As crianças devem ver as notícias?

Janeiro 23, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias magazine de 20 de dezembro de 2018.

Com os miúdos na sala, à hora do noticiário, a televisão deve estar ligada ou desligada? Os pais hesitam entre a vontade de as poupar às más notícias e a violência e a noção de que vedar-lhes o acesso à realidade pode não ser a melhor solução. A resposta parece ser supervisionar e mediar, mas sem ocultar nem proibir.

Texto de Sofia Teixeira | Ilustração de Shutterstock

Ver os noticiários é um desafio ao otimismo: guerra, terrorismo, fome, desemprego, violência doméstica, incêndios, cheias, tempestades tropicais. Mas é uma das formas que temos de estar informados acerca do que se passa no mundo. O que fazer, no entanto, em relação às crianças?

Devemos deixar que estejam na sala quando está a dar o telejornal, começar desde cedo a chamar‑lhes a atenção para as notícias ou, até certa idade, elas passam melhor sem saber que o mundo, por vezes, é um lugar um pouco menos simpático do que a casa em que vivem e a escola que frequentam?

Em casa de Patrícia Silva e das filhas, Carolina e Rute, de 10 e 3 anos, não há televisão ligada nos noticiários quando elas estão por perto. A mãe é perentória em relação a isso: “Não deixo que vejam: há sempre imagens e assuntos que não considero adequados para elas2, defende. Reconhece que a mais velha, com 10 anos, já deve começar a estar informada, mas como o mundo às vezes é tão feio prefere poupá‑la por enquanto.

“Ela é muito sensível e já não era a primeira vez que ficava mesmo muito impressionada com notícias. Na verdade, até eu própria evito ver algumas coisas”, confessa. “Se estivermos num sítio público não peço para desligarem a televisão nem saio do espaço por causa disso, mas em casa a televisão está formatada para canais infantis.”

Não era a primeira vez que uma televisão ligada lhe dava problemas que não sabia bem como resolver. “Há uns tempos viu uma notícia sobre uma violação. Como é que eu explico a uma criança de 10 anos o que é uma violação? Disse‑lhe que um senhor desconhecido tinha obrigado a menina a dar‑lhe beijos na boca, como os namorados fazem. Mas até com isso a miúda ficou impressionada. Não parava de perguntar porque é que senhora não lhe bateu e fugiu.”

A psicóloga clínica Cláudia Madeira Pereira entende que não há uma única resposta adequada a esta dúvida dos pais – deixar ou não ver? – nem uma idade que se possa ou deva fixar como baliza entre uma coisa e outra. “A prática clínica mostra‑me que, independentemente da idade, do nível de desenvolvimento e da maturidade, os conteúdos televisivos mediáticos podem interferir com o bem‑estar psicológico das crianças e influenciar a sua representação da realidade.”

A psicóloga entende que, além da idade, da maturidade e até da educação para os media, é importante considerar a sensibilidade e o desenvolvimento psicoemocional das crianças quando se trata de permitir o visionamento de conteúdos televisivos. “E tão importante como isto tudo é a supervisão dos pais durante o visionamento.”

É importante para fazer a triagem entre o que pode ou não ser visto, mas também para perceber as reações ao que vê, até porque, quando as crianças têm acesso a conteúdos mediáticos de difícil compreensão, é essencial que sejam os pais a ajudá‑las a resolver o conflito que a criança vive: “Entre a necessidade de saber o que está a acontecer e o mal‑estar que esse ‘saber’ provoca nelas.”

Para isto, defende, é fundamental que os pais procurem ajudar a criança a falar sobre o que viu e a miúdos serão confrontados com elas. Interpretar os significados que atribui ao que viu, ajudando‑a a compreender a informação de acordo com a sua idade, nível de desenvolvimento e a sensibilidade particular.

