Daesh usa crianças como alvos para evitar fuga de civis em Mossul

Junho 23, 2017 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.cmjornal.pt/ de 22 de junho de 2017.

As Nações Unidas afirmam que os combatentes do Daesh usam as crianças como alvos em Mossul para evitar a fuga de civis da cidade enquanto as forças iraquianas tentam entrar no último reduto no Iraque dos extremistas.

Num relatório apresentado esta quinta-feira, a agência das Nações Unidas para as crianças disse que documentou uma série de casos de combatentes do Daesh que mataram os filhos das famílias que tentam fugir dos bairros controlados pelo grupo na segunda maior cidade iraquiana.

A UNICEF diz que 1.075 crianças foram mortas e 1.130 feridas desde que os combatentes do Daesh tomaram o controlo de quase um terço do Iraque em 2014.

Além do elevado número de civis mortos, a luta atual para retomar o controlo de Mossul causou destruição generalizada.

Oficiais iraquianos e norte-americanos afirmaram que a mesquita Al Nuri e famoso minarete foram destruídos por combatentes do Daesh na noite de quarta-feira.

descarregar o relatório citado na notícia:

NOWHERE TO GO: IRAQI CHILDREN TRAPPED IN CYCLES OF VIOLENCE

mais informações em português:

Crianças no Iraque presas em ciclos de violência e pobreza numa altura em que o conflito atinge níveis sem precedentes

 

Como explicar o terrorismo às crianças?

Junho 8, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Desta vez um ataque terrorista teve como alvo um público muito jovem. Devem os pais falar sobre isso com os filhos? E como? Fomos ouvir um pedopsiquiatra e quatro psicólogas.

Na terça-feira à noite, as 21 mil pessoas que assistiam ao concerto da cantora pop norte-americana Ariana Grande no Manchester Arena, em Inglaterra, foram surpreendidas, no final do espetáculo, por uma forte explosão que vitimou 22 pessoas e deixou outras 59 feridas. Mais um atentado, já reivindicado pelo Estado Islâmico, que se soma a muitos outros nos últimos meses mas este com uma particularidade que o distingue dos demais: desta vez o alvo foram sobretudo crianças (e os pais que as acompanhavam).

Por isso, e pelo facto de o atentado ter ocorrido no final de um concerto de um dos ídolos pop das crianças e jovens, faz com que, provavelmente, as crianças e adolescentes se sintam mais identificadas e estejam mais sensíveis a estas notícias. É também natural que as dúvidas e perguntas em torno deste atentado e vindas desta faixa etária surjam com mais expressão.

A pensar nisso, no concerto desta cantora que está agendado para o dia 11 de junho no MEO Arena, nos receios dos pais e nas eventuais perguntas que possam surgir em casa, o Observador falou com quatro psicólogas e um pedopsiquiatra para ajudar a encontrar respostas para algumas das questões que possam estar a surgir neste momento.

  1. Deve-se falar e explicar o terrorismo às crianças e pré-adolescentes?
    Sim. Esconder informação não deve ser opção.

“Vindo a propósito, os pais podem falar do terrorismo, sem alarmismo”, defende Pedro Pires, pedopsiquiatra do Hospital Garcia de Orta, em Almada. Uma opinião subscrita pela psicóloga clínica Filipa Silva: “Neste momento, a questão da violência e do terrorismo estão na ordem do dia e devem ser discutidas. Não é possível abafar a informação e não parece que esconder informação seja a melhor abordagem”.

Também Isabel Abreu-Lima, professora na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, defende que a criança que interroga sobre este assunto deve ter uma resposta e que os pais não devem mentir. “Contudo essa verdade deve ser doseada. Devemos ajustar as nossas explicações, monitorizando a forma como a criança está a reagir.”

E a psicóloga clínica e psicoterapeuta Patrícia Câmara é da opinião que “a abordagem não deve ser nunca que as coisas não acontecem, ainda que não devam ser empoladas”.

