O percentil do seu bebé não está na média? Calma, isso pode não ser um problema

Outubro 2, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 20 de setembro de 2017.

Investigadores portugueses criaram tabelas de percentis adequadas à realidade portuguesa. Objectivo é conseguir diagnósticos mais rigorosos e diminuir angústias dos pais

Mariana Correia Pinto

Se durante os nove meses de gravidez o bebé se afasta da média, se o crescimento ou o peso fetal é baixo, os progenitores ficam “muito angustiados”. A gravidez, nota o investigador Ricardo Santos, “é o único momento em que os pais desejam ter um filho padronizado em vez de especial”. E, às vezes, acumulam preocupações excessivas. Foi também por isso que uma equipa de investigadores do Cintesis (Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde) se debruçou na criação de curvas de referência de crescimento fetal e peso à nascença — vulgarmente conhecidas por tabelas de percentis — adaptadas à realidade portuguesa.

O estudo, publicado no European Journal of Obstetrics & Gynecology, vem introduzir três novas curvas de referência: uma para meninos, outra para meninas e uma terceira indiferenciada para os dois géneros. Todas têm em conta as características das mulheres portuguesas. Os médicos de família e obstetras já podem descarregar gratuitamente uma aplicação (disponível apenas para Android) com esses valores. E há também uma outra possibilidade ainda mais personalizada (já lá vamos).

Estas tabelas de percentis são essenciais no acompanhamento das gravidezes. Permitem aos obstetras e médicos de família estimarem o tempo de gravidez, a data prevista do parto e diagnosticarem eventuais problemas de desenvolvimento dos fetos, nomeadamente restrição do crescimento fetal ou macrossomia fetal (excesso de peso). Esta diagnose permite identificar sintomas de doenças na gravidez como a diabetes, a pré-eclampsia, doenças metabólicas ou genéticas.

O problema, sublinha o também obstetra no Hospital de Guimarães Ricardo Santos, é que estas tabelas são excessivamente padronizadas: “Há uma busca por um padrão global que na minha opinião não existe”, disse em conversa telefónica com o PÚBLICO.

É muito fácil uma grávida obter valores que ficam fora da curva e isso “causa-lhe grandes transtornos” — quando muitas vezes nem é um problema. Ricardo Santos exemplifica: uma mulher com 1,90 metros que já vá na terceira gravidez terá sempre uma curva diferente de uma mulher de 1,55 metros, com 45 quilos e mãe pela primeira vez.

O uso das curvas de crescimento fetal é generalizado — e algo “sobrevalorizado”. Sobretudo tendo em conta as “deficiências” de algumas tabelas internacionais utilizadas. Se estas não reflectirem a distribuição da população e as suas características físicas e clínicas podem conduzir os profissionais médicos ao “sobre ou subdiagnóstico de algumas doenças”.

Para conseguir diagnósticos mais exactos — e ajudar a diminuir a angústia dos pais —, a equipa de investigadores do Cintesis recolheu dados de mais de 660 mil nascimentos ocorridos em 22 instituições portuguesas, seleccionando dados de 62 mil recém-nascidos.

A amostra revelou, por exemplo, que o peso médio de um bebé português à nascença pode variar em mais de 150 gramas quando comparado com um recém-nascido do Reino Unido, Irlanda, Nova Zelândia ou Estados Unidos da América. E, por outro lado, se aproxima muito do peso dos bebés espanhóis e franceses.

Há vários factores que influenciam o crescimento fetal: o género (os rapazes são, regra geral, maiores), a etnia, a herança genética, o peso e altura da mãe, as doenças da progenitora, bem como o número de filhos tidos anteriormente, o consumo de álcool ou tabaco (fumar diminui aproximadamente 5% o peso do bebé às nascença). Até a altitude do local onde a mulher vive pode ter influência.

Por isso, “ter curvas de percentis fidedignas é fundamental”, aponta: “Tem de ser algo matematicamente fiável.” Com este estudo, a equipa do Cintesis espera “disseminar a importância destas tabelas” ao mesmo tempo que “desmistifica” o seu uso. “Um percentil de 10 pode não ser preocupante. Tem apenas de pôr a pulga atrás da orelha, deixar os médicos mais vigilantes”, diz.

Depois das curvas clássicas, os investigadores portugueses desenvolveram ainda um software — este não está disponível gratuitamente — que permite aos médicos criarem curvas de percentis de peso fetal e à nascença personalizadas, introduzindo valores de referência de uma grávida em particular.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Development of a birthweight standard and comparison with currently used standards. What is a 10th centile?

 

 

A “neurose” dos percentis

Outubro 14, 2012 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro no Público de 7 de Outubro de 2012.

Ao contrário do que alguns pensam, crescer no percentil 10 não quer dizer que cresce apenas 10% do que se deve. As curvas de percentis são médias de medições rigorosas de milhares de crianças, em várias idades, que definem vários pontos.

