Workshop Agressores sexuais e profiling – introdução à investigação

Maio 11, 2013 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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sexuais

Irá realizar-se no próximo dia 21 de Maio de 2013, um workshop, organizado pela Unidade de Investigação em Psicologia e Saúde do ISPA, subordinado ao tema Agressores sexuais e profiling – introdução à investigação.

1. Violência sexual – Prof. Doutor Jorge Cardoso (UIPES, Instituto Superior Ciências da Saúde Egas Moniz)

– O que é a violência sexual

– Agressores sexuais: violadores vs. agressores de menores

– Seleção das vítimas

– Violação vs. abuso sexual de menores

– Tipologias (agressores sexuais, jovens agressores sexuais, violadores, agressores sexuais virtuais)

2. Comportamentos predatórios e vitimologia – MSc. Raquel Oliveira (UIPES, ISPA)

–  Comportamentos predatórios de Rossmo (serial killers)

–  Estudos sobre comportamentos predatórios de violadores: estudos internacionais e nacionais (seleção da vitima e do local)

3. O reportar do acontecimento – MSc. Patricia Gouveia (UIPES, Instituto Superior Ciências da Saúde Egas Moniz)

– Diferenças entre o reportar de crianças e adultos (professores vs. policia)

– Entrevistas policiais: antes e agora

– Falsas memórias

– Importância da adequação da entrevista no relato dos acontecimentos

4. Profiling – MSc. Raquel Oliveira (UIPES, ISPA)

– O que é? – realidade vs. mito

Modus operandi

– Tipologias de agressores sexuais

– Panorama nacional vs. internacional

 A entrada é livre mas limitada a um número máximo de 40 participantes.

 Inscrição através de: uipes@ispa.pt

 

 

Os grandes desafios Crónica de Dulce Rocha na revista Visão

Janeiro 11, 2013 às 4:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, O IAC na comunicação social, Uncategorized | Deixe um comentário
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Crónica quinzenal da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança, na Revista Visão do dia 10 de Janeiro de 2013.

O ano começou com um conjunto de notícias más sobre a crise e sobre mais medidas que o FMI quer impor ao nosso País “entroikado”, mas tivemos uma boa notícia: Malala Yousafzai teve alta do hospital. E embora tenha ainda de submeter-se a mais cirurgias, sobreviveu ao ataque dos talibans, que continuam a negar às crianças do sexo feminino o direito de acesso à educação. Pouco tempo antes de ser atingida a tiro, recebera, no seu País, o Paquistão, o Prémio da Paz para a Juventude, pela ação que vinha desenvolvendo, defendendo o direito das meninas a frequentarem a escola. A sua recuperação é motivo de satisfação e alívio para todos quantos entendem a educação o motor do desenvolvimento, mas sobretudo para quem defende a justiça do direito à igualdade de tratamento e estatuto, e para quem ama a liberdade, pois apesar dos seus 15 anos, Malala é já um símbolo de resistência e um exemplo de luta pelos direitos humanos.

Precisamos de boas notícias para nos animarmos. Mas nos últimos dias de 2012 tivemos três muito chocantes que nos obrigam a refletir para a mudança, sob pena de, ciclicamente, termos casos semelhantes.

Quero referir-me primeiro à das duas crianças mortas em Alenquer. Estamos conscientes de que nem sempre se conseguem evitar os homicídios, por nos ser difícil acreditar em tudo quanto constitua exceção ao comportamento esperado, mas não podemos conformar-nos com as tragédias, porque nem todas são inevitáveis. Há um conjunto delas que podemos prevenir, investindo num mais rigoroso diagnóstico, o que estou convicta se conseguirá com mais formação de qualidade, com mais partilha de experiências e também a partir do estudo e análise de situações graves, cujas consequências imprevisíveis não conseguimos evitar. Fui-me apercebendo, ao longo dos anos, que os casos dramáticos de crianças assassinadas, fosse a morte motivada por maus tratos, ou por outra causa, haviam sofrido na família as sevícias mais cruéis, e, muitas vezes, estavam já efetuadas as devidas comunicações às entidades competentes. Há um estudo publicado em 2008, coordenado pela Prof. Anália Torres que confirmou esta constatação empírica, pois menciona um número significativo de casos ocorridos ao longo de dez anos, em que sobreveio a morte de crianças, e na sua esmagadora maioria, havia processos instaurados, quer nas Comissões de Proteção, quer nos Tribunais, onde estavam pendentes à data do óbito. Por isso, tenho a certeza de que é possível melhorar o diagnóstico, com decisões que protejam efetivamente as crianças. Quando o exercício de cidadania conduziu à denúncia de situações de perigo para as crianças, temos de acreditar que é possível melhorar a atuação preventiva das entidades competentes para decidir, porque as crianças têm direito a decisões justas!

