Panda Biggs cortou beijo homossexual na série infanto-juvenil Sailor Moon

Junho 19, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia do Público de 9 de junho de 2018.

Os cortes, que se alargaram às cenas em que se fala da identidade de género, motivaram queixa da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Entidade Reguladora da Comunicação Social decidiu arquivar o processo.

Natália Faria

Há muito que a natureza da relação entre duas personagens numa série de animação infanto-juvenil alimentava discussões acesas nos fóruns da Internet: Haruka e Michiru, da série Sailor Moon Crystal, não são primas, como foram apresentadas nalgumas das versões internacionais da série japonesa, mas namoradas. E, apesar de se vestir como um rapaz, Haruka é, afinal, uma rapariga apaixonada por desporto e corridas de automóveis. Mas a sua aparência andrógina e a relação homossexual que mantém com Haruka são aparentemente de “apreensão complexa” para as crianças dos oito aos 14 anos a que a série se destina, pelo que o canal Panda Biggs decidiu cortar as cenas que abordavam as temáticas da homossexualidade e transgénero.

A decisão motivou várias queixas à Entidade Reguladora Para a Comunicação Social (ERC), uma das quais apresentada pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), o organismo responsável pela promoção e defesa desses princípios. A ERC entendeu, porém, que não resulta do corte dessas cenas qualquer apelo à discriminação em razão da orientação sexual, pelo que determinou o arquivamento do processo.

Na decisão publicada esta sexta-feira, a ERC refere-se a quatro participações contra o Panda Biggs relacionadas com a transmissão da série de animação japonesa Sailor Moon Crystal 3, além da queixa apresentada pela própria CIG. Todas aludiam aos cortes da cena em que as duas personagens femininas se beijavam, bem como de todas as demais cenas em que se aflorava a questão da identidade de género de uma das personagens, Haruka, uma rapariga com gostos, comportamento e aparência geralmente associados ao género masculino. No entender dos queixosos, tais cortes reforçam a “invisibilidade de expressões afectivas não-normativas”. E a alegação de que se tratou de um acto discriminatório com base na orientação sexual assentou na constatação de que as cenas de assédio sexual, em que uma personagem masculina força o beijo de uma rapariga, foram transmitidas “sem qualquer pudor sobre o público-alvo”.

Decisões destas traduzem-se na “desvalorização social destas pessoas [não normativas], colocando-as numa situação de fragilidade e marginalidade social”, alegam os queixosos, um dos quais sustenta que o corte da cena em que uma personagem revela que é andrógina configura uma “discriminação de género” que vai contra o artigo 13.º da Constituição.

Cenas desadequadas

À ERC, o Panda Biggs alegou que tais cenas eram desadequadas ao público-alvo e ao perfil do canal e que a sua retransmissão poderia “não ter o melhor acolhimento”. “Tratou-se tão-somente de uma apreciação de natureza editorial que nada tem a ver com censura”, alegou o canal, reivindicando o direito à liberdade editorial.

A ERC reconhece que os artigos 37.º e 38.º da Constituição consagram tal liberdade e sustenta que não resulta de tais cortes qualquer incitamento ao ódio gerado pelo sexo e pela orientação sexual mas um silenciamento das temáticas homossexuais e transgénero de um programa infantil tidas como desadequadas ao público jovem. “Tal preocupação até é legítima, dado que se está perante um assunto fracturante na sociedade portuguesa”, concede a ERC.

“É forçoso reconhecer que as temáticas da homossexualidade e do transgénero ainda não são, no contexto social actual, inteiramente aceites por toda a sociedade portuguesa, originando controvérsia. Pode admitir-se até que sejam de uma apreensão mais complexa para as crianças”, reforçou a ERC, para concluir: “Não se põe, por isso, em causa a liberdade editorial do serviço de programas Panda Biggs, que tem a liberdade de escolher os programas que transmite.”

