Que grande seca, stora!

Agosto 29, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Carmo Machado publicado na http://visao.sapo.pt/ de 18 de agosto de 2017.

O relato de uma professora de Português de um dos episódios que viveu este ano letivo “com uma turma difícil do oitavo de escolaridade, constituída por alunos repetentes sem qualquer apoio ou orientação”

Com um novo ano letivo à porta, renasce em mim a esperança de que desta vez será mais fácil. Porque o grande sonho de um professor é poder partilhar o que sabe com os seus alunos e receber, como moeda de troca, o que eles também têm para lhe dar. Este transação sofre, por vezes, a influência de vários fatores que a dificultam sendo a desmotivação, na minha opinião, o pior desses fatores.

Hoje quero partilhar convosco o que vivi com uma turma difícil do oitavo de escolaridade, constituída por alunos repetentes sem qualquer apoio ou orientação. Percebi, logo no início do primeiro período, que não tinham a mínima motivação para a escola e que, além disso, eram barulhentos e indisciplinados. Se não os tratasse com pinças, facilmente seriam insolentes. Após quatro ou cinco aulas consecutivas a gerir conflitos dentro da turma e a tentar controlar as minhas próprias emoções, compreendi a necessidade de pesar e medir toda e qualquer palavra (gesto ou reação) que ativaria, de imediato, a sua agressividade.

Percebi também, ainda antes do primeiro período terminar, que para levar a turma a bom porto, a exaustão (a minha) seria certamente o resultado. Mas não desisti. Tentei e voltei a tentar, recorrendo a tudo o que me estava e não estava disponível. Tudo os entediava. Uma seca, stora! Um dia em que me encontrei à beira de mim própria, parei de falar e sentei-me. Sim, sentei-me! O que, naquela turma, significaria que eles se levantariam de imediato e tudo poderia acontecer. Só de pé e a deambular pela sala de aula como um polícia os conseguia (minimamente) controlar.

Nenhuma estratégia parecia resultar. Tentei de tudo. Debates, filmes, jogos, trabalhos de pares, até trabalhos de grupo. Sim, caro leitor. Se não é professor, fique a saber que organizar um trabalho de grupo numa turma com estas características é demasiado arriscado. Não se sabe o que pode acontecer. Os comportamentos de trinta alunos problemáticos podem tornar-se incontroláveis. E o barulho, esse, é certamente ensurdecedor. Como não sou de desistir facilmente, arrisquei. Cada grupo teria de escolher/inventar uma personagem e produzir sobre ela um texto de cariz autobiográfico. Após várias tentativas para os motivar (estes alunos não queriam simplesmente fazer absolutamente nada), um grupo pediu-me se podia escrever “em rima”. Em rima, seja! Saiu um texto autobiográfico em verso sobre a vida de um prisioneiro que não tendo acesso ao consumo de drogas na prisão, decidira matar-se. Nenhum dos outros grupos concluiu a tarefa.

Perante a minha crescente desolação, desabafei com os colegas. Porém, não há nada que se possa fazer. A turma é nossa, somos nós que temos de lidar com ela e ninguém nos pode ajudar. Mesmo que nos apeteça desaparecer da sala e da escola para sempre, temos de voltar no dia seguinte e recomeçar tudo novamente como se o dia anterior não tivesse existido. Um dia, cansada de tentar falar por cima das suas vozes, cansada de pedir para estarem calados, cansada de mandar alunos para a rua, parei de falar, sentei-me à secretária e desisti. E então dois ou três alunos daqueles que se sentam mesmo ali à nossa frente, apercebendo-se do meu colapso, disseram-me isto:

A gente não quer estudar, stora. Se nos deixar sair sem falta, a gente não põe cá os pés porque a gente não curte estudar, está aqui a perder tempo… Faça como a stora do ano passado fazia. Ela deixava-nos sair sem marcar falta. Não tem nada a ver com a stora. A stora até é fixe e tudo mas a gente não curte estar aqui.

Perante estas palavras, engoli em seco e tive uma certeza: a motivação destes alunos para a escola é uma porta que só se abre por dentro.

Felizmente ouviu-se o toque de saída…

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).

 

 

Congresso Internacional “Capacitar e Promover os Imigrantes na Turma” 8 e 9 de setembro em Évora

Agosto 21, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://www.cpint.uevora.pt/

“Existem formas mais inteligentes de elaborar as turmas”

Julho 9, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.educare.pt/ de 26 de junho de 2017.

Estudo conclui que os bons resultados dependem mais de fatores individuais dos alunos do que do tamanho das turmas. E que, por isso, existem combinações de alunos que são mais eficazes do que outras se a intenção é promover o sucesso educativo de todos.

Andreia Lobo

Aspetos relacionados com a composição da turma têm mais influência no desempenho escolar do que o número de alunos que a compõem. Fatores relacionados com a condição socioeconómica das famílias e as características individuais dos estudantes continuam a ser determinantes no sucesso ou insucesso na sala de aula. O estudo inédito, realizado por investigadores da Nova School of Business and Economics, analisou a dimensão das turmas que no ano letivo de 2011-2012 frequentavam o 6.º e o 9.º ano em escolas públicas, mas também a sua composição. Como? Através de indicadores relacionados com a idade e o sexo dos alunos, o escalão de apoios sociais escolares, a escolaridade da mãe, o nível de rendimento e o acesso a Internet em casa.
Uma das conclusões é que “o tamanho da turma não produz efeitos significativos nos resultados escolares”, sendo estes medidos através das notas obtidas nos exames nacionais a Matemática e a Português. O mesmo não se pode dizer dos fatores que têm a ver com a própria composição da turma, pois estes “acabam por ter mais influência relativamente ao seu tamanho”.

