adulta e, quando não diagnosticado atempadamente, pode evoluir para outro tipo de dificuldades. Há uma tendência para os sintomas de agitação motora diminuírem mas, em contraponto, as dificuldades de auto-regulação, controlo da atenção e impulsividade tendem a persistir ou a intensificar-se.

Psicologia Clínica do CADin

 

 

 

 

Ritalina, a droga legal que ameaça o futuro

Outubro 25, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/ de 31 de março de 2016.

ritalina

É uma situação comum. A criança dá trabalho, questiona muito, viaja nas suas fantasias, se desliga da realidade. Os pais se incomodam e levam ao médico, um psiquiatra talvez.  Ele não hesita: o diagnóstico é déficit de atenção (ou Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH) e indica ritalina para a criança.

O medicamento é uma bomba. Da família das anfetaminas, a ritalina, ou metilfenidato, tem o mesmo mecanismo de qualquer estimulante, inclusive a cocaína, aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. A criança “sossega”: pára de viajar, de questionar e tem o comportamento zombie like, como a própria medicina define. Ou seja, vira zumbi — um robozinho sem emoções. É um alívio para os pais, claro, e também para os médicos. Por esse motivo a droga tem sido indicada indiscriminadamente nos consultórios da vida, a ponto de o Brasil ser o segundo país que mais consome ritalina no mundo, só perdendo para os EUA.

A situação é tão grave que inspirou a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a fazer uma declaração bombástica: “A gente corre o risco de fazer um genocídio do futuro”, disse ela em entrevista ao Portal Unicamp. “Quem está sendo medicado são as crianças questionadoras, que não se submetem facilmente às regras, e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de mil  anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias. Estamos dificultando, senão impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos diferentes. E isso é terrível”, diz ela.

O fato, no entanto, é que o uso da ritalina reflete muito mais um problema cultural e social do que médico. A vida contemporânea, que envolve pais e mães num turbilhão de exigências profissionais, sociais e financeiras, não deixa espaço para a livre manifestação das crianças. Elas viram um problema até que cresçam. É preciso colocá-las na escola logo no primeiro ano de vida, preencher seus horários com “atividades”, diminuir ao máximo o tempo ocioso, e compensar de alguma forma a lacuna provocada pela ausência de espaços sociais e públicos. Já não há mais a rua para a criança conviver e exercer sua “criancice”.

E se nada disso funcionar, a solução é enfiar ritalina goela abaixo. “Isso não quer dizer que a família seja culpada. É preciso orientá-la a lidar com essa criança. Fala-se muito que, se a criança não for tratada, vai se tornar uma dependente química ou delinquente. Nenhum dado permite dizer isso. Então não tem comprovação de que funciona. Ao contrário: não funciona. E o que está acontecendo é que o diagnóstico de TDAH está sendo feito em uma porcentagem muito grande de crianças, de forma indiscriminada”, diz a médica.

Mas os problemas não param por aí. A ritalina foi retirada do mercado recentemente, num movimento de especulação comum, normalmente atribuído ao interesse por aumentar o preço da medicação. E como é uma droga química que provoca dependência, as consequências foram dramáticas. “As famílias ficaram muito preocupadas e entraram em pânico, com medo de que os filhos ficassem sem esse fornecimento”, diz a médica. “Se a criança já desenvolveu dependência química, ela pode enfrentar a crise de abstinência. Também pode apresentar surtos de insônia, sonolência, piora na atenção e na cognição, surtos psicóticos, alucinações e correm o risco de cometer até o suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration (FDA)”.

Enquanto isso, a ritalina também entra no mercado dos jovens e das baladas. A medicação inibe o apetite e, portanto, promove emagrecimento. Além disso, oferece o efeito “estou podendo” — ou seja, dá a sensação de raciocínio rápido, capacidade de fazer várias atividades ao mesmo tempo, muito animação e estímulo sexual — ou, pelo menos, a impressão disso. “Não há ressaca ou qualquer efeito no dia seguinte e nem é preciso beber para ficar loucaça”, diz uma usuária da droga nas suas incursões noturnas às baladas de São Paulo. “Eu tomo logo umas duas e saio causando, beijando todo mundo, dançando o tempo todo, curtindo mesmo”, diz ela.

TEXTO ORIGINAL DE ANTROPOSOFY

 

Obsessão em medicar crianças para estarem mais atentas e sossegadas preocupa CNE

Setembro 26, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia da http://sicnoticias.sapo.pt/ de 24 de setembro de 2016.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Estado da Educação 2015

A obsessão em ter as crianças mais atentas e sossegadas, com recurso a substâncias químicas, poderá representar um condicionamento irreversível do seu desenvolvimento cognitivo e social que nenhum medicamento poderá recuperar, alerta o Conselho Nacional de Educação (CNE).

No relatório “Estado da Educação 2015”, hoje divulgado, o presidente do CNE, David Justino, escreve que se tornou preocupante o consumo de substâncias estimulantes do sistema nervoso central, especialmente as orientadas para a superação de “supostos problemas” de hiperatividade e défice de atenção.

“O recurso cada vez mais generalizado ao metilfenidato (princípio ativo da designação comercial de Ritalina) reflete um problema que não deverá ser menosprezado”, adverte o ex-ministro da Educação na apresentação do documento.

O investigador refere a venda de quase 300.000 embalagens deste medicamento, em 2014 (dados do Infarmed), para defender uma reflexão por parte dos pais, dos professores, dos profissionais de saúde e dos decisores políticos sobre as razões de “tão rápido crescimento do consumo” e sobre os efeitos que o abuso destas substâncias pode ter no desenvolvimento geral das crianças.

O CNE recorreu também a dados da Direção-Geral de Saúde para mostrar que o consumo destes medicamentos passou de 2.937.039 doses diárias em 2009 para 6.515.293 em 2013 (considerando os fármacos comparticipados e dispensados à população em regime de ambulatório).

De acordo com o relatório Saúde Mental em Números 2015, as crianças portuguesas até aos 14 anos estão a consumir mais de cinco milhões de doses diárias de metilfenidato.

O investigador nota, por outro lado, uma “assinalável tendência” para a diminuição do consumo de substâncias aditivas: “Há uma clara redução dos que reconhecem ter experimentado o consumo de tabaco e cannabis e uma tendência positiva dos que afirmam não consumir”.

Os resultados apurados por este estudo relativamente às bebidas alcoólicas referem uma situação menos favorável, “ainda que a tendência seja para diminuir”.

No que diz respeito ao ensino superior, o presidente do CNE assinala que há alunos e oportunidades a menos e que um dos problemas que se coloca na internacionalização das instituições é “a escassa especialização”.

“As ofertas generalistas de caráter tradicional tendem a dominar, face ao desejável desenvolvimento de núcleos de ensino e investigação especializados em domínios onde as instituições portuguesas possam ser reconhecidas e com capacidade para competir com as suas congéneres estrangeiras”, observa.

David Justino refere também que os indicadores de produção científica “continuam a ser moderados” quando comparados com os de países de idêntico nível de desenvolvimento económico e social.

“O facto de possuirmos alguns centros de excelência, não consegue esconder que a maioria não ultrapassa a mediania, bem como a irremediável tendência para paroquialização e enquistamento das equipas e das instituições de investigação científica”, critica o presidente do CNE.

O documento, de 300 páginas, é editado anualmente pelo CNE.