Sara Pereira, professora associada da Universidade do Minho, doutorada em Estudos da Criança e investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, também da Universidade do Minho, prefere a palavra “mediação”: um trabalho de explicação, diálogo e filtro – que não é apenas relativo aos media – e faz parte das funções parentais em tudo o que preenche o mundo da crianças, media incluídos.

A investigadora acredita que não se deve esconder às crianças o mundo em que vivem e que é importante que, desde pequenas, elas percebam que esse mundo tem coisas fantásticas, mas também problemas, alguns muito sérios.

“O que os pais podem fazer em casa, mais do que esconder, será fazer mediação desses acontecimentos, ou seja, explicar o que se passa, de modo a que as crianças possam compreender. Se fecharmos as crianças ao mundo, ou o mundo às crianças, quando é que se considera que estão aptas a lidar com o que se passa à sua volta? O que se perde nesses anos em que as crianças estiveram fora desse mundo? Não me parece que haja uma idade adequada para ‘acordar’ as crianças para a sua realidade”, defende.

Margarida tem 7 anos e é a isso que está habituada quase desde sempre, ao início da noite a televisão é ligada no noticiário com ela presente. A mãe e o pai não acham que ela deva ser privada do contacto com a realidade. “Acho que é importante ela ir vendo e percebendo o que se passa no mundo, ainda que tenha uma perceção de acordo com a idade”, conta a mãe, Sandra Isidro. A mãe ou o pai estão sempre por perto e se percebem que o que está a dar é violento mudam o canal.

Mas este mudar de canal é mais a exceção do que a norma: o que fazem habitualmente, quando as notícias são más, é falar com a filha sobre os assuntos, fazendo uma explicação adaptada à idade.

“Neste verão, por exemplo, ficou preocupada com todas as imagens de incêndios. Explicámos o problema de forma a poder entender, falámos do que pode fazer para prevenir incêndios e também de como podíamos ajudar as pessoas que ficaram sem casa.” Naturalmente que a filha ainda liga pouco às notícias. Se estão a dar desenhos animados não tira os olhos do ecrã, durante o telejornal a atenção costuma ser pouca.

“Acredito que noventa por cento do que vê lhe passe ao lado ou não perceba bem, mas também acho que alguma coisa há de lá ficar. Noto, por exemplo, que presta mais atenção ao que lhe interessa, se aparece uma coisa relacionada com o contexto escolar fica mais atenta.”

“A partir dos 8 anos, as crianças são capazes de distinguir fantasia de realidade, de compreender que as notícias correspondem a algo que efetivamente acontece e de compreender a relevância social destes assuntos, de modo que é sobretudo a partir destas idades que deve prevalecer uma mediação mais ativa”, defende Patrícia Silveira, professora na área de Ciências da Comunicação na Universidade Católica e na Universidade Europeia e coautora do livro Tratar os Media por Tu – Guia Prático de Educação para os Media, publicado pela Direção-Geral da Educação.

Mesmo a salvaguarda das crianças de imagens violentas não é unânime: a exposição a conteúdos de natureza violenta existe e é impossível controlar‑lhes totalmente o acesso sobretudo numa época em que as crianças, desde cedo, têm acesso ao mundo através de múltiplas plataformas tecnológicas, por isso, Patrícia Silveira – autora de uma tese de doutoramento sobre as crianças e as notícias – garante que as medidas restritivas ou proibitivas não são a melhor solução.

“Podem gerar o efeito contrário, que se traduz na permanência de medos e de dúvidas em relação aos assuntos. Mesmo que haja a tentativa de proibir, em algum momento as crianças contactarão ou já contactaram com esses assuntos.” A investigadora concluiu num estudo recente que há notícias de cariz violento que perturbam e deixam as crianças preocupadas, às quais preferiam não estar expostas de modo tão permanente e sobre as quais gostariam de receber explicação.

Embora reconhecendo que cada caso é um caso, defende que o melhor “é controlar o acesso a notícias de cariz violento, e complementar essa ação com uma mediação avaliativa, que consiste num acompanhamento mais permanente e numa explicação cuidada dos assuntos. Ao mesmo tempo, é importante ouvir as crianças, as suas dúvidas, e esclarecer os seus medos”.

