Cerca de 14% das crianças até aos 9 anos são expostas ao fumo do tabaco em casa

Agosto 26, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TVI24 de 1 de agosto de 2019.

Um novo estudo revela que as crianças cujos pais são fumadores e com menor nível de escolaridade estão mais expostas ao fumo ambiental do tabaco em casa.

Cerca de 14% das crianças portuguesas até aos 9 anos são expostas diariamente ou ocasionalmente ao fumo do tabaco em casa, percentagem que sobe para os 32,6% nos alunos do quarto ano de escolaridade.

O estudo sobre a “Prevalência de crianças portuguesas expostas ao fumo ambiental do tabaco em casa e no carro” revela que as crianças cujos pais são fumadores e com menor nível de escolaridade estão mais expostas ao fumo ambiental do tabaco em casa.

A investigação, que decorreu entre janeiro e setembro de 2016, é um estudo transversal descritivo que envolveu uma amostra representativa de 2.396 crianças portuguesas dos zero aos 9 anos, estratificada por idade e por região administrativa NUTS II.

Publicado na revista científica da Ordem dos Médicos “Ata Médica”, o estudo revela que 5,4% das crianças estão duplamente expostas ao fumo ambiental do tabaco em casa e no carro.

Segundo a investigação, 5,8% das crianças estão expostas ao fumo em casa diariamente e 8,5% ocasionalmente.

O estudo verificou que 6,1% das mães e 11,2% dos pais fumam no domicílio. Constatou também que 4,5% das mães e 8,3% dos pais fumam no carro.

A exposição das crianças ao fumo ambiental do tabaco tem diminuído em Portugal. Ainda assim, o consumo de tabaco dos pais e um baixo nível de escolaridade são fatores de risco para a exposição das crianças em casa”, sublinha.

De acordo com o estudo, a exposição ao fumo é maior nas crianças cujos pais têm um menor nível de escolaridade (19,6%) do que naquelas em que os pais têm mais estudos (6,2%).

Essas diferenças foram estatisticamente significativas na amostra total e na maioria das regiões avaliadas (Norte, Centro, Área Metropolitana de Lisboa, Algarve, Região autónoma dos Açores).

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Prevalência de Crianças Portuguesas Expostas ao Fumo Ambiental do Tabaco em Casa e no Carro

Publicidade está a promover produtos perigosos para as crianças

Março 28, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Lifestyle Sapo  de 14 de março de 2019.

Jovens e crianças estão cada vez mais expostos a produtos nefastos para a saúde através das redes sociais devido à falta de regulamentação da publicidade digital, alerta hoje um relatório da divisão europeia da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Apesar das políticas e compromissos existentes para limitar a promoção de produtos nocivos à saúde junto de menores, como bebidas com alto teor de gordura, açúcar e sal, bebidas alcoólicas ou tabaco, incluindo novos produtos como cigarros eletrónicos, a OMS Europa considera existirem provas de que as crianças continuam expostas a este tipo de produtos através dos canais digitais.

O documento, intitulado “Supervisão e restrição do marketing digital de produtos nocivos para crianças”, defende uma maior monitorização da publicidade digital deste tipo de produtos pelos países, mas também pelos pais das crianças.

Os autores do relatório acreditam que o controlo da publicidade digital de alimentos nocivos dirigida a crianças e jovens pode ser fundamental para reduzir o impacto negativo de problemas de saúde como doenças cardíacas, cancro, obesidade e doenças respiratórias crónicas, que representam 86% das mortes e 77% dos encargos com cuidados de saúda na Europa.

O relatório é o resultado de uma reunião com especialistas feita em junho em Moscovo, sendo o português João Breda o coordenador da direção para a prevenção e controlo de doenças crónicas não transmissíveis da OMS da Europa, que abrange 53 países, incluindo Portugal.

A reunião quis discutir os desafios da publicidade digital de produtos nocivos para a saúde tendo presente que as crianças passam cada vez mais tempo na Internet, nomeadamente em plataformas e redes sociais como Instagram, Facebook, YouTube ou Snapchat, e que a exposição à publicidade digital aumentou.

Algumas organizações, como agências de publicidade, estão a usar técnicas sofisticadas, aproveitando que o uso crescente de telemóveis e redes sociais permitem a transmissão de mensagens personalizadas e direcionadas e “cada vez mais persuasivas”, referem os autores.

Os especialistas concluíram também que “as estratégias de regulação e auto regulação que existam para a televisão e outros meios de comunicação social tradicionais estão obsoletas”, afirmou Breda à Lusa, após a apresentação do estudo em Londres.

Uma consequência foi o desenvolvimento de uma ferramenta chamada CLICK para monitorizar a exposição das crianças à publicidade digital, que será testada inicialmente por alguns países, e cujos resultados deverão ser divulgados no final do ano.

“É necessária uma atitude mais musculada por partes das entidades públicas, mas os países não podem trabalhar sozinhos, por isso queremos desenvolver ferramentas e estratégias comuns”, afirmou João Breda.

O relatório citado na notícia “Monitoring and restricting the digital marketing of unhealthy products to children and adolescents” pode ser descarregado no link:

http://www.euro.who.int/en/health-topics/disease-prevention/nutrition/news/news/2019/3/new-who-study-shows-more-action-needed-to-monitor-and-limit-digital-marketing-of-unhealthy-products-to-children

 

Estudo diz que fumar durante a gravidez aumenta para o dobro o risco de morte súbita do bebé

Março 25, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Vladimir Godnik / Getty Images

Notícia da Visão de 12 de março de 2019.

Um estudo, resultante de uma colaboração entre o Instituto de Investigação Infantil de Seattle e cientistas de dados da Microsoft, chegou à conclusão que fumar antes ou durante a gravidez contribui para o aumento do risco da morte da criança antes do seu primeiro aniversário.

A investigação, publicada esta segunda feira na revista Pediatrics, analisou, com base em dados fornecidos pelo Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, mais de 20 milhões de nascimentos e mais de 19 mil mortes inesperadas de bebés, acontecidas durante 2007 e 2011, e descobriu que o risco de morte aumenta por cada cigarro fumado. O estudo concluiu que depois de fumar um maço de tabaco, o risco de morte inesperada triplica em relação aos recém-nascidos de mães não-fumadoras.

“Todos os cigarros contam”, resume Tatiana Anderson, líder do estudo, e neurocientista no Instituto de Investigação Infantil de Seattle. “Os médicos deviam ter estas conversas com os seus pacientes e avisá-los: “Devia parar [de fumar]. Essa é a melhor maneira de diminuir a probabilidade de morte súbita do recém-nascido. Se não conseguir [parar], cada cigarro que reduzir vai ajudar.”

“Um dos pontos mais importantes que eu retiraria deste estudo é que apenas fumar um ou dois cigarros aumenta o risco de morte súbita infantil”, salienta também o pneumologista Cedric Rutland, porta voz da Associação Americana de Pneumonologia.

A síndrome da morte súbita infantil, conhecido como SMSI, continuou a aterrorizar os pais, mesmo depois de se descobrir a ligação entre a posição de dormir do bebé e a sua ocorrência. Depois de uma campanha de sensibilização dos pais para a importância de deitar os bebés de costas, nos EUA, em 1994, esta taxa de óbitos diminuiu para cerca de 50 por cento.

Contudo, apesar da descida, os cientistas identificaram duas outras causas: a sufocação acidental e uma outra ainda mal definida. A resposta para esta terceira causa chegou num estudo publicado em 2006, que mostrava uma ligação direta entre as mortes dos recém-nascidos e as mães fumadoras.

Segundo um estudo do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, 23% a 34% dos casos de SMSI estão relacionadas com o tabagismo pré-natal. Os riscos das crianças que nascem de mães fumadoras são bastante altos, sendo que nesta mesma investigação está comprovada uma ligação entre as progenitoras que fumaram durante a gravidez e crianças que sofrem de asma, cólicas e obesidade. O próprio fumo passivo é perigoso para o desenvolvimento do feto e contribui até 20% para o risco da criança nascer abaixo do peso recomendado.

Muitos investigadores tem trabalhado para descobrir até que ponto é que fumar contribui para o SMSI, mas a teoria que prevalece é que fumar aumenta os níveis de serotonina, um neurotransmissor que é “conhecido pela sua influência na sensibilidade à dor, no comportamento exploratório, na atividade locomotora e nos comportamentosde agressivos e de ordem sexual”. Em algumas crianças, é possivel que a serotonina afete a capacidade do tronco cerebral regular o sistema respiratório durante o sono.