Lusa

 

 

7 perguntas para o pediatra Daniel Becker: “Seu filho deve aprender que não é o centro do mundo”

Setembro 23, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Entrevista do site http://www.revistapazes.com/ a Daniel Becker no dia 24 de julho de 2016.

pazes

Por Fabiana Santos

O pediatra Daniel Becker é o criador da Pediatria Integral: um conceito de que a criança precisa ser vista de forma mais abrangente. Não é apenas tratar e prevenir doenças, mas cuidar do bem estar emocional, social e até espiritual da criança e da família. São 20 anos de experiência de consultório no Rio de Janeiro. Formado pela UFRJ, ele é especialista em Homeopatia e mestre em Saúde Pública. Médico do Instituto de Pediatria da UFRJ, ele foi pediatra da Médicos sem Fronteira em campos de refugiados na Ásia e fundador de uma ONG, o CEDAPS, Centro de Promoção da Saúde, com atuação em comunidades carentes.

Becker é um apaixonado pela profissão e conta que ao olhar sua trajetória se diz satisfeito pelas escolhas que fez. Ele é separado, pai de dois filhos, um menino de 17 anos, roqueiro, e uma menina de 20 anos, psicóloga. “Eles são muito bacanas. Tenho muito orgulho deles”, diz o médico. Com tantos compromissos, entre palestras e consultas, ele abriu gentilmente um espaço na agenda para responder às minhas perguntas.

1.Na sua palestra no Ted, você diz que um dos pecados contra a infância é a “entronização”. O que isso significa? Estamos colocando nossas crianças em um trono?

A gente vive em tempos de hipervalorização da infância tanto pela mídia quanto pretensamente pela família e pela sociedade. Mas na verdade a infância é desvalorizada naquilo que ela tem de real, na sua essência. Um dos fatores que explica esse paradoxo é a falta de intimidade e de convivência entre pais e filhos por causa das questões da vida moderna. E quando estão juntos, os pais não conhecem essas crianças, não sabem lidar com elas. Estão estressados com os seus trabalhos, estão viciados nos seus telefones e não querem também se submeter à desaprovação social de uma criança que chora ou se comporta mal. Acaba que essa criança não tem direito de se manifestar de forma negativa, que faz parte do comportamento infantil. Ela não pode fazer uma birra, dizer “não”, chorar, explorar seus limites de atuação no mundo. Como os pais não sabem lidar com essas situações, a criança acaba tendo todos os seus desejos realizados, não lhe colocam limites, não lhe dizem que ela tem que lidar com a frustração. A gente quer calar a qualquer custo o mal estar. Então para parar com o chilique, a gente acaba cedendo. Ao invés de aprender as regras de convivência, a criança passa a ser uma rainha que dita as normas, os programas, os horários.

2.E o pecado que você chama de “superproteção da infância”?

A superproteção é impedir que as crianças tenham suas próprias experiências. A gente está presente o tempo todo, aquilo que os americanos chamam de “helicopter parent”, pais que ficam flutuando em torno das crianças fazendo com que elas não tenham a experiência do mundo, justamente porque os pais se interpõem entre o mundo e a criança. Elas ficam impedidas de lidar com o risco, com a aventura, com as relações interpessoais, com os problemas da escola, com a dor, com os machucados. Se a criança tem um problema com uma outra criança, os pais se interpõem para resolver a questão, no playground não deixam ela se arriscar a subir mais alto no trepa-trepa. É claro que ninguém quer que o filho quebre um dedo ou receba um ponto, mas são experiências da infância. A criança tem que ter a experiência do risco, do machucadinho e da frustração. Outra coisa muito grave é que para evitar os perigos do mundo, as famílias ficam muito em casa, se expõem pouco à natureza, as praças e as praias. Os riscos desses lugares existem e temos que lidar com eles, pois fazem parte da vida.

  1. Qual o prejuízo real para crianças que não sabem ouvir a palavra “não”? O que vai ser (ou já está sendo) dessa geração sem limites?

Eu já vi criança dormindo às duas da manhã, já vi criança de dois anos que comanda o que tem na geladeira e no armário da despensa. Outras que determinam o programa da família nos fins de semana, se elas não querem sair, ninguém sai. Pais que deixam a criança de 3 anos ficar horas na televisão porque não sabem desligar o aparelho e deixar ela ficar frustrada. Criança que come o biscoito ao invés da comida, que ganha o presente depois de ter se jogado no chão do shopping. Isso tudo causa um prejuízo enorme, tanto na qualidade de vida dessa família, quanto na psiquê, na emocionalidade dessa criança. Ela precisa saber que a sua vida tem limites, que a sua influencia tem limites, que o mundo não gira em função do seu umbigo. Muitos meninos e meninas dessa geração vão levar isso para a vida adulta e não só terão dificuldades de convívio como vão quebrar a cara nos seus ambientes de trabalho e em relacionamentos interpessoais. Porque nem sempre a vida vai acolher esse tipo de onipotência que é resultado de uma educação cheia de falhas nesse sentido.

  1. A culpa que os pais carregam é a grande vilã nessa história?

Eu tenho muito medo da gente restringir a questão à responsabilidade da família. A família é responsável sim, tem que saber lidar com a frustração, o choro, as emoções negativas da criança, tem que saber mostrar a ela que esses momentos passam, que estas situações vão deixar ensinamentos importantes. Os pais sentem culpa porque não estão presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar presença. Muitas vezes o tal “deficit de atenção” é deficit de atenção de pai e mãe que a criança sofre. Mas a gente tem que justamente tomar muito cuidado para não piorar isso dizendo que os pais são os culpados porque o que leva a tudo isso é a vida moderna, é a perda de referências, é a falta de capacidade de aprender com as gerações anteriores, com a experiência dos outros, é a invasão do tempo de trabalho e do tempo de entretenimento no tempo em família, é o vício do smartphones. Tudo isso tem que ser pesado na compreensão desse fenômeno da entronização e da superproteção da infância, a gente não pode restringir a responsabilidade e nem as soluções apenas a nível familiar.

5.A justificativa sincera de muitos pais é de que eles fazem o melhor que podem, trabalham o dia todo, batalham para dar conforto aos filhos, chegam exaustos em casa. É até mesmo controverso: as pessoas querem ter filhos mas não conseguem ter tempo de conviver com eles. Como resolver este impasse?

As pessoas querem ter filhos e imaginam que tudo vai ser um mar de rosas. Elas têm que ter consciência de que vão ter filhos neste mundo em que vivem: nas grandes cidades, muitas vezes com a falta de presença de familiares, com trabalhos que demandam excessivamente, com transporte que fazem elas chegarem tarde em casa, isso tudo tem que ser incorporado por um casal quando eles planejam filhos. Planejar ter filho é ver o futuro. Claro que a maioria das pessoas não faz isso, a gente quer ter filho, a gente quer reproduzir a nossa própria genética, isso faz parte de um mandato biológico. Mas hoje em dia a gente tem que pensar nas condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos pais, dos avós, tios, primos. Escolher um lugar para morar com natureza por perto. De novo a gente não pode reduzir a solução deste impasse a nível da família, a gente tem que tentar pensar na sociedade como um todo. A sociedade brasileira é insegura, desigual e cheia de problemas e isso influencia nas condições de vida das famílias.

6.O video americano “Childhood is not a mental disorder” já deu o que falar sobre o uso exagerado de remédios em crianças para controlar “doenças do comportamento”? Você concorda que é preciso ter muito cuidado com os diagnósticos?

