Agredidas, acorrentadas, violadas e obrigadas a mendigar. Mais de 100 mil crianças “talibé” sujeitas a abusos no Senegal

Julho 1, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Sapo 24 de 11 de junho de 2019.

Mais de 100 mil crianças “talibé” continuam sujeitas a mendicidade forçada, castigos físicos, abusos sexuais e negligência no Senegal, segundo um relatório da Human Rights Watch, que denuncia a inércia das autoridades perante o problema.

O relatório da Human Rights Watch (HRW) e da Plataforma para a Proteção dos Direitos Humanos (PPDH, na sigla em inglês) do Senegal, que analisa 2017 e 2018, fala de “níveis alarmantes” de maus tratos físicos, abusos sexuais, negligência e mendicidade forçada destas crianças em dezenas de escolas corânicas no país.

As organizações documentaram, durante este período, a morte de 16 crianças vítimas de castigos físicos, negligência e ameaças por parte de professores de escolas corânicas residenciais, conhecidas como daaras.

O documento dá ainda conta de abusos contra estas crianças em 8 das 14 regiões do Senegal, incluindo 61 casos de abusos físicos, 15 casos de violações ou tentativa de violação e 14 casos de crianças fechadas e acorrentadas.

A mendicidade forçada e a negligência são generalizadas entre estas crianças, segundo o relatório.

“As crianças ‘talibé’ estão a encher as ruas, sofrem abusos horrendos e morrem desses abusos e por negligência”, apontou Corinne Dufka, diretora associada da HRW para África.

“As autoridades senegalesas dizem que estão comprometidas em proteger as crianças e em acabar com a mendicidade forçada, então porque é que tantas ‘daraas’ abusivas, exploradoras e perigosas continuam abertas?”, questionou.

A situação das crianças “talibé” no Senegal tinha já sido denunciada pela HRW num outro relatório, em 2010, em que a organização instava o Governo a regulamentar as daaras, mas volvidos estes anos a situação pouco ou nada se alterou.

Para a elaboração deste novo relatório, de 71 páginas e intitulado “Enorme sofrimento: Abusos graves contra crianças talibé no Senegal, 2017-2018″, as duas organizações visitaram quatro regiões do país, entrevistaram 150 pessoas, incluindo 88 atuais e antigos “talibé”, 23 professores e dezenas de trabalhadores sociais, especialistas em proteção de crianças e membros da administração senegalesa.

Os responsáveis pelo relatório observaram e falaram com grupos de crianças – algumas com 5 anos – que pediam nas ruas de Dacar, Saint-Louis, Diourbel, Touba e Louga.

Visitaram 22 escolas residências e 13 centros e abrigos, tendo encontrado inúmeras crianças “talibé” que descreveram práticas de abusos sexuais, violações e mendicidade forçada.

O relatório reconhece que há muitos professores nas escolas corânicas no Senegal que respeitam os direitos dos “talibés”, mas aponta que muitos outros continuam a abusar e a negligenciar estas crianças.

A Human Rights Watch estima que mais de 100 mil crianças sejam forçadas pelos seus professores a pedir diariamente dinheiro, comida, arroz ou açúcar, sendo obrigados a cumprir quotas diárias sob pena de serem espancados.

Dos 88 talibés entrevistados, 63 disseram ser obrigados a conseguir uma quota diária entre 100 a 1,250 francos CFA (entre 0.30 e 2 euros).

Muitas destas crianças tinham cicatrizes e feridas visíveis.

“Batiam-nos a toda a hora se não memorizávamos os versos do Corão ou se não trazíamos dinheiro. Batem-te até pensares que vais morrer”, contou uma criança de nove anos, que fugiu de uma daara em Dacar em 2018 para escapar aos abusos.

Outras crianças contaram que foram amarradas ou acorrentadas em espaços que pareciam celas, por vezes durante semanas e meses, como castigo.

“Se tentávamos fugir, acorrentavam-nos pelas duas pernas para não nos conseguirmos mexer”, disse outra criança de 13 anos, que escapou de uma daara em Diourbel.

Um rapaz de 15 anos, que fugiu de uma daara em Diourbel, disse ter testemunhado abusos sexuais de “talibés” mais jovens por colegas mais velhos.

Muitas das crianças acompanhadas nas ruas e nas 22 daaras visitadas pelas organizações tinham infeções e estavam doentes, mas não recebiam tratamento.

Entre as escolas visitadas, 13 forneciam pouca ou nenhuma comida às crianças, que estavam alojadas em edifícios decrépitos e abandonados, sem latrinas, sabão ou redes para se protegerem dos mosquitos transmissores da malária.

Os responsáveis pelo relatório identificaram ainda indícios de tráfico humano envolvendo crianças “talibé”, incluindo transporte ilegal de crianças de região para região e mesmo cruzando a fronteira do país, crianças abandonadas em cidades distantes e outras que acabam nas ruas depois de terem fugido dos abusadores.

