A vida numa prisão para crianças no Uganda

Novembro 10, 2015 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

texto do P3 de 15 de outubro de 2015.

Sascha Montag

Kampiringisa fica para além de estrada pavimentada num vale do Uganda, a vários quilómetros de Kampala. A paisagem seria idílica, não fosse a presença dissonante de um complexo prisional que detém exclusivamente crianças. Oficialmente, o fotojornalista alemão Sascha Montag não deveria poder visitar o local. Segundo a jornalista que o acompanhou, Andrea Jeska, “alguém do governo do Uganda parece suspeitar que Kampiringisa é uma desgraça para o bom nome do país e que deverá manter-se fora do roteiro jornalístico”.

Estão detidas em Kampiringisa cerca de 300 crianças, número que varia com frequência dado o enorme fluxo de crianças que integram e abandonam a instituição mensalmente.

“Não foi fácil obter acesso ao local”, disse Sascha em entrevista ao P3. “Visitei-o com a ajuda de uma organização não governamental belga que intervém junto das crianças.” Apesar da intervenção da ONG europeia, os vários edifícios que compõem o complexo prisional mantêm falhas estruturais graves: há bolor nas paredes dos edifícios, lama e sujidade no chão, algumas varandas colapsaram e muitas janelas não têm vidros que protejam as crianças do vento frio que de noite se faz sentir.

As condições higieno-sanitárias são altamente precárias e os surtos de cólera e malária são frequentes. Kampiringisa não é apenas um estabelecimento de detenção juvenil, é também a casa de dezenas de crianças de rua que o governo do Uganda não sabe onde acolher. As crianças têm entre os três e os 19 anos de idade e foram detidas nas ruas pelas autoridades ou abandonadas pelos pais na instituição sob acusação de pequenos delitos ou simplesmente por “desobediência”.

A maior parte dos residentes cumpre penas de três meses a três anos, mas acaba por ficar até atingir a maioridade por recusa da família em recebê-los. Há uma década a instituição era estritamente uma prisão. Eram conhecidos casos de tortura com choques eléctricos e espancamentos. “A jaula” era conhecida entre os pequenos reclusos como um local a evitar. Ficar na “jaula” significava dormir nu, num espaço exíguo, em contacto com o chão, ao lado de dezenas de crianças.

“Quando li sobre Kampiringisa num blogue de viagem, há uns anos, não queria acreditar que existia um local como este num país que assinou a convenção sobre os direitos da criança das Nações Unidas”, comentou Sascha. “Como assistente social e pai de três filhos, tenho muito interesse em reportagens de cariz social com enfoque nos direitos da criança.” Sascha Montag recebeu recentemente uma distinção no concurso International Photography Award, na categoria não profissional.

Ana Marques Maia

Visualizar todas as fotos no link:

http://saschamontag.de/album/kindergefangnis-uganda?p=1?p=1


Entries e comentários feeds.