Deliberação da ERC citada na notícia:

Deliberação ERC/2018/95 (CONTPROG-TV)

 

 

Pais das crianças do Supernanny também são réus

Fevereiro 21, 2018 às 3:20 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

 

Notícia de Ana Dias Cordeiro, em 20 de fevereiro de 2018, para o Público.

Acção do Ministério Público contra a SIC e os pais que aceitaram que os filhos entrassem no programa começou a ser julgada. Procuradora diz que lesaram “direito de personalidade” das crianças.

Quando recebeu o email de um centro de estudos de Actividades de Tempos Livres que a filha de sete anos frequenta a propor que a criança entrasse num programa na SIC, Patrícia Mateus pensou que esta “ajuda” lhe tinha “caído do céu”. O programa Supernanny, da produtora Warner Bros, que viria a expô-la nos seus habituais comportamentos na intimidade, começava por ser apresentado como forma de “a ajudar a educar a filha”.

O email foi-lhe enviado pelo centro de estudo Sopro, que conhecia a dificuldades de comportamento da menina, mas originalmente vinha da produtora que procurava crianças para o programa e prometia ajudar os pais de filhos que não tinham controlo ou limites. A Warner recorreu a várias associações e Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) para conseguir chegar a famílias nestas circunstâncias.

Depois de responder a uma lista de perguntas, confirmando que se sentia impotente perante os comportamentos da filha, Patrícia Mateus foi escolhida. O mesmo centro de estudos encaminhou mais duas famílias para a produtora, contou esta terça-feira aquela mãe ao PÚBLICO num intervalo da primeira audiência que decorre no Tribunal de Oeiras e que opõe o Ministério Público (MP) à estação SIC que transmite o programa, à produtora Warner Bros, e aos pais das três crianças cujas imagens passaram nos dois primeiros episódios.

Também confirmou que o acordo que ela e o ex-marido assinaram a aprovar a participação no programa prevê uma contrapartida de mil euros que ainda estarão para receber. Além disso, o acordo também contemplava a hipótese de as imagens passarem noutros países.

Das três partes visadas pelo Ministério Público na sua acção civil por defesa do direito de tutela da personalidade, a SIC e a Warner são instadas a suspender a exibição do programa que o MP considera atentar contra a dignidade e os direitos da criança, ou a exibirem-no com restrições.

O MP entende, por outro lado, que os representantes legais das crianças envolvidas no programa “lesaram o direito de personalidade” dos filhos, o que justificou uma acção do MP em nome das crianças.

A SIC transmitiu o primeiro episódio a 14 de Janeiro e o segundo – envolvendo duas crianças da mesma família, um rapaz e uma rapariga – uma semana depois. O terceiro episódio foi suspenso por decisão da SIC que recusou as condições impostas pelo tribunal, depois de um pedido urgente do MP para a retirada de todos os conteúdos passados e futuros. O tribunal impôs como condição que a estação televisiva utilizasse “filtros” de imagem e de voz de modo a que ninguém – crianças ou familiares – pudesse ser identificado.

A SIC entendeu na altura que as alterações “inviabilizavam a transmissão do programa.

Entre as testemunhas arroladas pela SIC, cujo advogados são Tiago Félix da Costa e João Brito, estão a psicóloga Teresa Paula Marques, protagonista no programa, e Luís Proença, director de programas da estação televisiva.

Quintino Aires é testemunha

O psicólogo Quintino Aires, que a Ordem dos Psicólogos tentou suspender retirando-lhe a cédula – por conselhos dados na televisão enquanto psicólogo a pais com problemas com os filhos –, também é testemunha. A decisão sobre a cédula arrasta-se pelo menos desde 2014 por constante contestação do próprio psicólogo nos tribunais.

A primeira testemunha arrolada pelo MP a ser ouvida na primeira sessão desta terça-feira foi a presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, Rosário Farmhouse, que reiterou a posição assumida no comunicado publicado no mês passado: o programa transmite “uma imagem negativa da criança que repetida, ampliada e exagerada” resulta num “tipo de exposição que traz impactos gravíssimos para o seu desenvolvimento”.