Outra notícia má foi a de que houve 40 homicídios de mulheres no nosso País, em 2012. Não podemos ficar indiferentes, enquanto houver criminosos que se arrogam o direito de tirar a vida às mulheres com quem viveram, em muitos casos, mães dos seus próprios filhos!

Mas a bárbara violação em grupo de uma jovem na Índia, que justamente gerou um movimento mundial de repúdio pelo crime que viria a resultar na sua morte, aos 23 anos de idade, foi também uma notícia devastadora. Milhares de pessoas têm-se manifestado, condenando o crime, e petições na Internet exigem o agravamento das penas; a primeira-ministra indiana prometeu medidas destinadas a garantir mais segurança para as mulheres; o Secretário-Geral da ONU manifestou o seu profundo pesar e apelou no sentido da reprovação de infrações desta natureza; a Unicef salientou que o número de violações na Índia é preocupante, tanto mais que uma em cada três vítimas é criança.

Claro que as proclamações são importantes na medida em que podem reunir consensos, mas os bons artigos, aqueles que analisam as causas dos fenómenos têm enormes potencialidades, porquanto, não apenas nos ajudam a refletir, como ainda nos convocam para agir. Por isso, achei excelentes dois artigos recentes, de escritoras ativistas dos direitos humanos a propósito desta matéria: um de Naomi Wolf e outro de Soraya Chemaly, porque ambos nos desafiam sobre a nossa responsabilidade enquanto cidadãos, na medida em que a violação continua a ser tolerada em todo o mundo. No primeiro, Wolf analisa as causas da impunidade generalizada no crime de violação, salientando que as baixíssimas taxas de condenação não ocorrem apenas na Índia, mas que se verificam também quer em Países Europeus como o Reino Unido ou a Suécia, quer nos Estados Unidos. Creio que esta situação, a que Wolf chama de verdadeira “cultura da violação”, se fundamenta na desvalorização do estatuto das mulheres nas sociedades. Em muitos sistemas penais existe ainda uma norma que culpabiliza as mulheres vítimas de violação, e atenua as penas dos agressores, verificadas que sejam muitíssimas circunstâncias que negam afinal a liberdade às mulheres, porque, no fundo se entende que não são obrigados a abster-se de praticar crimes sexuais contra elas, pois sempre que se sentirem “provocados”, a lei deixa de as proteger. Na verdade, o que subjaz a estas normas é a ideia de que eles podem não ser responsabilizados, como se fosse admissível que perdessem o controlo sobre os seus atos, sempre que verificadas inúmeras circunstâncias. Ainda hoje poderá haver atenuação, em muitos sistemas considerados democráticos, quando os agressores entenderem que as vítimas tiveram um comportamento “inadequado”, por exemplo, se vestirem de forma que eles considerem imprópria, se andarem sozinhas a horas tardias, se passearem em locais escuros e ermos, se olharem de determinada forma, se lhes dirigirem a palavra, para já não falar em situações de namoro ou de conjugalidade com o agressor. Chemaly faz notar que a violação encerra sobretudo uma questão de poder e que a benevolência com os agressores facilita a perpetuação desse poder dos homens. A própria utilização da forma passiva “foi violada”, em vez de colocar-se a ênfase na ação dos criminosos, desresponsabiliza o agressor, narrativa que se funda na redução da mulher a um ser inferior, a objeto sem direito a usufruir dos espaços e dos tempos, privando-a do direito à liberdade plena.

Era assim em Portugal, já depois do 25 de Abril. O Código Penal de 1982, que aliás estabelecia uma pena muito mais dura para o furto do que para a violação, tinha uma norma desse tipo, que permitiu ao Supremo Tribunal de Justiça em 1984, num caso de duas raparigas jugoslavas que foram violadas depois de terem pedido boleia no Algarve, aplicar a dita atenuação especial. Os conselheiros acharam que ao “aventurarem-se” a pedir boleia, em plena coutada do “macho ibérico”, as raparigas tiveram um comportamento provocatório! A Prof. Teresa Beleza comentou magistralmente esse acórdão e contribuiu decisivamente para a revogação dessa norma humilhante para a dignidade das mulheres e que não lhes reconhecia sequer o direito de usarem o vestuário ou de passearem nos locais e às horas que entendessem.

