Professores aprendem a lidar com pais difíceis

Janeiro 12, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Por Isobel Leybold-Johnson

Às vezes, não são os alunos que causam dores de cabeça nos professores, mas sim seus pais exigentes. A Federação Suíça de Professoras e Professores (LCH) elaborou um guia com orientações para tratar do que está se tornando um problema crescente.

No passado, os pais apoiavam incondicionalmente, na maioria das vezes, as decisões tomadas por professores e escolas – escreve Beat W. Zemp, presidente da federação, no prefácio do guia.

Contudo, trabalhar com os pais se tornou “bem mais complexo e sofisticado”, podendo vir à tona conflitos muito estressantes que duram anos. “A mídia é dominada por casos envolvendo ‘pais helicópteros’ que trazem consigo os seus advogados para a reunião solicitada pela escola ou quando a divergência ocorre por razões religiosas”, diz Zemp.

As comparações internacionais, como a realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sugerem que o problema não é tão agudo quanto em países de língua inglesa, por exemplo.

Porém, a questão é bastante preocupante para levar a federação a publicar um guia sobre a cooperação entre as escolas e os pais, cujo conteúdo foi destacado pelo jornal SonntagsBlick no mês passado.

A pressão dos pais, embora ainda vinda de uma minoria, é conhecida por ser um fator catalisador da síndrome de burnout em professores ou do abandono de suas profissões, ponto destacado pela instituição.

O guia de 52 páginas, que atualiza o original de 2004, apresenta exemplos de casos bem como os seus aspectos educacionais e legais, listando pontos-chave para os professores sobre como amenizar conflitos e que tipo de suporte eles podem esperar.

Entre os casos apresentados estão os de pais que se queixaram que a lição de casa da filha era exorbitante e de um conselho parental escolar que chegou a exigir que as tarefas de casa fossem abolidas por causarem “muita tensão” em casa.

Exemplos de pressão parental

“Muitos pais pensam que têm o direito de opinar sobre tudo o que acontece na escola”, disse Sarah Knüsel, Presidente da Associação dos Diretores de Escola do Cantão de Zurique, para o jornal SonntagsBlick.

“Mesmo as pequenas coisas são questionadas”, concordou Georges Raemy, membro da mesma associação no cantão de Zug. “Alguns pais não concordam com um passeio de um dia na floresta; outros sentem que um aniversário não foi comemorado suficientemente bem”.

“Os professores estão sendo frequentemente chamados para se explicar. A comunicação tem se tornado fundamental”, disse ele no artigo. Para Raemy, a comunicação deveria desempenhar um papel mais proeminente na formação dos professores.

Caminha-se sobre um campo minado quando uma criança não consegue as notas suficientes para entrar na escola secundária suíça, que necessariamente deve ser alcançada para o acesso à universidade. Esta situação pode resultar em ações legais que, no entanto, em sua maioria não passam de ameaças. Todavia, os setores jurídicos das Secretarias Estaduais de Educação – cada cantão é responsável pelo seu sistema educacional – reportam um crescente número de queixas envolvendo escolas e pais de alunos.

Marion Völger, diretora da Secretaria de Educação do cantão de Zurique, relatou ao SonntagsBlick que recebe anualmente cerca de 3.000 reclamações, das quais 400 são provenientes de pais.

Christian Hugi, Presidente da Associação dos Professores de Escola de Zurique, aponta que o aumento do problema se refere à falta de credibilidade nas instituições do estado. Os próprios pais também estão sob pressão pela globalização, digitalização e o mercado de trabalho competitivo. “Eles querem garantir que seus filhos possam sobreviver neste mundo”, explica Hugi.

Comparação internacional

A pressão parental é um fenômeno que afeta principalmente os países industrializados. Realizado pela OCDE, o relatório divulgado em 2012 pelo Programa Internacional de Avaliação do Aluno (PISA) – uma pesquisa do desempenho escolar dos alunos de 15 anos de idade em países desenvolvidos – avaliou a pressão recebida pelos diretores de escolas vindas dos pais em relação ao alto nível de desempenho acadêmico.

O resultado encontrado, considerando todos os países pertencentes à OCDE naquele ano, foi que 21% dos alunos estavam em escolas cujos diretores relataram sofrer muita pressão parental e 46% dos estudantes pertenciam a escolas cuja pressão vinha de uma minoria dos pais.

Singapura, Reino Unido, Estados Unidos e Austrália estavam entre os países onde pelo menos um em cada três estudantes sofria demasiada pressão dos pais. Em Singapura, o índice foi de 60% dos alunos.

A Suíça se encontra entre os países com menos de 10% dos alunos pertencentes a escolas onde existem demasiada pressão parental, juntamente com Alemanha, Áustria e a tradicionalmente bem pontuada na avaliação do PISA – embora com ligeira queda recente – Finlândia.

Beat A. Schwendimann, membro do conselho da Federação dos Professores Suíços, ressaltou que os dados do PISA sugerem que não há correlação clara entre a pressão exercida pelos pais sobre as escolas e o bom desempenho acadêmico. Essa observação é corroborada pelos resultados consistentes da Suíça e da Finlândia no PISA e o baixo índice de pressão parental escolar nestes países.

“O baixo número de relatos sobre a pressão parental oriundos dos nossos diretores escolares pode estar associado ao elevado nível de confiança que os pais depositam no sistema escolar e ao alto padrão profissional dos professores. A pressão por parte dos pais sobre os diretores, incluindo ação legal, é rara e está principalmente relacionada às notas finais dos exames para alcançar as escolas de níveis superiores. As escolas suíças se esforçam em estabelecer e manter uma parceria ativa e produtiva com os pais”, disse Schwendimann para swissinfo.ch.

“O objetivo é que a comunicação seja baseada na cooperação produtiva e confiança, ao invés da pressão”.

