“Todos os dias, milhares de crianças de crianças vão para a escola medicadas simplesmente para ficarem sentadas”

Julho 31, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Cristina Camões ao i de 16 de julho de 2019.

O que é a psicoterapia? Qual é o potencial? A psicóloga clínica e psicoterapeuta Cristina Camões tem um novo livro em que desmonta os mitos em torno do consultório. “Um psicólogo não dá conselhos”, diz.

TEXTO | MARTA F. REIS

Cristina Camões, psicóloga clínica e psicoterapeuta, acaba de publicar Psicoterapia – Um caminho para a Felicidade, em que pretende desmontar os mitos e o estigma em torno do consultório do psicólogo. Defende que há uma ideia errada sobre o que é a felicidade, que não aceita que podem existir momentos maus e que o importante é reconhecê-los e lidar com eles. Uma ideia que se incute desde criança em frases como “não chores que é feio”. Em entrevista ao i, por escrito, fala sobre os objetivos da psicoterapia e os sinais de alerta numa sociedade que toma cada vez mais comprimidos e em que a saúde mental não tem sido prioridade.

Chamou ao seu livro publicado em maio Psicoterapia – Um Caminho para a Felicidade. É sempre assim?

Poderá ser sempre se o paciente levar o processo até ao fim. Mas convém entender melhor o que é a felicidade. A sociedade costuma pensar que a felicidade é algo que se atingirá um dia e que a partir daí será permanente. Nada mais errado: somos humanos e a vida não é retilínea. Quase todos os autores são unânimes em afirmar que a felicidade não é contínua, mas antes constituída por momentos. Hoje posso estar a sentir-me feliz porque atingi um objetivo muito importante, mas amanhã poderei estar triste, pois estou doente. Por outro lado, a felicidade não advém de fatores externos, mas internos. Aqui estaremos desde logo a entender o porquê de a maioria das pessoas não se sentirem felizes. Por um lado, acham que a felicidade é algo utópico e, por outro, procuram no sítio errado. Se observarmos a sociedade, esta está cada vez mais desligada de si, do sentir e da autoconsciência. Daí o aumento vertiginoso nos últimos anos dos índices de depressão e das taxas de suicídio.

Propõe-se lançar os leitores numa viagem aos bastidores do consultório. 

Pretendo com este livro acabar com os equívocos relativamente a fazer um processo psicoterapêutico. Chegam-me pacientes que já tinham tentado fazer psicoterapia, mas que foram sujeitos a situações éticas e profissionais graves que em nada dignificam esta profissão. Torna-se condição essencial que toda a gente saiba de facto o que pode esperar de um especialista desta área e, por outro lado, que saiba reclamar o seu direito a um atendimento clínico de qualidade e alicerçado em profissionalismo.

Quais são as questões mais comuns em consulta e que a preocupam mais?

Atualmente, as problemáticas mais frequentes são a depressão clínica e a perturbação de ansiedade grave, com ou sem ataques de pânico. O que mais me preocupa é o facto de estas patologias aparecerem em idades cada vez mais precoces. Imagine o que seria se sentisse que quer adormecer e nunca mais acordar; que deseja ser colhida por um carro para não ter de ser você mesma a acabar com a vida; que falta aos exames de faculdade porque prefere não os fazer perante a hipótese de tirar má nota; que há muito deixou de sair, pois sente que não tem nada de interessante para dizer; que sente que toda a gente é feliz e você nunca conseguirá sê-lo; ou que ontem esteve pendurada na ponte a decidir se devia saltar e deu-se uma última oportunidade, vir hoje à consulta. São estes os pensamentos e sentimentos que escuto diariamente e refletem o que se passa na mente daqueles que sobrevivem com uma depressão ou perturbação de ansiedade.

Quer também com este livro desmistificar o papel do psicólogo na sociedade e da própria psicologia. O que costuma ouvir?

