Veganismo na infância? Sim, é possível

Agosto 23, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Texto do http://observador.pt/ de 16 de agosto de 2016.

observador

Vera Novais

Os casos sucedem-se: pais veganos que deixam os filhos ficarem subnutridos. Será culpa do veganismo ou é negligência? Uma deputada italiana quer criminalizar os pais que sigam este regime alimentar.

Pais condenados por deixarem morrer uma criança à fome, é uma notícia que deixa chocado qualquer um – ou, no mínimo, quem tenha filhos ou crianças ao seu cuidado. Revoltam-se os leitores contra os pais. Mas se a notícia incluir que os pais são veganos e que terão tentado dar uma alimentação estritamente vegan ao bebé, culpa-se a dieta. Será que é mesmo caso para culpar o veganismo?

A deputada italiana do partido de centro-direita Forza Italia, Elvira Savino, considera que sim, por isso apresentou um proposta de lei que prevê que se penalize, com uma pena de um ano, os pais que impõem uma dieta vegan aos seus filhos (até aos 16 anos), noticia o jornal italiano La Republica. A proposta é motivada pelos recentes casos de crianças hospitalizadas em Itália com sinais de subnutrição. Consoante a gravidade das consequências na vida da criança, incluindo a morte, as penas podem ir até seis anos (qualquer pena é acrescida de 12 meses se a criança tiver menos de três meses).

Mas não é só em Itália que se têm registado casos de bebés que têm problemas de saúde graves ou que morrem devido às dietas impostas pelos pais. Recorde-se o caso de um bebé norte-americano que morreu, em 2004, às seis semanas com pouco mais de 1,5 quilogramas. Os pais, que se assumiam vegans, alimentavam o bebé exclusivamente com bebida de soja e sumo de maçã. Foram condenados por homicídio – não por serem vegans, mas por terem deixado morrer o filho à fome.

“Não importa quantas vezes tenham dito: ‘Somos vegans, somos vegetarianos’, não é essa a questão aqui. A criança morreu porque não era alimentada. Ponto.”

Chuck Boring, procurador [citado pelo New York Daily]

 

É por causa de situações como esta que Elvira Savino é tão inflexível. No texto da proposta de lei, a deputada critica os pais que de forma imprudente criaram dietas estritas sem consultarem nutricionistas ou que se limitaram a dar-lhes bebidas de amêndoas fervidas e lembra que estas atitudes prejudicam gravemente a saúde das crianças.

Todas as crianças devem ser alimentadas exclusivamente com leite materno até aos seis meses, como defende a Organização Mundial de Saúde. “E os vegans aceitam e promovem o aleitamento materno”, nota Alejandro Santos. Para o nutricionista, a questão mais importante nesta fase, e ainda antes disso, é a alimentação da mãe – vegan ou não.

As doenças metabólicas que se manifestam nos adultos, podem ter tido origem no desenvolvimento embrionário, refere o professor e investigador da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. A carência ou excesso de determinados nutrientes durante a gestação influencia a expressão dos genes no bebé. Daí que seja tão importante que a mãe ingira a quantidade de proteínas, vitaminas ou energia ideal durante este período.

Após o nascimento, a Comissão de Nutrição da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) também defende o aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses. Durante este período, as mães vegans devem ter o cuidado de usar suplementos ou alimentos fortificados para suprirem a necessidade de alguns nutrientes. “Assim, a dieta das lactantes vegans deve ser rica (suplementação ou fortificação) em vitamina B12, situação que não se coloca em amamentantes ovolactovegetarianas.” Estas mães devem ter também em atenção os níveis de cálcio, o ácido gordo docosahexanóico (DHA) e iodo, assim como a disponibilidade em zinco e ferro.

Claro que existem casos em que a mãe não pode ou não consegue amamentar a criança durante estes seis meses. Neste caso, Alejandro Santos recomenda que as mães recorram a um banco de leite materno, mas se esta opção não estiver disponível, a melhor escolha para as mães vegans alimentarem os bebés são as fórmulas adaptadas com hidrolisados de proteína de soja – ideais também para crianças alérgicas à proteína do leite. “As bebidas de arroz, amêndoa ou de soja [que não sejam as fórmulas adaptadas] não são bons substitutos do leite, mesmo que aleguem ser suplementadas com cálcio”, alerta o nutricionista. “As bebidas de arroz e amêndoa são pobres nutricionalmente.” Aliás, estas bebidas não devem ser introduzidas na dieta da criança antes dos 12 meses, refere a nutricionista Sandra Gomes Silva.