Eu gosto muito desse vídeo e ele traz mesmo uma dimensão terrível do que a sociedade está fazendo com a infância. O mercado pressiona a família por soluções fáceis, todo mundo quer resolver os problemas imediatamente. A energia da criança está sendo reprimida. É claro que o comportamento dela vai ser muito afetado por todas as questões que eu já citei, podendo se rebelar, ter insônia, desatenção, brigar na escola, ser impulsiva. Em vez da gente repensar como oferecer a estas crianças uma infância melhor, mais saudável, mais verdadeira, o que o mercado propõe é que elas sejam medicalizadas. A indústria de diagnósticos e de remédios é monstruosa e crescente. No Brasil, a Ritalina é o principal remédio usado para criança. Em 10 anos a venda de Ritalina subiu de 75 mil caixas para 2 milhões de caixas. O Ministério da Saúde agora está estabelecendo uma regulação para a venda do remédio. A gente não pode negar que essas doenças existem, o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é uma doença grave, mas ela atinge um pequeno número de crianças. A grande maioria desses diagnósticos está sendo feita de forma arbitrária, sem critério suficiente, eu diria até perversa. É preciso mudar o comportamento da família ou ir para psicoterapia, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, que são benéficas para este tipo de problemas e poderiam ser tentadas antes e de forma mais eficaz. Porque o remédio vai ter efeitos colaterais, vai rotular esta criança, como o video expõe muito bem, vai colocar na cabecinha dela que ela é apenas um transtorno e não uma criança que tem potencialidades múltiplas e possibilidades infinitas para o seu futuro. Tem a historia de uma mãe que levou a filha ao pediatra porque achava que ela tinha problemas e o pediatra deixou a criança com uma música e saiu da sala por alguns minutos com a mãe. Eles ficaram observando a criança do lado de fora, enquanto ela dançava o tempo todo. E o pediatra disse: “Sua filha não tem um problema, sua filha é uma bailarina, leve-a para uma aula de ballet e vão ser felizes”. Gillian Barbara Pyrke, a menina da historia, se tornou uma famosa coreógrafa da Broadway. Quantos gênios, artistas, cientistas nós não estamos perdendo medicando e rotulando essas crianças?

7.Quais as suas dicas para criarmos “crianças como crianças”?

Acolher as crianças nas suas emoções. Especialmente as crianças pequenas têm uma racionalidade limitada e uma emocionalidade muito grande. Se ela está com raiva, você pode dizer pra ela “você está com muita raiva”. E mostrar de forma teatral o que está acontecendo com ela, fazê-la entender o sentimento que ela está tendo e dar permissão para ela sentir essas emoções, tanto negativas quanto positivas. Acolher também os desejos: “você quer esse brinquedo, eu sei que você quer muito ele, eu te entendo, mas a mamãe não pode comprar ele agora”. Isso quebra um pouco esse mecanismo da birra. Ter convivência com os nossos filhos, oferecer a eles oportunidades de conversa, de refeições em família, de sair na rua juntos, brincar nos parques, subir no trepa-trepa, ralar o joelho no chão, cair do skate (com capacete!), subir numa árvore, levar um zero, aprender com a frustração. Tudo isso é importante para formar uma criança mais feliz e um adulto mais íntegro, preparado para conviver com o outro. Pra saber respeitar o outro a primeira coisa que a criança tem que entender é que ela não é o centro do mundo. Ela é um membro da família e ter relações igualitárias com os outros membros da família vai fazê-la entender que ela vive numa sociedade. Esse é o nosso papel como pais.

 

Formação “Perturbação da Hiperatividade e Défice de Atenção” 7 e 20 Outubro, 3 e 17 de novembro na Fundação Maria Ulrich

Setembro 21, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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pdh

mais informações no link:

https://docs.google.com/a/fundacaomariaulrich.pt/forms/d/e/1FAIpQLSeIsDYMk-rya4LrYP0j4kxCPbVWW9DoTIDRmwNwTmZuPCrTLg/viewform?c=0&w=1

7 perguntas para o pediatra Daniel Becker: “Seu filho deve aprender que não é o centro do mundo”

Agosto 20, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/ de 15 de agosto de 2016.

O pediatra Daniel Becker é o criador da Pediatria Integral: um conceito de que a criança precisa ser vista de forma mais abrangente. Não é apenas tratar e prevenir doenças, mas cuidar do bem estar emocional, social e até espiritual da criança e da família. São 20 anos de experiência de consultório no Rio de Janeiro. Formado pela UFRJ, ele é especialista em Homeopatia e mestre em Saúde Pública. Médico do Instituto de Pediatria da UFRJ, ele foi pediatra da Médicos sem Fronteira em campos de refugiados na Ásia e fundador de uma ONG, o CEDAPS, Centro de Promoção da Saúde, com atuação em comunidades carentes.

Becker é um apaixonado pela profissão e conta que ao olhar sua trajetória se diz satisfeito pelas escolhas que fez. Ele é separado, pai de dois filhos, um menino de 17 anos, roqueiro, e uma menina de 20 anos, psicóloga. “Eles são muito bacanas. Tenho muito orgulho deles”, diz o médico. Com tantos compromissos, entre palestras e consultas, ele abriu gentilmente um espaço na agenda para responder às minhas perguntas.

1.Na sua palestra no Ted, você diz que um dos pecados contra a infância é a “entronização”. O que isso significa? Estamos colocando nossas crianças em um trono?

A gente vive em tempos de hipervalorização da infância tanto pela mídia quanto pretensamente pela família e pela sociedade. Mas na verdade a infância é desvalorizada naquilo que ela tem de real, na sua essência. Um dos fatores que explica esse paradoxo é a falta de intimidade e de convivência entre pais e filhos por causa das questões da vida moderna. E quando estão juntos, os pais não conhecem essas crianças, não sabem lidar com elas. Estão estressados com os seus trabalhos, estão viciados nos seus telefones e não querem também se submeter à desaprovação social de uma criança que chora ou se comporta mal. Acaba que essa criança não tem direito de se manifestar de forma negativa, que faz parte do comportamento infantil. Ela não pode fazer uma birra, dizer “não”, chorar, explorar seus limites de atuação no mundo. Como os pais não sabem lidar com essas situações, a criança acaba tendo todos os seus desejos realizados, não lhe colocam limites, não lhe dizem que ela tem que lidar com a frustração. A gente quer calar a qualquer custo o mal estar. Então para parar com o chilique, a gente acaba cedendo. Ao invés de aprender as regras de convivência, a criança passa a ser uma rainha que dita as normas, os programas, os horários.

2.E o pecado que você chama de “superproteção da infância”?

A superproteção é impedir que as crianças tenham suas próprias experiências. A gente está presente o tempo todo, aquilo que os americanos chamam de “helicopter parent”, pais que ficam flutuando em torno das crianças fazendo com que elas não tenham a experiência do mundo, justamente porque os pais se interpõem entre o mundo e a criança. Elas ficam impedidas de lidar com o risco, com a aventura, com as relações interpessoais, com os problemas da escola, com a dor, com os machucados. Se a criança tem um problema com uma outra criança, os pais se interpõem para resolver a questão, no playground não deixam ela se arriscar a subir mais alto no trepa-trepa. É claro que ninguém quer que o filho quebre um dedo ou receba um ponto, mas são experiências da infância. A criança tem que ter a experiência do risco, do machucadinho e da frustração. Outra coisa muito grave é que para evitar os perigos do mundo, as famílias ficam muito em casa, se expõem pouco à natureza, as praças e as praias. Os riscos desses lugares existem e temos que lidar com eles, pois fazem parte da vida.

3.Qual o prejuízo real para crianças que não sabem ouvir a palavra “não”? O que vai ser (ou já está sendo) dessa geração sem limites? 