Adaptação: Renata Bitar

 

Anúncios

Crianças pobres na rica Suíça? Niels é um deles

Novembro 20, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Texto do site https://www.swissinfo.ch/por/ de 15 de novembro de 2017.

Por Kathrin Ammann

Claro que ele não passa fome. O pequeno Niels tem um quarto só dele, veste roupas limpas e joga futebol no clube. Mas o salário da mãe dele não é suficiente. Eles necessitam de ajuda. Na Suíça, a precariedade não é evidente à primeira vista, mas costuma deixar marcas nos que a vivem na própria pele.

Recentemente, Niels e sua mãe se permitiram curtir um “dia de luxo”. Graças a ingressos mais baratos, eles foram ao circo. E melhor ainda: “Fomos tomar um café e comer um sanduíche depois”, relata com voz tímida a mãe de Niels, uma mulher de 38 anos. E sorri.

Seu filho tem a alegria estampada no rosto. Ele vai até a cozinha, volta, está eufórico e quer nos mostrar o apartamento onde eles moram há poucos meses. Dá para perceber que Niels se sente bem na casa nova. Ele conta com orgulho que seu quarto tem três portas. Uma porta dá para a cozinha, a outra dá para a sala e uma terceira porta abre-se para a varanda.

“Como ganhar na loteria”

O apartamento fica no segundo andar de um prédio novo, é bem iluminado e faz parte de um complexo residencial ainda em construção. Da varanda vê-se um grande canteiro de obras. “Aqui está nascendo um novo bairro, muito dinâmico e que você pode ajudar a construir”, esta é a frase que aparece na propaganda do projeto. A Fundação Habitat defende alugueis a preços econômicos. Quem ganha mais paga mais do que os inquilinos de baixa renda.

Já durante nosso primeiro contato, por telefone, a mãe do Niels praticamente se desculpou pelo “belo apartamento novo”. Este apartamento não se enquadra na imagem que fazemos quando pensamos em uma mãe solo, ou mãe autônoma, que cria seu filho sozinha e depende do auxílio social para complementar a renda. O medo de serem tachadas de parasitas é muito grande entre as pessoas que estão próximas à linha de pobreza.

“Foi como ganhar na loteria”, relata a mãe de Niels sentada à mesa da cozinha. Durante meses, depois de sair do trabalho e pegar o filho na creche, ela enfrentava a fila de interessados em obter um apartamento. Os apartamentos cujo aluguel cabiam no seu orçamento ficavam ao lado da autoestrada ou tinham banheiro coletivo. Ela preferiu ficar no apartamento antigo e continuar procurando. Até que a Fundação Habitat a procurou.

Entre 800 e 1200 francos suíços por mês

Desde então ela não se sente mais pobre, sente-se bem melhor, relata a mãe de Niels. Formada em Pedagogia do Movimento, ela ganha entre 800 e 1200 francos suíços por mês, o que é muito pouco. Em comparação com a totalidade da população, as mulheres que criam seus filhos sozinhas na Suíça estão mais do que duas vezes mais vulneráveis a ficarem abaixo da linha de pobreza. Este é o resultado de um estudo realizado sob encomenda da Caritas Suíça e conduzido pela Universidade de Berna. 20% das pessoas que recebem o Auxílio Social são mães que criam seus filhos sozinhas. Em 2015, uma a cada seis famílias suíças era de pai ou mãe autônomo. E a tendência é de que esta porcentagem aumente.

Os pais de Niels se separaram quando a sua mãe estava no sexto mês de gravidez. Depois de passar quatro anos na França, ela retornou para a Suíça. Sem ter ninguém mais para contar, ela passou a depender do auxílio social. Seis meses depois do nascimento de Niels ela voltou a trabalhar, mas só conseguiu contratos como horista. Uma tentativa de se tornar autônoma infelizmente fracassou.

Segundo a pesquisa da Caritas, as mães solo de filhos com menos de seis anos de idade trabalham em média 17 horas por semana fora de casa e 54 horas por semana realizando trabalhos domésticos e relacionados à manutenção da família. A taxa de pessoas que trabalham e mesmo assim estão abaixo da linha de pobreza é quatro vezes maior nos casos de mães solo. “Esta situação insana, desgastante e sem perspectiva me deixou muito chocada e com muita raiva. Às vezes o dinheiro mal chegava para comprar fraldas para Niels.”

A mãe de Niels escolhe as palavras com cautela. Seu olhar torna-se cansado. Niels se acalma e presta atenção na conversa. É como se ele percebesse que não é fácil para sua mãe se recordar daquele período de total exaustão.

O auxílio está vinculado ao local de residência

Agora que Niels já está um pouco maior, é mais fácil. Mas mesmo assim não é possível dar uma passada rápida no supermercado para comprar algo que se tenha esquecido. “Tudo tem que ser pensado e planejado. E isso cansa.” Niels e sua mãe atravessam a fronteira para fazer compras na Alemanha. Para comprar um capacete para Niels andar de bicicleta, eles vasculharam os brechós da cidade de Basileia, o que demanda tempo e energia.

Niels anda de bicicleta na passarela em frente ao prédio onde moram. Ele também tem um skate e um kart. “Tudo usado e ganhado”, esclarece a mãe. Niels parece não se importar com este detalhe, e conta entusiasmado que joga futebol no clube. Para isso sua mãe recebe auxílio financeiro do governo. Se Niels morasse em outro cantão, ele possivelmente não poderia treinar futebol e um dia jogar tão bem quanto Ronaldo, como ele mesmo diz. O Auxílio Social na Suíça é decidido a nível cantonal e por isso depende do local de residência.

Outras crianças ameaçadas pela falta de recursos não têm como participar da vida social. Os pais cujos salários estão levemente acima do limite e que, por isso, não recebem auxílio social, não conseguem proporcionar estas coisas a seus filhos. Para eles é difícil participar de atividades sociais. Até mesmo Niels já percebeu essa diferença.

