Uma entrevista para pais, dirigentes e treinadores. “Os atletas brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório”

Março 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Carlos Neto ao http://tribunaexpresso.pt/ de 1 de março de 2017.

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Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana e não há ninguém melhor para explicar como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita. É que a atual, em Portugal, não está adequada às necessidades dos mais novos, explica à Tribuna Expresso, ressalvando também que é urgente formar… os pais

Mariana Cabral

[começa a falar antes da pergunta] Bem, gostava de começar por dizer que, em pleno século XXI, o fenómeno desportivo é um fenómeno social de grande envergadura em termos mundiais, o que significa que nunca o desporto teve tanto impacto na sociedade como nos dias de hoje. Quer de um ponto de vista económico, porque é de facto uma economia gigantesca, como social, porque motiva todas as idades e credos, e ultrapassa fronteiras em todos os espaços geográficos e culturas diferenciadas. De facto tornou-se um fenómeno nunca visto na vida do homem. Significa que tem impacto ao longo da idade, desde as crianças até aos idosos, quer quanto a praticantes, quer quanto a espetadores, quer quanto aos que são agentes relacionados com o desporto, sejam treinadores, dirigentes ou formadores. É um fenómeno de facto fantástico. Hoje em dia temos imensas crianças e jovens a fazer atividade desportiva organizada e estruturada, o que significa que há uma expectativa muito forte destas crianças poderem atingir sucesso.

Tem tudo a ver com o mediatismo do desporto?

Também. É evidente que nas últimas décadas os orgãos de comunicação social são responsáveis por tornar o fenómeno desportivo altamente mediático e altamente participativo em todo o mundo e em todas as culturas. O que significa que de um ponto vista sociológico, de um ponto de vista cultural, de um ponto de vista político, a prática desportiva em crianças e jovens e adultos tornou-se de facto viral. É algo que faz parte da vida, não só em termos de objetivos de saúde, em termos de objetivos pedagógicos, mas também do ponto de vista que é o treino de alto rendimento, o espectáculo desportivo, com todos os seus ingredientes de natureza emocional, de natureza psicológica, de natureza económica, de natureza antropológica. Diria que a prática desportiva faz parte do quotidiano dos portugueses e praticamente de todas as sociedades. O que é interessante aqui analisar é a questão de como a formação desportiva em crianças e jovens deve ser feita.

Pelos clubes ou pelos pais?

Necessariamente a questão da família, a questão do clube, do local onde pratica, que também pode ser na escola. Os pais têm um papel absolutamente fundamental na capacidade de guiar os seus próprios filhos nessa prática desportiva. Nos últimos anos têm vindo a ser feitos alguns estudos no sentido de demonstrar como o comportamento parental é uma variável muito importante neste processo. É claro que podemos discutir esta questão do ponto de vista das perceções que os adultos têm do que deve ser a vida dos filhos. Normalmente os pais têm uma tendência quase patológica de querer colocar nos filhos as frustrações do seu próprio processo de desenvolvimento desportivo e querem que os filhos sejam campeões a qualquer preço, e muitas vezes esquecem-se que eles são seres humanos em crescimento, que necessitam de aprender coisas fundamentais da vida, que necessitam de um acompanhamento escolar como deve ser… E tudo isso está integrado. Significa que há aqui perceções, crenças, valores e imaginários que é preciso compreender, quer do ponto de vista das crianças e jovens, quer do ponto de vista dos pais, quer do ponto de vista dos treinadores. Esta trilogia pais-treinadores-crianças… é absolutamente importante falar nisto hoje em dia. Há um assunto que considero da maior importância, que é, como é que se dá valorização à formação desportiva dos jovens do ponto de vista de criação de valores, de cidadania.

É preciso mais desportivismo e menos competitividade?

O desporto é uma atividade absolutamente fascinante para tornar as pessoas mais cidadãs, com mais humanismo, com mais socialização e com mais capacidade crítica e mais capacidade de perceber o mundo que as envolve. Portanto há aqui constragimentos sociais e políticos que muitas vezes são centrados numa preocupação excessiva de querer uma competitividade fora das características de desenvolvimento da criança e do jovem e por outro lado um sucesso muito rápido e a qualquer preço. Os campeões não se fazem à pressa. Tem que ser respeito o seu processo de desenvolvimento e têm que ser respeitadas as motivações intrínsecas das crianças. E há aqui algumas regras que são absolutamente fundamentais: é preciso ter tempo para crescer. Ainda recentemente, a Telma Monteiro, uma grande atleta olímpica portuguesa, dizia, porque começou a atividade desportiva de judo muito tarde, “deixem as crianças brincar”, e depois então fazer a atividade desportiva. E, de facto, é preciso que as crianças primeiro tenham uma vivência variada do seu próprio corpo, que tenham uma exploração diversa de vários tipos de atividades, que possam construir uma cultura motora básica e fundamental, que seja essencial depois para uma capacidade adaptativa a habilidades e atividades mais específicas mais tarde. Claro que isto varia muito de modalidade para modalidade desportiva, não podemos comparar a aprendizagem na ginástica aos jogos coletivos, são duas dinâmicas distintas. Mas é preciso que as crianças construam primeiro a sua própria identidade, brinquem muito na infância, consigam correr riscos, consigam fazer uma diversidade de atividades, de modo a ganharem essa cultura motora básica, que é o pré requisito para terem sucesso mais tarde, do ponto de vista de atletas.

Puxando o exemplo do futebol, atualmente fala-se muito da necessidade do futebol de rua no desenvolvimento de talentos, mas hoje em dia já não temos futebol na rua, praticamente. Como é que pomos uma criança na rua, a brincar, a subir às árvores?

Vivemos num tempo de grande sedentarismo e as crianças sofrem por isso. É um tempo de analfabetismo motor, porque elas não têm de facto uma literacia corporal adequada, porque o tempo de brincar na rua desapareceu, está em vias de extinção. As crianças hoje não têm tempo para brincar, explorar com os amigos a rua, não jogam à bola – porque uma coisa é jogar futebol, outra coisa é jogar à bola. É preciso dizer que há declínio enorme nas últimas décadas do ponto de vista de tempo e espaço para brincar. Para ter uma ideia, 70% das crianças em Portugal brincam menos de uma hora por dia. As crianças hoje têm menos tempo para brincar do que os prisioneiros nas prisões, que têm mais tempo de ócio fora das celas. Tempo, na infância, passou a ser um treino muito organizado, muito estruturado, muito limitado. Temos currículos escolares muito extensos e intensos, e a criança passa muito tempo sentada e quieta, sem mexer o corpo. É uma criança sedentária por princípio, devido ao facto de se terem criado agendas muito organizadas.

Mas a educação física na escola não tem sido permanentemente desvalorizada? Sim, de facto tem sido completamente desvalorizada. Mas penso que há, no entanto, boas notícias, deste ministério atual e deste governo atual, porque vai ser implementada a educação física no 1º ciclo com um professor coadjuvante que ajuda o professor titular e isso é uma boa medida. Está a ser feita neste momento uma reflexão sobre os objetivos da educação em Portugal e há 30 dias para discussão pública. É uma boa oportunidade. Também foi feita uma revisão das recomendações para o ensino pré-escolar que considero absolutamente fundamental: a motricidade, o movimento, o jogo, são coisas fundamentais nessas idades porque é aí que tudo começa, isto é, a atividade física começa mais cedo do que as pessoas julgam. Não se fazem campeões a partir dos 12, 13, 14 anos. Começa antes, mas é preciso perceber qual é a conceção que se deve trabalhar nas primeiras idades.

Não se deve trabalhar em especificidade, portanto. Primeiro deve haver uma diversidade de atividades, numa atitude lúdica, e mais tarde é que vem a especialização. Porque, repare, a criança tem direitos no desporto. A criança tem direito de expressar, em primeiro lugar, a sua individualidade. Isto é, o pai não pode impor. Quem decide? Esta é a pergunta. Os pais ou as crianças? O pai não pode impor a modalidade desportiva que o filho deve praticar, em função de alguma frustração ancestral. Não pode ser feito dessa forma. Depois as crianças devem ser tratadas como crianças e não como atletas. Deve ser respeitado o seu processo de desenvolvimento. Também devem participar de forma independente, isto é, quando fazem desporto deve ser respeitado o seu nível de habilidade e, obviamente, devem competir com os seus opositores mas em função de valores, daquilo a que se chama o fair play. Tem de haver fair play na formação desportiva, para não acontecer depois aquelas coisas desgraçadas e lamentáveis que acontecem no desporto dos adultos, ao mais alto nível. A criança deve poder decidir quais são as atividades que quer fazer. Conheço imensos jovens que começaram a fazer ginástica, depois foram para o atletismo, depois natação, depois ténis… e se calhar acabaram por ser grandes atletas no futebol, por exemplo.

