“O meu agressor anda comigo no bolso”

Março 20, 2017 às 2:20 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 18 de março de 2017.

Ana França

As ofensas, o gozo, os e-mails difamatórios, as fotografias tiradas no balneário. Na era da internet, o bullying é uma nódoa negra permanente. Nada se esquece e tudo se partilha.

Já não é só das nove às cinco. É todo o dia e toda a noite, e acontece dentro de um objeto que transportamos para todo o lado. “O meu agressor anda comigo no bolso”, ouviu Rosário Carmona, psicóloga que acompanha crianças e jovens vítimas de abuso, um dia, no seu gabinete. O bullying é um fenómeno que existe em todas as escolas do mundo e desdobrou-se, com a chegada da internet , no cyberbullying. O gozo, a ofensa, a violência psicológica, as críticas, as ameaças e a chantagem acontecem 24 horas por dia, sete dias por semana, no ecrã de um telemóvel do qual os jovens estão cada vez mais dependentes. O cordão que os liga ao mundo onde estão os seus agressores serve também como principal escape a essa agressão.

As marcas não desaparecem nunca, porque da internet nada desaparece nunca. O direito ao esquecimento é fundamental para quem sofre de cyberbullying, já foi aprovado por todos os países da Europa, mas é preciso que o caso chegue a tribunal. A lei, em Portugal, já considera o bullying e o cyberbullying como crimes, puníveis com pena de prisão até cinco anos quando o agressor é maior de 16 anos.

O principal risco para as crianças é que os pais e os educadores por vezes relativizam este tipo de violência como uma coisa banal, como só mais uma parte de se ser adolescente. Só que o bullying acontece nas idades que nos definem, naquela altura em que ter muitos amigos, ser convidado para festas de aniversário, ou ser escolhido em primeiro lugar para as equipas na aula de Educação Física são as batalhas mais importantes do mundo. O bullying não é apenas gozar com miúdo que é mais baixo que os colegas de turma. É um ataque sistemático e premeditado a alguém que vai deixando de acreditar, à medida que lhe espezinham a auto-estima, que é digno de amor e respeito no futuro.

O bullying é um problema sério, com uma influência direta e documentada nas tendências suicidas dos jovens de todo o mundo. Em Portugal este fenómeno ainda não está bem estudado, até porque os pais e os educadores precisam de mais formação para identificarem os alertas nas crianças e para estarem atentos ao que se passa dentro dos computadores e dos telemóveis. “É essencial que os professores e os pais entendam que aquele miúdo mais calado ao fundo da sala, que chega a casa com dores de cabeça e dores de barriga pode não ser apenas uma criança tímida mas sim uma criança que já não comunica com medo de ser gozada”, defende, numa entrevista ao Observador, Rosário Carmona. A psicóloga será uma das oradoras no debate “Novas tecnologias: Uso ou abuso?” que acontece este sábado, em Aveiro, organizado pelo SIPE – Sindicato Independente de Professores e Educadores.

Na semana passada, o caso da adolescente de Ponte de Lima que fugiu de casa cinco dias para se ir encontrar com um rapaz de 24 anos que já tinham sido identificado pela Polícia Judiciária como alguém “com perfil de predador online”, voltou a colocar a questão da segurança dos jovens no meio digital em primeiro plano. Infelizmente, já nem é possível contar os casos de homens — e algumas mulheres — que fingem serem outras pessoas na internet para aliciar jovens a enviar fotografias e vídeos em situações comprometedoras. Alguns chegam mesmo a convencer as vítimas a marcar um encontro, e não é preciso dizer o perigo que isso acarreta — ou é? “É sim. Parece óbvio para um migrante digital, que tem noção do que é a interação social antes da internet, mas nas redes sociais as coisas parecem sempre relativamente inofensivas. É só uma mensagem, qual é o problema? Se um homem nos abordar na rua começamos a correr ou chamamos a polícia, mas na internet expomo-nos mais, baixamos as defesas, somos desconhecidos, até podemos ser anónimos. Esta é a realidade de muitos adultos, e de muito mais crianças”, explica Rosário Carmona.

“O papel dos professores é essencial e a formação de professores e auxiliares tem que ser uma prioridade nas escolas”, defende, na mesma sala, Júlia Azevedo, presidente do SIPE. “A tecnologia é ensinada em aulas específicas, mas como estamos sempre a correr para dar o programa resta pouco tempo para incluir nas aulas essas advertências essenciais em relação aos perigos que se escondem em algo que os alunos utilizam todos os dias”. Na opinião da professora, falta “flexibilidade de horários e conteúdos”. Rosário Carmona e Júlia Azevedo já têm ideias. Por exemplo, nas aulas de Português ou Psicologia um dos trabalhos podia ser conduzir uma entrevista com um especialista em cyberbullying, e, em Matemática, construir um gráfico com a evolução da prevalência deste problema nos vários países da Europa”, dizem à vez.

