Tribunais ouvem pouco as crianças quando decidem sobre a vida delas

Março 18, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 3 de março de 2019.

Investigação feita nas comarcas de Vila Real, Bragança, Braga e Viana do Castelo conclui que só um quinto das crianças tem oportunidade de se expressar nas secções de família e menores.

Ana Cristina Pereira

Um exemplo: “Cinco crianças estão abrangidas por medida de colocação em instituição há cerca de dez anos e nunca foram ouvidas.” Outro exemplo: “A criança revelou que estava feliz – na ‘sua’ família, no seu ‘pedaço de céu’.” O tribunal tardou a ouvi-la. Insistia na adopção, apesar de ela já ter tido duas más experiências. Quando finalmente a ouviu, já com 15 anos, entendeu que estava bem na família de acolhimento.

Helga Castro mergulhou nos processos tutelares cíveis a correr nas secções de família e menores de quatro comarcas do Norte do país e concluiu que o espaço da justiça é “perpetuador de uma cultura endémica de não participação e violador dos direitos das crianças, na medida em que não ouve, não escuta e não considera os contributos prestados por elas”.

Oriunda de Trás-os-Montes e a fazer doutoramento em Estudos da Criança na Universidade do Minho, Helga Castro optou pelas comarcas de Braga, Bragança, Viana do Castelo e Vila Real. Não era só a proximidade – também a possibilidade de trabalhar os binómios litoral/interior, urbano/rural, instância local/instância central, competência especializada/competência genérica.

Para perceber como a justiça pensa a criança, a investigadora seleccionou todos os processos de adopção, todos os de entrega judicial, todos os de apadrinhamento civil. E cinco por cada ano de promoção e protecção. E outros tantos de regulação das responsabilidades parentais. Decorria o ano judicial 2014/2015 e havia processos a decorrer desde 1999. Acabou com 446, alguns com mais de mil páginas.

Os números não deixam espaço para dúvidas: “Num total de 728 crianças envolvidas nos 446 processos judiciais analisados, apenas 21% são participantes em 34% dos processos englobados na amostra.” Estes valores correspondem apenas a audição e participação das crianças que emerge de convocatória judicial determinada por um magistrado. Mesmo assim, parece-lhe “pouquíssimo”.

Há muito quem argumente que conceder à criança o direito de expressar a sua perspectiva, a sua opinião, o seu desejo é sujeitá-la a stress, a informação inapropriada à idade, a conflito familiar ou a outros danos. “É como se se acreditasse que vivem numa redoma”, lamenta. “Elas vivem a negligência, o abuso, o mau trato, mas não podem dizer com quem querem morar? Elas estão na origem da acção. Elas vão ser afectadas pela decisão.”

Acontece uma criança ser ouvida num processo-crime e não o ser no processo de regulação das responsabilidades parentais. Para ilustrar o quão absurdo isso pode ser, dá o exemplo de um pai que estava preso e que, por ordem do Tribunal de Família, recebia visitas regulares das três crianças. Só quando a mãe se queixou que as ameaças continuavam é que o juiz percebeu que estava a forçar uma criança abusada a visitar o abusador.

A idade não deve prender

A Convenção dos Direitos da Criança estipula que “os Estados garantem à criança com capacidade de discernimento o direito de exprimir livremente a sua opinião sobre as questões que lhe respeitem”. A legislação nacional só obriga os tribunais a ouvir as crianças a partir dos 12 anos. Antes disso, cabe ao magistrado decidir ouvir ou não. Nas secções estudadas, a média de idades de audição situa-se nos 12-13. A “moda” estatística, em todas as secções, é 16.

Quando Helga Castro vai a conferências ou congressos – a propósito da sua tese de doutoramento intitulada O tempo da infância no (s) tempo (s) da justiça: uma análise do exercício dos direitos de participação das crianças nos processos judiciais e aprovada no ano passado na Universidade do Minho –, argumenta que não importa a idade, mas a maturidade e as circunstâncias. E há sempre quem lhe diga que “as crianças mentem, constroem, efabulam”. E ela retorque: “E os adultos não?”