Eu já vi criança dormindo às duas da manhã, já vi criança de dois anos que comanda o que tem na geladeira e no armário da despensa. Outras que determinam o programa da família nos fins de semana, se elas não querem sair, ninguém sai. Pais que deixam a criança de 3 anos ficar horas na televisão porque não sabem desligar o aparelho e deixar ela ficar frustrada. Criança que come o biscoito ao invés da comida, que ganha o presente depois de ter se jogado no chão do shopping. Isso tudo causa um prejuízo enorme, tanto na qualidade de vida dessa família, quanto na psiquê, na emocionalidade dessa criança. Ela precisa saber que a sua vida tem limites, que a sua influencia tem limites, que o mundo não gira em função do seu umbigo. Muitos meninos e meninas dessa geração vão levar isso para a vida adulta e não só terão dificuldades de convívio como vão quebrar a cara nos seus ambientes de trabalho e em relacionamentos interpessoais. Porque nem sempre a vida vai acolher esse tipo de onipotência que é resultado de uma educação cheia de falhas nesse sentido.

4.A culpa que os pais carregam é a grande vilã nessa história?

Eu tenho muito medo da gente restringir a questão à responsabilidade da família. A família é responsável sim, tem que saber lidar com a frustração, o choro, as emoções negativas da criança, tem que saber mostrar a ela que esses momentos passam, que estas situações vão deixar ensinamentos importantes. Os pais sentem culpa porque não estão presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar presença. Muitas vezes o tal “deficit de atenção” é deficit de atenção de pai e mãe que a criança sofre. Mas a gente tem que justamente tomar muito cuidado para não piorar isso dizendo que os pais são os culpados porque o que leva a tudo isso é a vida moderna, é a perda de referências, é a falta de capacidade de aprender com as gerações anteriores, com a experiência dos outros, é a invasão do tempo de trabalho e do tempo de entretenimento no tempo em família, é o vício do smartphones. Tudo isso tem que ser pesado na compreensão desse fenômeno da entronização e da superproteção da infância, a gente não pode restringir a responsabilidade e nem as soluções apenas a nível familiar.

5.A justificativa sincera de muitos pais é de que eles fazem o melhor que podem, trabalham o dia todo, batalham para dar conforto aos filhos, chegam exaustos em casa. É até mesmo controverso: as pessoas querem ter filhos mas não conseguem ter tempo de conviver com eles. Como resolver este impasse? 

As pessoas querem ter filhos e imaginam que tudo vai ser um mar de rosas. Elas têm que ter consciência de que vão ter filhos neste mundo em que vivem: nas grandes cidades, muitas vezes com a falta de presença de familiares, com trabalhos que demandam excessivamente, com transporte que fazem elas chegarem tarde em casa, isso tudo tem que ser incorporado por um casal quando eles planejam filhos. Planejar ter filho é ver o futuro. Claro que a maioria das pessoas não faz isso, a gente quer ter filho, a gente quer reproduzir a nossa própria genética, isso faz parte de um mandato biológico. Mas hoje em dia a gente tem que pensar nas condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos pais, dos avós, tios, primos. Escolher um lugar para morar com natureza por perto. De novo a gente não pode reduzir a solução deste impasse a nível da família, a gente tem que tentar pensar na sociedade como um todo. A sociedade brasileira é insegura, desigual e cheia de problemas e isso influencia nas condições de vida das famílias.

6.O video americano “Childhood is not a mental disorder” já deu o que falar sobre o uso exagerado de remédios em crianças para controlar “doenças do comportamento”? Você concorda que é preciso ter muito cuidado com os diagnósticos?

Eu gosto muito desse vídeo e ele traz mesmo uma dimensão terrível do que a sociedade está fazendo com a infância. O mercado pressiona a família por soluções fáceis, todo mundo quer resolver os problemas imediatamente. A energia da criança está sendo reprimida. É claro que o comportamento dela vai ser muito afetado por todas as questões que eu já citei, podendo se rebelar, ter insônia, desatenção, brigar na escola, ser impulsiva. Em vez da gente repensar como oferecer a estas crianças uma infância melhor, mais saudável, mais verdadeira, o que o mercado propõe é que elas sejam medicalizadas. A indústria de diagnósticos e de remédios é monstruosa e crescente. No Brasil, a Ritalina é o principal remédio usado para criança. Em 10 anos a venda de Ritalina subiu de 75 mil caixas para 2 milhões de caixas. O Ministério da Saúde agora está estabelecendo uma regulação para a venda do remédio. A gente não pode negar que essas doenças existem, o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é uma doença grave, mas ela atinge um pequeno número de crianças. A grande maioria desses diagnósticos está sendo feita de forma arbitrária, sem critério suficiente, eu diria até perversa. É preciso mudar o comportamento da família ou ir para psicoterapia, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, que são benéficas para este tipo de problemas e poderiam ser tentadas antes e de forma mais eficaz. Porque o remédio vai ter efeitos colaterais, vai rotular esta criança, como o video expõe muito bem, vai colocar na cabecinha dela que ela é apenas um transtorno e não uma criança que tem potencialidades múltiplas e possibilidades infinitas para o seu futuro. Tem a historia de uma mãe que levou a filha ao pediatra porque achava que ela tinha problemas e o pediatra deixou a criança com uma música e saiu da sala por alguns minutos com a mãe. Eles ficaram observando a criança do lado de fora, enquanto ela dançava o tempo todo. E o pediatra disse: “Sua filha não tem um problema, sua filha é uma bailarina, leve-a para uma aula de ballet e vão ser felizes”. Gillian Barbara Pyrke, a menina da historia, se tornou uma famosa coreógrafa da Broadway. Quantos gênios, artistas, cientistas nós não estamos perdendo medicando e rotulando essas crianças?

7.Quais as suas dicas para criarmos “crianças como crianças”?

Acolher as crianças nas suas emoções. Especialmente as crianças pequenas têm uma racionalidade limitada e uma emocionalidade muito grande. Se ela está com raiva, você pode dizer pra ela “você está com muita raiva”. E mostrar de forma teatral o que está acontecendo com ela, fazê-la entender o sentimento que ela está tendo e dar permissão para ela sentir essas emoções, tanto negativas quanto positivas. Acolher também os desejos: “você quer esse brinquedo, eu sei que você quer muito ele, eu te entendo, mas a mamãe não pode comprar ele agora”. Isso quebra um pouco esse mecanismo da birra. Ter convivência com os nossos filhos, oferecer a eles oportunidades de conversa, de refeições em família, de sair na rua juntos, brincar nos parques, subir no trepa-trepa, ralar o joelho no chão, cair do skate (com capacete!), subir numa árvore, levar um zero, aprender com a frustração. Tudo isso é importante para formar uma criança mais feliz e um adulto mais íntegro, preparado para conviver com o outro. Pra saber respeitar o outro a primeira coisa que a criança tem que entender é que ela não é o centro do mundo. Ela é um membro da família e ter relações igualitárias com os outros membros da família vai fazê-la entender que ela vive numa sociedade. Esse é o nosso papel como pais.

Texto original no Tudo sobre a minha mãe

 

 

“Não há tolerância para crianças irrequietas”: descubra porquê e que problemas está a criar

Agosto 3, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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texto da http://activa.sapo.pt/ de 20 de março de 2016.

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Cada vez se prescrevem mais medicamentos para a Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção. Mas será que o número de crianças com este problema aumentou assim tanto? Um pedopsiquiatra e uma especialista em sono infantil acreditam que o estilo de vida a que os nossos miúdos estão sujeitos não está a ajudar.