“Isto pode, provavelmente, levar as crianças a parar de respirar durante a noite”, explica Rutland, que também é professor clínico assistente da medicina interna da universidade californiana Escola de Medicina UC Riverside.

Apesar da descida significativa no números de fumadores nos EUA, nos últimos anos, Anderson afirma que estatísticas mostram que pelo menos 338 mil mulheres por ano continuam a fumar durante a gravidez. Contudo, a líder do estudo afirma que apesar de grande parte das grávidas saber que não devia fumar, muitas não mostram vontade ou não conseguem parar e “negam que fumam ou dizem que fumam menos do que aquilo que fumam na realidade.”

“Elas não reduzem ou param de fumar. Continuam a fumar ao mesmo ritmo durante toda a gravidez.” Se não fumassem, segundo o modelo computacional deste estudo, é estimado que pelo menos 800 mortes podiam ser evitadas durante a gravidez.

“A mensagem a reter”, recorda Anderson, “é que as mulheres fumadoras que estão a planear engravidar deviam parar de fumar muito antes de começar a tentar.”

Esta nova investigação foi a primeira a ser feita em conjunto com os cientistas de dados da Microsoft, depois de John Kahan, líder da análises de dados de clientes da Microsoft ter perdido o seu filho. Dias depois da morte, em 2003, criou o projeto Aaron Matthew SIDS Research Guild.

A sua equipa tem utilizado os dados disponíveis sobre a morte de recém-nascidos para descobrir uma maneira de salvar crianças como o filho de John Kahan.

Juan Lavista, ex-membro da equipa de Kahan e que agora é diretor sénior de dados científicos no laboratório de investigação AI for Humanitarian Action, criado pelo presidente da Microsoft, Brad Smith, tem como objetivo utilizar a inteligência artificial para ajudar a lidar com alguns dos problemas mais complexos da humanidade e tem permitido a Lavista trabalhar em projetos como o estudo da SMSI a tempo inteiro.

“O mundo tem muitos problemas e acreditamos que podemos fazer a diferença com a inteligência artificial”, afirma Juan Lavista.

Os cientistas que trabalharam juntos neste estudo não pretendem ficar por aqui, sendo que tem como intenção investigar outros problemas relacionados com a síndrome, desde o impacto dos cuidados pré-natais, à relação que a idade de recém-nascido tem com a sua morte súbita e examinar como é que a SMSI acontece nos 50 estados norte-americanos.

 

 

 

Proibido fumar nos parques infantis. As crianças vêem, as crianças fazem

Dezembro 6, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site saúde online

No dia 1 de janeiro de 2018, entrou em vigor em Portugal a Lei n.º 63/2017 (que procede à segunda alteração à Lei n.º 37/2007, de 14 de agosto), que aprova, entre outros aspetos, o alargamento da proibição de fumar a locais ao ar livre destinados a menores. Atualmente a lei refere no artigo 4.º, alínea f), que é proibido fumar:

“(…) nos locais destinados a menores de 18 anos, nomeadamente infantários, creches e outros estabelecimentos de assistência infantil, lares de infância e juventude, centros de ocupação de tempos livres, colónias e campos de férias, parques infantis, e demais estabelecimentos similares.”

Com o objetivo de descrever o consumo de tabaco nos parques infantis, e de alguma forma dar um contributo para a avaliação do cumprimento da lei, foi realizado em abril e maio de 2018 um estudo observacional em dezoito parques infantis da cidade de Braga, utilizando uma ficha de observação desenvolvida pelo grupo de investigação liderado por Maria José Lopéz, da Agência de Salud Pública de Barcelona, Espanha.

As observações foram realizadas em condições meteorológicas semelhantes. Em cada parque infantil foram registados os seguintes dados: a presença de sinalética (cartazes/dísticos) a informar/apelar ao não consumo de tabaco; o número total de adultos e crianças presentes; o número de pessoas que fumavam, dentro e fora do parque; o número de pessoas que fumavam cigarro eletrónico, dentro e fora do parque; o cheiro a fumo; a presença de cinzeiros; e o número de beatas no chão, dentro e fora do parque.

Verificou-se que:

  • Em nenhum parque se registou a presença de sinalética (cartazes/dísticos) a informar/apelar ao não consumo de tabaco. A lei obriga à sua colocação.
  • Uma média de 10 pessoas estavam presentes nos parques referidos na amostra.
  • Uma média de 5 crianças estavam presentes nos parques referidas na amostra.
  • Em 1 dos 18 parques havia adultos a fumar dentro do parque. A média de pessoas a fumar nos parques foi de 2.
  • Em nenhum dos 18 parques havia adultos a fumar fora do parque.
  • Em nenhum parque se observou pessoas a fumar cigarro eletrónico.
  • Em nenhum dos 18 parques havia cheiro a fumo.
  • Em 9 dos 18 locais observados havia cinzeiro.
  • Verifica-se que 17 dos 18 parques tinham, no interior, pontas de cigarro no chão (uma média de 8 pontas de cigarros com um intervalo de 0 a >20). Em 2 parques havia mais de 20 pontas de cigarros no chão.
  • Treze dos 18 parques tinham, no exterior, pontas de cigarro no chão (uma média de 10 pontas de cigarros com um intervalo de 0 a >20). Em 9 parques havia mais de 20 pontas de cigarros no exterior do parque.

Este foi o primeiro estudo realizado em Portugal a investigar o comportamento de fumar em parques infantis. Na maioria dos parques não foram observados adultos a fumar durante o período de observação. No entanto, verificou-se uma grande quantidade de beatas no chão, o que indica que este comportamento, embora possa não ser frequente, existe.

O comportamento tabágico dos pares e dos conviventes (pais e irmãos) modela as atitudes e as crenças normativas das crianças em relação ao tabagismo e é um fator preditor muito importante do comportamento tabágico dos jovens (Precioso, Macedo & Rebelo, 2007). O consumo de tabaco pelos pais em casa é um fator de risco para o consumo de tabaco dos filhos (Brown, Palmersheim & Glysch, 2008), apelando ao facto de que o que as crianças vêem, as crianças fazem, alertando para a importância de evitar fumar na sua presença.

De forma a promover a sensibilização e cumprimento da legislação que proíbe o consumo de tabaco em parques infantis (Lei n.º 63/2017, de 3 de agosto), é obrigatório que sejam colocados avisos/dísticos que informem de que é proibido fumar naqueles espaços públicos. É fundamental que as autoridades policiais, como a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Guarda Nacional Republicana (GNR), enquanto entidades responsáveis pelo cumprimento da lei, façam o seu papel e que a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), que tutela a fiscalização das normas de segurança e legislação em vigor nos parques infantis (como a colocação de dísticos alusivos à proibição de fumar e informação das respetivas coimas), também intervenha. Devem em primeiro lugar exercer uma ação pedagógica e depois punitiva. Lembramos que as coimas por incumprimento, ou seja, por fumar num parque infantil, ou noutro local proibido, variam entre 50€ e 750€.

José Precioso

Professor Auxiliar do Instituto de Educação da Universidade do Minho

Nicotina pode aumentar risco de morte súbita dos bebés

Outubro 17, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Sapo Life Style de 4 de outubro de 2018.

Usar qualquer forma de nicotina durante a gravidez ou amamentação pode elevar o risco de um bebé sofrer da síndrome de morte súbita, sugere um novo estudo publicado no Journal of Physiology e citado no site Healthy Women.
Os resultados indicam que os pensos de nicotina ou cigarros eletrónicos podem não ser uma alternativa segura aos cigarros clássicos durante a gravidez.
A síndrome de morte súbita dos bebés é uma tragédia longe de estar esclarecida. “Ainda não compreendemos completamente as causas, mas esta pesquisa é importante porque ajuda as mães a reduzirem os riscos”, afirma Stella Lee investigadora da Escola de Medicina Dartmouth Geisel, em Hanover.
Algumas mulheres que querem deixar de fumar durante a gravidez mudam para adesivos de nicotina ou cigarros eletrónicos, mas o impacto sobre o risco de um bebé ter SMSL tem sido pouco claro.
Em experiências com ratos, os investigadores descobriram que expor as mães à nicotina atrasa a resposta automática à chamada auto ressuscitação, que consiste na capacidade de o bebé recuperar a frequência cardíaca normal e a respiração após ficar ofegante por falta de oxigénio.
Os resultados de estudos em animais não são frequentemente replicados em humanos. Ainda assim, “vamos continuar a identificar os possíveis fatores de risco e a ponderar como podemos tratar os bebés que têm um mecanismo de auto ressuscitação comprometido”, afirmou a coautora do estudo.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Pre‐ and early postnatal nicotine exposure exacerbates autoresuscitation failure in serotonin‐deficient rat neonates

 

 

A Islândia sabe como acabar com as drogas entre adolescentes, mas o resto do mundo não escuta

Outubro 22, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do https://brasil.elpais.com/ de 8 de outubro de 2017.

