O valor do trabalho – pais-multibanco

Agosto 20, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mário Cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 8 de agosto de 2017.

O conceito de pais-multibanco está a pegar… e o desfasamento entre o conforto em que muitos adolescentes vivem e o valor do trabalho que proporciona todas essas benesses é cada vez maior. Basta só pedir (ou exigir) porque o pai paga.

Há dias, numa consulta, uma jovem de telemóvel ligado, mesmo depois de os pais, timidamente, lhe dizerem para desligar, estando-se ela completamente nas tintas para o que eles diziam, e de eu próprio me ter imposto, aí com um bocadinho mais de sorte, dizia que não entendia porque é que não lhe davam o telemóvel e que precisava dele. “Para quê?”, perguntei. Ela olhou para mim, para os pais, e disse: “Para ao menos estar a ver o que os meus amigos postam no Insta ou ver o que há no Face… Podem estar a passar-se bué de coisas e eu aqui…”

Os pais abriram a boca para, durante largos minutos, desabafarem, dizerem que não conseguiam fazer nada dela (entretanto, já a mãe, para a calar, lhe tinha dado o seu próprio telemóvel) e que estava ligada todo o santo dia à internet.

Perguntei aos pais o que é que aquela adolescente, em férias desde meados de junho, iria fazer até às aulas. “Nada”, foi a resposta. “Está em casa e irá connosco para a aldeia duas semanas, que é o que podemos tirar lá na loja.” A miúda olhou sobranceiramente para os pais e disse: “E já que tenho de aturar esta seca, ao menos podiam comprar-me o novo iPhone! Sinto-me uma nerd, com uma coisa tão cota.”

Resolvi acabar com aquela conversa e disse à miúda que a queria observar, e quando ela estava deitada na marquesa, depois de lhe medir a tensão arterial, deixei-a lá, com o aparelho colocado, e peguei no meu telemóvel e fingi estar a ligar-me à net.

Passado um bocado bem largo em que os pais e ela mantiveram o silêncio, ela reagiu: “Eh! Então? Posso sair daqui?” Fiz um gesto a pedir silêncio e disse: “Não, não podes que ainda não acabou. Mas agora tenho de ver o que os meus amigos colocaram no Face e ainda responder a umas coisas no WhatsApp.”

Consegui manter-me no telemóvel enquanto a via cada vez mais perdida e irritada, até que disse: “E não é a altura da minha consulta? Acha bem estar com o telemóvel na minha consulta? Está a dar cabo dela e a atrasar-me.”

Pousei o telemóvel e disse: “Ora viva quem acordou! Pois a primeira a tentar dar cabo da tua consulta e atrasá-la foste tu porque, que eu saiba, desde que aqui chegaste, não se falou de outra coisa nem tu largaste o telemóvel.” E aproveitei para perguntar, enquanto retomava a consulta: “O que vais fazer nas férias?” Ela olhou para mim com ar triste (não parecia a mesma miúda arrogante e pespineta de há minutos) e exclamou: “Não tenho nada para fazer!” Enfim, perante a passividade total dos pais, verifiquei que, de facto, aquela jovem não tinha mesmo nada para fazer. Não lia um livro, não tinha um trabalho nem se encontrava com os amigos porque viviam em locais distantes, ou seja, apenas lhe restavam os ecrãs como entretenimento e comunicação. Três meses, salvo duas semanas em que, na aldeia, tudo seria provavelmente igual.

Porque não um trabalhinho nas férias? Os jovens de hoje dão por adquirido terem uma série de coisas, desde as férias (merecidas) aos telemóveis, iPads, acesso à internet e tudo o mais. Vivem (e ainda bem), salvo raras exceções, com níveis superiores de conforto, disponibilidade de bens alimentares, consumo e lazer. Frequentam a escola e os pais ainda lhes proporcionam atividades lúdicas, que muitos tratam como um frete, apesar de terem sido eles a dizer que as desejavam.