2. Como deve ser feita a abordagem? Como se deve explicar o terrorismo?
“Há pessoas boas e más”

OK, deve-se falar sobre estes atentados e sobre o terrorismo às crianças e pré-adolescentes. Mas como? Inês Marques, psicóloga clínica, coordenadora da equipa infanto-juvenil da Oficina da Psicologia, aconselha a que os pais evitem vocabulário difícil quando estão a falar para crianças em idade de pré-escolar ou a frequentar o ensino primário. “O ideal é falar de pessoas boas e más, sempre na lógica de que as pessoas não nascem más mas que há algo na história de vida dessas pessoas que as levou para esse extremo”. E questionados sobre as motivações dessas pessoas más, os pais podem “assumir que é muito difícil perceber o que está por detrás de tudo isto, que eles próprios não entendem. Ser genuíno é muito importante”.

Também Filipa Silva, psicóloga clínica e formadora, começa por dizer que é preciso “adaptar o discurso”. “Até aos seis anos devemos explicar, contrariamente a alguns livros de histórias encantadas, que nem toda a gente é boa e que nem todos os fins de história são felizes. E isso não tem mal nenhum”, assegura a psicóloga, acrescentando que “dos seis aos 10 anos, ainda numa fase da infância, podemos começar a usar a palavra ataque e explorar o que é isto do ataque. Da pessoa que não está bem e que planeia fazer mal aos outros”. Isso, remata a Filipa Silva, “sem nunca fazer associações a etnias, nem religiões, nem nacionalidades.” A partir dos 11 anos, “aí já podemos elaborar a ideia de terrorismo porque já vão perceber os conceitos”.

Um dos conceitos que as crianças devem aprender desde cedo é o da maldade, e também têm de perceber que há limites e que todos os atos têm consequências nos outros, sublinha a docente da Universidade do Porto, Isabel Abreu-Lima. “Tem de se explicar que existe maldade, que há pessoas, de facto, más e que causam sofrimento nos outros, que há pais que ficaram tristes e meninos que morreram, mas que também há muitas pessoas boas e que isso é o mais frequente.” Ou seja, até aos seis ou sete anos de idade o melhor mesmo, destaca a psicóloga, é dar uma “explicação simples e linear de que há pessoas más” pois a criança “não vai entender o que é o terrorismo”.

Abordar o assunto pela tónica de que “a maldade existe e que o mundo também é feito de pessoas más” é a melhor solução também na opinião do pedopsiquiatra Pedro Pires. Quanto a uma explicação mais elaborada, essa só deve chegar mais tarde. “A partir dos 10 anos a explicação pode ir até onde o pai ou a mãe sabe que vai a maturidade do filho.”

Para Patrícia Câmara, mais do que dizer que são más pessoas, pode-se dizer que são “pessoas que esqueceram que são pessoas que não aguentam que os outros sejam felizes”.

3. Explicar só depois das crianças perguntarem ou explicar mesmo sem haver perguntas?
Procurar perceber o que a criança quer saber. “Menos é mais”
O pedopsiquiatra acha que a explicação só deve chegar caso a criança pergunte. Já a psicóloga clínica Filipa Silva considera que no caso das crianças até aos seis anos “devemos observar e ver se têm algum tipo de alteração de comportamentos ou se abordam o assunto para não introduzirmos conteúdos precocemente sem necessidade”.

Para Inês Marques, da Oficina da Psicologia, “um bom princípio é, ainda antes de responder às questões, perguntar à criança ou pré-adolescente o que já sabe, o que já ouviu falar e o que gostava de saber mais”. Desta forma, acrescenta, a mãe ou o pai poderão “adequar o conteúdo e a quantidade de informação, assim como a linguagem”.

Já Patrícia Câmara responde com cautela, afirmando que “conhecendo os nossos filhos e se sabemos que ficam mais impressionados com o tema devemos falar, mesmo que eles se calem. Devemos gerir o assunto de acordo com o tipo de criança que temos e a idade, mas sobretudo tentando não minimizar mas, por outro lado, não tornando o assunto demasiado próximo”.

4. Como evitar que as crianças fiquem com medo?
Dizendo que há mais pessoas boas do que más

Sem esconder os próprios receios — “porque o medo é uma emoção que surge para nos proteger mas que muitas vezes é ativado em situações não reais” –, os pais devem “passar, na medida do possível, confiança e segurança aos filhos”, sublinha a psicóloga Inês Marques, e, para tal , devem insistir na ideia de que “a maioria das pessoas é boa e não usa violência e que este grupo de pessoas más é uma minoria e que estes atentados são circunscritos”.