A partir dos seis meses (e nunca antes dos quatro) podem introduzir-se, faseadamente, alimentos sólidos, refere Alejandro Santos. Uma situação que é comum a qualquer criança saudável e não está dependente da opção de dieta. Os alimentos devem ser introduzidos um a um, para perceber se a criança faz algum tipo de reação ao alimento. A primeira seleção pode ser a maçã, pera, cenoura ou espinafres. Durante este período a criança pode continuar a ser amamentada e o aleitamento pode ser prolongado por quanto tempo seja confortável à mãe ou ao bebé, refere o nutricionista.

O importante nesta fase é “respeitar os ritmos e gostos do bebé”, refere Sandra Gomes Silva. Os pais devem procurar dar uma alimentação variada e o mais natural possível – devem evitar-se os alimentos processados que tenham quantidades altas de sal e açúcar -, acrescenta a nutricionista. O cuidado com as escolhas na alimentação são tão importantes para uma criança vegan ou vegetariana, como para uma criança omnívora, conclui.

Embora a Organização Mundial de Saúde também defenda o aleitamento até aos dois anos (ou até por mais tempo), depois dos seis meses este não deve ser o alimento exclusivo da criança. A alimentação exclusiva com leite materno levou à morte de uma bebé francesa, em 2008. Três anos depois, os pais foram condenados a cinco anos de prisão pela morte da filha de 11 meses que morreu com 5,7 quilogramas, quando deveria ter oito quilos. Além disso, os pais recusavam-se a fazer suplementação de vitaminas e rejeitavam a medicina tradicional, tratando a bronquite da filha com cataplasmas. A menina morreu de pneumonia, agravada pela carência das vitaminas A e B12.

“Não estamos aqui para julgar o estilo de vida alternativo, mas para decidir se este homem e esta mulher demonstraram falta de assistência e causaram a morte da sua filha.”

Anne-Laure Sandretto, procurador [citado pelo The Guardian]

 

O leite materno não é alimento suficiente para uma criança com mais de seis meses, mas mais do que isso, o leite de uma mãe vegan carece de vitamina B12. As mães ovolactovegetarianas ou as que comem carne ou peixe pelo menos uma vez por semana, podem conseguir uma boa quantidade da vitamina, mas as mães vegans não, alerta Alejandro Santos. Essas devem receber suplementação. E as crianças também.

“A Comissão de Nutrição da SPP refere que lactantes a efetuar dietas vegetarianas restritivas deverão efetuar suplementação com DHA, vitamina B12 e ferro e ainda que a suplementação do lactente deverá ser considerada não apenas nestes micronutrientes mas também em zinco, particularmente após os 5-6 meses”, refere o parecer da comissão enviado ao Observador.

É exatamente a “deficiência em zinco, ferro (do tipo contido na carne e peixe), vitamina D, vitamina B12 e ómega 3” nas crianças e adolescentes que a deputada Elvira Savino quer evitar com a proposta de lei. Não se opõe a que os pais e adultos sigam dietas mais restritas, mas não poderão impô-las às crianças. Como explicaram os especialistas contactados pelo Observador, adultos e crianças vegan podem e devem ser suplementados para evitar estas carências.

Nuno Metello, presidente da direção da Associação Vegetariana Portuguesa, afirma mesmo que todos os vegans precisam de reforçar a ingestão de vitamina B12, seja com suplementos alimentares, seja com alimentos fortificados. E acrescenta que os alimentos que os veganos afirmam ser ricos em vitamina B12, não são, na verdade, boas fontes deste nutriente. “Não tomar suplementação [desta vitamina] é perigoso”, alerta Nuno Metello, vegan há 11 anos.

Vitamina B12

“As únicas fontes veganas fidedignas de vitamina B12 são os alimentos enriquecidos (incluindo alguns leites vegetais, alguns produtos de soja e alguns cereais de pequeno-almoço) e os suplementos de B12”, refere o site Muda o Mundo.