Como o futuro reside longe, e ainda por cima lhes é dito ser tão imprevisível, muitos, mas mesmo muitos, nem se dão ao trabalho de pensar nele, acreditando que “choverá” por certo um emprego ou qualquer coisita, ou que os papás continuarão a alimentá-los até aos confins dos tempos, pagando-lhes de bom grado as contas dos telemóveis, as roupas de marca que exigem e tudo o mais.

Pois bem… estou em crer que o que está a acontecer é o descrédito do valor do trabalho. O trabalho como dignificação da pessoa, fonte de rendimento, possibilidade de adquirir bens de consumo e de conforto (são os pais que trabalham, claro, para os adolescentes usufruírem das coisas…) ou realização social de uma pessoa integrada na comunidade.

Acabadas as aulas e os exames, e com o bom tempo e os dias prolongados, felizmente, muitos adolescentes começam a pensar em fazer algum tipo de trabalho para ganharem “uns trocos” ou para, simplesmente (e muito positivamente), ajudarem os pais e outras pessoas.

Aprovo totalmente que os jovens, no seu horário de lazer, façam recados e tarefas pelas quais podem até ser remunerados. Fazer jardinagem, distribuir jornais, passear cães, lavar o carro, ajudar a limpar a casa, colaborar com as juntas de freguesia no apoio aos idosos acamados, ajudar em associações de proteção animal, a dar comida ou fazer companhia, apanhar fruta das árvores, fazer babysitting… tanta coisa pode ser feita! Os restantes exemplos ficam ao vosso critério e imaginação – as escolas e as autarquias deveriam ter programas que facilitassem este “dar valor ao trabalho”.

Por outro lado, para muitas famílias, o auxílio que os adolescentes podem dar é importante; sendo parte do agregado, não deverão estar ausentes desse processo: quem come e vive na casa dos pais tem de contribuir para a “causa familiar”, mesmo que isso implique tirar o rabinho do sofá e os olhos do telemóvel, do tablet ou da televisão.

Isto não é trabalho juvenil! É aprendizagem social e até profissional, e reverterá a favor desses adolescentes, mais tarde, no seu percurso de vida.

Andamos a tratar os adolescentes de uma forma esquizoide: ora os colocamos horas e horas em escolas onde são sujeitos a um ensino maçador, repetitivo, em que muito se espreme e tão pouco sai, em que não há ligação entre as disciplinas e, pior, entre estas e a vida real e os percursos de vida futuros; ora lhes damos todas as mordomias, sendo por vezes capachos deles e não instituindo o valor do trabalho como um dos valores essenciais da humanidade. A adolescente que mencionei no início deste texto não fazia a menor ideia de que o que tinha era fruto do trabalho dos pais e achava “indecente” eles só tirarem duas semanas de férias, mas não se interrogava sobre as razões para tal ou se poderia ajudá-los na loja. O conceito de pais-multibanco está a pegar…

Chegadas as férias, e além do descanso, gozo, reposição do sono, saídas e conversa com amigos, desporto, leitura (tão pouca, infelizmente…), praia, TV, redes sociais e tanta outra coisa, considero fundamental haver “uns minutos” para pequenos trabalhos que não deslustram ninguém e até podem mostrar aos jovens que o conforto e a facilidade em que vivem são circunstanciais, efémeros, e que sem o valor do trabalho se arriscam a perder tudo e a não chegar a parte alguma.

Pediatra

Escreve à terça-feira

 

Amamentar filhos no trabalho “faz sentido” numa perspectiva económica

Agosto 4, 2015 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Rádio Renascença de 1 de agosto de 2015.

Diego Azubel EPA

Mulheres que têm benefícios no local de trabalho valorizam os seus empregadores, defende director-geral da Organização Internacional do Trabalho.

O director-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Guy Ryder, defende que “faz sentido económico” garantir que as mães disponham de tempo e espaço para amamentarem os filhos no emprego.

Em declarações à Rádio ONU, o responsável disse que assegurar a protecção adequada, tempo e espaço para a amamentação no trabalho “não só é a coisa certa a ser feita”, mas também “faz sentido económico”.

Para Guy Ryder, as mulheres que têm benefícios no local de trabalho valorizam os seus empregadores, o que, na sua opinião, conduz à “satisfação no emprego e lealdade”.