“O seu bom nome e a sua imagem foram muito devassados”, acrescentou. Ao contrário do que alega a SIC, disse ainda, “este programa não concorre de forma nenhuma para ajudar os pais” a lidar com as dificuldades da parentalidade.

“Pode até ser perigoso”, frisou Rosário Farmhouse. “Pode dar a ideia aos pais de que pode ajudar, quando na verdade este formato em nada pode ajudar os pais”. Patrícia Mateus acreditou que podia ser ajudada. A psicóloga que acompanha a criança sempre lhe disse que ela não tem qualquer problema psicológico, e que apenas é preciso agir relativamente ao comportamento.

 

“Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que não foram identificados como tal”

Maio 16, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

Entrevista do https://www.publico.pt/ a Ivone Patrão no dia 7 de maio de 2017.

A professora teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa da Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Bárbara Wong

Nas últimas semanas, o país foi surpreendido com um jogo que pode levar os que aderem ao suicídio, é a última etapa do jogo, antes disso as propostas passam pela automutilação. É o jogo Baleia Azul e tem tido aderentes que vão parar ao hospital. Paralelamente há uma série para jovens e adolescentes, com produção executiva da ex-estrela da Disney Selena Gómez, que também gira em torno do suicídio de uma adolescente e que já levou escolas nos EUA a boicotar a série; na Nova Zelândia e no Canadá, os departamentos responsáveis pela classificação dos filmes considerou a série Por 13 Razões não adequada a jovens com menos de 18 anos e no Brasil a visualização levou a que centenas de jovens pedissem ajuda. A série que é uma adaptação do livro de Jay Asher aborda ainda a violação, o bullying, a depressão e a falta de acesso a cuidados de saúde mental.

A psicóloga Ivone Patrão, que trabalha na primeira consulta de dependência de Internet no país, que funciona no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, escreveu recentemente o livro #geração-cordão sobre as gerações que estão dependentes das novas tecnologias. A também professora no ISPA- Instituto Universitário teme que os casos de adolescentes que chegam ao hospital por causa do Baleia Azul possam ser mais do que os já conhecidos e apela aos pais para que estabeleçam regras.

Temos o jogo Baleia Azul e temos a série Por 13 Razões onde o suicídio está permanentemente presente. Até que ponto estes não servem para despoletar nos jovens o desejo do suicídio?

Claro. Confrontamo-nos com jovens que estão em sofrimento e se estas tarefas do Baleia Azul não existissem eles estariam a automutilar-se e a instituir um plano suicida. O jogo ou a série só vêm dar o mote. Há um sofrimento físico que ajuda a anular o sofrimento psicológico. O jovem pensa: “Eu sinto-me tão deprimido, tão vulnerável, tão mal que ao cortar-me sinto-me aliviado” e este jogo, para um jovem isolado, surge como alguém que não faz juízos de valor e o incita.

Até que ponto esta geração está mais perdida do que as anteriores porque têm menos perspectivas de vida?

Não diria que é uma geração perdida, mas que tem um risco que as anteriores não tinham, por causa do acesso fácil a tudo, por não ter de saber as coisas mas só o sítio onde elas estão. Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

O suicídio entre os jovens é a segunda causa de morte, diz a OMS.

Primeiro são os acidentes de viação e depois o suicídio. Eu diria que poderá haver muitas situações de suicídio que são considerados acidente e podem não ser. Em termos de número podemos ter dados superiores e não temos valores concretos das tentativas. Tenho situações de jovens que já tentaram suicidar-se três vezes, quer dizer que estão em sofrimento e que quem está à volta não se apercebe. Entrar neste jogo é muito fácil para estes jovens.

Mas o jogo não é também o testar os limites? Ou seja, não pode ser jogado por jovens que não têm esse quadro que descreve?