Este tipo de mediação, defende, traz muitos mais benefícios do que optar por proibir totalmente o acesso a estas notícias: vai sempre chegar o dia em que os miúdos serão confrontados com elas.

O PAPEL DOS MEDIA

Educar para os media cabe aos pais e à escola, mas também aos próprios media. “Neste momento, não temos em Portugal nenhum serviço noticioso para crianças, como teve a RTP em tempos. É uma pena que uma estação de serviço público não aposte num serviço de notícias para os mais novos, que explique numa linguagem acessível ao público mais novo os acontecimentos da atualidade”, defende a investigadora Sara Pereira, lembrando que um serviço de notícias para as crianças poderia também ser útil para as escolas e para as famílias conseguirem equilibrar melhor o seu papel de mediadores.

A investigadora Patrícia Silveira concorda, lembrando que a Convenção sobre os Direitos da Criança legitima que os mais pequenos devem ter acesso a informação adequada que os ajude a aprender sobre o mundo.”E essa legitimação passa também pela responsabilização das empresas mediáticas e jornalísticas e pela obrigatoriedade que têm de proporcionar formas para que as novas gerações se informem sobre o mundo global e o local. Afinal de contas elas também são, ou deveriam ser, públicos das notícias. Os mais jovens são permanentemente acusados de apatia e desinteresse, mas isso resulta também do facto de as notícias serem feitas à medida dos adultos”, diz.

Em Portugal, de momento, o único projeto neste género é a Visão Júnior, uma revista mensal de informação dirigida a crianças e jovens entre os 6 e os 14 anos.

 

 

Ter televisão no quarto não faz bem à saúde das crianças, diz estudo

Outubro 3, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 27 de setembro de 2017.

Investigação da Universidade Estadual do Iowa revela que as crianças com televisão ou jogos no quarto têm menor desempenho académico.

As crianças que têm no quarto uma televisão ou jogos de computador dormem menos, assim como lêem menos. As consequências são fáceis de prever: menor desempenho escolar, maior risco de obesidade e de ser dependente das novas tecnologias, diz um estudo da Universidade Estadual do Iowa, citado pelo Quartz.

Mas há outros riscos associados: podem assistir a programas inadequados para a idade, assim como participar em jogos violentos, o que aumenta os níveis de agressão física, refere Douglas Gentile, professor de psicologia e autor principal do estudo de Psicologia do Desenvolvimento que foi feito nos EUA e na Ásia.

Os responsáveis pelo estudo acompanharam crianças durante um período de 13 e 24 meses e concluíram que aquelas que tinham equipamentos electrónicos no quarto viam mais televisão, o que afectou indirectamente os seus resultados académicos. Pois se viam televisão, não liam.

“Quando a maioria das crianças liga a televisão no seu quarto, provavelmente não assiste a programas educacionais, nem joga jogos educacionais”, continua o especialista, referindo ainda que os pais não fazem uma monitorização nem controlam o que vêem ou fazem os miúdos nos seus quartos. Com os smartphones e tablets o risco é ainda maior, continua Gentile. Não há controlo se as crianças e jovens usam esses meios, por exemplo, durante a noite.

Portanto, os investigadores também conseguiram relacionar o tempo à frente do ecrã com o aumento do índice de massa corporal, assim como com a agressividade e sintomas de dependência.

Por isso, a recomendação é para que os pais tenham coragem e lutem por manter todos os equipamentos fora do quarto. É uma batalha a curto prazo, mas os filhos saírão beneficiados com essa decisão, acredita Gentile. “Para os pais, é muito mais fácil não pôr uma televisão no quarto do que tirá-la”, reconhece.

 

Crianças que veem filmes com armas são mais propensas a usá-las

Outubro 1, 2017 às 5:26 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://oglobo.globo.com/ de 26 de setembro de 2017.

