“Diante de um ecrã a criança transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora”

Julho 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Catherine L’Ecuyer ao Observador de 13 de julho de 2019.

Tânia Pereirinha

Ou seja, transforma-se num ser amorfo, que em vez de agir, reage — ou nem isso. Quem o diz é Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”.

Canadiana a viver em Barcelona, tem um currículo que impressiona, desde os artigos académicos mais famosos à coluna de opinião no El País, passando pelos livros feitos bestsellers internacionais ou pelo doutoramento acabado de concluir em Educação e Psicologia. Ainda assim, não é por “Educar na Curiosidade” ter sido traduzido em oito línguas, incluindo português, e ir já na 25ª edição em Espanha, que Catherine L’Ecuyer é uma sumidade na matéria.

Só por isso, seria considerada “especialista”. Sobe para o degrau acima porque, além de estudar a fundo o tema, é também mãe, de quatro filhos, de 14, 13, 11 e 8 anos. E, garante ao Observador, é uma mãe que pratica em casa aquilo que advoga na vida profissional.

Quando o assunto são as novas tecnologias é peremptória: antes dos 2 anos nenhuma criança deve ser exposta a qualquer tipo de ecrã e o uso de telemóveis deve ser atrasado ao máximo, sendo que o máximo pode muito bem ser a chegada à idade adulta.

Fácil falar, difícil fazer? Assegura que não e revela que na sua própria casa não há tablets, videojogos, ou smartphones: “Temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que [os meus filhos] utilizam quando necessitam”.

Explica que não é uma questão apenas educativa, mas também pediátrica: o uso das novas tecnologias por bebés, crianças e adolescentes pode ter efeitos críticos nas diferentes fases do desenvolvimento, para além de ainda poder potenciar outro tipo de consequências. “Atrás de um ecrã as crianças e os jovens desinibem-se e dizem coisas que não diriam cara a cara, mostram partes do corpo que na vida real nunca mostrariam”, exemplifica.

Nos Estados Unidos, cientes disto mesmo, são cada vez mais os pais a atrasar deliberadamente a idade com que dão smartphones aos filhos, existindo até movimentos organizados nesse sentido, como o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º), uma espécie de juramento que os pais podem fazer online em nome dos filhos, numa lógica de a união faz a força — já para não dizer que também diminui a pressão social. Outros pais americanos, admitindo a sua incapacidade para educarem sem tecnologia, estão por seu turno a esgotar as agendas dos “consultores de tempo de ecrã”, os mais novos especialistas na matéria, acabados de chegar, aproveitando o nicho de mercado.

Em Portugal recentemente, para dar uma conferência sobre a forma como as novas tecnologias estão a influenciar a capacidade de atenção das crianças, Catherine L’Ecuyer respondeu às perguntas do Observador sobre o tema e deixou pistas para pais e educadores.

Acha que aquelas imagens caleidoscópicas dos canais para bebés fazem maravilhas a acalmar o seu filho de meses? Tem a certeza de que tablets e televisões são coisas completamente diferentes? Acredita que o seu filho tem uma inteligência acima da média porque nenhuma criança da mesma idade poderá algum dia ser capaz de mexer tão bem num smartphone? Esta entrevista é para si.

Falemos de tecnologia, mas vamos por idades. Basta sair para jantar para ver bebés de meses que só comem diante de um ecrã. Outros, assim que conseguem sentar-se ou até antes disso, são deixados em frente à televisão. Que efeitos pode ter a exposição precoce a este tipo de estímulos visuais no cérebro e no comportamento dos bebés?
A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadiana de Pediatria recomendam que as crianças até aos 2 anos não vejam qualquer tipo de ecrãs, devido ao risco que acarretam nesse período crítico de desenvolvimento. Não é uma recomendação educativa, mas sim pediátrica. Os estudos associam a exposição a ecrãs nessa idade com a desatenção, a impulsividade, a redução do vocabulário, o défice de aprendizagem, etc. O cérebro habitua-se a um ritmo que não existe no  mundo real, logo a criança não está adaptada à realidade, que é lenta.