Também a psicóloga Filipa Silva sublinha a importância de os adultos se acalmarem antes de falar com os filhos. “Importa primeiro regular as nossas próprias emoções e então mais calmos podemos falar com as crianças. Se estamos a tentar acalmar as crianças e não estivermos tranquilos elas vão sentir isso”, começa por dizer Filipa Silva, para logo acrescentar que “é preciso dizer que há mais pessoas boas do que más”. Além disso, “vale a pena muitas vezes pegar no argumento de que estes atentados são distantes e até se pode mostrar no mapa. Se a distância não puder ser usada como argumento de segurança, podemos pôr o foco nas figuras policiais e dizer que o senhor mau já foi apanhado”. Questionados sobre a possibilidade de voltar a acontecer uma situação parecida, os pais devem dizer a verdade: “pode acontecer, mas é pouco provável”.

Desde logo “os pais têm de estar calmos e não passar o nervosismo porque a criança fica mais aflita com a reação dos pais do que com o acontecimento em si”, frisa o pedopsiquiatra Pedro Pires, que insiste na ideia de que não se deve gerar alarmismo. “Não podemos passar a ideia de um mundo perigoso porque isso pode criar na criança um medo excessivo e generalizado. Os pais devem dizer que há de facto perigos, mas que, de um modo geral, o mundo não é perigoso.” E na mesma onda, Isabel Abreu-Lima sublinha a importância de não passar a ideia de que “o mundo e a vida são negativos e que não há nada a fazer contra estes atentados”. “A mensagem deve ser sempre de esperança.”

“É importante passar a mensagem às crianças que, aconteça o que acontecer, há sempre alguém e que mesmo que estejam sozinhas vai sempre haver alguém que vai ajudar, uma mão que vai aparecer. E que essas mãos, às vezes, vêm de dentro de nós, da força interna das coisas boas que vivemos”, aconselha a psicóloga Patrícia Câmara.

 

5. Qual o controlo em relação às imagens do atentado?
Pais devem controlar o acesso às imagens do atentado
Na opinião de Inês Marques, os pais devem “tentar que as crianças não tenham demasiada exposição às imagens e vídeos porque as crianças podem não ter maturidade suficiente para gerir essas imagens violentas”. Também Filipa Silva alerta que “é preciso ter cuidado com o tipo de imagem a que as crianças têm acesso. A criança pode ver uma foto, não tem de ver 10”.

Também o pedopsiquiatra do Garcia de Orta não tem dúvidas que “a criança deve ser protegida dessas imagens” que vão sendo divulgadas dos momentos que sucederam à explosão da bomba artesanal. “Não é expondo a realidade crua que faz com que as crianças tenham noção da realidade.”

“A gestão das imagens deve vir acompanhada da gestão de tudo o resto. A exposição às imagens oferece um nível de crueldade às crianças que não há necessidade”, defende a psicóloga Patrícia Câmara.

 

6. Devo deixar a minha filha ou o meu filho ir ao concerto da Ariana Grande em Lisboa?
Não há decisões certas, nem erradas
Para o pedopsiquiatra Pedro este atentado não deve fazer os pais mudarem de ideias “porque o atentado não teve a ver com a Ariana Grande. O que se passou foi a utilização de um acontecimento”, embora “tenham o direito de ter receio e não querer que os filhos vão. E aí devem ser francos”. O médico deixa contudo claro que “reforçar a segurança só reforça a insegurança. O ideal é agir de forma natural”.