Crianças que assistiram a filmes não indicados para menores de 13 anos contendo armas de fogo birncaram com pistola desativada por mais tempo e puxaram mais vezes o gatilho que aquelas que viram versões editadas dos mesmos filmes sem as armas, de acordo com resultado de pesquisa publicado em artigo da revista científica americana JAMA Pediatrics.

De acordo com os responsáveis pelo experimento, muitas famílias americanas que possuem armas de fogo em casa não as guardam em segurança, e crianças nos Estados Unidos são mais propensas a morrer por um disparo acidental do que aquelas em outros países desenvolvidos. Muitos fatores influenciam o interesse dos pequenos em armas.

O foco da pesquisa realizada por Brad J. Bushman, da Universidade do Estado de Ohio, e de Kelly P. Dillon, da Universidade de Wittenberg, também no estado de Ohio, eram personagens de filmes que utilizavam armas de fogo. O estudo incluiu 104 crianças – 52 pares de irmãos, primos, ou amigos -, entre 8 e 12 anos de idade. Cada dupla foi selecionada aleatoriamente para assisitir a uma edição de 20 minutos dos filmes “The Rockteer” e “A lenda do tesouro perdido” com ou sem armas de fogo. As cenas dos flmes que mostravam armas foram retiradas de uma das versões, mas a ação e a narrativa não foram alteradas.

Depois de assistirem aos filmes, as crianças foram levadas para outra sala, onde podiam escolher qualquer jogo ou brinquedo disponível em um armário para brincar por 20 minutos, com a porta fechada. Uma das gavetas do móvel continha uma pistola calibre 0.38 real, desativada para que não disparasse, mas com martelo e gatilho funcionando.

Das 52 duplas de crianças, 43 (82,7%) acharam a pistola na gaveta; 14 pares (26,9%) informaram ou entregaram a arma a um dos assistentes da pesquisa; e em 22 casos (42,3%) pelo menos uma das crianças manuseou a arma. A versão do filme – contendo ou não armas de fogo – não influenciou o encontro ou manuseio da pistola, segundo os resultados da pesquisa.

No entanto, a média de acionamentos do gatilho entre as crianças que viram o filme que continha armas foi de 2,8, enquanto entre aquelas que viram a versão sem armamento ficou em 0,01. Além disso, o tempo médio gasto segurando a pistola foi de 53,1 segundos entre aqueles expostos às imagens com armas, frente a 11,1 segundos entre as demais. As análises da pesquisa sugerem que crianças que assistiram ao filme com armas também brincaram de forma mais agressiva e, por vezes, apontaram para pessoas antes de apertar o gatilho.

O estudo admite limitações: havia apenas um revólver disponível para todas as crianças e a câmera escondida fixa conseguia gravar toda a sala, mas não a ação de todos os participantes.

“A presente pesquisa busca entender a conexão entre a exposição à violência com armas na mídia e o interesse em brincar com pistolas no mundo real. Nós acreditamos que esses dados são um ponto de partida interessante para debates sobre vários fatores que podem aumentar o interesse de crianças em armas e violência”, conclui o artigo.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Effects of Exposure to Gun Violence in Movies on Children’s Interest in Real Guns

 

 

Regulador dos media aprova critérios para proteção de crianças na televisão

Março 5, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://mag.sapo.pt/ de 23 de novembro de 2016.

LUSA

O Conselho Regulador dos media (ERC) anunciou hoje que aprovou os critérios para a avaliação do incumprimento do artigo 27.º da Lei da Televisão que visam a proteção dos públicos mais sensíveis, em particular crianças e adolescentes.

Em comunicado, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) refere que a deliberação, aprovada na terça-feira, “sistematiza o entendimento” do regulador dos media “sobre as temáticas relacionadas com a proteção dos menores, densificando conceitos plasmados na Lei da Televisão, entre eles, os de violência gratuita e pornografia”.