O que se passa a partir dessa idade, biológica e emocionalmente, para que essa exposição passe a ser “permitida”?
Estas mesmas associações pediátricas recomendam que as crianças entre os 2 e os 5 anos vejam menos de uma hora por dia, por que nessas idades o cérebro continua a estar num período crítico de desenvolvimento. Entre os 2 e os 5 há menos riscos, mas não convém estar a criar este tipo de necessidade. Como diz a Associação Canadiana de Pediatria, “não há provas de que os ecrãs sejam benéficos”.

Mas uma televisão não é o mesmo que um tablet, pois não? Um é preferível ao outro? Quais são as diferenças de efeitos entre o uso passivo e ativo das tecnologias em cérebros tão jovens?
A investigação é cara e morosa. Por isso mesmo, tem sempre um atraso em relação às inovações tecnológicas, que rapidamente se tornam obsoletas e dão lugar a produtos diferentes a cada ano. Em 2014, Dimitri Christakis (o especialista internacional nos efeitos dos ecrãs nas crianças) publicou um artigo em que questionava a comunidade científica sobre se o tablet seria diferente da televisão, precisamente por causa da sua natureza interativa. O artigo não dava respostas, fazia perguntas. Há estudos desse ano que demonstram que o tablet não é menos prejudicial do que a televisão; até é mais viciante porque é interativo. O tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora. A criança ainda não desenvolveu as suas capacidades de inibição e atenção, o seu locus de controlo é externo.

O  que significa isso?
O locus de controlo é o lugar a partir do qual uma pessoa acredita que as suas ações são controladas. Se é externo, a pessoa acredita que a sua ação é condicionada pelo ambiente, pela sociedade, pelos outros. Se é interno, a pessoa sente que tem controlo (capacidade de inibir, moderar, tomar a iniciativa, planear, etc) sobre as suas ações, pelo que age em consciência e de forma responsável.

Existe a ideia de que os cérebros das crianças devem ser estimulados e “trabalhados” desde cedo, sob pena de se fechar a “janela de oportunidade”. É especialmente crítica desta teoria. Porquê?
Não é uma opinião. A ideia de que é preciso enriquecer o ambiente durante os primeiros anos de vida para não perder a oportunidade de aprendizagem é um neuromito. Um neuromito é uma má interpretação da literatura em neurociência. Há períodos críticos (janelas de oportunidade irrepetíveis) para o desenvolvimento, mas não para a aprendizagem. Mais nem sempre é sinónimo de melhor. A aprendizagem é um processo lento que deve acontecer ao ritmo da criança. Estudos sobre apego indicam que as crianças não precisam de um bombardeamento sensorial, mas sim de interação de qualidade com o seu cuidador principal.

Outro conceito que não lhe é propriamente caro é o que se refere a esta geração como “nativa digital”. Acredita que existe um “plano” por trás disto? Que as empresas tecnológicas, por um lado, constroem os produtos de forma a serem facilmente utilizados pelas crianças; e por outro plantam na mente dos pais a ideia de que a capacidade de manusear a tecnologia é não só uma prova de inteligência dos filhos mas também uma ferramenta capaz de aumentar ainda mais essa inteligência?
O nativo digital é definido como aquele que, nascendo na era digital, está habituado a receber e a processar informações de uma forma que alguém que nasceu antes dessa época (o chamado Imigrante Digital) não consegue. De acordo com essa “hipótese”, os nativos digitais terão vantagens cognitivas que afetarão positivamente a sua aprendizagem, em relação à da geração que os precede, como por exemplo no que diz respeito à multitarefa tecnológica. Apesar da popularidade desta ideia, os estudos dizem que o conceito de nativo digital é sobrevalorizado. Embora demonstrem grande familiaridade e agilidade técnica com a tecnologia, os jovens também dependem demasiado dos motores de busca e não têm competências críticas e analíticas para perceberem o valor e a originalidade da informação que existe na rede. Concluindo: os estudos dizem que a chamada “Geração do Google” não tem o nível de alfabetização digital que lhe tem sido atribuído e que ao próprio conceito falta uma base científica. A crença de que uma pessoa nascida na era tecnológica tem mais habilidades cognitivas para o uso da tecnologia é um mito. E a multitarefa tecnológica também. Se o teu filho aprende a usar um smartphone em minutos não é porque é um génio, mas porque o engenheiro que o desenhou é muito inteligente.