É importante desmistificar o papel do psicólogo na sociedade, mas mais ainda desmistificar a saúde mental. Foram-se criando alguns mitos acerca das consultas de psicoterapia. Um deles é acharem que o psicólogo irá dar conselhos, opiniões e caminhos a seguir. O psicólogo não dá conselhos, exceto se forem recomendações clínicas, de acordo com o quadro clínico. Não emite opiniões nem diz o caminho a seguir. Se assim fosse, o paciente não precisava de um especialista em saúde mental, bastaria falar com a família e amigos. A arte da verdadeira psicoterapia consiste na capacidade do psicólogo conseguir introduzir técnicas do modelo teórico que utiliza, ativando áreas cerebrais e elicitando mudanças bioquímicas que, consequentemente, levarão a mudanças comportamentais, emocionais, relacionais e estruturais no cérebro do paciente.

Porque sentiu necessidade de escrever sobre esta disciplina?

Fala-se muito de psicoterapia e quase nunca se sabe o que se diz. O meu livro não foi escrito para académicos, mas para o público em geral. A responsabilidade desta disciplina ser menos compreendida não é da sociedade, mas sim daqueles que falam daquilo que não sabem. Tenho a certeza de que, se a sociedade soubesse de facto o que é a psicoterapia e soubesse o que poderia ganhar com ela, os consultórios dos psicólogos ficariam cheios. Os filhos já não desenvolvem uma anorexia nervosa, a mãe aprenderia a ser mãe, o pai aprenderia a ser pai, as profissões eram escolhidas de acordo com o que a pessoa sente e não com o que os outros querem, as urgências dos hospitais deixavam de ser entupidas com casos de perturbações do foro psicológico, reduzindo a despesa pública drasticamente na área da saúde. Os suicídios diminuíam, os profissionais das diversas áreas eram melhores, ninguém aceitaria ficar numa relação tóxica ou de violência – a lista é infinita. Importa salientar que se trata é de um caminho a dois em que o psicólogo irá, além de tratar as patologias, ajudar o paciente a encontrar o seu sentido de vida.

Não haverá sempre recaídas, momentos de descompensação?

Os resultados são eficazes quando a psicoterapia é feita por um psicólogo especialista e se o doente não desistir do processo. Tem de ser o psicólogo a dar alta clínica. Por outro lado, como neuropsicóloga posso afirmar que, depois de ativar áreas cerebrais, o cérebro não perde as capacidades ganhas, só se existir algo externo, por exemplo um AVC ou um tumor cerebral. Todo o trabalho é alicerçado em modelos cientificamente validados, por isso afirmamos que a psicologia é uma ciência. De acordo com o modelo teórico em que me especializei, é uma condição obrigatória fazer um exame psicológico ou neuropsicológico. O psicológo não é mágico e, embora seja formado para diagnosticar, o olho clínico poderá errar. Não deve intervir sem antes avaliar cientificamente a condição psicológica do paciente. A escolha dos testes poderá variar de acordo com a idade e o quadro clínico apresentado. Depois darão origem a um relatório em que é explicado o caso clínico e o que se passa com o paciente, tal como um médico não pode operar um doente sem solicitar exames. Só depois, tendo em conta o quadro clínico apresentado, é que o psicólogo escolhe o tipo de técnicas a utilizar. São esses passos que explico no livro. Se, dentro do consultório, o paciente tivesse elétrodos ligados ao seu cérebro representado num computador (como acontece nos laboratórios de neurociências), poderíamos verificar que a ativação cerebral varia de acordo com as técnicas utilizadas.

Nos últimos anos, procurar ajuda profissional e fazer terapia passou a ter maior visibilidade. Há menos estigma ou ainda existe caminho a percorrer? 

Infelizmente, ainda se pensa que consultar um psicólogo é para “malucos”. Costumo dizer que nós tratamos pessoas que não são doentes mentais mas têm uma doença do foro psicológico, que sofreram traumas, violência ou outras situações que os impediram de crescer de forma emocionalmente equilibrada. Muitos pacientes escondem das suas famílias que fazem psicoterapia. No entanto, os média têm ajudado a desmistificar esta questão com séries televisivas. Várias figuras públicas revelam que recorreram a um psicoterapeuta e acho muito bem que o façam. Os atores, apresentadores e artistas em geral estão sujeitos a uma exposição mediática e nem sempre é fácil lidar com as consequências que daí advêm. Fazer psicoterapia deveria ser entendido como algo natural e um motivo de orgulho. Quem passa por um processo destes não se vê apenas livre da depressão ou da ansiedade, sofre um profundo caminho de crescimento e de autoconsciência que, de outra forma, seria impossível de atingir.