A investigação foi apresentada no Fórum Estatístico da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e da Ciência. Ao EDUCARE.PT, Luís Catela Nunes, um dos autores deste estudo, explica qual o alcance dos resultados que mostram que certas combinações de alunos produzem efeitos positivos ou negativos sobre o desempenho escolar: “Significa que quando as escolas elaboram as turmas, há aspetos relacionados com os estudantes que devem ser tidos em conta”.

Só grandes reduções produzem efeito

Importa ou não reduzir o tamanho das turmas? A resposta é simples: “Não se vê nenhuma vantagem em fazer uma redução dentro do intervalo da dimensão de turmas que temos em Portugal”, assegura Catela Nunes. Vários estudos internacionais que tentam encontrar correlação entre sucesso ou insucesso e número de alunos por turma dizem que o impacto da turma é maior para idades mais pequenas. Ou seja, quanto mais novos forem os alunos mais importância tem o tamanho da turma.

No caso português, explica o investigador, o estudo versou os alunos do 6.º e do 9.º anos, “níveis em que o impacto da turma já não é tão importante”. Além disso, recorda o investigador, só em casos de grande diminuição do número de alunos se encontra uma causa-efeito no sucesso educativo: “Há um estudo do Quénia em que se compara passar de 80 alunos para 40 alunos e como são variações muito extremas encontram-se resultados muito grandes. Mas para outros estudos de dimensões parecidos com o tamanho de turma que temos em Portugal, os resultados que se encontram são ou muito pequenos ou nenhuns.”

Em Portugal, utilizando a base de dados das escolas públicas, os investigadores verificaram que a dimensão média de uma turma de 6.º e 9.º ano oscila entre 22 e 28 alunos. Pode haver turmas com mais de 28 ou com apenas 14 alunos, em regiões onde demograficamente existem menos jovens em idade escolar. Catela Nunes esclarece que “só abaixo de 20, ou menos, alunos é que os estudos se encontram alguns benefícios com as reduções, mas para turmas muito mais pequenas”.

Com estas conclusões, o investigador acredita que o debate em torno da redução do número de alunos nas escolas portuguesas deve ser repensado. “Há outros fatores nas escolas, menos estudados, que acabam por ter alguma influência no sucesso escolar. Vemos ao olhar para os dados que a composição das turmas em algumas das escolas não é perfeitamente aleatória, mas de certa maneira feita à medida.”

Concentrar os piores, dividir os carenciados
Cabe à escola decidir como elaborar as turmas. A lei prevê essa competência. Que critérios? Um estudo do Conselho Nacional de Educação de 2016 faz um resumo das leis que existem sobre a dimensão e a composição da turma. Mas fazer turmas de melhores e de piores alunos continua a ser usual nas escolas.

Para Catela Nunes, esta prática de separar bons e maus alunos “pode ser justificada do ponto de vista pedagógico”. É, precisamente isso que mostra o estudo “Composição das turmas e desempenho dos alunos em Portugal”, desenvolvido em conjunto com os investigadores João Firmino, Ana Balcão Reis e Carmo Seabra: “Encontramos muitas dimensões em que a composição da turma pode ter efeitos positivos ou negativos”. Se umas dimensões sugerem a criação de turmas o mais homogéneas possível, distribuir, por exemplo, alunos de um tipo pelas turmas todas, outras ditam precisamente o contrário.

O estudo mostra, por exemplo, que os alunos conseguem melhores resultados se a turma for mais homogénea em termos de idade de referência para esse nível de escolaridade. “É mais difícil dar aulas a alunos com grande diversidade de conhecimentos, uns mais avançados outros menos, do que dar aulas a alunos que estão todos ao mesmo nível.”

O investigador recomenda “algum cuidado” na forma como se distribuem os alunos com idade mais avançada. Ou seja, alunos que já reprovaram. Sobretudo, porque nalgumas circunstâncias os alunos repetentes saem mais beneficiados – em termos de sucesso escolar – se estiverem com colegas nas mesmas condições. E saem prejudicados quando integram turmas onde a maioria dos alunos nunca reprovou. O mesmo acontece com os não repetentes, que beneficiam com a integração em turmas sem repetentes.

Uma das razões para esta separação, por idades, resultar, avança Catela Nunes, “pode ser porque o professor tendo uma turma mais homogénea – com repetentes ou não repetentes – consegue de forma mais eficiente adaptar os próprios métodos de ensino a esses alunos. Assim, os repetentes conseguem melhorar. Os nossos resultados mostram, nesta dimensão, que pode haver vantagem em separar os alunos”.

Ao contrário do que acontece com a idade de referência, os investigadores verificaram que os alunos mais carenciados obtêm melhores resultados quando estão dispersos equitativamente por todas as turmas. Quando se trata de analisar os resultados dos alunos consoante os rendimentos das suas famílias – através do indicador ser ou não beneficiário de apoios escolares – a concentração destes alunos em turmas homogéneas produz um efeito negativo sobre o seu desempenho escolar.