O que é isso da multitarefa tecnológica?
É o ato de fazer muitas coisas que requerem o processamento de informação no âmbito tecnológico ao mesmo tempo. É um mito, a neurociência garante que não podemos realizar em simultâneo várias tarefas que requeiram o processamento de informação. Quando tentamos fazê-lo, o que acontece é que desempenhamos essas tarefas em paralelo e vamos oscilando entre todas elas.

Existem ou não diferenças cerebrais entre as crianças de hoje, que têm toda a informação do mundo à distância de um clique, e os dos seus pais, que quando queriam saber alguma coisa tinham de se dedicar e procurar em livros ou enciclopédias?  
As crianças de hoje aprendem da mesma forma que as de antigamente. Há permanências antropológicas. As previsões alarmistas de que a tecnologia estaria a reestruturar os nossos cérebros (“rewiring our brains”, em inglês) também não têm fundamento científico. Ainda assim, tal como avisa o Conselho Inter-Americano para o Desenvolvimento Integral, a plasticidade tem os seus limites, pelo que a tensão a que uma pessoa está sujeita só é possível dentro de alguns limites, para além dos quais os estímulos podem provocar alterações capazes de comprometer a sua integridade e, consequentemente, a sua aprendizagem. Isto é confirmado pelas evidências que relacionam a multitarefa tecnológica com a diminuição das funções executivas (atenção, capacidade para inibir estímulos externos, etc.). E também pelas evidências que relacionam hiper-estimulação e desatenção. Nas crianças estes efeitos são mais agudos, porque estão num período crítico de desenvolvimento.

Centremo-nos nas crianças entre os 6 e os 12. Há boa e má tecnologia? Que regras ou limites aconselharia nestas idades?
A tecnologia tem de adaptar-se ao ritmo interno da criança, não pode substituir as relações interpessoais reais e não deve veicular conteúdos violentos ou inadequados. A criança tem de desenvolver os seus sentidos de intimidade, privacidade, força, moderação e relevância e a sua capacidade de inibição antes de entrar no mundo virtual. Não é possível desenvolver a noção de intimidade nas redes, por exemplo. A melhor preparação para o mundo online é o mundo offline.

Bem sei que o ideal seria que os consumos fossem sempre acompanhados ou pelo menos supervisionados pelos pais, mas com as vidas atuais isso é praticamente impossível. Que estratégias aconselha a pais e educadores?
Os ecrãs são as amas do século XXI. Temos de oferecer alternativas de qualidade aos nossos filhos: música, desporto, amizades, brincadeiras, natureza, etc. Acreditamos mesmo que estes dispositivos lhes melhoram a qualidade de vida? Nunca houve tantas adições tecnológicas, tanto consumo de pornografia na infância. Tudo na sua medida e no seu devido tempo. Quando atrasamos o uso do smartphone, damos-lhes o luxo das interações pessoais e a oportunidade de fortalecerem qualidades que mais tarde lhes permitirão utilizar estes dispositivos de forma responsável. Um smartphone é um luxo. Por que motivo havemos de lhes comprar luxos?

Caso já tenham comprado esse “luxo”, como podem os pais limitar ou supervisionar o seu uso?  
Não há problema nenhum em atrasar a idade de uso. Eles vão dizer que toda a gente tem e que vão ficar de fora de tudo. Primeiro, é preciso ajudá-los a perceber as estatísticas, nem sempre é garantido que todos têm mesmo. Depois, mesmo que muitos tenham de facto, isso não é um argumento educativo. Muitas crianças consomem pornografia e embebedam-se e isso não é uma justificação para permitir que os seus filhos o façam.