 

Falta pouco para as 15h de uma ensolarada tarde de sexta-feira, e o parque de Laugardalur, perto do centro de Reykjavik, está praticamente deserto. De vez em quando, um adulto passa empurrando um carrinho de bebê. Mas, se os jardins estão rodeados de casas e edifícios residenciais, e os meninos já saíram do colégio, onde estão as crianças?

Sou acompanhada em meu passeio por Gudberg Jónsson, um psicólogo islandês, e Harvey Milkman, professor de psicologia norte-americano que leciona na Universidade de Reykjavik durante uma parte do curso. Há 20 anos, conta Gudberg, os adolescentes islandeses estavam entre os que mais bebiam na Europa. “Nas noites de sexta, você não podia andar pelas ruas do centro de Reykjavik porque não se sentia seguro”, diz Milkman. “Havia uma multidão de adolescentes se embebedando diante de todos.” Chegamos perto de um grande edifício. “E aqui temos a pista de patinagem coberta”, informa Gudberg.

Minutos atrás, passamos por duas salas onde se joga badminton e tênis de mesa. No parque também há uma pista de atletismo, uma piscina com aquecimento geotérmico e, finalmente, um grupo de crianças jogando futebol com entusiasmo sobre grama sintética.

Não há jovens passando a tarde no parque neste momento, explica Gudberg, porque eles se encontram nas instalações fazendo atividades extra-escolares ou em clubes de música, dança e arte. Talvez também tenham saído com os pais.

A Islândia ocupa hoje o primeiro lugar no ranking europeu sobre adolescentes com um estilo de vida saudável. A taxa de meninos de 15 e 16 anos que consumiram grande quantidade de álcool no último mês caiu de 42% em 1998 para 5% em 2016. Já o índice dos que haviam consumido cannabis alguma vez passou de 17% para 7%, e o de fumantes diários de cigarro despencou de 23% para apenas 3%.

O país conseguiu mudar a tendência por uma via ao mesmo tempo radical e empírica, mas se baseou, em grande medida, no que se poderia denominar de “senso comum forçado”. “É o estudo mais extraordinariamente intenso e profundo que já vi sobre o estresse na vida dos adolescentes”, elogia Milkman. “Estou muito bem impressionado com seu funcionamento.” Se fosse adotado em outros países, diz ele, o modelo islandês poderia ser benéfico para o bem-estar psicológico e físico geral de milhões de jovens. Isso sem falar dos orçamentos dos organismos de saúde e da sociedade como um todo. Um argumento que não pode ser ignorado.

“Estive no olho do furacão da revolução das drogas”, diz Milkman, enquanto tomamos um chá em seu apartamento em Reykjavik. No início dos anos setenta, quando trabalhava como residente no Hospital Psiquiátrico Bellevue de Nova York, “o LSD já estava na moda, e muita gente fumava maconha. Havia um grande interesse em saber por que as pessoas consumiam certas drogas.”

Em sua tese de doutorado, Milkman concluiu que as pessoas escolhiam a heroína ou as anfetaminas dependendo de como queriam lidar com o estresse. Os consumidores de heroína preferiam se insensibilizar, enquanto os usuários de anfetaminas optavam por enfrentar o estresse ativamente. Quando o trabalho foi publicado, Milkman entrou para um grupo de pesquisadores recrutados pelo Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA para que respondessem a determinadas perguntas. Entre elas, por que as pessoas começam a consumir drogas, por que continuam consumindo, quando atingem o limite do abuso, quando deixam de consumi-las e quando têm recaída. “Qualquer aluno da faculdade poderia responder à pergunta sobre por que começa: é que as drogas são fáceis de conseguir e os jovens gostam de riscos. Também é preciso levar em conta o isolamento e talvez a depressão”, afirma. “Mas, por que continuam consumindo? Por isso, passei à pergunta sobre o limite do abuso… e me iluminei. Vivi minha própria versão do ‘eureka!’. Os garotos podiam estar à beira da dependência inclusive antes de tomar a droga, pois o vício estava na maneira como enfrentavam seus problemas.”

Na Universidade Estatal Metropolitana de Denver, Milkman foi fundamental para o desenvolvimento da ideia de que a origem dos vícios estava na química cerebral. Os menores “combativos” procuravam ter “sensações intensas” e podiam consegui-las roubando calotas de carro, rádios e depois os próprios carros – ou através das drogas estimulantes. Claro que o álcool também altera a química cerebral. É um sedativo, mas primeiro seda o controle do cérebro, o que por sua vez pode suprimir as inibições e, em doses limitadas, reduzir a ansiedade.

“As pessoas podem se tornar dependentes de bebida, carro, dinheiro, sexo, calorias, cocaína… de qualquer coisa”, diz Milkman. “A ideia da dependência comportamental se transformou no traço que nos caracteriza.”

Dessa ideia nasceu outra. “Por que não organizar um movimento social baseado na embriaguez natural, em que as pessoas ‘sintam barato’ com a química de seu cérebro – porque me parece evidente que as pessoas desejam mudar seu estado de consciência – sem os efeitos prejudiciais das drogas?”

Em 1992, sua equipe de Denver obteve uma subvenção de 1,2 milhão de dólares (3,7 milhões de reais) do Governo para criar o Projeto Autodescoberta, que oferecia aos adolescentes maneiras naturais de se embriagar, alternativas aos entorpecentes e ao crime. Os cientistas pediram aos professores, assim como às enfermeiras e aos terapeutas de centros escolares, que lhes enviassem alunos. E incluíram no estudo meninos de 14 anos que não achavam que precisavam de tratamento, mas que tinham problemas com as drogas ou com crimes leves.

“Não lhes contamos que vinham para uma terapia, e sim que lhes ensinaríamos algo que quisessem aprender: música, arte, dança, hip hop ou artes marciais”, explica. A ideia era que as diferentes aulas pudessem provocar uma série de alterações em sua química cerebral e lhes proporcionassem o que necessitavam para enfrentar melhor a vida. Enquanto alguns talvez desejassem uma experiência para ajudar a reduzir a ansiedade, outros poderiam estar em busca de emoções fortes.

Ao mesmo tempo, os participantes receberam formação em capacidades para a vida, centrada em melhorar suas ideias sobre si mesmos, sua existência e sua maneira de interagir com os demais. “O princípio básico era que a educação sobre as drogas não funciona porque ninguém dá atenção a ela. Precisamos de capacidades básicas para levar essas informações à prática”, afirma Milkman. A equipe disse aos adolescentes que o programa duraria três meses. Alguns ficaram cinco anos.

Em 1991, Milkman foi convidado para falar sobre seu trabalho, suas descobertas e suas ideias na Islândia. Tornou-se assessor do primeiro centro residencial de tratamento de dependência de drogas para adolescentes do país, situado na cidade de Tindar. “A ideia [do centro] era oferecer aos meninos coisas melhores para fazer”, explica. Lá conheceu Gudberg, que na época estudava Psicologia e trabalhava como voluntário. Desde então, os dois são amigos íntimos.

No início, Milkman viajava regularmente à Islândia para dar conferências. Suas palestras e o centro de Tindar atraíram a atenção de Inga Dóra Sigfúsdóttir, uma jovem pesquisadora da Universidade da Islândia. Ela se perguntava o que aconteceria se fosse possível utilizar alternativas saudáveis às drogas e ao álcool dentro de um programa que não tivesse o objetivo de tratar jovens com problemas, mas, sobretudo, de conseguir que eles deixassem de beber e consumir drogas.

Você já experimentou álcool? Se a resposta for afirmativa, quando foi a última vez que bebeu? Ficou bêbado em alguma ocasião? Consumiu tabaco? Se sim, quanto você fuma? Quanto tempo passa com os seus pais? Tem uma relação estreita com eles? De que tipo de atividade você participa?