Há outra vitamina que Alejandro Santos lembra que todas as crianças – vegans ou não – devem receber como suplemento: a vitamina D, importante para uma formação óssea adequada, mas também para a regulação do sistema imunitário e cardiovascular. O Vigantol é o medicamento recomendado com frequência, mas uma opção pouco interessante para vegans, porque é de origem animal. No entanto, existem suplementos de vitamina D de origem vegetal que podem ser adotados. Nuno Metello afirma que ele próprio toma suplementos de vitamina D durante o inverno [mais sobre suplementos para vegans aqui].

“Não existe nenhum tipo de alimentação que dispense totalmente a suplementação.”

Nuno Metello, presidente da direção da Associação Vegetariana Portuguesa

Alejandro Santos alerta que “qualquer padrão alimentar que restrinja fortemente a seleção de alimentos [sejam eles quais forem] acarreta maior risco de carências nutricionais”. No entanto, o nutricionista que se assume não-vegan e não-vegetariano, afirma que não existem provas científicas de que a alimentação vegan seja prejudicial à criança. E lembra que uma dieta omnívora não é, só por si, garantia de boa alimentação. O que a alimentação vegan obriga é que os pais tenham mais cuidado na preparação de refeições variadas e equilibradas – um conselho que os pais omnívoros também devem seguir. Por isso, o nutricionista recomenda que os pais criem um menu diário de refeições para a criança e que tentem saber junto de um nutricionista se é equilibrado ou não.

Sandra Gomes Silva que acompanha nas suas consultas adultos, grávidas e crianças com dietas vegans ou vegetarianas afirma que “uma alimentação vegan ou vegetariana é possível desde o nascimento”, desde que sejam cumpridos os requisitos energéticos e nutricionais. As crianças com dietas vegans ou vegetarianas têm um bom desenvolvimento físico, mental e emocional, diz. “Verifico, nas minhas consultas, que as crianças vegans crescem dentro do padrão normal de desenvolvimento.”

Sobre a proposta de lei, a nutricionista diz que “carece de sustentação científica, sendo preconceituosa e discriminatória para com quem tem uma alimentação vegetariana”. A argumentação da deputada, como refere Sandra Gomes Silva, está baseada em casos de desnutrição e morte infantil “causados por uma alimentação desadequada, desequilibrada e incompleta, nada têm a ver com a alimentação vegetariana saudável”.

Nuno Metello concorda: “Penso que a proposta resulta de muita desinformação e preconceito da parte da deputada”. O presidente da direção da Associação Vegetariana Portuguesa considera que “se a deputada não fosse desinformada e preconceituosa, a proposta incidiria em dietas desequilibradas em geral, sejam elas vegans ou não, e não no facto de estas incluírem ou não produtos de origem animal”. Dietas mal planeadas não são exclusivas dos pais vegans, também acontecem entre os pais que não seguem dietas vegetarianas, afirma.

“Conselhos errados sobre a dieta vegan em crianças podem definitivamente colocá-las em risco. Mas não há qualquer dúvida de que, quando seguem uma dieta saudável, as crianças vegans desenvolvem-se bem”, refere a dietista Virgina Messina, citada pelo site da Associação Vegetariana Portuguesa.

A Comissão de Nutrição da Sociedade Europeia de Pediatria, Gastrenterologia e Nutrição, citada pela Comissão de Nutrição da SPP, discorda e “refere que se a amamentante tiver um regime vegan, é elevado o risco de alterações do desenvolvimento cognitivo do lactente, risco que aumentará se o lactente continuar com uma dieta sem alimentos de origem animal”. A sociedade recomenda que crianças e jovens ingiram produtos lácteos e que não sigam uma dieta vegan.

Pelo contrário, a Associação Dietética Vegetariana norte-americana defende que as dietas vegetarianas ou vegans apropriadas são saudáveis, nutricionalmente adequadas e podem ajudar na prevenção e tratamento de algumas doenças. “As dietas vegetarianas bem planeadas são adequadas em todos os estádios da vida, incluindo na gravidez, aleitamento, infância e adolescência e nos atletas.”