Na análise dos processos, encontrou crianças muito novas com ideias muito claras. Eis um exemplo: “Questionado sobre a relação com a mãe e como estruturar os contactos entre ambos, a criança, com 10 anos, responde: ‘Já esqueci no meu coração, agora só quero esquecer na minha cabeça.’ ”

“Não é a idade que nos deve prender”, sustenta. “É saber se aquela criança é ou não capaz de compreender o que se está a passar e o que se vai passar, sendo certo que o sistema não está preparado para a participação das crianças”, prossegue. “Como é que a criança pode fazer este percurso sem que isso a vitimize? Devia ser por aí.”

Condições diferem de local para local

Inegável que a ida a tribunal pode ser stressante, exigente e até intimidatória para qualquer criança. Primeiro, os espaços não estão adaptados às suas características. Depois, as crianças “não são suficientemente acolhidas, informadas e apoiadas quando participam”. Por último, muitos adultos, incluindo os magistrados, “não têm formação ou competência para as ouvir”. E raramente chamam quem saiba fazê-lo.

Há muito que se desencoraja a presença de crianças em sala de audiências – “em virtude da disposição do espaço, da hierarquia que estabelece, da centralidade que acentua, do distanciamento que impõe”. No território em estudo, nem uma secção tinha ainda salas adaptadas. Numa, eram ouvidas num espaço exíguo ao lado do Ministério Público. Noutra, nos gabinetes dos magistrados. Noutra, nos gabinetes ou em videoconferência. Noutra, na sala de audiências.

Nem todos têm o mesmo acesso à justiça. E isso também se vê pelos números. Numa secção, apenas 25% dos processos tinham participação de crianças envolvidas. Noutra, 28,2%. Noutra, quase o mesmo, isto é, 28,3%. E noutra, 40,5%.

“A abordagem, os procedimentos, a forma como reconhecemos ou não a criança, decidimos ou não decidimos ouvi-la, isso não está balizado”, nota. Varia “de tribunal para tribunal, de região para região, consoante as competências, a sensibilidade, a disponibilidade para encontrar soluções (muitas vezes fora do espaço da justiça), da resiliência de cada um dos profissionais”. “Fica aqui em causa tanta coisa.”

Que quer isto dizer? Que não é igual morar numa aldeia transmontana ou numa cidade minhota. Pense-se, por exemplo, na rede de transportes públicos. Há famílias que vivem com grandes carências económicas e têm de se deslocar dezenas de quilómetros para ir ao tribunal ou a um gabinete médico-legal. E magistrados que pedem aos bombeiros para assegurar o transporte ou recorrem a videoconferência.

Há exemplos dramáticos de crianças no sistema ao longo de muitos anos sem direito de falar. “Numa fratria de seis crianças, apenas uma, a mais velha, foi ouvida, com 15 anos e uma única vez; o processo tem nove volumes e aproximadamente 1300 páginas, implicou diversas medidas.” Outro exemplo: “Fratria de sete crianças; foram apenas ouvidas três delas (as mais velhas), mas apenas uma vez.”

Na ânsia de se expressar, algumas crianças mais expeditas escrevem cartas aos juízes ou apresentam-se nas secretarias dos tribunais. “Quero voltar para casa. Já não me lembro da última visita dos meus pais”, escreveu uma criança num bilhete que quis fazer chegar ao juiz. Numa carta, outra criança pede: “Quero que me mandes para uma família como têm as outras crianças.”

 

 

 

 

 

Filhos de vítimas de violência doméstica chumbam cinco vezes mais

Janeiro 8, 2018 às 2:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 7 de janeiro de 2018.

A notícia contém declarações da Dra. Melanie Tavares, Coordenadora dos Sectores da Actividade Lúdica e da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança.

 

Má formação cívica é um dos motivos do cyberbullying

Agosto 19, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.educare.pt/ de 8 de agosto de 2016.