Em 1992, os meninos e meninas de 14, 15 e 16 anos de todos os centros de ensino da Islândia preencheram um questionário com perguntas como essas. O processo foi repetido em 1997 e 1997.

Os resultados da pesquisa foram alarmantes. Em todo o país, quase 25% dos jovens fumavam diariamente, e mais de 40% havia se embriagado no mês anterior. Mas quando a equipe se aprofundou nos dados, identificou com precisão quais centros tinham mais problemas e quais tinham menos. A análise expôs as claras diferenças entre as vidas dos garotos que bebiam, fumavam e consumiam outras drogas e as vidas daqueles que não utilizavam essas substâncias. Também revelou que havia diversos fatores com um efeito decididamente protetor: a participação, três ou quarto vezes por semana, em atividades organizadas – sobretudo esportivas; o tempo que passavam com os pais durante a semana; a sensação de que os professores do colégio se preocupavam com eles; e não sair de noite.

“Naquela época, houve inúmeras iniciativas e programas para a prevenção do consumo de drogas”, diz Inga Dóra, que foi pesquisadora ajudante nas pesquisas. “A maioria se baseava na educação.” As campanhas alertavam os meninos sobre os perigos da bebida e das drogas, mas, como Milkman observara nos EUA, os programas não davam resultado. “Queríamos propor um enfoque diferente.”

O prefeito de Reykjavik também estava interessado em testar algo novo, e muitos pais compartilhavam seu interesse, conta Jón Sigfússon, colega e irmão de Inga Dóra. As filhas de Jón eram pequenas na época, e ele entrou para o Centro Islandês de Pesquisa e Análise Social de Sigfúsdóttir em 1999, ano de sua fundação. “A situação estava ruim”, recorda. “Era evidente que precisávamos fazer alguma coisa.”

A partir dos dados da pesquisa e dos conhecimentos proporcionados por diversos estudos, entre eles o de Milkman, aos poucos foi introduzido um novo plano nacional, que recebeu o nome de Juventude na Islândia.

As leis mudaram. Penalizou-se a compra de tabaco por menores de 18 anos e a de álcool por menores de 20. Proibiu-se a publicidade das duas substâncias. Reforçaram-se os vínculos entre os pais e os centros de ensino, mediante organizações de mães e pais, que deviam ser criadas por lei em todos os centros, juntamente com conselhos escolares com representação dos pais. A estes também foi pedido que comparecessem às palestras sobre a importância de passar muito tempo com os filhos, em vez de dedicar a eles “tempo de qualidade” esporadicamente, assim como falar com eles de suas vidas, conhecer suas amizades e ressaltar a importância de ficar em casa de noite. Além disso, foi aprovada uma lei que proibia que os adolescentes de 13 a 16 anos saíssem depois das 22h no inverno e da meia-noite no verão. A norma continua vigente.

Casa e Escola, a entidade nacional que agrupa as organizações de mães e pais, estabeleceu acordos que os pais tinham de assinar. O conteúdo varia dependendo da faixa etária, e cada organização pode decidir o que deseja incluir. Para os meninos a partir de 13 anos, os responsáveis podem se comprometer a cumprir todas as recomendações e, por exemplo, a não permitir que seus filhos realizem festas sem a sua supervisão, a não comprar bebida alcoólica aos menores de idade e a estar atentos ao bem-estar dos garotos.

Esses acordos sensibilizam os pais e ajudam a reforçar sua autoridade em casa, afirma Hrefna Sigurjónsdóttir, diretora da Casa e Escola. “Desse modo, fica mais difícil para eles utilizar a velha desculpa de que os demais [garotos] têm permissão para fazer essas coisas.”

Também aumentou o financiamento estatal para clubes esportivos, musicais, artísticos, de dança e outras atividades para oferecer aos garotos maneiras alternativas de se sentirem bem fazendo parte de um grupo, sem terem que consumir álcool e drogas. Os filhos de famílias de baixa renda receberam ajuda para participar das atividades. Em Reykjavik, onde mora um terço da população do país, o chamado Cartão do Lazer dá direito a 35.000 coroas (cerca de 1.030 reais) anuais por filho para custear atividades recreativas.

Um fator decisivo é a continuidade das pesquisas. A cada ano, quase todos os garotos islandeses as preenchem. Isso significa que sempre há dados novos e confiáveis.

Entre 1997 e 2012, duplicou a proporção de adolescentes de 15 e 16 anos que declararam que “com frequência ou quase sempre” passavam tempo com os pais no fim de semana – a cifra passou de 23% para 46%. Já a dos que participavam de atividades esportivas organizadas pelo menos quatro vezes por semana subiu de 24% para 42%. Ao mesmo tempo, o consumo de cigarros, álcool e maconha nessa mesma faixa etária caiu drasticamente. “Embora não possamos apresentar esse fenômeno como uma relação causal – o que é um bom exemplo de por que às vezes é difícil vender aos cientistas os métodos de prevenção primária –, a tendência é muito clara”, observa

Kristjánsson, que trabalhou com os dados e hoje integra a Escola Universitária de Saúde Pública da Virgínia Ocidental, nos EUA. Os fatores de proteção aumentaram e os de risco diminuíram – assim como o consumo de entorpecentes. Além disso, na Islândia essas variações ocorreram de modo mais coerente que em qualquer outro país da Europa.”

O caso europeu

Jón Sigfússon pede desculpa por chegar alguns minutos atrasado. “Recebi um telefonema por uma situação de crise.” Prefere não dizer onde, mas era uma entre as várias cidades do mundo inteiro que adotaram parcialmente as ideias do programa Juventude na Islândia.

O Juventude na Europa, dirigido por Jón, nasceu em 2006 após a apresentação dos já então extraordinários dados da Islândia numa das reuniões do Cidades Europeias contra as Drogas. “As pessoas nos perguntavam como conseguíamos”, recorda Sigfússon.

A participação no Juventude na Europa não se dá por iniciativa dos Governos nacionais; corresponde às Prefeituras. Oito municípios aderiram ao plano no primeiro ano. Hoje participam 35 cidades de 17 países. Em algumas, poucas escolas estão envolvidas; em outras, como Tarragona (Espanha), há 4.200 adolescentes de 15 anos engajados. O método é sempre igual. Jón e sua equipe falam com as autoridades locais e elaboram um questionário com as mesmas perguntas fundamentais utilizadas na Islândia, além de outras adaptadas ao lugar. Algumas cidades, por exemplo, têm registrado casos de problemas graves com as apostas pela internet, e as autoridades querem saber se isso está relacionado com outros comportamentos de risco.

Dois meses após a devolução do questionário à Islândia, a equipe já manda um relatório preliminar com os resultados, além de informações comparando-os com os de outras zonas participantes. “Sempre dizemos que, assim como as verduras, as informações têm que ser frescas”, brinca Jón. “Se você entregar os resultados depois de um ano, as pessoas te dirão que passou muito tempo e que as coisas talvez tenham mudado.” Além disso, os dados têm que ser locais para que os centros de ensino, os pais e as autoridades possam saber exatamente que problemas existem em quais regiões.

A equipe analisou 99.000 questionários de lugares tão distantes entre si como as ilhas Feroé, Malta e Romênia, assim como a Coreia do Sul e, mais recentemente, Nairóbi e Guiné-Bissau. Em linhas gerais, os resultados mostram que, no que se refere ao consumo de substâncias tóxicas entre os adolescentes, os mesmos fatores de proteção e de risco identificados na Islândia são válidos em todos os lugares. Mas há algumas diferenças. Em um lugar (um país “do Báltico”), a participação em esportes organizados foi um fator de risco. Uma pesquisa mais profunda revelou que isso acontecia porque os clubes eram dirigidos por jovens ex-militares viciados em anabolizantes, assim como em bebidas e cigarro. Neste caso, portanto, tratava-se de um problema concreto, imediato e local que deveria ser resolvido.

Jón e sua equipe oferecem assessoria e informações sobre as iniciativas que deram bons resultados na Islândia, mas cada comunidade decide o que fazer com base nos resultados. Algumas vezes, não fazem nada. Um país predominantemente muçulmano, que o pesquisador prefere não mencionar, rechaçou os dados porque revelavam um desagradável nível de consumo de álcool. Em outras cidades – como a que originou o telefonema de “crise” de Jón – estão abertas aos dados e têm dinheiro, mas Sigfússon observou que pode ser muito mais difícil assegurar e manter financiamento para as estratégias de prevenção de saúde do que para os tratamentos.

