O Zé não lê, não escreve e não fala. “Pode parecer frio, mas ele não precisa do que se dá nas aulas tradicionais”

Novembro 1, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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CHARLY TRIBALLEAU/ Getty Images

Texto do Expresso de 9 de outubro de 2018.

Marta Gonçalves

Zé, José Pedro Miguel, na verdade. 16 anos. Aluno do 9º ano em Cascais. Autismo médio-grave diagnosticado. Nunca antes esteve a tempo inteiro com os 20 e pouco colegas da sua turma. Até ao ano letivo passado estava a maioria do tempo na sala de ensino especial. As coisas mudaram. A lei está diferente.

Não é fácil que Zé fique sossegado por mais de 40 minutos, a mãe diz-nos que é quase impossível. Querem que fique uma hora e meia sentado na sala de aula.

Não é fácil que Zé compreenda mais que uma ordem direta. Querem que ele compreenda as aulas de físico-química.

Não é fácil que Zé esteja num ambiente novo. Querem que ele esteja numa sala onde poucas vezes esteve.

Não é fácil que Zé fique em sítios com muito barulho porque ouve a triplicar. Querem que ele fique numa sala com mais 20 crianças.

Zé, José Pedro Miguel, na verdade, não lê nem fala. 16 anos. Aluno do 9º ano em Cascais. Autismo médio-grave diagnosticado (ao qual está muitas vezes associado a hiperatividade). Nunca antes esteve a tempo inteiro com os 20 e pouco colegas da sua turma. Até ao ano letivo passado estava a maioria do tempo na sala de ensino especial. As coisas mudaram. A lei está diferente. Os políticos querem educação inclusiva, que na verdade é também o que querem pais, professores, diretores e escolas. Querem-no de outra forma, com outros prazos.

“Se o Zé não ouve, não compreende, qual a lógica de estar a ter aulas de língua portuguesa?” Alexandra Miguel tem muitas dúvidas por estes dias. Com as novidades na lei, ainda não sabe ao certo o que vai acontecer ao filho. Sabe que nos primeiros dias de aulas Zé esteve a retomar rotinas e que de agora em diante, aos poucos, vai estar nas aulas práticas de físico-química e nas educação-física.

“Para ele é um suplício estar num pavilhão, como ouve a triplicar é todo aquele barulho normal de um jogo mas três vezes mais alto”, explica a mãe. E continua: “Não sabe escrever, não sabe ler, não sabe falar. Tudo o que faz e trabalha é ao nível da memória, do desenvolvimento da autonomia. Isso é que interessa ao Zé. O problema dele é esse. Pode parecer frio, mas ele não precisa [daquilo que se dá nas aulas tradicionais]. Não tem hipótese alguma de aprender. O meu filho vai ouvir a professora e não vai captar nada. Entende ordens diretas, frases curtas e objetivas. Nada mais.”

Hoje Zé já não tem terapia na escola (“perdeu direito a todas”), quando entrou na pré-primária era acompanhado três vezes por semana pela terapeuta da fala (“como não fala, acham que não precisa”), duas por psicomotricistas e outras três por terapeutas ocupacionais.

“Este ano está tudo muito esquisito. A natação é o melhor desporto que lhe podem dar – aliás, é assim com tudo o que inclua água. É como se tivesse tomado uma dose de calmantes. É extremamente importante para ele nadar. Nos outros anos, por esta altura, já costuma estar tudo organizado e ainda não sei nada”, conta Alexandra. Possivelmente, Zé vai ter equitação e vela, ambas as atividades são disponibilizadas pela Câmara de Cascais.

Zé tem um horário tal qual os colegas. Com diferentes horas de entrada e saída a cada dia. A mãe sabe a sorte de poder estar em casa sem trabalhar e que ainda consegue pagar algumas coisas que a escola não não dá ao filho. “Chegámos a gastar mais de mil euros por mês em acompanhamento para o Zezito, mas agora não conseguimos. Felizmente, vamos arranjando outras coisas.”

Há duas semanas que a escola começou. Há duas semanas que Zé está entre o ano passado e o novo, entre o método antigo e a escola inclusiva que lhe prometem. Ainda não foi avaliado pela equipa multidisciplinar – criada agora para determinar como cada um deles vai aprender. Há uma espécie de lista de espera: primeiro, os urgentes; depois, os sérios; seguem-se os graves; os não tão preocupantes e vai por aí (o secretário da Educação disse ao Expresso que esta fase deve estar terminada no final de novembro). Identificam-lhes as dificuldades, as estratégias e aplicam-nas: pode estar numa sala de ensino especial – que segundo a nova lei são centros de apoio à aprendizagem – ou acompanhado por alguém durante as aulas ou ficar sozinho e ter algumas metodologias específicas do professor da disciplina.