Algumas famílias perpetuam estas práticas ao devolverem repetidamente as crianças às daaras onde sofreram abusos.

A HRW e a PPDH reconhecem que o Senegal tem leis robustas contra o abuso de crianças e o tráfico humano, mas adianta que as medidas tomadas para proteger os “talibés” e responsabilizar os seus abusadores são “limitadas”.

Por isso, na sequência do relatório, as organizações vão propor ao Governo do Senegal um roteiro para proteger as crianças “talibé” e promover uma mudança duradoura.

“Com este novo mandato, o Presidente [Macky] Sall tem uma oportunidade de ter um impacto duradouro na vida de milhares de crianças, protegendo os “talibés” da exploração e acabando com os abusos nas daaras”, disse Mamadou Wane, presidente da PPDH.

Mais informações na notícia da Human Rights Watch:

Senegal: Unchecked Abuses in Quranic Schools

Dorsen tem 8 anos e trabalha 12h/dia para extrair o cobalto dos nossos smartphones e computadores

Maio 17, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia e imagens do site The Uniplanet de 13 de março de 2017.

crianças com apenas 4 anos a trabalhar nas minas da República Democrática do Congo onde é extraído o cobalto para os nossos smartphones e carros elétricos, alerta uma investigação da Sky News, cuja equipa visitou uma série de explorações mineiras conguesas e se deparou com uma “legião de crianças” a trabalhar em todas elas.

Muitos dos trabalhadores que extraem este minério – um componente essencial das baterias dos smartphones e computadores portáteis de marcas como a Apple e a Samsung – recebem apenas 0,09€/dia por um trabalho extenuante realizado sob condições perigosas. Numa das minas, a equipa encontrou crianças a trabalhar sem sapatos sob a chuva intensa, transportando sacos pesados.

Uma das crianças, Dorsen, de 8 anos, contou aos jornalistas que não tinha conseguido dinheiro suficiente, nos últimos dois dias, para comer, apesar de trabalhar cerca de 12 horas por dia.

“Existem milhares de minas não oficiais, não regulamentadas e sem controlo, onde homens, mulheres e crianças trabalham sob o que apenas pode ser descrito como condições de escravatura”, declarou Alex Crawford, correspondente especial da Sky News.”

“Todos os dias, quando acordo, sinto-me tão mal por saber que tenho de voltar para [a mina] outra vez. Dói-me o corpo todo, conta um amigo de Dorsen, Richard, de 11 anos. Noutra mina, os jornalistas viram uma menina de 4 anos a separar pedras de cobalto.

Os túneis das minas são escavados com ferramentas rudimentares por mineiros sem equipamento de protecção. Com a chuva e a ausência de suportes, estes túneis colapsam frequentemente. Numa das minas visitadas pela equipa, o colapso de um túnel tinha vitimado recentemente um mineiro.

Os trabalhadores não usam máscaras ou luvas, embora a Organização Mundial da Saúde avise que a exposição ao cobalto e aos seus vapores pode causar problemas de saúde a longo prazo.

Um dos mineiros, Makumba Mateba acredita que o tumor que tem na garganta se deve ao facto de a água na sua aldeia ter sido contaminada pela extração de cobalto. “Bebemos a água que vem das explorações mineiras, depois de todos os minérios terem sido lavados nela”, conta. “Atravessa a nossa aldeia e eu bebo-a e tenho a certeza de que foi isso que me fez ficar doente.”

O médico de uma das adeias, Becha Gibu, queixa-se de que os bebés que ajudou a nascer têm doenças misteriosas. “Nascem com muitas infeções, às vezes com erupções cutâneas, outras vezes os seus corpos estão cobertos de manchas”, diz, adicionando que “isto é tudo uma consequência da exploração mineira.”

Apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, a República Democrática do Congo é rica em recursos minerais e produz 60% do cobalto usado em todo o mundo. Um quinto deste cobalto é extraído à mão ou por mineiros artesanais e vendido, na sua maioria, a comerciantes chineses, que procuram o melhor preço e não questionam a origem do minério ou a identidade de quem o extraiu. Por sua vez, os comerciantes vendem-no, na maior parte das vezes, ao exportador Congo Dongfang International, uma subsidiária da empresa Zhejiang Huayou Cobalt – fornecedora da maioria dos principais fabricantes de baterias do mundo.

Em 2016, a Amnistia Internacional descobriu que nenhum país exige às empresas, em termos jurídicos, que identifiquem as suas cadeias de fornecimento de cobalto, o que lhes permite fugir facilmente a qualquer acusação.

Fugir a um destino quase certo

Fevereiro 13, 2019 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do Euronews de 17 de janeiro de 2019.