Nenhum outro país fez mudanças tão amplas quanto as da Islândia. Algum deles seguiu o exemplo da legislação para impedir que os adolescentes saiam de noite? Jón sorrie: “Até a Suécia ri dessa medida, chamando-a de ‘Toque de recolher’ infantil.”

Ao longo dos últimos 20 anos, as taxas de consumo de álcool e drogas entre os adolescentes melhorou em termos gerais, embora em nenhum lugar isso tenha acontecido de forma tão radical quanto na Islândia. E as causas dos avanços nem sempre têm a ver com as estratégias de fomento ao bem-estar dos jovens. No Reino Unido, por exemplo, o fato de eles passarem mais tempo em casa relacionando-se pela Internet, em vez de cara a cara, poderia ser um dos principais motivos da redução do consumo de álcool.

Mas Kaunas, na Lituânia, é um exemplo do que se pode conseguir por meio da intervenção ativa. Desde 2006, a cidade distribuiu os questionários em cinco ocasiões. E as escolas, pais, agências de saúde, igrejas, polícia e serviços sociais reuniram esforços para tentar melhorar a qualidade de vida dos meninos e frear o consumo de substâncias tóxicas. Por exemplo, os pais recebem entre oito e nove sessões gratuitas de orientação parental por ano. Um programa novo facilita um financiamento adicional às instituições públicas e ONGs que trabalham pela melhora da saúde mental e a gestão do estresse. Em 2015, a cidade começou a oferecer atividades esportivas gratuitas nas segundas, quartas e sextas-feiras. Agora planeja implementar um serviço de transporte também grátis para as famílias de baixa renda, a fim de contribuir para que os meninos que vivem longe dos estabelecimentos possam participar.

Entre 2006 e 2014, o número de jovens de 15 e 16 anos de Kaunas que declararam ter se embriagado nos 30 dias anteriores caiu cerca de 25%, e os dos que fumavam diariamente foi reduzido em mais de 30%.

No momento, a participação no Juventude na Europa não é sistemática, e a equipe da Islândia é pequena. Jón gostaria que existisse um organismo centralizado com seus próprios fundos específicos para promover a expansão do plano. “Embora nos dediquemos a isso há 10 anos, não é nossa principal ocupação. Gostaríamos que alguém imitasse e mantivesse a iniciativa em toda a Europa”, afirma. “E por que ficar restritos à Europa?”

Depois de nosso passeio pelo parque Laugardalur, Gudberg Jónsson nos convida a voltar para sua casa. Do lado de fora, no jardim, seus dois filhos mais velhos – Jón Konrád, de 21 anos, e Birgir Ísar, de 15 –, falam comigo sobre álcool e cigarro. Jón bebe álcool, mas Birgir diz não conhecer ninguém em seu colégio que beba ou fume. Também falamos das aulas de futebol. Birgir treina cinco ou seis vezes por semana; Jón, que cursa o primeiro ano de Administração de Empresas na Universidade da Islândia, pratica cinco vezes. Os dois começaram a jogar bola como atividade extra-escolar quando tinham seis anos. “Temos muitos instrumentos em casa”, diz o pai. “Tentamos fazer com que gostassem de música. Antes tínhamos um cavalo. Minha mulher adora montar, mas não deu certo. No final, escolheram o futebol.” Alguma vez acharam que o treino era excessivo? Foi preciso pressioná-los para que treinassem quando teriam preferido fazer outra coisa? “Não, a gente se divertia jogando futebol”, responde Birgir. Jón completa: “Começamos a jogar e nos acostumamos, então continuamos jogando.”

Embora Gudberg e a esposa não planejem de forma consciente um determinado número de horas semanais com seus três filhos, tentam levá-los regularmente cinemas, teatros, restaurantes, trilhas pelas montanhas e pesca. Em setembro, quando na Islândia as ovelhas descem das terras altas, fazem até excursões de pastoreio em família.

Pode ser que Jón e Birgir gostem mais de jogar futebol que as pessoas em geral, e que tenham mais talento (Jón recebeu oferta de uma bolsa de futebol na Universidade Metropolitana do Estado de Denver e, poucas semanas depois de nosso encontro, Birgir foi convocado para a seleção nacional sub-17). No entanto, será que um aumento significativo da porcentagem de jovens que participam de atividades esportivas pelo menos quatro vezes por semana teria outras vantagens, além de fazer os meninos crescerem mais saudáveis?

Isso pode ter relação, por exemplo, com a contundente derrota da Inglaterra para a Islândia na Eurocopa de 2016? Quando fazemos essa pergunta a Inga Dóra Sigfúsdóttir, eleita Mulher do Ano da Islândia 2016, ela responde com um sorriso: “Também podemos citar os sucessos na música, como o Of Monsters and Men [grupo independente de folk-pop de Reykjavik]. São jovens que decidiram fazer atividades organizadas. Algumas pessoas me agradeceram”, reconhece, piscando um olho.

Nos demais países, as cidades que participam do Juventude na Europa relatam outros resultados positivos. Em Bucareste, por exemplo, caíram os índices de suicídios e consumo de álcool e drogas entre os adolescentes. Em Kaunas, o número de menores que cometem crimes foi reduzido em um terço entre 2014 e 2015.

Como afirma Inga Dóra, “os estudos nos mostraram que tínhamos de criar circunstâncias nas quais os menores pudessem levar uma vida saudável, sem precisar de consumir drogas porque a vida é divertida. Os meninos têm muitas coisas para fazer e contam com o apoio de pais que passam tempo com eles.”

Em suma, as mensagens – embora não necessariamente os métodos – são simples. E quando vê os resultados, Harvey Milkman pensa nos EUA, seu país. Será que o modelo Juventude na Islândia funcionaria por lá?

E os Estados Unidos?

São 325 milhões de habitantes frente a 330.000; 33.000 bandas em vez de praticamente nenhuma; e ao redor de 1,3 milhão de jovens sem teto contra meia dúzia.

É claro que os EUA enfrentam dificuldades que não existem na Finlândia. Mas os dados de outras partes da Europa, incluindo cidades como Bucareste, com graves problemas sociais e uma pobreza relativa, mostram que o modelo islandês pode funcionar em culturas muito diferentes, afirma Milkman. E os EUA precisam com urgência de um programa assim. O consumo de álcool entre menores de idade representa 11% do total consumido no país. O abuso de álcool provoca mais de 4.300 mortes por ano entre os menores de 21 anos.

No entanto, é difícil que o país implemente um programa nacional similar ao Juventude na Islândia. Um dos principais obstáculos é que, enquanto no pequeno país europeu existe um compromisso de longo prazo com o projeto nacional, nos EUA os programas de saúde comunitários costumam ser financiados com subvenções de curta duração. Milkman aprendeu, por experiência própria, que, mesmo quando recebem reconhecimento geral, os melhores programas para jovens nem sempre são ampliados ou mesmo mantidos. “Com o Projeto Autodescoberta, parecia que tínhamos o melhor programa do mundo”, recorda. “A Casa Branca me convidou duas vezes. O projeto ganhou prêmios nacionais. Achávamos que seria reproduzido em todas as cidades, mas isso não aconteceu.”

Segundo ele, o motivo é que não se pode receitar um modelo genérico a todas as comunidades, pois nem todas têm os mesmos recursos. Qualquer iniciativa que pretenda dar aos adolescentes dos EUA as mesmas oportunidades de participar dos tipos de atividades habituais na Islândia, ajudando-os assim a se afastar do álcool e das drogas, terá que se basear no que já existe. “Você depende dos recursos da comunidade”, reconhece. Seu colega Álfgeir Kristjánsson está introduzindo as ideias islandesas na Virgínia Ocidental. Alguns colégios do estado já distribuem questionários aos alunos, e um coordenador ajudará a informar os resultados aos pais e a qualquer pessoa que possa utilizá-los para ajudar os garotos. Mesmo assim, o pesquisador admite que provavelmente será difícil obter os mesmos resultados da Islândia.

A visão de curto prazo também é um obstáculo para a eficácia das estratégias de prevenção no Reino Unido. É o que adverte Michael O’Toole, diretor-executivo da Mentor, uma organização sem fins de lucro voltada à redução do consumo de drogas e álcool entre crianças e jovens. Nesse país tampouco existe um programa de prevenção de dependências coordenado em âmbito nacional. Em geral, o assunto é deixado nas mãos das autoridades locais ou dos centros de ensino. Assim, somente são oferecidas aos meninos informações sobre os perigos das drogas e do álcool, uma estratégia que O’Toole também reconhece que não funciona.