É comum e típico dos jovens querer testar os limites, mas só até um certo nível, percebem quando há uma zona de perigo. Portanto, se não estiverem em sofrimento ou vulneráveis recuam e não jogam.

As notícias sobre este jogo podem levar mais jovens a entrar no Baleia Azul?

Haverá muitos que terão curiosidade porque querem saber o que é, até que ponto os tentam manipular, mas só jogarão se estiverem em grande sofrimento.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

Mas o jogo ou a série não podem servir de alerta para não cometer o suicídio?

Pode funcionar não para os que estão em sofrimento, mas para os que vão ouvir as notícias com mais cuidado sobre outros que ficaram hospitalizados ou morreram. Vai funcionar para pais e professores para estarem atentos. Se estas situações não surgissem como é que a população em geral sabia?

Pode servir para jovens falarem com um professor ou com os pais de um amigo que esteja nessa situação. É preciso conhecer os sinais de alerta – alterações de comportamento, baixo rendimento escolar, distanciamento na relação com os colegas.

Se calhar já existiram mais casos do Baleia Azul que os profissionais das urgências não identificaram como tal e definiram como automutilação porque o jogo era desconhecido. Haverá mais casos que poderão ser associados ao jogo.

Faz sentido para os jovens jogarem o Baleia Rosa ou vão achar que é uma parvoíce?

É positivo e estará adaptado aos que gostam da lógica dos desafios e de conseguir fazer bem e depressa as tarefas que, neste caso, são adequadas. É preferível que joguem e é de recomendar sempre que peçam ajuda especializada quando se sentem num beco sem saída.

O que é a “geração-cordão” que dá título ao seu livro?

É uma metáfora que tem a ver com a questão de ser uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Como é que devemos gerir as tecnologias nas nossas vidas?

Ainda estamos a anos-luz. Em inquéritos é muito engraçado os pais responderem: “não deixo estar muito tempo” ou “deixo o tempo que baste” [a usar o computador]. O que é isso? É ausência de clareza e traz muitos conflitos. Muitos jovens chegam à consulta porque os pais não sabem o que fazer. Desde crianças que lhes damos tablets e smartphones sem estabelecer regras e quando chegam à adolescência já é tarde.

Até que ponto os pais também dão um mau exemplo do uso das tecnologias?

Os pais são um exemplo presencial e virtual. E ainda não parámos para pensar nisso. Temos muitos pais com adolescentes que têm Facebook e outras redes e querem instituir regras em casa, mas depois fazem posts à uma da manhã. Costumo dizer que à hora de jantar, a família pode fazer um “encontro da tecnologia” onde se juntam os telefones todos. A tecnologia encontra-se num sítio e a família noutro para conversar e conviver. Dificilmente as pessoas o fazem.

Alguns pais estão conscientes que são um modelo presencial, mas não acredito que tenham a ideia que também são um exemplo virtual. Mesmo com crianças pequenas, estas observam a relação do adulto com a tecnologia e fazem uma aquisição do que vêem. Estamos no princípio da consciencialização e é preciso afinar práticas educativas. É importante que se comece cedo, não a evitar as tecnologias, mas a enquadrá-las, introduzindo-as com regras e limites.

Haverá mais situações de jovens e crianças em risco e mais a experimentar o Baleia Azul. Tenho acompanhado jovens com automutilação. Lembro-me de uma jovem que não conseguia verbalizar e escrevia sobre a sensação que tinha quando se cortava, era um alívio, tudo ficava mais simples e mais fácil de lidar.

Como é que se resolve?

Há uma componente de intervenção com a família. É importante que os objectos cortantes não estejam disponíveis, que a família não faça juízos de valor, mas que compreenda o que se passa. Geralmente está escondido, nota-se nos comportamentos: baixo rendimento escolar, depressão, isolamento, jovens que chegam à consulta muito vestidos… Começo logo a suspeitar. Há uma componente de intervenção de psicoterapia que perdura

Cura-se?