Também Filipa Silva sublinha que “os pais têm total legitimidade de ficar preocupados e que não há escolhas certas nem erradas” e nesse sentido podem dizer que “neste momento, face à proximidade deste atentado, não se sentem à vontade para ir ao concerto. É como se fosse uma ferida que ainda está a sarar”. Porém, acrescenta, “há um princípio importante: quando começamos a fortalecer o medo e contornar questões eventualmente perigosas, começamos a encher um balão e se começamos a contornar tudo o que possa envolver perigo voltamos à era em que voltamos a ter crianças em casa”. E, por isso, na opinião desta psicóloga a abordagem, perante a insistência da criança ou pré-adolescente, pode ser outra: “fico mais intranquilo do que estava, mas se queres ir vamos porque se não vamos agora não vamos a mais nenhum concerto, nem tínhamos ido a Fátima ver o Papa”.

Patrícia Câmara é igualmente da opinião que “reiterar o medo é dar força à parte maligna” e, por isso, “escondermo-nos em bunkers não é solução”, até porque é preciso saber lidar com a “imprevisibilidade da vida”, sendo certo que a última decisão caberá sempre aos pais.

“Manter as nossas rotinas é importante”, defende Inês Marques. E caso os pais sejam questionados sobre a hipótese de vir a acontecer um atentado como o que teve lugar em Manchester, devem ser “sinceros” e dizer que “pode acontecer, embora a probabilidade de acontecer seja reduzida”.

Já a docente da Universidade do Porto, Isabel Abreu-Lima, vestindo a pele dos pais diz que “tentaria não tomar decisões já e abriria a porta para uma reflexão, tentando que a decisão fosse partilhada com a criança”. “Adiar a decisão é o mais sensato porque em cima do acontecimento será sempre não”, afirma, enfatizando que “a decisão diz respeito aos pais” e que eles “têm de ser soberanos”.

 

Artigo do Observador, publicado em 23 de maio de 2017

O que dizer aos mais novos quando há um atentado em que morrem crianças e adolescentes?

Maio 26, 2017 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://lifestyle.publico.pt/ de 23 de maio de 2017.

Bárbara Wong

Atentado em Manchester fez pelo menos 22 mortos, entre eles crianças.

Era uma festa sobretudo para crianças e adolescentes, que são o público que segue e assiste aos concertos de Ariana Grande. A Arena de Manchester tornou-se notícia devido ao já reivindicado atentado em que morreram, pelo menos, 22 pessoas e dezenas ficaram feridas. Entre estas estão crianças e jovens.

É inevitável que os mais novos vejam a notícia, seja num site, na televisão ou numa rede social. Eles gostam e acompanham a carreira de Ariana Grande — esperavam que a cantora viesse a Lisboa proximamente, mas entretanto todos os concertos foram cancelados — e não há como lhes esconder o que se passa no mundo. Assim, o que dizer-lhes?

Informar, mas sem ir muito longe
José Morgado, professor no ISPA — Instituto Universitário, defende que os pais devem falar sobre o tema e responder a todas as perguntas que forem feitas. Contudo, “não dar mais informação do que a que eles pedem”, aconselha, alertando para que os filhos não vejam as imagens sozinhos, mas sempre com mediação dos pais, para que expliquem o que se passa.

“Se não perguntarem mais, não dizemos mais para não instalar a dúvida”, defende.

E é importante “desconstruir”, diz por seu lado o pedagogo Renato Paiva, autor do livro Queridos Pais, Odeio-vos, editado recentemente pela Esfera dos Livros. Dizer aos filhos que nem todas as pessoas de determinada etnia ou religião são terroristas, para que os filhos não façam generalizações.

Falar sobre a morte
Não é fácil falar sobre a morte de crianças com outras crianças, reconhece José Morgado. “É algo que não se prevê, que é pontual, que é residual”, acrescenta Renato Paiva. Por isso, mais uma vez, é preciso não entrar em generalizações, porque as crianças e os jovens morrem e noutras circunstâncias que não num atentado, sublinha o pedagogo.

Mais uma vez, para José Morgado, falar da morte é responder às perguntas que são feitas, contextualizando-as, explicando porque aconteceu. “Começamos por introduzir uma leitura do mundo, porque é tão importante a morte de uma criança síria por causa das armas químicas como a morte de uma criança em Manchester”, defende Morgado.

Transmitir segurança
Situações como esta devem servir para falar também sobre segurança, considera Renato Paiva. Os pais devem aproveitar para falar sobre as preocupações que os jovens devem ter quando vão a um concerto. “O que podes evitar? O que podes fazer se ouvires um estrondo?”, exemplifica. “O esmagamento [devido às pessoas que estão em fuga] pode ser mais preocupante do que o atentado em si”, acrescenta.