A norma sobre a provocação foi suprimida, mas persistem as baixas taxas de condenação e as penas levíssimas, que mostram como permanecem muitas das ideias que estiveram na base da sua consagração durante tanto tempo.

Por isso, neste ano de 2013, ainda temos muitas matérias a merecer a nossa atenção, sempre com o objetivo de melhorar a nossa intervenção e aprofundar a nossa democracia. São desafios que temos de abraçar se quisermos um mundo melhor e mais justo!

Uma rede em que nem tudo é ‘like’

Setembro 6, 2012 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Correio da Manhã de 26 de Agosto de 2012.

No Facebook, a partilha de fotografias e dados pessoais acaba muitas vezes em histórias de polícia

Por : Marta Martins Silva e Vanessa Fidalgo

Sara, nome fictício, 13 anos de verdade, enviou imagens em poses mais atrevidas para um desconhecido que conhecera na internet. Um novo amigo, pensava ela. Palavra puxa palavra e puxa outras fotos também. Em poucos dias, o amigo revelou, afinal, ao que vinha: queria mais imagens de Sara, nua, em poses cada vez mais picantes, ou tornaria públicas todas as outras que já tinha em seu poder.

De amigo, afinal, tinha pouco. Sara arrependeu-se e envergonhou-se, mas, felizmente, não tanto que a impedisse de contar a dois colegas o imbróglio em que estava metida. Aqueles convenceram-na a falar com a mãe, que denunciou o chantagista à polícia. Afinal, o ‘amigo’ era um pedófilo procurado, que já tinha violado outras jovens que conhecera e chantageara nas mesmas condições. E Sara seria apenas mais uma, a próxima, se não tivesse parado a tempo.

O caso remonta a 2008 e ainda não chegou às barras dos tribunais. “O suspeito, que terá violado pelo menos duas outras jovens, está com termo de identidade e residência, mas continua a aceder à internet a partir de locais públicos”, avisa Tito de Morais, fundador do site Miúdos SegurosNa.Net.

“A nossa vida íntima deve ser mantida íntima e registar é o primeiro passo para as coisas correrem mal”, avisa o investigador. Quando a proeza dá para o torto, todos saem a perder: veja-se o caso das adolescentes oriundas de famílias da alta sociedade que partilharam fotos íntimas numa página fechada que acabaram no telemóvel do pai de uma delas e que o CM noticiou na semana passada.

CHANTAGEM NA NET

Muitas vezes, porém, a internet esconde um mundo de possibilidades e perigos que nenhuma das vítimas pôde imaginar. Casos como o de Cristina, 34 anos, também vítima de chantagem com requintes tecnológicos por parte de um colega da fábrica onde trabalha, numa pequena cidade do interior do País. Aquele forjou conversas no Messenger entre Cristina e um inventado amante. Depois, mostrou-lhe os supostos registos e, ou ela saía da fábrica ou ele mostrava tudo ao marido.

Cristina fez o que lhe pareceu mais certo: contou a verdade ao marido, ou seja, que estava a ser alvo de chantagem. Sofreu novo ataque: o mesmo colega criou um perfil em seu nome num site de sexo, onde colocou o seu número de telemóvel. As chamadas de conteúdo e convites explícitos começaram a chover e acabou por ser um dos ‘senhores’ do lado de lá da linha a explicar-lhe como arranjara o número. O marido, nascido e criado nesse mesmo sítio pequeno, teve dificuldade em compreender. “Começou a fazer cenas de ciúmes, a controlar-me as contas, o telefone, não podia sequer ir às compras. Começámos a discutir muito. Até vítima de violência doméstica fui”, recorda Cristina.

Hoje estão divorciados. Cristina ainda é acompanhada por um psicólogo e garante que se tornou mais forte. Agarra-se ao filho que lhe ficou de recordação do casamento aziago e ainda tentou processar o culpado, mas desistiu: “Disseram-me que ia gastar muito tempo e dinheiro inutilmente porque era a minha palavra contra a dele”.

