“Os jovens não têm noção de mortalidade. Ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos”

Julho 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Consumir drogas e perder a virgindade aos 12 anos é uma realidade em Portugal. Quem é o afirma é Francisco Salgueiro, que traça um retrato da adolescência em pleno século XXI. O escritor, autor de vários livros dedicados ao tema, lançou em junho “Sexo, Drogas e Selfies”, e revelou ao Expresso uma realidade que leva muitos jovens a arriscarem a vida para serem populares no grupo de amigos.

Francisco Salgueiro é autor de vários livros sobre um dos períodos mais complexos e exigentes na vida de pais e filhos: a adolescência. Em 2010 publicou o primeiro livro dedicado ao tema “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa” e três anos mais tarde repetia a dose com o 2.º volume – “O Fim da Inocência – Diário Secreto de Um Adolescente Português”. Este mês lançou “SDS – Sexo, Drogas e Selfies”. Uma visão crua sobre uma realidade que muitos pais continuam a ignorar.

O que é que o levou a escrever um terceiro livro sobre os adolescentes portugueses?
Os pais ainda não acreditam que esta é uma realidade e que acontece aos seus filhos. Continuo a ter muitos pais que me dizem: “também na nossa altura uns fumavam erva, outros cheiravam cocaína e apanhávamos bebedeiras de coma alcoólico”. Não percebem que há muito mais a acontecer. As crianças estão a começar cada vez mais cedo nas drogas, álcool e sexo. Há um mundo diferente que os pais têm de perceber. Os mais novos, de 12 anos, tentam imitar os mais velhos, de 14 e 15 anos.

Este livro é um alerta para os pais?
Sim. Quis passar a mensagem de que na realidade destes jovens não há afetos genuínos, há pessoas descartáveis, pessoas utilizadas pelos seus corpos, relacionamentos de amizade que não o são. Estes miúdos não estão atentos ao que se passa à volta deles e gostam em massa dos mesmos temas sem sequer os discutirem.

Como é que surgiu a necessidade de partilhar estas mensagens?
Sou uma esponja de inspiração, tudo aquilo que posso absorver à minha volta vou absorvendo e há uma altura em que tenho necessidade de partilhar o que andei a recolher. O SDS junta centenas de histórias desde o “Fim da Inocência”. Nos dois primeiros livros, as histórias que contava passavam-se aos 14 anos e os editores da Leya diziam “como é que é possível ser tão cedo? Se calhar temos que indicar outra idade”. Eu dizia-lhes que não, que tínhamos de ser sinceros. Ficaram boquiabertos com as histórias que conto neste livro e que envolvem jovens de 12 anos.

Qual a principal diferença entre este livro e os anteriores?
É a idade, tudo se inicia mais cedo. As selfies, por exemplo, vieram tornar as relações descartáveis. Ter uma conversa pouco importa se tirarmos uma selfie e parecermos muito contentes. Há uma falta de auto-estima muito grande e o ‘fear of missing out’ – o medo de perder alguma coisa. Os jovens vivem na era dos ‘likes’, precisam de fazer algo para serem validados, para terem aprovação social. Os pais não estão lá a dizer “não precisas da aprovação social porque eu estou aqui, eu valido-te, eu gosto de ti”.

Este livro retrata a sociedade ou apenas um estereótipo?
Não posso generalizar que todas as pessoas sejam assim. Mas dei muitas palestras de norte a sul do país e percebi que esta realidade existe de facto, porque há uma coisa comum a todos estes jovens: a internet.

A internet é o pólo agregador dos comportamentos de risco atuais. É lá que os miúdos vêem pornografia desde muito cedo, os ‘youtubers’, que podem comprar droga, é lá que tudo se passa…

Os jovens têm consciência do que estão a fazer?
Muitos miúdos afirmam ter tomado “um comprimido qualquer” que lhes ofereceram e eu pergunto-lhes: “então mas o que é que continha o comprimido? Perguntaram? Fizeram um teste? (existem muitas carrinhas que fazem esse tipo de testes)”. Respondem-me: “não me interessa, era uma coisa qualquer e eu tomei porque achei graça”. Existe a cultura do YOLO – you only live once (só vives uma vez). Não há noção de mortalidade, ninguém pensa que vai morrer aos 13 ou 14 anos. Portanto, é um comprimido que pode ter sido feito numa garagem na China e que ninguém faz a mínima ideia do que contém, e para os miúdos é totalmente indiferente tomar este ou outro qualquer.