Criar a turma ideal

Qual a composição de turma ideal para que todos os alunos possam ter sucesso? É talvez a pergunta que importa fazer. “Não há uma receita que seja única para todas as escolas, porque ao querermos melhorar numa direção, podemos piorar noutra”, constata Luís Catela Nunes. “Há muitas dimensões que podem ser tidas em conta e nesse ponto as escolas têm um papel importante, que é o de conhecer o que pode funcionar melhor ou pior”, acrescenta.

Alguns diretores de escola já se interessam por conhecer o que os estudos dizem sobre composição de turmas. Para quem nunca leu nada sobre o tema, Catela Nunes salienta a importância de olhar para histórico de reprovações e para a condição económica dos alunos.

“Tem de haver um equilíbrio e cada escola tem a informação necessária para conseguir chegar a um equilíbrio mais vantajoso do ponto de vista da equidade que seja bom para os alunos como um todo.” Nunca esquecendo, alerta o investigador, que “existem formas mais inteligentes de elaborar as turmas, mas que a turma ideal pode ter uma composição diferente consoante a escola.”

Composição das turmas e desempenho dos alunos em Portugal

 

Parlamento aprova propostas para reduzir tamanho das turmas

Outubro 29, 2016 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/de 7 de outubro de 2016.

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Ana Brito

O Parlamento aprovou nesta sexta-feira um conjunto de propostas de vários partidos estipulando um número máximo de alunos por turma na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário.

“Os Verdes” (PEV), Partido Comunista Português (PCP), Bloco de Esquerda (BE), CDS-PP e PS apresentaram esta sexta-feira no Parlamento projectos relativos à dimensão das turmas no ensino público e todos foram aprovados. Agora, estes diplomas vão baixar à Comissão de Educação e Ciência, para que se possa encontrar uma redacção que reúna o acordo dos vários partidos.

O PCP, o PEV e o Bloco de Esquerda apresentaram projectos de lei que estabelecem números máximos de alunos por turma, com algumas ligeiras diferenças entre eles. O texto do PEV, por exemplo, prevê um máximo de 18 crianças nas turmas do pré-escolar e, em caso de turmas com crianças com necessidades educativas especiais ou NEE (que não podem ir além das duas), o número de alunos terá de se ficar pelos 14.

Do 1.º ao 4.º ano as turmas não deverão ter mais de 19 alunos (actualmente podem ir até aos 24) e, entre o 5.º e o 9.º ano, não podem ter mais de 20. Actualmente, as turmas dos 5.º ao 12.º anos de escolaridade são constituídas por um número mínimo de 24 alunos e um máximo de 28 alunos. A proposta do PEV é semelhante à do PCP que, no entanto, admite um total de 19 alunos por docente no pré-escolar.

No projecto que “estabelece medidas de redução do número de alunos por turma visando a melhoria do processo de ensino – aprendizagem” os comunistas prevêem ainda que as turmas só com crianças de três anos, não possam ir além dos 15 alunos. Esse deverá ser também o máximo observado para as turmas com crianças com NEE (que não devem ser mais de duas), seja no pré-escolar, no 1.º ciclo, ou no 2.º ciclo. No 3.º ciclo o limite sobe para 17 alunos.

“Práticas lectivas assistidas”

O projecto de lei do Bloco também contempla 19 alunos por turma no pré-escolar (15 alunos nas turmas com crianças com necessidades educativas especiais) e 20 alunos por turma no 1.º ciclo (do 1.º ao 4.º ano). Já para as turmas entre o 5.º e o 12.º ano, os bloquistas entendem que devem ter um mínimo de 18 e um máximo de 22 alunos. Se houver crianças com necessidades especiais, em qualquer um dos níveis de escolaridade, as turmas devem ter um máximo de 18 alunos e “não mais de dois alunos nessas condições”.

O Bloco fez ainda aprovar um projecto de resolução com medidas para a promoção do sucesso escolar, “nomeadamente o desdobramento de turmas, a promoção de coadjuvações, a reintrodução de pares pedagógicos nas disciplinas de maior pendor prático”, lê-se no documento.

Foi igualmente aprovado o projecto de resolução do PS que recomenda ao Governo a “progressiva redução do número de alunos por turma a partir do ano lectivo 2017/2018”, assim como o projecto de resolução do CDS-PP, visando “a promoção do sucesso escolar através de um estratégico e adequado dimensionamento de turmas”.

No diploma os centristas pedem a “adopção de práticas lectivas assistidas (isto é, de coadjuvação), aulas de apoio, o recurso aos projectos de promoção de sucesso já existentes ou a outros a criar para o efeito”.

Além disso, o CDS-PP pretende que se desenvolva uma discussão “alargada e fundamentada sobre quais os modelos de organização pedagógica das escolas, incluindo as tipologias e formatos de turmas” do ensino público, tomando com exemplo “experiências inovadoras já em curso noutros países”. Os textos do PEV, PCP e BE foram aprovados com votos contra de PSD e CDS-PP e “luz verde” das demais bancadas, ao passo que no caso do PS, sociais-democratas e centristas abstiveram-se.

Já a resolução do CDS-PP pedindo a “promoção do sucesso escolar através de um estratégico e adequado dimensionamento de turmas” foi votado por alíneas, mas no final foi também aprovado. Com Lusa

 

 

Dimensão das turmas interfere no trabalho das escolas

Abril 27, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do site Educare de 15 de abril de 2016.

o estudo citado na notícia é o seguinte:

Organização escolar: as turmas

educare

Estudo do Conselho Nacional de Educação alerta para a distribuição desigual de recursos e aconselha a que sejam as direções escolares a tratar deste assunto de acordo com as características dos alunos, estratégias e projetos educativos.