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Sara R. Oliveira

É através de insultos, difamação, intimidação, ameaça ou perseguição intencional e sistemática na Internet que o cyberbullying se manifesta. O cyberbullying é uma forma de violência e a sociedade deve estar atenta. Um estudo da Universidade do Minho conclui que um em cada dez alunos já foi vítima de cyberbullying. “A agressão virtual tem efeitos nefastos para as vítimas, desde perda de reputação, estigmatização exercida pelos colegas e baixa autoestima, até situações de depressão extrema e suicídio”, adianta Luzia Pinheiro, autora da tese de doutoramento “Cyberbullying e Cyberstalking”, em declarações à Lusa.

Os distúrbios psicológicos, a má formação cívica, a vontade de descarregar a agressividade e o excesso de tempos livres são os principais motivos que podem levar alguém a praticar cyberbullying. E as vítimas, muitas vezes desprevenidas, “tendem a desvalorizar o perigo dos conteúdos online e a expor-se demasiado”. As conclusões deste trabalho de doutoramento, defendido recentemente no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, basearam-se em cerca de 200 inquéritos digitais aplicados a alunos da Universidade do Minho e da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, entre janeiro e março de 2013.

E os exemplos revelados nesse inquérito dão que pensar. Sete casos de perseguição, um dos quais de uma mulher perseguida depois de terminar a amizade com um homem que conheceu nas redes sociais. Uma jovem insultada constantemente no Facebook por colegas que chegaram a criar uma página para esse efeito. Casos de usurpação de identidade através da criação de perfis falsos, furto de fotografias pessoais colocadas em sites de encontros ou, ainda, divulgação de vídeos de teor sexual partilhados por ex-namorados ou outras pessoas.

“A Internet patrocina a desinibição, a criatividade, a exteriorização. Cria uma ilusão de proximidade e privacidade que não é real. Leva à publicação por impulso. Metamorfoseia-se num ‘reality show’ planetário em tempo real”, refere a investigadora. Luzia Pinheiro lembra, aliás, que é muito fácil espalhar informações em poucos segundos.

O cyberbullying deve, na sua opinião, “deixar de ser visto como um tabu social para que possa ser tratado como o que realmente é: violência”. Cyberbullying é, sublinha, qualquer divulgação pública de conteúdos textuais, visuais e áudio que depreciem ou desacreditem alguém ou determinado grupo, bem como qualquer tipo de intimidação, ameaça e perseguição através de mensagens privadas que ocorram na Internet de forma recorrente e intencional.

 

Helena Rafaela Rosário premiada pela “European Association for the Study of Obesity”

Julho 2, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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A “European Association for the Study of Obesity” atribui em 2016 o seu prémio “New Investigator Award: childhood obesity research” à investigadora colaboradora do CIEC Helena Rafaela Rosário.

O galardão, entregue durante a “European Obesity Summit 2016”, que foi realizada em Gothenburg, Suécia, atribui anualmente quatro prémios diferentes em ciência básica, investigação clínica, saúde pública e investigação em obesidade infantil, reconhecendo jovens investigadores que tenham contribuído com investigação de excelência para estes domínios.

No caso de Helena Rafaela Rosário, a investigação decorre desde a realização do seu doutoramento, envolvendo professores do primeiro ciclo do ensino básico, baseada numa pedagogia emancipatória e de autonomia, versando conteúdos relacionados com estilos de vida saudáveis para crianças e família. Foram ainda publicados um conjunto de cinco artigos depois da finalização daquela etapa académica.

As crianças do grupo de intervenção da pesquisa:

1-Exibiram uma menor proporção de excesso de peso, quando comparadas com as do grupo controlo;

2-Aumentaram significativamente o consumo de fruta e produtos hortícolas quando comparadas com as do controlo;

3-Reduziram a ingestão de alimentos de baixo valor nutricional e elevada densidade energética quando comparadas com as do controlo;

4-Aumentaram o consumo de fruta como sobremesa ao almoço e ao jantar em comparação com as do grupo controlo,

5-Aumentaram a qualidade alimentar, principalmente ao nível da adequação do consumo de produtos hortícolas e na moderação de sódio quando comparadas com as do controlo.