“Você não está no controle de sua vida”

Convidado para a festinha de aniversário de um colega, Niels estava na fila para cumprimentar o aniversariante e entregar-lhe o presente. As outras crianças traziam caixas de Lego em belos pacotes de presente. Niels destoava do grupo com seu presente: um cachorrinho feito de balões.

Mesmo assim, a mãe de Niels tem um único desejo: não precisar mais do auxílio social. Ela tem a sensação de estar vivendo um estado de exceção. “Eu não consigo dizer para mim mesma: ‘Ok, agora recebo auxílio social e tudo bem'”. O mais difícil para ela é o estigma que enfrenta no dia-a-dia. Ela acaba sempre ouvindo alguém lhe dizer que ela “não está no controle da própria vida”. “Você está fazendo o melhor que pode, mas está sempre levando na cabeça”. É muito desgastante. “Seis anos atrás minha autoestima era muito melhor do que é hoje”.

Niels aquieta-se novamente e senta-se no colo da mãe. “Quanto tempo falta para eu fazer aniversário de novo, mamãe?”, ele pergunta pela segunda vez hoje. Niels quer ganhar de presente no seu aniversário – que será um pouco antes do fim do ano – um lanche no McDonalds com sua mãe. E do seu pai, que está na França, ele quer ganhar um “Hoverboard”, um skate elétrico. “Meu pai é rico”, conta ele alegremente e saltitando novamente pela cozinha. “Ele tem uma televisão no carro.”

Pobreza infantil na Suíça

Em 2014, 307.000 crianças foram registradas como estando em situação de pobreza ou ameaçadas de pobreza. Para analisar os dados, o Ministério de Estatística (BfS) utiliza os parâmetros estabelecidos pela Conferência Suíça de Instituições de Ação Social (SKOS).

Comparada internacionalmente, a Suíça investe pouco na família e nas crianças. Nos países da União Europeia, em 2013, foram investidos em média 2,1% do Produto Interno Bruto nas famílias. Enquanto isso na Suíça apenas 1,5% do PIB foi investido nas famílias.

(Fonte: Departamento Federal de Estatísticas (BfS), Famílias na Suíça: Relatório Estatístico)

Adaptação: Fabiana Macchi

Dia 20 de novembro é o Dia Internacional dos Direitos da Criança.

A Convenção sobre os Direitos da Criança foi aprovada na Assembleia Geral das Nações Unidas em 1989. A Suíça aderiu em 1997. Atualmente, a Convenção dos Direitos da Criança das Nações Unidas engloba 193 países. Através da Convenção, a Suíça é obrigada a disponibilizar todos os meios possíveis para os menores que estão em condições de pobreza. (Fonte: humanrights.ch)

 

 

A infância roubada das “crianças de fábrica”

Outubro 31, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Notícia do site  https://www.swissinfo.ch/por/ de 18 de outubro de 2017.

Durante a industrialização, inúmeras crianças na Suíça trabalharam nas fábricas até caírem de cansadas. A proibição só veio graças ao esforço de um “outsider” político.

“Procura-se: duas famílias numerosas de trabalhadores, especialmente com crianças aptas ao trabalho, para trabalhar em uma fábrica de fiação”.

Com este anúncio no jornal “Anzeiger von Uster”, um industrial suíço procurava funcionários na década de 1870. Era evidente que as crianças das famílias operárias tinham que contribuir com a sua força de trabalho. O trabalho infantil não começou com a industrialização, mas deixou de ser algo do cotidiano para se tornar uma verdadeira exploração de mão-de-obra barata.

Agricultores e trabalhadores domésticos viam seus filhos como trabalhadores já antes da revolução industrial. A família era predominantemente uma comunidade de trabalho; era essencial que os mais jovens também trabalhassem. Assim que uma criança era grande o suficiente para cooperar, ela tinha de ajudar na fazenda ou oficina. Ao mesmo tempo, o trabalho árduo era tarefa dos adultos. Via de regra, as crianças faziam apenas os trabalhos que correspondiam às suas possibilidades. Elas não eram consideradas uma força de trabalho de total competência.

A industrialização descobre as crianças

A industrialização atravessou a Suíça a todo vapor. No século XIX, houve uma mudança de cenário – dos campos para a fábrica – mas ainda se considerava a criança como força de trabalho. Aí começou a exploração real: em contraste com o trabalho na agricultura, na indústria não havia diferença se o trabalho era desempenhando por um adulto ou criança. Afinal, não era preciso muita força física para alimentar a máquina de tecelagem.

Muitas destas “crianças de fábrica” trabalhavam nos teares e máquinas de bordar. As fábricas da indústria têxtil estavam localizadas principalmente na Suíça Oriental e no cantão de Zurique. Ao longo do rio Aabach, entre o lago de Pfäffikon (Pfäffikersee) e o lago Greifen (Greifensee), foi criado um conglomerado da indústria têxtil e, desta forma, de trabalho infantil. Quase um terço dos trabalhadores nessas fábricas tinham menos de 16 anos.

Algumas famílias tinham seu próprio tear ou uma máquina de bordar em casa, de onde trabalhavam por encomenda para as grandes empresas têxteis. As crianças também eram empregadas nessa tarefa caseira.

Trabalho do início até o final do dia

O destino dos filhos e filhas de uma família de trabalhadores têxteis, seja em uma fábrica ou nos trabalhos domésticos, logo foi selado. Eles praticamente não tinham como se desenvolver de acordo com sua própria vontade. Ainda na mais tenra idade, passavam a maior parte do tempo no trabalho monótono em casa ou na fábrica, raramente na escola e brincar era praticamente impensável.

Aos seis anos algumas crianças já trabalhavam para a indústria têxtil, em grande parte como auxiliares de bordador. Enfiar as linhas na agulha era então uma tarefa demorada, que exigia dedos mais finos e por isso era realizada principalmente por mulheres e crianças.