Tito de Morais reconhece igualmente que fazer os culpados pagarem nem sempre é fácil. “Há pouco tempo, uma rapariga de 22 anos contactou-me porque aos 16 anos tinha sido chantageada e abusada. Arranjara finalmente coragem para denunciar, só que o crime já tinha prescrito. Por acaso ela até guardava todas as provas, o que na maioria das vezes não acontece porque, no momento da aflição, a primeira atitude das vítimas é apagar fotos, vídeos, conversas, enfim, tudo o que depois poderia servir de prova para uma eventual punição.”

É a lógica da lei. “Todos os crimes têm data de prescrição. Estes, em concreto, prescrevem entre três a cinco anos, dependendo da gravidade”, explica fonte da Secção de Criminalidade Informática da Polícia Judiciária. Entre os crimes que mais afectam o utilizador comum contam-se o “desvio não autorizado de quantias depositadas em bancos, o acesso indevido e a comercialização ilícita de dados pessoais”. Quanto aos mais novos, as duas situações que mais são denunciadas à PJ são “por um lado, entre jovens, procederem à disponibilização de fotos e vídeos sem autorização dos visados; por outro, o facto de estes não perceberem que oferecem dados pessoais através das redes sociais que podem ser utilizados para a sua localização por parte de abusadores sexuais”, acrescenta a mesma fonte.

PERIGO À ESPREITA

Joana Castro, 24 anos, acreditou na pessoa errada. Durante semanas foi trocando mensagens no MySpace e no Facebook com um suposto estudante universitário, que frequentaria o mesmo curso que ela mas noutra cidade. Acabou por combinar encontrar-se com ele, em Coimbra. Dividiu as despesas da gasolina com uma amiga natural de Coimbra e que por acaso nesse fim-de-semana ia visitar os pais. No último minuto, a amiga insistiu para ir com ela. “Quando chegámos ao local, ele tinha pousado um caderno de capa vermelha em cima da mesa, tal como tínhamos combinado, e percebi logo que não era a pessoa que tinha dito. Era muito mais velho. Podia ser meu avô!”, conta Joana, que se foi embora, deixando o amigo das redes sociais pendurado. “Só nesse momento tive a verdadeira noção do perigo em que quase me colocara por ter confiado um perfil falso”, reconhece.

Diana Hrynchyk tem 17 anos, é uma ucraniana de Lisboa e frequenta o ensino secundário na Escola António Arroio, em Lisboa. Utiliza o Facebook quase todos os dias e “às vezes também o tumblr”. Gosta sobretudo de colocar fotos suas ou com as amigas, dos mais variados momentos do dia. Agora, por exemplo, as imagens tiradas na praia estão em destaque.

Nunca conversou sobre segurança na internet com ninguém. Ainda assim, tem alguns cuidados. “Aceito como amigos mesmo pessoas que não conheço, mas, por exemplo, não aceito homens mais velhos. Não tenho muita confiança, porque já aconteceu aceitar e eles depois virem falar e serem muito chatos. Também já tive outros dissabores: aconteceu uma rapariga utilizar fotos minhas no seu Facebook. Eu nem sequer a tinha nos amigos, e só tínhamos uma pessoa em comum na lista de amizades. Denunciei-a ao Facebook, mas ainda não sei se já está apagado, pois ela bloqueou-me”, recorda Diana. Talvez por isso, a maioria das suas fotos não são públicas e só podem ser vistas pelos amigos. E por amigos dos amigos virtuais. ‘Postar’ fotos é é uma das formas como a sua geração comunica, um diário dos tempos modernos: “Meto as fotos que, de todas as que tirei num dia, mais gosto e pronto!”, justifica.

Diana, na sapiência dos seus 17 anos, não considera a internet completamente segura. “É tal como na rua, não se pode confiar a 100% em ninguém, nem sequer nos amigos verdadeiros quanto mais nas pessoas que se conhece nas redes sociais! Os mais novos, de 10 ou 11 anos, é que não têm noção disso .”

No entanto, mesmo depois de ser vítima, Diana nunca falou com ninguém. Também por isso, a criminalidade desta natureza, ‘sexting’ como lhe chamam, continua a crescer apesar dos avisos e do aumento dos mecanismos de segurança disponíveis para os utilizadores da internet. Num estudo realizado nos EUA, um em cada quatro adolescentes dos 14 aos 19 anos já enviou a alguém, geralmente outro adolescente, fotografias em que se encontrava nu. Sete em cada dez raparigas recebeu pedidos para o fazer. Em Portugal não há números, mas há casos que todos os dias chegam às mãos da Polícia Judiciária.