Por Cristina Tavares Correia

O novo fantasma dos pais: ter um filho ‘hiperativo’, que não para quieto um segundo, não está atento na escola, irritável, com problemas de comportamento. A Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA) só costuma ser diagnosticada depois dos 5 ou 6 anos, mas há pais que se queixam disso cada vez mais cedo. Filipa Sommerfeldt Fernandes, autora de ‘10 dias para ensinar o seu filho a dormir’ (Esfera dos Livros), dá palestras, workshops e consultas de aconselhamento sobre como regular o sono infantil e é testemunha do desespero deles. “Há pais de bebés de 9 meses que me mandam mensagens a dizer que o filho deve ser hiperativo porque não dorme. Hiperativo, com 9 meses?…”

O certo é que o recurso a medicamentos para tratar a PHDA mostra uma “tendência de crescimento”, segundo um relatório do Infarmed, publicado em novembro passado. Em 2014 dispensaram-se 276.029 embalagens de metilfenidato, o princípio ativo do medicamento psicoestimulante mais frequentemente receitado para a PHDA. O aumento foi de 30% relativamente a 2013, informou o Diário de Notícias. Os tratamentos para esta perturbação também custaram mais de 8 milhões de euros, 5 milhões dos quais suportados pelos utentes, outro “crescimento significativo”. Estão a ser mais prescritos em hospitais ou clínicas privadas (39%), seguidos dos hospitais públicos (37%) e cuidados de saúde primários (22%). Viana do Castelo e Viseu são os distritos onde é mais usado.

E se não for hiperatividade?

“É um aumento relativamente significativo”, comenta o pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia. “São sobretudo prescritos por pediatras, neuropediatras e pedopsiquiatras, que penso terem sido os últimos a entrarem neste comboio da prescrição, e tiveram que o fazer por uma questão de mercado. É verdade que estes medicamentos são eficazes e que ajudam crianças. Mas, provavelmente, há uma utilização um pouco excessiva e algum facilitismo na prescrição, porque o medicamento dá resultado – põe as crianças sossegadas e ajuda-as nos estudos. Mas um tipo de intervenção mais psicológica demora mais tempo.

As consequências já estão à vista. “Há crianças que estão a ser medicadas e não deviam, outras estão a ser medicadas porque têm alguns sintomas e beneficiam com a medicação, mas é como se fosse dopping, é batota. E até há adultos e jovens estudantes universitários que usam o metilfenidato porque é uma substância que melhora o desempenho.”

O uso da medicação numa criança que nem precisaria de a tomar pode nem provocar efeitos secundários, diz o pedopsiquiatra. “Nada, além da ideia perniciosa de que tudo se resolve rapidamente e com pastilhas. Mas há crianças que os apresentam: o principal e mais frequente é perda de apetite, que pode levar ao emagrecimento. Algumas crianças reportam que não se sentem elas próprias. Não leva a uma perturbação de personalidade mas pode levar à alteração da perceção de si próprio. Prescrevo a medicação a crianças que precisam, sim, mas dá-la indiscriminadamente é uma má prática.”

O mais importante é que se faça um diagnóstico criterioso, até porque muitas vezes o problema nem é a hiperatividade e sim “depressão ou início de perturbações bipolares, que podem ser confundidos com hiperatividade. Na criança, a depressão pode ter este aspeto de comportamento ruidoso, irritabilidade, ansiedade. E há medicamentos que mascaram estes sintomas – o metilfenidato pode ser um deles.”

“O sistema escolar está feito para meninas”

Estão mesmo a nascer mais crianças hiperativas, ou é o estilo de vida atual, a forma como os estamos a educar, que os está a deixar assim? “Podemos perguntar se as crianças são mesmo hiperativas, como muita gente diz. Podem ter perturbação de défice de atenção e hiperatividade, mas isso também não define a criança”, diz o pedopsiquiatra.

Segundo o Infarmed, estima-se que esta condição afete entre 5 e 7% das crianças e jovens. “É possível que as condições de vida atual façam com que haja crianças com mais necessidade de se expressarem de forma mais ruidosa, turbulenta e irrequieta em certas alturas do dia. E essas condições podem passar pelo excesso de estimulação com o uso de gadgets e tablets, aliado à pouca oportunidade que têm de estar entretidas e ao excesso de tempo que passam em situações estruturadas (o inglês, o piano, as aulas…) em que têm de se portar bem. Não é de certeza bom para uma criança ter 10 horas de trabalho por dia, mas quotidianamente têm-no nas creches. O tempo livre é cada vez menos para brincarem sem grande supervisão, imaginarem, inventarem e resolverem conflitos entre si. Esse tempo é muito desvalorizado. As escolas e os pais estão a trocar recreios por aulas de apoio, cursos, castigos. As crianças têm que estar sempre vigiadas senão acontece uma desgraça qualquer, são proibidas de ir brincar para a rua porque é perigoso. Sobretudo, há falta de tempo para ela se poder aborrecer e inventar qualquer coisa para fazer. O efeito que vejo é estarmos a criar uma geração de pessoas obedientes, o que é ótimo do ponto de vista da vida profissional futura.”

Quando fala em obediência, não é com o significado positivo que a nossa cultura geralmente dá ao termo. Até porque ser muito obediente, não questionar nada, não é necessariamente bom para ninguém, nem para uma criança.

“Outra coisa muito importante é a falta de tolerância para lidar com a irrequietude das crianças. As escolas têm uma grande responsabilidade nisso; parece que só querem formar meninas. Os rapazes são vistos como meninas com defeito. O sistema escolar está feito para as meninas – sossegadas, contemplativas, a pensar nas emoções. Não sabemos (nem queremos) lidar com a ação, a assertividade, a agressividade. A escolaridade obrigatória aumentou, fez com que muitas crianças estivessem na escola sem nenhuma motivação; as armas que os professores têm para manter a disciplina mudaram, mas isto devia vir a par com o aumento da competência para motivar os alunos e permitir também alguma atividade e turbulência. Por isso, as queixas surgem mais facilmente quando se sabe que há comprimidos que resolvem estas coisas de forma quase milagrosa. Há quase um sistema de pressão das escolas que se queixam aos pais para procurarem uma solução para os filhos. Os professores também são pressionados a apresentar resultados.”

Terapia de choque

Mas há outro fator de que nos esquecemos: poucas horas de sono, ou um sono de má qualidade, “podem ter sintomas que se assemelham aos da hiperatividade, difíceis de distinguir”, como confirma Pedro Caldeira da Silva. E as crianças portuguesas dormem menos do que deviam. “Fizemos um inquérito às crianças que vêm à consulta na Unidade da Primeira Infância e percebemos que dormiam, em média, menos duas horas do que o recomendado. São resultados equivalentes aos dos estudos epidemiológicos que se fazem.” Quais as consequências disto para o desenvolvimento infantil? “Espero que não sejam catastróficas”, desdramatiza o médico. “Mas podem ser a nível da organização da memória e da regulação do humor.”

Filipa Sommerfeldt Fernandes começou por ser jornalista, mas foi o nascimento do filho que a fez interessar-se pelo estudo do sono. Fez cursos especializados, como o ‘Sleep Trainning’, num centro ligado à Universidade de Reading, no Reino Unido. “A má qualidade de sono tem consequências a nível de desenvolvimento e comportamento social muito parecidas com aquelas que são descritas na hiperatividade. Deixa os bebés pequenos mais rabugentos, choram muito, e comem pouco porque estão cansados. Em crianças mais crescidas, deixa-as como se estivessem sempre ligadas à ficha, são mais irritadiças, com pouca tolerância à frustração (o que lhes pode trazer problemas de relacionamento), precisam constantemente de atenção e de estar sempre distraídas – quando param, começam a ficar zangadas porque estão cansadas.”

As novas tecnologias não estão a ajudar. “Há imensos estudos que apontam que a utilização de eletrónica provoca sintomas como a dessincronização do nosso relógio biológico, fazendo as crianças dormir pior e ficarem mais agitadas”, observa Filipa. O nosso corpo é regulado por ‘relógios internos’; a melatonina, a hormona que produzimos naturalmente e que regula o nosso sono, é induzida pela luz do dia. “Por isso é que usar muitos gadgets à noite faz com que exista uma luz constante que atrasa a libertação de melatonina. Desrespeitamos completamente o nosso ritmo natural, um produto das nossas vidas numa sociedade que mudou.”