(Silêncio) É importante a adesão do jovem à intervenção. Para compreender esse estado e fazer um caminho diferente com estratégias positivas. Vi algumas imagens da mutilação da baleia no braço de uma jovem, que se nota que tem uma componente artística fantástica, portanto um desenho daquela jovem deve ser belíssimo. Significa que tem interesses que foram deixados de lado e que é preciso ir buscar. Muitas vezes há acontecimentos de vida – perda de coesão na família, a dificuldade de os pais têm de lidar com o crescimento dos filhos… Não quero fazer uma relação directa com o divórcio, mas às vezes, percebemos que estes jovens andam à semana, numa casa e noutra, e ninguém se apercebe do que está a acontecer.

Estes jovens que se automutilam também podem ser vítimas de bullying?

De bullying e de ciberbullying. Eles têm os telemóveis durante todo o dia – as regras variam de casa para a escola, de escola para escola, e até há professores que têm uma cesta onde os alunos põem o telefone, mas eles têm dois, o outro fica no bolso!

Portanto, há fotografias, vídeos, criam-se grupos para gozar com o colega, criam-se situações que é difícil os adultos terem percepção das mesmas porque uma coisa é o bullying directo que se vê no recreio, outra é este que se passa na rede.

Se não vêem, o que podem fazer os pais ou os professores?

Estes jovens dão sinais, ficam mais inquietos, mais agressivos. Às vezes podem ser os pais a pedir ajudar, a ir a uma consulta de triagem. Os pais podem ver o histórico do computador; fazer uma conversa pela positiva, de interesse e não de crítica. Tudo isto é mais fácil se os pais começarem quando eles ainda são crianças porque na adolescência cheira-lhes a intrusão. Aos 16 anos não se lhes pode pedir a password do email.

O que está a dizer é que os pais precisam de criar relação com os filhos e falar com eles.

É essencial, desde muito cedo. Eles são do toque, desenvolvem essas competências sozinhos. Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

E os pais estão a dar essa chucha antes de lhes dar um livro, um brinquedo de pano ou de madeira.

É verdade. Damos e não tem mal em dar, mas não pode ser só isso. Não tem mal usar tecnologia, é preciso saber as regras e os pais não estão a fazer isso.

Que outros casos ligados a dependência da tecnologia chegam à consulta de Santa Maria?

Chegam-nos as situações mais graves. A consulta existe desde 2013. São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

E as raparigas?

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Qual é a percentagem de jovens com dependência?

Os estudos indicam 25%. No Japão ou na China é mais de 45%. Associado ao número de horas temos o isolamento e a desistência de outro tipo de actividades, de lazer, desportivas e de contacto social. Efectivamente, temos muitos jovens que deixam a prática do desporto porque assim têm mais horas para jogar; que não vão ao cinema ou que aproveitam os furos nas aulas para jogar.

O ministro da Saúde japonês implementou os bootcamps obrigatórios de desenvolvimento pessoal sem tecnologia. Têm centros de internamento.

São necessários em Portugal?

Nalgumas situações que temos que são mais graves. Estes jovens estão em absentismo escolar e não trabalham. Há comunidades terapêuticas para toxicodependentes que podem dar apoio nestas situações porque do ponto de vista neurológico é uma dependência sem estar ligada a nenhuma substância, mas activa as mesmas partes do cérebro que as drogas ou o álcool.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Passaria por consultas?

Passaria primeiro por formação. Passaria por termos técnicos nos centros de saúde que possam fazer formação mais concreta para responder quando há casos de maior vulnerabilidade. Ainda estamos no início do que vai aparecer.

Vai ser pior que o Baleia Azul?

Pode haver outros jogos, estão sempre a surgir mais jogos.