Quando eles chegavam à idade escolar, era normal que passassem até seis horas por dia enfiando linhas nas agulhas – no início da manhã antes da escola, ao meio-dia e depois da escola até tarde da noite.

Trabalho infantil como fator econômico

Tanto trabalho teve um impacto natural na saúde infantil. Os inspetores notaram as costas tortuosas, os olhos ruins e a impressão cansada e sem força das crianças. Um pastor de Appenzell-Ausserrhoden escreveu em 1905 sobre a vida de crianças trabalhadoras, cuja sobrecarga levou-as a estarem “cansadas, sonolentas, opacas, mental e fisicamente adormecidas. Elas eram desatentas e desinteressadas, dispersas e indiferentes a tudo”.

A exploração das crianças da classe operária tinha um sistema, mas não se tratava de maldade ou ignorância. Por causa dos salários baixos, as famílias dependiam muitas vezes dessa renda adicional. Além disso, na virada do século, o filho de uma família de trabalhadores, artesãos ou camponeses, tinha uma posição muito diferente da de hoje. Para os pais, ele era principalmente uma força adicional de trabalho.

Os empresários, convenientemente, viam nas crianças uma reserva ideal de mão-de-obra barata. Com este argumento econômico, muitos liberais defendiam o trabalho infantil. Victor Böhmert, importante economista da época, recomendou que as fiações “deveriam funcionar com trabalho infantil e trabalho feminino com baixos salários” como uma forma de enfrentar a concorrência internacional.

Vozes críticas

No final do século XIX as críticas aumentaram e o trabalho infantil foi reconhecido como um problema sério. Mesmo Böhmert, o economista citado acima, já tinha suas reservas. Ele descreveu o trabalho infantil como um “aspecto negativo preocupante do moderno mundo fabril”.

Hoje surpreende que as críticas ao trabalho infantil tenham vindo da burguesia e não das próprias famílias trabalhadoras. Afinal, elas tinham medo de não sobreviver sem a renda extra de seus filhos. Embora muitos políticos da burguesia tenham reconhecido o problema, pouco fizeram para mudar a situação. Foi na verdade um político independente quem desencadeou esse processo.

Indivíduo com missão social

Em 1867, o deputado federal Wilhelm Joos, sem partido, deu o primeiro passo ao apresentar um projeto de lei para o trabalho nas fábricas. Originário de Schaffhausen, Joos era conhecido por seu compromisso com os mais pobres. Era uma época em que essas posições eram vistas com grande desconfiança pelo poder local. Visto na época como uma figura obstinada, hoje ele é considerado um político visionário.

Quando Joos apresentou o primeiro projeto de lei nacional, alguns cantões já tinham leis que regulavam o trabalho nas fábricas, incluindo o trabalho infantil. Porém os empregadores eram muitas vezes muito negligentes e as regras diferenciavam-se muito entre os cantões.

A proposta de Joos de lançar uma lei federal demorou para dar frutos. Em 1877, dez anos depois da proposta original, a Suíça finalmente adotou sua primeira lei trabalhista de amplitude nacional. Com isso o trabalho infantil também foi proibido. Essa primeira lei trabalhista da Suíça era uma das mais rigorosas do mundo. O ex-conselheiro federal socialista Hans-Peter Tschudi chamou-a de uma “conquista pioneira em escala internacional”.

Trabalho infantil de acordo com a nova lei

Teoricamente, as crianças deveriam ter desaparecido das fábricas. Até a nova lei ser respeitada em toda a Suíça, levou algum tempo. No Ticino, por exemplo, 20 anos após a sua entrada em vigor, as crianças ainda trabalhavam nas fábricas.

De toda maneira, o trabalho infantil pouco a pouco desapareceu, pelo menos nas fábricas. Na agricultura a situação era diferente: ela durou até boa parte do século 20. Muitas famílias camponesas mantiveram ainda por cima crianças escravas, as chamadas “Verdingkinder” (ver box abaixo). Este capítulo sombrio da história suíça só foi revisado adequadamente há alguns anos.

Suíços pagam por trabalho infantil no exterior

Desde então não há mais trabalho infantil na Suíça. Mas sempre há casos de empresas suíças acusadas de se beneficiar do trabalho infantil no exterior. O exemplo mais recente ocorreu com o grupo de cimento Lafarge Holcim, acusado de comprar matérias-primas na África Oriental extraídas por crianças.

Uma iniciativa de responsabilidade corporativa exige agora que essas empresas sejam responsabilizadas. Seus iniciadores defendem que empresas suíças atuantes no exterior cumpram as leis suíças também em outros países. Uma demanda controversa: a adoção de uma iniciativa semelhante poderia prejudicar a Suíça como centro econômico internacional, conforme predizem alguns analistas econômicos.

“Verdingkinder”, as crianças escravas

Em sua maioria originárias de famílias pobres, mães solteiras ou órfãs, essas crianças eram colocadas (às vezes à força) sob a guarda das autoridades até serem despachadas para famílias de acolho, geralmente em fazendas. Ali elas eram frequentemente tratadas como escravas e usadas para trabalho forçado sem pagamento. De acordo com diversos testemunhos da época, elas eram exploradas, humilhadas e até violadas. Algumas inclusive foram mortas.

Trecho de uma redação escolar de um menino de 12 anos. Ele descreve seu cotidiano de operário, enfiando linhas nas agulhas dos teares, nos anos 1880.

