Sílvia Alves. “Não podemos escrever um mau livro para crianças”

Março 26, 2013 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 18 de Março de 2013.

silvia

Por Maria Espírito Santo,

“A Fábrica do Tempo” foi a desculpa para Maria Espírito Santo se encontrar com a autora e contadora de histórias.

O tempo vive numa fábrica. Aí há fumo a sair das chaminés, como em qualquer outra fábrica. Mas esta não é uma fábrica qualquer. Passado, presente e futuro lá moram e o ano que vivemos também, na forma de uma menina muito atarefada que toma conta de tudo o que é preciso: das estações aos dias. Até que um dia se começa a preocupar com o ano que lhe vai seguir e com o que este poderá fazer pelo mundo. Uma viagem mágica, uma reflexão sobre o quotidiano ou uma simples história que – quem diria – nasceu no meio da política.

O último livro para crianças de Sílvia Alves surgiu de uma ideia bem antiga que nos leva até 2005. Nessa altura, a autora escrevia para o suplemento “A Bruxinha” do jornal “Região de Leiria”, onde colaborou durante 12 anos. “Nessa altura, como estávamos na campanha para as eleições presidenciais, escrevi uma história para esse mês que se chamou ‘Eleições na Grande Fábrica do Tempo’ e era a propósito dos três candidatos que tínhamos na altura, o Cavaco Silva, o Manuel Alegre e o Mário Soares.” Passaram-se os anos e a história foi transformada em livro, conta Sílvia. Mas, coincidência das coincidências, calhou ser publicado num ano cheio de perguntas políticas e dúvidas sobre aquilo que nos espera. “A ideia de ir buscar a opinião dos anos passados remete-nos um bocadinho para a nossa necessidade de nos interrogarmos sobre o que é a nossa história. Sobre o que no nosso passado nos está a condicionar o presente e nos vai condicionar o futuro”, conta a autora sobre um dos significados de “A Fábrica do Tempo”.

Escrever um livro, para Sílvia, compara-se a tratar de um bonsai. Primeiro escreve a história, depois vai reflectindo sobre ela, sobre o que está a mais e se pode retirar. “As minhas histórias, normalmente, têm um período de adormecimento. É um crescimento lento, demoro até que elas fiquem naquele ponto em que penso que não vou fazer mais nada, que a história está fechada. O meu primeiro livro levou um ano até que a história ficasse totalmente pronta.” A autora fala de “Coisas de Mãe”, publicado em 2006. A esse seguiu-se “E Tu, Gostas de Histórias?”, que saiu para as livrarias em 2011.

O seu percurso enquanto escritora só começou há alguns anos, a escrever para o suplemento de leitura. Antes era professora de Biologia e Geologia e, mesmo nestes temas, fazia questão de realçar a importância da leitura aos alunos. Já desde os 12 que escrevia diários e ainda hoje se faz acompanhar por cadernos onde escreve com letra minúscula. E prefere fazê-lo na confusão em vez do silêncio. Por isso, os cafés são um bom local. Além da escrita, também se dedica à arte de contar histórias e já tem visita marcada numa reunião de contadores de histórias em Santiago do Chile, em Outubro.

Sílvia acredita que “as boas histórias não têm idade”. Mas não quer isto dizer que escrever para crianças não tenha as suas manhas. “Acho que, quando escrevemos para crianças, a história tem de funcionar em termos de leitura acompanhada, de uma situação de aula, de sessão de histórias. Não é como um livro para adultos, em que cada um faz um julgamento individual.” E aqui surge outra questão. Há outra variante que pesa, a responsabilidade: “Podemos escrever um mau livro para adultos, mas não devemos escrever um mau livro para crianças, não podemos. Porque estamos a formar, estamos a dar-lhes algo que não pode envenenar o seu percurso enquanto leitores.”


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