A grande diferença em 2018/2019 é que o sistema de ensino passa a considerar-se uma forma de educação inclusiva. Quer isto dizer que estas medidas de apoio são universais e podem ser introduzidas no vida escolar de qualquer menino ou menina. O critério deixa de ser simplesmente médico, há muito mais a ser considerado (dificuldades económicas ou até o historial familiar).

Enquanto isto se vai fazendo, Zé está à espera.

“Entregados ou integrados”

“Há mais do que uma explicação científica que prova que meninos com menos competências ficam melhores se aprenderem com as outras crianças; já para os alunos sem estas dificuldades, o contacto com a diversidade é fundamental. Percebem a diferença, desenvolvem valores de solidariedade, não ficam prejudicados nas aprendizagens. A diversidade em si é um bem e não um problema”, diz José Morgado, professor com especialização em Educação Inclusiva no ISPA – Instituto Universitário. “É no contexto escolar que a grande maioria das crianças aprende uma diversidade de competências que dificilmente vão aprender noutros contextos. Vivenciam e crescem com valores de respeito ao outro e às diferenças”, explica a equipa técnica do PIN – Centro de Desenvolvimento.

José Morgado define cinco critérios fundamentais: ter o direito à educação, estar no espaço educativo de crianças da mesma idade, participar nas atividades o mais possível, pertencer à escola e à comunidade escolar e aprender ao máximo. Ter, estar, participar, pertencer, aprender. “Isto são apenas os princípios. Todas crianças conseguem estar numa sala de aula? Não. Mas quanto possível devem estar nas salas de aula”, sublinha. “O que está a acontecer é que em nome da inclusão estamos a promover exclusão. Não basta pegar numa criança e colocá-la na sala e dizer que está incluído apenas porque está junto aos outros. Costumo dizer: isso é entregados, não integrados.”

Estarem no mesmo espaço? Sim. Mas estando bem. E estar bem significa ser útil, fazer o que se é capaz, aprender consoante as suas competências.“Não estarem depositadas” na sala. “Embora a normativa tenha aspetos positivos e, no ponto de vista da sua conceção, ser um avanço em relação à legislação anterior, conheço dezenas de relatos de coisas a correr mal. Não vale a pena achar que está a correr tudo bem. Como se por decreto-lei as crianças ficassem normalizadas… Provavelmente estou a caricaturar, mas tem sido quase isto que me chega: dão os mesmo trabalhos que dão aos outros miúdos, como se por um passo de mágica fossem capazes de entender num âmbito pedagógico em que nunca participaram.”

Assim podem nascer as resistências, o receio de ir para a escola, um local onde não se sentem bem pois têm perceção daquilo que as rodeia, alerta. “Sou o primeiro a reconhecer que não é algo fácil de fazer e exige recursos. Mas não podemos ter os números da inclusão e não ter inclusão”, defende José Morgado. A nova lei é a oportunidade para enraizar o conceito da inclusão. Os problemas têm estado na operacionalização. Os casos que envolvem problemas de comunicação são os mais complicados. A aprendizagem faz-se maioritariamente pela comunicação verbal e são poucas as vezes em que há alternativas. E Zé sente isso, usa sobretudo cartões para dizer o que quer

Até cerca dos dois anos, os pais nunca souberam que o seu Zézito não era como as outras crianças. Era o segundo filho. Um dia, a correr pelos corredores de casa, caiu. Levaram-no ao médico. Desde desse dia, Alexandra ficou ainda mais atenta. O filho chorava, parava. Estava tudo bem. O choro recomeçava. Parava. Estava tudo bem. Era isto uma e outra vez. “Estávamos todos na festa de anos da prima dele e não me largava as pernas, sempre a choramingar, nervoso, a tremer. Nada daquilo me parecia normal.” Alexandra voltou ao pediatra. “Deu-lhe uns cubos para as mãos e o miúdo atirou-os ao chão. Teve meia dúzia de reações e o médico desconfiou logo.”

Nel usa o computador em vez do papel e caneta

Manuel está como Zé: à espera. Também tem uma perturbação do espectro do autismo e também ele ainda não foi avaliado, não estava no topo da tal lista de espera. Anda no 5º ano e, por opção dos pais, no ano passado completou apenas metade das disciplinas, agora vai fazer as que faltam – incluindo matemática e história e geografia de Portugal.