Quem é muito bom numa modalidade normalmente também tem aptidão para outras modalidades. Exatamente. Há uma cultura motora eclética, uma cultura de rua intensa e uma apropriação de habilidades muito diversificada. Os atletas de alto nível brincaram muito na rua e foram felizes, não se fabricaram em laboratório. Há aqui muitas variáveis em jogo que têm a ver com o local onde vivem, onde crescem, a identidade do lugar… Os estudos biográficos demonstram que o sucesso desportivo ao mais alto nível está diretamente ligado à qualidade de vida que tiveram na infância e à estimulação diversificada que tiveram do ponto de vista motor e do ponto de vista social. Isso é perfeitamente claro. Há crianças que são talentosas e em termos dos clubes não se pode impor desde muito cedo uma prática muito especializada sem explorar primeiro as tendências que essa criança pode apresentar. E isto não é só no desporto, também é nas áreas artísticas.

Mas, às vezes, quando os treinos são mais lúdicos dão a sensação de desorganização e há pais que depois reclamam. Preferem ver filas e obediência.

Uma das maiores prioridades que deve haver é discutir este tema, que recentemente foi promovido pela Panathlon clube, em conjunto com o Comité Olímpico: o papel dos pais no desporto. De facto, é preciso fazer formação parental. É urgente que os clubes façam escolas de formação de pais. Os pais têm de perceber que os seus filhos não podem ter um sucesso a qualquer preço. Têm de respeitar os níveis de envolvimento, têm de respeitar os treinadores e as perspetivas de aprendizagem que eles têm. Os pais têm de compreender bem primeiro que tem de haver uma educação motora básica, um saber inicial fundamental no qual se suporta uma especialização, mais tarde. É um processo progressivo que tem de respeitar várias fases de desenvolvimento. A especialização desportiva deve obedecer a níveis de desenvolvimento e de aprendizagem, a etapas de ensino no processo desportivo. Por isso, as crianças devem ter uma aprendizagem muito lúdica numa primeira fase e depois então quando consolidam essas habilidades motoras específicas é que podem treinar num sentido mais exaustivo. Aliás, há um estudo que foi recentemente publicado pela academia americana de pediatria, em que é demontrado efetivamente que os benefícios de uma criança praticar desporto são enormes, quer do ponto de vista da capacidade de liderança, do prazer que têm em fazer desporto, da autoestima, da autoconfiança, da autoregulação, do sentido de equipa, da capacidade de aprendizagem de capacidades motoras mais complexas e da socialização em pares, que é uma questão fundamental nos tempos de hoje, as crianças têm de ter amigos. Mas também é verdade que se sabe que cerca de 70% destas crianças não chegam ao mais alto nível. Quer dizer que há aqui um fenómeno no meio que é preciso que os pais tenham consciência e a sociedade em geral tenha consciência, é que dos milhares de crianças que fazem prática desportiva organizada durante anos nem todos têm sucesso, nem todos podem chegar ao topo. Quer dizer que pelo caminho perdem-se imensos e esse é um fenómeno que devia ser mais estudado em Portugal e que não está efetivamente bem consciencializado, quer por treinadores, quer por pais, quer por dirigentes, quer por políticos, que é o abandono desportivo. Há muito abandono desportivo em Portugal, provocado por métodos de treino que não estão adequados, que desmotivam as crianças, e por pressões que muitas vezes existem de pais e treinadores para que as crianças tenham sucesso, e não têm.

Neste caso o sucesso entendido apenas e só como a vitória, correto?

Exatamente. Por outro lado, também se sabe que só 30% dos desportistas, uma percentagem muito baixa em Portugal, conseguem continuar os seus estudos nas escolas. O que significa que tem de haver aqui uma preocupação de haver coerência entre o processo desportivo e a escola, porque é fundamental que o cidadão tenha uma formação mínima. E muitas vezes sacrifica-se a formação escolar pela formação desportiva. Isto tem de ser bem pensado em Portugal. As crianças não podem ser vítimas de uma expetativa social e familiar de querer o sucesso a qualquer preço, fazendo disto um negócio em que todos tenham de ser Cristianos ou Messis.

Os piores pais são esses, que querem que os filhos, ainda crianças, sejam jogadores à força toda?

Exato. Como já disse, é preciso fazer a formação dos pais e a primeira mensagem que temos de transmitir é que é importante que a criança tenha uma formação escolar, que o sucesso desportivo não pode ser a qualquer preço, que tem de haver uma variedade de atividades físicas e desportivas numa primeira fase antes da especialização… É preciso que eles compreendam isso. Se você for ver aí, não só no futebol, mas noutras modalidades, quando os pais estão a observar treinos é inaceitável o que se passa, diria mesmo que é uma vergonha. É um atentado à dignidade social e cívica das crianças. Os nomes que os pais chamam, as ofensas que fazem aos treinadores, aos árbitros, aos próprios filhos… Isto não é aceitável em lado nenhum. Quer dizer que tem de haver uma dignificação no que é a formação desportiva, porque não se pode confundir o que é o desporto de alto nível com o que é o desporto de formação. E infelizmente em Portugal tem-se discutido muito pouco, tirando as universidades, que fazem investigação, o que é a formação desportiva de jovens. E não é só no futebol, é em todas as modalidades. Hoje em dia, em todo o mundo, estão em debate duas questões essenciais na formação desportiva: a seleção de talentos e a questão da especialização. Quanto à seleção de talentos, isso já está muito discutido e sabemos que é um fenómeno multifatorial, mas quanto à especialização tem de se saber de uma forma clara, de um ponto de vista cientifíco, que é necessária uma formação motora global, primeiro, e só depois a formação específica. Diria que há quatro fases na formação desportiva: a estimulação motora, que é brincar e adquirir um repertório motor genérico; uma fase em que se associam vários tipos de habilidades e a criança começa a ter uma capacidade de organizar tarefas motoras mais complexas; depois então uma escolha de atividades desportivas até chegar à fase de transição para uma especialização motora, que implica muito trabalho, persistência e resiliência. É preciso muitas horas de prática. Repare, para se ter sucesso desportivo não basta fazer meditação, não é?

É preciso treinar.

É preciso trabalho, muitas horas de prática. E essas horas de prática roubam muito tempo a outras coisas fundamentais na vida. Há muitos atletas que perderam a sua infância e a sua adolescência, e é preciso medir bem isto na balança do que se quer na vida. Os atletas que conseguem sucesso são verdadeiros heróis, porque muitas vezes investiram toda a sua infância e adolescência num objetivo, que é ganhar uma medalha. Mas há estudos muito críticos sobre isso. Uma medalha não vale a vida de uma criança, não é? Mas, enfim, o que interessa aqui é focar esta triangulação pais-jovem-escola. A política desportiva de formação tem de ter em atenção que as crianças e jovens têm direito ao seu desenvolvimento normal, como qualquer cidadão praticante de desporto, e que há que haver um balanço entre a prática desportiva e o tempo escolar.

Há tempo para tudo?

