Será a roupa que as crianças vestem na escola uma forma de expressão ou uma forma de discriminação?

Agosto 6, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do Sapo Lifestyle

A crónica de Luísa Agante

As opiniões dividem-se entre aquelas que os acham uma bênção e uma solução muito prática, e outros que os veem como limitadores da liberdade de expressão das crianças. Um artigo de opinião de Luísa Agante, professora de marketing na Faculdade de Economia do Porto e especialista em comportamento do consumidor infantil e juvenil.

Há uns tempos li um estudo realizado em França que tinha um relato de uma criança dizendo que quando levava o seu calçado Nike para a escola tinha amigos com quem falar e conversar, mas quando levava outro tipo de calçado não era tão bem aceite. Já não tinha amigos e já não queriam falar nem brincar com ela. Auch! Até me doeu ao ler isto. Mais uma consequência da realidade à qual tenho vindo a dedicar parte da minha investigação, o consumismo/materialismo nas crianças.

Por materialismo entende-se a valorização dos bens materiais como atribuidores de valor à pessoa que os utiliza. Nas crianças o consumismo/materialismo é um tema recorrente por estar associado muitas vezes a fenómenos como o bullying, isto porque as crianças valorizam os bens materiais e, ao mesmo tempo, estão a aprender a socializar e a usar esses bens como indicadores do valor social de si próprios e dos pares.

Os níveis de materialismo não são iguais em todas as crianças e dependem de vários fatores. Sabemos por exemplo que os rapazes tendem a ser mais materialistas que as raparigas. Enquanto os rapazes ousam menos em sair das marcas aceites e a escolha de uma t-shirt é um processo muito importante para eles, as raparigas aprendem desde cedo a depender menos das marcas e a saber como criar um “estilo” sem necessitarem tanto de usar as marcas para o expressarem. O materialismo também é muito diferente consoante o tipo de produto, nomeadamente entre a roupa e o calçado. Poucas crianças ousam divergir da maioria no que toca a calçado, mas já se nota uma maior flexibilidade em termos de roupa.

“Enquanto a possibilidade do uso de uniforme for conotada por uns como uma mentalidade de direita associada aos colégios ditos “elitistas”, onde o uso de uniforme é uma medida discriminatória e snob, e por outros pais, como uma mentalidade de esquerda que retira a possibilidade de expressão do indivíduo e uniformiza todos os seres humanos, será difícil mudar e pensar no que é mais importante, a formação das crianças”

Sendo a escola o local onde as crianças passam a maior parte do tempo, e onde estão apenas com os seus pares e com os professores, esse tende a ser o local onde mais expressam o seu materialismo. Normalmente os professores não interferem neste tipo de assuntos, de modo que as crianças estão à mercê do escrutínio dos colegas. Na escola são ditadas tendências, são definidas regras e são valorizadas e/ou penalizadas as crianças que não seguem essas regras.

Por tudo isto, depois de muito estudar e analisar os temas do materialismo, tenho vindo a defender a utilização de uniformes nas escolas. Uniformes simples, que incluam roupa e calçado, que sejam desenhados e confecionados tendo em conta os tempos em que vivem estas crianças e os corpos tão diferentes que cada criança tem. E como sei que não é um tema nada consensual, vou fazendo perguntas e anotando as respostas que obtenho dos pais.

As opiniões dividem-se entre aquelas que os acham uma bênção e uma solução muito prática, e outros que os veem como limitadores da liberdade de expressão das crianças, que ficam assim privadas da utilização da roupa como expressão do seu “Eu”. Alguns estudos mostram mesmo que as pessoas que são mais conscientes e sensíveis aos temas de moda consideram esta medida como um ultraje e uma limitação das liberdades individuais de cada um.

Antes de passar para as entrevistas com as crianças é necessário que este tipo de decisão reúna mais algum consenso da maioria dos pais. Enquanto a possibilidade do uso de uniforme for conotada por uns como uma mentalidade de direita associada aos colégios ditos “elitistas”, onde o uso de uniforme é uma medida discriminatória e snob, e por outros pais, como uma mentalidade de esquerda que retira a possibilidade de expressão do indivíduo e uniformiza todos os seres humanos, será difícil mudar e pensar no que é mais importante, a formação das crianças.

Olhando para exemplos internacionais, temos países como o Reino Unido ou a Índia (ligados por raízes históricas mas com características tão diferentes), que já utilizam uniformes há muito tempo, e que mostram como essa medida permite uniformizar os alunos retirando a carga materialista da roupa na escola; para além disso, como optaram por uniformes mais formais, reconhecem que os alunos aprendem a considerar a escola um local mais formal, de respeito, e se habituam a usar roupa formal num ambiente “profissional”. No entanto, a sua obrigatoriedade põe a tónica nas escolas e exige um enorme controlo dos uniformes no dia a dia, e coloca mais pressão sobre os professores que têm que verificar se as crianças estão ou não devidamente uniformizadas.