A mensagem do líder da OIT, agência da ONU, surge a propósito da Semana Mundial da Amamentação, que começou hoje, sob o tema “Amamentação e Trabalho”.

Segundo o director-geral da OIT, a amamentação no emprego é fundamental para o aumento das taxas de aleitamento materno.

Ryder lembrou que muitos países têm “relevantes legislações nacionais” sobre a criação de espaços para amamentação no local de trabalho ou próximo dele.

Contudo, ressalvou que a maioria dos cerca de 830 milhões de mulheres que trabalham no mundo não tem protecção adequada na maternidade, sendo que quase 80% dessas trabalhadoras estão na África e na Ásia.

Na sua mensagem, reproduzida no portal da Rádio ONU, o chefe da OIT salientou que as mulheres com trabalho precário enfrentam mais obstáculos para continuarem a amamentar os seus filhos, acrescentando que as mães que vivem em países mais pobres “recebem menos protecção e precisam de apoio e serviços em casa, no local de trabalho e na comunidade”.

Para Guy Ryder, é, por isso, “hora de mobilizar governos, empregadores e associações de trabalhadores para agirem de forma organizada nas áreas de saúde, nutrição e igualdade de género”, de modo a “permitirem que mulheres que trabalham amamentem”.

mais informações na notícia da Rádio ONU:

Semana Mundial da Amamentação destaca apoio a mulheres no trabalho

 

 

 

 

As mães que trabalham têm impacto positivo nos filhos

Julho 1, 2015 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.noticiasaominuto.com de 25 de junho de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Mums the Word! Cross-national Effects of Maternal Employment on Gender Inequalities at Work and at Home

 “A sociedade diz constantemente às mães trabalhadoras para se sentirem mal pelo facto de passarem menos tempo com os filhos para trazer um salário adicional”, sublinha o site Vox, antes de apresentar um novo estudo, realizado por investigadores da Harvard Business School, que promete aliviar a consciência de muitas mulheres.

Afinal, o facto de as mães trabalharem tem efeitos positivos nos filhos. Segundo as conclusões deste estudo, as filhas de mães trabalhadoras têm maiores probabilidades de ter emprego, de ocupar cargos de supervisão e de ter um salário mais alto, por oposição às filhas de mães domésticas. Também os filhos homens de mães com trabalho fora de casa são mais propensos a tomar conta de familiares e a tratar das tarefas domésticas.

Por outras palavras, como descreve o site Vox, ter uma mãe trabalhadora ajuda não só a reduzir os estereótipos associados ao género, como permite às crianças estar em contacto com um conjunto de capacidades de índole profissional.

Kathleen McGinn, professora na Harvard Business School e a principal investigadora no estudo, garante que a mensagem principal extraída das conclusões é esta: o facto de as mães trabalharem tem efeitos positivos a longo prazo nos filhos, porque ajuda a criança a perceber que há muitas oportunidades para ela.

O estudo recorreu, entre outras fontes de informação, a dados de 24 países recolhidos em 2002 e 2012

 

Sessão de Apresentação/Divulgação da Publicação “A Relação entre o Trabalho e a Família”, 25 de junho

Junho 11, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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crc

A entrada é gratuita, com inscrição obrigatória.

Confirmação de presença:

Tel.: 300 510 272 | E-mail: ISS-CRC@seg-social.pt

 

Mães dedicam mais tempo aos filhos, pais frustados por estarem mais ausentes

Abril 22, 2015 às 3:30 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da SIC Notícias de 22 de abril de 2015.

As mães estão mais tempo com filhos e trabalham mais horas entre as tarefas domésticas e o emprego, mas os pais sentem-se frustrados por não conseguirem dedicar maior atenção à criança, revela um estudo sobre as famílias portuguesas.

A investigação, publicada no livro Parentalidade(s) nas Famílias Nucleares Contemporâneas, que é apresentado hoje em Lisboa, envolveu 200 mães e 158 pais de crianças em idade pré-escolar que frequentavam os jardins-de-infância da rede pública do concelho da Amadora.