Ao falar disso, os pais não estão a incutir o medo nas crianças e nos jovens? “Não, estão a incutir-lhes cuidado e atenção”, responde, dando outros exemplos, como pedir aos filhos para terem cuidado quando andam na rua e vão atravesssar uma estrada; ou os cuidados a terem para não serem assaltados.

Crescer para a paz
Situações como estas podem gerar incompreensão, revolta, vontade de responder na mesma moeda. No entanto, devem servir para “aprender a crescer e a não magoar os outros”, defende José Morgado.

É preciso explicar aos mais novos que há pessoas que estão a ser educadas para uma forma de viver violenta, para a autodestruição e o extermínio, mas que “a pior coisa que podemos fazer é responder com ódio”, declara Helena Marujo, psicóloga e professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa.

Helena Marujo defende que é preciso “criar uma nova geração crítica” e para isso é preciso centrar menos a educação nos conteúdos escolares e mais em aspectos humanistas, nas expressões artísticas, na filosofia, na possibilidade de debater ideias, continua a professora, precursora da Psicologia para a Felicidade.

A investigadora lembra que quem estava no concerto estava a celebrar e que o ataque terrorista tem como objectivo destruir a alegria. “Os bombistas foram treinados para dar sentido à morte, nós temos de ensinar as novas gerações a dar sentido à vida”, conclui.

 

 

Número de crianças usadas em ataques pelo Boko Haram triplicou

Abril 16, 2017 às 6:44 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.jn.pt/ de 12 de abril de 2017.

O número de crianças usadas em atentados suicidas no conflito na região do Lago Chade triplicou para 27 nos primeiros três meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2016, segundo a ONU.

O aumento “reflete uma tática alarmante utilizada pelos revoltosos”, o grupo extremista nigeriano Boko Haram, refere um comunicado do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a propósito de um relatório da organização divulgado hoje.

O relatório, com o titulo “Vergonha silenciosa: Dar voz às crianças atingidas pela crise do Lago Chade”, revela que 117 crianças, na maioria raparigas, foram usadas desde 2014 para realizar ataques bombistas em locais públicos na Nigéria, Chade, Níger e Camarões: quatro em 2014, 56 em 2015, 30 em 2016 e 27 no primeiro trimestre de 2017.

“Nos primeiros três meses deste ano, o número de crianças usadas em ataques bombistas é quase igual ao total do ano passado – trata-se da pior utilização possível de crianças em conflitos”, afirmou Marie-Pierre Poirier, diretora regional da UNICEF para a África Ocidental e Central, citada no comunicado.

“Estas crianças são vítimas, não criminosos. (…) Obrigar ou ludibriar estas crianças levando-as a cometer um ato tão aterrador é inaceitável”, adiantou.

O relatório é lançado três anos depois do Boko Haram ter raptado 276 estudantes de uma escola secundária de Chibok, no nordeste da Nigéria, na noite de 14 para 15 de abril de 2014.

O rapto provocou indignação e trouxe atenção mundial para a rebelião do grupo ‘jihadista’, que já causou pelo menos 20 mil mortos e mais de 2,6 milhões de deslocados desde 2009.

“O relatório dá conta de relatos perturbadores de crianças que foram mantidas em cativeiro às mãos do Boko Haram e mostra como estas crianças são encaradas com grande desconfiança quando regressam às suas comunidades”, refere o comunicado.

Segundo a UNICEF, “as raparigas, os rapazes e mesmo crianças pequenas são vistos, cada vez mais, como uma ameaça em mercados e postos de controlo, onde se desconfia que possam transportar explosivos”.

Crianças intercetadas em postos de controlo podem ficar sob custódia para interrogatório e investigação, indicando o relatório da agência da ONU que, “em 2016, quase 1.500 crianças estavam sob custódia administrativas nos quatro países e 592 crianças continuam a aguardar a libertação”.