Tem quatro filhos. É essa a estratégia que usa com eles, em casa?
Não sou uma mãe perfeita, pelo que aquilo que fazemos não é “a” solução. Cada família é um mundo e cada pai e mãe é no limite responsável pelas suas decisões. Em nossa casa há uma televisão que só serve para ver filmes selecionados. Temos dois computadores que são usados em espaços de passagem, para o meu trabalho e para o do meu marido. Os nossos filhos não têm videojogos, nem tablets, e só temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que utilizam quando necessitam. Mas damos-lhes mil alternativas aos ecrãs: passeios, pesca, desporto, música, viagens, natureza, conversas, leitura, etc. Não podemos proibir só por proibir. Temos de dar-lhes alternativas de qualidade.

Há cada vez mais escolas a apostar no uso das tecnologias para ensinar. Paradoxalmente, diz que Steve Jobs, tal como a maioria dos executivos de Silicon Valley, põem os filhos em escolas tradicionais. É mesmo assim? Por que acha que isto acontece?
Os CEOs das empresas tecnológicas de Silicon Valley vendem tablets às escolas públicas da zona, mas têm os filhos em colégios privados que não os utilizam. Eles sabem que não existem estudos que apoiem o uso da tecnologia em sala de aula. Aliás, sabem que o que há são estudos que dizem o contrário. O tablet é parte de uma estratégia de marketing educativo. A novidade é um conceito essencialmente comercial, não educativo.

O que dizem exatamente esses estudos que vão contra o uso de tablets na escola?
Essa pergunta é demasiado complexa para ser respondida assim. Aquilo que posso afirmar é que não existe atualmente um conjunto de estudos que apoiem o uso de tablets na sala de aula. Não há um conjunto de estudos que estabeleça um benefício entre o uso de tablets e uma melhoria no desempenho académico e nas oportunidades de emprego.

Tempos de atenção cada vez mais curtos, dificuldades de concentração, incapacidade de desenvolvimento de pensamento lógico. Diria que estas expressões descrevem de algum modo a geração adolescente atual? Que papel desempenham as novas tecnologias neste quadro?
Como diz [a romancista americana] Meg Wolitzer, esta é a geração que tem manteiga mas não tem pão. A quem falta o contexto que dá sentido às aprendizagens. O contexto não se encontra na Internet, mas no mundo real. O professor é fundamental, precisamente porque dá esse contexto, torna a aprendizagem “significativa”. Por mais sofisticados que sejam os algoritmos, a educação será sempre uma questão profundamente humana e não tecnológica.

Fala-se muito em dependência e adição às novas tecnologias. Há idades mais permeáveis a isto, no que respeita às fases de desenvolvimento cerebral ou comportamental? A que sinais de alerta devem os pais estar atentos?
Muitas dessas tecnologias estão desenhadas para criarem adição. Quem trabalha nas empresas que as fabricam admite isso mesmo. Não existem estratégias para mitigar esses efeitos em mentes imaturas. Se nos custa a nós, que somos adultos, como é que não vai custar-lhes a eles? Quando uma criança mente para poder consumir tecnologia, está viciada. Mas quando isso acontece, já é um pouco tarde para fazer marcha-atrás. Eu defendo a prevenção: atrasar a idade de uso.

Meninos de rua “agredidos e obrigados a limpar quartéis da polícia angolana”

Julho 26, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Euronews de 12 de julho de 2019.

É mais uma noite passada nas ruas. Dois miúdos Estiveram acordados até tarde e quando se levantam Luanda já “mexe”. É a azáfama de mais um dia de semana. Como qualquer outra metrópole, a noite na capital angolana está rodeada de perigos, em especial para crianças que fazem das ruas a sua casa.

As ameaças podem surgir de estranhos – o tráfico humano é uma realidade – ou até mesmo da rivalidade nos grupos. Apesar de enfrentarem a mesma condição, as crianças que vivem na rua meninos competem entre si.

O problema é quando a própria polícia, que os devia proteger, lhes bate e obriga a limpar as esquadras, pelos de acordo com os próprios meninos que vivem nas ruas.

“Nós estamos a dormir quando eles chegam e nos batem e nos levam, de carrinha, para a esquadra onde somos obrigados a lavar o chão e as casas de banho”, diz um rapaz.

Agredidos e obrigados a limpar casas de banho… Neste caso, tratar-se-á da esquadra do Primeiro de Maio, bem no coração de Luanda. E de acordo com os relatos não será a primeira vez.