Em Portugal há muitas famílias que vivem um verdadeiro inferno a gerir a vida dos filhos entre o tempo escolar e o tempo de prática desportiva nos clubes, e é preciso suavizar isto. Diria, por exemplo, que é preciso não atirar as culpas todas para cima dos pais, porque de facto a forma como em Portugal se gere o tempo de vida é algo que é inconsistente do ponto de vista dos modelos de qualidade de vida das famílias que existem na comunidade europeia. Porque nós temos pais cansados, que trabalham demasiadas horas e que têm pouco tempo para os filhos. Há uma falta de harmonização entre o tempo de trabalho, o tempo passado na escola e o tempo passado na família, para além do tempo passado no clube. No meu prédio vejo crianças a chegarem a casa às onze da noite, vestidas a rigor dos treinos, e os pais completamente exaustos, e se calhar ainda vão fazer os trabalhos de casa e no outro dia às 7h da manhã já estão a sair de casa. Portanto isto atingiu uma dimensão patológica. É preciso suavizar isto e fazer uma prática desportiva humanista, com uma perspetiva de poder respeitar os direitos da criança no desporto mas também o direito à vida, ao prazer, a ter sucesso escolar. Veja-se o que acontece nas camadas jovens, nos infantis, nos iniciados, nos benjamins, com aquelas classificações todas que existem, em que as crianças já fazem uma competição como se fossem adultos. Acho inaceitável ver crianças a aprenderem a ser guarda-redes com quatro anos de idade, por exemplo. Isto é um disparate conceptual. Os modelos que existem de formação desportiva nos clubes têm de ser repensados. Têm de haver formação especializada para os dirigentes, para os pais, mas também para os treinadores, porque tem de ser perceber o que é uma criança e um jovem em desenvolvimento. Nós precisamos, com as federações, com as associações, com as próprias instituições do Estado – estou a falar do Instituto do Desporto…

Os cursos de treinador em Portugal foram remodelados há pouco tempo.

Sim, já houve coisas interessantes que foram feitas, mas ainda falta fazer muitas coisas. Porque depois temos no desporto um ciclo de influências muito complexo que vai desde a perspetiva dos media até à perspetiva do país em relação ao número de medalhas, ao número de atletas, ao sucesso. Mas nós não podemos ter medalhas fruto do acaso, como tem sido até aqui. Isto tem de ser visto como um sistema que tem de ser bem pensado, sob um ponto de vista de formação de base, de formação intermédia e de formação especializada. E depois há os pais que, como já disse, têm de ter formação.

Um “mau” pai será aquele que pergunta ao filho “ganhaste?” e um “bom” será o que pergunta “gostaste do jogo?”

Sim. Nós temos normalmente quatro tipos de comportamento parental. Temos os pais desinteressados, que têm algumas vantagens – eu sou desse tempo, o meu pai não sabia bem qual era a minha vida desportiva na escola e no clube -, depois temos os pais mal formados, que têm uma visão errónea do desporto e às vezes comportam-se de forma inaceitável de um ponto de vista verbal, não verbal, de pressão sobre as crianças, os treinadores e os árbitros. Depois temos os pais excitados, que se colocam excessivamente na vivência do desporto dos próprios filhos. E depois temos os pais fanáticos, aqueles que querem o sucesso a qualquer preço. Temos vários comportamentos. Há pais que são excessivamente críticos, muito exaltados, aquilo que chamamos de treinadores de bancada. Outros são super protetores e hoje o maior drama da sociedade é a super proteção. Esta super proteção não dá autonomia às crianças e aos jovens. São muito controlados. Isto acontece na escola e no clube. Nós temos hoje muitas crianças que até têm alguma aptidão motora mas depois são demasiadamente frágeis do ponto de vista emocional e cognitivo, porque são super protegidas. Os pais levam-nas aos treinos, vão lá buscá-las, observam tudo o que se passa, perguntam tudo o que acontece… A criança é uma vítima, de algum modo, e não tem autonomia. Para se ter sucesso desportivo é preciso ter-se autonomia, capacidade crítica, capacidade criativa e inovadora. Para se ser campeão tem de se ser também, de algum modo, caótico. Quero crianças e jovens ativos, impertinentes, que façam perguntas, que tenham motivação, que tenham objetivos. Quero crianças selvagens no desporto, porque são essas crianças selvagens que vão ser os verdadeiros campeões do futuro. Não podem ser totós. Nós hoje temos crianças que são rejeitadas pelo próprio sistema desportivo, porque não têm jeito, porque são gordinhas, etc. E isso é muito mau, porque é o reflexo de uma contradição que está a acontecer no desporto e na escola em Portugal, que é por um lado haver uma super proteção dos pais e ao mesmo tempo quererem que eles sejam génios. Esta super proteção é uma das maiores pragas que temos hoje na formação de crianças e jovens no mundo escolar e desportivo.

Quando os pais não os podem levar de carro, há jovens que dizem que não podem ir ao treino.

Que vão a pé. Neste momento o sucesso comanda o processo – e não pode ser. Tem de se respeitar outras coisas, como já disse. Uma formação correta e bem fundamentada do ponto de vista pedagógico, científico e técnico, daí ter de haver formação de treinadores, havendo também formação sistemática nas federações, associações e clubes, com estratégias bem delineadas do que deve ser o perfil de formação em todos os escalões e em todas as fases de desenvolvimento da criança. Ter muito atenção ao abandono desportivo, estudar as razões do abandono, se as crianças quiserem desistir têm esse direito, mas não se podem expulsar a qualquer preço as crianças que não têm jeito. A questão que se coloca da dispensa deixa algumas crianças traumatizadas para toda a vida pelo facto de terem criado uma expectativa que depois não se realiza e ninguém se preocupa com isso, só se preocupam em formar os talentos. Então e aqueles que desistem? É preciso repartir o tempo passado no clube e o tempo passado na família, porque as crianças têm direito a estar com os pais e a ter tempo livre. Em Portugal não houve coragem política até agora de fazer esta harmonização do tempo. Porque se você for a qualquer país nórdico vê que às 16h30 sai toda a gente e vão todos buscar os filhos à escola, todos têm tempo. Aqui, um indivíduo que trabalhe mais do que 12 horas se calhar é considerado um indivíduo altamente competente – e é tudo ao contrário. Não estão a ser respeitados os tempos de sono e de lazer, e está a sacrificar o tempo em benefício do trabalho. E quem paga isto são as crianças e os jovens, porque os pais não têm tempo para eles e eles não têm tempo para brincar. Nós fizemos aqui um estudo recente na FMH sobre a formação desportiva e o bullying, a violentação que acontece entre pares no clube. É uma amostra gigantesca de todas as partes do país, do sexo masculino, em várias modalidades, e verificámos que no contexto desportivo há de facto bullying e isso é muito preocupante. Isto acontece principalmente no balneário, onde não está ninguém e aí os treinadores e pais não têm acesso. Encontrámos 11,5% de agressores e 10% de vítimas, o que é elevadíssimo. E essas crianças dificilmente comunicam o bullying aos adultos. Estas crianças que sofrem bullying no clube mais cedo ou mais tarde abandonam. Fizemos também uma retrospetiva com atletas de alto nível para identificarem situações de bullying no seu processo desportivo. Temos neste momento um projeto com o IPDJ que é o cartão vermelho ao bullying e estamos a criar um projeto dirigido à formação desportiva com linhas condutoras para os treinadores, pais e dirigentes.

Se os clubes identificarem que a criança não está a ter sucesso escolar devem falar com os pais e castigá-la no âmbito desportivo?

Não tem de haver castigos. Acho que tem de haver coerência e diálogo entre os treinadores e os pais, na regulação e no acompanhamento que as crianças devem ter no ponto de vista do treino e no ponto de vista da escola. Não estou a falar das academias onde as crianças já ficam a dormir, com uma grande estrutura que dá apoio. Estou a falar de uma forma mais genérica. Os estudos internacionais mais recentes têm vindo a demonstrar que a tendência é desvalorizar a escola a favor do sucesso desportivo. E nós temos de resolver este assunto, porque a criança tem direito de ser um cidadão bem formado e não se pode dimunuir a a importância da sua formação escolar. Tal como comecei a dizer-lhe no início, o desporto é um fenómeno de grande envergadura atualmente, mas tem depois aspetos muito negativos.

Como por exemplo?