“Foi erro nosso. Agora percebemos que teria feito o 5º ano todo no ano passado, tinha conseguido”, diz o pai João Veiga. O currículo de Nel – assim lhe chama o pai – é adaptado: aprende o que todos os colegas aprendem com métodos diferentes.

Ainda há dias, acabara João de regressar de uma reunião na escola – “onde me disseram que nada estava planeado em concreto para o meu filho” – e recebe uma chamada. Pediram-lhe para regressar, Nel estava agitado, com um episódio de comportamentos disruptivos. Tem acontecido algumas vezes. O regresso à escola após as férias não é simples (“a expectativa dos professores era que o meu filho regressasse às aulas como os demais”) e no caso de uma criança com perturbação do espectro do autismo, que vive organizada em rotinas, é mais caótico. E isso desencadeia alguns comportamentos: bater na cabeça, alguma violência, sons altos.

“O diagnóstico de perturbação do espectro do autismo caracteriza-se por dificuldades na interação social e na comunicação, associadas a ações repetitivas e interesses restritos”, esclarece o PIN. No entanto, são características variáveis. “Podem necessitar de um maior nível de organização e maiores cuidados no que respeita aos estímulos sensoriais, como os ruídos das salas ou dos refeitórios, bem como apoio ao nível da interação e comunicação com os seus pares, não só na sala como frequentemente no recreio”, acrescenta. As alterações à rotina, como uma visita de estudo, devem ser antecipadas e preparadas.

João Veiga demorou pouco a regressar à escola, não mora longe. “Encontrei umas quantas pessoas a agarrarem o meu filho e a impedirem-lhe os movimentos, mais outras tantas ali paradas a olhar. Aproximei-me e bastaram segundos para o acalmar.” O regresso à rotina da escola após as férias não é simples. Os professores mudaram e também a turma. Falta uma continuidade de trabalho. “É como estivéssemos sempre a começar do zero”, diz o pai. E a questão não está na nova lei, “é a luta de sempre”.

Manuel não entende metáforas, precisa de textos diferentes dos colegas de turma, usa o computador em vez dos cadernos e canetas. Tem feito o percurso académico de qualquer outra criança. Na escola, em tempos insistiram que ele deveria seguir outro caminho.

“No fundo, o currículo específico é fazer atividades de vida diária com muito pouca preocupação com a vertente académica. Colaborarem no refeitório da escola, aprenderem a ir às compras…” Mas Nel sempre fez isso em casa, aliás, ir ao supermercado com o pai é das coisas que mais gosta de fazer. “Não era significativo para ele. Tem competências cognitivas significativas. Não são superiores nem inferiores à média. São as que lhes permitiram fazer o percurso escolar com dificuldades mas que lhe têm permitido fazê-lo.”

Manuel gosta de legos e construções. Zé prefere passear – não há um fim de semana que fique em casa, precisa de ver o mar.

Nota: O título e o início do texto foram alterados às 16h de 10 de outubro de 2018. O Zé terá apenas aulas de físico-química e educação física, não vai participar em todas as disciplinas como tínhamos inicialmente noticiado. A mãe, Alexandra Miguel, havia dito ao Expresso que o filho iria frequentar as disciplinas todas, pois “por estar tudo tão confuso fui induzida em erro”. Entretanto, contactou o Expresso para corrigir a informação que tinha inicialmente prestado

 

LEMA: plataforma online auxilia crianças com autismo

Julho 10, 2018 às 9:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Photo by Bence ▲ Boros on Unsplash

Chama-se LEMA e é o primeiro site português nascido para ajudar na Matemática as crianças com perturbação do espectro do autismo (PEA). Criado por Isabel Santos durante o Doutoramento em Multimédia em Educação na Universidade de Aveiro (UA), o LEMA, para além do desenvolvimento do raciocínio matemático destas crianças, quer ainda auxiliá-las nas áreas da linguagem, da leitura, do planeamento ou da gestão de emoções.

“Os resultados obtidos nas sessões de aferição com crianças e com professores e educadores da Educação Especial permitem assumir o LEMA [das iniciais em inglês de Learning Environment on Mathematics for Autistic children] como um importante instrumento de apoio à promoção do desenvolvimento do raciocínio matemático em crianças com PEA”, congratula-se Isabel Santos a autora da plataforma facilmente acessível a partir do link http://lema.cidma-ua.org.