Penso que em Portugal temos condições fantásticas para a implementação de um modelo de uniformes obrigatórios nas escolas públicas (e privadas) pelo menos até 9º ano de escolaridade. Algumas escolas já têm uniformes, mas muitas os abandonam no final do ensino primário, quando o desenvolvimento do materialismo é mais crítico durante os anos de pré-adolescência e adolescência.

“Nenhuma destas situações é tão discriminatória, tão visível, como a roupa e o calçado que as crianças usam na escola”

O modelo que imagino ser possível implementar utilizaria as nossas vantagens competitivas ao nível da indústria têxtil e calçado. Escolheria também designers nacionais e as crianças participariam na tomada de decisão do uniforme a implementar. Criando-se opções de peças onde as crianças pudessem escolher entre calças, calções, saias e alguns modelos de camisolas, cada família poderia adequar a indumentária recomendada ao perfil da sua criança sem que esta se sentisse tão restringida na uniformização.

Em termos de modelo económico seria possível cobrar uma pequena margem em cada peça, a qual daria para gerar a sustentabilidade financeira do projeto, e subsidiar os uniformes das famílias que não tivessem capacidade financeira para o adquirir. Para além disso, seria possível criar um uniforme simples para o uso do dia a dia, com uma opção mais formal para que todas as crianças se habituassem aos dias especiais e não vivessem sempre na versão t-shirt e calça de ganga.

Sei, no entanto, que a discriminação das crianças com maiores ou menores posses não vai acabar com uma possível introdução dos uniformes. Os mais variados tipos de julgamentos e descriminações continuarão a ocorrer quando se perguntar qual o destino de férias, quais as prendas de Natal, quais os programas de fim-de-semana, entre tantas outras coisas que diferenciam as pessoas consoante o seu poder aquisitivo. Contudo, nenhuma destas situações é tão discriminatória, tão visível, como a roupa e o calçado que as crianças usam na escola, daí eu a defender e ter esperança que um dia se introduza este tema nas conversas e debates de domínios públicos.

Luísa Agante é professora de marketing na Faculdade de Economia do Porto e especialista em comportamento do consumidor infantil e juvenil. Tem uma página no Facebook chamada “Agante & Kids” na qual publica e partilha regularmente conteúdos informativos sobre comportamento infantil para pais e educadores.

Crianças portuguesas valorizam mais roupa do que brinquedos

Abril 25, 2011 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Sol de 6 de Abril de 2011.

As crianças portuguesas dão mais importância à roupa e ao calçado do que aos brinquedos, revelam os resultados de um estudo que será apresentado na quinta-feira no Porto.

A autora do estudo, Luísa Agante, docente do IPAM – The Marketing School, disse que a grande valorização das roupas foi uma das principais conclusões do estudo, realizado em 2008 e que envolveu 249 crianças dos segundo e terceiro anos de quatro escolas portuguesas, uma das quais privada.

No estudo «O significado das compras para as crianças: uma comparação entre Portugal e os EUA», Luísa Agante utilizou a técnica do desenho sob a instrução «Desenha o que te vem à mente, quando pensas em ir às compras».

A investigadora usou a mesma metodologia utilizada em 1989 nos Estados Unidos, num outro estudo envolvendo 112 crianças do segundo ao quarto anos.

Luísa Agante reconheceu a fragilidade de comparar resultados de estudos tão distantes no tempo, afirmando que é seu objectivo repetir o método nos Estados Unidos e na Ásia, para poder fazer comparações interculturais.

A docente, que completou doutoramento em 2010, tem vindo a estudar há mais de 10 anos, desde a tese de mestrado, a importância que as pessoas dão à roupa e o crescimento do materialismo nas crianças.

«Damos muita importância à roupa e ao calçado. É algo específico do sul da Europa», afirmou, salientando que «estar in ou estar out » para os rapazes e para as raparigas tem muito a ver com o que calçam e vestem.

No mesmo estudo, Luísa Agante concluiu também que as crianças desenham muito leite e iogurtes, o que atribuiu às campanhas específicas de consumo de leite na União Europeia.

«Num terceiro nível, verificou-se o quão importante são para as crianças as marcas dos retalhistas, alimentares e não alimentares», acrescentou.