 

Blogue do CIEC, em 13 de Junho de 2016

Pode ler AQUI a tese de doutoramento da autora premiada: “Excesso de peso e obesidade em crianças : implementação e avaliação de um programa de intervenção na escola”. Outros artigos desta investigadora AQUI.

Crianças passam demasiado tempo dentro dos infantários

Julho 27, 2015 às 12:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://lifestyle.sapo.pt/ de 23 de julho de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Interação criança-espaço exterior em jardim de infância

LUSA

Nuno Noronha Lusa

Um estudo de uma investigadora da Universidade de Aveiro (UA) conclui que as crianças passam pouco tempo nos espaços exteriores dos jardins-de-infância e com pouca atividade motora.

A investigação de Aida Figueiredo, do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, a primeira em Portugal a estudar a interação das crianças com os espaços exteriores das creches e jardins-de-infância, conclui que os espaços exteriores e as atividades proporcionadas às crianças “não promovem o desafio, a exploração, a autonomia e a liberdade, aspetos importantes no desenvolvimento da autoconfiança e do bem-estar emocional” entre os mais novos.

“As crianças permanecem no exterior apenas 10,8% do tempo passado no jardim-de-infância e por períodos curtos de tempo que em média têm 30 minutos, dedicando ao jogo livre apenas uma pequena fração desse tempo”, afirma Aida Figueiredo, investigadora do Departamento de Educação e do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da UA.

Segundo Aida Figueiredo, “as crianças [no exterior dos jardins de infância] evidenciam pouca atividade motora, permanecendo a maior parte do tempo de pé e a andar, não existindo ações que requerem contacto do corpo com o solo, equilíbrio ou desafio, como trepar, pendurar ou balançar, percorrendo distâncias inferiores a dez metros, independentemente da área e do tipo de espaço”.

As conclusões resultam do trabalho de doutoramento da investigadora que, durante meses, analisou as interações de 16 crianças, entre os 4 e os 5 anos, com os espaços exteriores de quatro jardins-de-infância das cidades de Aveiro e de Coimbra.

Ainda que o estudo se tenha centrado em quatro espaços infantis, Aida Figueiredo não tem dúvidas quanto ao cenário, em tudo semelhante, que se poderá encontrar no país.

“Não se pode generalizar do ponto de vista investigativo, mas o saber empírico que detemos, a partir de supervisão de estágios, seminários e conversas informais, diz-nos que a probabilidade desta situação ser muito frequente em Portugal é elevada”, afirma a investigadora.

Aida Figueiredo lembra que a interação das crianças “com espaços exteriores diversificados, estimulantes, desafiadores, que incorporem elementos da natureza, seja terra, água, flores, folhas, pedras ou areia, e que convidem ao movimento e à exploração aumenta o seu nível de atividade física, enriquece o comportamento de jogo livre e potencia o seu desenvolvimento cognitivo, emocional e físico”.

Relativamente à atividade motora, “observou-se que as crianças apresentam predominantemente ações que envolvem a parte superior do corpo [tronco, mãos e cabeça], permanecem de pé e andam, sendo pouco frequentes ações motoras mais intensas [como correr e saltar] ou com maior grau de qualidade [como trepar, equilibrar e suspender]”.

 

Adolescentes sabem menos sobre sexo do que pensam

Dezembro 30, 2014 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 8 de dezembro de 2014.

mais informações sobre os resultados mencionados na notícia podem ser consultados no artigo:

Results of a sex education program for 2nd and 3rd cycle of portuguese basic education students

clicar na imagem

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Cyberbullying: ameaças fazem-se cada vez mais pela Internet

Novembro 20, 2014 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TVI 24 de 19 de novembro de 2014.