Numa pequena cooperativa têxtil, situada nas montanhas do norte do Vietname, trabalham mais de 130 mulheres, de várias idades. Mulheres que, de alguma forma, foram vítimas de traficantes de seres humanos, ou são mães solteiras e foram marginalizadas pelas suas comunidades. Umas escaparam a casamentos forçados na vizinha China. Outras fugiram à prostituição, entre as mais jovens há quem tenha perdido a mãe para essas uniões forçadas.

Thao Thi Van tinha dois anos quando a sua mãe foi um dia ao mercado e não voltou. Pensa-se que foi levada por traficantes. Hoje, com 13 anos, continua a querer saber quem a vendeu.

Aqui tentam reescrever-se histórias com final feliz. Para Mua Thi Dinh trabalhar nesta pequena fábrica evita que ande “nas colinas, ao sol e à chuva”, diz que se sente melhor aqui.

As histórias de sofrimento destas mulheres desencadearam o processo que levou à criação desta estrutura, chamemos-lhe, familiar. Vang Thi Mai abriu-lhes as suas portas, deu-lhes emprego, uma profissão, um salário para si e para as suas famílias. Acrescenta que a sociedade pode não gostar delas, mas que neste local “sentem-se confiantes”.

Além da dimensão social desta fábrica, a sua criadora tem também o objetivo de preservar a riqueza da cultura Hmong, passada das mais velhas às mais jovens, numa altura em que os têxteis chineses, em poliéster, invadem os mercados da região.

 

Portugal é nova rota no tráfico de crianças africanas

Setembro 27, 2017 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 27 de setembro de 2017.

Rute Coelho

Lisboa está a ser usada como placa giratória para uma rede transnacional de tráfico de crianças da África subsaariana

São crianças e adolescentes dos países africanos a sul do Saara, de expressão francófona e anglófona, vêm com documentos falsos e acompanhadas por adultos que trazem “documentos bons” ou verdadeiros. Não têm Portugal como destino final mas países do centro europeu como França ou a Alemanha, descreveu ao DN fonte oficial da Unidade Anti-Tráfico de Pessoas da Direção Central de Investigação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). “Portugal está a ser usado como uma nova rota para as redes criminosas da África subsaariana que lidam com o tráfico de seres humanos. O nosso país assume-se cada vez mais como uma porta de entrada para o espaço Shengen”, frisou a mesma fonte.

Desde março, a Unidade Anti-Tráfico de Pessoas detetou cinco crianças trazidas nas condições descritas, no aeroporto de Lisboa, tendo detido os cinco adultos que as acompanhavam. Os menores foram todos institucionalizados. Apenasnum caso se conseguiu determinar quem eram os pais, nos outros não foi possível chegar à origem familiar pelo que as crianças continam em centros de acolhimento (onde legalmente podem permanecer até terem 18 anos).

A última situação foi detetada no sábado. A menina tinha menos de 10 anos e vinha acompanhada de um homem de 35, que dizia ser seu pai e que foi intercetado pelo SEF no controlo de fronteira realizado à chegada de um voo vindo de Dakar, no Senegal. O destino final do homem e da criança era a França. “O detido era residente legal num país da Europa e trazia documentos verdadeiros. Os documentos da criança eram falsificados. Foi o que chamou a atenção do nosso pessoal no aeroporto. Caso contrário, teríamos perdido o rasto a esta criança”, adiantou a fonte responsável do SEF.

Países como o Congo, República Centro Africana e África do Sul têm estado na mira das organizações policiais internacionais por causa das redes de tráfico de seres humanos. “A localização geográfica de Portugal e o facto de as rotas antigas já estarem identificadas está a levar estas redes criminosas a abrirem novas rotas, onde se inclui Lisboa”.

O facto de os adultos que têm acompanhado as crianças trazerem documentos verdadeiros tem permitido ao SEF seguir, pelo menos, o rasto destes intermediários “Alguns desses adultos já têm também nacionalidades europeias”. Quanto aos menores, “é difícil sabermos quem são, a verdadeira identidade, até porque alguns já não estavam com os pais”, adiantou , acrescentando que há suspeitas de miúdos “vendidos” pela família para redes, como escravos. “Dos cinco casos detetados desde março só conseguimos estabelecer, num deles, que o menor ia de facto para a Alemanha ter com a mãe, que já era residente legal naquele país. Esse era um caso de imigração ilegal, os outros serão de exploração para fins que ainda não conseguimos precisar”. Podem ser crianças que venham a ser usadas para exploração sexual, laboral ou servidão doméstica. O SEF suspeita até que podem ter sido mais de cinco os menores a entrar para a Europa via Lisboa mas não tem como o provar.

No último caso, o da criança com menos de 10 anos intercetada no sábado, o homem foi detido à parte, e a menina ficou “muito confusa e nervosa inicialmente”. O pouco que conseguiu explicar, quando já estava mais calma e tranquila, “foi a história de cobertura que lhe tinham ensinado”. Quando diretamente questionada “retraiu-se”.