Sara R. Oliveira

É uma “profunda desigualdade” na distribuição de recursos que sobressai no estudo “Organização Escolar: As Turmas” do Conselho Nacional de Educação (CNE). Desigualdade na comparação entre regiões, entre diferentes ciclos de ensino, entre ensino regular e modalidades especiais de ensino e ainda no cumprimento dos normativos legais, sobretudo no caso da legislação relativa aos alunos com necessidades educativas especiais. No estudo, percebe-se que há margem para uma redução seletiva e gradual do número de alunos por turma, desde que, sublinha-se, “se corrijam situações que não respeitam os limiares mínimos definidos pela lei”. É mais um trabalho de gestão dos recursos existentes do que a adoção de novos normativos de aplicação universal.

A dimensão das turmas pode ajudar a explicar várias situações e o assunto tem sido abordado de vários ângulos. Um inquérito da OCDE, onde participaram 24 países da OCDE e outros nove, revela que os professores gastam, em média, 79% do seu tempo no processo de ensino e aprendizagem.

Portugal fica próximo dos 75%. Verifica-se então uma correlação positiva entre a dimensão média da turma e a proporção de alunos com problemas de comportamento. Logo, concluiu-se, que “turmas de maior dimensão estão associadas a uma maior proporção de alunos com problemas comportamentais, o que implica menor tempo gasto em atividades de ensino e aprendizagem”. Portugal manteve a dimensão média das turmas com 20 alunos entre 2000 e 2009, abaixo da média da OCDE que rondava os 22 alunos, e semelhante à média da União Europeia, de 20. Em 2013, verifica-se uma pequena subida, de 21 alunos por turma, ultrapassando, ligeiramente, a média da UE e aproximando-se da média da OCDE. No mapa internacional, a Turquia e a Coreia, embora acima da média da OCDE, baixaram significativamente de 2000 para 2013 a dimensão média das turmas, ou seja, de 31 para 23 alunos e de 37 para 24, respetivamente. Japão, Israel, Chile, Irlanda e Reino Unido ainda mantêm valores entre 25 e 29 alunos por turma. Do lado oposto, está a Eslováquia, que passou de 24 para 20 alunos por turma entre 2000 e 2013.

O CNE consultou os dados do Sistema Nacional de Gestão de Turmas disponibilizado pela Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE) em novembro de 2015. Os números são divulgados e analisados. Em 2015/2016, no pré-escolar o número médio de crianças por turma é de 19,6 e não há turmas com mais de 26 crianças. No 1.º ciclo, o número médio é de 20,7 e não há turmas com mais de 30 alunos. Neste ciclo de ensino, 32% das turmas têm alunos de mais de um ano de escolaridade, abrangendo 28% dos alunos, e 226 turmas integram os quatro anos de escolaridade, envolvendo 3175 alunos. Em termos geográficos, em 43 concelhos, pelo menos 60% das turmas têm alunos de mais de um ano de escolaridade. Em Alcoutim, por exemplo, todas as turmas estão nesta situação. A quase totalidade desses concelhos situa-se no interior do país. Mas, curiosamente, apenas seis concelhos, todos no interior do país, têm apenas turmas com um só ano de escolaridade – Arronches, Crato, Lousã, Manteigas, Paredes de Coura e Vimioso.

No 2.º ciclo, o número médio de alunos por turma é de 22,1 e 27 turmas têm 31 alunos ou mais, ultrapassando o limite máximo. No 3.º ciclo, o número médio é de 22,4 e 64 turmas têm 31 alunos ou mais, também ultrapassando o limite. Nesta análise, verifica-se que cerca de 45% das turmas do 1.º ciclo, 25% do 2.º ciclo e 32% do 3.º ciclo estão subdimensionadas, isto é, respeitam o limite máximo de alunos com necessidades educativas especiais, mas não atingem o limite mínimo de alunos na turma. Estão sobredimensionadas, aproximadamente, 20% das turmas do 1.º ciclo, 21% das turmas do 2.º ciclo e 17% das turmas do 3.º ciclo.

No Ensino Secundário, o número médio de alunos por turma é de 24,5 e 174 turmas têm 31 alunos ou mais, ultrapassando o limite máximo. No ensino secundário profissional, o número médio de alunos por turma é de 17,2 e 13 turmas têm 31 alunos ou mais. O rácio médio da OCDE é de 13 alunos por professor. Portugal está abaixo dessa média com um rácio de 10 alunos por professor, como acontece na Islândia, Hungria, Polónia, Noruega e Estónia. O valor máximo de 32 está no México e o mínimo, de sete, na Grécia.

Padrão de distribuição

O CNE analisa a dimensão das turmas desde 2001. No pré-escolar, o número manteve-se estável entre 20 e 25 alunos em cada turma. No 1.º ciclo, dos 25 alunos entre 2001 e 2004, passou-se para 24 entre 2004 e 2013 e o número subiu para 26 alunos por turma entre 2013 e 2016. Nos restantes níveis de ensino, também se registaram aumentos. No 2.º e 3.º ciclos e Ensino Secundário, as turmas tinham entre 25 e 28 alunos de 2001 a 2004, entre 24 e 28 de 2004 a 2013 e 26 a 30 alunos por turma de 2013 a 2016. No ensino profissional, as turmas tinham entre 18 e 23 alunos de 2004 a 2013 e entre 24 e 30 de 2013 a 2016. Nestes anos em análise, as turmas com alunos com necessidades educativas especiais não têm mais de 20 alunos e não podem incluir mais de dois alunos nessas condições.