 

Serviços telefónicos de ajuda e apoio ao suicídio em Portugal e na Europa

 

SOS – Serviço Nacional de Socorro 112

SOS Voz Amiga (entre as 16 e as 24h00) 21 354 45 45 91 280 26 69 96 352 46 60

SOS Telefone Amigo 239 72 10 10

Telefone da Amizade 22 832 35 35

Escutar – Voz de Apoio – Gaia  22 550 60 70

SOS Estudante (20h00 à 1h00) 808 200 204

Vozes Amigas de Esperança (20h00 às 23h00) 22 208 07 07

Centro Internet Segura 800 21 90 90  Linha Internet Segura

 

 

“Suicídio é o limite de todo o sofrimento. Série expõe jovens ao risco” declarações de Melanie Tavares do IAC

Maio 8, 2017 às 7:41 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do site https://www.noticiasaominuto.com/ de 6 de maio de 2017.

A Dra. Melanie Tavares, Coordenadora dos Sectores da Actividade Lúdica e da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança do Instituto de Apoio à Criança, comenta a notícia.

O suicídio é um assunto sobre o qual pouco se fala, mas que tem dado muito que falar nos últimos dias. Ao mesmo tempo que vamos tendo conhecimento de adolescentes que desafiam a morte através do jogo Baleia Azul – e são já pelo menos oito os casos em Portugal -, há uma série televisiva a despertar o debate em torno do suicídio na adolescência.

Falamos da série da Netflix ’13 Reasons Why’ em que a protagonista é uma jovem que acaba com a própria vida esvaindo-se em sangue numa banheira após cortar os pulsos. A história é contada pela própria adolescente que decide deixar cassetes a explicar de viva voz as razões que a levaram a tal ato. As 13 cassetes são, propositadamente, entregues a todos aqueles que contribuíram para o seu suicídio, sem se darem conta de tal, e revelam um acumular de situações que se agravam ao longo da história.

A questão que se coloca é saber se séries como estas são ou não bem-vindas, se funcionam como alerta à nossa sociedade ou, se por outro lado, são o último ‘empurrão’ a quem já se encontra em situação vulnerável. Ao Notícias ao Minuto, a psicóloga Melanie Tavares explicou o quão perigosa pode ser a série sobretudo para aqueles que já tiverem pensamentos suicidas.

“A quem se encontra numa situação vulnerável pode até causar uma distorção cognitiva da mensagem. Qualquer pessoa, de qualquer idade, mediante situações dessas, pode identificar-se com a personagem, considerando que aquele é o caminho e até, inclusive, estar num sofrimento profundo e olhar para a personagem como uma heroína, que coragem de fazer aquilo que ela ainda não conseguiu”.

E o facto de a história ser contada de uma forma algo romantizada, na opinião da psicóloga, “não ajuda nada”. “Quando uma pessoa, ainda por cima tem uma vulnerabilidade, acaba por ser contaminada pelos efeitos perversos das coisas”, frisa a especialista do Instituto de Apoio à Criança.

A especialista defende que 13 anos – idade a partir da qual a Netflix recomenda a série – é “precoce”, tendo em conta a exposição ao perigo que ela representa. Tal como num filme pornográfico, compara, “visionar esta série, ainda que acompanhados dos pais”, não é o mais correto. É, na sua opinião, “contraproducente”, embora os pais devam, em última instância, supervisionar todos os conteúdos que os filhos vêem.

Assistir a cenas como aquelas que se vêem na série em causa não é benéfica. O importante, defende, é atuar na base da prevenção, não do suicídio em si mas sim das causas que levam a que a morte seja encarada como a única solução. “Os adolescentes não precisam de ver para falar nisso, como o caso agora da Baleia Azul, não é preciso ver para discutir o problema na escola”.

“O grande problema destas questões todas é a comunicação que falta. Falta de tempo dos pais para estar e conversar com os filhos, no meio de tantas rotinas. O tempo de estar é o que promove a comunicação e isso falha muito. numa sociedade apressada, não se trabalha muito as questões do sentir”.