Para além da Matemática, “o LEMA é também um auxiliar aos desenvolvimentos da linguagem e leitura, do planeamento, da memorização, da gestão de emoções, da atenção e concentração e da interação entre pares”. Assim, aponta Isabel Santos, o ambiente digital “poderá constituir-se como um instrumento pedagógico relevante para a premissa de uma escola inclusiva, garantindo o acesso e equidade de crianças com PEA ao processo de ensino e de aprendizagem, preparando a sua transição para uma vida ativa em sociedade”.

Destinado a crianças entre os 6 e os 12 anos diagnosticadas com PEA, o LEMA contém dois perfis de utilizadores – um para o educador e outro para a criança – e integra 32 classes de atividades de matemática, cada uma delas subdividida em cinco subclasses, de acordo com níveis de dificuldade.

A plataforma permite não só a seleção personalizada de uma até dez classes e subclasses de atividades tendo em conta o perfil funcional do utilizador-aluno, como ainda a visualização do registo de desempenho de cada aluno na realização das atividades propostas por parte do utilizador-educador.

 

Crianças com PEA em crescimento

“O layout das atividades/desafios satisfaz os requisitos identificados por vários investigadores da área das tecnologias digitais para crianças com PEA, nomeadamente a presença de poucos itens no ecrã, a utilização de linguagem visual e textual simples e direta e a integração de informações em múltiplas representações, como texto, vídeo, áudio e imagem, fornecendo instruções e orientações claras”, explica Isabel Santos.

O número de alunos diagnosticados com PEA tem aumentado nas últimas décadas em Portugal. O estudo mais recente realizado em Portugal pela Federação Portuguesa de Autismo, referente a 2011 e 2012, apontou uma prevalência de 15,3 crianças/jovens diagnosticadas com PEA em cada 10 mil.

“Apesar das tecnologias digitais terem sido identificadas, pela comunidade científica, como um recurso de grande interesse para indivíduos com esta perturbação”, aponta Isabel Santos, “são escassas as pesquisas que exploram a sua efetiva utilização no sentido do desenvolvimento de capacidades matemáticas” de crianças com autismo. Por isso, o LEMA de Isabel Santos quer também chamar a atenção para a necessidade de se desenvolverem mais ambientes digitais promotores do desenvolvimento de capacidades em crianças com PEA.

Preparado para ser utilizado pelos mais variados dispositivos tecnológicos (computador, tablet, smartphone, etc) e nos mais variados contextos (sala de aula, casa, gabinetes psicoeducativos, etc), o trabalho de Isabel Santos foi orientado pelas professoras Ana Breda, do Departamento de Matemática, e Ana Margarida Almeida, do Departamento de Comunicação e Arte.

O LEMA foi desenvolvido pela Linha Temática Geometrix, do Centro de Investigação e Desenvolvimento em Matemática e Aplicações (CIDMA), emergindo de uma colaboração frutífera entre esta unidade de investigação e a Digital Media and Interaction (DigiMedia) da UA.

 

Fonte: ua online | jornal da Universidade de Aveiro, em 4 de julho de 2018

Estratégias para manter a atenção do aluno autista em sala de aula

Novembro 3, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Mestrado Abordagens na Criança em Contexto Educativo

Julho 11, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Ciclo de Workshops Cadin – Caligrafia, PHDA, Asperger, Bullying, Consciência Fonológica, Autismo

Abril 4, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações

http://www.cadin.net/destaque/workshops-20132014/

Guía para la Integración del alumnado con TEA en Educación Primaria

Fevereiro 18, 2014 às 8:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
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guia

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El propósito de esta guía es aportar un instrumento útil y sencillo que permita conocer las características de los niños y niñas con Trastorno del Espectro Autista y proporcione estrategias aplicadas al entorno educativo que contribuyan a su desarrollo favoreciendo su integración.

Robótica apoia terapia com alunos autistas – Projeto com APPACDM incentiva interação utente-escola

Janeiro 1, 2012 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem da Universidade do Minho de 17 de Novembro de 2011.

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Projecto Robótica – Autismo Aqui

 

 

Texto e fotos: Pedro Costa

Tendo como ponto de partida a capacidade de atração dos robôs para a interação, um grupo de investigação da UMinho está a desenvolver um projeto que visa facilitar a sempre difícil ligação entre os terapeutas e os portadores de autismo. Sob uma ideia base consubstanciada na máxima “a engenharia ao serviço do ser humano”, este trabalho tem obtido resultados positivos na desejada interação, melhorando as condições para a terapia, a qualidade de vida dos jovens autistas e a formação de quadros familiares mais apoiados e identificados com o dia-a-dia desta problemática.