Uma das primeiras soluções que Filipa recomenda a pais desesperados com as noites mal dormidas dos filhos costuma ser o terror. Mas funciona. “Antes de medicar miúdos que mostram sintomas de hiperatividade, tenta-se retirar tudo o que é gadget e eletrónica de casa durante um mês. É horrível na primeira semana e parece que estão todos em ressaca, mas, se o conseguirem ultrapassar, costuma compensar. Faz-se mais exercício lá fora, eles mexem-se e brincam mais, ganhamos tempo de relacionamento e isso influencia muito a qualidade do sono.”

E deixa o alerta: “É importante que pediatras e pedopsiquiatras estejam atentos à questão do sono. Muitos pais que me procuram trazem queixas de que o pediatra não deu a devida importância a esse fator e disseram que era uma fase que ia passar. O problema é quando eles têm três anos e nunca dormiram bem.”

Há quem dê anti-histamínicos para as crianças adormecerem

Ter um filho que não dorme e se torna irritável e irrequieto leva muitos pais às consultas do sono de Filipa S. Fernandes. “Há coisas que me fazem muita confusão, como gente que tenta dar anti-histamínicos a bebés para que durmam. De forma mais ligeira, mas também frequente, medica-se com melatonina sintética durante meses. Não tem efeitos secundários nem contraindicações mas há poucos estudos sobre os seus efeitos, quando tomada prolongadamente. Quando tomamos algo sintético que o corpo já produz, como a melatonina, ele fica preguiçoso para fabricá-la. A dose normal de melatonina para uma criança são quatro gotas (1 miligrama) e há quem esteja a dar 20 para eles adormecerem rápido.”

Muito estímulo, cedo demais

Será que, na tentativa de que os nossos filhos não fiquem para trás no comboio do desenvolvimento, que sejam espertos e curiosos e criativos, não estaremos a sobreestimulá-los e a deixá-los mais ‘hiperativos’? Filipa Sommerfeldt acredita que sim. “Estamos a dar-lhes demasiadas coisas, cedo demais. Parece-nos que se não estivermos de volta deles, a estimulá-los com diferentes coisas, como livros, rocas, o mobile em cima da cama, música de Beethoven, vamos tornar os nossos filhos burros. Ficamos orgulhosas se os nossos bebés souberem fazer as coisas antes do tempo estipulado nas metas de desenvolvimento.”

A juntar a tudo isto vem a falta de tempo e acumulação de tarefas, quando chegamos a casa. “Isso faz com que muitas vezes lhe demos um tablet para as mãos. Os nossos filhos ficam viciados nestes aparelhos eletrónicos. E quanto mais viciantes se tornam, mais precisam daquilo para continuarem tranquilos. Estarem demasiado tempo concentrados em cores, movimento, som, provoca-lhes uma espécie de overdose de estímulos num cérebro ainda em desenvolvimento.”

Jogos e aplicações pedagógicas “não são um mal para as crianças, por si”, reflete Pedro Caldeira. “Uma coisa que sei que deveria ser proibida e faz muito mal é a Baby TV. Não há nada de positivo que possa resultar de pôr um bebé em frente a um ecrã a ver bolas a mexer, a não ser isolamento e captação rápida de consumidores. Não há nenhum argumento de pseudo-estimulação ou pseudo-informação que possa vir da Baby TV. É tempo de privação de interação. Temos casos de alguns meninos que ficaram com atrasos de desenvolvimento porque ficaram em frente à televisão.”

Os tablets e smartphones tornaram-se na nova ama eletrónica, “uma invenção fabulosa para poder ir jantar fora”, como diz o pedopsiquiatra, que concorda com a recomendação da Sociedade Norte-Americana de Pediatria, que não recomenda que crianças abaixo dos 2 anos tenham sequer acesso a eles – ou a qualquer tipo de tempo de ecrã. “Essa fronteira etária é aleatória, poderia situar-se nos 2, 3 ou 5 anos. Não é só dar tempo de ecrã cedo demais, mas darmos em exclusivo ou em grande quantidade. Hoje, vemos que os meninos já sabem letras, alguns até ler, aos 4 anos. Parabéns. Não são estas tecnologias que vão tornar as crianças mais espertas. É muito importante que elas possam construir com as suas mãos, deitar abaixo, trepar, resolver problemas, planear ações, e isso não se consegue nos tablets. É viciante, sim – tudo quanto é jogo age no centro de recompensa do cérebro – mas é mais um mecanismo que surge porque queremos que elas não chateiem e sejam boas de aturar.”

 

 

III Congresso Internacional do CADIn – Aprendizagem, Comportamento, Emoções – 20-22 outubro

Julho 18, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://congressointernacional2016.cadin.net/PT

 

“Não há tolerância para crianças irrequietas”: descubra porquê e que problemas está a criar

Julho 13, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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2016-03-18-Hipertaivos-ou-Irrequietos

 

Cada vez se prescrevem mais medicamentos para a Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção. Mas será que o número de crianças com este problema aumentou assim tanto? Um pedopsiquiatra e uma especialista em sono infantil acreditam que o estilo de vida a que os nossos miúdos estão sujeitos não está a ajudar.

O novo fantasma dos pais: ter um filho ‘hiperativo’, que não para quieto um segundo, não está atento na escola, irritável, com problemas de comportamento. A Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA) só costuma ser diagnosticada depois dos 5 ou 6 anos, mas há pais que se queixam disso cada vez mais cedo. Filipa Sommerfeldt Fernandes, autora de ‘10 dias para ensinar o seu filho a dormir’ (Esfera dos Livros), dá palestras, workshops e consultas de aconselhamento sobre como regular o sono infantil e é testemunha do desespero deles. “Há pais de bebés de 9 meses que me mandam mensagens a dizer que o filho deve ser hiperativo porque não dorme. Hiperativo, com 9 meses?…”

O certo é que o recurso a medicamentos para tratar a PHDA mostra uma “tendência de crescimento”, segundo um relatório do Infarmed, publicado em novembro passado. Em 2014 dispensaram-se 276.029 embalagens de metilfenidato, o princípio ativo do medicamento psicoestimulante mais frequentemente receitado para a PHDA. O aumento foi de 30% relativamente a 2013, informou o Diário de Notícias. Os tratamentos para esta perturbação também custaram mais de 8 milhões de euros, 5 milhões dos quais suportados pelos utentes, outro “crescimento significativo”. Estão a ser mais prescritos em hospitais ou clínicas privadas (39%), seguidos dos hospitais públicos (37%) e cuidados de saúde primários (22%). Viana do Castelo e Viseu são os distritos onde é mais usado.

E se não for hiperatividade?
“É um aumento relativamente significativo”, comenta o pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia. “São sobretudo prescritos por pediatras, neuropediatras e pedopsiquiatras, que penso terem sido os últimos a entrarem neste comboio da prescrição, e tiveram que o fazer por uma questão de mercado. É verdade que estes medicamentos são eficazes e que ajudam crianças. Mas, provavelmente, há uma utilização um pouco excessiva e algum facilitismo na prescrição, porque o medicamento dá resultado – põe as crianças sossegadas e ajuda-as nos estudos. Mas um tipo de intervenção mais psicológica demora mais tempo.
As consequências já estão à vista. “Há crianças que estão a ser medicadas e não deviam, outras estão a ser medicadas porque têm alguns sintomas e beneficiam com a medicação, mas é como se fosse dopping, é batota. E até há adultos e jovens estudantes universitários que usam o metilfenidato porque é uma substância que melhora o desempenho.”
O uso da medicação numa criança que nem precisaria de a tomar pode nem provocar efeitos secundários, diz o pedopsiquiatra. “Nada, além da ideia perniciosa de que tudo se resolve rapidamente e com pastilhas. Mas há crianças que os apresentam: o principal e mais frequente é perda de apetite, que pode levar ao emagrecimento. Algumas crianças reportam que não se sentem elas próprias. Não leva a uma perturbação de personalidade mas pode levar à alteração da perceção de si próprio. Prescrevo a medicação a crianças que precisam, sim, mas dá-la indiscriminadamente é uma má prática.”
O mais importante é que se faça um diagnóstico criterioso, até porque muitas vezes o problema nem é a hiperatividade e sim “depressão ou início de perturbações bipolares, que podem ser confundidos com hiperatividade. Na criança, a depressão pode ter este aspeto de comportamento ruidoso, irritabilidade, ansiedade. E há medicamentos que mascaram estes sintomas – o metilfenidato pode ser um deles.”