Acreditando neste princípio, três partidos italianos rivais da Forza Italia apresentaram também propostas de lei, mas no sentido de tornar as dietas vegans e vegetarianas mais comuns nas cantinas italianas, noticia a BBC. Em Portugal, a própria Direção-Geral de Saúde criou um manual para a “Alimentação Vegetariana em Idade Escolar”. Mas Elvira Savino prefere lembrar a Constituição e os direitos da criança para justificar uma lei que pretende “estigmatizar definitivamente comportamentos alimentares imprudentes e perigosos, impostos pelos pais, ou por quem exerce estas funções, em detrimento dos menores”. E pretende “sancionar a imposição de uma dieta alimentar desprovida dos elementos essenciais para o crescimento de uma criança”.

Mas esta formulação da lei está a preocupar os especialistas, como refere a BBC. Um uso incorreto das palavras pode levar a que não sejam só os pais vegetarianos e vegans a serem penalizados, mas um leque muito maior de pais, como os que têm crianças obesas. Para outros especialistas é o próprio conteúdo da proposta que é posto em causa quanto à sua validade, como referiu o jornal britânico.

Alejandro Santos reconhece que os casos das crianças subnutridas suscitam preocupação, mas “convêm recordar que a negligência dos pais no que toca à alimentação dos filhos não se limita apenas este grupo de pessoas [vegans]”. “Se é compreensível a criminalização da negligência parental quando é quebrado com dolo o direito da criança a uma alimentação equilibrada, já me parece mais difícil de sustentar a criminalização de uma prática alimentar que sendo bem feita não pode ser considerada negligente”, disse o nutricionista num comentário à proposta de lei. Sendo pai e nutricionista declara que nunca adotou ou recomendou uma dieta vegan, mas parece-lhe que este talvez seja “um exemplo extremo da aplicação do princípio da precaução”.

“A segurança de dietas extremamente restritivas, como as dietas à base de fruta ou alimentos crus não foi estudada em crianças.”

Associação Dietética Vegetariana norte-americana

Para os pais que quiserem seguir um regime vegan ou vegetariano, a Associação Vegetariana Portuguesa pode fornecer informação sobre alimentação vegan e vegetariana, mas não faz recomendações, nota Nuno Metello. Os pais que desejem adotar este tipo de dieta para os filhos (ou para si) devem procurar ajuda de especialistas, refere. O presidente acrescenta ainda que: “A associação só promove informação credível baseada na Ciência”.

Uma dieta com todos os nutrientes, ainda que vegan, teria, provavelmente, evitado que um bebé italiano fosse internado no hospital em estado de subnutrição e com baixos níveis de cálcio. Quando deu entrada, levado pelos avós, o bebé de 14 meses pesava tanto como um bebé de três, cerca de cinco quilogramas. Os pais, que seguiam uma alimentação vegan estrita, arriscam-se agora a perder a custódia da criança.

Alejandro Santos diz que uma criança vegan, depois dos seis meses, e desde que continue a beber leite materno ou uma fórmula adaptada pode alimentar-se de purés de legumes ou tofu. Importante será a suplementação em ferro – a partir dos seis meses – e a adição de óleos vegetais, como o óleo de canola ou linhaça. A dieta rica em fibras dá uma sensação de saciedade muito rapidamente, mas o conteúdo energético é reduzido, o que pode ser compensado pelos óleos. Os cereais integrais, as leguminosas e, mais tarde, os frutos gordos (frutos secos ou de casca dura), também são alimentos densos energeticamente, refere Sandra Gomes Silva. A partir dos 12 meses, e desde que não haja problemas de saúde, a criança vegan pode começar a comer o mesmo que os adultos.

Todos os bebés e crianças, mas também os adolescentes e adultos, devem ter uma dieta equilibrada e diversificada que forneça todos os nutrientes e energia necessários ao crescimento e à realização das tarefas diárias. Os regimes alimentares omnívoros, ovolactovegetarianos ou estritamente vegans podem consegui-lo, ainda que possam ter de recorrer a suplementos alimentares ou alimentos fortificados. Cabe aos profissionais de saúde, sejam pediatras ou nutricionistas, ajudar os pais a realizar as melhores escolhas alimentares para essas crianças.

