O desenvolvimento da linguagem: “A criança percebe tudo, mas não diz quase nada”

Abril 17, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Sandra F. Afonso publicado no Público de 2 de abril de 2019.

Não existem medicamentos para estas situações. A solução passa por estratégias para os pais e intervenção profissional.

O orgulho e recordação de qualquer pai ao ouvir pela primeira vez o seu filho dizer “mamã” ou “papá”, ocorre tradicionalmente no primeiro ano de vida da criança. Segue-se um período de grande desenvolvimento da linguagem, em termos de vocabulário e combinação de palavras, surgindo pequenas frases por volta dos 2 anos de idade, dizendo entre 50 e 100 palavras. Mas e quando isto não acontece? Será que a fala realmente irá surgir mais tarde?

Atraso na fala é uma das causas mais comuns de preocupação dos pais de crianças pequenas, motivando consulta no pediatra ou outro profissional de saúde. Esta situação ocorre em 5 a 10% das crianças em idade pré-escolar, podendo resultar de uma dificuldade específica apenas ao nível da linguagem, ou ser indicador precoce de um problema mais global, como atraso no desenvolvimento ou autismo.

É importante distinguir entre linguagem e fala, usados frequentemente como sinónimos. A linguagem é o uso do código para estabelecer comunicação. Na forma verbal, pelo uso de palavras escritas ou orais, a fala. Na comunicação não verbal, através de meios alternativos, como gestos e expressões faciais, tão espontâneos e significativos nas crianças. Para o normal desenvolvimento da linguagem é necessário que a criança cumpra determinados pré-requisitos, como um nível cognitivo normal, audição mantida, aparelho fonatório (estruturas envolvidas na fala) íntegro, correta programação dos movimentos para a produção da fala, e ainda manifestar vontade de comunicar.

Igualmente importante é a adequada estimulação, que emerge como um problema do século XXI, devido ao atual excesso de tempo de exposição aos ecrãs. Na perturbação da fala existem problemas relacionados com aspetos mecânicos da produção das palavras, prejudicando a articulação das palavras, o ritmo e inteligibilidade do discurso, sendo um exemplo típico a gaguez.

O desenvolvimento da linguagem ocorre espontaneamente e por etapas, existindo diferenças na velocidade de aquisição, e entre as várias culturas e línguas. Começa ainda antes de a criança emitir as suas primeiras palavras, com o balbucio, conhecido como palrar. Utiliza-se o termo atraso de linguagem quando a aquisição se faz de forma normal, com a sequência típica, mas com um ritmo lento, surgindo mais tarde do que a idade habitual. Por regra a compreensão precede a expressão, sendo frequente ouvir os pais afirmarem que a criança “percebe tudo, mas não diz quase nada”! Na chamada perturbação específica da linguagem, o desenvolvimento é atípico, não segue a sequência normal.

Há sinais de alarme que devem preocupar os pais, educadores e cuidadores das crianças, levando-os a procurar ajuda. Não palrar aos 6 meses, não dizer nenhuma palavra aos 12 meses, não apontar aos 15 meses, não compreender ordens simples aos 18 meses, falar sem objetivo de comunicar ou não juntar palavras aos 2 anos, não construir frases aos 3 anos, linguagem incompreensível aos 3 anos, ter uma fala com muitas trocas de letras acima dos 4 anos.

Na prática, perante uma criança com menos de 3 anos, com um atraso na linguagem, mas desenvolvimento psicomotor adequado, compreensão verbal normal, boas capacidades comunicativas e uma história familiar de aquisição tardia, é lícito uma atitude de vigilância, sem necessidade de intervenção imediata. Mas sempre que os pais manifestem preocupação com a comunicação ou socialização da criança, existam fatores de risco tais como prematuridade ou familiares diretos com perturbação da linguagem ou dificuldades de aprendizagem, recomenda-se o encaminhamento para uma avaliação detalhada.

Perante a hipótese de perturbação da linguagem, deve ser realizada uma avaliação da audição, do desenvolvimento psicomotor e cognitivo, incluindo a sociabilização e comunicação. Raramente é necessário efectuar exames de diagnóstico.

Não existem medicamentos para estas situações. A solução passa por estratégias para os pais e intervenção profissional. Pode ajudar o seu filho a desenvolver a fala, conversando frequentemente com ele, contando histórias, cantando músicas com gestos para acompanhar o som, descrevendo as ações do dia-a-dia, relatando o que estão a ver ou fazer juntos. Até os 2 anos de idade evitar o uso de ecrãs. A intervenção profissional é adaptada a cada criança. Consiste em treino em terapia da fala e enquadramento escolar específico, quando indicado. Para não prejudicar o desenvolvimento da criança e prevenir problemas emocionais e isolamento social consequentes a este tipo de perturbações, pode ser necessário recorrer a técnicas de comunicação aumentativa e língua gestual.

 

Pediatra no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas


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