São os protagonistas das suas histórias que o procuram?
No primeiro livro, foi a Inês que veio ter comigo e que se expôs, contando-me uma série de histórias, nas quais não acreditei desde logo. Encontrei-me com ela, mais tarde, e com o seu grupo de amigos no Bairro Alto e apercebi-me que o que ela contara não era assim tão descabido. Assisti a algumas das histórias relatadas, e se eu que saio à noite não conhecia aquela realidade, como é que os pais haveriam de conhecer? No “Sexo, Drogas e Selfies (SDS)” peguei em histórias de várias pessoas. De repente passei a ser o repositório das histórias que todas as raparigas me queriam escrever e contar porque não têm coragem para falar com os pais.

Há pais que o abordam ou pedem para falar consigo?
Há casos em que vieram falar comigo para me contar uma história que aconteceu, mas geralmente são poucos. Muitos dizem-me que têm medo de ler os meus livros e são eles quem mais precisa de os ler. Alguns acham que por os filhos não saírem à noite estão protegidos mas na verdade não estão. Basta terem um computador em casa, com ligação à internet, e fecharem-se no quarto.

Antigamente era preciso ir para a rua, agora bastam estes comportamentos dentro de casa. Os próprios pais cometem erros nas redes sociais, pelo que tem de haver um crescimento coletivo. Não se pode recorrer ao argumento “eu sou mais velho, sei mais coisas que tu”, até porque provavelmente isso não é verdade, os miúdos sabem muito mais das redes sociais.

Como é que um escritor se transforma (quase) num psicólogo de adolescentes?
Não é fácil. Tento não o ser. Há dois tipos de emails que eu recebo: o mail de exposição, de quem quer falar, desabafar, sem procurar mais. Depois há outras pessoas que querem procurar e precisam, porque não sabem o que fazer à sua vida. Eu não sou psicólogo, mas como já me cruzei com muitas destas histórias procuro dar-lhes força, agir com bom-senso, tentando alertar para os comportamentos de risco.

Como foi sair à noite com estes miúdos e perceber o que se passava?
Depois de terem tomado comprimidos, aconteceu estarem ao telemóvel comigo e dizerem-me “vou-me atirar da janela abaixo, porque é lindo, vou voar”. Como na história do comboio (partilhada no SDS), em que tirar uma selfie para se ser popular é uma prioridade, mesmo quando se está completamente bêbedo (ou quando se ingeriu qualquer coisa), colocando a vida em risco. Os jovens não ganham consciência, procuram cada vez mais imitar os mais velhos. O pensamento é este: “Se os mais velhos cheiram cocaína, eu com 13 anos também quero experimentar, se não lhes acontece nada de especial, porque é que me há-de acontecer a mim?”

A história em que me inspirei para a parte final do livro chocou-me muito, foi-me contada pela irmã da pessoa que passou pelo problema. Foi a que mais me chocou até hoje. Estamos a chegar ao limite, para lá daquilo não há mais nada.

O que falta na relação entre pais e filhos?
Muitas vezes os pais chegam cansados do trabalho e a última coisa que lhes apetece é dar atenção aos filhos e falar com eles. O “Fim da Inocência” trouxe à tona o interesse da comunicação social por estes temas que surgem muitas vezes nas primeiras páginas. Não há desculpa para que os pais não estejam alerta.

Como é que os pais conseguem falar com os filhos sem estes acharem as conversas uma “seca”?
Este tipo de livros e artigos da Comunicação Social podem ser tema de conversa. Tem de haver um espaço dinâmico e de troca de ideias, e não de moralismos. É a pior coisa. Os jovens falam muito comigo porque não sou moralista e tenho um espírito muito aberto. Se um filho diz aos pais “já experimentei”, não o podem colocar de castigo, e têm de desconstruir o problema para que o filho não volte a consumir. Se os pais optam por colocar os filhos de castigo, eles voltam a repetir, porque o fruto proibido é o mais apetecido.

 

Entrevista publicada no jornal Expresso em 2 de julho de 2018

Adolescência. 3 histórias chocantes de sexo, violência e selfies

Junho 20, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 11de junho de 2018.

por MARTA GONÇALVES MIRANDA

Depois de “O Fim da Inocência”, Francisco Salgueiro recebeu centenas de relatos de jovens. O resultado é “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies”.