Alejandro Santos não promove dietas que sejam restritivas na seleção de alimentos em crianças saudáveis, mas também não tem fundamentos científicos para afirmar que a dieta vegetariana ou vegan na criança é errada. “Os profissionais de saúde que tentam desviar os pais deste tipo de alimentação [vegan] tem uma boa intenção, mas ir contra convicções fortes leva ao afastamento destes profissionais”, alerta o nutricionista. “Se os pais deixam de ser acompanhados e não encontram boa informação correm riscos muito maiores.”

Pais e profissionais de saúde têm de manter-se atualizados sobre as dietas vegans e vegetarianas, lembra Sandra Gomes Silva. A nutricionista deixa um conselho aos colegas nutricionistas e aos pediatras: “Os profissionais de saúde devem procurar acompanhar os pais, mesmo que não defendam o regime alimentar, de forma a garantir que são tomadas as melhores opções para a saúde da criança”. A nutricionista, que também pratica uma alimentação vegetariana, afirma que as pessoas que frequentam as consultas de nutrição ficam satisfeitas por encontrarem profissionais de saúde que as compreendam e as consigam acompanhar.

Os nutricionistas “têm um papel importante na prestação de assistência durante o planeamento de dietas vegetarianas saudáveis àqueles que desejem iniciar este tipo de alimentação ou que já o pratiquem e devem ser capazes de fornecer informação correta sobre a nutrição vegetariana”, refere a Associação Dietética Vegetariana norte-americana. No entanto, Alejandro Santos admite que há muitos profissionais de saúde que não estão preparados para esta situação.

Veja em anexo as recomendações da Direção-Geral de Saúde para vegetarianas no adulto e nas crianças em idade escolar.

Relacionado

Alimentação Vegetariana Saudável – Direção-Geral de Saúde

Alimentação Vegetariana em Idade Escolar – Direção-Geral de Saúde

 

 

Um manual para crianças vegetarianas

Abril 8, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

texto do Diário de Notícias de 7 de abril de 2016.

O manual citado na notícia é o seguinte:

Alimentação vegetariana em idade escolar

vege

 

O regime alimentar é indicado para os mais jovens, mas é necessário o acompanhamento de profissionais de saúde

Há uma escola e um jardim-de-infância do agrupamento da cidade do Entroncamento onde desde fevereiro são preparadas três refeições vegetarianas diariamente. São para a Maria, de 6 anos, o José, de 5, e a Júlia, de 4. Os três são filhos de Ana Castro, vegetariana há quase 13 anos e vegan há três. “Quase todos os dias recebo pedidos de informação sobre alimentação vegetariana para crianças”, conta ao DN a mentora do projeto Sabor Fazer. À Direção-Geral da Saúde chegam também cada vez mais dúvidas sobre o tema, tanto de famílias como de profissionais de saúde e escolas, o que levou ao lançamento de um manual sobre alimentação vegetariana para crianças e adolescentes.

A ferramenta, criada no âmbito do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável e publicada ontem, fala sobre os cuidados a ter quando as crianças e adolescentes seguem este padrão alimentar, de forma a que o seu crescimento não seja comprometido. Pedro Graça, diretor do programa, explica que o objetivo não é promover a alimentação vegetariana, mas dar informação para que sejam feitas as melhores escolhas. “Se for bem planeada, a dieta vegetariana pode ser indicada para todas as idades”, explica.

Tem benefícios, mas como qualquer regime também acarreta riscos, “associados sobretudo à má escolha dos alimentos e à falta de informação.” Por exemplo, como há carência de iodo, é recomendada a ingestão de sal iodado. Para maximizar a absorção de ferro os alimentos ricos neste mineral devem ser combinados com outros ricos em vitamina C. Relativamente à vitamina D, as crianças e os adolescentes que não consomem alimentos fortificados ou têm uma exposição solar limitada devem recorrer à suplementação. E porque não existem muitas fontes de vitamina B12 neste regime, também pode ser necessário recorrer a bebidas fortificadas ou suplementos.

Consoante as idades, as necessidades das crianças são diferentes. Por exemplo, as crianças de 3 anos precisam de uma proporção de gordura superior às que têm entre 4 e 18. Mas necessitam, por exemplo, de uma percentagem menor de proteína. “Compete ao profissional de saúde perceber quais são as necessidades ao longo da vida da criança”, destaca Pedro Graça. Tal como no manual genérico sobre vegetarianismo lançado no ano passado, a DGS apela ao uso de produtos vegetais nacionais e sazonais.

