Menina é raptada pelos pais e presa um ano num esconderijo – Notícia com declarações de Melanie Tavares do IAC

Julho 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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A notícia contém declarações da Dra. Melanie Tavares, Coordenadora dos Sectores da Actividade Lúdica e da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança.

Notícia e imagem do site Contacto de 15 de julho de 2019.

Paula SANTOS FERREIRA

“A menor, encontrava-se “num espaço exíguo”, disfarçado por “parede falsa, (…) sem luz e quase sem circulação de ar”, disse a polícia do Porto. “Ela deve ter temido pela vida”, frisa a psicóloga.

Durante um ano, uma menina de 13 anos viveu presa, em casa e muitas vezes, num esconderijo exíguo com uma parede falsa, ali mantida pelos seus próprios pais biológicos. Os progenitores de 43 e 44 anos raptaram a filha à família de acolhimento da menina, em Cascais, com quem viveu durante um ano, após ter sido retirada aos pais biológicos.

Como não aceitaram a decisão de ficar sem a filha, sequestraram-na e levaram-na para o Porto, onde a colocaram reclusa, num canto da casa, sem luz.

Quando foi encontrada, “a menor, encontrava-se num esconderijo do quarto, disfarçado por parede falsa, preparado propositadamente, ao que tudo indica, para ali ser ocultada, sempre que alguma autoridade policial ou outra instituição, se aproximavam do imóvel, sendo o espaço exíguo, sem qualquer tipo de luz e quase sem circulação de ar”, relata a PSP de Lisboa, em comunicado divulgado esta manhã e citado pelo Diário de Notícias.

O alerta para o desaparecimento da adolescente, então com 12 anos foi dado pela família de acolhimento à polícia e a PSP iniciou assim a investigação que terminou ontem de manhã com o resgate da adolescente no Porto.

“Foi possível encontrar-se a menor na residência visada, podendo constatar-se que se encontrava confinada à permanência na residência, sem liberdade de movimentos para o exterior, não frequentando a escola no ano lectivo findo”, explica o comando metropolitano de Lisboa, em comunicado. É que a investigação foi liderada pela PSP de Cascais que nas buscas na União das freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde contou com apoio da PSP do Porto e da Unidade Especial de Polícia, também do Porto, onde a adolescente se encontrava raptada.

A menina “encontra-se bem nutrida e, aparentemente, de boa saúde, ficando sob a alçada de técnicos da Segurança Social, assim como outros dois menores que também estavam na residência”, indicam as autoridades policiais. A menina vai agora ser observada por um psicólogo e outros especialistas.

Já os pais biológicos estão a ser ouvidos por um juiz no Tribunal de Cascais, para aplicação das medidas de coação.

Segundo conta o comando metropolitano da PSP de Lisboa, após ser retirada aos pais biológicos e depois de “um período de institucionalização”, a menor tinha participado num processo de adoção, concluído com sucesso, tendo sido acolhida pela família de adoção, nesse momento”. Durante um ano viveu com esta família, até que os pais biológicos a raptaram. Como conta a PSP é então “comunicado o seu desaparecimento por parte dos pais adotivos, iniciando-se as diligências com vista à sua localização, recaindo a suspeita sobre os pais biológicos”.

Esta é uma forma de “agressão muito primitiva”

A psicóloga Melanie Tavares do Instituto de Apoio à Criança (IAC), em Lisboa, considera que o sequestro destes pais à sua própria filha e como a mantiveram em cativeiro é “uma forma de maus-tratos terrível”, “uma agressão muito primitiva”  e que lhe terá causado grande sofrimento e “angústias”.

“Eles privaram-na de todas as formas de liberdade, desde o espaço físico, tendo ficado confinada à casa e ao esconderijo, sem socializar, sem relação entre os seus pares, sem a relação com a sua família de acolhimento. É terrível o que estes progenitores fizeram”, vinca ao Contacto esta especialista que é coordenadora do Setor de Humanização dos Serviços de Atendimento e do Setor de Atividade Lúdica do IAC.

Esta menina, segundo Melanie Tavares vai muito provavelmente “sofrer de stress pós-traumático” e “terá de ser tratada”, senão será muito grave.

E, no seu entender, não seria de estranhar, dada toda “esta agressão” que a jovem poderá ter também “sofrido agressões físicas”. É muito provável que se tenha insurgido por estar presa. Nestas idades, acrescenta a psicóloga as jovens sofrem angústias quanto à morte e “na situação em que se encontrava “ela deve ter temido pela própria vida”.