O diretor da Mentor é um forte defensor do protagonismo que o modelo islandês confere à cooperação entre os pais, as escolas e a comunidade para ajudar a dar apoio aos adolescentes, e à implicação dos pais ou tutores na vida dos jovens. Melhorar a atenção poderia ajudar em muitos sentidos, diz ele. Inclusive quando se trata somente de álcool e cigarro, há enorme quantidade de evidências demonstrando que, quanto mais velho for o menino na hora de começar a beber ou fumar, melhor será sua saúde ao longo da vida.

No Reino Unido, contudo, nem todas as estratégias são aceitáveis. O “toque de recolher” infantil é uma delas. Outra, certamente, são as rondas de pais pela vizinhança para identificar garotos que não respeitam as normas. Além disso, um teste experimental realizado em Brighton pela Mentor, que incluía convidar os pais para participar de oficinas nas escolas, descobriu que era difícil conseguir seu comparecimento.

O receio das pessoas e a recusa a se comprometerem serão dificuldades onde o método islandês for proposto, afirma Milkman, e afetam a questão da divisão de responsabilidade entre os Estados e os cidadãos. “Quando controle você quer que o Governo tenha sobre o que acontece com os seus filhos? É excessivo que ele tenha ingerência na forma como as pessoas vivem?”

Na Islândia, a relação entre a população e o estado permitiu que um eficaz programa nacional reduzisse as taxas de abuso de cigarro e álcool entre os adolescentes e, de quebra, unisse mais as famílias e promovesse a saúde dos jovens em todos os sentidos. Será que nenhum outro país decidirá que esses benefícios também têm seus custos?

Esta reportagem foi publicada originalmente em inglês por Mosaic Science

Autora: Emma Young

Editor: Michael Regnier

Verificação dos fatos: Lowri Daniels

Corretor: Tom Freeman

Fotografia: Dave Imms

Diretor de arte: Charlie Hall

 

 

Fumar na praia ou nos parques infantis com os dias contados?

Março 24, 2017 às 7:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://rr.sapo.pt/ de 24 de março de 2017.

O discurso de Vytenis Andriukaitis  pode ser consultado em baixo:

EUROPEAN CONFERENCE ON TOBACCO OR HEALTH: TOWARDS A TOBACCO-FREE EUROPE – PORTO, PORTUGAL – 23 MARCH 2017

EPA

Bruxelas defende a proibição do consumo de tabaco em todos os espaços públicos, entre os quais praia, parques infantis e equipamentos desportivos. O anúncio foi feito pelo comissário europeu da Saúde e Segurança Alimentar no Porto, onde participou na VII Conferência Tabaco e Saúde, organizada pela Liga Portuguesa contra o Cancro.

A ideia é que a proibição seja implementada em todos os Estados-membros.

O comissário defendeu ainda, na quinta-feira, a definição de uma idade mínima para se fumar e aumentar a consciencialização nas escolas.

Vytenis Andriukaitis pretende que, com estas medidas, possa ser reduzido o número de mortes devido ao consumo do tabaco. Fumar mata seis milhões de pessoas, por ano, em todo o mundo. Em Portugal, 30 pessoas morrem por dia, vítimas de doenças relacionadas com o tabaco.

O governante europeu alertou também ser necessário seguir com atenção o mercado dos cigarros electrónicos, vistos como uma alternativa para deixar de fumar, afirmando que estes “não se podem tornar numa porta de entrada para novos fumadores”.

“Se os cigarros electrónicos são considerados como uma ferramenta que permite deixar de fumar, então devem ser autorizados como produtos farmacêuticos e vendidos em farmácias”, sublinhou.

Para o responsável, “o tabaco deve parecer e saber a tabaco, não deve parecer um perfume ou um bâton”, sendo que “tudo isto torna [o tabaco] atraente para as crianças começarem a fumar”.

Vantagens de uma embalagem limpa

Vytenis Andriukaitis referiu que “as evidências mostram que as pessoas têm menos probabilidade de fumar” se os maços exibirem mensagens e imagens que alertam para os riscos do tabaco, bem como se não tiverem marcas, logotipos e design de marketing”.

“Este é o motivo pelo qual cinco Estados-membros decidiram tornar obrigatória a embalagem ‘limpa’ nos respectivos países, e é um excelente exemplo para o resto da Europa”, disse.

Para o comissário europeu, ainda há um longo caminho a percorrer no combate ao tabagismo e é necessário que os estados-membros “juntem forças e trabalhem em conjunto” para tornar a Europa numa zona livre de tabaco.

Perante as “consequências devastadoras” do acto de fumar, quer de saúde quer económicas, o comissário desejou ainda que a legislação comunitária ajude os adolescentes “a fazerem a escolha certa de dizer não ao primeiro cigarro”.

Esta conferência é organizada pela Liga Portuguesa Contra o Cancro, em parceria com a associação europeia das ligas contra o cancro, com o Alto Patrocínio da Presidência da República.

No evento, cuja sessão de abertura contou com a rainha de Espanha, estarão presentes até sábado médicos e peritos de Portugal, Espanha e outros países europeus, bem como delegados de toda a União Europeia.

 

 

 

“Tabaqueiras estão a fazer dinheiro à custa da saúde das crianças”

Fevereiro 22, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Relatório, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia da http://www.rtp.pt/noticias/ de 9 de fevereiro de 2017.

human-rights-watch

Paulo Alexandre Amaral – RTP 09 Fev, 2017, 20:22 / atualizado em 10 Fev, 2017

Uma investigação da Human Rights Watch dá conta dos malefícios do tabaco não apenas no consumidor final mas do outro lado da cadeia: entre milhares de crianças que a partir dos oito anos trabalham em plantações na Indonésia e se expõem durante as colheitas aos efeitos da absorção de nicotina e pesticidas altamente tóxicos para o ser humano. O relatório do ano passado é relembrado pela HRW numa semana em que o grupo Facing Finance publica o seu próprio texto denunciando as grandes multinacionais que lucram com violações ambientais e dos Direitos Humanos.

O relatório “Dirty Profits” (Lucro Sujo) do grupo Facing Finance, agora publicado, chama a atenção para a necessidade de implementar princípios éticos na regulamentação dos investimentos feitos pelas grandes companhias.

Um dos casos que surge neste texto é o das crianças que trabalham sem condições nas plantações de tabaco na Indonésia, uma investigação da HRW que aborda esse tema da relação das tabaqueiras com os locais de produção na Indonésia. Nessa investigação a HRW dá conta das perigosas condições de trabalho a que são submetidas estas crianças que são envolvidas na cadeia de produção da folha de tabaco.

Estamos a falar dos produtores que fornecem uma grande parte das grandes tabaqueiras, não apenas indonésias mas também mundiais, como a British American Tobacco e a Philip Morris International.

Nas 119 páginas do do relatório do ano passado “The Harvest is in My Blood’: Hazardous Child Labor in Tobacco Farming in Indonesia”, a organização de defesa dos Direitos Humanos estabelece a ligação entre a produção de tabaco e os problemas de saúde que afectam os trabalhadores, explicando a cadeia percorrida pelos produtos tóxicos até se instalarem no organismo.

As crianças são uma parcela significativa destes trabalhadores expostos à nicotina. Mas não apenas: além da nicotina, as crianças – muitas delas a partir dos oito anos – vê-se na situação de lidar com “químicos tóxicos, utensílios perigosos, carregar com pesos excessivos e trabalhar em períodos de calor extremo”, refere o texto, para advertir que estas condições de trabalho podem ter para estes pequenos trabalhadores “consequências duradouras tanto para a sua saúde como para o seu desenvolvimento”.

Quinto produtor mundial

A Indonésia ocupa o quinto lugar na produção mundial de tabaco. O país alberga mais de 500 mil quintas que se dedicam a este negócio. Um negócio que acaba por ser largamente lucrativo para os proprietários, já que uma larga fatia da mão-de-obra é constituída por crianças entre os 10 e os 17 anos.

De acordo com as contas da Organização Internacional do Trabalho, mais de milhão e meio de trabalhadores nesta faixa etária trabalham na Indonésia no sector da agricultura. Não há contudo números exactos para a fatia que está nas plantações de tabaco.