A UNICEF apela a todas as partes envolvidas no conflito para que se comprometam a acabar com “as violações graves contra crianças cometidas pelo Boko Haram”, bem como a “retirar as crianças de ambientes militares para ambientes civis o mais rapidamente possível” e a “prestar cuidados e proteção às crianças separadas e não acompanhadas”.

Em 2016, o Fundo das Nações Unidas para a Infância permitiu que mais de 312 mil crianças tivessem apoio psicológico na Nigéria, Chade, Camarões e Níger, tendo juntado às suas famílias mais de 800 crianças.

A agência da ONU trabalha com as comunidades e famílias para “combater o estigma associado às vítimas de violência sexual” e apoia ainda as autoridades locais no fornecimento de água potável, de serviços de saúde básicos e no acesso à educação, prestando igualmente tratamento a crianças desnutridas.

A UNICEF lamenta, no entanto, que a resposta a esta crise continue “seriamente subfinanciada”, assinalando que no ano passado o seu apelo para a zona do Lago Chade, no valor de 154 milhões de dólares (145 milhões de euros), recebeu apenas 40% dos fundos.

mais informações no comunicado de imprensa da Unicef:

Conflito na região do Lago Chade: aumento alarmante do número de crianças usadas este ano pelo Boko Haram em ataques bombistas

 

 

O que leva uma criança a dizer que apoia o Estado Islâmico?

Março 16, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.bbc.com/portuguese/ de 27 de fevereiro de 2017.

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Matthew Price BBC Radio 4

Ele tem 10 anos de idade, o rosto pequeno e redondo e um olhar atento. Você sabe que ele é inteligente porque ele faz muitas perguntas. Mas, neste caso, a curiosidade o levou a ter problemas.

Hoje em dia, ele prefere não repetir as palavras ditas há pouco mais de um ano na frente de seus colegas em uma escola primária no oeste de Londres.

Na época, ele ficou na frente da classe e disse que apoiava o grupo extremista autodenominado “Estado Islâmico” (EI).

A declaração provocou uma série de intervenções de seus professores. que acionaram os serviços para menores de idade do governo britânico.

O caso também foi encaminhado para a Prevent – um programa que trabalha com indivíduos que correm risco de serem radicalizados.

Ataques em Paris

Por razões óbvias, não vamos revelar a identidade do menino, mas vamos chamá-lo de Haaruun.

Ele vive em Londres com sua mãe e vários irmãos. E foi quando ele tinha 9 anos que tudo começou.

“Eu vi a notícia sobre os ataques em Paris”, diz ele, referindo-se ao atentado que ocorreu na capital francesa em novembro de 2015.

“Me sentei no computador e procurei ‘ISIS’ (sigla pela qual o grupo era identificado) no Google, que me levou ao site da BBC News (site de notícias da BBC em Inglês). Eu li tudo e então eu vi Children of the Califado (“Filhos do Califado”, documentário sobre crianças recrutadas como soldados pelo grupo) no site (do canal britânico) Channel 4 e fiquei impressionado”, lembra ele.

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“E então eu acessei em outras páginas…”

Foram esses outros sites que deixaram Haaruun exposto à brutalidade dos jihadistas e o tornou, de acordo com assistentes sociais que acompanham o seu caso, “vulnerável à radicalização”.

“Eu vi alguns vídeos de execuções brutais e pessoas sendo queimadas”, diz o garoto. “Eles eram acorrentados e depois ateavam fogo neles.”

Não há emoção em seu relato. Nem quando ele descreve um outro vídeo: “os homens caminham com as mãos atrás das costas. Depois, eles são golpeados e obrigados a sentar”.

E não pisca quando diz a seguinte frase: “Depois, cortam a cabeça deles”.

Mil casos

Esse é apenas um dos casos nos quais a equipe da Prevent trabalha. Desde 2012, o programa já atendeu mil casos, tanto de crianças da mesma idade de Haaruun quanto de adolescentes e adultos.

A maioria estava relacionada à radicalização islamista, embora no último ano tenham aumentado os casos relacionados ao extremismo de direita.

Na verdade, Haaruun viu aqueles vídeos sobre a brutalidade do “EI” em um site de extrema-direita que tentava desqualificar o Irã, usando o grupo como exemplo. A curiosidade do garoto o levou a continuar acessando outros sites para encontrar mais vídeos.