Fonte oficial da Unidade Anti-Tráfico de Pessoas do SEF esclarece que os cinco casos deste ano “nada têm a ver com os de crianças angolanas detetadas no aeroporto de Lisboa, acompanhadas por adultos, e com as que vinham sozinhas em 2015 e 2016 e diziam ser menores, o que não se comprovava. Estas são de países de expressão francófona e anglófona e não vêm para ficar em Portugal, ao contrário do que acontecia com os menores angolanos”.

Para além da pista principal -os intermediários que trazem as crianças – as investigações do SEF esbarram com obstáculos. “A cooperação que temos com esses países é inexistente”.

 

 

 

Quase um terço das vítimas de tráfico são crianças – relatório da ONU

Dezembro 28, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Relatório, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia da http://pt.euronews.com/ de 22 de dezembro de 2016.

O rosto do tráfico humano está a mudar. As crianças já representam quase um terço do número total de vítimas.

Mais 63 mil vítimas de tráfico de humano foram identificadas em 106 países e territórios entre 2012 e 2014, de acordo com o relatório apresentado, quarta-feira, pelo Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crime (UNODC).

Um número baixo se se tiver em conta que a Organização Internacional do Trabalho estima que existem 21 milhões de pessoas que são vítimas de tráfico.

Em 2014 o maior número de vítimas de tráfico humano, 71% do total, eram mulheres.

“As mulheres são usadas principalmente na exploração sexual, 72% das mulheres são destinadas à exploração sexual, mas há também 20% que são exploradas em trabalho forçado,” revelou a chefe da unidade responsável pelo Relatório Global sobre Tráfico Humano, Kristina Kangaspunta.

O relatório enfatiza a ligação entre grupos armados e o tráfico de pessoas e como obrigam mulheres e meninas ao casamento ou escravidão sexual.

“Um dos elementos deste genocídio (cometido pelo Estado Islâmico contra os Yazidis) foi a escravização sistemática das mulheres, meninas e crianças Yazidi. Mais de 6 mil foram escravizadas e reduzidas a objectos através de um sistema de abusos onde os membros do Estado Islâmico tratavam as mulheres Yazidi como uma ferramenta que só servia para os seus desejos doentios,” afirmou a yazidi ativista dos direitos humanos, Nadia Murad.

Homens e meninos são frequentemente sujeitos a trabalhos forçados no setor mineiro, como carregadores, mas também são usados como soldados ou escravos.

Enquanto globalmente, em média, 1/3 das vítimas são crianças, em regiões como a África Subsaariana, América Central e Caraíbas, chegam a representar mais de 60% das vítimas.

De acordo com a Europol, o tráfico humano é negócio extremamente lucrativo para o crime organizado, que arrecadou aproximadamente 6 mil milhões de euros apenas com o tráfico de migrantes em 2016.

 O relatório citado na notícia pode ser descarregado no link:

https://www.unodc.org/unodc/en/frontpage/2016/December/almost-a-third-of-trafficking-victims-are-children_-unodc-report.html?ref=fs1

 

Fotojornalista português quer publicar livro que alerta para crianças escravizadas

Maio 22, 2016 às 1:01 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://rr.sapo.pt/ de 11 de maio de 2016.

Mário Cruz

Mário Cruz foi distinguido pelo World Press Photo com uma reportagem sobre tráfico e exploração de trabalho infantil no Senegal: “Talibés, os escravos diários modernos”.

O fotojornalista Mário Cruz lançou uma campanha de angariação de fundos para o projecto “Talibes, Modern Day Slaves” (Talibés, os escravos diários modernos), um livro com a reportagem que fez sobre crianças escravizadas. O objectivo é publicar um documento que sirva de alerta mundial sobre as falsas escolas corânicas no Senegal, onde milhares de crianças são escravizadas.

“A campanha vai durar um mês. O livro será um documento do que vi, para ser distribuído às autoridades internacionais competentes e também nas escolas e bibliotecas do Senegal e da Guiné-Bissau”, explicou o repórter, 28 anos, premiado pelo World Press Photo e pela Estação Imagem, à agência Lusa.

Para apoiar esta campanha de angariação de fundos online há várias modalidades de contribuição, com valores diferentes, a partir de 25 dólares (cerca de 22 euros). Mário Cruz tomou conhecimento das falsas escolas corânicas em 2009, durante uma reportagem na Guiné-Bissau, onde ouviu casos de crianças que estavam a ser levadas para o Senegal para serem escravizadas por líderes religiosos. Fez uma pesquisa durante seis meses e tirou uma licença sem vencimento para, durante cerca de dois meses, investigar o que estava a acontecer a estas crianças, no Senegal e na Guiné-Bissau.