Agora que já foi retirada a estes pais e acabou o sofrimento de um longo ano de sequestro, Melanie Tavares defende que a menina deveria voltar para a família de acolhimento, retomar a vida na escola, com as amigas, mas ao mesmo tempo ser acompanhada por especialistas, para conseguir lidar com tudo o que passou. “Quando os pais se revelam desta maneira fica-se com uma dor muito profunda, porque no fundo, são os nossos pais”, considera esta especialista.

Surdos não são mudos: as palavras de Maria são um manual contra a ignorância

Julho 16, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 30 de agosto de 2018.

Quando a intérprete de Língua Gestual Portuguesa (LGP) da escola de Maria Oliveira entrou de licença de maternidade, não houve ninguém que a substituísse. Depois de uma reclamação, o caso acabou por se resolver, mas o episódio, ocorrido neste ano lectivo, o 12.º para Maria, é um dos casos de discriminação que a transmontana de 18 anos recorda.  Foi por esse e outros exemplos — a falta de intérpretes no Serviço Nacional de Saúde é possivelmente o mais gritante — que Maria decidiu que devia fazer algo, contou ao P3.

Num vídeo com quase oito minutos, confronta os preconceitos e ignorância dos ouvintes em relação à comunidade surda numa tentativa de tornar as mentalidades “mais abertas”. E uma das primeiras lições é repetir que os surdos não são mudos, como é costume ouvir-se dizer. “Vocês querem que eu grite?”, desafia a estudante, para logo de seguida provar que tem voz: “O meu nome é Maria”, ouve-se. A primeira língua dela foi a LGP, mas a partir dos três anos aprendeu também português. “Sou bilingue”, diz, deixando mais uma informação que muitos parecem ainda não ter apreendido: a LGP é uma língua, não uma linguagem. Maria Oliveira tem um implante coclear. Na escola, chegou a tocar flauta e violino. Já fez ballet. Recentemente, completou estágios na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Lamego e no Museu do Douro. Fez provas de aptidão profissional com o tema “acessibilidade para o mundo surdo” e por estes dias espera os resultados das colocações na universidade: a sua primeira opção é a licenciatura em Comunicação e Design Multimédia em Coimbra.

Já muito foi feito para melhorar as acessibilidades para surdos, diz Maria Oliveira. Já há intérpretes de LGP nas escolas, universidades, museus e concertos, já há músicas traduzidas no YouTube, exemplifica. Mas o caminho por percorrer é ainda longo — nas escolas, continua a ensinar-se inglês, francês, espanhol e outras línguas. E se LGP também fosse parte do currículo de todos e fosse a “segunda língua oficial do país”? Não sairiam todos a ganhar? “Muitas pessoas dizem que não pareço surda”, conta Maria num vídeo que fez sozinha: “Precisa ter cara de que pareço surda?”, questiona. Há barreiras de comunicação, sim. Há dificuldades extra. Mas não são pessoas diferentes de todas as outras. E há coisas que todos podemos e devemos saber. Se a aposta na LGP e o esforço dos ouvintes aumentar, acredita, já muito muda. O vídeo de Maria, qual manual de combate à ignorância e preconceito, pode ser um bom começo.

 

 

Retenção escolar: que consequências para a criança?

Julho 16, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Photo by Santi Vedrí on Unsplash

Notícia do Lifestyle Sapo

Na maior parte dos países da OCDE, a repetência é uma prática restrita e apenas aplicada nos anos mais avançados de escolaridade.

Aos 5 anos, Duarte já ia à escola e só em Dezembro completava os 6.  Era o mais novo da turma, com quase menos 1 ano do que os colegas. Os pais ainda hesitaram na hora da matrícula. Sentiam que ainda não tinha maturidade suficiente, nem capacidade de aquisição de conteúdos num formato formal. Mesmo assim, aconselhados por familiares e amigos, decidiram arriscar, relativizando todas as dificuldades evidenciadas. Hoje, a poucos dias do fim do ano letivo, assumem arrependimento.

Tal como os pais temiam, Duarte ainda não tinha atingido um nível de  desenvolvimento que lhe permitisse enfrentar com sucesso o desafio de iniciar o seu percurso escolar. Tinham razão… o filho precisava de mais tempo. Era uma criança que tinha dificuldade em lidar com tarefas difíceis, que não lidava bem com a pressão para ser mais rápida e despachada e ainda pouco adaptada à nova realidade. Isso refletia-se nas avaliações e os comentários da professora também indicavam dificuldades. Esse fraco desempenho escolar desencadeou outras questões que não podem nem devem ser desvalorizados: perdeu confiança, autoestima e interesse escolar. Isolou-se. Duarte sentia que não conseguia acompanhar o ritmo dos colegas.