Em declarações à agência Lusa, a autora do livro, Margarida Mesquita, adiantou que o estudo pretendeu caracterizar o envolvimento parental, como é que o pai e a mãe se relacionavam com a criança e qual dos dois estava mais envolvido.

“A grande constatação foi que as mães estão tão ou mais envolvidas que os pais em relação à criança” e que “as mães sentem tanto ou mais do que os pais os problemas na parentalidade”, adiantou a investigadora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

O estudo verificou que as mães dispendem mais tempo com os filhos e são quem os acompanham e entendem melhor, enquanto os pais participam mais na educação e nas tomadas de decisão em relação à criança.

Os pais, contudo, sentem-se frustrados e culpados por não conseguirem passar tanto tempo como gostariam com os filhos. “Tínhamos, às vezes, a ideia de que eram só as mulheres que tinham esses sentimentos de culpa, mas os pais também têm”, disse a socióloga.

“Se as mães se envolvem mais com as crianças a verdade é que os pais também têm condições profissionais que são mais adversas ao exercício da parentalidade”, trabalhando mais horas, por turnos, ao fim de semana e alguns têm dois empregos.

Os pais trabalham em média 9,2 horas por dia e as mães 8,1 horas, refere o estudo, acrescentando que metade dos pais inquiridos trabalha ao fim de semana e faz mais horas no trabalho, contra cerca de 30% das mães.

Esta situação “cria-lhes uma desvantagem no envolvimento com a criança”, adiantou a socióloga.

Margarida Mesquita adiantou que a sociedade está a atravessar “mudanças muito profundas” acerca do que é o papel de pai e o papel de mãe.

“Isto significa que a sociedade está a potenciar a coexistência no mesmo casal de representações de ideais diferentes daquelas que são depois as suas práticas”, o que potencia sentimentos de culpa e de frustração, sublinhou.

O “problema central” que estas famílias enfrentam é a dificuldade de conciliar o trabalho com a parentalidade.

Quando inquiridas sobre qual seria a melhor solução, a maioria manifestou-se contra a ideia de retirar a mãe do trabalho, considerando que o melhor seria trabalharem os dois menos tempo.

Numa altura em que se discute o trabalho a tempo parcial, Margarida Mesquita disse que esta opção irá recair para a mãe, o que poderá significar que a mulher reduz a jornada de trabalho, mas ficará mais sobrecarregada na parte doméstica e nos cuidados às crianças.

“É hoje mais difícil ser pai e mãe e é também mais competitivo o mercado de trabalho, sendo que esta conciliação criou grandes dificuldades” à parentalidade, frisou.

Lusa

 

 

 

Estudo sugere que trabalhar após oito meses de gravidez afecta saúde do bebé

Agosto 13, 2012 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 28 de Julho de 2012.

Pode consultar o resumo do estudo mencionado na notícia:

Intrafamily Resource Allocations: A Dynamic Structural Model of Birth Weight

Por PÚBLICO

Um estudo de três economistas da Universidade de Essex, em Inglaterra, sugere que trabalhar no último mês de gravidez afecta o desenvolvimento do bebé de forma semelhante ao tabaco, levando a que este nasça com menos peso.

Os responsáveis pelo estudo, noticia o jornal britânico The Guardian, analisaram dados de 31 mil mulheres. Esta informação foi retirada de três estudos, dois do Reino Unido e um dos EUA. Os dados das mulheres do Reino Unido foram recolhidos entre 1991 e 2001 e os das mulheres nos Estados Unidos dizem respeito a nascimentos entre o início da década de 1970 e 1995.

As mulheres que pararam de trabalhar entre os seis e os oito meses de gravidez tiveram bebés, em média, 230 gramas mais pesados do que as que trabalharam para lá do oitavo mês. Este efeito no peso é semelhante ao das mulheres que fumam quando estão grávidas.

Os investigadores observaram ainda que nas mulheres com menos de 24 anos o facto de trabalharem não teve efeito no peso das crianças.

Marco Francesconi, um dos académicos que assina o estudo, lembrou ao Guardian que o baixo peso no nascimento está correlacionado com um menor sucesso escolar, mortalidade mais elevada e salários mais baixos.


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