“Os miúdos aprendem que a pessoa mais agressiva é quem tem mais poder”

Maio 31, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Público a Sheri Bauman no dia 24 de maio de 2015.

Nuno Ferreira Santos

Catarina Gomes

“Houve uma necessidade evolutiva de uma hierarquia e de agressão. Já não precisamos destes comportamentos para sobreviver mas eles persistem”, diz a especialista norte americana em bullying, Sheri Bauman.

Sheri Bauman, psicóloga norte americana especialista em bullying, esteve em Portugal como oradora do Seminário “Estratégias e medidas de prevenção do bullying e do cyberbullying”, no ISCTE-IUL, em Lisboa. Trabalhou em escolas públicas durante 30 anos, é professora na Universidade do Arizona e tem várias investigações sobre as respostas dos professores ao bullying. Lamenta que ainda hoje haja docentes que recebem denúncias de alunos com respostas como “não sejas queixinhas”.

Existe uma história do bullying?

Pode-se dizer que existe bullying desde que há seres humanos na Terra. Mas a primeira investigação é da década de 1970, na Noruega, foi levada a cabo por Dan Olweus [professor de psicologia], que se interessou pelo problema depois de ter havido três suicídios de crianças numa escola, que se descobriu que estavam ligados, estavam a ser vítimas de bullying. Foi um caso que galvanizou o pais. Quando se começou a investigar a questão em termos científicos constatou-se que havia muitos mitos e mal-entendidos sobre esta questão que não faziam qualquer sentido.

Por exemplo?

Aceitava-se o bullying como algo normal, dizia-se coisas como: ‘toda a gente passa por isso e ultrapassa’, ‘faz parte do processo normal de crescimento’, ‘eu passei por isso fiquei mais forte’, ‘só os rapazes é que são bullies’. Não se fazia nada para o impedir porque não era visto como uma coisa importante, Se toda a gente passa por isso porquê preocuparmo-nos?

Descobriu-se então que havia motivo de preocupação…

As investigações mostraram que está associado com a depressão, com o isolamento dos pares, com ansiedade. Constatou-se que os agressores têm mais probabilidade de virem a desenvolver comportamentos de delinquência juvenil, de virem a ser presos em adultos.

É possível traçar um perfil da vítima de bullying?

Crianças mais pequenas, mais fracas, mais tímidas, deprimidas e ansiosas, que não têm boas competências sociais, que podem não ter as vantagens de outras crianças, por exemplo, se toda a gente anda com uns sapatos de marca e a criança não tem dinheiro para os comprar… É a criança isolada sem amigos, sozinha.

As investigações dizem que há grupos específicos que tendem a ser alvos preferenciais…

As crianças com algum tipo de deficiência, que andam na educação especial, que têm direito a senhas de almoço na escolas, que são vistas como sinal de pobreza, migrantes tendem a ser alvo de bullying com mais frequência do que outras crianças.

É o ser diferente?

O que é determinante é ser a minoria. Mas tudo depende do contexto. Conduzi um estudo numa escola onde a maioria da minha amostra eram miúdos brancos de origem anglosaxónica e havia uma minoria de hispânicos e estes, neste caso, tendiam a ser mais vitimas de bullying. E encontrei o contrário, numa pesquisa que fiz numa escola junto à fronteira com o México, onde a maioria dos alunos eram mexicanos, eram os brancos que tendiam a ser mais vítimizados. Existe uma necessidade para a conformidade e quem ameaça isso, no sentido de que ‘somos todos iguais’, tende a ser mais vitimizado.

É a lei da sobrevivência, como no início dos tempos.