“Assim que me levanto pela manhã, tenho que descer as escadas até o porão, para começar minha jornada. São mais ou menos cinco e meia da manhã. Aí eu tenho que enfiar as linhas nas agulhas dos teares até as sete horas e só então tomo o café-da-manhã. Depois volto ao trabalho até a hora de ir para a escola. Quando a escola termina, às onze horas, vou para casa e volto para as agulhas até às doze horas. Almoço e volto a trabalhar até pouco antes de uma da tarde. Retorno à escola, onde aprendo muitas coisas úteis. Quando chego em casa, trabalho até escurecer. Aí janto. Depois da janta, trabalho novamente até as dez da noite. Às vezes, quando o trabalho é urgente, fico até às onze da noite no porão. Depois digo aos meus pais boa noite e vou dormir. É assim todos os dias.

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

 

 

Children more likely to walk to school in Switzerland

Outubro 19, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do site https://www.swissinfo.ch/ de 4 de outubro de 2017.

 

Isobel Leybold-Johnson

In Switzerland 75% of children walk to school – that’s twice as high as countries like the United Kingdom and the United States. But there are worries that this could be changing.

As any foreigner with children going through the Swiss school system – particularly in German-speaking part – will know, letting your children walk to school or even Kindergarten at a young age is a rite of passage. But it is something that you have to get used to, particularly if you come from a country where pupils are often driven to school.

October marks walking to school month in many parts of the world, with October 4 designated International Walking to School Dayexternal link. Switzerland held an awareness day on September 22external link.

Walking to school film (VCS), showing the importance of movement, friends, experiences and taking responsibility

A recent reportexternal link commissioned by the Swiss Association for Transport and Environmentexternal link (VCS in German) found that 75% per cent of children walk to school in Switzerland. That compares to around 30-40% in the United Kingdomexternal link and the United Statesexternal link. Even neighbouring Gemany does not post such a high percentage at 50% in 2012external link.

Why so high?

VCS spokesman Matthias Müller said that tradition was one reason why so many Swiss children walked to school. Many mothers did not work, so they organised between themselves for children to gather together to walk to school, accompanied by one adult in a rotating role. More mothers work now, but the expectation that children go by foot has stayed, he said.

Independence is also encouraged from an early age. “This has to do with the tradition of the federal state in Switzerland, this healthy sense of liberalism in which you take care of yourself,” Müller said.

It is also much safer in Switzerland as there is certainly less traffic than in big cities like London and Sydney, he pointed out.

Nevertheless, the number of parents driving their children aged between 6 and 9 to school is on the increase – it has risen by 40% in the past ten years, according to the microcensus data in the report.

Safety was cited as a main concern by a third of the parents polled for the study.

“Parent taxis”

“Parent taxis” are more widespread in the French and Italian-speaking parts of the country.  Whereas in the German-speaking part, only 11% of children are taken to school at least once a week by car, this rises to 50% in the French part and 63% in the Italian part, Ticino.

Parents in German-speaking Switzerland feel school routes are safer due to the many traffic calming measures, especially around schools (e.g. 20-30km zones), said Müller. These are less common in the other parts of Switzerland, he explained.

VCS says that it can be dangerous if many cars are letting children out at the school gates. It also brings children health benefits to walk to school.

Teachers agree. “We don’t want pupils becoming a ‘generation of backseat kidsexternal link’ who are driven to school each morning by their parents,” said Beat Zemp, president of the Swiss Teachers’ Associationexternal link, in comments on the VCS walk to schoolexternal link website. “It makes more sense to first walk and then bike to school. This strengthens children’s’ self-confidence and their social skills. Also movement is healthy and contributes to the fight against obesity.”

Campaign and experiences

VCS is currently running a campaign to encourage more walking to school, particularly through the promotion of the pedibusexternal link “walking school bus” in which groups of children, aged 4-8, are accompanied to school by an adult. This is particularly popular in the French-speaking part of the country, where the pedibus has been in operation for 15 years.

The lobby group is also calling for more better traffic management and more bike paths.

A quick, unrepresentative, poll of parents at swissinfo.ch confirmed the cultural differences. It found that in the German-speaking, more rural areas, children were encouraged to walk to school or kindergarten from an early age. They received “training” from the local policeman. In bigger cities, some parents have banded together to take turns in accompanying children to school. In Zurich, for example, the police publish a map of safe routes to schoolexternal link. A parent living in Bern said that walking to school was encouraged to give children independence.

The pedibusexternal link was reported to be popular in Lausanne and growing. However, it was felt that the walking to school was in general less popular in western Switzerland. The school bus is often a lifesaver in rural areas where there is a long way to go to school, parents said.

swissinfo.ch

 

Pais portugueses entre os mais violentos

Outubro 17, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia do https://www.swissinfo.ch/por/ de 10 de outubro de 2017.

Um em cada cinco jovens na Suíça sofre graves castigos corporais nas mãos de seus pais, revelou um estudo realizado pela Universidade de Zurique.

A cifra de 20% é superior aos 13% revelados por um estudo similar realizado na Alemanha, disse o pesquisador Dirk Baier da Escola de Trabalho Social da Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique (ZHAW). O castigo corporal “severo” foi definido no estudo suíço como socos, pontapés, espancamento ou objetos jogados em cima do jovem.

Dois jovens em cinco foram vítimas de formas “mais suaves” de castigo corporal, como tapas ou empurrões.

Os números na verdade foram retirados dos resultados provisórios de um estudo em andamento sobre o terrorismo, que pesquisou 10 mil jovens de 17 anos na Suíça e incluiu questões sobre sua educação, disse Baier para swissinfo.ch.

Imigrantes

Comparando os resultados, ficou claro que, entre os suíços, o nível de violência era similar ao da Alemanha, disse Baier. A diferença vem dos grupos de imigrantes.

“Existem alguns grupos na Suíça, onde até 40% dos jovens sofrem castigos físicos graves por parte dos pais”, conta. O estudo revela que isso afeta principalmente as famílias dos Bálcãs, seguido de Portugal (37%).

A situação financeira da família também desempenha um papel: a taxa de violência entre os pais desempregados ou que vivem da ajuda social é duas vezes maior em relação aos outros.