Não se trata de um “filme” da evolução de várias crianças, mas mais de “fotografias paradas” de uma série de crianças, nascidas, portanto, com um intervalo de 18 anos, em que muita coisa acontece. Por outro lado, as curvas são elaboradas a partir de dados de populações que mudam com o tempo, sobretudo em países como o nosso, com rápida evolução socioeconómica. Acresce que, para elaborar uma tabela, é preciso milhares de medições, muito rigorosas, e, na minha opinião, atendendo ao que se espera das curvas, gastar uma enormidade para ter, por exemplo, uma curva “portuguesa”, que rapidamente se desactualizaria, parece-me um perfeito desperdício e uma inutilidade. Claro que isto não quer dizer que não se actualizem adaptando curvas de outros países que possam espelhar melhor a nossa realidade, não esquecendo, todavia, as grandes transformações que, por exemplo, os fenómenos migratórios vieram dar ao nosso país.

Daí ter que se dar aos percentis o seu devido lugar. Sendo um instrumento importante, não é correcto descer ao pormenor do “percentil 14 ou 15”. O que interessa é que uma criança tenha curvas equilibradas, quer na evolução com o tempo, quer entre as várias curvas (peso, estatura e perímetro cefálico), salvaguardando algumas acelerações e desacelerações dos primeiros doze meses, que podem ter a ver com o ajustamento do tamanho intra-uterino ao verdadeiro tamanho genético, bem como naturais discrepâncias de quem é leve ou pesado, “cabeçudo” ou não, mas tudo dentro da normal variação do ser humano.

A Maria estar na curva 25 dos percentis significa apenas que, dispondo cem crianças da mesma idade e sexo, por ordem, a Maria teria 75 mais pesadas e 24 mais leves. O Manel estar no percentil 90 de altura significará que tem apenas 10 à sua frente nessa disposição e 89 atrás. Apenas isto, tal e qual acontece à população geral.

O mesmo se passa com os outros parâmetros biológicos: tensão arterial, temperatura, etc. Qualquer fenómeno biológico pode ser medido em termos de percentis. É apenas isto.

O que interessa, pois, é saber o seguinte:

– os vários percentis do bebé estão mais ou menos em sintonia? Ou seja, especialmente o peso e a estatura estão equivalentes (embora possa haver pessoas mais pesadas sem serem gordas e pessoas mais leves sem serem magras)?;

– o bebé tem tido uma evolução regular, sem se desviar rapidamente em muitos degraus da escala? O cruzamento de curvas de percentis só tem significado se for muito rápido e apenas num parâmetro, ou se for muito grande. Caso contrário, pode ser apenas um “acerto”, de que se falará mais adiante;

– o percentil do bebé está acima do 95 ou abaixo do 5? Quando assim é, ainda estamos na normalidade, mas acima do 97 e abaixo do 3 (que as nossas curvas não contemplam) a probabilidade de poder existir uma doença é maior, embora ainda minoritária (mas, atenção, estamos a falar de probabilidade e não de certeza, e a maioria das crianças nessas faixas serão ainda completamente normais!).

Acertar percentis “para cima” significa que o bebé está a subir, de modo uniforme, nas várias curvas de percentis, provavelmente porque, por razões da sua estadia intra-uterina, terá nascido mais pequeno do que o seu real tamanho determinado pela genética. Embora represente a mesma coisa que acertar “para baixo”, causa menos problemas aos pais porque quando o objectivo é crescer, “decrescer” no que quer que seja, relacionado com o crescimento, é sempre fonte de preocupação e gera ansiedade, mesmo que o facto seja fisiológico e normal. Nem sempre o tamanho resultante da vida intra-uterina coincide, pois, com o tamanho real, e o acerto far-se-á nos primeiros meses de vida, podendo ir até ao ano, ano e meio.

 

Portugal vai adoptar novas curvas de crescimento para bebés e crianças

Outubro 13, 2012 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de Outubro de 2012.

Por Andrea Cunha Freitas

A “tabela dos percentis” que está em todos os boletins de saúde individuais vai mudar. O Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil prevê a adopção das curvas de crescimento propostas pela Organização Mundial de Saúde.

Os bebés nascidos em 2013 em Portugal vão receber uma nova versão dos boletins individuais de saúde. Entre outras alterações, o caderno azul ou cor-de-rosa será diferente nas páginas reservadas para as “tabelas de percentis” que servem de referência para monitorizar o desenvolvimento de bebés, crianças e adolescentes portugueses. A substituição das actuais curvas de crescimento pelos padrões defendidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) está prevista no Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil. Na prática, esta mudança vai fazer com que os valores expressos nestas tabelas de percentis traduzam um crescimento mais próximo do “ideal” e vai ainda permitir detectar com mais rigor algumas situações problemáticas, como os casos de obesidade.