Contactámos o comando da Polícia Nacional Angolana para obter uma reação sobre as acusações. Abusos que também terão ocorrido da Esquadra de Cacuaco, no norte da capital, de acordo com as denúncias que a Euronews recebeu.

“Vamos averiguar. Acreditamos que nalguma circunstância terá havido algum excesso por parte dos nossos agentes e seria bom, para que essas denúncias tivessem efetivo tratamento, fossem formalizadas para que sere desencadeada a responsabilização desses agentes”, explica o Intendente Mateus de Lemos Rodrigues, porta-voz da Polícia Nacional de Angola.

Algumas instituições de apoio a estas crianças contaram à Euronews, já terem escrito à Polícia a denunciar os abusos mas não receberam qualquer resposta. Gostariam que fosse feito um trabalho conjunto para minimizar o problema.

“Nós temos recebido esses relatos e por vezes tentamos mediar para resolver estes problemas. Agora, essas situações têm sido menos frequentes mas na realidade, retirá-los das ruas de forma compulsiva não é estar a resolver o problema. Bem pelo contrário, agrava o problema. Fica difícil trabalhar com eles, pois às vezes estão cansados por terem estado acordados durante a noite ou por terem sido colocados num local mais distante. E depois também há o facto de serem dispersados e criarem novos grupos noutros locais”, explica Adjaime de Freitas, Coordenador da Rede Salesiana Dom Bosco em Luanda.

De acordo com uma pesquisa recente, em quatro meses no ano passado foram registadas 465 crianças de rua apenas em Luanda. Oitenta por cento dos miúdos que fazem das ruas uma casa já foram, de alguma forma, abordados pela polícia.

Para alguns destes jovens, o problema parece agravar-se. “Há mais. Antes havia menos. Mas agora parece haver cada mais miúdos que vêm aqui com roubos e depois culpam-nos”, diz um outro miúdo com quem falámos.

As regras da rua são duras e a Polícia está atenta a criminalidade nestes grupos. Violência e droga fazem parte do ambiente. Muitos dos miúdos têm acesso a droga, a mais comum é gasolina, um meio para fugirem da realidade, anestesiar dores corporais, como feridas por exemplo ou simplesmente fazerem parte de um grupo.

O intendente Mateus Lemos Rodrigues adiantou ser “preciso caracterizar e distinguir os miúdos. Há alguns meninos que vivem na rua por pura necessidade mas há outros que vivem na rua e causam inúmeros transtornos, consomem substâncias entorpecentes e após esse consumo, causam situações de alteração da ordem pública, colocando em causa a segurança de outros menores, de transeuntes e outras pessoas”, explica.

Se durante o tempo da guerra, muitos miúdos procuravam abrigo na capital, agora os motivos são distintos. “As principais causas são acusações de feitiçaria, existem muitos miúdos nas ruas por causa deste tipo de acusações. A segunda causa é o nível de pobreza que muitas famílias. Depois temos a maior causa, que é a desestruturação familiar”, explica Adjaime de Freitas, da ONG VIS.

Para algumas crianças, a rua deixou de ser opção, acordam sob um teto e recebem cuidados. Parte da Rede Salesiana de Dom Bosco, a ONG italiana VIS – Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento tem um programa para acolher e recuperar centenas destes miúdos que serão os homens de amanhã.

A Conferência Episcopal italiana, a Cooperação Italiana e a União Europeia são dos principais financiadores.

A adaptação nos centros de acolhimento pode ser difícil. Habituados à liberdade das ruas, algumas crianças desistem e regressam às ruas. Mas de acordo com a ONG VIS, isso não significa que não gostariam de ser acolhidos. Por vezes, as condições de integração são mais exigentes e são necessários mais meios.

A prioridade é devolver a crianças às famílias mas se a reintegração falhar, a VIS conta opções para não deixar cair os jovens – acolhimento e formação profissional.

O desporto é uma das atividades favoritas. O torneio, o Inter Campus, tem o apoio do Inter de Milão, e onde participam miúdos de alguns dos bairros mais desfavorecidos de Luanda, incluindo das casas da VIS.