A tese de doutoramento citada na notícia pode ser consultada no link:

Bullying nas escolas: prevenção e intervenção

«É uma nova forma de violência que amplia as consequências do bullying tradicional», como revela uma investigação da Universidade de Aveiro

Por: Redação / CF

Um trabalho de investigação da universidade de Aveiro (UA), divulgado esta quarta-feira, conclui que crescem as ameaças através da Internet entre colegas de escola, para evitarem sanções disciplinares, num fenómeno em expansão, o chamado cyberbullying. «Este é um problema que diz respeito a toda a sociedade e não apenas às escolas», aponta José Ilídio Sá, autor da tese de doutoramento «Bullying nas Escolas: Prevenção e Intervenção», realizada no Departamento de Educação da UA, que durante um ano letivo estudou o comportamento de alunos de uma escola secundária de Espinho. «O ‘cyberbullying’ traduz inquestionavelmente uma forma mais complexa de ‘bullying’. Em muitos casos, surge como a continuação do ‘bullying’ presencial, mas noutras situações desponta como o «espaço predileto do agressor», explica o investigador. O anonimato ou a falsa identidade do ofensor, a enorme quantidade de observadores presentes, a velocidade “viral” de propagação das ofensas, agressões e humilhações, são fatores que levam os agressores a fazer essa escolha. Para a executar, dispõem hoje de variados meios ao seu dispor, como smartphones com câmara fotográficas e de vídeo, tablets, numerosos postos com computadores disponíveis e facilidade de acesso à Internet. «É uma nova forma de violência que amplia as consequências do ‘bullying’ tradicional. A difusão de ameaças, difamações e violência psicológica através da Internet é um meio cada vez mais utilizado pelos jovens para ofender terceiros», retrata. Segundo dados da investigação realizada numa escola secundária com o 3.º ciclo do Ensino Básico, que envolveu o estudo de duas turmas ‒ uma do 7.º e outra do 10.º ano, 31% dos alunos admitiu conhecer um colega que já foi “gozado ou ameaçado na Internet” e 13% dos estudantes do 10º ano já foram ameaçados, pelo menos numa ocasião, no ciberespaço, sendo essa percentagem mais significativa (19%) no caso dos jovens dos Cursos Profissionais. Outro «dado preocupante», apontado pelo estudo de José Ilídio Sá, diz respeito ao número significativo de jovens que admite desconhecer a identidade do seu agressor e que revelou não ter reportado a agressão de que foi alvo. A pesquisa permitiu apurar, na ótica dos agredidos, que perto de 45% dos jovens vítimas de agressão admitiu não ter reportado o sucedido a uma terceira pessoa tendo, por isso, «sofrido em silêncio de modo presumivelmente continuado e prolongado». Os que optaram pela denúncia fizeram-no a um colega (42,6%) ou a um familiar (29,7% dos casos, sendo que 23,8% aos respetivos pais e 5,9% aos irmãos). «Note-se que apenas uma percentagem muito residual de jovens (13%) mencionou ter participado essa agressão a um adulto da escola», diz. No caso concreto do ‘bullying’ eletrónico, «a fronteira entre o espaço escolar e o exterior torna-se quase impossível de delimitar» e por isso, «a responsabilização do agressor, quer seja na vertente disciplinar ou na criminal, torna-se assim muito difícil de comprovar». As famílias podem ter uma intervenção decisiva neste tipo de casos, «uma vez que um número significativo de situações de ciberagressão tem como palco o espaço do domicílio», para a vítima ou para o agressor. «O papel das famílias assume particular relevância, designadamente no que diz respeito à vigilância e à monitorização dos padrões de uso e de consumo da Internet por parte dos jovens, e à definição de regras por parte dos pais», afirma. Aconselham-se por isso os pais a estarem atentos e a definirem os tempos de utilização e dos conteúdos e a localização dos equipamentos, procurando inverter a «cultura do quarto» característica nessas faixas etárias, como apresenta a Lusa em síntese.

Cerca de 7% dos adolescentes têm comportamentos autolesivos

Outubro 1, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do i de 30 de setembro de 2014.

Relatório de Investigação

Comportamentos autolesivos em adolescentes: Características Epidemiológicas e análise de fatores psicopatológicos, temperamento afetivo e estratégias de coping”.

Tese de Doutoramento

Comportamentos autolesivos em adolescentes:características epidemiológicas e análise de fatores psicopatológicos, temperamento efetivo e estratégias de coping

Dados internacionais revelam que cerca de 10% dos adolescentes já terão tido pelo menos um episódio de autolesão ao longo da sua vida.