A cada consulta, o pediatra ou médico de família vai assinalando num gráfico impresso no boletim individual de saúde a evolução do peso, do comprimento/altura e do perímetro cefálico da criança. Se, há alguns anos atrás, este era um espaço que só merecia a atenção dos médicos, hoje são muitos os pais que se ocupam e preocupam na análise desta curva de crescimento e com o percentil correspondente. De acordo com o novo Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil, elaborado pela Direcção-Geral de Saúde (DGS) e actualmente em revisão, estes gráficos e os valores que serviam de referência vão mudar.

A questão não é nova. Desde a publicação dos resultados do exaustivo trabalho da OMS, publicado em 2006, que vários especialistas defendem a adopção destes novos valores de referência. Em Agosto de 2011, de acordo com a DGS, 125 países em todo o mundo já usavam as curvas de crescimento da OMS. Portugal, que desde a década de 1970 usa outras tabelas, deverá juntar-se no próximo ano ao grupo de países que se guia pelas curvas da OMS.

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Actualmente, para monitorizar o estado de nutrição e crescimento das crianças e adolescentes, guiamo-nos pelos valores de referência propostos pelo Center for Disease Control and Prevention (CDC) e baseados num estudo que envolveu apenas crianças norte-americanas.

Além de estar limitado à análise da população de um país, este registo de padrões apoiou-se maioritariamente numa amostra de bebés alimentados com fórmulas lácteas. Desta forma, as curvas não reflectem de forma correcta o que pode acontecer quando estamos perante o cenário (recomendado) de um bebé alimentado exclusivamente com leite materno. E, segundo os especialistas, isso faz diferença.

Por essas e por outras, a OMS considerou as curvas de crescimento da CDC inadequadas e publicou uma nova versão destes valores de referência para o desenvolvimento infantil e juvenil. A versão da OMS é baseada num estudo realizado, entre 1997 e 2003, em diferentes continentes e que incluiu amostras selectivas de milhares de lactentes e crianças. Desta vez, o gráfico reflecte o resultado de um crescimento em “cenário ideal” que, entre muitos outros factores, como o acesso a cuidados de saúde adequados, passa também pelo aleitamento materno exclusivo durante os primeiros quatro/seis meses de vida.

O pediatra António Guerra, que fez parte do grupo de peritos consultados pela DGS, defende esta substituição há já vários anos. “As curvas de crescimento da OMS valorizam de modo mais correcto o estado de nutrição e outros factores que têm influência no desenvolvimento”, diz, acrescentando que as principais diferenças entre os valores de referência são sobretudo perceptíveis no primeiro ano de vida, uma altura “determinante” para a saúde futura do bebé.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria deixa um exemplo das diferenças que podemos encontrar entre as actuais e as futuras “tabelas de percentis”: de acordo com os especialistas, os bebés alimentados apenas com leite materno crescem mais nos primeiros quatro/seis meses, mas sofrem depois uma desaceleração do ritmo de crescimento. Essa “natural” desaceleração não está prevista nas curvas de crescimento do CDC, o que muitas vezes pode fazer com que se introduza suplementos como o leite artificial ou a papa na dieta do bebé. Um erro, de acordo com a opinião de muitos especialistas. As curvas da OMS prevêem já essa desaceleração “natural”. Por outro lado, António Guerra nota ainda que as curvas de crescimento da OMS vão também melhorar a detecção de situações de obesidade, que actualmente é um dos problemas mais preocupantes da saúde infantil e juvenil portuguesa.

Apesar de sublinhar a importância desta medida, António Guerra sabe que muitas vezes o percentil de uma criança é sobreavaliado e, pior do que isso, mal interpretado pelos pais. Não há um bom percentil e muito menos é verdade que, quanto mais alto o percentil, melhor. “Não importa se a criança tem o percentil 25, 50 ou 75. O importante é crescer a uma velocidade normal, em paralelo com as curvas de referência, e ter o peso e o comprimento a progredir de forma proporcionada e harmoniosa”, avisa o pediatra.

De acordo com Bárbara Menezes, da equipa da DGS que redigiu o novo programa, as mudanças previstas deverão ser implementadas até ao final do ano. Ou seja, os bebés nascidos em 2013 já terão novos boletins individuais de saúde. “Os actuais boletins serão mantidos e não serão substituídos, mas os profissionais de saúde terão acesso a toda a informação sobre as novas normas, nomeadamente nos sistemas informáticos”.

Além desta mudança nas curvas de crescimento, está também prevista a alteração na cronologia das consultas referentes a idades-chave da vigilância e um “novo enfoque nas questões relacionadas com o desenvolvimento infantil, as perturbações do comportamento e os maus tratos”. Sobre as consultas, o programa prevê a introdução de uma consulta “aos 5 anos, com o objectivo de avaliar a existência de competências para o início da aprendizagem, aos 6/7 anos, para detecção precoce de dificuldades específicas de aprendizagem, e aos 10 anos, para preparar o início da puberdade e a entrada para o 5.º ano de escolaridade”.


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