“As formas de subjugação e violência possíveis na internet são inúmeras. Por exemplo, um agressor pode criar uma página na internet e colocar insultos ou fotos da vítima, ou então pode fazer circulá-las pelo Whatsapp ou outro chat, ou criar grupos fechados por exemplo no Facebook onde circulam comentários ofensivos à pessoa alvo do cyberbullying”.

Rosário Carmona, psicóloga clínica especializada em problemas da juventude

Alguns dos casos mais conhecidos chegam-nos pela imprensa estrangeira. Amanda Todd tinha 15 anos quando se suicidou, em 2012, em sua casa, depois de uma fotografia do seu peito ter sido partilhada por um homem que a chantageou por mais de dois anos. Aydin Coban, o agressor de Amanda, foi preso na quinta-feira e vai passar 11 anos na prisão. Também Jessica Logan, uma jovem de 18 anos de Cincinnati, escolheu acabar com a própria vida depois uma imagem do seu corpo nu ter sido partilhada centenas de vezes pelo namorado na rede social pré-Facebook, o MySpace, depois de ela ter terminado a relação. A chantagem está quase sempre subjacente a esta forma de violência e os golpes chegam de várias direções.

“As formas de subjugação e violência possíveis na internet são inúmeras. Por exemplo, um agressor pode criar uma página na internet e colocar insultos ou fotos da vítima, ou então pode fazer circulá-las pelo Whatsapp ou outro chat, ou criar grupos fechados por exemplo no Facebook onde circulam comentários ofensivos à pessoa alvo do cyberbullying“, diz Rosário Carmona.

Os jovens que chegam ao seu consultório trazem histórias que a ficção não conseguiria conjurar. Rosário Carmona conta a história de um jovem que é vítima de cyberbullying e que sabe perfeitamente que existe um grupo no Facebook criado para dizer mal dele. “Às vezes, os seus agressores concedem-lhe acesso, outras vezes bloqueiam-no. Numa das consultas ele disse-me que não sabia se era pior estar lá dentro e ler o que diziam dele, ou se era quando não podia ver, porque ficava horas a imaginar as coisas horríveis que estariam a circular”, exemplifica a psicóloga que além de um jogo de tabuleiro para tentar que as crianças e os pais se reúnam à volta destas questões tem um livro de perguntas e respostas para educadores e pais — “iAgora?” — que deve sair no início de abril.

“Para um migrante digital é óbvio que a internet representa um outro mundo, porque existe a noção do que é ou foi a interação social antes da internet mas nas redes sociais as coisas parecem sempre relativamente inofensivas. É só uma mensagem, qual é o problema? Se um homem nos abordar na rua começamos a correr ou chamamos a polícia mas na internet expomo-nos mais, baixamos as defesas, somos desconhecidos, até podemos ser anónimos”.

Rosário Carmona, Rosário Carmona, psicóloga clínica especializada em problemas da juventude

 

Apesar de não existirem estudos exaustivos realizados recentemente no nosso país, existe um publicado em 2014 (comparando dados de 2010 e 2014) pelo EU Kids Online, uma plataforma financiada pela União Europeia e sediada na London School of Economics que estuda os hábitos de utilização da internet dos jovens europeus, em parceria com um outro projeto com o mesmo objetivo, o Net Children Go Mobile. Os investigadores entrevistaram 28 mil jovens e a conclusão é que o fenómeno está a crescer. Em Portugal, Dinamarca, Itália, Irlanda, Roménia, Bélgica e Reino Unido, os sete países analisados, os dados mostram um aumento dos oito para os 12 por cento.

O crescimento aconteceu sobretudo entre as raparigas, e entre o grupo mais jovem do estudo (nove aos 16 anos). Outro dado preocupante é que o contacto com imagens ou informação de cariz sexual através das redes socais também aumentou (de 26 para 28%) na mesma faixa. Em quatro anos, as raparigas, que já eram o grupo mais vulnerável, ficaram ainda mais expostas (de 12 para 19 por cento).

Cristina Ponte, uma das investigadoras da equipa que tratou os dados dos jovens portugueses no estudo, destaca que, no nosso país, o dado mais interessante é que as crianças têm um acesso à internet quase universal, o que também acaba por os expor mais a mais riscos.

Já em 2016, Tito de Morais, autor do “Cyberbullying, Um Guia para Pais e Educadores” e fundador da página Miúdos Seguros na Net, disse que a violência propagada pelo espaço digital “atinge hoje entre 10 a 20% dos jovens portugueses mas “mas a sua verdadeira prevalência não se conhece”.