“Consegui ter o raro acesso ao mundo criminoso das falsas escolas corânicas, onde mais de 50.000 crianças são escravizadas. Talibé significa estudante, em árabe, mas estas crianças, com idades entre os cinco e os 15 anos, são forçadas a mendigar oito horas por dia para os seus supostos professores corânicos”, relatou.

As fotografias captadas por Mário Cruz valeram-lhe o primeiro prémio do World Press Photo, na categoria Assuntos Contemporâneos e o Prémio Estação Imagem 2016, mas, antes disso, a Newsweek publicou 20 das suas fotografias da reportagem.

Aceitou o desafio da FotoEvidence – organização internacional que premeia e cria publicações de reportagens sobre injustiças sociais e violações dos direitos humanos – e espera que a concretização do projecto “Talibes Modern Day Slaves” seja “a prova documental que condena o presente destas crianças e defende o seu futuro”.

Mário Cruz disse que serão necessários 28 mil dólares (cerca de 25 mil euros), para uma tiragem de mil exemplares do livro, cujo principal objectivo é “criar um documento que alerte para o problema e pressione as autoridades locais e internacionais, a tomar medidas” contra esta escravização das crianças.

 

 

Crianças-escravas Julgamento duro contra um sistema injusto

Fevereiro 20, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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texto do site http://www.swissinfo.ch/por/  de 11 de fevereiro de 2015.

Paul Senn

Por Clare O’Dea

Não existe dúvida de que as crianças eram os cidadãos mais vulneráveis no sistema de proteção infantil até os anos 1970. Um sistema que na época era visto como subfinanciado e sobrecarregado. Pouca atenção foi dada às suas necessidades emocionais e de desenvolvimento e não havia mecanismo para protegê-las da negligência e abuso.

Mas apesar das deficiências, nem todos se comportavam com desrespeito em relação ao bem-estar das crianças, um conceito que na época era definido com outras bases. Havia também problemas sociais e preconceitos, particularmente contra filhos ilegítimos e pessoas oriundas da pobreza, que se estendiam à sociedade como um todo.

Isso significa que a realidade econômica e o clima moral em meados do século 20 na Suíça teriam sido culpados pela abordagem tão dura em relação à guarda infantil?

A maioria dos adultos influentes na época – pais, professores, advogados, representantes do governo, membros de ordens religiosas – já não vive mais para justificar seus atos. O testemunho dessas pessoas está ausente do atual grupo de pesquisa sobre o tema, cujos trabalhos só ocorreram na última década e baseado em testemunhos das vítimas e provas documentais.

A historiadora Loretta Seglias pesquisou como as comunas (prefeituras) intervinham para apoiar as famílias pobres e monoparentais, com ou sem seu consentimento. Ela lembra que “uma grande proporção da população suíça vivia em pobreza existencial” até a metade do século passado.

Apoiar essas famílias era um grande desafio financeiro e logístico. Ao invés de fazer despesas com prestações sociais, a resposta tradicional era remover um ou mais crianças das suas famílias e transferi-las a uma instituição ou família de acolho, em grande parte agricultores.

“A sociedade suíça estava convencida que essas crianças precisavam aprender a trabalhar. Por questões educacionais elas eram colocadas sob a guarda de famílias para coloca-las nos eixos. O objetivo era que aprendessem a ser independentes quando adultas e não precisar mais do apoio da sociedade.”

Começo difícil

Roland Begert é um professor de economia aposentado e vive em um subúrbio tranquilo de Berna. Elegantemente vestido e com boas maneiras, não é possível descobrir traços das dificuldades por quais passou. A realidade é que Begert foi abandonado em 1937 pela mãe quando ainda era um bebê. Por isso uma das suas missões de vida foi tentar entender o que aconteceu de errado na infância.

O pai de Begert abandonou a mãe pouco antes de nascer. A mãe era jovem e tinha origens ciganas. Três semanas depois de dar a luz, ela abandonou o recém-nascido e o irmão mais velho de Roland, que na época tinha apenas dois anos de idade.

Ver o vídeo da reportagem no link:

http://www.swissinfo.ch/por/multimedia/v%C3%ADtimas-finalmente-ser%C3%A3o-indenizadas/41252452

 

“Ela não tinha escolha. Em primeiro lugar, não dispunha de recursos e nenhuma profissão. Mais tarde descobri que a minha mãe tinha um caráter muito fraco e passivo, o que não teria sido positivo para ter uma boa base educacional.”

Begert foi enviado a um orfanato católico no cantão de Solothurn, onde passou doze anos da vida. Durante esse tempo não provocou despesas para o Estado. Ele era um das 280 crianças a viver sob os cuidados de 25 freiras, sem salário ou horas de folga.

Ele sofreu abusos sexuais por parte de meninos mais velhos, o que considerou na época como algo normal no processo de crescer.

Aos 12 anos, sem nenhum aviso prévio ou preparo, Begert foi colocado sob a guarda de uma família de agricultores. Ele descreve a relação com essa família de acolho como neutra.