Defende que as pessoas ficam diferentes depois de passarem por processos psicoterapêuticos. Que transformações a têm impressionado mais? 

A pessoa que nos chega à consulta deixa de existir após o processo psicoterapêutico. Já imaginou se, a dada altura da sua vida, começasse a dizer não a quase toda a gente, a ter coragem de dizer às pessoas chatas que são chatas, a assumir os seus sentimentos verdadeiramente, a recusar sair com quem não deseja? No processo psicoterapêutico, o paciente passa por transformações que vão resultar na construção de uma nova identidade, forte, assertiva e emocional, ainda que por vezes pareça egoísta aos olhos dos outros. Mas essa é a verdadeira pessoa, aquela que deveria ter sido sempre.

A quem se destina a psicoterapia? Deve ser encarada como tratamento ou como um “cuidado de higiene mental”, portanto para todos, como defendem alguns autores?

A psicoterapia não se destina apenas àqueles que têm uma doença do foro psicológico. Poderá ser feita por qualquer pessoa. Aliás, para nos ser atribuído o título de especialista avançado em psicoterapia pelo colégio da Ordem dos Psicólogos é obrigatório o próprio psicólogo passar por um processo demorado de psicoterapia que a ordem designa como “desenvolvimento pessoal”. Nos casos em que não existe uma patologia há um caminho de crescimento magnífico que trará consequências positivas em todos os papéis que desempenha: profissional, académico, amoroso, relacional, familiar, entre outros.

A partir de que idade se pode fazer psicoterapia?

Pode ser feita em qualquer idade. Nas crianças dos 0 aos 12/13 anos (depende da maturidade da criança) chama-se ludoterapia e, a partir daí, é psicoterapia. Há psicólogos que se especializam apenas em psicoterapia infantil e outros em adultos.

Por vezes existe a ideia de que mergulhar nas emoções abre quase uma caixa de Pandora. Todos temos traumas? Não há o risco de destapar problemas que não eram relevantes?

Vivemos numa sociedade que educa as suas crianças castrando a sua capacidade de sentir o mundo. Frequentemente, ouvimos os pais dizerem às crianças “não chores que é feio”, “não penses nisso, desvaloriza”, “se te portares mal, não gosto de ti”. Fico perplexa pois, à medida que cresce e fica impregnada com este afastamento emocional de si própria e do mundo real, a criança vê-se mergulhada numa racionalidade extrema que a leva a desenvolver uma neurose. Tendo em conta o que acabei de dizer, tudo o que é dito em consulta é importante. Em cada momento, o cérebro vai descarregando as memórias passadas que escondem medos, inseguranças, sentimentos de inutilidade e desvalorização, tristeza e fobias. Vamos juntos ao fundo da caixa de Pandora. Isto irá permitir ao paciente sentir revolta, desilusão e frustração, que lhe permitirão, finalmente, reclamar para si o direito de se sentir triste, desiludido com as pessoas que julgava serem boas para si e desempenhar apenas e só o seu papel.

Como vê o interesse crescente em torno da descoberta da espiritualidade, a popularidade, por exemplo, da meditação mindfulness, e toda uma indústria em torno da autoajuda? 

É intrínseca a necessidade do ser humano de ter um sentido para a sua vida e, por outro lado, de sentir felicidade. No entanto, essa busca é tão interna e individual como subjetiva. A capacidade de evocar experiências espirituais pode estar relacionada ou não com o contexto religioso. O ser humano precisa de algo que lhe dê a capacidade de acreditar em algo. Este facto veio trazer para a sociedade novas formas de levar este caminho às pessoas, através da autoajuda, da literatura descartável ou milagreira. Na prática clínica diária verifico que o processo psicoterapêutico abre espaço mental no paciente para dar sentido à sua vida e, consequentemente, desenvolver a sua inteligência espiritual. Tal como advoga Damásio, desde que a pessoa esteja equilibrada, a felicidade poderá ocorrer através do desporto, da pintura, da música, da leitura, entre outras atividades. Cada um irá descobrir o que faz sentido para si. O importante é que entendam que, se a pessoa estiver com uma doença do foro psicológico, terá de ser tratada por um especialista da área da psicologia clínica. Os casos clínicos não se tratam com literatura de autoajuda nem com mindfulness.