Cerca de 7 por cento dos adolescentes, a maioria raparigas, já se auto lesaram, comportamentos “secretos” não detetados pelos serviços de saúde ou escolares, revela um estudo que envolveu estudantes de 14 escolas públicas da área da Grande Lisboa.

Somando os jovens com comportamentos autolesivos com aqueles que apresentam pensamentos de autolesão, o estudo concluiu que para 13,5% dos adolescentes da amostra estes comportamentos “são ou poderão ser um potencial risco de saúde”.

O estudo “Comportamentos autolesivos em adolescentes Características epidemiológicas e análise de fatores psicopatológicos, temperamento afetivo e estratégias de coping” decorreu entre 2010 e 2013 e envolveu 1.713 adolescentes, com idades entre os 12 e os 20 anos, a maioria (56%) do sexo feminino.

A investigação visou identificar a prevalência deste problema e caracterizar de “forma pormenorizada” estes comportamentos e os jovens que os realizam.

O estudo revela que 7,3% dos adolescentes já tinham apresentado, pelo menos, um episódio de autolesão, sendo que destes, 46% já tinham realizado este comportamento mais vezes.

Cerca de 6% da amostra relatou pensamentos de autolesão (sem o comportamento associado), sendo estes também mais frequentes nas raparigas.

A probabilidade de comportamentos autolesivos é “significativamente maior nas raparigas, naqueles que vivem noutro sistema familiar que não o nuclear e naqueles com maior insucesso escolar”.

Em declarações à Lusa, o psiquiatra Daniel Sampaio, orientador do estudo, considerou estes números preocupantes, advertindo que “é preciso estar atento” a esta situação.

Estes comportamentos dos jovens se cortarem, queimarem, ingerirem uma substância numa dose excessiva “significam sofrimento na adolescência”, disse o psiquiatra.

“São um sinal de alarme para uma adolescência que não está a correr bem”, adiantou Daniel Sampaio.

A grande maioria dos jovens negou ter falado com alguém ou ter pedido ajuda, permanecendo estes comportamentos “secretos” e não detetados pelos serviços de saúde ou escolares, refere o estudo.

Só 19% dos jovens admitiu ter feito algum pedido de ajuda e apenas 13% recorreu ao hospital após a autolesão, tal acontecendo sobretudo em casos de sobredosagens.

Questionados sobre se durante qualquer episódio de autolesão pensaram “decididamente em morrer”, 42% afirmaram que sim.

Os jovens que relatavam autolesão apresentavam maior sintomatologia depressiva e ansiosa, assim como maiores taxas de consumo de álcool, de embriaguez, de consumo de tabaco e de utilização de drogas ilegais e maior número de acontecimentos de vida negativos.

Daniel Sampaio sublinhou que os pais, a escola e sociedade devem estar atento a este problema, mas realçou o papel importante dos colegas na deteção destes casos.

“Normalmente é mais fácil que eles confidenciem os problemas a um colega ou a um amigo do que aos pais ou ao professor”, justificou, defendendo a realização de um trabalho nas escolas para alertar para o problema.

“Já se fala alguma coisa [no problema], já temos estudos sobre isso, já temos professores mais habilitados a falar no assunto, já temos alguns psicólogos nas escolas atentos mas é preciso fazer muito mais”, defendeu.

Dados internacionais revelam que cerca de 10% dos adolescentes já terão tido pelo menos um episódio de autolesão ao longo da sua vida.

*Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico aplicado pela Agência Lusa

 

Violência doméstica contra as mães afeta desenvolvimento dos bebés

Julho 18, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Noticia da Visão de 12 de julho de 2014.

Logo no primeiro ano de vida, os bebés de mulheres vítimas de violência doméstica apresentam atrasos no seu desenvolvimento

Lusa – Esta notícia foi escrita nos termos do Acordo Ortográfico

Os bebés de vítimas de violência doméstica durante a gravidez apresentam atrasos no desenvolvimento logo no primeiro ano de vida, concluiu o doutoramento, da psicóloga Clementina de Almeida, na Universidade de Coimbra.