Sabe-se, de qualquer forma, que o sistema das tabaqueiras passa por uma cadeia de venda e revenda da folha de tabaco que pode começar nas quintas de pequena e média dimensão até chegar ao topo, as grandes companhias de transformação. Por norma, o sistema montado desta forma tende a desculpabilizar as grandes marcas, que garantem observar as regras sanitárias e de segurança. Quando são envolvidas em violações de leis laborais, não é raro atirarem para cima da mesa a questão das subcontratações, afirmando desconhecer o que é do conhecimento geral logo desde a base.

O trabalho infantil encaixa nesta classe de problema. Sedeadas em países ocidentais com leis restritas relativamente ao trabalho infantil, as grandes empresas tabaqueiras deslocalizam parte da produção e muitas vezes da transformação para países com autoridades judiciais permissivas, que fecham os olhos a este tipo de violação. O resultado é a poupança com os custos de trabalho.

A HRW exige neste relatório que as grandes multinacionais do tabaco façam alguma coisa para parar as violações laborais e proíbam os “seus” produtores de usarem crianças em contacto directo com o tabaco. O recado segue também para Jakarta, com a organização a instar o governo indonésio a regular a indústria de forma a não deixar escapar os culpados destas práticas ilegais.

“As companhias de tabaco estão a fazer dinheiro à custa da saúde das crianças obrigadas ao trabalho infantil na Indonésia”, acusa Margaret Wurth, uma das investigadoras da Human Rights Watch e co-autora do relatório.

Crianças com náuseas, vómitos, dores de cabeça

A investigação foi realizada em quatro províncias indonésias, três das quais contribuem com 90% do total nacional da produção de tabaco: Java Oriental, Java Central e a província ocidental de Nusa Tenggara.

Entre as 227 pessoas entrevistadas contavam-se 132 crianças com idades que iam dos 8 aos 17 anos, muitas das quais foram obrigadas a começar a trabalhar aos 12 anos.

Metade das crianças entrevistadas disse sofrer com náuseas, vómitos, dores de cabeça e tonturas, tudo sintomas relacionados com envenenamento por nicotina através da absorção pela pele.

Ayu, uma criança de 13 anos, disse aos investigadores que vomita todos os anos quando está a trabalhar na colheita de tabaco: “Eu comecei a vomitar quando já estava muito cansada de cortar e carregar as folhas de tabaco. Eu vomitei tantas vezes”.

Não há ainda estudos sobre os efeitos a longo prazo, mas os investigadores que estudam as consequências do tabagismo sugerem que a exposição à nicotina durante a infância pode acarretar o desenvolvimento do cérebro.

Uma combinação de nicotina e pesticidas

Muitas destas crianças explicaram como são obrigadas a manipular e aplicar pesticidas e outros químicos nas plantações. Será através da pele que muitas destas crianças absorvem quantidades letais de nicotina e pesticidas altamente nocivas para a saúde.

Riscos que tanto as crianças como os seus pais manifestaram desconhecer: a exposição prolongada a pesticidas pode provocar problemas crónicos graves como problemas respiratórios, cancro, depressão, problemas cognitivos e infertilidade.

Constatando que eram poucas as crianças ou os seus pais, alguns proprietários dessas pequenas quintas, que procediam de acordo com normas de segurança, a HRW vem agora exigir ao governo indonésio que faça sessões de esclarecimento e implemente planos de segurança para os trabalhadores dos campos de tabaco.

 

 

 

Quatro em cada dez jovens começam a beber aos 13 anos

Setembro 23, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://ionline.sapo.pt/de 21 de setembro de 2016.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

ESPAD Report 2015 Results from the European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs

Dados Portugal

http://www.espad.org/report/country-summaries#portugal

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Marta F. Reis

Inquérito conclui que há menos jovens a fumar e a beber em Portugal, mas muitos ainda começam cedo demais. 16% admitem ter problemas.

As notícias são mais boas do que más: nos últimos 20 anos tem diminuído a percentagem de jovens que fumam e bebem álcool e há mesmo uma fatia sem precedentes de adolescentes que nunca tiveram consumos problemáticos: no ano passado, 23% dos adolescentes com 16 anos garantia nunca ter tocado em tabaco, álcool ou drogas ilícitas. Resultados do inquérito internacional ESPAD, que desde 1995 tira o pulso à juventude em 35 países europeus, revelam, porém, que ainda são muitos os jovens que começam a explorar os limites numa idade precoce e há comportamentos de risco significativos. Mais de quatro em cada dez adolescentes portugueses admitem que aos 13 anos, ou antes, já tinham experimentado álcool e 5% já tinham apanhado uma bebedeira. Em relação ao tabaco, um quarto (24%) também já tinham fumado os primeiros cigarros e 5% começaram nesta idade a fumar diariamente.

Geração de 1999 O inquérito ESPAD (sigla inglesa para European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs) abrangeu, em 2015, 96 042 jovens, incluindo 3456 rapazes e raparigas portugueses. A metodologia do projeto consiste em avaliar regularmente os comportamentos de risco aos 16 anos, pelo que nesta ronda de dados está em causa a geração nascida em 1999.

Se tem filhos nesta idade, eis alguns resultados que importa ter em conta, até se quiser ter uma intervenção proativa. Aos 16 anos, mesmo sendo proibido legalmente, 42% dos jovens portugueses dizem beber regularmente e 20% declaram ter tido pelo menos um episódio em que beberam mais do que a conta nos 30 dias anteriores ao inquérito – conceito de “consumo intenso” definido como ter ingerido cinco bebidas ou mais numa única ocasião.

Se os comportamentos a nível nacional surgem quase sempre dentro da média ou mesmo um pouco menos problemáticos do que noutros países, há um dado singular. Portugal é o segundo país, depois de Malta, onde as preferências dos adolescentes em matéria de álcool recaem sobre as chamadas bebidas brancas, como o vodca ou o absinto que alimentam os shots. Não obstante a tradição vitivinícola do país, é na Ucrânia ou na Moldávia que os jovens preferem o vinho, enquanto na Albânia ou na Bélgica a cerveja lidera.

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Em relação às bebidas, há ainda outro aspeto a destacar. Um terço dos jovens inquiridos a nível europeu admitem ter tido algum incidente enquanto estavam sob o efeito de álcool. Em Portugal, apenas 16% dos jovens admitem problemas, mas os dados põem a nu os riscos: 9% dizem ter perdido algum pertence, 4% envolveram-se em discussões e 3% em confrontos físicos. Sendo percentagens menores, é ainda possível perceber que 2% dos adolescentes portugueses reconhecem ter tido relações sexuais desprotegidas associadas ao álcool. Na mesma percentagem, dizem terem-se magoado a si próprios e terem tido comportamentos perigosos como nadar em zonas sem pé.

Raparigas começam a fumar mais No que diz respeito ao tabaco, aos 16 anos 9% fumam diariamente e 19% regularmente (declaram ter fumado no mês anterior ao inquérito). Se durante muito tempo os rapazes fumavam mais do que as raparigas, a situação tem estado a inverter-se e Portugal não foge à regra: entre a geração de 1999, a percentagem de raparigas que fumam ocasionalmente (21%) já supera a dos rapazes (18%).

O consumo de drogas ilícitas surge igualmente dentro da média internacional. Aos 16 anos, 16% dos jovens já experimentaram, a maioria canábis. O Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), estrutura do Ministério da Saúde responsável pela área das dependências que promove o estudo em Portugal, destacou como um dos elementos positivos o facto de haver um consumo residual das chamadas das novas substâncias psicoativas. Recorde-se que, em Portugal, o fenómeno das smartshops, que vendiam drogas quimicamente parecidas com medicamentos controlados ou drogas ilegais mas sem estarem reguladas como substâncias ilícitas, foi travado em 2013, proibindo-se a venda de substâncias psicoativas à medida que estas eram do conhecimento das autoridades, o que levou ao encerramento de muitos estabelecimentos. Na altura começava a haver registo de jovens nas urgências com psicoses relacionadas com o consumo. O alerta mantém-se, porém, para a canábis, cujo consumo também pode desencadear crises e não tem diminuído.