Em causa estão os n.ºs 03 e 04 do artigo 27.º da Lei da Televisão que “definem os limites ao princípio prevalecente da liberdade de programação, determinando que ‘não é permitida a emissão televisiva de programas suscetíveis de prejudicar manifesta, séria e gravemente a livre formação da personalidade de crianças e adolescentes, designadamente os que contenham pornografia, no serviço de programas de acesso não condicionado, ou violência gratuita’.

E define ainda que a divulgação de ‘quaisquer outros programas suscetíveis de influírem de modo negativo na formação da personalidade das crianças e adolescentes deve ser acompanhada da difusão permanente de um identificativo visual apropriado e só pode ter lugar entre as 22:30 e as 06:00”, refere a ERC.

“A publicitação destes critérios deverá contribuir para a clarificação da posição do regulador sobre esta matéria e sensibilizar os operadores de televisão para a salvaguarda destes públicos”, conclui o regulador.

Comunicado da ERC

Deliberação ERC/2016/249 (OUT-TV)

Explique às crianças apenas o que elas perguntarem sobre os atentados

Novembro 25, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Noticia do Público de 18 de novembro de 2015.

MARTY MELVILLE AFP

Ana Cristina Pereira

Especialista diz que adultos devem ajudar as crianças a perceber que as imagens que vêem em todo o lado não correspondem a novos ataques.

Soube dos atentados à hora do almoço de sábado. Já de noite, viu o arranque do noticiário. Estava uma mulher grávida pendurada numa janela do Bataclan, em Paris, a gritar “Socorro! Socorro!” Saiu da sala, foi até à cozinha, fechou a porta que dá para a sala e sentou-se à mesa, a ler. Regressou decorridos muitos, muitos minutos, certa de o assunto ser outro.

– Pai, podemos ir viver para Plutão? – perguntou a menina, de oito anos.

– É capaz de ser boa ideia. Se arranjares um foguetão, podemos ir lá espreitar para ver se é giro. Realmente, estamos a precisar de mudar de planeta.

– Plutão já não é um planeta.

A filha mais velha do assessor de comunicação André Serpa Soares fez aquilo a que os psicólogos chamam evitamento. Naquela noite, saiu da cama dela, enfiou-se na cama dos pais e pediu-lhes que a deixassem dormir lá, de luz acesa. Não se pôs a fazer perguntas sobre os atentados. Não quis conversa. Quis apenas ficar ali, em silêncio. O pai abraçou-a toda a noite e foi-lhe dizendo: “não te preocupes”; “estamos em casa”; “estamos em segurança”, estamos juntos”; “isso não vai acontecer aqui”, “eu protejo-te sempre”.

Ficou convencido de que naquela noite algo se quebrou dentro da filha. “Acho que ela perdeu a confiança nas pessoas”, comenta. “Perdeu aquele olhar infantil, inocente. Percebeu que há maldade no mundo.” Sabe que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Preferia que tivesse sido mais tarde. Demorou uns dias a interiorizar. No domingo, ela deitou-se na cama dela, mas a meio da noite tornou a ir para a dos pais. “Disse que se tinha enganado na casa de banho e ficou por ali”, conta ele. Na segunda-feira, já dormiu na cama dela. “Deitou-se cedo, adormeceu logo.”

Ao longo da semana, muitas crianças viraram-se para os pais amedrontadas, confusas. Quem são aquelas pessoas? Porque fizeram aquilo? Pode acontecer aqui? Desviá-las do televisor, ignorar as perguntas, não é solução, avisa Ana Santos, psicóloga da infância, especialista em luto. A informação está a correr, na família, na escola, nas redes sociais, nos órgãos de comunicação social.

Os adultos devem ajudar as crianças a perceber que as imagens que vêem em todo o lado, várias vezes ao dia, não são novas, salienta Ana Santos. Não há novos ataques, não há novos feridos, não há novos mortos; há imagens que se repetem, porque o que aconteceu é importante, porque se calhar nem toda a gente viu ainda, porque há profissionais que vão descobrindo mais pormenores.