Não lhe posso contar casos concretos que conheço, mas há pais que sacrificaram toda a sua vida para que os filhos tivessem êxito. Mudaram de residência, mudaram de país, endividaram a sua própria vida e depois acabou tudo mal. Há também a situação absolutamente chocante de africanos que vêm para a Europa para fazer desporto de alto nível e que ficam abandonados nas ruas, esquecidos, porque não tiveram êxito. É uma verdadeira vergonha europeia. Até com crianças de sete, oito, nove anos já se fazem contratos porque se pensa que vão ser grandes talentos. E isso acontece um pouco por todo o mundo. O fenómeno tem um lado sagrado, mas também tem um lado perverso. Por exemplo, qual é o nível de participação das crianças na sua formação desportiva? É tudo imposto. Tal e qual como nas escolas, onde têm de estar sentadas, quietas e a ouvir professores cansados, velhos e chatos. O que é que elas gostariam de fazer no treino? Algumas vez os treinadores ouvem as crianças? Os pais ouvem os próprios filhos? A formação de crianças e jovens em Portugal é de uma visão autocrática e isto é mau, porque as crianças do século XXI mereciam outro respeito e um processo mais democrático. Haveria mais participação, um melhor ambiente, mais entreajuda… como acontece nos países que já o fazem de forma mais adequada, como o Canadá e alguns países nórdicos. As crianças não são atletas em miniatura. Eu posso fazer um campeão à martelada. Se repetir exaustivamente, eu chego lá. Só que ele não vai ser criativo, não se vai adaptar, vai morrer cedo. Se eu fizer um atleta inteligente, dinâmico, com capacidade adaptativa, esse é que vai ser um bom atleta, e quero na formação um modelo que forme estes atletas. O Cristiano Ronaldo é um caso exemplar. Vem de uma família pobre, vivenciou muito a sua infância na rua, foi para um clube, teve a sorte de ter uma boa condução no desporto, tem uma boa capacidade pessoal de trabalho parar ter sucesso. Não há milagres no desporto, é preciso muito trabalho. E para uma criança ter muita resiliência é preciso ter uma grande capacidade de autoregulação emocional, autoconfiança e autoestima. Hoje há muitos fatores a jogar contra as crianças, como já dissemos. Elas não têm tempo para ser selvagens. Para se ser um atleta de alto nível tem de se ser selvagem no decorrer da infância e da adolescência. Isto é um bocadinho agressivo, sei que é perigoso o que estou a dizer, mas eu não quero crianças totós no desporto. Quero crianças com uma grande vivência física e emocional, que sejam impertinentes e resolvam problemas. Crianças com energia. Não quero crianças obedientes. É como os meus alunos. Em 40 anos de aulas aprendi isso. Aquela criança que está quieta e em silêncio, à espera que eu a comande… isso não tem sentido. E no desporto começa a passar-se isso.

Mas é muito isso que se valoriza hoje em dia, a obediência e a quietude.

Está a acontecer uma espécie de fabricação de campeões em laboratório, o que é uma ilusão. Tem de haver um trabalho correto ao nível do clube, da escola, do desporto escolar, da educação física… Porque o trabalho no clube e no desporto escolar é para os que têm mais jeito, mas a educação física é para todos. Mas em todos estes casos há que respeitar as tais etapas de desenvolvimento das crianças e dar-lhes autonomia e liberdade de participação. Creio que o desporto em Portugal tem de ser repensado nesta perspetiva, tal e qual como a escola tem de ser repensada e até os clubes – ou seja, todos os locais onde se pratique desporto organizado e intencional. Não é só a escola que precisa de reforma, é necessária também uma reforma na formação desportiva em Portugal. Digo isto com toda a convicção. Dou aulas aqui na universidade e vejo como é que os meus alunos vêm dos clubes. Na formação desportiva o objetivo não é focarmo-nos no produto, marca, resultado, medalha. Temos de nos centrar na qualidade do processo de treino e de formação. Se não o que acontece é que as crianças sofrem e desistem, porque temos um modelo centrado na cabeça dos adultos, centrado em atingir o sucesso a qualquer preço. Mas, como disse, não se fazem campeões à pressa. Qual é a criança que não gosta de brincar? Qual é a criança que não gosta de explorar a sua envolvente? Qual é a criança que não gosta de ter amigos? Qual é a criança que não gosta de ter autonomia? Qual é a criança que não gosta de sair de lá feliz? Qual é a criança que não gosta de correr riscos? É que às vezes nos clubes está tudo sistematizado, tudo organizadinho, e não há nenhum risco a correr. Assim não se faz formação. Como é que vamos resolver isto? Tem de haver uma grande intervenção por parte da tutela, com políticas desportivas bem sistematizadas, no sentido de produzir documentos e informação. Temos de repensar a formação desportiva em Portugal e eu sei que o que estou a dizer vai ser muito criticado e vou levar muita pancada, mas eu digo: a formação desportiva em Portugal precisa de ser remodelada. Ainda ninguém em Portugal pensou como se faz a formação de pais. Os clubes devem ter regulamentos em relação aos comportamentos dos atletas mas também em relação aos pais. Há clubes no estrangeiro em que se os pais têm um comportamento inapropriado, a criança é expulsa do clube. Tal e qual como precisamos de uma reforma do sistema educativo para uma visão mais humanista, nós precisamos de uma revisão do sistema de formação desportiva numa perspetiva mais respeitadora dos direitos das crianças e dos jovens. Esta agora foi bem dita, não foi? [risos]

 

 

 

Crianças que não brincam na natureza, não se preocupam em protegê-la, diz artigo

Dezembro 2, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://ciclovivo.com.br  de 17 de novembro de 2015.

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Os ativistas ambientais costumam ser pessoas que passaram a infância imersos na natureza.

Se um futuro melhor depende das gerações que ainda estão por vir, então algumas coisas precisam mudar. Em artigo escrito por George Monbiot no jornal britânico The Guardian, o autor coloca em cheque as consequências da falta de contato das crianças atuais com a natureza.

A cada ano que passa, as crianças estão mais presas dentro de suas casas. Segundo Monbiot, no Reino Unido, apenas uma em cada dez crianças têm o hábito de praticar atividades ao ar livre em ambiente natural. Em contrapartida, os adolescentes que têm entre 11 e 15 anos gastam metade do dia em frente a uma tela, seja ela de computador, televisão ou smartphone. A situação é semelhante em diversas partes do mundo.

O autor cita várias hipóteses para essa mudança. Enquanto nas décadas passadas as crianças tinham mais autonomia para brincar na rua e até mesmo se deslocarem sozinhas, hoje os pais têm que lidar com o medo da violência, do trânsito e de pessoas estranhas. Assim, ficar dentro de casa é a opção mais prática, mas não a melhor delas.

Monbiot coloca esse novo hábito “doméstico” como algo perigoso, principalmente para a saúde. A inatividade dos jovens resulta em doenças como diabetes, obesidade, raquitismo e declínio das habilidades cardio-respiratórias. Muitos desses problemas seriam evitados se as brincadeiras em meio à natureza fossem mantidas, como é possível concluir em um estudo conduzido pela Universidade de Illinois, nos EUA. A pesquisa sugere que brincar na grama, entre árvores, ajuda até mesmo a reduzir os sintomas do déficit de atenção e dos problemas de hiperatividade.

Além da saúde, a falta de contato das novas gerações com a natureza pode se transformar em um problema muito maior. Como ter cuidado ou se preocupar com algo que você não conhece e não tem intimidade? Esta é a questão levantada pelo britânico. Para ele, os ativistas ambientais costumam ser pessoas que passaram a infância imersos na natureza. “Sem um sentimento pelo mundo natural e sua função, sem uma intensidade de envolvimento nas experiências da infância, as pessoas não vão dedicar suas vidas à proteção”, conclui o artigo.

Clique aqui para ler o artigo.

Redação CicloVivo

 

 

Crianças portuguesas estão cada vez mais sedentárias

Julho 16, 2015 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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© Marcus Donner, Reuters

© Marcus Donner, Reuters

 

As crianças portuguesas entre os sete e os nove anos estão cada vez mais sedentárias, o que constitui um elevado risco para a obesidade infantil, segundo as conclusões de um estudo da Universidade de Coimbra hoje divulgado.

O estudo foi desenvolvido por uma equipa de investigadores do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Universidade de Coimbra, tendo as conclusões apontado para um maior sedentarismo nas crianças naquela faixa etária, resultados que a coordenadora da investigação, Cristina Padez, considera como “assustadores”, devendo, por isso, os responsáveis políticos criar uma estratégia para combater este problema.

A pesquisa, financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), envolveu 9.032 crianças de escolas de todo o país e foi apresentada na conferência da International Society of Behavioral Nutrition and Physical Activity, em Edimburgo, na Escócia, no passado mês de junho, adianta um comunicado enviado hoje à agência Lusa.