Sexo, drogas, álcool. Noites levadas ao limite, partilhas incessantes nas redes sociais, bebedeiras que quase terminam em coma alcoólico. Foi em 2010 que Francisco Salgueiro publicou o livro “O Fim da Inocência“, inspirado na história real de uma adolescente portuguesa.

Inês tem uma vida aparentemente perfeita, frequenta um dos melhores colégios nos arredores de Lisboa e relaciona-se com filhos de embaixadores e presidentes de grandes empresas. Mas é também consumidora regular de drogas, participa em jogos sexuais arriscados e utiliza desregradamente a internet.

“Antes de terminar ‘O Fim da Inocência’, perguntava a toda a gente se alguém conhecia histórias de outros adolescentes e ninguém conhecia. Era uma espécie de tabu”, conta à MAGG Francisco Salgueiro, 45 anos. “Quando o livro é publicado, começo a receber imensas histórias.”

“O Fim da Inocência” foi um enorme sucesso — em vendas, é verdade (já vai na 13.ª edição), mas também no despertar de uma consciência adormecida. Os pais não faziam a menor ideia do que os filhos andavam a fazer, a comunicação social não abordava estes temas. Depois do livro, e ainda mais depois da adaptação ao cinema (“O Fim da Inocência” foi o filme mais visto em 2017), tudo isso mudou.

“Quando escrevi ‘O Fim da Inocência’ achava que aquela era a geração que mais riscos estava a correr. Agora vejo claramente que é esta.”

Oito anos depois, ainda é raro o dia em que Francisco Salgueiro não recebe pelo menos um email de um adolescente a narrar-lhe alguma coisa. Foi por isso que surgiu a ideia de publicar “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies“, que reúne várias histórias reais que lhe foram enviadas. São relatos novos e verídicos que mostram o que os jovens do século XXI fazem no seu dia a dia, em particular à noite.

E mudou assim tanta coisa desde Inês? Sim. E está pior? Sem dúvida. “Quando escrevi ‘O Fim da Inocência’ achava que aquela era a geração que mais riscos estava a correr. Agora vejo claramente que é esta.”

Por um lado, culpa das suas próprias profissões e estilos de vida, os pais acabam por estar mais desligados. Por outro, os miúdos vivem a cultura do YOLO (You Only Live Once — só vivemos uma vez) e do FOMO (Fear of Missing Out — medo de estarem a perder alguma coisa).

“Para nós pode não parecer muito tempo, mas para os adolescentes oito anos é de facto muito tempo em termos de novidades do que eles fazem no seu dia a dia. Há coisas que eles fazem hoje em dia que não passa pela cabeça dos pais ou das pessoas mais velhas.”

A MAGG pediu a Francisco Salgueiro que escolhesse excertos das histórias que mais o chocaram. Uma rapariga apanhada pelo segurança da discoteca a fazer sexo oral na casa de banho, e a ser filmada por amigos e desconhecidos. Uma jovem que reflete sobre um grupo de amigos que só interage via redes sociais (mesmo quando estão na mesma sala). Uma saída à noite que termina com uma agressão verbal — e física. Três histórias chocantes de “S.D.S. — Sexo, Drogas e Selfies”.

Atenção: as histórias que se seguem contêm cenas e linguagem sexualmente explícitas que podem ser consideradas inadequadas e ofender.

Ler as histórias no link:

https://magg.pt/2018/06/11/adolescencia-3-historias-chocantes-de-sexo-violencia-e-selfies/

 

‘Selfitis’ é a nova terminologia para os viciados em selfies. Saiba se é um deles

Abril 25, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto da http://visao.sapo.pt/visaomais/ de 9 de abril de 2018.

Sara Rodrigues

Um estudo realizado na Índia demonstra que há seis razões principais para as pessoas tirarem selfies. A competição social e a busca de atenção são apenas duas

Quando, em 2014, vários jornais republicaram uma notícia que dava conta de que a Sociedade Psiquiátrica Americana iria classificar a selfitis – o vício em fazer selfies – como um distúrbio mental vários investigadores indianos ficaram em alerta. Logo depois, soube-se que a história não passava de um embuste (fake-news), mas os docentes ficaram com a pulga atrás da orelha. Assim, e como desde 1995, ano que foi publicado o primeiro estudo sobre “adições tecnológicas”, foram várias os distúrbios estudados e cunhados – como o vício da internet, dos videojogos online ou do telemóvel – porque não poderia existir também um ligado às selfies?