Além disso, em algumas culturas, o castigo corporal pode ser percebido como uma parte normal da educação infantil. Isso também costumava ser a atitude na Suíça. O estresse devido ao status de imigrante também pode desempenhar um papel no altos níveis de violência familiar.

swissinfo.ch/fh

 mais informações nas notícias:

Un jeune sur cinq est victime de violences graves à la maison

Schockierende Zahlen: So brutal sind Schweizer Eltern bei der Erziehung

 

Um triste capítulo da história da Suíça – retirada de crianças

Fevereiro 15, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Texto publicado no http://www.swissinfo.ch/por/ a 4 de fevereiro de 2017.

swiss

Eles foram retirados das suas famílias e colocados em outros lugares. Milhares de crianças, muitas delas nascidas fora do casamento ou de famílias em condição de penúria, foram levados à abrigos ou transferidos para famílias de acolho.

Para muitos, as consequências dessas decisões legais foram traumáticas. Esse capítulo inglório da história da Suíça é tema de uma exposição recente e um livro.

“Assim que o oficial de justiça foi embora, o terror recomeçou”. Essa citação de Edith Lüthi-Hess resume em uma frase todo o drama das crianças escravizadas (Verdingkinder). Ela está no início do livro relativo à exposição do fotógrafo Peter Klaunzer (Agência Keystone) no centro cultural Polit-Forum Käfigturm, em Berna.

Ele fotografou 25 pessoas e escreveu seus perfis. Todos foram retirados de suas famílias ainda na infância e levados a outras famílias em fazendas no interior do país. Poucos têm histórias positivas para contar sobre esse período da sua vida. Muitos viveram abusos sexuais e violência nas famílias de acolho.

A prática de retirar crianças de famílias em situações precárias durou até o século 20. Apenas em 1981, depois da ratificação da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, a Suíça aboliu essa e outras medidas.

A exposição foi realizada em cooperação com a associação “Netzwerk-verdingt” e está aberta até 17 de março de 2017.

(Texto: Christian Raaflaub, swissinfo.ch)

mais fotos no link:

http://www.swissinfo.ch/por/inf%C3%A2ncia-roubada_um-triste-cap%C3%ADtulo-da-hist%C3%B3ria-da-su%C3%AD%C3%A7a/42918782

 

Tribunal Europeu declara que raparigas muçulmanas devem ter aulas de natação mistas

Janeiro 20, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do http://expresso.sapo.pt/ de 10 de janeiro de 2017.

mike-comer

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos pronunciou-se na sequência de um pedido de um casal muçulmano residente na Suíça.

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou esta terça-feira que as raparigas muçulmanas devem participar nas aulas de natação mistas nas escolas e não ficar isentas por motivos religiosos, argumentando que o seu interesse se sobrepõe à vontade dos pais.

A decisão do governo de obrigar as raparigas a participarem nas aulas de natação é, certamente, uma “interferência na liberdade de religião” das famílias, mas esta interferência é justificada em nome do “interesse das crianças numa escolarização completa, que permita a integração social bem-sucedida de acordo com os usos e costumes locais”, o que se sobrepõe à vontade dos pais, decidiu o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH).

O tribunal pronunciou-se a pedido de um casal residente em Bâle (noroeste da Suíça) e com dupla nacionalidade turca e suíça. O casal foi multado em quase 1.300 euros por ter recusado, em nome das suas convicções religiosas, que as suas duas filhas, então com sete e nove anos, fossem à piscina no quadro da sua escolaridade. As regras aplicáveis preveem possíveis isenções por motivos religiosos, mas apenas a partir da puberdade.

Os pais contestaram a sanção, em vão, nos tribunais suíços e depois recorreram aos juízes europeus, argumentando com uma violação da sua liberdade de consciência e de religião.

O TEDH não lhes deu razão, assinalando que os poderes públicos helvéticos tinham como objetivo a “proteção dos alunos estrangeiros contra qualquer fenómeno de exclusão social”.

“O interesse do ensino da natação não se limita ao aprender a nadar, mas reside sobretudo no facto de se praticar a atividade em comum com todos os outros alunos, sem qualquer exceção baseada na origem das crianças ou em convicções religiosas ou filosóficas dos seus pais”, sustenta o tribunal sediado em Estrasburgo.

Os magistrados salientam igualmente que foi permitido que as raparigas usassem o burkini (fato de banho integral), procurando dar resposta às preocupações da família.

Os pais podem ainda, nos próximos três meses, solicitar uma revisão do caso pelo tribunal, embora este não seja obrigado a aceitar o pedido.

consultar a decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos no link:

Judgment Osmanoglu and Kocabas v. Switzerland – compulsory mixed swimming lessons and religious convictions

 

 

 

Suíços resistem à educação baseada no medo – por enquanto

Setembro 5, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

texto do site http://www.swissinfo.ch/por/ de 29 de agosto de 2016.

Express

Por John Heilprin

Quando o consultor de negócios Christoph Hunziker voltou para Berna com sua família após mais de um ano no Peru, foi preciso apenas um dia para que seu filho de 6 anos de idade se acostumasse a ir sozinho para o jardim de infância.

A caminhada é de apenas algumas centenas de metros, através de um caminho entre prédios de apartamentos. Mas ele precisava ainda atravessar a entrada de uma garagem. O percurso acabou se transformando em um rito de passagem importante para ele.

“Isso tornou-o muito mais independente. E também mais maduro, eu acho. E responsável”, diz Hunziker.

Na Suíça, assim como nos Estados Unidos, Canadá e alguns outros países, é comum ver crianças caminhando sozinhas para a escola, ou brincando fora do alcance da voz ou dos olhos dos pais.

“Eu acho que ser independente o tanto quanto possível é algo completamente normal para as crianças”, diz Alexander Renggli, diplomata suíço e pai de dois filhos, que vê aí uma possível ligação com o sistema político da Suíça, baseado na democracia direta. “Talvez seja também parte de um valor político fundamental que temos na Suíça. É o que chamamos de autorresponsabilidade.”