A redução do número de alunos volta a estar no centro das atenções. Uma realidade que não pode ser vista isoladamente. É preciso ter noção da real situação da rede pública de ensino para tomar decisões e o investimento na formação de professores e em práticas de apoio às aprendizagens é importante neste contexto. O CNE considera conveniente reduzir o número de turmas do 1.º ciclo do Ensino Básico com alunos de diferentes anos de escolaridade – o que acontece em 32% das turmas do 1.º ciclo e há casos com os quatro anos na mesma turma. Situações que poderão aumentar devido à quebra de natalidade. “Caso não se retomem as políticas de reordenamento de escolas do 1.º ciclo, esta realidade das turmas mistas tenderá a aumentar com os efeitos reconhecidos sobre a qualidade das aprendizagens”, escreve David Justino, presidente do CNE, na introdução do estudo.

Há vários pontos que se entrecruzam com a dimensão das turmas. O sucesso escolar e as estratégias de qualificação das aprendizagens são alguns exemplos. As situações que se observam são diversas e, por isso, sugere-se que sejam as escolas a organizarem as suas turmas de acordo com as suas estratégias e os seus planos, o que permite respostas diferenciadas para os diferentes perfis de alunos. A ser assim, o Ministério da Educação (ME) teria de definir um “padrão de distribuição dos recursos a cada agrupamento de escolas”, com as direções a decidirem como esses recursos seriam distribuídos em função de prioridades, estratégias de qualificação, projetos educativos e características dos alunos.

Capacitação de professores

O CNE faz a revisão da literatura que existe à volta do tema. Há autores que defendem que uma redução de 10 ou mais alunos numa turma permite obter a máxima eficiência na melhoria dos resultados escolares, e sustentam que o aumento do rendimento da turma torna-se mais significativo se forem reduzidos cinco alunos numa turma de 15 do que numa turma de 25. Os efeitos dessa redução são sublinhados por outros investigadores que destacam várias melhorias como, por exemplo, aulas com maior profundidade, mais tempo efetivo de aprendizagem com maior participação dos alunos, mais formação especializada dos professores para lidar com as especificidades das turmas de dimensão reduzida ou com um maior número de alunos.

No entanto, há estudiosos da matéria que garantem que as atitudes dos professores e a sua metodologia de ensino não variam muito em função da dimensão das turmas e que as estratégias ou práticas não se alteram se não houver o cuidado de proporcionar oportunidades para que os alunos se envolvam mais em atividades expressivas em pequenos grupos ou em projetos individuais. E há os que alertam para o facto de o número de alunos por turma se tornar um obstáculo ao desenvolvimento de práticas inclusivas que, para alguns, não são possíveis em turmas com 25 ou mais alunos. “Um ponto convergente é que as variações na qualidade do professor dominam qualquer efeito da dimensão reduzida de uma turma e são determinantes para a qualidade do ensino”, lê-se no estudo.

Os estudos analisados pelo CNE sugerem medidas alternativas à redução do número de alunos por turma. Entre elas, está o maior investimento na qualificação, bem como a capacitação e formação dos professores, um melhor sistema de colocação e recrutamento de professores com menor rotatividade, além de políticas de compensação para professores, combate à retenção, implementação de um melhor currículo, sistema de monitorização e de avaliação mais frequente, maior tecnologia educacional e ainda uma maior autonomia do diretor para gerir a atribuição de turmas.

 

 

Problemas de comportamento aumentam em turmas maiores

Abril 17, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 5 de abril de 2016.

O estudo emocionado na notícia é o seguinte:

Organização escolar: as turmas

daniel rocha

Clara Viana

Há uma relação entre o número de alunos e o modo como os professores gastam o tempo em sala de aula, recorda o Conselho Nacional de Educação.

Quanto maiores forem as turmas, menor é o tempo gasto em actividades de ensino e aprendizagem. Esta é uma das conclusões destacadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) num estudo sobre a organização de turmas, divulgado na semana passada, onde se refere também que as salas com mais estudantes “estão associadas a uma maior proporção de alunos com problemas comportamentais”.

Para avaliar a relação entre a dimensão média das turmas e o tempo gasto em actividades de ensino e a manter a ordem na sala de aula, o CNE recuperou os dados do último inquérito realizado pela OCDE a professores e dirigentes escolares de 34 países, datado de 2013. As respostas recolhidas no âmbito do inquérito Teaching and Learning International Survey (TALIS) dão conta de que Portugal está entre os países em que os professores dizem gastar mais tempo a manter a ordem na sala de aula: 15,7% do tempo de aulas é consumido nesta tarefa, contra uma média de 13,1% na OCDE. A Rússia é o país que apresenta melhores resultados neste capítulo, com apenas 6,3% do tempo dos professores a ser gasto em manter a ordem nas aulas. O pior é o Brasil, onde esta percentagem sobe para 19,8%.

O relatório foi divulgado a uma semana de serem apreciadas no Parlamento várias iniciativas legislativas — do PCP, Verdes, Bloco de Esquerda, CDS e PS — com vista à redução do número de alunos por turma, uma medida que, segundo o CNE, poderá resultar num encargo financeiro de mais 750 milhões de euros.