“A família também recebia 30 francos por mês para me abrigar. Ao mesmo tempo me tinham como mão-de-obra barata. Era assim que vivia.”

Crianças com menos de quatorze anos eram proibidas de trabalhar desde 1877, mas geralmente se aceitava o trabalho de crianças na agricultura, mesmo sendo penoso. “Essa era a realidade de muitas crianças na Suíça”, ressalta Seglias.

Transferências não oficiais

Crianças colocadas sob guarda pelas autoridades não eram as únicas a serem retiradas de casa. Paralelamente ao programa oficial, famílias em situação de penúria na Suíça encontravam suas próprias soluções para sobreviver. Em 1952, em um pequeno vilarejo de Friburgo, Christine, uma menina de dez anos, foi entregue por dois anos ao vizinho, cuja mulher estava doente.

“O homem veio falar com os meus pais e perguntou se teriam uma menina que pudesse ajudar a esposa e acompanhá-la, pois ela tinha problemas psiquiátricos. Ele também era obrigado a ficar fora de casa por dois, três ou mais dias”, conta essa mulher em seu pequeno apartamento no mesmo vilarejo, sessenta anos depois.

Quando as autoridades transferiam a criança a outro lar, o contato com os pais era desencorajado. Muitas vezes era impossível para eles de visitá-la ou acompanhar seu bem-estar.

“Essas crianças eram colocadas sob a guarda de pessoas que geralmente não conheciam. Ao mesmo tempo, o controle e a supervisão nos anos 1950 não eram tão bons como estava previsto nas leis vigentes”, explica Seglias.

“Isso abria a possibilidade de colocar essas crianças para fazer trabalhos perigosos ou mais pesados do que elas eram capazes de fazer, mas também aos abusos físicos, sexuais ou psicológicos. Esse risco era muito grande, pois praticamente ninguém estava cuidando da situação delas”, acrescenta.

Estigma

Na época existiam diferentes denominações para as crianças que trabalhavam nas fazendas. Em alemão, a mais conhecida é “Verdingkind”.

No final da II. Guerra Mundial, a lei mudou não permitiu mais considerar como “adotadas” as crianças colocadas sob tutela temporária de outras famílias. As famílias eram pagas para cuidar delas. Legalmente, e sobre o papel, não existiriam mais as chamadas “Verdingkind”. Porém, na realidade, foram necessárias duas décadas de exploração para acabar com esse estigma.

“Era devido à forma como a sociedade olhava para essas crianças. Elas usualmente já viviam sob o estigma de serem pobres, bastardas. Muitas vezes seus pais não tinham condições de cuidar delas devido ao alcoolismo ou problemas psiquiátricos. Esse estigma acabava sendo transferido para elas”, analisa Seglias.

Begert passou quatro anos com a família de agricultores, assumindo uma grande carga de trabalho fora do horário escolar.

Apesar das boas notas – os professores até chegaram a indicá-lo para o nível secundário – não havia esperança de chegar ao ensino superior. As autoridades locais vetaram essa possibilidade. Begert acabou fazendo um ensino profissionalizante em uma fundição aos 16 anos de idade. Foram anos de muito trabalho, como se lembra. Até os 22 só recebia uma pequena mesada do seu próprio salário. A senhoria administrava o dinheiro, como havia sido combinado com as autoridades públicas.

Depois de anos de campanha o governo aceitou pagar uma indenização aos sobreviventes desse abuso histórico e negligência do sistema de proteção infantil. Agora os eleitores terão possivelmente que votar o tamanho do fundo de compensação se a legislação futura não satisfizer os militantes pela causa.

Begert não irá solicitar uma compensação já que esta não irá modificar sua vida. No entanto, reconhece que o dinheiro vai ser útil e importante para muitas vítimas, incluindo o próprio irmão. O que importa é a sensibilização pública e a garantia de que a proteção à criança nunca será mais desimportante no futuro.

Por Clare O’Dea, swissinfo.ch Adaptação: Alexander Thoele

 

 

Faça o teste: Que trabalhos estão fazendo essas crianças trabalhadoras?

Janeiro 23, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site  http://www.aworldatschool.org  de 9 de janeiro de 2014.

Take The Test: What jobs are these child labourers doing?

Welcome to the second in our series called Take The Test – where you can learn about the barriers that prevent 58 million children around the world going to school.

Last month, we set the question: Where in the world are these schools?  In this test, we’re asking you identify what task each child is carrying out.

The sad reality is that child labour is a major reason why children don’t go to school in many countries. Child labour involves children who are either too young to work or involved in activities which compromise their mental, physical, social or educational development. According to the United Nations children’s agency UNICEF in November 2014, there are believed to be about 150 million child labourers. About 13% of children aged five to 14 in developing countries are involved in child labour – in sub-Saharan Africa that rises to 25%.