Há que respeitar as necessidades de cada criança. “Há que evitar o excesso de informação”, aponta. Não é preciso introduzir conceitos como jihadismo ou Estado Islâmico. Isso pode aumentar a confusão. Bastará uma explicação simples. “Hoje, pergunta o que precisa de perceber. Amanhã, quer saber mais, faz outras perguntas.”

Na opinião daquela especialista, as crianças devem ser incentivadas a expressar o que pensam, o que sentem. Ao transparecer preocupação, ao fazer perguntas, revelam empatia com outras pessoas, que podem nem conhecer, mas que estão em sofrimento. “Às vezes, os adultos ficam ansiosos, porque elas podem perguntar algo a que eles não sabem responder”, nota. Não têm de ter sempre resposta. “Podem dizer: ‘Não sei. Diz-me o que é que tu pensas. Deixa-me pensar nisso.’”

Não importa apenas o que os adultos vão dizendo às crianças. Importa também o modo como o fazem. Se estiverem com medo, por mais que digam que está tudo bem, que não há perigo, transmitirão medo às crianças. Se estiverem serenos, transmitir-lhes-ão serenidade. “Podem dizer-lhes que há pessoas preparadas para enfrentar problemas destes e que o estão a fazer”, exemplifica.

Há ainda que lhes explicar o carácter excepcional daqueles acontecimentos. Nem tudo se controla e isso não é o fim do mundo. “Não se controla o que os outros pensam, como não se controla se chove ou se faz sol. Por vezes, acontecem coisas más, mas as coisas más não são o normal”, diz.

A maturidade dita o grau de complexidade das perguntas que cada um faz e deverá ditar o grau de complexidade das respostas. Os adolescentes podem ir à frente dos pais no acesso à informação. Vivem agarrados aos telemóveis, smartphones, tablets, portáteis. Também com eles, recomenda Ana Santos, há que respeitar o ritmo pessoal, mas já se justifica falar sobre o que significa tudo isto.

A assessora de comunicação Ana Sofia Gomes tem de tudo dentro de casa. A filha de 14 anos ficou com medo de ir a Paris a uma prova de esgrima; a de oito preferiu não ver imagens dos atentados; a de cinco anos perguntou-lhe se também os iam matar. Nestes dias, houve muitas crianças a fazer aquela pergunta. As crianças até aos 11 anos tendem a pensar que todo o mal que acontece aos outros lhes pode acontecer. Ana Sofia respondeu o que muitos adultos pelo país fora têm respondido: que não, que Portugal é um país pequeno, que está num cantinho da Europa, mas teve de encontrar explicações mais complexas para a mais velha, que já estuda história, que já percebe que Portugal está na União Europeia e na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

 

 

 

 

 

 

Pais “insensíveis”, filhos mais expostos a maus conteúdos

Outubro 30, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto da Pais & Filhos de 27 de outubro de 2014.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Parental Desensitization to Violence and Sex in Movies

À medida que os adultos ficam cada vez menos afetados por conteúdos audiovisuais “pesados” – como, por exemplo, cenas de violência e sexo no cinema e na televisão – mais riscos correm as crianças de serem expostas a este tipo de materiais, sem qualquer filtro.

Um trabalho realizado pela Universidade da Pensilvânia (EUA) expôs mil adultos, com filhos entre os seis e os 17 anos, a conteúdos audiovisuais deste tipo, com cenas crescentemente chocantes. Os resultados mostram que pais e mães mostraram-se cada vez menos incomodados, à medida que o tempo passava, e também mais permeáveis a deixar os filhos assistirem às imagens perturbadoras.

“Esta rápida mudança de atitude foi surpreendente”, admitiu o líder da investigação, Daniel Romer. “Assistimos a uma ‘dessensibilização’ adulta impressionante”, acrescentou durante uma entrevista dada ao jornal “Pediatrics”. O mesmo especialista diz suspeitar que os crescentes níveis de violência a que se assiste nos filmes para menores de 12 anos têm também este fenómeno na sua base. “As pessoas que classificam as películas podem também estar já a sofrer desta mesma ‘dessensibilização’”, afirmou.