Todas as crianças de rua com quem a Euronews falou e mesmo as que já estão encaminhadas, todas

têm um sonho. Muitas contam que gostariam de ser desde engenheiros de petróleo, engenheiros de diamantes a bombeiros, polícias ou futebolistas.

Em todos, os casos, há muitos sonhos.

Journalist name • Michel Santos

Porque “nunca passamos tempo suficiente com os nossos avós”

Julho 26, 2019 às 10:30 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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©Sujata Setia

Texto do Público de 26 de julho de 2019.

“É uma pena”: a fotógrafa indiana Sujata Setia não guarda nenhuma fotografia dos seus avós. “Quando era pequena, não tinha noção da importância do laço que partilhava com os meus avós”, disse ao P3, em entrevista por e-mail a partir de Londres, onde reside há dez anos. “Tinha-os como garantidos. Hoje tenho uma filha e vejo-a a cometer o mesmo erro. Não é bem um erro, é uma característica da idade. Uma criança não tem preocupações relativamente ao futuro e não pensa nas relações da mesma forma que um adulto, nem mesmo aquelas que são mesmo importantes, e quando elas terminam sobra apenas uma coisa: arrependimento. Devia ter passado mais tempo com eles. Nunca passamos tempo suficiente com os nossos avós.” Sujata sente a falta deles, mas não guarda nenhum objecto que materialize a sua memória, que seja “tangível”, explica.

Esta série de retratos surge como forma de Sujata recriar os momentos que viveu com os avós. E a forma como o faz é, no mínimo, inusitada. Por vezes, a fotógrafa aborda pessoas externas ao seu ciclo de amigos e conhecidos e oferece-se para retratar, simplesmente, momentos felizes entre avós e netos. É um presente que decide dar a pessoas desconhecidas e que, tem a certeza, será apreciado no futuro. Porque nunca passamos tempo suficiente com os nossos avós.

Marcelo promulga diploma que reforça regras de proteção à parentalidade

Julho 26, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 23 de julho de 2019.

Novas regras que dão aos pais uma licença de parentalidade de 20 dias úteis, seguidos ou intercalados, foram aceites pelo Presidente da República.

O Presidente da República promulgou esta terça-feira o diploma que reforça a proteção na parentalidade e estabelece novas regras para as licenças neste âmbito.

Em maio a Assembleia da República aprovou por unanimidade as novas regras vertidas num texto final que juntou contributos de vários partidos e do parlamento regional madeirense.

No texto final, consagra-se a obrigatoriedade de os pais gozarem de uma licença de 20 dias úteis, seguidos ou intercalados, nas seis semanas seguintes ao nascimento, cinco dos quais imediatamente a seguir.

O pai tem direito a mais cinco dias úteis desde que os goze em simultâneo com a licença inicial da mãe.

Para proteger os direitos das mulheres que trabalham e engravidam, os patrões ficam obrigados a comunicar à entidade que promove a igualdade de oportunidades no trabalho sempre que não renovem os contratos de trabalhadoras que estejam grávidas, depois de darem à luz, enquanto amamentem ou estejam a gozar licença parental.

Fica ainda estabelecido que ninguém pode ser discriminado por exercer os seus direitos de parentalidade, seja na progressão na carreira seja na atribuição de prémios de assiduidade e produtividade.

No caso de crianças nascidas prematuramente (até 33 semanas) ou que precisem de cuidados neonatais em internamento, ambos os progenitores têm direito a prolongar a licença durante todo o internamento e até 30 dias após a alta, pagos a 100 por cento.

As licenças para cuidar de filhos com cancro, doença crónica ou deficiência são estabelecidas em seis meses, prorrogáveis até quatro anos, pagas a 65%.

Para os trabalhadores das regiões autónomas, ficaram salvaguardadas as deslocações para ilhas fora da residência para partos ou acompanhamento médico, que não contam para a contagem dos períodos da licença de parentalidade.

No documento estabelece-se que as referências a “pai” e “mãe” se aplicam aos titulares dos direitos de parentalidade, mesmo tratando-se de casais do mesmo sexo.


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