Os investigadores, que tiveram como referência o limite estipulado pela Academia Americana de Pediatria (em que as crianças não devem ultrapassar duas horas por dia a ver televisão), compararam os comportamentos sedentários das crianças portuguesas entre 2002 e 2009, por nível socioeconómico dos pais.

A investigadora adiantou que as conclusões do estudo apontam para o facto de o número de crianças que vê televisão mais de duas horas por dia ter aumentado 12% durante a semana, 15% ao sábado e 17% ao domingo entre 2002 e 2009.

“As crianças cujos pais têm baixo nível de instrução são as que passam mais tempo a ver televisão”, adiantou Cristina Padez, frisando que, no que diz respeito ao uso do computador, “a situação piora”.

“Enquanto em 2002, as crianças pobres praticamente não utilizavam o computador, em 2009, cerca de 19% destes miúdos gastou mais de duas horas por dia no computador, refletindo o ‘efeito Magalhães’, em resultado da estratégia do Governo de atribuir estes dispositivos [computadores] aos alunos do ensino básico”, sublinhou a investigadora.

No que diz respeito à prática de desporto após o período escolar, a pesquisa revelou que “só metade das crianças é que tem atividade física fora da escola, sendo que, nos níveis socioeconómicos mais desfavorecidos, a percentagem de crianças que não pratica desporto disparou, passando de 36% (em 2002) para 80% (em 2009).

Na sequência das conclusões do estudo, a investigadora Cristina Valdez alertou para o facto de estes comportamentos virem a determinar os hábitos na vida adulta.

“Por isso, os responsáveis políticos devem criar uma estratégia para combater o sedentarismo infantil, caso contrário, iremos ter adultos com graves problemas de saúde, com custos socioeconómicos muito elevados”.

 

Lusa/SIC Notícias, 6 de julho de 2015

TV em excesso leva a hipertensão infantil

Março 6, 2015 às 2:02 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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notícia do site  http://www.paisefilhos.pt  de 2 de março de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Incidence of high blood pressure in children — Effects of physical activity and sedentary behaviors: The IDEFICS study: High blood pressure, lifestyle and children

Ver televisão mais de duas horas por dia aumenta o risco de as crianças desenvolverem doenças cardiovasculares, com destaque para a hipertensão. Se a isso se somar baixos níveis de atividade física, cria-se a receita perfeita para patologias coronárias em mais de 50 por cento dos casos de menores entre os dois e os dez anos. Estas conclusões fazem parte de um estudo realizado em oito países europeus, que procurou avaliar a relação entre o tempo passado em frente e a saúde do sistema cardíaco pediátrico.

A equipa responsável pelo trabalho, publicado no “International Journal of Cardiology” encontra-se sedeada na Universidade de São Paulo e é liderada pelo catedrático Augusto Cesar de Moraes, que não hesita em apontar uma ligação direta entre “o número de novos casos de hipertensão infantil com o aumento dos comportamentos sedentários”, dos quais o tempo passado em frente ao ecrã é o mais comum.

Para além dos riscos que correm na infância e adolescência, estas crianças estão também na calha para sofrerem de “doença cardíaca isquémica” quando chegam à idade adulta. O mesmo responsável recorda que durante os dois anos que durou a pesquisa foi detetada uma “alta incidência” de hipertensão pediátrica – 110 casos em cada mil crianças. E conclui: “este números são preocupantes, dado que o sedentarismo que se tem na infância segue habitualmente durante o resto da vida”.

Não existem medidas específicas para diagnosticar a hipertensão infantil, mas os profissionais de saúde consideram que se está perante a doença se a criança apresentar números superiores a 95 por cento dos seus pares com a mesma idade, altura e género.

 

 

Por que evitar o sedentarismo infantil?

Agosto 30, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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texto do site http://educarparacrescer.abril.com.br de 3 de julho de 2014.

max demian

Metade da população brasileira é inativa; veja por que seu filho deve fazer atividade física

Texto Stephanie Kim Abe

Que as crianças não brincam mais na rua não é nenhuma novidade. Mas que por causa dessa infância inativa elas podem ter menor expectativa de vida é um fato que poucas pessoas relacionam – e que está acontecendo cada vez mais.

O sedentarismo é a segunda causa de morte no planeta, matando cerca de 5,4 milhões de pessoas por ano. Para motivos de comparação, mata mais que o diabetes, custa duas vezes mais que a obesidade e três vezes mais que o tabagismo – tanto que é mais comum as pessoas terem familiares sedentários que fumantes.

A falta de liberdade para brincar na rua é apenas um dos fatores que indicam por que estamos mais inativos. No caso das crianças, enquanto a violência faz com que elas fiquem presas dentro de casa, os videogames, a televisão e os tablets ajudam a mantê-las ainda mais quietas e sedentárias. “O que mais explica esse fenômeno é sem dúvida a internet. Primeiro porque há um fascínio dos pais com a habilidade do filho de dois, três, quatro anos de idade de mexer com a tecnologia. Segundo porque tem a acomodação em deixar a criança na frente do computador, porque é mais seguro”, explica o médico Victor Matsudo, especialista em medicina esportiva e coordenador científico do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (CELAFISCS).

O desenvolvimento da tecnologia também impactou as máquinas e veículos que utilizamos no nosso dia a dia e, principalmente, no local de trabalho, diminuindo o esforço preciso para fazer determinadas tarefas. Só nos sobra um momento para compensar essa movimentação que nos era exigida nas atividades domésticas, no trabalho e no deslocamento: a hora do lazer.

Qual a necessidade de mudar esse cenário? De acordo com a iniciativa “Desenhado para o Movimento”, iniciada pela Nike em 2010 em parceria com diversas organizações, hoje é estimado que a expectativa de vida das crianças com 10 anos de idade seja menor que a de seus pais. Isso porque uma vida inativa afeta não só a saúde, mas também a economia, o desenvolvimento motor e até o desempenho escolar.

Entenda melhor por que é importante que o seu filho seja uma criança ativa:

1. Garante uma vida mais saudável e duradoura

O sedentarismo é um importante fator de risco de enfermidades como doença cardiovascular, pressão alta, câncer de cólon e de mama, AVC, diabetes, colesterol ruim (LDL) e depressão. As pessoas que são inativas possuem o dobro de chances de serem obesas.

Além de diminuir o risco de morbidade, ser ativo reduz as chances de a criança consumir drogas ou fumar. Uma infância ativa também se reflete no futuro. “A criança ativa que faz atividade física estruturada tem mais chance de se tornar um adulto ativo”, explica o especialista em medicina esportiva Victor Matsudo. Veja como evitar a obesidade infantil

2. Melhora o desempenho nos estudos

Uma pesquisa publicada em 2009, liderada pelo professor de cinesiologia (ciência que estudo os movimentos do corpo humano) da Universidade de Illinois Charles Hillman, demonstrou que a atividade física aumenta a capacidade de concentração dos alunos e melhora seu desempenho em testes acadêmicos, como compreensão de leitura. “Um cérebro exercitado é diferente de um cérebro sedentário. E o cérebro exercitado foi melhor em pesquisas”, explica o especialista em medicina esportiva Victor Matsudo. Outro estudo, também da Universidade de Illinois publicado em abril de 2008, revelou que adolescentes que praticam atividade física regularmente possuem 15% mais chance de obter maior escolaridade. Além disso, os comportamentos de uma criança ativa levam a uma melhor postura e comprometimento na sala de aula. “Por exemplo, a criança fica menos doente, e quando ela fica doente, fica menos dias doente. Assim, ela vai mais à escola e vai com vontade de ir à escola, não por obrigação”, defende o doutor. Mais do que pelas mudanças comportamentais e pela presença mais frequente e estimulada na sala de aula, o aumento no desempenho acadêmico pode estar ligado ao desenvolvimento neurológico. A questão ainda não está totalmente comprovada, mas estudos mostram que as atividades físicas estimulam a produção de neurônios na região do cérebro associada ao aprendizado e à memória.

3. Assegura o desenvolvimento pleno das atividades motoras

Toda criança passa por fases de desenvolvimento motor: na primeira infância a atividade lúdica ajuda no desenvolvimento psicomotor; depois é preciso trabalhar o equilíbrio, a coordenação motora, força, agilidade. É através da brincadeira, da movimentação, do estímulo ao movimento que as crianças conseguem desenvolver essas capacidades. Mais do que em relação às habilidades motoras, o sedentarismo infantil afeta a criança no sentido sócio afetivo também. “Ele limita as possibilidades de interação e integração aos esportes, jogos, recreação, ginástica, dança, luta, que são fundamentais para o sentimento de pertencimento ao grupo, a autoestima e autoconceito”, explica o professor de Educação Física Marcos Santos Mourão, do Centro de Formação da Escola da Vila.