Comunicação, a palavra de ordem

A prevenção, em todas as áreas que impliquem comportamentos de risco, é a palavra-chave para tratar o suicídio. É crucial estar atento a comportamentos de risco, como a a automutilação, e a sinais como a tristeza, a apatia, o isolamento social, as alterações de humor, “tudo sinais de que as coisas não estão bem”. “E no limite, quando as coisas não estão bem, comete-se o suicídio, ou como forma de acabar com o sofrimento, ou para pedir ajuda”, refere a psicóloga, explicando que, por vezes, há suicídios em que o objetivo não é morrer. “Às vezes as coisas não correm como esperam e acaba por acontecer o pior”.

A forma de combater os problemas que podem levar as crianças e adolescentes a acabar com a própria vida é, reforça a especialista, “ter mais psicólogos atentos nas escolas, equipas multidisciplinares que possam estar com a criança não só em contexto de sala de aula, que é o que acontece. Em contexto de sala de aula existe uma quantidade de regras que torna difícil perceber quando a criança ou jovem foge à norma. Quanto mais o vemos no ‘meio deles’, em situações informais, mais nos apercebemos de alterações de comportamento”.

Sendo o suicídio “o limite de todo o sofrimento”, defende, a prevenção tem de ser feita em todas as áreas, nomeadamente no bullying, na educação sexual, porque pode ser um problema de identidade, um problema de aceitação de identidade. “Prevenir o suicídio é o debate. Temos de prevenir as coisas que normalmente levam ao suicídio”, insiste. Prevenir e jamais “desvalorizar os problemas” dos adolescentes como se não o fossem.

A grande base dessa prevenção é a comunicação entre família – escola. “Se todos comunicarem, alguém há-de perceber que aquela criança/jovem está a ter comportamentos de risco”, salienta. “Ninguém sabe que faltou às aulas, que chegou atrasado e tinha um corte na mão, não há aqui ninguém que dê o alerta. Se em casa não conversa com a família e não conta que há um menino que todos os dias o ameaça na escola, não se pode evitar que isto tudo aconteça”, fundamenta, frisando que o ser humano precisa de viver em relação com o outro como de água para matar a sede. “Não vivemos se não for em relação, somos seres sociais”.

Em suma, devemos sim debater todo o tipo de problemas, suicídio juvenil incluído, mas não confrontá-los com situações tão dramáticas como as que a série mostra, porque estes “não têm maturidade para as descodificar”. Melanie deixa ainda um aviso. Apesar de o debate poder ser benéfico, o “excesso de informação tem efeito multiplicador” e “temos de ter cuidado com a forma como se veicula a informação e a forma como é percecionada. Tudo o que tem um efeito pedagógico é benéfico, o que nem sempre acontece com as notícias sobre o tema”. As notícias, defende, “não podem ter um efeito sensacionalista, de desgraça”.

 

 

A adolescência pode ser um fardo impossível de suportar

Abril 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia do https://www.publico.pt/ de 30 de março de 2017.

Clay (Dylan Minnette) ouve a história dos últimos meses de vida de Hanna Beth Dubber /Netflix

Por Treze Razões estreia-se esta sexta-feira na Netflix. Parte do best-seller homónimo de Jay Asher para falar de temas como cyberbullying, abuso sexual e suicídio juvenil.

Maria João Monteiro

Quando Clay chega a casa depois de mais um dia de escola, tem uma misteriosa caixa à sua espera. Lá dentro encontram-se sete cassetes com 13 mensagens gravadas por Hannah, a sua colega de turma que se suicidou duas semanas antes e por quem sentia um carinho especial. A missão de Hannah é simples – dirigir-se a cada uma das 13 pessoas que tiveram um papel, maior ou menor, na sua decisão de pôr fim à vida e explicar o impacto das suas acções aparentemente inofensivas naquele desfecho trágico. Por Treze Razões é a nova série da Netflix e baseia-se no best-seller homónimo de Jay Asher lançado em 2008 (em Portugal foi editado pela Presença). “Este livro é incrivelmente trágico e sombrio em muitos aspectos, mas, em última instância, é uma história que fala de esperança”, disse Brian Yorkey, criador da série, citado pelo The Hollywood Reporter.