Um grupo de investigação sedeado na Universidade do Minho e que fomenta uma parceria com a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) está a desenvolver um projeto para a utilização de robôs como meio de comunicação e interação com alunos autistas. Esta equipa é composta por três investigadores e um doutorando, todos da Engenharia Eletrónica Industrial, um investigador da área da Educação, um mestrando de Engenharia Biomédica, uma psicóloga da APPACDM de Braga e mais dois bolseiros de investigação.

A ideia surgiu a partir de contatos já existentes com a APPACDM, onde se verificou haver terreno favorável para o desenvolvimento do projeto inspirado em duas teses de mestrado em Eletrónica Industrial. O projeto de investigação é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e visa a aplicação de ferramentas robóticas como forma de melhorar a vida social de alunos com autismo e com problemas intelectuais, melhorando as suas habilidades de interação e comunicação com pessoas e em contextos diferentes.

No estudo já realizado, o robô foi apresentado inicialmente aos alunos, pela professora, em contexto de sala de aula. Posteriormente, os investigadores da UMinho interagiram, através do robô, com cada um dos alunos com autismo, generalizando depois a ação aos cenários de vida do aluno, sem a presença do robô. As atividades visaram incentivar os jovens a interagir, pedir e participar em jogos e iniciativas em conjunto com outras pessoas. “Tendo por base a interação, a comunicação e a vocalização, definimos atividades muito simples, com competências bem definidas que quisemos ver desenvolvidas”, frisa a investigadora responsável, Filomena Soares.

Os resultados demonstraram ser possível a estes jovens realizarem algumas destas atividades pela primeira vez. Conclui-se a relevância da utilização de robôs como mediadores na interacção com alunos com autismo. Registou-se a realização de novas tarefas, nunca antes realizadas, pelos alunos com este tipo de problema, como, por exemplo, “o fato de se sentarem num local diferente na sala de aula para brincar com o robô, ou realizar com um outro colega uma atividade previamente realizada com o mesmo robô, para além de outras tarefas relevantes”.

O facto deste projeto trabalhar contextos diferenciados acaba por influenciar um envolvimento das famílias, que, desta forma, participam no desenvolvimento e beneficiam de uma transferência de competências e de rotinas muito importantes para o contexto familiar. Segundo a investigadora, neste aspeto “foi determinante o papel da APPACDM, que acabou por facilitar a interação, proporcionando contatos durante o projeto, assim como uma ação de divulgação e partilha onde todos participaram.”

Após as cinco experiências positivas, realizaram-se através do Ministério da Educação contatos com outras unidades de ensino estruturado, havendo já reuniões com mais quatro centros, que se juntam à APPACDM de Braga no desenvolvimento deste projeto. Desta forma, o grupo de investigação passará a trabalhar com utentes de Arouca, A-Ver-O-Mar, Barcelos e Leça da Palmeira, para além de Braga.

Estão ainda a ser estudadas e avaliadas novas formas de interagir com os alunos com autismo em idade escolar, utilizando plataformas robóticas mais robustas e com maiores capacidades. As atividades de aprendizagem consideradas nesta nova fase englobam a exploração de competências e a oportunidade de comunicação e expressão, utilizando sempre a tecnologia como mediador. Filomena Soares realça que este método representa “apenas o papel de mediação entre o utente e o seu terapeuta, sendo que o papel dos terapeutas é basilar no processo evolutivo destes jovens”.

 Jovens investigadores numa nova perspetiva da Engenharia

Outra das marcas deste projeto da área da Eletrónica Industrial é o facto de abordar novas perspetivas do uso das engenharias no quotidiano das pessoas, conferindo-lhe um papel social, para além da mais-valia técnica e utilitária.

Sandra Costa, aluna de doutoramento de Eletrónica Industrial, integrada neste grupo, é a autora de uma das duas teses de mestrado que inspiraram o projeto e representa uma nova geração de especialistas desta área que assume “uma visão social dos projetos”. Sublinha que, “para além das questões do conforto, a Engenharia já está ao serviço das pessoas ao nível da sua dimensão social e das problemáticas profundas”.

O trabalho desenvolvido por este projeto de Robótica para o Autismo tem sido reconhecido pela comunidade científica, através de publicações em diversas conferências de especialidade, a última das quais a RO-MAN2011 – 20th IEEE International Symposium on Robot and Human Interaction Communication, que teve lugar em Atlanta, Geórgia (EUA), em julho.

© 2011, GCII – Universidade do Minho


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