As you Take The Test, you can click on the links to learn more facts about child labour. The answers are at the end. And when you’ve finished, please sign the #UpForSchool Petition, which demands that world leaders keep to their promise to send all children to school without fear of danger, discrimination or obstacles such as child labour.

Welcome to the second in our series called Take The Test – where you can learn about the barriers that prevent 58 million children around the world going to school.

Last month, we set the question: Where in the world are these schools?  In this test, we’re asking you identify what task each child is carrying out.

The sad reality is that child labour is a major reason why children don’t go to school in many countries. Child labour involves children who are either too young to work or involved in activities which compromise their mental, physical, social or educational development. According to the United Nations children’s agency UNICEF in November 2014, there are believed to be about 150 million child labourers. About 13% of children aged five to 14 in developing countries are involved in child labour – in sub-Saharan Africa that rises to 25%.

As you Take The Test, you can click on the links to learn more facts about child labour. The answers are at the end. And when you’ve finished, please sign the #UpForSchool Petition, which demands that world leaders keep to their promise to send all children to school without fear of danger, discrimination or obstacles such as child labour.

QUESTION 1

© ILO Tran Quoc Dung

These indigenous children are working in the northern mountains of Vietnam, where just under one in 10 of youngsters aged five to 17 are child labourers, according to the International Labour Oganization in 2014. Most live in the countryside and do unpaid agricultural work for their families. But what are the children in this picture doing?

QUESTION 2

MUNIR UZ ZAMAN AFP

The minimum legal age for employment in Bagladesh is 14 – but UNICEF says 93% of child labourers work in small factories and workshops, on the street, in home-based businesses and domestic employment, where is it almost impossible to enforce the law. What are these children doing?

ver todas as perguntas e respostas aqui

End Child Slavery Week 20 – 26 de Novembro

Novembro 20, 2014 às 6:00 am | Publicado em Campanhas em Defesa dos Direitos da Criança, Vídeos | Deixe um comentário
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http://www.endchildslaveryweek.org/

 

Kailash Satyarthi: O activista que tirou 80 mil crianças do trabalho forçado

Outubro 13, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Público de 10 de outubro de 2014.

 

878811

Satyarthi tem praticamente um roteiro sobre o que se deve fazer pelo menos na Índia AFP CHANDAN KHANNA

FRANCISCA GORJÃO HENRIQUES

Pode ter metade da fama de Malala Yousafzai, com quem dividiu o Nobel da Paz. Mas há 30 anos que a associação que Kailash Satyarthi criou tenta levar as crianças para a escola.

O relato foi feito há pouco mais de uma semana: “Eu queria comer aquele gelado encarnado que se vendia à frente da minha fábrica mas em dois meses nunca consegui as 10 rupias [12 cêntimos]. A minha mãe está à minha espera na aldeia, mas acho que não há maneira de eu ir ter com ela”. Manish é um rapaz de 12 anos. Fala enquanto arranja uma bicicleta. Tal como ele, outras oito crianças, entre os 10 e os 14 anos, foram traficadas dos estados do Bihar e Uttar Pradesh para trabalho forçado em oficinas de carros de Deli.

Eram obrigadas a trabalhar mais de 14 horas por dia, com o mínimo de roupas, debaixo de um calor agressivo, a respirar gases que os deixavam de olhos a chorar e mãos a arder. Como foram ali parar? Alguns pelas mãos dos próprios pais. A Bachpan Bachao Andolan (BBA, Movimento para Salvar a Infância) ajudou a resgatá-las. Quatro dias antes, outras 13 crianças tinham também sido salvas de trabalho escravo em oficinas da capital.

Histórias destas podem multiplicar-se. São a rotina de associações como a BBA. E é para acabar com elas que o seu fundador, Kailash Satyarthi, tem lutado. Activista praticamente desde a infância contra o trabalho infantil – aos 11 anos andava a recolher livros escolares usados para os distribuir por crianças que não tinham dinheiro para ir à escola –, foi escolhido para partilhar o prémio Nobel da Paz com a jovem paquistanesa Malala Yousafzai.

Kailash Satyarthi, de 60 anos, nasceu e cresceu em Vidisha, no estado de Madhya Pradesh (no centro do país), numa família que, como o próprio descreveu várias vezes, “não era rica nem era pobre”. Tirou o curso de engenharia electrotécnica, como o pai queria. “Mas percebi que a engenharia não era para mim e segui esta causa”.