Mas sente que o psicólogo tem perdido o lugar que tinha, protagonismo?

O psicólogo clínico é, antes do mais, um profissional da área da saúde. Seria muito importante que a sociedade deixasse de brincar com coisas sérias. Reitero as palavras do prof. Quintino Aires no prefácio do meu livro: “As ofertas multiplicam-se, especialmente em workshops e cursos breves que são a nova banha da cobra do séc. xxi”. Costumo dizer que a meditação e as frases de autoajuda descartáveis podem ter algum impacto naqueles que não têm nenhuma doença do foro psicológico. Aliás, nenhum doente com depressão ou ansiedade consegue fazer meditação, porque o seu cérebro está desequilibrado quimicamente e é invadido por milhares de pensamentos que o impedem de relaxar. Sinceramente, o que mais me preocupa são aqueles que, sem qualquer licenciatura em Psicologia Clínica ou Psiquiatria, se intitulam psicoterapeutas. Posso dizer-lhe que temos observado, mesmo nos média, pessoas que falam de casos clínicos na televisão, e se formos ao site da Ordem dos Psicólogos verificamos que os seus nomes não existem enquanto membros efetivos da ordem.

O último estudo feito em Portugal estimou que um terço da população tenha algum problema do foro mental. O país tem um elevado consumo de ansiolíticos e antidepressivos. Há um recurso excessivo a medicação?

A situação é altamente preocupante, não só em Portugal mas um pouco por todo o mundo. A toma de medicação psiquiátrica está a alastrar drasticamente e, na maioria dos casos, as receitas são passadas por médicos de clínica geral. Todos os dias, milhares de crianças vão para a escola medicadas psiquiatricamente simplesmente para ficarem sentadas e não perturbarem as aulas. Os estudos comprovam que é na infância que o cérebro da criança vai desenvolver-se e sofrer ativações neurológicas extraordinárias, não só ao nível cognitivo como relacional, do pensamento e emocional. O que acontecerá se o seu cérebro estiver “adormecido” nestes momentos de desenvolvimento? Estará disponível para aprender ou para se relacionar com o grupo de pares? Chegam-me casos de crianças que vão para a escola completamente dopadas, com suores frios, tremuras, dores físicas, como consequência dos efeitos secundários da medicação. Existem outros estudos que alertam para o facto de existir uma probabilidade maior de uma criança medicada na infância vir a ser um consumidor de drogas na adolescência ou na vida adulta.

Recebe muitos casos em que a medicação foi usada demasiado tempo sem acompanhamento psicológico?

Um caso muito grave que me apareceu foi um jovem de 19 anos que chegou à consulta a tomar 12 comprimidos por dia fixos e dois em SOS. Só ao fim de dois anos foi possível começar a fazer o desmame da medicação. Por outro lado, é muito fácil para os pais aceitar que o filho “resolverá” os seus problemas tomando comprimidos, demitindo-se da sua responsabilidade enquanto pais. A medicação não trata as causas da doença, mascara apenas os sintomas, porque a pessoa deixa de pensar, deixa de ter espírito crítico, vê as suas capacidades cognitivas diminuir (memória, atenção e concentração), o seu discurso fica confuso e incoerente – no fundo, afasta-se do mundo real. A psicoterapia, obviamente feita por um especialista, trata porque vai remover as causas. Costumo dizer que não somos mágicos para alterar o passado, mas vamos conseguir fazer com que esse passado deixe de interferir com o presente.

Quanto custa o acompanhamento por um psicoterapeuta? Está ainda longe de ser algo a que a maioria da população possa ter acesso?

A Ordem dos Psicólogos não estabelece um valor de honorário mínimo nem máximo. Por outro lado, o custo e o tempo de tratamento dependem de cada quadro clínico, por isso não poderei dar uma resposta objetiva. Infelizmente, os ministérios da Saúde não têm investido nesta área, levando a uma quase inexistência de psicólogos clínicos no Sistema Nacional de Saúde, e o caso ainda é mais grave quando falamos da existência de psicólogos especialistas. Qualquer valor que um paciente gaste num tratamento psicoterapêutico é mínimo relativamente à sua cura e à sua oportunidade de ser feliz. Quanto vale a vida de um jovem ou um adulto que comete suicídio e que, se fizesse este tratamento, nunca o faria? A sociedade tem de mudar as suas prioridades.