“Eu aproveitava os fins de semana, quando todos já tinham saído e a casa ficava vazia. Eu sentava na frente na frente do computador da sala para fazer buscas”, lembra.

Mas ele não era o único em sua escola interessado no assunto.

“Havia crianças que brigavam entre si, e alguns diziam: ‘Ah, o Hezbollah é mais forte que o Estado Islâmico’.”

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De acordo Haaruun, muitas crianças de sua classe conhecem o EI porque suas famílias vêm do Oriente Médio.

“Um grupo oito garotos não parava de falar sobre o assunto e pesquisavam sobre isso, inclusive em sala de aula”, diz a criança.

“Certa vez, um dos meus colegas colocou a palavra ‘ISIS’ em um site de busca e começou a ver um vídeo. Eu disse para ele parar e quando o professor veio ver o que estava acontecendo, todos disseram que nada”, conta.

“Eu sabia que assistir aqueles vídeos era errado, mas não era o único que fazia. Não era justo. Com as outras pessoas não aconteceu nada”, diz ele.

Bullying

O que não sabiam seus professores, e acabou descobrindo o especialista que assumiu o caso – é que Haaruun estava sofrendo bullying na escola.

Ela não fala muito sobre isso, embora conte que alguns de seus colegas – muçulmanos ou não – o chamavam de “terrorista”.

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De acordo com especialistas, as piadas aparentemente foram um fator importante que levou ao isolamento de Haaruun e alimentou seu interesse no “Estado islâmico”.

Aos poucos, ele se tornou um especialista no grupo jihadista e foi logo depois disso que ele se levantou em sala de aula e se declarou um simpatizante do EI. Pouco depois, uma mulher chamada Mariam foi a sua casa.

“Minha mãe me disse que alguém tinha vindo me ver. E quando Mariam disse o motivo da visita, eu pensei que eu iria para a cadeia”, relembra.

Mariam, que trabalha para a Prevent e prefere não revelar seu sobrenome, diz que demorou até que ela ganhasse a confiança de Haaruun.

“Tivemos que nos encontrar várias vezes até que ele se abrisse e falasse sobre tudo o que tinha visto”, explica.

Foi um ano de trabalho, durante o qual Haaruun mostrou a Mariam os sites que visitou e, juntos, debateram os vídeos.

A assistente social também o fez criar uma lista de coisas que o faziam feliz, outras de coisas que lhe interessavam e uma última do que o deixava com medo.

Na primeira, a criança escreveu “paz”, “família” e “Islã”. E “guerra” no segundo.

Na lista de coisas que ele temia, escreveu “Estado islâmico”. Mas também “escola”.

E foi este último item que acendeu o alerta sobre um possível caso de bullying.

‘Lavagem cerebral’

A mãe de Haaruun tentou lidar com o problema, mas ele encontrou uma forma de continuar vendo o que ele queria. “Ela não conseguia acompanhar as perguntas que ele fazia”, diz Mariam.

Hoje isso não acontece. A Prevent já terminou o trabalho com Haaruun, e ele diz que aprendeu que não deve “ver as coisas ruins, sites ruins”.

“Mariam me contou quais são repercussões e o impacto disso e que elas não são boas”, explica ele.

“Se você continuar assistindo, vão fazer uma lavagem cerebral em você e convencê-lo a se juntar ao Estado Islâmico, e eles vão terproblemas e você vai parar na cadeia”, diz ele, de maneira direta.

Mas isso poderia realmente acontecer com Haaruun?

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“Não estamos sugerindo que ele se tornaria um terrorista. O que estamos dizendo é que ele estava vulnerável a isso”, afirma Mariam. “Poderia ter acessado um bate-papo e falado com alguém que está lá para radicalizar pessoas.”

“É um jovem vulnerável que está vendo coisas, formando opiniões – mas não podemos prever como isso evoluído sem a intervenção do Prevent”, admite.

“Não estamos dizendo que ele pegaria uma bomba e explodiria alguém. Mas trata-se de minimizar esse risco.”