Não é por acaso que na Finlândia, por exemplo, as crianças não vão para a escola nem aos 5 anos, nem aos 6, mas apenas aos 7 anos, garantindo, assim que, quando começam a aprender a ler, a escrever e a dar os primeiros passos na matemática, já dispõem da maturação cognitiva necessária para uma aprendizagem bem sucedida. São, regra geral, crianças mais confiantes, maduras e autónomas.  É certo que começam mais tarde, mas a experiência mostra que aprendem mais depressa e que aos 10 anos já atingiram, e até superaram, o nível de conhecimento de muitos alunos que entraram bem mais cedo na escola.

No caso do Duarte e perante as suas dificuldades, impõe-se a questão: Será que o Duarte deve transitar para o segundo ano?

O tema não é, todavia, consensual. Na verdade é bastante controverso. E, assim, apesar de este ter revelado um ritmo de aprendizagem diferente, segundo as regras do ministério da educação, o Duarte acabará por transitar para o segundo ano.

Fa-lo-á, certamente, como aconteceu com outras crianças e, eventualmente, sem qualquer plano individual de acompanhamento que o ajude a suprir as competências não adquiridas. E, sem medidas de apoio adaptadas às suas necessidades, a família teme que as dificuldades de Duarte se agravem no 2º ano.

Os níveis de retenção no 1º ano são nulos em Portugal, por imposição legal. Será que faz sentido que assim continue? A retenção no 1º ano, em alguns casos específicos, não pode trazer mais benefícios do que desvantagens? Repetir o ano é uma alternativa pior do que passar sem estar preparado? Não será mais difícil para Duarte enfrentar resultados negativos em todas as fichas e trabalhos durante o ano letivo subsequente em vez de ficar retido? O que pesará mais em termos da própria autoestima?

Na maior parte dos países da OCDE, a repetência é uma prática restrita e apenas aplicada nos anos mais avançados de escolaridade. Identificam-se, nestes casos, consequências negativas tanto para a realização escolar dos alunos, como para o próprio sistema de ensino.

Investigações nacionais e internacionais referem a retenção como uma medida ineficaz. Consideram que as crianças retidas numa idade precoce apresentam autoconceitos diminuídos e desenvolvem atitudes negativas perante a escola. Defendem que não contribui para a recuperação da aprendizagem.

A Unesco, por exemplo, publicou um documento em 2015, segundo o qual a reprovação do aluno pode provocar “problemas de estigmatização e motivação”. Ou seja, deve ser encarada como um último recurso.

Não há, todavia, uma regra, lembram os especialistas. Cada criança é única. Cada caso é um caso e deve ser avaliado de forma individual. Nunca esquecer, por exemplo que, como lembram alguns professores, muitas crianças sem dificuldades de aprendizagem não conseguem obter aproveitamento escolar por questões por vezes associadas a falta de apoio familiar e a dificuldades financeiras. E essa desigualdade socioeconómica não merece ser castigada pelo sistema de ensino através das retenções. Seria, neste caso, prejudicar, dizem, as crianças vindas de meios mais desfavorecidos.

Por outro lado, todos os anos, mais de dez mil alunos acabam por reprovar no segundo ano de escolaridade, por volta dos 7 anos de idade. Para diminuir estes números, o diagnóstico e a intervenção precoce são fundamentais, sobretudo logo quando surgem os primeiros sinais de dificuldades de aprendizagem, o que pode mesmo acontecer já desde o ensino pré-escolar.

Existem assim outras respostas, que visam criar uma alternativa à retenção, desenvolvendo um trabalho de “recuperação” que permita superar as dificuldades de aprendizagem dos alunos.  Em primeiro lugar, surge o despiste e o diagnóstico precoce. Em segundo, pretende-se dar mais tempo para a aprendizagem através da otimização e da reeducação de competências, proporcionando também uma maior diversificação dos meios e procedimentos didáticos e pedagógicos, através de um acompanhamento individualizado, dentro ou fora da escola, para responder às dificuldades específicas de cada criança.

De facto, pensando que o objetivo da retenção escolar é permitir que os alunos se situem num nível de aprendizagem mais próximo do seu, é fundamental que também se considerem os possíveis efeitos negativos quer ao nível emocional, quer ao nível comportamental.


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