Cuidado com os ansiolíticos

Porque os medicamentos são drogas e têm riscos, sobretudo quando tomados sem vigilância, o inquérito ESPAD apresenta também dados sobre o consumo de alguma medicação sem receita médica por parte dos jovens. Em Portugal não se verificam consumos de opioides, mas 5% dos jovens admitem tomar sedativos e tranquilizantes sem indicação de um médico – percentagem abaixo da média europeia, mas em que existe ainda assim uma chamada de atenção: este consumo sem supervisão parece ter uma incidência quatro vezes maior entre as raparigas. O SICAD destacou ainda que no país há um consumo deste tipo de medicamentos, mesmo com receita, acima do que acontece nos outros países, com 13% dos jovens portugueses medicados com ansiolíticos contra uma média de 8%. Estes dados não foram trabalhados no relatório internacional, mas o SICAD considera que é nesta vertente que os indicadores nacionais se afastam de forma mais negativa. Uma última matéria em que os comportamentos dos adolescentes portugueses não geram, por agora, particular preocupação é o vício dos jogos e da internet. Um quinto dos jovens dizem passar o tempo na net a jogar e 2% admitem apostas a dinheiro, percentagens ligeiramente abaixo da média europeia.

10% acham fácil arranjar coca

Não há consumo sem acesso e os resultados sugerem que ainda há muito a fazer. Quase 80% consideram ser fácil ou muito fácil ter acesso a álcool e 60% dizem o mesmo em relação ao tabaco, apesar de a legislação proibir a compra antes dos 18 anos. A perceção dos jovens sobre a facilidade com que conseguem arranjar droga é, contudo, mais surpreendente. Três em cada dez admitem ser fácil ter acesso a canábis e 10% têm a mesma ideia sobre arranjar ecstasy ou cocaína, drogas que, ainda assim, 2% dizem já ter consumido aos 16 anos.

Perguntas&Respostas

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Mário Cordeiro – Pediatra

“As escolas deviam estar mais empenhadas na promoção da saúde”

Passam-lhe pelo consultório casos de adolescentes a tomar sedativos e tranquilizantes? Quais são os motivos?

Não muitos. Creio que temos de olhar para estes dados com algum espírito crítico, não apenas para uma análise da amostra e sua significância e representatividade, mas para os possíveis vieses das respostas e a própria definição de caso. O que é “tomar um ansiolítico”? Todos os dias? Antes dos testes? De vez em quando? Receitados? Homeopáticos de venda livre? Se admitirmos que sim, que tomam mais do que antes, pode ter a ver com a informação, acesso, venda através da net, moda, e também necessidade face ao stresse. O mais importante é saber se os que tomam são os que necessitam e se os que necessitam são os que tomam.

Que tipo de intervenção seria necessária?

Informação, mas transformada em conhecimento, ou seja, dada por pais, professores, profissionais de saúde, e não nas redes sociais. É preciso falar verdade, explicar o que são drogas e medicamentos, e ser-se sério, rigoroso e científico na abordagem da questão quando se fala com um adolescente. No livro que publicarei em outubro, intitulado “Os Nossos Adolescentes e as Drogas – Realidades, Mitos e Verdades”, abordo este assunto, dirigido a um público juvenil, mas também aos educadores em geral. As escolas deviam estar mais empenhadas nesta promoção da saúde, mais do que em sobrecarregar os alunos de matéria exclusivamente académica. Aliás, é uma matéria que poderia ser dada transversalmente, em Língua Portuguesa, Matemática, História, Ciências, tal e qual a sexualidade deveria ser.

Os dados revelam que, não obstante tendências positivas, aos 13 anos, 24% dos jovens já fumaram e 41% já beberam. A esmagadora maioria acha fácil ter acesso a álcool e tabaco, e 10% a ecstasy ou cocaína. Os pais estão atentos ou são apanhados de surpresa por consumos, mesmo ocasionais?

As drogas já cá estão há muito tempo, vieram para ficar e ficarão. É por isso que, “deste lado”, há um grande trabalho a fazer de modo a que uma pessoa que sempre terá droga à sua disposição (incluindo tabaco, álcool e medicamentos legais, já sem falar nas ilegais) possa não a querer, recusá-la e dela não necessitar, porque tem uma boa autoestima, autoconceito, um percurso de vida de que gosta e objetivos de vida, para lá de amigos, família e uma rede social (que não as virtuais) de qualidade afetiva.

Que estratégias recomenda em termos de prevenção aos pais que fiquem preocupados?

A melhor prevenção é a informação, mas transformando-a em conhecimento e em sabedoria. Criar resiliência através de prática desportiva, cultural, artes, sentido ético, viver com frugalidade, e não estar sempre a vitimizar-se e a sentir-se com péssima vida, valorizar o que se tem em termos de círculo humano e também de bens materiais. Tudo isto leva a que a droga passe a ser dispensável e até um obstáculo à felicidade, mesmo que esteja ao virar da esquina. É nisto que temos de investir e, mais uma vez, creio que a escola deveria ter um programa transversal que tocasse em todas as disciplinas.

Perante que sinais devem procurar ajuda especializada? 

Se um adolescente começa a desinvestir na escola, nos amigos, nas relações pessoais, se se isola demasiadamente, perde a noção do mundo, está deprimido e tenta reagir enganando-se com curtos momentos de prazer e de esquecimento da realidade, se se torna violento, rouba, só pensa nisso, é urgente dar-lhe ajuda. Como me disse um inspetor da polícia em Oxford, “se encontrarem um papel de prata no quarto do vosso filho. não é certo que tenha sido para fumar heroína… pode ter estado apenas a comer uma tablete de chocolate…”. Mas há que estar atento e apoiar, mesmo que as coisas aconteçam e a situação seja dura. Os toxicodependentes são doentes e não estão nessa situação “por gozo” – chegaram lá por um percurso de vida de falta de objetivos, de luta, de fuga à realidade. Compete-nos, enquanto sociedade organizada, ser solidários com eles e tentar fazê-los sair desse estado de degradação humana, sejam drogas ilegais, seja o álcool ou o tabaco, que ainda são as drogas mais usadas em Portugal.

 

 

 

Tabaco na adolescência: Fumar é ridículo, larga a chupeta! – Dia Mundial Sem Tabaco

Maio 31, 2016 às 8:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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texto da Visão de 18 de maio de 2016.

chupeta

Sónia Calheiros

Campanha da Sociedade Portuguesa de Pneumologia e do Corpo Nacional de Escutas ridiculariza os jovens que fumam e assinala o Dia Mundial Sem Tabaco, a 31 de maio

Fumar cigarros é tão ridículo como usar uma chupeta em idades impróprias. Através desta comparação a Comissão de Tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) e o Corpo Nacional de Escutas (com 72 500 membros) visa alertar os fumadores mais novos para adotarem uma postura diferente perante os cigarros, lançando um movimento nacional de combate ao tabagismo na adolescência.

Apesar de Portugal ter registado, entre 2005 e 2014, uma redução global do consumo de tabaco, é preciso continuar a mudar consciências. Em Portugal há 1,78 milhões de fumadores, cuja prevalência, com 15 ou mais anos, diminuiu ligeiramente, de 20,9% para 20%, segundo o mais recente relatório “Portugal – Prevenção e Controlo do Tabagismo em Números 2015”, apresentado pela Direção-Geral da Saúde. Os dados recolhidos no âmbito do estudo colaborativo entre países da Organização Mundial da Saúde – Health Behaviour in School-aged Children – cerca de 77,8% dos jovens a frequentar o 8.º e o 10.º anos disseram nunca ter experimentado tabaco. Dos alunos a frequentar o 8.º ano, cerca de um terço começou a fumar com 13 anos e cerca de um quinto com 11 ou menos anos de idade. Dos alunos a frequentar o 10.º ano, cerca de metade iniciou o consumo com mais de 14 anos. No conjunto dos alunos inquiridos fumadores (8.º e 10.º anos), disseram fumar diariamente cerca de 2,6% e ocasionalmente 4,9%. A grande maioria disse não fumar (92,5%).

«Sabe-se que a maior parte dos jovens inicia o consumo por curiosidade e influência de amigos ou de grupos. Trata-se de uma forma de afirmação e integração que se querem evidenciar pela ousadia ou rebeldia de fumar. A campanha deste ano não faz mais que ridicularizar o ato de fumar, incutindo nos jovens uma postura de afirmação positiva dizendo não ao tabaco», diz José Pedro Boléo-Tomé, coordenador da Comissão da Tabagismo da SPP.

 mais informações e imagens no link:

http://www.sppneumologia.pt/noticias/1

 

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