Segundo o estudo desenvolvido, os bebés apresentam “mais ansiedade, mais comportamentos agressivos, mais comportamentos de desregulação e muita irritabilidade”, referiu Clementina de Almeida. A psicóloga conseguiu, também, observar que estes não conseguem alcançar algumas metas no desenvolvimento da “linguagem, locomoção ou coordenação”.

A avaliação cognitiva e emocional dos bebés foi feita aos três meses e meio e aos 12 meses, tendo sido possível observar atrasos no desenvolvimento mental do bebé e perturbações “sócio-emocionais” nos dois momentos de análise, sublinhou Clementina de Almeida.

Ao todo, foram analisadas em 2010 204 grávidas com uma média de idades de 29 anos, tendo 58% sido alvo de pelo menos um ato de violência doméstica durante a gravidez.

Das mulheres vítimas de violência, 59% sofreram de violência psicológica, 25% de coerção sexual e 18% de agressão física.

A gravidez surge como factor que pode “aumentar a agressividade da violência que já existe ou pode até iniciá-la”, disse à agência Lusa Clementina de Almeida, sublinhando que “a violência física e a psicológica são factores de risco” para o bebé.

A própria violência doméstica afecta também a “auto-estima” das mulheres, que apresentam “mais quadros depressivos moderados e graves” do que as mães não vítimas, sendo que a debilidade da saúde mental materna acaba por determinar “um atraso ainda maior” no bebé, salientou.

Segundo as conclusões do doutoramento, a violência doméstica também “parece ter um efeito negativo ao nível das atitudes maternas durante a gravidez”, não afectando, porém, “o nível de envolvimento” entre mãe e bebé.

“Nos resultados, todos os bebés apresentaram melhorias no seu desenvolvimento, da primeira avaliação para a segunda. No entanto, os bebés filhos de mulheres que sofreram violência durante a gravidez obtêm consistentemente níveis ligeiramente inferiores”, constata ainda Clementina de Almeida, considerando que a violência pré-natal, apesar de não afectar “directamente” o desenvolvimento do bebé, acaba por ser um factor que pode dificultar “o desenvolvimento do pleno potencial” do mesmo.

Clementina de Almeida defendeu ainda que os bebés “deveriam ter um acompanhamento específico”, sendo “fundamental uma intervenção precoce”.

“Um bebé vítima de violência está mais predisposto a encontrar-se com situações abusivas”, notou, criticando a inexistência por parte do Estado de um mecanismo que possa ser accionado para um acompanhamento dos filhos de vítimas de violência doméstica.

 

Crianças que estudam música têm melhores notas a Matemática

Junho 2, 2014 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do site da Universidade de Aveiro de 21 de maio de 2014.

A tese mencionada no texto é a seguinte:

A aprendizagem musical como elemento de aperfeiçoamento de competências matemáticas

Investigação do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro

As crianças que estudam música apresentam melhores desempenhos a Matemática comparativamente às que não têm lições musicais. Pioneiro em Portugal, o estudo realizado na Universidade de Aveiro (UA) conclui ainda que quanto maior for o número de anos de aprendizagem musical melhor é o desempenho matemático, nomeadamente na área da Geometria. A investigação, que envolveu a análise do percurso escolar do 7º ao 9º ano de escolaridade de 112 alunos de norte a sul do país, vai ainda mais longe e sugere que, entre os pequenos músicos, os alunos de teclado são aqueles que alcançam melhores notas a Matemática.

A investigação desenvolvida por Carlos dos Santos Luiz, no âmbito da tese de Doutoramento realizada no Departamento de Educação da UA e orientada por Carlos Fernandes, destaca o facto de a associação entre aprendizagem musical e performance matemática permanecer evidente mesmo após a remoção das diferenças entre alunos ao nível da inteligência e do nível socioeconómico. Demonstra-se, assim, a aptidão preditiva das lições de música no desempenho matemático sem a interferência destas duas variáveis potenciadoras do desempenho académico.