Contactado pelo DN, o nutricionista Nuno Borges, da Associação Portuguesa dos Nutricionistas, reforça que “a dieta vegetariana poderá ser adotada pelas crianças desde que siga todos os preceitos de forma a fornecer os nutrientes necessários e nas quantidades recomendadas.” Fala de uma “adesão crescente” a este regime, que pode ser seguido “desde sempre”, com os devidos cuidados.

 

Alimentação vegetariana para crianças: sim ou não?

Novembro 9, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

texto do Observador de 1 de outubro de 2015.

PHILIPPE DESMAZES AFP Getty Images

No dia mundial do vegetarianismo, pediatras e nutricionistas temem que uma dieta vegan não dê todos os nutrientes necessários à criança. Por isso recomendam alguns alimentos de origem animal.

Vera Novais

Em primeiro lugar, na Roda dos Alimentos, surgem os cereais (com respetivos derivados e tubérculos), com a recomendação de quatro a 11 porções diárias. Depois aparecem as hortícolas e as frutas com proporções equivalentes – três a cinco porções – e que agora aparecem separadas na Nova Roda dos Alimentos para reforçar a sua importância. Cumprir estas recomendações abre-nos caminho para uma alimentação saudável e apresenta a base para uma alimentação vegetariana. Mas será que devemos privar as crianças de todos os alimentos de origem animal? O Observador foi consultar a opinião dos especialistas.

“Embora seja consensualmente aceite que uma alimentação vegetariana bem planeada é uma opção válida na idade adulta desde que se dê a devida atenção a certos nutrientes chave como as proteínas, os ácidos gordos ómega 3 e algumas vitaminas e minerais, a sua adequação à idade pediátrica é discutível e controversa“, refere a Comissão de Nutrição da Sociedade Portuguesa de Pediatria (CN/SPP) na Acta Pediátrica Portuguesa (volume 43, número 5).

Alejandro Santos, membro do conselho jurisdicional da Ordem dos Nutricionistas, não descarta que seja possível este tipo de alimentação, mas alerta que se requer uma seleção muito criteriosa de alimentos para que não falte nenhum nutriente essencial ao desenvolvimento das crianças. O professor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto lembra ao Observador que este tipo de cuidado com uma alimentação diversificada e equilibrada é válido tanto para crianças como para adultos.

As dietas de base vegetariana são muito variáveis. Daquelas em que se consome estritamente vegetais (incluindo o veganismo, que além de dieta é uma filosofia de vida), àquelas que incluem ovos ou leite ou àquelas que admitem o consumo de peixe ou de carne de aves. A Sociedade Europeia de Gastroenterologia Pediátrica, Hepatologia e Nutrição, citada no documento da SPP, “considera inadequada uma dieta vegan” nos primeiros anos de vida e recomenda “uma quantidade diária de cerca de 500 mililitros de leite (materno ou fórmula infantil) ou de lacticínios e, ainda, uma oferta pelo menos semanal de produtos animais (peixe)”.

“Quanto mais alimentos de origem animal forem excluídos, maior o risco de existirem carências alimentares”, lembra Alejandro Santos. Dito isto, o nutricionista considera que o risco é muito maior para os veganos porque exige muito mais cuidado na seleção dos alimentos que satisfaçam todas as necessidades de uma criança ou adolescente em desenvolvimento, ou mesmo de uma grávida.

No entanto, o nutricionista lamenta que “ainda não exista informação cientificamente fundamentada suficiente” para poder aconselhar as famílias que optam por estas dietas mais restritivas. Na ausência de recomendações, os profissionais não se sentem preparados e preferem não recomendar uma alimentação vegana para crianças. Depois da publicação das “Linhas de Orientação para uma Alimentação Vegetariana Saudável” pela Direção Geral de Saúde (DGS), Alejandro Santos confia que outras recomendações surgirão, mas lembra que este documento dirige-se exclusivamente ao indivíduo adulto saudável

Os riscos e as recomendações

“Durante o crescimento, uma criança precisa de mais energia e mais proteínas do que vai gastar naquele momento”, exatamente porque está a crescer, refere o nutricionista. Mas, enquanto os produtos de origem animal, como os ovos ou o leite, têm quase todos os aminoácidos essenciais para a produção de proteínas no nosso organismo, nos vegetais exige-se que se consuma uma diversidade muito maior para obter todos esses aminoácidos.