4. Estimula uma cidadania ativa

Quem pratica atividade física tem uma relação mais aberta com a cidade e com sua própria cidadania – e passa a desejar uma cidade mais ativa. Isso significa ciclovias, parques, espaços abertos para circulação e caminhada, intervalos escolares mais ativos etc. Também aprende, com os esportes, a valorizar o trabalho colaborativo, o respeito ao outro e às diferenças e o autocontrole – habilidades que se refletem em um relacionamento mais sadio com os outros. Para o especialista em medicina esportiva Victor Matsudo, a grande contribuição da atividade física para a cidadania ativa é a percepção da consequência e o estabelecimento de metas, de forma a melhorar as suas relações: “‘eu treinei, eu emagreci. Eu treinei, fiquei mais ágil. Eu treinei, fiquei com mais fôlego’. Quando a criança percebe isso, começa a estabelecer metas e se planejar, porque vê que ‘o que eu faço eu consigo’”.

 

 

 

Hábitos alimentares das crianças pioram com a idade e com a exposição à publicidade

Novembro 28, 2013 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 26 de Novembro de 2013.

Daniel Rocha

O estudo mencionado na notícia é o seguinte: Investigação sobre a Influência da Publicidade nas crianças

Andreia Sanches

26/11/2013 – 21:20

Estima-se que as crianças e os jovens possam ver mais de 46.000 mensagens publicitárias por ano. Em Portugal, mais de 70% dos alunos entre os 8 e os 11 anos dizem que a publicidade influencia a alimentação.

As crianças mais novas até têm conhecimentos razoáveis sobre o que é uma alimentação saudável. Mas, com o passar dos anos, “perdem-nos”. E, com os conhecimentos, mudam os comportamentos, que, com a idade, se tornam menos saudáveis, mostra uma investigação feita junto de cerca de 600 alunos entre os 8 e os 11 anos que frequentam escolas da Grande Lisboa. O acumular de horas e horas de anúncios publicitários pode ajudar a explicar essa deterioração de comportamentos?

Pode, sustenta Francisco Costa Pereira, o coordenador da equipa da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias que elaborou o estudo apresentado nesta terça-feira, em Lisboa.

“O estudo não demonstra directamente uma relação entre a obesidade e a publicidade”, explica, mas há dados que dão que pensar, continua: quanto mais velhas são as crianças inquiridas, mais horas de televisão vêem e mais navegam na Internet. Quanto mais velhas, menor é o consumo de alimentos saudáveis naturais e maior o de alimentos menos saudáveis, como snacks. Os resultados sugerem que “a publicidade pode desempenhar um papel nesta relação”, conclui o estudo A Influência da Publicidade nas Crianças.

É certo que, entre os 8 e os 11 anos, as crianças também se tornam mais cépticas em relação à publicidade. Mas esta é sempre uma relação ambivalente: a afirmação “os anúncios mentem” tem quase tanto peso nas respostas dos miúdos como a de que “os anúncios mostram-me coisas boas para comprar”.

São, de resto, as próprias crianças – mais de sete em cada dez das inquiridas – a dizerem que a publicidade pode influenciar os hábitos alimentares das pessoas.

Os jovens, nomeadamente as crianças, estão expostos diariamente a milhares de mensagens publicitárias, lê-se no estudo. Estima-se que possam ver mais de 46.000 por ano. O grupo de alunos que fez parte da amostra dos investigadores portugueses revelou ter “uma vida bastante sedentária”, com cerca de metade do seu tempo disponível passado a ver televisão e a estar no computador. Estas crianças estão sujeitas a “uma exposição muito elevada a mensagens publicitárias”.

Essa “elevada exposição” ficou bem patente quando foram desafiadas a mencionar marcas: as crianças foram capazes de referir 420 marcas diferentes – à cabeça, uma marca conhecida de pronto-a-vestir, depois uma de papas e chocolates, e ainda o nome de uma cadeia de hipermercados e depois uma marca de roupa e assessórios desportivos.

Trata-se de um “repertório bastante elevado”, sustentam os investigadores, com as marcas relacionadas com os produtos alimentares a terem “um lugar destacado”.

Costa Pereira lembra que muito do que as crianças mais novas sabem sobre alimentação saudável aprendem na escola – nas aulas e através das dietas nas cantinas. Mas que esses conhecimentos e comportamentos têm de ser “consolidados” em casa, sob pena de não resistirem à passagem para o 2.º ciclo e para a fase da pré-adolescência. Por fim, sustenta que uma maior literacia da publicidade (capacidade de compreender os anúncios, quem os faz e com que objectivos) pode ajudar as crianças a terem conhecimentos e comportamentos alimentares saudáveis.

Estilo de vida coloca crianças em risco de sofrerem doenças cardiovasculares

Outubro 9, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site Saúde Sapo de 28 de de Setembro de 2012.

Dia Mundial do Coração celebra-se a 29 de setembro

Os cardiologistas estão preocupados com o estilo de vida das crianças, lembrando que a vida sedentária e má alimentação coloca os mais novos em risco de sofrerem doenças cardiovasculares.

Todos os anos morrem em Portugal 20 mil mulheres e 16 mil homens vítimas de doenças cardiovasculares, um número que no futuro poderá disparar devido ao estilo de vida das crianças, alertou o presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC), Manuel Carrageta.

As crianças estão agora no centro das preocupações dos cardiologistas, que lamentam que as brincadeiras de rua tenham sido substituídas pela televisão e jogos de computador e a alimentação saudável por restaurantes “fast-food”.

Para os especialistas, o resultado desta mudança – a obesidade infantil – é inquietante. “A evolução das doenças cardiovasculares começa com os fatores de risco. As crianças têm um estilo de vida moderno que leva à obesidade infantil, têm o colesterol mais elevado que se vai depositar nas paredes das artérias e leva ao seu entupimento, havendo mais risco de enfarte de miocárdio e de Acidente Vascular Cerebral (AVC)”, explicou o cardiologista, lembrando que as crianças deviam fazer uma hora de exercício físico intenso por dia.

Manuel Carrageta lembra que, habitualmente, quem tem excesso de peso tem tensão arterial e colesterol mais altos assim como tem mais tendência para se tornar diabético.

Em Portugal, quatro em cada dez óbitos têm como causa doenças cardiovasculares mas bastava controlar os principais fatores de risco para evitar a maioria destas mortes.

A fundação celebra no sábado o Dia Mundial do Coração com diversas iniciativas em Odivelas que pretendem alertar para a importância da prevenção mas também desconstruir a ideia de que “as mulheres sofrem de coração mas não morrem”.

“Existe um mito de que as doenças do coração atingem os homens e os idosos”, contou à Lusa o presidente da fundação, lembrando que em Portugal a principal causa de morte das mulheres são precisamente as doenças cardiovasculares.

Segundo Manuel Carrageta, “o coração das mulheres é frágil e vulnerável”, mas “elas têm uma falsa sensação de segurança”.

As doenças cardiovasculares são altamente evitáveis através do estilo de vida e controle dos fatores de risco, que passam por uma alimentação saudável, exercício físico e não fumar.

No entanto, “enquanto os homens estão a diminuir o consumo de tabaco, as mulheres estão a aumentar. Além disso, as mulheres estão um pouco condicionadas a realizar atividade física, porque têm uma vida mais complicada”, lamentou o cardiologista.

A partir de uma determinada idade – 50 anos para as mulheres e 40 anos para os homens – é aconselhável a realização de exames periódicos de saúde. “Costumamos dizer às pessoas que é preciso conhecer os seus números. Devem medir a pressão arterial, os níveis de colesterol e glicose, assim como saber qual o seu peso e massa corporal. Através destes dados é possível calcular os riscos de vir a sofrer um acidente cardiovascular”, alertou o presidente da FPC.