FINAL DAS RELAÇÕES

Rita, de 14 anos, namorava com João (nomes fictícios), da mesma idade. Sem que ela soubesse, o namorado aproveitou uma partilha mais íntima que fizeram através de webcam numa rede social e fez um vídeo do momento que veio a usar contra ela no dia em que a relação acabou. “O rapaz distribuiu pelo colégio onde ela andava CD com os vídeos que tinha feito sem ela suspeitar. Isto passou-se num colégio religioso, de freiras, por isso imagine o impacto que teve a circulação destes vídeos e destas imagens”, recorda o psicólogo clínico João Nuno Faria, coordenador do Núcleo de Intervenção no Uso da Internet e das Telecomunicações, que a acompanhou.

“Ela estava no 9º ano, por isso teria mesmo de mudar de colégio no ano seguinte, mas mesmo que não fosse assim sairia de qualquer forma daquela escola porque ficou com uma marca, tornou-se insustentável encarar as pessoas que tinham visto o vídeo. Ela dizia que desligava daquilo que as pessoas pensavam sobre ela, mas nas sessões de terapia que tivemos percebi que não era assim. Estes episódios marcam muito e a culpa e a vergonha perduram no tempo.”

Também Sofia Nunes da Silva, psicóloga clínica do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, recorda um caso que se passou com um casal de namorados de 16 anos. “Quando a relação acabou, o rapaz começou a chantagear a rapariga. Ameaçou-a de que ia publicar numa rede social fotografias íntimas de ambos, bem como todas as conversas sobre sexo que tinham tido em chats. Ela ficou muito perturbada. Felizmente, os pais descobriram e conseguiram reverter a situação, mas foi muito complicado lidar com isto, com o medo de ver exposta a intimidade.”

Catarina (nome fictício), de 16 anos, aproveitou a ausência dos pais para organizar em casa uma festa para os amigos. A noite acabou com todos a saltar para a piscina, com pouca ou nenhuma roupa. “As raparigas tiraram as camisolas e ficaram sem sutiã e as filmagens que um dos elementos fez acabaram por ir parar à internet, onde os pais tomaram conhecimento do que tinha sucedido”, recorda ainda Sofia Nunes da Silva sobre um dos casos que já lhe passaram pelas mãos. “Neste caso, os pais sentiram-se traídos pela filha e juntos tiveram de recuperar a confiança perdida. Os pais acabam por rever a liberdade que deram aos filhos uma vez que estes não se conseguiram proteger do perigo”, relata.

O sexólogo José Pacheco rebusca explicações para a aparente inconsciência: “As pessoas sentem-se mais confortáveis a mostrarem-se na net porque o outro não está ali a ver, não é público. Há um certo exibicionismo como motivação, mas também o orgulho com o próprio corpo pode entrar na equação. Há também uma certa ingenuidade: as pessoas pensam que a net é muito mais segura do que aquilo que é.”

Até porque uma página ‘secreta’ ou privada, às vezes não é tanto assim. Basta que alguém ‘fure’ o compromisso, ou que um hacker se dedique a descobrir uma password. “Ainda por cima, temos a tendência de usar sempre as mesmas passwords e em usar coisas que facilmente se relacionam connosco, como datas ou nomes. Essas são sempre as primeiras pistas que os hackers testam”, afirma João Oliveira, business development director em Portugal da multinacional de sistemas informáticos Oracle.

As empresas estão especialmente vulneráveis. “Os e-mails como são gerados automaticamente, são todos iguais, e por isso um e-mail pode ser usado como gerador de outros para a obtenção de informações e acesso a informações, como se fosse interno (pixing)”, explica. Outro perigo são os programas de ‘tracking’, que através de “fotos inocentes que as pessoas publicam nas redes sociais permitem saber onde é que elas estão”. Um dos crimes informáticos que mais afecta as empresas portuguesas é o chamado ‘crime defacing’ – a alteração do ‘rosto’ da página da instituição com intenção de difamar. Por exemplo, com conteúdos pornográficos”, explica fonte da PJ. Os ataques informáticos – em muito consequência da modernização da tecnologia – têm obrigado as empresas a apostar na protecção dos dados.