Daniel Romer recorda que a exposição de crianças, em especial antes da adolescência, a conteúdos violentos e sexuais pode ter efeitos no comportamento dos mais novos. Mas reconhece que ainda não é claro se esses efeitos são diferentes conforme o tipo de cenas. “Não é claro se ver um robô a ser destruído ou uma pessoa a ser atingida por um tiro é processado pela criança do mesmo modo. O melhor mesmo será os pais avaliarem bem a que tipo de mensagem querem que as suas crianças fiquem expostas mesmo que, pessoalmente, nem pestanejem perante as imagens”, conclui.

 

 

 

 

Crianças ‘viciadas’ em TV têm mais probabilidade de cometer crimes

Fevereiro 28, 2013 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site G1 de 19 de Fevereiro de 2013.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Childhood and Adolescent Television Viewing and Antisocial Behavior in Early Adulthood

Pesquisa feita na Nova Zelândia acompanhou mais de mil adolescentes.
Risco de cometer crimes cresce 30% para cada hora por semana.

Da France Presse

Uma pesquisa realizada na Nova Zelândia aponta que crianças que assistem televisão em excesso são mais sujeitas do que outras a cometer crimes ou ter atitudes agressivas quando adultas.

A Universidade de Otago acompanhou mais de 1.000 adolescentes nascidos no início da década de 1970 desde os quinze anos de idade até os 26 para avaliar os potenciais impactos da televisão nos seus comportamentos.

O estudo, publicado nesta semana na revista americana “Pediatrics”, conclui que existe uma forte correlação entre a exposição excessiva de crianças à televisão e comportamentos anti-sociais de jovens adultos.

“O risco de ter um jovem adulto ter antecedentes criminais aumenta em 30% para cada hora em que assistiu televisão em média durante a semana quando criança”, disse Bob Hancox, co-autor da pesquisa.

A pesquisa também apontou que o fato de assistir televisão em excesso está ligado a comportamentos agressivos a à tendência de sentir mais emoções negativas.

Estas ligações são ainda mais significantes em termos de estatísticas quando são levados em conta fatores com a inteligência, a condição social e a educação dada pelos pais.

“Ao mesmo tempo que não podemos dizer que a televisão leva diretamente a comportamentos antisociais, os resultados da nossa pesquisa sugerem que o fato de passar menos tempo assistindo televisão pode reduzir os comportamentos antisociais na sociedade”, analisou Hancox.

Ele ainda disse que concordava com as recomendações Academia Americana de Pediatria, segundo a qual crianças não deveriam assistir a mais de uma ou duas horas de programas de televisão por dia.

O estudo também aponta que é possível que crianças tenham desenvolvido comportamentos antisociais ao imitar o que viram na televisão.

No entanto, os conteúdos assistidos não seriam o único fator que levaria a estes comportamentos. O isolamento social vivido por pessoas que ficam horas diante da TV também seria um agravante.

“É possível que o fato de assistir televisão em excesso leve a comportamentos antisociais mesmo se a criança não está exposta a conteúdos violentos”, disse a pesquisa.

“Se ficar tempo demais na frente da televisão, a criança pode ter menos relações sociais com amigos ou parentes além de um desempenho ruim na escola e correr assim mais risco de ficar desempregado”, explicou.

Hancox ainda salientou que o estudo foi baseado em hábitos de crianças no fim da década de 1970 e no início da década de 1980, antes da chegada em massa de videogames.

“Se a pessoa passa horas na frente de um jogo que não apenas a expõe a cenas violentas, mas tamém estimula a matar pessoas, isso pode ser pior ainda, mas não tenho nenhum dado concreto sobre este assunto”, disse Hancox em entrevista à Radio New Zealand.


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