Lusa

2012-09-28

 

 

Crianças sedentárias têm pior coordenação motora

Setembro 11, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 16 de Agosto de 2012.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Associations between sedentary behavior and motor coordination in children

por Texto da Agência Lusa, publicado por Joana Capucho

Crianças que passam mais de três quartos do seu tempo em atividades sedentárias, como ver televisão e jogar computador, chegam a ter nove vezes pior coordenação motora do que as ativas, revela um estudo português divulgado numa publicação norte-americana.

A investigação, publicada no site da American Journal of Human Biology esta semana, foi desenvolvida pela Universidade do Minho e envolveu crianças portuguesas entre os nove e os 13 anos.

“A infância é um período crítico para o desenvolvimento das competências da coordenação motora que é essencial para a saúde e bem-estar”, afirma Luís Lopes, um dos autores do estudo.

Este estudo demonstra ainda que a atividade física por si só não reverte os efeitos negativos que o elevado nível de sedentarismo provoca na coordenação motora.

“Os resultados mostram a importância de estabelecer um tempo máximo para comportamentos sedentários, enquanto se encorajam as crianças a aumentar os níveis de atividade física”, concluem os autores.

A equipa da Universidade do Minho analisou 110 raparigas e 103 rapazes de 9 e 10 anos de 13 escolas básicas em zonas urbanas, tendo medido objetivamente os comportamentos sedentários e a atividade física. A coordenação motora foi avaliada com vários testes físicos, que incluíram avaliação de equilíbrio, saltos de obstáculos ou deslocação de plataformas.

Os testes foram complementados com um inquérito aos pais para aferir variáveis de saúde.

Em média, as crianças passam 75,6% do seu tempo a serem sedentárias, com o impacto na coordenação motora a ser maior nos rapazes do que nas raparigas.

As meninas que passam mais de 77% do tempo dedicando-se a atividades sedentárias apresentam quatro ou cinco vezes pior coordenação motora do que as raparigas ativas.

Já em relação aos rapazes, aqueles que em 76% do seu tempo são sedentários chegam têm entre cinco a nove vezes pior coordenação motora do que os seus pares ativos.

“O elevado sedentarismo tem um impacto significativo na coordenação motora das crianças, influenciando de modo mais desfavorável os rapazes”, refere Luís Lopes

 

 

 

Exercício na adolescência previne problemas cardiovasculares – Estudo internacional conclui que maior parte dos jovens faz pouca actividade física

Março 15, 2012 às 9:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site Ciência Hoje de 12 de Março de 2012.

Apenas um em cada cinco jovens, dos 10 aos 18 anos, faz uma hora diária de exercício físico. Esta hora pode reduzir o risco futuro de doenças cardiovasculares, defende estudo.

As conclusões do trabalho chamam a atenção para a necessidade de “se prestar mais atenção ao envolvimento dos jovens para fazerem um pouco mais de actividade física moderada e intensa e reduzirem o tempo sedentário”, como aquele passado em frente à televisão ou ao computador, avançou à Agência Lusa o director do Laboratório de Exercício e Saúde da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade Técnica de Lisboa.

Esta entidade colaborou no estudo, o primeiro de abrangência global que avaliou o impacto da prática de actividade física moderada e intensa e do comportamento sedentário na saúde cardiometabólica de crianças e adolescentes. Em Portugal, participaram mil jovens.

Publicado no «Journal of the American Medical Association» (JAMA), o estudo revela que, entre os jovens que “faziam um pouco mais de exercício e tinham menos tempo sedentário, havia uma diferença aproximada de cinco centímetros no perímetro abdominal”, explicou Luís Bettencourt Sardinha.

Se esta diferença permanecer na idade adulta pode concluir-se que estes jovens terão um risco de mortalidade cardiovascular na idade adulta muito inferior aos jovens que fazem menos actividade física”, acrescentou o especialista.

Para o responsável do Laboratório de Exercício e Saúde, é ainda relevante salientar “os ganhos de saúde e no sistema nacional de saúde, no futuro, se for alterado o actual paradigma e se se apostar mais na prevenção”, reduzindo os casos de doença cardiovascular.

Em Portugal, somente 20 por cento dos jovens dos 10 aos 18 anos cumprem as recomendações, ou seja, em termos médios entre os rapazes são 30 por cento e, entre as raparigas, somente 10 por cento”, especificou.

Aos dez anos este valor é superior e, à medida que a idade vai aumentando até aos 18 anos, a percentagem tem tendência a reduzir-se, quer nos rapazes, quer na raparigas, situação que também acontece nos outros países analisados.

 

 “O grande desafio será manter os níveis de actividade física que os jovens têm, por exemplo, aos 10 anos, quando a percentagem de rapazes e raparigas que cumprem estas orientações é muito superior, da ordem de 50 a 60 por cento”, frisou Luís Bettencourt Sardinha.

Os jovens que “têm mais tempo sedentário e menos tempo de actividade física têm valores mais elevados de triglicéridos, de insulina, e valores mais elevados do perímetro da cintura, mas de uma forma genérica são saudáveis”.

No entanto, “se estes valores mais elevados persistirem na idade adulta, o risco das doenças cardiovasculares sobe e há que incluir uma doença como a diabetes tipo-2, cuja incidência tem aumentado muito a nível mundial”, alertou o responsável do Laboratório.

A sugestão é que, durante o período da infância e da adolescência, se pratique diariamente 60 minutos de actividade física moderada, como andar rapidamente, ou vigorosa, prática de modalidades como voleibol, andebol ou futebol. O tempo que os jovens passam a ver televisão ou no computador não deve exceder as duas horas diárias.

O Estudo Global intitulado «Actividade Física Moderada e Intensa, Sedentarismo e Factores de Risco Cardiometabólicos em Crianças e Adolescentes» utilizou uma amostra de 20 871 crianças e adolescentes, entre os 4 e os 18 anos, agrupando 14 estudos realizados entre 1998 e 2009, na Austrália, Brasil, Europa e EUA.

 

É possível acabar com a obesidade infantil?

Junho 15, 2011 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da PaisFilhos com a nutricionista Alexandra Bento no dia 2 de Maio de 2011.

Escrito por Maria Jorge Costa

altPrevenção e acção para a mudança poderiam resumir a conversa com a nutricionista Alexandra Bento. Além da preocupação crescente com uma das doenças crónicas dos países desenvolvidos, a presidente da Sociedade Portuguesa de Nutricionistas dá sugestões concretas para melhorarmos a qualidade de vida das nossas crianças

Uma sociedade que tanto preza o sucesso, não se percebe porque permitimos que as nossas crianças e jovens se entreguem ao sedentarismo e a uma alimentação rica em gorduras e açúcares. O excesso de peso é causa directa de doenças crónicas precoces como a diabetes, o colesterol elevado, hipertensão arterial, a doença cardiovascular, diferentes tipos de cancro, dificuldades respiratórias, problemas de ossos e articulações. «Além disso», adverte Alexandra Bento, «também conduz a alterações sócio-económicas e psicossociais graves: isolamento, discriminação laboral, educativa e social, baixa auto-estima, depressão e – em casos ainda mais graves – suicídio».

30 por cento com excesso de peso

Os números portugueses são assustadores. A Escola Nacional de Saúde Pública indica que 30 por cento das crianças e jovens têm excesso de peso, sendo igualmente elevada a percentagem de obesos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a obesidade é uma doença em que o excesso de gordura corporal acumulada pode atingir graus capazes de afectar a saúde. Em Portugal, mais de 50 por cento da população adulta sofre de excesso de peso, sendo que, aproximadamente, 14 por cento desta é obesa.

«Portugal é também um dos países europeus com maior prevalência de obesidade infantil: 32 por cento das crianças com idade compreendida entre os 7 e os 9 anos apresentam excesso de peso, sendo que 11 por cento destas são consideradas obesas», enuncia Alexandra Bento. Como é que se chega à condição de obeso? Muitas vezes o caminho é lento, mas tudo radica numa alimentação em que «a quantidade de energia ingerida é muito superior à quantidade de energia gasta pelo organismo», afirma.