“O sistema escolar está feito para meninas”
Estão mesmo a nascer mais crianças hiperativas, ou é o estilo de vida atual, a forma como os estamos a educar, que os está a deixar assim? “Podemos perguntar se as crianças são mesmo hiperativas, como muita gente diz. Podem ter perturbação de défice de atenção e hiperatividade, mas isso também não define a criança”, diz o pedopsiquiatra.

Segundo o Infarmed, estima-se que esta condição afete entre 5 e 7% das crianças e jovens. “É possível que as condições de vida atual façam com que haja crianças com mais necessidade de se expressarem de forma mais ruidosa, turbulenta e irrequieta em certas alturas do dia. E essas condições podem passar pelo excesso de estimulação com o uso de gadgets e tablets, aliado à pouca oportunidade que têm de estar entretidas e ao excesso de tempo que passam em situações estruturadas (o inglês, o piano, as aulas…) em que têm de se portar bem. Não é de certeza bom para uma criança ter 10 horas de trabalho por dia, mas quotidianamente têm-no nas creches. O tempo livre é cada vez menos para brincarem sem grande supervisão, imaginarem, inventarem e resolverem conflitos entre si. Esse tempo é muito desvalorizado. As escolas e os pais estão a trocar recreios por aulas de apoio, cursos, castigos. As crianças têm que estar sempre vigiadas senão acontece uma desgraça qualquer, são proibidas de ir brincar para a rua porque é perigoso. Sobretudo, há falta de tempo para ela se poder aborrecer e inventar qualquer coisa para fazer. O efeito que vejo é estarmos a criar uma geração de pessoas obedientes, o que é ótimo do ponto de vista da vida profissional futura.”

Quando fala em obediência, não é com o significado positivo que a nossa cultura geralmente dá ao termo. Até porque ser muito obediente, não questionar nada, não é necessariamente bom para ninguém, nem para uma criança.
“Outra coisa muito importante é a falta de tolerância para lidar com a irrequietude das crianças. As escolas têm uma grande responsabilidade nisso; parece que só querem formar meninas. Os rapazes são vistos como meninas com defeito. O sistema escolar está feito para as meninas – sossegadas, contemplativas, a pensar nas emoções. Não sabemos (nem queremos) lidar com a ação, a assertividade, a agressividade. A escolaridade obrigatória aumentou, fez com que muitas crianças estivessem na escola sem nenhuma motivação; as armas que os professores têm para manter a disciplina mudaram, mas isto devia vir a par com o aumento da competência para motivar os alunos e permitir também alguma atividade e turbulência. Por isso, as queixas surgem mais facilmente quando se sabe que há comprimidos que resolvem estas coisas de forma quase milagrosa. Há quase um sistema de pressão das escolas que se queixam aos pais para procurarem uma solução para os filhos. Os professores também são pressionados a apresentar resultados.”

Terapia de choque
Mas há outro fator de que nos esquecemos: poucas horas de sono, ou um sono de má qualidade, “podem ter sintomas que se assemelham aos da hiperatividade, difíceis de distinguir”, como confirma Pedro Caldeira da Silva. E as crianças portuguesas dormem menos do que deviam. “Fizemos um inquérito às crianças que vêm à consulta na Unidade da Primeira Infância e percebemos que dormiam, em média, menos duas horas do que o recomendado. São resultados equivalentes aos dos estudos epidemiológicos que se fazem.” Quais as consequências disto para o desenvolvimento infantil? “Espero que não sejam catastróficas”, desdramatiza o médico. “Mas podem ser a nível da organização da memória e da regulação do humor.”
Filipa Sommerfeldt Fernandes começou por ser jornalista, mas foi o nascimento do filho que a fez interessar-se pelo estudo do sono. Fez cursos especializados, como o ‘Sleep Trainning’, num centro ligado à Universidade de Reading, no Reino Unido. “A má qualidade de sono tem consequências a nível de desenvolvimento e comportamento social muito parecidas com aquelas que são descritas na hiperatividade. Deixa os bebés pequenos mais rabugentos, choram muito, e comem pouco porque estão cansados. Em crianças mais crescidas, deixa-as como se estivessem sempre ligadas à ficha, são mais irritadiças, com pouca tolerância à frustração (o que lhes pode trazer problemas de relacionamento), precisam constantemente de atenção e de estar sempre distraídas – quando param, começam a ficar zangadas porque estão cansadas.”
As novas tecnologias não estão a ajudar. “Há imensos estudos que apontam que a utilização de eletrónica provoca sintomas como a dessincronização do nosso relógio biológico, fazendo as crianças dormir pior e ficarem mais agitadas”, observa Filipa. O nosso corpo é regulado por ‘relógios internos’; a melatonina, a hormona que produzimos naturalmente e que regula o nosso sono, é induzida pela luz do dia. “Por isso é que usar muitos gadgets à noite faz com que exista uma luz constante que atrasa a libertação de melatonina. Desrespeitamos completamente o nosso ritmo natural, um produto das nossas vidas numa sociedade que mudou.”

Uma das primeiras soluções que Filipa recomenda a pais desesperados com as noites mal dormidas dos filhos costuma ser o terror. Mas funciona. “Antes de medicar miúdos que mostram sintomas de hiperatividade, tenta-se retirar tudo o que é gadget e eletrónica de casa durante um mês. É horrível na primeira semana e parece que estão todos em ressaca, mas, se o conseguirem ultrapassar, costuma compensar. Faz-se mais exercício lá fora, eles mexem-se e brincam mais, ganhamos tempo de relacionamento e isso influencia muito a qualidade do sono.”

E deixa o alerta: “É importante que pediatras e pedopsiquiatras estejam atentos à questão do sono. Muitos pais que me procuram trazem queixas de que o pediatra não deu a devida importância a esse fator e disseram que era uma fase que ia passar. O problema é quando eles têm três anos e nunca dormiram bem.”

Há quem dê anti-histamínicos para as crianças adormecerem
Ter um filho que não dorme e se torna irritável e irrequieto leva muitos pais às consultas do sono de Filipa S. Fernandes. “Há coisas que me fazem muita confusão, como gente que tenta dar anti-histamínicos a bebés para que durmam. De forma mais ligeira, mas também frequente, medica-se com melatonina sintética durante meses. Não tem efeitos secundários nem contraindicações mas há poucos estudos sobre os seus efeitos, quando tomada prolongadamente. Quando tomamos algo sintético que o corpo já produz, como a melatonina, ele fica preguiçoso para fabricá-la. A dose normal de melatonina para uma criança são quatro gotas (1 miligrama) e há quem esteja a dar 20 para eles adormecerem rápido.”