No último estudo sobre o estado da educação da OCDE (Education at Glance 2015), refere-se que “os professores 1041624gastam, em média, 79% do seu tempo no processo de ensino e aprendizagem”, uma proporção que, contudo, “varia muito de país para país” e que, só em parte, pode ser explicada pela dimensão das turmas, lembra o CNE, remetendo para as respostas recolhidas no âmbito do TALIS e que dão conta, por exemplo, desta situação: a dimensão média das turmas é semelhante em Portugal e na Polónia, mas o tempo gasto a ensinar é substancialmente menor por cá — 75,8%, por comparação com os 82,2% reportados pelos professores polacos.

Apesar de existirem outros factores que contribuem para esta variação, entre eles a qualidade dos professores, os dados recolhidos pela OCDE mostram que existe uma correlação entre o número de alunos por turma e o tempo dedicado ao ensino. “Especificamente, por cada aluno adicionado à média da dimensão de uma turma está associado uma diminuição de 0,5 pontos percentuais no tempo gasto em actividades de ensino e aprendizagem”, frisa o CNE.

Mais alunos indisciplinados

As turmas de maior dimensão também “estão associadas a uma maior proporção de alunos com problemas comportamentais” e, quando esta é superior a 10%, os professores “gastam quase o dobro do tempo a manter a ordem na sala de aula”, destaca o CNE. Segundo os dados do TALIS, Portugal está entre os cinco países com uma maior percentagem de professores a indicar que estão nesta situação: 38%. A Finlândia, geralmente apontado como um modelo na educação, aparece logo a seguir, com 35%, e o Brasil volta a ser o pior colocado, com mais de metade dos docentes (67%) a relatarem que leccionam em turmas onde mais de 10% dos alunos têm problemas de comportamento. Já no Japão desce para 14%, o valor mais baixo nesta tabela.

Num estudo sobre a indisciplina nas escolas, divulgado no mês passado, o docente do ensino secundário Alexandre Henriques, autor do blogue ComRegras, também apresenta a redução do número de alunos por turma como uma das medidas que podem contribuir para a redução daquele fenómeno que, segundo ele, é um dos principais problemas do sistema de ensino português.

Os dados que recolheu em 38 agrupamentos e escolas, abrangendo cerca de 50 mil alunos, dão conta de que no ano lectivo de 2014/2015 se registaram mais de nove mil participações disciplinares. Sublinhando que estes elementos dizem respeito apenas a 4% dos agrupamentos existentes, Alexandre Henriques faz o seguinte exercício: extrapolando para uma amostragem de 100% poder-se-ia chegar, “hipoteticamente, a um número superior a 200 mil participações disciplinares num só ano”.

Em resposta ao PÚBLICO, Alexandre Henriques comenta que “é do senso comum que tomar conta de 30 crianças não é a mesma coisa que tomar conta de 15″. Embora defenda a redução do número de alunos por turma, considera que é preciso muito mais para reduzir a indisciplina em sala de aula, que deveria passar por “uma estratégia conjunta que envolva Ministério da Educação, pais, professores e também alunos que permitam a implementação de um plano em várias frentes”. “A elevada carga lectiva, a negligência parental, modelos pedagógicos erráticos e antiquados, a ausência de monitorização disciplinar e processos burocráticos, entre outros, não se diluem com turmas mais reduzidas”, alerta.

Mas se a investigação reconhece que a dimensão das turmas “contribui para a melhoria dos ambientes escolares”, tal já não se passa com a melhoria das aprendizagens, lembra o presidente do CNE, David Justino, na introdução ao relatório apresentado na semana passada. “Se colocarmos em alternativa a redução do número de alunos por turma e um maior investimento na formação de professores e em práticas de apoio às aprendizagens, estas últimas medidas têm maior impacto do que a mera redução administrativa da dimensão das turmas”, especifica o antigo ministro da Educação do PSD.

Actualmente, as turmas do 1.º ciclo podem ter num máximo de 26 alunos e nos ciclos seguintes este número sobe para 30. Os dados recolhidos pelo CNE, um órgão consultivo do Parlamento e do Governo, dão conta de que cerca de 45% das turmas do 1.º ciclo, 25% do 2.º ciclo e 32% do 3.º “estão subdimensionadas, isto é, não atingem o limite mínimo de alunos” por sala.

Pode o combate ao insucesso justificar a separação de alunos por etnia?

Outubro 1, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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artigo do Público de 25 de setembro de 2014.

nelson garrido

 

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O caso da turma de meninos ciganos, em Tomar, é de duvidosa constitucionalidade, diz o alto-comissário para as Migrações. Fomos conhecer outros. Há quem considere que nunca é legítimo separar alunos e quem fale de experiências bem sucedidas. “Um dilema”, diz Maria do Rosário Carneiro.

Nos últimos anos, a polémica tem envolvido sobretudo crianças ciganas. E a mais recente é da semana passada — tal como o PÚBLICO noticiou, a Escola Básica do 1.º ciclo dos Templários, em Tomar, constituiu uma turma com 14 meninos e meninas, de etnia cigana, entre os 7 e os 14 anos. As famílias revoltaram-se. Mas a pergunta “é ou não legítimo criar turmas com alunos de uma única etnia?” não parece ter resposta fácil. Pedro Calado, alto-comissário para as Migrações, que ainda aguarda explicações da escola, diz que a separação, tal com ela aconteceu em Tomar, é, “à luz da Constituição portuguesa, francamente questionável”. Contudo, um relatório da comissão de Ética do Parlamento, de 2009, dava conta de que alguns estabelecimentos que ensaiaram experiências do género conseguiram “uma redução drástica do abandono escolar”.

