Fugir a um destino quase certo

Fevereiro 13, 2019 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do Euronews de 17 de janeiro de 2019.

Numa pequena cooperativa têxtil, situada nas montanhas do norte do Vietname, trabalham mais de 130 mulheres, de várias idades. Mulheres que, de alguma forma, foram vítimas de traficantes de seres humanos, ou são mães solteiras e foram marginalizadas pelas suas comunidades. Umas escaparam a casamentos forçados na vizinha China. Outras fugiram à prostituição, entre as mais jovens há quem tenha perdido a mãe para essas uniões forçadas.

Thao Thi Van tinha dois anos quando a sua mãe foi um dia ao mercado e não voltou. Pensa-se que foi levada por traficantes. Hoje, com 13 anos, continua a querer saber quem a vendeu.

Aqui tentam reescrever-se histórias com final feliz. Para Mua Thi Dinh trabalhar nesta pequena fábrica evita que ande “nas colinas, ao sol e à chuva”, diz que se sente melhor aqui.

As histórias de sofrimento destas mulheres desencadearam o processo que levou à criação desta estrutura, chamemos-lhe, familiar. Vang Thi Mai abriu-lhes as suas portas, deu-lhes emprego, uma profissão, um salário para si e para as suas famílias. Acrescenta que a sociedade pode não gostar delas, mas que neste local “sentem-se confiantes”.

Além da dimensão social desta fábrica, a sua criadora tem também o objetivo de preservar a riqueza da cultura Hmong, passada das mais velhas às mais jovens, numa altura em que os têxteis chineses, em poliéster, invadem os mercados da região.

 

Quando a adoção se torna num desencontro entre a oferta e a procura

Novembro 5, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem da Euronews de 26 de setembro de 2014.

ver o vídeo da reportagem aqui

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Um processo de adoção é sempre um longo caminho. As incertezas dominam o percurso, sobretudo se estiver outro país envolvido. A Convenção de Haia sobre a proteção de crianças levou quase 20 anos a chegar ao Vietname – entrou em vigor em 2012. Os dossiês de adoção internacional que foram abertos desde então encontram-se bloqueados.

É impossível apurar o número de órfãos que existe no país. Há estimativas que apontam para mais de um milhão e meio. A questão é que só os orfanatos estatais são reconhecidos. Mas há dezenas doutros, que funcionam na fronteira da legalidade, e que acolhem centenas de crianças que dificilmente vão encontrar uma família.

Outras tiveram mais sorte. A partir de uma pequena localidade francesa junto à Suíça, o casal Sylvie e Cédric abriu um processo em 2008 e conseguiu adotar duas crianças vietnamitas. Chamam-se Paul e Charline. O processo deles durou 5 anos, o que é a média. Até obter a autorização pode passar quase um ano. Depois é que começa a espera, que pode mesmo continuar após conseguirem uma criança. “Eles dão-nos o acordo, aguardámos alguns meses, o que é a parte mais difícil deste percurso. Depois atribuem-nos uma criança, revelam-nos a identidade, a idade. Mas depois é preciso esperar ainda mais. Aguentamos, esperamos – é duro, porque estamos a sofrer. Perguntamo-nos: ‘mas, se ele está à nossa espera, porque é que não o podemos ir buscar? Como está ele de saúde? Estaria melhor connosco.’ Mas não há qualquer contacto com o orfanato”, explica Sylvie.

O casal foi duas vezes ao Vietname. Regressou com as crianças nos braços. Depois de obterem a luz verde, têm três semanas para ir buscá-las. Cédric afirma que “estas crianças são sobreviventes. Conseguem continuar, mesmo após terem sido abandonadas. Daí a força que têm quando se encontram com os pais adotivos.”

Fomos ao Vietname conhecer alguns desses sobreviventes. É muito pouco provável que estas crianças venham a conhecer o mesmo destino de Paul e Charline. Em vez disso, vivem numa casa degradada, numa rua exígua de Ho Chi Minh, sem perder a curiosidade, nem o sorriso. Este é um orfanato privado, que depende das ajudas da população local. Phạm Thiên Đơn é a diretora: “Pouco orfanatos têm autorização para acolher as crianças como este tem. A maior parte deles não tem licença de funcionamento. Pegam nos miúdos e pronto. São as instituições que pertencem ao Estado que têm a licença para dar as crianças para adoção.”

É difícil saber quantos sítios destes existem no Vietname. As crianças nos orfanatos privados, como este, não podem ser adotadas. E, mesmo que pudessem, a lei de 2012 impõe muitos condicionamentos aos processos internacionais. Um dos efeitos perversos tem sido o aumento de visitas de casais estrangeiros dispostos a dar diretamente dinheiro para levar as crianças. Segundo Phạm Thiên Đơn, “os casais estrangeiros vêm ter connosco. Eles sabem que, para conseguir adotar, têm de ir a outros sítios. Mesmo assim, vêm até aqui tentar comprar as crianças. Eu não permito, mas há sitios que sim.”

Em teoria, a adoção é possível nas instituições estatais. Na prática, são muito poucos os casos nos últimos anos. Em 2010, houve 469 crianças vietnamitas adotadas por franceses, por exemplo; em 2013, foram apenas 89. No orfanato que visitámos, há 70 crianças, algumas com escassas semanas. Mas há também jovens de 18 anos. Cinco voluntários, entre os quais Dominique Broncard, tentam dar o apoio possível perante a falta de condições. “São as mães que não querem. Se fores mãe solteira, corres o risco de não arranjar um marido. Outra das situações que temos aqui no Vietname é o que acontece quando morre um dos progenitores. Se o outro se voltar a casar, os filhos do primeiro casamento vêm parar a sítios como este, ao orfanato”, garante Dominique.

É ele quem paga a escola das crianças, até porque sabe que não há grandes soluções. “Quem é que os vai adotar? Os vietnamitas? Será que há muitos vietnamitas com condições para adotar crianças? Ou vão ser adotados por estrangeiros? Aquilo que sei é que os vietnamitas são muito agarrados à terra, às raízes. Não sei se aguentam estar longe”, declara.

O objetivo da Convenção de Haia é manter a criança, tanto quanto possível, no seu país de origem. Os mais pequenos, até aos 3 anos de idade, deixam de ser propostos para adoção internacional. O resultado é que, entre 2005 e 2010, os processos diminuíram em mais de um terço nos principais países de acolhimento.

Grâce Dersy, vice-presidente da associação de apoio a famílias na região do Rhône – EFA -, salienta que “hoje em dia, aquilo que acontece é que, antes de haver um processo no estrangeiro, o país de origem tem de dar prioridade à adoção no seu próprio território. Isso provocou uma redução dos processos nos últimos anos. Os países passaram a apresentar perfis de crianças mais velhas, ou de irmãos, ou de portadores de deficiências. E aí constatamos que a maioria das famílias francesas, por exemplo, quer bebés, em bom estado de saúde, o que não corresponde às propostas apresentadas.”

Os orfanatos têm cada vez menos espaço devido a uma questão que parece colocar-se friamente num desencontro entre a oferta e a procura.

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