Renggli passou grande parte de sua infância no exterior em lugares onde ele não podia sair por si mesmo, mas como pai ele aprecia a maneira suíça.

“Eu acho que isso também traduz de forma básica a maneira como somos socializados, como crescemos, assumindo responsabilidades desde pequeno”, disse.

Medo da violência

Os índices de criminalidade nos Estados Unidos são mais baixos agora do que na época em que os pais de meia-idade de hoje eram crianças e não podiam brincar ou ir para a escola sozinhos. O mesmo ocorre em alguns países como o Reino Unido, Canadá e Austrália.

E isso é um dos principais pontos do “Free-Range Kids”, um movimento de pais nos EUA que surgiu após o sucesso do livro da americana Lenore Skenazy, que aborda como educar as crianças para que elas cresçam em segurança e seguras de si.

Skenazy, que lançou o livro depois de escrever uma coluna de jornal em 2008 sobre deixar seu filho de 9 anos de idade andar sozinho de metrô em Nova York, disse que a Suíça oferece um bom exemplo de como não “superproteger” as crianças.

“A liberdade é uma parte essencial da vida”, diz Skenazy. “Se os pais estão sempre lá para mediar os problemas, os medos, os perigos e as confusões, as crianças acabam não tendo a oportunidade de fazer isso por conta própria.”

Meu primeiro dia de aula  Os primeiros passos de Elias na escola.

Crianças que brincam ou vão sozinhas para a escola é algo comum não só na Suíça, mas também em outros países como Alemanha, Japão e Holanda.

A ênfase na promoção da autossuficiência das crianças, permitindo-lhes mais independência, contrasta com alguns outros países desenvolvidos como os EUA, que só recentemente aprovou uma lei federal que permite às crianças irem à escola pela forma que os pais julgarem ser “apropriada à idade”.

Skenazy cita os índices de criminalidade para mostrar que a situação está muito mais segura nos EUA do que muitas pessoas pensam. Mas as pessoas acabam cedendo a seus medos, segundo ela, porque “o cérebro funciona como o Google”, às vezes dando importância demais a um único incidente – um fenômeno percebido também na Suíça.

Casos suíços

Em 2007, o desaparecimento de uma menina de cinco anos de idade no cantão de Appenzell, na região leste do país, pôs em questão a proteção das crianças na tradicionalmente “segura” Suíça, onde os casos de desaparecimento e assassinatos de crianças são raros.

No verão deste ano, o desaparecimento de um menino de 12 anos de idade em uma cidade do cantão de Solothurn revelou alguns perigos da era digital.

O menino foi encontrado na casa de um homem de 35 anos de idade em Düsseldorf, na Alemanha. Eles se conheceram jogando pela internet. A polícia prendeu o homem por suspeita de abuso sexual de menor e falsidade ideológica, e apreendeu em seu domicílio material de pornografia infantil.

Esses tipos de incidentes – e o ciclo incessante de notícias que geram – fazem com que alguns educadores temam que a Suíça possa, eventualmente, mudar suas normas. Para Babette Domig, professora aposentada de escola primária em Berna, muitas famílias suíças que vivem de forma tradicional no campo não têm tempo para superproteger suas crianças.

“Ter mais tempo, mais informações, saber mais (sobre o mundo), às vezes não só ajuda. Eu acho que é o que está acontecendo no momento”, disse.

Autonomia

Quando as crianças não podem descobrir as coisas por si mesmas, elas podem ficar sem as habilidades necessárias para lidar com as dificuldades. A psicóloga alemã Dorothe Dörholt diz ver algumas semelhanças entre seus jovens pacientes suíços.

“Muitos cresceram protegidos demais de tudo, sem ter contato com situações negativas”, conta. “Mais tarde, de repente, eles saem da escola, vão para a universidade e se sentem sobrecarregados. Eles não têm as ferramentas para lidar por conta própria com as dificuldades que enfrentamos como jovens adultos.”

Dörholt diz que todos os lugares em que ela morou – Alemanha, Estados Unidos e Suíça – são seguros para as crianças, mas o comportamento dos pais varia segundo o “medo ressentido”.

“Tem muito a ver com a mídia. Se você vê o tempo todo crianças sendo raptadas, mesmo que seja uma ocorrência rara, você acaba achando que o mundo é um lugar perigoso”, disse.

Segundo a psicóloga, as crianças têm uma tendência natural para a autonomia e é importante que os pais permitam que isso aconteça.

“Porque, se uma criança tiver êxito, ela percebe, ‘Uau, eu posso fazer isso’, e se não tiver, ela percebe, ‘Uau, isso foi difícil. Não consegui, mas nada de ruim aconteceu, então posso tentar de novo”, conta Dörholt.

A volta para casa

Alguns pais, como Hunziker, dizem que a volta da escola – um dos poucos momentos da semana quando as crianças podem ter tempo livre – é ainda mais importante para as crianças aprenderem a ser autônomas do que a ida para a escola, quando há um tempo a ser respeitado.

O próprio filho de Hunziker ficou irritado no primeiro dia do jardim de infância, quando viu que seu pai estava observando-o. Para o pai, a transição pode ter sido mais difícil – começando no Peru, onde ele se preocupava com o trânsito de Lima e outros problemas de segurança.

“Quando minha esposa ia a algum lugar com as crianças e eu ficava em casa ou estava em outro lugar, eu costumava ficar realmente preocupado”, conta Hunziker. “Mas aprendi a deixar um pouco, na verdade, com o tempo nos soltamos.”

mais informações no link:

http://www.swissinfo.ch/eng/-free-range-kids-_swiss-resist-fear-based-childrearing—for-now/42384890?srg_sm_campaign=general&srg_sm_medium=soc&srg_sm_source=sflow

 

Illegal detention of migrant children in Switzerland: a status report

Julho 21, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

illegal

“Children in the context of migration, whether accompanied, separated or unaccompanied should never be remanded in custody. Migratory status should not be considered as an offence and should not justify the detention of children as such.”