É a lei dos mais fortes. Se pensarmos nos primeiros seres humanos a existência de uma hierarquia era importante. Se há um grupo de famílias que vive na nossa caverna e chega um agressor de outro grupo de famílias, ou um tigre para nos atacar, não temos tempo para decidir ‘como é que nos podemos organizar?’. Não, precisamos de saber que ‘x’ é o topo e nós fazemos todos o que ele disser. Houve uma necessidade evolutiva de ter uma hierarquia. A necessidade de agressão, de hierarquia foi muito importante para os grupos sociais. Mesmo que hoje já não seja tão importante persiste, torna-se um traço das interacções sociais. Todos os nossos governos são hierárquicos. Já não precisamos destes comportamentos para sobreviver mas eles persistem.

Como se continuássemos a ser primários?

Os miúdos são óptimos a observar quem é o mais poderoso. Quando vêem que a pessoa mais agressiva tem mais poder, vantagens, melhores empregos, assimilam ‘este é um comportamento útil, vou imitá-lo’. Temos todos estes programas e intenções para ajudar os miúdos a melhorarem os seus comportamentos e queremos educar os nossos filhos a tratarem-se uns aos outros de forma bondosa, mas, nos Estados Unidos, os políticos, as celebridades são o oposto do que queremos ensinar os nossos filhos a ser. É uma contradição, é confuso. O que eles vêem à sua volta é exactamente o oposto do que lhes queremos ensinar.

Nas suas investigações constata que muitos miúdos vitimizados não contam aos adultos. Porquê?

Eles sentem que ainda correm o risco de serem vistos como queixinhas. Contar a alguém é visto como um acto de cobardia. Alguns acreditam que os professores não são úteis. Que contar pode piorar ainda mais as coisas e eles não querem correr esse risco.

O que é que os adultos podem fazer, neste caso os professores, para melhorar a situação quando as crianças a decidem denunciar?

Uma das formas de agir que as investigações provaram que os miúdos valorizam é quando o adulto diz que vai agir, e depois faz o follow up, dois dias depois, uma semana depois. A seguir, o comportamento que se comprovou ser mais útil é simplesmente ouvi-los, mostrar preocupação, é eles entenderem que são levados a sério.

Em vez de desvalorizar…

Se um miúdo tem uma pequena borbulha e diz que lhe chamam “cara de pizza”, como me aconteceu a mim quando era pequena, responder ‘isso é uma palermice’ não ajuda. Tem de se tentar perceber até que ponto a criança se sente humilhada e com medo. É importante perguntar-lhe até que ponto isso a perturba e não pressupor que a situação só é grave quando a criança está a ser agredida violentamente. A seguir, o que mais ajuda é aconselhar. O professor pode não intervir publicamente na aula, pode dizer apenas ‘talvez se tentares isto’ e depois falamos outra vez para ver como correu. Muitas campanhas antibullying nas escolas incluem apresentações na aulas, trazer um orador para falar sobre o assunto, a investigação diz que este tipo de iniciativas não tem grandes efeitos.

Há comportamentos dos adultos que tornam as coisas piores?

Há coisas completamente contraproducentes. Não ajuda dizer-lhes ‘estás a ser queixinhas’ e isso acontece, por mais que nos surpreenda. Eu sou testemunha-perita num julgamento que está a decorrer em que um miúdo de 11 anos se suicidou, e uma das professora a quem ele se queixou disse-lhe ‘pára de te queixar a toda a hora’. Não se trata de queixar, é reportar, denunciar. Era um miúdo com fenda palatina que mesmo depois da cirurgia ficou com uma voz assobiada. Tinha havido queixas de bullying à directora, registo de trocas de emails dos pais com professores e nada se fez.

Há adultos que ignoram?

Muitos estudos dizem que 8% a 10% das denuncias feitas aos professores são ignoradas. E ignorar a denúncia e pensar que ‘faz parte do processo de crescimento’ é das coisas piores que se pode fazer nestes casos. Os currículos dos cursos de professores raramente contemplam as questões do bullying em profundidade. Passa-se algum conhecimento de background, diz-se por exemplo que há formas sociais, verbais ou físicas de bullying, mas não se dá ferramentas para lidar com o problema.

 

 

 


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