“Constatámos, ainda, que é possível prever o desempenho matemático a partir do raciocínio espacial, raciocínio este especialmente desenvolvido pelos estudantes de música”, aponta Carlos dos Santos Luiz que acrescenta que “as capacidades espaciais melhoradas têm um contributo importante no desempenho a matemática, assim como em áreas da ciência, tecnologia e engenharia”.

Alunos de instrumentos de tecla são melhores matemáticos

Sabendo que a leitura de música e a aprendizagem de um instrumento envolvem e propiciam o desenvolvimento de capacidades espaciais, o investigador analisou também a associação entre o tipo de instrumento musical, o raciocínio espacial e o desempenho a matemática. “Observei que os alunos de instrumentos de teclado apresentam tanto um desempenho matemático quanto um raciocínio espacial superiores aos alunos de outros instrumentos musicais”, aponta o investigador que, atualmente, leciona na Escola Superior de Educação de Coimbra.

Se a prática instrumental requer a integração de vários sistemas sensoriais, tais como o auditivo, o visual e o motor, “no caso dos instrumentos de teclado, a disposição espacial do próprio teclado permite a representação visual das relações intervalares entre as alturas de som que, por sua vez, têm correspondência com a geometria da música escrita”. A configuração física do teclado “reforça, assim, a importância de conteúdos matemáticos”.

Sobre a influência que a aprendizagem de música tem no cérebro dos jovens a ponto de lhes proporcionar um melhor desempenho matemático, Carlos dos Santos Luiz aponta que “no âmbito da neurociência da música,as tecnologias imagiológicas e eletrofisiológicas permitem verificar diferenças anatómicas e fisiológicas entre músicos e não músicos ao nível do encéfalo”. Assim, “a aprendizagem musical precoce é o principal fator para a maioria das diferenças verificadas”.

O autor sublinha que a partir de estudos já realizados, tanto na área da cognição musical como na do processamento matemático, é possível estreitar a ligação entre música e cognição matemática.

“No caso concreto do processamento e perceção musicais, os não músicos evidenciam um domínio hemisférico cerebral direito, ao passo que os músicos demonstram um domínio hemisférico cerebral esquerdo”, aponta o investigador. Neste contexto, diz, “os estudos destacam a anatomia e a fisiologia de certas áreas cerebrais com representação mais lateralizada à esquerda, nomeadamente o lobo temporal (áreas auditivas), assim como o lobo parietal (em vários locais) e o lobo frontal (córtex pré-frontal) dos músicos”.

De modo semelhante, determinados processos matemáticos acedem a áreas no hemisfério esquerdo, como o lobo parietal. Para além do córtex parietal, os estudos relatam também uma ativação cerebral no córtex pré-frontal. “Supõe-se que, se a música e a matemática utilizam as mesmas áreas corticais, a prática da primeira poderá influenciar a segunda. Adicionalmente, alguns autores observaram a proximidade de regiões do cérebro para a música e processamento espacial”, diz.

Música não é prioridade nas escolas

No âmbito do ensino da música em Portugal refira-se o Estudo de avaliação do ensino artístico: Relatório final, elaborado em 2007 por docentes e investigadores da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, que veio chamar a atenção para o contributo positivo da disciplina de música na formação dos estudantes, a par de outras disciplinas consideradas essenciais, e que o seu impacto tem suporte científico.

Aquela equipa de docentes e investigadores constatou que ao nível do currículo da educação e ensino artístico do ensino básico geral português não existiam diferenças notórias relativamente aos currículos de certos países europeus. “O que parecia ser diferente era a atenção e o valor atribuído ao ensino das artes em geral naqueles países”, recorda Carlos dos Santos Luiz. Deste modo, os autores sugeriram a necessidade de uma maior valorização da disciplina de música, assim como de um maior investimento na qualidade do nosso sistema de ensino.

“Na última reforma da estrutura curricular do ensino básico português, concretizada pelo Ministério da Educação e Ciência em 2012, e referindo-nos apenas ao 3º ciclo, a disciplina de Educação Musical sofreu uma redução significativa do tempo que lhe era anteriormente concedido no 7º e 8º anos e no 9º ano de escolaridade deixou de existir no plano de estudos”, alerta o investigador.

 

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