Certo é que Portugal é o país mais satisfeito da União Europeia quanto à informação dada pelas redes sociais sobre o destino dos dados inseridos, revela um relatório técnico no qual a UE analisa as práticas dos europeus nas redes sociais e em serviços de comércio electrónico. Está também entre os países que consideram haver menos riscos associados à publicação de dados pessoais, é o 7º onde os internautas se sentem com mais controlo sobre a informação que publicam e é 8º no ranking dos que consideram que divulgar informação pessoal “não é um grande problema” (opinião de 47% dos 1046 entrevistados, quando apenas 39% em toda a UE partilham desta convicção).

Muitas vezes existe a crença irrealista de que se está escudado por trás de um computador e dentro de redes mais particulares como os grupos fechados, “o que não é verdade”, adverte João Nuno Faria, coordenador do Núcleo de Intervenção no Uso da Internet e das Telecomunicações. Basta haver uma fuga, alguém que desiste do grupo, e o mundo inteiro passa a ter acesso às imagens.

“Também acontece on-line uma coisa que as pessoas não pensam quando estão off-line: será que se eu estivesse off-line partilharia determinada fotografia com os meus amigos e amigas? Provavelmente não o fariam, mas quando estão na internet há um conjunto de características a que no seu conjunto se dá o nome de ‘efeito de desinibição on-line’. Ou seja, as pessoas sentem que virtualmente é-se quase invencível, porque esta desinibição ligada à internet tem subjacente a ideia de ser invisível, a ideia da ausência dos limites e a ideia de ser anónimo. Há inclusive artigos que mostram que há um certo desligar em relação ao que se partilha na internet, quase como ‘aquele não sou eu’, ‘aquilo fui eu'”.

O impacto emocional para quem se vê assim exposto pode ser extremamente negativo, confirma Vera Lisa Barroso, psicóloga clínica de um projecto (MindKiddo, da Oficina de Psicologia) especializado em saúde mental infantil e juvenil: “Existe uma relação desigual entre a vítima e os outros, que utilizam essa informação para gozar, ofender, envergonhar, humilhar, acusar. O simples facto de ser tema de conversa e alvo de olhares cúmplices pode ser, por si só, altamente angustiante. Dependendo da maturidade, bem como existência, ou não, de uma rede de suporte, personalidade e o contexto e cariz destas mesmas fotografias, podemos observar consequências psicológicas, emocionais e sociais que podem ir de um isolamento temporal, desenvolvimento de quadros de ansiedade, fobia social, depressão, etc. ou, em casos mais graves, até ideação suicida”, remata.

USURPAÇÃO DE PERFIL

A vergonha e a culpa entram de rompante e colam-se ao dia-a-dia, mesmo que se seja inocente como a B., que no ano passado entrou para o quinto ano numa nova escola. Conta a mãe que “um dia avisaram-na ‘para ter cuidado com o que andava no Facebook’, logo ela que nem sequer tinha página na rede”. Ou pelo menos, assim pensava.

Alguém lhe tinha tirado uma foto, sem que se apercebesse, e criado um perfil em seu nome, através do qual eram adicionadas fotos de pornografia e mantidas conversas de teor sexual com miúdas mais velhas da escola. “Foi uma experiência assustadora no sentido em que num contexto seguro, como a escola, e sem dar conta, a imagem da minha filha foi usada e conotada de forma negativa. Quando a PSP entrou em campo, o perfil foi apagado. Não obstante, a B. andou muito tempo mais fechada. Com o tempo acalmaram os medos, mas as recordações ficaram, sempre com a mensagem predominante de como somos todos tão vulneráveis”, relata.

PAI RECEBE SMS COM FOTOGRAFIA DA FILHA NUA

Três jovens de 19 anos, oriundas de famílias da alta sociedade e em férias, resolveram criar um grupo fechado no Facebook para partilhar imagens e vídeos íntimos, conforme noticiou o CM esta semana. Só que o grupo, afinal, não era assim tão fechado. Alguém copiou todos os conteúdos, e aquilo que era para ficar em privado acabou por correr mundo na internet até chegar ao telemóvel do pai de uma das jovens que se vêem nas imagens em poses provocantes e seminuas.

Depois do mundo virtual, o caso deu que falar nos media e o escândalo ganhou ainda maiores dimensões. O Facebook não admite pornografia nem conteúdos violentos, mas só uma denúncia pode controlar a propagação de imagens deste teor.

 

 


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