No que ficamos? Maria do Rosário Carneiro, que redigiu o relatório do Parlamento sobre os portugueses ciganos, que resultou de dezenas de audições e visitas ao terreno, fala de “um dilema”. Diz que tudo o que passe por separar alunos por etnia corre o risco de ser inconstitucional se não levar o carimbo de “experiência transitória” e não for muito bem fundamentado. Mais: “Não pode haver uma turma destas se ela não for excelente em recursos, em acompanhamento, em avaliação, em tudo! A discriminação positiva tem de ser sempre de excelência!”

Mas, até isto, admite, “é controverso”. Cada caso, é um caso.

Pedro Calado considera que em “situações extremas”, quando tudo o resto falhou para evitar o abandono ou o insucesso repetido, a separação de alunos pode aceitar-se. Também estabelece condições. Todas as partes estarem de acordo é uma delas, incluindo as famílias. Mas há mais. “Não podem ser soluções que se perpetuam no tempo, têm de ser temporárias e o objectivo tem de ser a integração do grupo minoritário [os alunos ciganos] no grupo maioritário.”

O alto-comissário também defende que a separação não é admissível se estamos a falar de crianças que frequentam o ensino regular. Já turmas de programas alternativos, para grupos específicos de jovens adultos que dificilmente voltariam à escola de outro modo, são aceitáveis, diz, desde que devidamente sustentado o projecto. “Há boas práticas”, garante.

O PÚBLICO procurou algumas escolas com projectos específicos para alunos ciganos (ver lista de exemplos em baixo). Os dirigentes escolares enaltecem-lhes as virtudes. Mas há quem os critique. “É bastante frequente as escolas separarem os meninos por etnia, ou só os repentes ou só os que perturbam mais”, afirma Luiza Cortesão, professora emérita da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, especialista em problemáticas interculturais. “Mas é preciso abolir isto, porque é uma discriminação”, defende. “Agora, também é preciso dar formação aos professores para atenderem à diversidade.”

Insucesso crónico
A Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (publicada em 2013) prevê a produção anual de um relatório sobre a situação escolar dos alunos de etnia cigana. Continua a estudar-se a forma legal de obter esta informação.

Ainda assim, sabe-se que o insucesso destas crianças é elevado por factores vários, apontados no relatório do Parlamento, como os baixos níveis de escolaridade e a itinerância das famílias. Sobre as experiências no terreno de organização de turmas étnicas, com argumentos vários, como “a necessidade de retirar as crianças ciganas, mais velhas, das turmas em que a idade média é muito mais baixa”, conclui o documento: em regra, esta separação de alunos é acompanhada “por horários desfasados de recreios e de refeições, reduzindo-se assim a integração ao espaço físico da escola”.

Nalguns casos, o resultado foi a “redução drástica do abandono, do absentismo, da conflitualidade, progressivo sucesso escolar, alguma integração na restante comunidade escolar.” Muitos pais de etnia cigana sentem que os filhos estão mais protegidos assim. Outros contestam a separação. Maria do Rosário Carneiro nota que se limitou a registar o que foi observado.

A António Pinto Nunes, membro do Grupo Consultivo para a Integração das Comunidades Ciganas, que funciona junto do Alto Comissariado, estes argumentos não convencem. É contra a separação. E acusa a escola de Tomar de discriminar os ciganos. Diz que não é caso único. “Os senhores, por vezes, para terem menos trabalho e adquirirem popularidade tomam atitudes racistas — porque a população não gosta dos ciganos.”

Ministério pede esclarecimentos
Pedro Calado — que não acredita que tenha havido um intuito discriminatório na escola de Tomar mas que também acha que esta não vive uma “situação excepcional” que justifique a separação dos alunos — aguarda pelos argumentos do director do agrupamento (ao PÚBLICO, Carlos Ribeiro disse, na sexta-feira, que “a ideia é apostar” nestes alunos).

O Ministério da Educação e Ciência faz saber, por seu lado, que já pediu mais informação à escola. “Caso seja necessário, adoptará os procedimentos adequados”, comunicou nesta quarta-feira, em resposta ao PÚBLICO.

Para já, o alto-comissário diz: “Se uma das partes não está satisfeita, como é o caso, ainda temos de ser mais críticos.” Para além do mais, em Tomar, estamos a falar de crianças que estão em diferentes níveis  — 1.º, 3.º, 4.º anos —, todas juntas, no ensino regular. E há princípios que não se podem perder de vista, insiste: as comunidades “têm direito à sua identidade cultural” mas “a sociedade maioritária tem o dever de promover a mistura cultural”. Ainda assim sublinha: “As queixas de discriminação são pontuais. Não temos um problema dramático de discriminação.”

Mas Luiza Cortesão acha que temos alguns problemas. E se não há mais queixas, acredita, é porque a discriminação está tão entranhada que as pessoas não reivindicam mais igualdade. Recorda, a título de exemplo, o caso de uma escola que acompanhou onde havia uma turma só de alunos que tinha um horário distinto dos outros para fazer as refeições no refeitório. “A escola dizia que assim se sentiam mais à vontade. Não houve um único pai desses alunos que protestasse.”