Juntaram-se investigadores de duas universidades indianas, Nothingham Trent e Thiagarajar School of Management, e pegaram numa amostra de 400 estudantes e em focus group com outros 200 (90% com menos de 25 anos). O estudo não pretende ser um retrato internacional ou mesmo da população indiana, já que, como referem os autores, a amostra foi selecionada nas universidades e não representa várias gerações, embora possa servir de base para futuros estudos empíricos sobre esta mania que alastrou pelo mundo inteiro.

Esta análise foi feita na Índia porque é este o país como mais utilizadores de Facebook e com o maior número de mortes relacionadas com a tentativa de fazer selfies em locais perigosos.

O estudo, publicado no International Journal of Mental Helth and Addiction, classificou os selfitis em três categorias: borderline, agudo, crónico.

Borderline – tira selfies pelo menos três vezes por dia, mas não as publica nas redes sociais
Agudo – tira selfies pelo menos três vezes por dia e publica-as nas redes sociais
Crónico – tira selfies de forma descontrolada o dia inteiro e publica pelo menos seis

Os investigadores identificaram seis fatores de motivação para os selfitis: os que querem aumentar a auto-confiança, os que buscam por atenção, para melhorar o humor, registar memórias quando se está num ambiente agradável, aumentar a integração no grupo que as rodeia e competição social.

A prevalência destes itens determina o grau de vício de cada um.

“O facto de esta história ter tido início numa notícia falsa, não quer dizer que a condição de selfitis não possa existir. Confirmámos a sua existência e criámos a Escala de Comportamento Selfitis”, referiu o investigador Mark Griffiths.

Os investigadores criaram uma grelha de 20 perguntas para aferir do grau de adição de cada um.

Responda a cada uma das perguntas utilizando uma escala de 1 a 5. Em que 5 quer dizer “concordo plenamente” e 1 quer dizer “discordo completamente”. Quanto maior a sua pontuação, maior a probabilidade de você sofrer de “selfitis”

1- Tirar selfies dá-me a sensação de estar a aproveitar melhor o ambiente em que estou

2 – Partilhar as minhas selfies cria uma competição saudável com os meus amigos e colegas

3 – Tenho muito mais atenção dos outros se partilhar as selfies nas redes sociais

4 – Consigo reduzir o meu nível de stress quando tiro selfies

5 – Sinto-me confiante quando tiro selfies

6 – Sou melhor aceite no meu grupo de amigos quando tiro selfies e as partilho nas redes sociais

7 – Consigo expressar-me melhor no meu ambiente através das selfies

8 – Fazer selfies em diversas poses ajuda a aumentar o meu estatuto social

9 – Sinto-me mais popular quando publico selfies nas redes sociais

10 – Tirar selfies melhora o meu humor e faz-se sentir feliz

11 – Sinto-me melhor em relação a mim mesmo quando tiro selfies

12 – Torno-me mais forte no meu grupo de amigos quando publico selfies

13 – Tirar selfies faz com que me lembre melhor de ocasiões e experiências

14 – Publico selfies frequentemente para ter mais “gostos” e comentários nas redes sociais

15 – Ao publicar selfies espero uma avaliação dos meus amigos

16 – Tirar selfies muda instantaneamente o meu humor

17 – Tiro selfies e olho para elas em privado como forma de aumentar a minha auto-confiança

18 – Quando não tiro selfies sinto-me separado do meu grupo de amigos

19 – Tiro selfies como troféus para a minha memória

20 – Edito ou uso filtros de imagem para que as minhas selfies fiquem melhor do que as dos outros

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

An Exploratory Study of “Selfitis” and the Development of the Selfitis Behavior Scale

 

A escola, as selfies e os amigos (incluindo os virtuais)

Dezembro 23, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 19 de dezembro de 2014.

Paulo Pimenta

Andreia Sanches

Retrato da adolescência em 2014. A maioria não apresenta dependência patológica da utilização da Internet e 17% têm amigos virtuais.

Gostam da escola (é o que dizem 73% dos adolescentes), gostam dos colegas (87%), gostam menos dos professores (53,9%). Mas do que gostam menos, mesmo, é das aulas (só 39% gostam). A “matéria” é “muito difícil”, “aborrecida” e “demasiada” — é o diagnóstico feito por mais de seis em cada dez dos mais de 6000 adolescentes inquiridos.