Uma dieta pobre em proteína, em vitaminas D, B12 e riboflavina, assim como em cálcio, ferro e zinco, pode comprometer o desenvolvimento físico e cognitivo da criança. E o problema de alguns destes nutrientes, como o ferro, é que são mais difíceis de absorver pelo organismo quando a origem é vegetal, explica Alejandro Santos.

O nutricionista reforça que nos momentos dos picos de desenvolvimento das crianças é preciso atenção redobrada no consumo suficiente dos nutrientes e aminoácidos, como durante a adolescência. Nesta fase, e em particular para as meninas, a puberdade pode acentuar a carência de ferro já existente.

Numa fase mais precoce do desenvolvimento e na ausência de leite materno, as famílias podem optar por fórmulas infantis com proteína de soja, mas a SPP alerta que este produto tem “elevada concentração de alumínio” e hormonas, “desconhecendo-se os efeitos a longo prazo desta exposição precoce”.

Recomendações para dietas vegetarianas nas crianças:

  • Entre os zero e os seis meses: Aleitamento materno exclusivo, que requer maior atenção por parte das mães lactantes que sejam veganas.
  • A partir dos seis meses: Pode ser introduzida uma fórmula infantil com proteína de soja em alternativa ao leite. As bebidas vegetarianas, como as de soja (excepto fórmula) ou de arroz, não são boas alternativas ao leite nos primeiros dois anos de vida.
  • Aleitamento: “O aleitamento materno é ainda aconselhado durante o processo de diversificação alimentar, mais ainda nos vegetarianos o aleitamento materno deveria ser prolongado até aos dois anos de idade”, recomenda a DGS.
  • Diversidade: É uma palavra chave para a alimentação de crianças vegetarianas e não-vegetarianas, lembrando que também é importante a ingestão de alimentos ricos em gordura e energia, conforme as recomendações da Roda dos Alimentos. “Evitar o estabelecimento de uma dieta monótona, habitualmente rica em calorias e pobre em nutrientes”, recomenda a SPP.
  • Suplementação de lactantes: “Lactantes a efectuar dietas vegetarianas restritivas deverão efectuar suplementação com DHA, vitamina B12 e ferro”, assim como “um adequado suprimento proteico e energético”, recomenda a SPP.
  • Aminoácidos essenciais de alto valor biológico: Encontrados em alguns alimentos de origem animal, como carne, pescado, laticínios e ovos, e vegetal, como a soja, quinoa e amaranto.
  • Digestibilidade: Os alimentos vegetarianos são de mais difícil digestão que os de origem animal, portanto a proteína não está tão disponível. Demolhar, descascar e cozinhar em panela de pressão pode aumentar a digestibilidade proteica, refere a DGS.
  • Ómega 3: Um ácido gordo essencial e normalmente encontrado nos peixes gordos pode ser compensado com a ingestão de algas e sementes de linhaça, chia e cânhamo.
Ingestão diária recomendada de nutrientes para crianças até aos oito anos. A ingestão diária recomendada de ferro em vegetarianos é 80% superior face a não-vegetarianos, assim como as necessidades de zinco estão aumentadas em 50% – Adaptado de Dietary Reference Intakes for Energy, Carbohydrate, Fiber, Fat, Fatty Acids, Cholesterol, Protein, and Amino Acids (Macronutrients) e Dietary Reference Intakes for Calcium and Vitamin D / DGS

Ingestão diária recomendada de nutrientes para crianças até aos oito anos. A ingestão diária recomendada de ferro em vegetarianos é 80% superior face a não-vegetarianos, assim como as necessidades de zinco estão aumentadas em 50% – Adaptado de Dietary Reference Intakes for Energy, Carbohydrate, Fiber, Fat, Fatty Acids, Cholesterol, Protein, and Amino Acids (Macronutrients) e Dietary Reference Intakes for Calcium and Vitamin D / DGS

 

 

 


Entries e comentários feeds.