Atitude positiva

O desenvolvimento de estratégias que transmitam atitudes positivas relacionadas com hábitos saudáveis, alimentares e de combate ao sedentarismo, que envolvam toda a família, são fundamentais para combater a obesidade, defendem os especialistas. Alexandra Bento avança exemplos que gostaria de ver em acção já hoje: «adopção e cumprimento de leis, regulamentos, regras formais e informais que orientem comportamentos individuais e colectivos como a distribuição de saladas e frutas a preço reduzido nos bares das escolas e nas cafetarias». Naturalmente que uma população esclarecida e informada é metade do trabalho feito porque, como consumidores, estarão atentos aos rótulos dos produtos alimentares, escolhendo os que oferecem menor valor energético. A escolaridade ajuda a combater a obesidade de algumas formas, nomeadamente, «permite que os indivíduos entendam melhor a natureza do problema e as estratégias de prevenção e aumenta a capacidade de não cederem tão facilmente às pressões da publicidade que incentiva ao consumo de alimentos de alta densidade energética», refere Alexandra Bento. Mas não é só através da dieta que se muda o estado das coisas. É uma alteração de hábitos de vida que se reclama. Pais e educadores têm de combater o consumo excessivo de televisão, videojogos e consolas. «São absolutamente fundamentais medidas de grande impacto mediático para que se consiga, não só alertar e consciencializar a população para as consequências de saúde, qualidade de vida e económicas que a obesidade acarreta, mas também que possam envolver todos os sectores da sociedade civil, incluindo, entre outras, o governo, as autarquias, as escolas e as empresas, na prevenção desta epidemia», sublinha. Apesar de tudo, vão surgindo iniciativas que a presidente dos nutricionistas portugueses destaca, como a criação da Plataforma Nacional Contra a Obesidade, cujo coordenador é um nutricionista – Pedro Graça. O facto de o Ministério da Saúde ter identificado a obesidade como uma doença crónica permitiu o surgimento desta plataforma.

Obesidade e despesas de saúde

Os números indicam que os custos directos da obesidade chegam aos 3,5 por cento das despesas de saúde. A prevenção é o melhor e mais económico caminho para a combater. E quando falamos da prevenção voltamos sempre ao mesmo: mudanças no estilo de vida, que assentam na reestruturação dos hábitos alimentares, no aumento da actividade física e desportiva e programas educativos, escolares e institucionais. «A prevenção pode não ser visível de imediato, mas é o melhor “remédio” para inverter esta realidade», garante. 

«Um croissant ou um bolo são mais baratos do que um pão com queijo»

Entrevista a Alexandra Bento, presidente da Sociedade Portuguesa de Nutricionista

Toda a gente fala dos benefícios da dieta mediterrânica. Mas esta está em vias de extinção. Neste momento, há uma dieta global à base de gordura e açúcar. As famílias têm pouco tempo e refugiam-se em cozinha rápida e saciante. O que é preciso para os recuperar para comida mais saudável?

Em primeiro lugar, é fundamental que as pessoas se consciencializem de que a alimentação é um dos principais determinantes da saúde humana. De facto, o tipo de alimentação condiciona, em larga medida, a qualidade e o tempo de vida. O stresse do dia-a-dia e a falta de tempo não podem ser utilizados como desculpa para a realização de dietas pouco equilibradas e, muito menos, para incutir hábitos pouco saudáveis aos mais novos. Uma dieta hiper-energética, com excesso de lípidos, de hidratos de carbono ou de álcool e o sedentarismo, levam à acumulação de excesso de massa gorda. Assim, o estilo de vida moderno, se não for modificado, predispõe ao excesso de peso.

Como escolher a dieta certa?

Para começar a praticar uma alimentação mais correcta basta seguir os princípios da Roda dos Alimentos. Este instrumento de educação alimentar, em forma de prato, diz-nos que, na nossa alimentação diária devemos ingerir mais dos alimentos que pertencem aos grupos de maior dimensão (cereais e derivados, produtos hortícolas e frutos) e menos daqueles que apresentam menor tamanho (gorduras). Leguminosas, carne, pescado e ovos e leite e produtos derivados devem ser consumidos, diariamente, de forma moderada. Durante, ou no intervalo das refeições, devemos optar pela ingestão de água, em detrimento de qualquer outra bebida. É importante consumir cerca de oito a dez copos de água por dia, às refeições e fora delas. Embora os alimentos dentro de cada grupo apresentem propriedades nutricionais muito semelhantes, cada um deles é único, fornecendo-nos compostos que podem não existir noutros e por isso é importante variar a nossa escolha dentro de cada grupo.

Dê um exemplo.

A carne e o peixe incluem-se no mesmo grupo, pois são os principais fornecedores de proteína na nossa dieta. O peixe é também fonte de ácido docosahexaenóico (DHA) e ácido eicosapentaenóico (EPA), conhecidos como ácidos gordos ómega 3. O EPA e o DHA, muito falados hoje em dia, apresentam benefícios importantes para a nossa saúde, particularmente a nível cardiovascular. Açúcar, bolos, refrigerantes, chocolates, bolachas, rissóis, empadas, fast-food, batatas fritas e outros snacks… não estão contemplados na roda dos alimentos e por isso é que o seu consumo se deve restringir aos dias festivos ou ocasiões especiais.

Será uma fatalidade o binómio obesidade/classe social?

Nos países desenvolvidos verifica-se uma relação inversa entre o nível sócio-económico e a prevalência de obesidade. As pessoas mais des-favorecidas consomem, geralmente, alimentos mais baratos que tendem a ser mais calóricos. Frutos, hortícolas e peixe, por exemplo, não fazem parte da alimentação diária, ao contrário de bolos, bolachas, batatas fritas, refrigerantes, salgados… que tendem a apresentar preços mais competitivos. Numa pastelaria, por exemplo, sai mais em conta pedir um croissant do que um pão com queijo.

Como se transmite às pessoas a ideia de que comer melhor não significa fazer dieta ou sacrifícios alimentares?

Seguir uma alimentação saudável e equilibrada não significa, de todo, que se esteja a fazer “dieta” e que, portanto, se tenha de excluir, obrigatoriamente, da alimentação a fatia de cheesecake, a mousse de chocolate, ou a fatia de pizza. De facto, não existem alimentos maus. Existem sim, dietas muito pouco equilibradas com tendência ao consumo excessivo diário de calorias, particularmente sob a forma de gorduras e açúcares, e que, aliadas ao sedentarismo contribuem para o aumento de peso.

O consumo de bolos, bolachas, fast-food, refrigerantes, salgadinhos deve, portanto, constituir excepção e nunca a regra! Com que idade se conquistam as crianças para a boa alimentação?

As fases de aquisição de hábitos e de modelação de comportamentos são precisamente a infância e também a adolescência. Por isso, é muito importante que as crianças adquiram, desde tenra idade, hábitos alimentares saudáveis. Estes são ditados pelo meio cultural e familiar em que a criança vive. Se a família tem bons hábitos de alimentação, se a hora das refeições é um momento de prazer, não só pelo acto de comer, mas também pela oportunidade de integração, de convivência e de partilha, cria-se um ambiente mais estimulante para a incorporação das boas práticas alimentares. É a partir dos 18-24 meses que a criança começa a estruturar hábitos de higiene, de autonomia, de educação e também de escolha. Uma vez que não podemos mudar o que está fora do nosso controlo e que a criança vai necessariamente contactar com todo o tipo de ofertas, quanto mais tardio for o contacto com determinado tipo de alimentos não desejáveis, menor a apetência no futuro para a procura desses alimentos, garantindo que o seu consumo será esporádico e não compulsivo e diário. Tudo se pode comer, desde que, com regra e medida; quanto mais cedo se aprender a fazer a diferença, maior a garantia de um comportamento alimentar saudável ao longo da vida.

Sete regras de ouro:

Comer devagar, mastigando sempre muito bem todos os alimentos;

Comer em intervalos regulares de aproximadamente 3h30. O ideal é fazer-se, no mínimo, cinco refeições por dia: pequeno-almoço, merenda da manhã, almoço, merenda da tarde e jantar.

O pequeno-almoço é muito importante e deve ser constituído por pão ou cereais integrais, uma peça de fruta e um copo de leite ou iogurte;

Devem iniciar-se as refeições principais com um prato de sopa, rica em legumes e hortaliças. A sopa, para além de ser uma boa fonte de vitaminas, minerais e fibra, ajuda a comer menos quantidade do resto de comida;

O prato principal deve ser acompanhado por uma salada variada;

Optar por alimentos cozidos ou grelhados em vez de fritos e assados com gordura;

Comer pelo menos duas a três peças de fruta por dia.

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