Ao longo de 13 episódios contados por Clay e Hannah, numa narrativa dual que flutua entre o presente e o passado, somos convidados a percorrer as memórias da protagonista relacionadas com cada uma das pessoas envolvidas nas circunstâncias da sua morte – quer as que a afectaram directamente, quer as que poderiam ter tido uma maior intervenção a seu favor – e com os lugares onde esses acontecimentos decorreram. A ideia é que as cassetes sejam ouvidas por todos os nomes que constam da lista deixada por Hannah. “Estou prestes a contar-vos a história da minha vida – mais especificamente, por que é que a minha vida acabou. Se estás a ouvir esta gravação, és uma das razões”, diz Hannah no trailer de apresentação da série. Clay só tem memória de ter tratado bem a colega de turma, mas quando carrega no play percebe que essa impressão pode não corresponder à verdade.

Por Treze Razões retrata a pressão social da adolescência e contextualiza o cyberbullying, a depressão, o abuso físico e psicológico, o suicídio. Paralelamente, aponta a passividade individual e de grupo – de pais e funcionários da escola – que protege muitas vezes os agressores de sofrerem as consequências das suas acções e empurra as vítimas para um estado de desespero sem retorno. “Lembro-me de que depois de filmar vi uma notícia sobre uma rapariga que se matou”, disse Katherine Langford, que interpreta a protagonista, citada pelo New York Daily News. “Foi um lembrete horrível de que o que tínhamos filmado é real e acontece com adolescentes em todo o lado.”

À medida que a história avança pelos últimos meses da vida da protagonista, é possível perceber que a situação de Hannah, embora levada ao extremo, não é única. Problemas como o bullying e a baixa auto-estima estendem-se a grande parte da sua comunidade escolar e, nomeadamente, às 13 pessoas mencionadas nas gravações. A série aborda, ainda, a forma como os pais de Hannah lidam com a sua inesperada morte, já que não lhes é deixada qualquer nota, mas sim muitas perguntas que aparentemente não têm resposta.

Com argumento de Brian Yorkey e Jay Asher, a série tem produção executiva de Tom McCarthy (O Caso Spotlight), que também realizou dois dos episódios. O projecto foi inicialmente pensado por Mandy Teefey para ser desenvolvido e protagonizado pela filha, Selena Gomez, mas desde então a história sofreu grandes alterações e as duas acabaram por aparecer como produtoras executivas da série, tendo os papéis principais sido entregues aos novatos Katherine Langford e Dylan Minnette. “Gosto do facto de não aparecer. Este livro tem um público tão grande que eu queria que [a série] fosse credível. Se eu fizesse parte dela, iria gerar um outro tipo de conversa”, explicou Selena Gomez numa entrevista ao jornal norte-americano New York Times.

Por Treze Razões promete ser o ponto de partida para uma maior discussão entre os pais e os adolescentes sobre os temas abordados e tem recebido diversas críticas positivas. A Variety refere que a série “faz um excelente trabalho ao retratar as emoções intensas da adolescência sem ser condescendente para com os espectadores, tenham eles a idade que tiverem”. Já o Uproxx acrescenta que “os melhores episódios são pequenas histórias marcantes sobre a forma como os adolescentes (…) se magoam mutuamente sem terem a intenção de o fazer ou sem se aperceberem do que estão a fazer”. A série conta ainda com nomes como Kate Walsh (Clínica Privada, Anatomia de Grey), Brian D’Arcy James (Smash), Derek Luke (Empire) e Miles Heizer (Parenthood).

 

 


Entries e comentários feeds.