Muito estímulo, cedo demais
Será que, na tentativa de que os nossos filhos não fiquem para trás no comboio do desenvolvimento, que sejam espertos e curiosos e criativos, não estaremos a sobreestimulá-los e a deixá-los mais ‘hiperativos’? Filipa Sommerfeldt acredita que sim. “Estamos a dar-lhes demasiadas coisas, cedo demais. Parece-nos que se não estivermos de volta deles, a estimulá-los com diferentes coisas, como livros, rocas, o mobile em cima da cama, música de Beethoven, vamos tornar os nossos filhos burros. Ficamos orgulhosas se os nossos bebés souberem fazer as coisas antes do tempo estipulado nas metas de desenvolvimento.”
A juntar a tudo isto vem a falta de tempo e acumulação de tarefas, quando chegamos a casa. “Isso faz com que muitas vezes lhe demos um tablet para as mãos. Os nossos filhos ficam viciados nestes aparelhos eletrónicos. E quanto mais viciantes se tornam, mais precisam daquilo para continuarem tranquilos. Estarem demasiado tempo concentrados em cores, movimento, som, provoca-lhes uma espécie de overdose de estímulos num cérebro ainda em desenvolvimento.”
Jogos e aplicações pedagógicas “não são um mal para as crianças, por si”, reflete Pedro Caldeira. “Uma coisa que sei que deveria ser proibida e faz muito mal é a Baby TV. Não há nada de positivo que possa resultar de pôr um bebé em frente a um ecrã a ver bolas a mexer, a não ser isolamento e captação rápida de consumidores. Não há nenhum argumento de pseudo-estimulação ou pseudo-informação que possa vir da Baby TV. É tempo de privação de interação. Temos casos de alguns meninos que ficaram com atrasos de desenvolvimento porque ficaram em frente à televisão.”
Os tablets e smartphones tornaram-se na nova ama eletrónica, “uma invenção fabulosa para poder ir jantar fora”, como diz o pedopsiquiatra, que concorda com a recomendação da Sociedade Norte-Americana de Pediatria, que não recomenda que crianças abaixo dos 2 anos tenham sequer acesso a eles – ou a qualquer tipo de tempo de ecrã. “Essa fronteira etária é aleatória, poderia situar-se nos 2, 3 ou 5 anos. Não é só dar tempo de ecrã cedo demais, mas darmos em exclusivo ou em grande quantidade. Hoje, vemos que os meninos já sabem letras, alguns até ler, aos 4 anos. Parabéns. Não são estas tecnologias que vão tornar as crianças mais espertas. É muito importante que elas possam construir com as suas mãos, deitar abaixo, trepar, resolver problemas, planear ações, e isso não se consegue nos tablets. É viciante, sim – tudo quanto é jogo age no centro de recompensa do cérebro – mas é mais um mecanismo que surge porque queremos que elas não chateiem e sejam boas de aturar.”

 

Por Cristina Tavares Correia, em 20 de março de 2016, para a Activa

 

Como a Guerra Fria deu origem à ritalina, a droga da ‘concentração infantil’

Junho 27, 2016 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Durante a década de 1960, era comum, nos Estados Unidos, que crianças hiperativas recebessem um medicamento para ajudá-las a se concentrar nas aulas.
A chamada “pílula da matemática”, a ritalina, continua sendo um dos tratamentos mais usados em vários países para tratar o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

Seu principal componente, o metilfenidato, da família das anfetaminas, tem a propriedade de estimular a concentração e reduzir a impulsividade.

Essas qualidades eram consideradas necessárias dentro da transformação, durante a década de 1960, do sistema escolar dos EUA, que queria competir com a União Soviética no contexto da Guerra Fria, de acordo com o historiador Matthew Smith, da Universidade de Strathclyde (Escócia) e autor do livro Hyperactive: The Controversial History of ADHD (“Hiperativos: a controversa história do TDAH”, em tradução livre).

“Havia uma corrida científica e espacial com a União Soviética, e por isso o novo sistema educativo exigia que as crianças permanecessem sentadas em suas carteiras fazendo tarefas”, disse.

Quando a droga foi sintetizada, em 1944, pelo químico italiano Leandro Panizzon, não estava previsto que crianças pudessem tomá-la.

Então como ela acabou virando a solução predileta dos pais e psiquiatras para os pequenos hiperativos?

 
Fármacos no pós-guerra
Existe uma lenda de que Panizzon batizou o medicamento de “ritalina” em homenagem a sua mulher, Margarida, que chamava pelo apelido carinhoso de Rita.

“Ela tomava o comprimido antes de jogar tênis. Aparentemente, sofria de pressão baixa e isso lhe dava um empurrão na partida”, destacou Smith.

O laboratório onde ele trabalhava, Ciba, começou a comercializar o fármaco para adultos com a mensagem de que era mais forte que uma xícara de café, mas não tão intenso, nem com os efeitos secundários de outras anfetaminas mais potentes.

Na época de seu surgimento, o mercado de medicamentos passava por várias mudanças e avanços.

No pós-guerra, começaram a ser tratadas doenças como tuberculose, e teve início a vacinação contra a pólio.
“As pessoas começaram a recorrer a fármacos como solução para tudo”, disse Smith, acrescentando que drogas psiquiátricas também geraram otimismo e que isso se manteve por mais duas décadas até a descoberta de efeitos secundários e de seu potencial viciante.

 
Fórmula para crianças
Em uma pesquisa de 1937, o psiquiatra Charles Bradley fez uma descoberta: depois de administrar anfetaminas a um grupo de crianças para tratar dores de cabeça, ele notou que elas tinham o surpreendente efeito de estimular sua concentração.

Sua descoberta foi investigada duas décadas depois, quando o psicólogo clínico Keith Conners, em 1964, da Universidade Johns Hopkins em Baltimore (EUA), fez o primeiro ensaio clínico aleatório com ritalina em crianças com “transtornos emocionais”.

O jovem pesquisador estava intrigado com a possibilidade do tratamento com drogas, porque os baseados em terapia não pareciam dar resultado.

O estudo mediu concentração, níveis de ansiedade e impulsividade. A resposta das crianças foi imediatamente positiva.

“Estavam emocionadas de tomar um remédio que ajudava com suas tarefas. Sentiam que já não eram crianças problemáticas ou más”, disse Conners à BBC.

Depois que Conners e seus colegas publicaram os resultados, a ritalina começou a ser usada com mais frequência para tratar hiperatividade em crianças americanas.

Segundo o historiador Matthew Smith, os professores começaram a indicar crianças com problemas de conduta a psiquiatras, que quase sempre diagnosticavam transtorno de hiperatividade.

“O sistema escolar pressionava as crianças a se sentarem quietas nas carteiras e se concentrarem”, disse Smith.

 
Consumo ‘excessivo’
Apesar de haver ajudado a popularizar o medicamento na sociedade americana, Conners acredita que hoje ele é usado em excesso.

“Quando começamos, não conseguíamos convencer as pessoas de que havia crianças com TDAH. Agora parece que elas são encontradas até embaixo das pedras”, disse ele à BBC.

O psicólogo considera que este transtorno está sendo diagnosticado de forma excessiva e que outros fatores são ignorados.

“Um número significativo de crianças em idade escolar é dignosticado com TDAH quando, na realidade, pode ser que sejam muito jovens para a série em que estão. Ou podem ter outras desordens parecidas com o TDAH”, disse.
No Brasil, a discussão sobre consumo excessivo da droga entre crianças também ocorre.

Um boletim divulgado no ano passado pelo Ministério da Saúde diz que, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos, o Brasil era, em 2010, o segundo maior consumidor de ritalina do mundo.

O ministério recomendou que os Estados aumentassem o controle sobre prescrição e distribuição da droga para evitar a “medicação excessiva” de crianças.

O documento diz que há estimativas discordantes sobre a ocorrência de TDAH em crianças e adolescentes no Brasil, que variam de 0,9% a 26,8%.

 

BBC Brasil, em 10 de junho de 2016

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