Salvaguardando as distâncias temporais, a investigadora concluiu que as crianças portugueses de 2008 vão mais às compras com os pais do que as norte-americanas de 1989, o que considerou indiciador de diferentes padrões de compra.

Os resultados do estudo vão ser apresentados na quinta-feira no VI Seminário de Marketing Infantil, organizado pelo IPAM e pela BrandKey, e que conta com mais 15 oradores, entre os quais David Buckingham, professor do Instituto da Educação da Universidade de Londres.

Lusa/SOL

“Falta-lhes tudo. E são tantos”

Novembro 18, 2010 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Divulgação | Deixe um comentário
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Artigo do Diário de Notícias de 10 de Novembro de 2010.

por PATRÍCIA JESUS

A crise está a ser sentida nas escolas, que tentam dar resposta a carências dos alunos. Da alimentação à roupa

Maria José Ruas segura um quispo verde, pequeno, deixado no posto improvisado de recolha de roupa que a “sua” escola montou este período. Ao fundo uma dúzia de caixas de cartão guardam o que pais e funcionários trouxeram: da roupa de criança à de adulto, passando por sapatos e roupa de cama. A campanha já terminou e alguns alunos até já levaram para casa as peças que faziam mais falta, mas as necessidades das crianças estão longe de estar satisfeitas.

“A muitos falta-lhes tudo. E são tantos. Cada vez mais”, diz a subdirectora da Escola Luís António Verney. O agrupamento tem quase mil alunos, das freguesias de Beato e Marvila, em Lisboa, e a crise tem afectado a escola. Muitos procuram ali o que não têm em casa. “Vêm de famílias desestruturadas e são crianças que não têm o básico assegurado: começando pelos afectos, depois comem mal, a refeição melhor que fazem é na escola, andam dias e dias seguidos com a mesma roupa, às vezes já muito sujos.”

Por isso, a ideia de organizar uma campanha de recolha de roupa surgiu ainda no final do último ano lectivo. Na prática, para fazer, em maior escala e de forma mais organizada, o que muitos professores e funcionários têm feito ao longo dos anos: trazer para os alunos a roupa que os filhos já não usam. É esse o destino da roupa dos filhos de Maria José Ruas. “Tenho vários alunos vestidos com roupa que era dos meus filhos.”

O quispo que tem na mão não serve para os alunos desta escola, todos com mais de dez anos, mas vai com certeza ser útil a uma criança do jardim infantil do agrupamento, explica. O objectivo foi começar a recolha no início das aulas para poder ajudar as crianças a suportar o frio no Inverno. Até porque os sinais são visíveis a olho nu: começa pela ausência de marcas caras, à falta de agasalhos. Os números também mostram essa carência. “Não tenho de cabeça a percentagem de alunos que necessitam de apoio da Acção Social Escolar, mas é muito, muito grande e tem vindo a aumentar. Temos turmas inteiras nessa situação e muitos do escalão A”, ou seja, de famílias que ganham até 245 euros por mês.

Gostam de estar na escola, garante a responsável, até porque ali recebem algum carinho, comida e até roupa, “mas ao nível das aprendizagens é muito complicado”. Muitos ainda estão à espera de livros e nem uma mochila organizada com o material necessário conseguem. Essa mesma preocupação leva o presidente da Confap a lembrar a necessidade de “acautelar uma resposta às necessidades sociais básicas dos jovens”, como os manuais e material . E Albino Almeida teme que o pior ainda esteja para vir.

Para Maria José Rua, os efeitos da crise já se sentem no terreno. Apesar de nesta escola já estarem habituados a viver em crise. Daí a disponibilidade para lançar iniciativas como esta. “As nossas funcionárias estão muito atentas e temos sempre uma maçã à espera para dar a estes alunos. Uma peça de roupa se aparecem na escola molhados. Às vezes até são elas a cortar-lhes as unhas”, conta.

Na quinta-feira, a junta de freguesia vem buscar a roupa recolhida (ver infografia) mas “já foi feita uma distribuição pelos casos mais urgentes”, explica dona Maria, de bata azul, enquanto revista mais uma vez as caixas. A funcionária conhece bem as dificuldades dos meninos. “Não damos à frente dos outros colegas. Damos à parte.” O papel dos directores de turma é estarem atentos aos sinais e depois, “com muita diplomacia”, chamarem os pais para perceber o que se passa e como podem ajudar.

Desde que são uma escola TEIP (inserida em territórios educativos de intervenção prioritária) conseguiram mais recursos, admite a subdirectora – dando como exemplo o mediador de pátio que evita que os alunos fiquem no recreio e faltem às aulas -, mas não conseguem “resolver a pobreza”. “São problemas sociais que nos ultrapassam. É uma luta diária.”


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