Que mensagem gostava de transmitir com este livro?

O primeiro objetivo deste livro é desmistificar a saúde mental e que todos aqueles que sofrem com doenças do foro psicológico possam encontrar a cura se consultarem um psicólogo especialista em psicoterapia; por outro lado, mostrar que no cérebro do ser humano existem todas as características e oportunidades para a cura, basta que para isso tenha a coragem de fazer esta viagem para dentro de si; mostrar também que a depressão e a ansiedade não se curam com medicação, pois esta não vai tratar as causas da doença, mas sim camuflar os sintomas, transformando a pessoa num ser dopado e alheio ao mundo.

Na visão do psicoterapeuta, a medicação nunca é necessária?

Nada disso. Há situações em que pode ser necessária, uma depressão clínica muito grave. É importante distinguir duas coisas. Por um lado, há as doenças mentais, doenças que geralmente não têm cura, por exemplo uma esquizofrenia, uma doença bipolar, uma criança autista; ou doenças do foro neurológico, como demências. Aí, obviamente que é necessária medicação. Ninguém imagina que uma pessoa com esquizofrenia não faça medicação, senão vai ter delírios, pode cometer suicídio ou até um homicídio. Nesta vertente é obrigatório ter medicação e são casos que são tratados na área da psiquiatria. Poderão beneficiar da psicoterapia não no sentido de tratar, pois são doenças que não têm cura, mas para diminuir a sintomatologia e para ajudar os doentes a lidarem com as consequências da doença e ajudarem até a família a lidar com o doente, a permitir uma vida o mais equilibrada possível. Do outro lado temos então as doenças do foro psicológico, em que se incluem a depressão, a ansiedade, uma anorexia nervosa, uma bulimia. Quando falamos de perturbações do foro psicológico, se a pessoa fizer psicoterapia não vai precisar de medicação. Mas se chegar medicada ao consultório, não vai deixar logo a medicação. Existe risco clínico. Só o médico é que pode fazer o desmame, em parceria com o psicólogo. A pessoa só poderá deixar a medicação de forma progressiva.

Por vezes ouve-se pessoas a quem os médicos prescrevem antidepressivos ou ansiolíticos mas dizem que não os vão tomar.

Não aconselho ninguém a fazer isso. Se o médico entendeu prescrever a medicação, o doente deve fazê-la. Nos EUA e mesmo em Portugal há alguns psiquiatras que se especializam em psicoterapia, mas não é muito frequente; o mais habitual é o médico usar a abordagem farmacológica. Quando digo que não trata é porque um medicamento, seja antidepressivo, ansiolítico ou antipsicótico, vai atuar ao nível das células nervosas bloqueando a passagem de informação. É quase como fazer um penso a áreas cerebrais. A pessoa fica mais calma, mas não fica tão capaz para lidar com o dia-a-dia. A crianças, não existindo doença mental, não aconselho de todo; devem procurar acompanhamento especializado. Mas é preciso sublinhar que há casos de depressão clínica em que é preferível usar medicação inicialmente e só depois, ao longo do processo psicoterapêutico, iniciar o desmame.

Há perguntas que sejam mais reveladoras nas sessões de psicoterapia? 

Não. Excetuando as questões do foro emocional “o que sentiste quando soubeste que o teu pai morreu?”, “o que sentiste quando estavas prestes a tomar aquela embalagem de comprimidos?”, “o que sentiste quando ele disse que já não te amava?”, o psicoterapeuta abstém-se quase sempre de transformar a consulta num interrogatório. A arte do verdadeiro psicoterapeuta é conseguir, com as técnicas científicas que são introduzidas na conversa psicoterapêutica, ativar áreas cerebrais e produzir neuroquimicamente neurotransmissores que levarão a um alívio progressivo dos sintomas, por exemplo, tristeza, desvalorização, sentimentos de inutilidade, baixa autoestima, pensamentos de acabar com a vida. Por isso posso afirmar que as doenças do foro psicológico têm cura com psicoterapia.

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