Satyarthi estava há alguns anos na lista do Comité Norueguês do Nobel e já ganhou vários prémios internacionais relacionados com os direitos humanos. Ainda assim, a sua fama não se aproxima da de Malala. E isto no seu próprio país: um editor do Times of India confessava num blogue daquele jornal que até surgir a notícia do Nobel nunca tinha ouvido falar dele, e o mesmo se passava com vários amigos seus. Mas há mais de 30 anos que a BBA está no terreno, com cera de 80 mil voluntários espalhados pelo mundo, tentando investigar as áreas onde a acção é mais urgente. “É uma vergonha para qualquer ser humano se uma criança estiver a fazer trabalho escravo em qualquer parte do mundo”, afirmou ontem o laureado numa conferência de imprensa em Nova Deli. “Sinto-me muito orgulhoso por ser indiano, por ter conseguido travar esta luta na Índia ao longo de mais de 30 anos”.

Segundo a BBA, praticamente 80 mil crianças já foram resgatadas, vítimas de maus tratos, tráfico ou exploração laboral – a maioria eram de facto escravas, usadas para pagar as dívidas dos pais (uma prática proibida por uma lei de 1975, que dificilmente é aplicada por falta de vigilância). O número é respeitável, mas ainda há muito por fazer. Segundo as estimativas de algumas organizações humanitárias, 135 mil crianças indianas desapareceram só no ano passado; os dados oficiais apontam para um número muitíssimo inferior: 26 mil.

Numa entrevista que deu ao PÚBLICO em Setembro de 2005, o activista referia que na Índia havia então “60 milhões de crianças a trabalhar a tempo inteiro. Destas, 10 milhões fazem trabalho escravo. E o tráfico interno é generalizado. Há crianças em todas as cidades traficadas para trabalho doméstico, restaurantes, pequena indústria, prostituição”.

Está longe de ser um problema exclusivo do país, alertava Satyarthi, que é também o líder mundial da Marcha Global Contra o Trabalho Infantil e da Campanha Global pela Educação: “A África, a Ásia e a América Latina têm um problema sério de trabalho infantil”, que existe igualmente em vários países europeus. Na altura apontou Portugal e Espanha como portas de entrada para o tráfico de crianças. Segundo os dados avançados pelo Comité, haverá 168 milhões de crianças trabalhadoras no mundo inteiro.

Satyarthi tem praticamente um roteiro sobre o que se deve fazer, pelo menos na Índia. Uma das respostas, que deixou numa entrevista ao Times of India, em Junho, não está nas mãos do Governo, nem das autoridades locais, nem da polícia (apesar de defender fortemente que são precisas melhores leis e mais atenção por parte das autoridades). Está em quem entra numa loja ou restaurante e deve boicotar produtos ou serviços que de alguma forma sejam resultado de trabalho infantil.

Esta luta está de mãos dadas com a educação. Estima-se que sete milhões de crianças indianas abaixo dos 14 anos não possam ir à escola e que cerca de 50% a abandone antes do fim da escolaridade obrigatória (até aos 14 anos). O problema é mais grave com as raparigas. De acordo com a UNICEF, há 90 milhões de mulheres iletradas.

A antropóloga portuguesa Rosa Maria Perez conhece bem a realidade indiana. No ano passado desenvolveu um projecto em bairros de lata de Bangalore (a terceira cidade do país e considerada o seu Silicon Valey) e Ahmedabad, a maior cidade do Gujarat, um dos maiores centros industriais da Índia. Não estava à espera do que encontrou: “Uma iliteracia absoluta em jovens de 11, 12 anos”. “Os pais não podem prescindir da mão-de-obra infantil, sobretudo entre as castas de baixo estatuto, devido a grandes carências económicas. E as raparigas são mais atingidas do que os rapazes”. A escolaridade pode ser obrigatória, mas “não há vigilância administrativa ou política” para garantir que é cumprida.

Este Nobel vem chamar a atenção para a importância da educação. E esse era já um tema central para Mahatma Gandhi, o líder da independência indiana (que nunca recebeu o prémio). “Todo o seu projecto de reestruturação social, e mesmo económico, estava centrado na educação”, refere Rosa Maria Perez. Gandhi acreditava que esta seria a ferramenta com a qual se corrigiria as desigualdades da sociedade indiana.

Sessenta anos depois, não se pode dizer que a realidade do país seja a mesma, mas ainda há muitas razões para manter os activistas ocupados. Têm agora uma “ferramenta poderosa”, dizia Satyarthi na entrevista ao Times. As redes sociais. “Com um clique podemos fazer imenso barulho, que é uma forma diferente de levantar a voz. Podemos não ir para a rua gritar palavras de ordem, mas podemos criar ainda mais impacto usando os nossos aparelhos”.

Por levantar a sua voz, Satyarthi já sofreu consequências físicas. “Faz parte da vida. Estamos a trabalhar com famílias destruídas e pessoas destruídas que perderam toda a esperança e não têm quem as ajude… Um dos meus colegas foi baleado, outro foi espancado até à morte. Eu já tive ferimentos no ombro, perna, costas, cabeça. Todos os meus activistas passaram por isto. Estamos a trabalhar contra um mal social. Se o mal não reage nem retalia significa que não o estamos a ameaçar”.

 

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