Haaruun continua sendo a criança curiosa que sempre foi. Mariam e outras pessoas de sua equipe querem mostrar a ele o que chamam de “espaços seguros” para a aprendizagem.

As pessoas em sua escola, em sua família e em outras atividades o ajudam a explorar um mundo mais amplo, mas de uma forma segura.

Ele diz que quer ser advogado ou contador. E, depois de uma pausa, acrescenta com um sorriso tímido: “Ou jornalista”.

 

 

60 crianças foram denunciadas por semana ao programa antiterrorismo do Reino Unido

Janeiro 4, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://expresso.sapo.pt/ de 27 de dezembro de 2016.

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Joana Azevedo Viana

Dados do controverso programa governamental Prevent, criado no rescaldo do ataque de julho de 2005 em Londres e refundado em 2015, mostram que entre o ano passado e este ano houve 7500 pessoas referenciadas, 3100 delas menores, incluindo 61 com menos de dez anos.

Uma média de 60 crianças foram denunciadas por semana ao controverso programa de contraterrorismo do Governo britânico entre 2015 e 2016. De acordo com dados do Prevent — o programa criado no rescaldo dos ataques ao metro de Londres a 7 de julho de 2005, que no ano passado foi reformulado sob a Lei Antiterrorismo, passando a exigir a organizações como escolas e autoridades locais que “cumpram o dever e a necessidade de impedir que as pessoas sejam atraídas para o terrorismo” — houve cerca de 7500 pessoas referenciadas entre o ano passado e este ano, a um ritmo de 20 por dia. Dessas, 3100 eram menores e 61 tinham menos de 10 anos de idade, avança o jornal “The Independent”.

As autoridades britânicas garantem que, através do Prevent, já conseguiram travar mais de 150 viagens de britânicos para os teatros de guerra no Iraque e na Síria, para além de terem em mãos uma série de casos e incidentes ligados à extrema-direita que foram detetados graças a ele. Contudo, o programa governamental de combate à radicalização continua a ser criticado por muitos, que falam numa cultura “tóxica” de denúncias até em infantários que cria um ambiente ao estilo Minority Report, em que as pessoas referenciadas às autoridades, incluindo crianças, se tornam suspeitas de crimes que não aconteceram.

“Alguns dos que tecem críticas criticam as perceções do Prevent e não aquilo que [o programa] é”, defende Simon Cole, líder do programa no Conselho Nacional de Chefes da Polícia britânica. “Algo que fica perdido no debate é o facto de este ser um esquema voluntário que acontece num espaço pré-criminal. Não tem a ver com pessoas que são suspeitas de crimes de terrorismo. Tem a ver com pessoas que [são alvos de] preocupações por profissionais, amigos, familiares e membros das suas comunidades, que acham que elas podem precisar de ajuda e apoio.”

Em setembro, a diretora da Universidade de Oxford tinha acusado o Governo de implementar um programa “errado” para combater o extremismo e o radicalismo, dizendo que as universidades e escolas devem ser locais onde os alunos podem debater de forma livre e aprender a rebater argumentos que consideram questionáveis e não sítios onde têm medo de se expressar.

Cole, pelo contrário, considera que é importante combinar a educação com a aplicação da lei e o policiamento, reconhecendo contudo que algumas comunidades têm “muitas suspeitas” em relação ao Prevent. Ao “The Independent”, o chefe da polícia de Leicestershire explicou como funciona o processo normal de referenciamento: “Existe uma avaliação de um indivíduo e é criado um programa para o apoiar. Às vezes sse programa não tem nada a ver com extremismo ou radicalização. Tem a ver com identificar uma pessoa que pode precisar de ajuda para encontrar emprego ou oportunidades de educação ou condições de habitação.”

Das 7500 referências ao Prevent entre 2015 e 2016, 28% dos casos continuam sob investigação e 10% foram avaliados como envolvendo pessoas vulneráveis ao terrorismo — já integradas no programa Channel que presta apoio aos que são identificados como estando em risco de radicalização. Dos casos em que foram identificados e registados motores ideológicos, 54% estiveram relacionados com o extremismo islâmico e quase 10% com a extrema-direita.

 

 

 


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