A relação difícil (mais difícil do que noutros países) com a escola não é uma novidade. Já tinha sido identificada noutras análises semelhantes a esta para a Organização Mundial de Saúde (OMS), como nota a equipa da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa, e do Centro da Malária e Doenças Tropicais, da Nova de Lisboa, que elaborou o estudo A Saúde dos Adolescentes Portugueses, feito de quatro em quatro anos, desde 1998. “O papel da escola na vida e no futuro dos adolescentes é pois um problema diversas vezes apontado e sem evolução positiva desde 1998”, concluem os investigadores.

E quando acabarem o secundário, o que vão fazer estes jovens — muitos dos quais (25%) confessam que se preocupam com o futuro quase todos os dias? Metade (54,9%) conta ir para uma universidade ou instituto politécnico. Há quatro anos eram mais os que queriam prosseguir: 63,5%.

Os mais de 6000 inquéritos realizados permitem encontrar resposta para muitas outras perguntas: o que consomem, como passam o tempo, como se vêem a si próprios e como avaliam a relação com os pais? É um breve retrato da adolescência em 2014 o que se segue.

Comece-se pelo fim. Os adolescentes portugueses tendem a dar nota muito positiva à relação que têm com a família (8,8 numa escala de 0 a 10), sendo que os rapazes tendem a sentir-se mais satisfeitos. Uma nuance: a “classificação” que os adolescentes dão aos pais vai piorando com a idade.

Mais de metade gastam entre uma e três horas a ver televisão durante a semana. São, aliás, cada vez menos os que passam mais tempo do que isso à frente do velho ecrã.

O computador (só 3,5% dizem não ter um em casa) é outro ecrã de eleição. Cerca de metade dos adolescentes utiliza-o entre uma a três horas por dia para conversar, navegar na Internet, enviar e-mails, para fazer os trabalhos de casa. E 38% utilizam-no, no mesmo número de horas, para jogar.

Preocupante? Os investigadores concluíram que a maioria dos jovens não apresenta comportamentos de dependência patológica da utilização da Internet. Numa escala de 9 a 45, sendo 45 “elevada dependência”, o nível médio dos rapazes é 18,99 e o das raparigas 16,6.

O corpo ideal

Quase um em cada cinco fala diariamente com os amigos pelo Skype ou pelo FaceTime. Sinal dos tempos: o estudo deste ano questionou pela primeira vez os jovens sobre quantas vezes se fotografam e enviam as suas “selfies” aos amigos ou as publicam online. E 3,2% fazem-no diariamente (outros 15,6% semanalmente). As raparigas são mais dadas às “selfies”.

Os amigos são sobretudo reais mas passaram também a ser virtuais. Dos jovens que disseram ter pelo menos um amigo (sem discriminar se era de carne e osso ou não) 17% têm pelo menos um amigo virtual.

Quanto ao chamado cyberbullying (o bullying exercido nas redes sociais de que tanto se tem falado), é uma realidade para cerca de 11% dos adolescentes: 5,5% dizem que foram vítimas, 2% assumem-se como provocadores e 3,4 % já desempenharam os dois papéis.

Mais físicas são as “lutas” em que se envolveram 20% dos alunos no último ano (mais os rapazes). Para além disso, um terço (34%) diz que nos últimos dois meses foi provocado na escola mais do que uma vez por semana.

Outros aspectos importantes na vida de muitos adolescentes? Apenas mais dois: os SMS (mais de um em cada três diz que envia 20 ou mais diárias) e a aparência (quase dois terços apresentam um índice de massa corporal dentro do parâmetro normal). Metade (53,4%) considera ter um “corpo ideal”, sendo que os rapazes são mais seguros e consideram mais frequentemente ter um corpo perfeito do que as meninas.

Tomar o pequeno-almoço todos os dias é a regra (79,8% afirmam fazê-lo, ainda assim, menos do que há quatro anos, quando eram 84%). Quanto ao tipo de alimentação, mais de metade dos adolescentes inquiridos refere comer fruta e vegetais pelo menos uma vez por semana.

Outra boa notícia: são mais (55%) do que há quatro anos os que dizem que fazem actividade física três vezes ou mais por semana. Os adolescentes de 2014 mexem-se mais.

A Saúde dos Adolescentes Portugueses foi feito por uma equipa coordenada pela investigadora Margarida Gaspar de Matos. Recebeu o financiamento da Direcção-Geral de Saúde. E deverá integrar o grande retrato internacional da adolescência, conhecido por Health Behaviour in School-aged Children, da OMS, no qual participam mais 42 países.

 

 


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