Jean Zermatten, Founder and former director of the International Institute for the Rights of the Child (IDE) and former President of the UN Committee on the Rights of the Child.

At the occasion of the seminar called “Promoting alternatives to the immigration detention of children in Switzerland”, Terre des hommes presents its recent report on Illegal detention of migrant children in Switzerland.

The international community has become increasingly concerned about the need to end the detention of children. However, in Switzerland as in many other countries there is not enough available information to permit an accurate analysis of the problem.

In order to address the lack of information on the administrative detention of children in Switzerland, Terre des hommes in mid-2015 assessed the situation of non-citizen children in Switzerland who are placed in detention for reasons related to their immigration status. It resulted in a clear lack of transparency. We don’t exactly know where children are detained. Of all the cantons questioned, only eight responded with complete answers. Six of them did not answer at all. The full report is available in three languages.

Suíça aprova reparações para vítimas infantis

Maio 13, 2016 às 9:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do http://www.swissinfo.ch/por de 27 de abril de 2016.

keystone

Por Jeannie Wurz

“filhos descartados”

Após dois dias de debate, a Câmara dos Deputados aprovou uma contraproposta do governo para a “Iniciativa de Reparação” – uma iniciativa popular que reconhece e compensa as vítimas da política de assistência social suíça e do trabalho infantil até 1981. A contraproposta deve agora ser aprovada pelo Senado.

Considerando que a iniciativa prevê a criação de um fundo de reparação de 500 milhões de francos ($ 514 mi), a contraproposta do governo criaria um fundo de 300 milhões para ser distribuído a um número estimado de 12.000 a 15.000 vítimas, com cada pessoa recebendo no máximo 25 mil francos.

A contraproposta foi vista como a melhor alternativa pela maioria dos membros da Câmara, com 143 votos a favor, 26 contra e 13 abstenções.

O iniciador da Iniciativa de Reparação, multimilionário Guido Fluri, disse que estava disposto, em princípio, a retirar a iniciativa, dependendo dos resultados da votação na Câmara e no Senado.

“Eu não poderia aceitar se o valor da retribuição fosse negociado ainda mais para baixo. Isso não seria certo. Mas posso apoiar a contraproposta por causa do timing. Muitas dessas pessoas são idosas e frágeis. Elas precisam dessa contribuição, deste reconhecimento e dessa oferta de solidariedade, agora – e não em três ou quatro anos”, disse para swissinfo.ch

Uma vantagem da contraproposta é que envolveria a aprovação de uma lei, e, portanto, poderia ser aplicada muito mais rapidamente do que a iniciativa inicial, que exigiria uma alteração da constituição e, portanto, uma votação dos suíços.

Além disso, a contraproposta deve incluir o reconhecimento oficial do sofrimento das vítimas, o acesso das vítimas aos arquivos públicos, e a criação de um programa nacional de pesquisa para investigar o problema.

A iniciativa chama a atenção para um período negro na história da Suíça, quando os chamados “filhos descartados” – vítimas das políticas de trabalho forçado ou internação em instituições – muitas vezes vítimas de abuso, negligência e, em alguns casos, até mesmo submetidas a esterilização ou participação forçada em experiências médicas.

O longo caminho das vítimas

1981: Na sequência da ratificação (em 1974) da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, a Suíça põe fim à detenção, à violação do direito à procriação (castrações e abortos forçados) e à adoção ou abrigo fora da família.

1999: Apresentação de uma iniciativa parlamentar pedindo a indenização das vítimas de esterilização forçada.

2009: Outra iniciativa parlamentar para a indemnização das vítimas de abrigamentos administrativos.

2009-2013: Composta de 300 testemunhos e fotos da época, a exposição itinerante “Enfances volées-Verdingkinder reden” percorre dez cidades suíças, recebendo mais de 85.000 visitantes.

2011: Entrega de duas interpelações parlamentares, a primeira para a reabilitação de pessoas acolhidas por decisão administrativa e o segundo para uma revisão da consciência histórica e um pedido de desculpas da Confederação às crianças separadas de suas famílias.

Abril de 2013: A Confederação (governo) pede desculpas às vítimas.

Junho de 2013: Criação de uma mesa redonda com as partes interessadas, incluindo igrejas e a União dos Agricultores Suíços.

Março de 2014: Lançamento da iniciativa popular “para a reparação”, que pede a criação de um fundo de 500 milhões de francos.

Julho de 2014: A mesa-redonda entrega seu relatório e um catálogo de medidas incluindo a atribuição de um único benefício financeiro de 4.000 a 12.000 francos por meio de um fundo de assistência imediata de 7 milhões fornecidos pelos cantões, cidades e municípios. Os pagamentos foram iniciados através da Chaîne du Bonheur (Fundação Humanitária da SRG SSR). O número de pedidos é estimado a 1000 até junho de 2015.

Agosto 2014: Entrada em vigor da Lei Federal sobre a reabilitação das pessoas colocadas por decisão administrativa. Ela reconhece a injustiça, cria o projeto de pesquisa Synergia e garante o arquivamento ou a abertura dos dossiês das vítimas.

Dezembro de 2014: A iniciativa popular “para a reparação” é entregue com 110.000 assinaturas. Ele pede para a criação de um fundo de compensação de CHF 500 milhões.

Dezembro de 2015: O governo suíço apresenta seu contra-projeto à iniciativa. Dispõe de um orçamento de 300 milhões para vítimas, uma média de 20 a 25 mil francos por pessoa.

27 de abril de 2016: A Câmara dos Deputados aceita o contra-projeto do governo à iniciativa “para a reparação”.

Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.