Escolas com turmas só de alunos ciganos, ou quase

Estarreja
É uma novidade deste ano lectivo na Escola Básica Padre Donaciano de Abreu Freire, que pertence ao agrupamento de escolas de Estarreja. Foram criadas duas turmas, especialmente pequenas, “para alunos com um número elevado de retenções”, explica Emídio Ferro, o coordenador da escola. “Isto não é para resolver um problema de ciganos, é para resolver um problema de um grupo que tem grandes dificuldades escolares, em vez de os colocar numa turma com 25 alunos”, que é o tamanho normal, sublinha o professor.

Uma das turmas concentra alunos de diferentes anos do 1.º ciclo do ensino básico, todos de etnia cigana e todos com dois ou três chumbos no currículo. São 12 meninos com 10, 11 anos. A segunda turma tem alunos do 2.º ciclo, metade ciganos e metade não ciganos, prossegue Emídio Ferro. A dimensão dos grupos permite que crianças e jovens tenham um acompanhamento mais personalizado, garante.

Outras especificidades? A escola fornece materiais escolares — que estes alunos nem sempre têm — e “não há uma tão grande preocupação em passar trabalhos para casa”.

O professor tem o cuidado de sublinhar que “o critério [para integrar estes grupos] não foi ser de etnia cigana, foi ter um absentismo elevado, insucesso, falta de pontualidade”. Aconteceu que na turma do 1.º ciclo todos os que cumpriam esses requisitos eram ciganos.

Questionado sobre se as famílias foram consultadas, diz que no caso do grupo do 1º ciclo tal não foi possível porque muitos pais só apareceram quando o ano lectivo arrancou. Mas, nota, foi-lhes explicado que havia abertura para mudar os meninos se tal fosse pedido. Não foi. Pelo contrário: o pai de um menino de etnia cigana que estava noutra turma onde essa etnia é minoritária pediu uma mudança para a classe que só tem alunos ciganos.

“Dissemos-lhe que não era adequado, não cumpria os requisitos de ter muitas retenções.”

As aulas começaram há apenas duas semanas, mas Emídio Ferro diz que há alguns sinais positivos: menos agressividade e alunos mais pontuais. É certo que também foi feito um trabalho com as famílias — que, diz, estão mais sensibilizadas para a ideia de que se os filhos não forem à escola podem perder subsídios que eventualmente recebam.

Sobral da Adiça
Sobral da Adiça é uma pequena freguesia de mil habitantes, em Moura. Em 2010, nasceu ali uma turma PIEF — uma turma integrada no Programa Integrado de Educação e Formação (PIEF), que permite planos de formação próprios para jovens com mais de 15 anos em situação de abandono, com uma componente de educação, outra de formação, outra mais cívica. São uma espécie de último recurso. O grupo tinha uma particularidade: os oito alunos que o constituiam eram de etnia cigana. Actualmente, são nove alunos, rapazes e raparigas, sete dos quais de etnia cigana, diz Manuel Rodrigues de Freitas, director do Agrupamento de Escolas de Moura.

Muitos não fariam os 20 km necessários até à escola mais próxima para continuarem os estudos, garante. Têm aulas numa sala cedida pela junta de freguesia porque se entendeu que isso era mais adequado do que usar a escola do 1.º ciclo local. “Têm 16, 17 anos e um currículo adaptado às suas necessidades. Os conteúdos são acessíveis e todos passam de ano. Alguns são casados, algumas já são mães, mas continuam a ir às aulas. Temos alunos que estão a fazer o 2.º ciclo e outros que estão a fazer o 3.º.” De outro modo, está convicto, não estariam.

Darque
A notícia estalou nos jornais em 2009: tinha sido criada uma turma só com alunos ciganos, num monobloco, na escola EB1 de Lagoa Negra, em Barqueiros, Barcelos. O Observatório dos Direitos Humanos, entidade que resulta de uma parceria de diversas organizações como a SOS Racismo, arrasaria a medida. Ela só acentuaria a “exclusão e as desigualdades sociais”.

Em pleno debate mediático, o então director do agrupamento de escolas de Darque (Viana do Castelo), Luís Braga, falava ao Diário de Notícias. Tinha uma turma de 10 alunos, entre os 12 e os 15 anos, oito dos quais ciganos, que tinham aulas à parte. Não achava que estivesse a fazer mal. Pelo contrário. “Estas turmas, chamadas ‘de abandono’, visam resolver o problema da alternativa e é na alternativa que as pessoas não estão a pensar: que aqueles miúdos nem sequer iam à escola”, explicou na altura. A turma estava integrada no PIEF.

Passados estes anos, o que se passa em Darque? (sendo certo que na escola de Lagoa Negra a turma de alunos ciganos foi extinta no ano lectivo seguinte) Hoje a escola está integrada no mega-agrupamento de Escolas do Monte da Ola. Conceição Fernandes, directora do mega-agrupamento, diz que até ao ano passado continuava a haver “um PIEF para rapazes, outro PIEF para raparigas”, maioritariamente de alunos ciganos. A preocupação em separar rapazes e raparigas tinha a ver, precisamnete, com o público de etnia cigana: “Estamos a falar de jovens que já têm 15, 16, 17 anos… e a mistura já não é aceite na comunidade.” Este ano, contudo, só uma turma PIEF recebeu aprovação ministerial. É cedo, diz, para perceber se há desistências por causa disso.

 

 


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