Repercussões perpétuas

Nos recreios dos idos anos 90, e nos de todas as décadas que lhe antecederam, as ofensas resolviam-se disferindo uma pior, ou, no máximo, um soco. A vergonha, fora nos casos mais graves, fazia mossa apenas até ao próximo miúdo ser gozado, ou pelo menos cessava quando a vítima se libertava das paredes das escola. Agora, o palco para este tipo de violência é, potencialmente, todo o mundo.

“Para que exista uma situação de bullying a violência tem que ser intencional, persistente e tem que haver um desequilíbrio de poder. Na internet tudo isto é mais fácil, mais rápido e mais abrangente”, explica Rosário Carmona, que completa com um exemplo.

“Uma das adolescentes que eu acompanho confessou que decidiu, com uma amiga, criar um email em nome de uma outra rapariga da escola e escrever, a partir daquele e-mail falso, e-mails para todos os rapazes da turma oferecendo-se para dormir com eles. Isto causa problemas complicados de perceção, e essa ‘fama’ é de uma grande violência para as raparigas nestas idades”.

Uma criança que seja vítima de cyberbullying não consegue ver um fim para o seu sofrimento e por isso “o risco de suicídio aumenta três vezes em relação ao bullying presencial”, diz Rosário Carmona.

O palco alarga-se e o controlo escorre-lhes das mãos. “Há duas características principais que distinguem os dois tipos de bullying. Uma é o palco e outra é o controlo. Uma fotografia comprometedora na internet pode ser partilhada centenas de vezes em poucos segundos, adquire uma exposição muito mais vasta, o palco é infinito. Por outro lado, o controlo deixa de existir como o conhecemos. Estou a ser agredida mas não o consigo evitar, não o consigo enfrentar. Não sei quem fez o site sobre mim, ou o print screen, quem publicou as ofensas ou as fotos, quantas pessoas viram, ou quando vai parar”, diz a psicóloga que há mais de uma década acompanha dezenas de jovens que todos os dias sofrem com este tipo de abuso cobarde e anónimo.

Terra de ninguém

Tal como na maioria dos casos de abuso fora dos meios digitais, as vítimas muitas vezes optam por não recorrer à ajuda dos pais, nem dos professores. Fecham-se, porque anteveem o pior caso denunciem os seus agressores: temem, em primeiro lugar, que a agressão se intensifique, depois têm vergonha de contar os abusos em si. Quando a vítima deixa de reagir ao abuso e depois volta a reagir, sem querer, está a ensinar ao agressor a partir de que ponto é que começa a obter uma reação “, diz Rosário Carmona.

Esperam que passe. Os pais, mesmo os que sabem, esperam que passe. “Só que raramente passa e os pais tendem a ignorar”, diz a psicóloga. Às vezes, na tentativa de ajudar, ainda causam mais ansiedade. “Alguns pais optam por retirar o computador, ou o acesso às redes sociais, ou o telemóvel. Alguns miúdos dizem-me que não falam com os pais porque têm a certeza que eles lhe vão retirar o telefone. Só que impedir o uso do telefone muitas vezes ainda desestabiliza mais”.

Isto apesar de Rosário Carmona defender uma restrição ao uso da internet e aconselhar que os pais controlem o que os filhos consultam, incluindo pedindo-lhes as passwords para as redes sociais, prometendo respeitar a privacidade e intervindo apenas em situações suspeitas. Alguns pais também lhe dizem que “não se querem meter” porque “não sabem utilizar muito bem a internet” mas, na opinião da psicóloga, os pais não precisam de saber utilizar redes sociais, ou qualquer outra plataforma, para proibirem alguma coisa que está claramente a afetar o comportamento dos seus filhos, ou pode colocá-los em perigo, ou quando têm alguma suspeita de que estejam a ser sujeitos a algum tipo de violência”.

A internet são fios invisíveis. Fios que ligam toda a gente sem que ninguém perceba quem está ligado a quem. “É muito possível que uma situação de cyberbullying se passe durante muito tempo sem ninguém reparar, porque muitas vezes os agressores não ofendem publicamente. Uma das minhas pacientes estava sentava nas aulas na mesma carteira que a sua agressora e aquilo deixava-a tão angustiada que começou a baixar consideravelmente o seu aproveitamento escolar”. Só mais um exemplo.

O cyberbullying, diz Rosário Carmona, é uma “terra de ninguém” porque “a escola não quer assumir o problema e os pais não sabem o que se passa, por isso também não agem. É por isso que a formação e a educação das crianças é tão importante. É absolutamente essencial que os pais saibam ensinar aos jovens as competências para lutarem eles contra isto: assertividade, interação, tolerância à frustração, regulação do comportamento e adiamento da recompensa”, explica.

O que isto quer dizer, basicamente, é que há ferramentas que ajudam a lutar contra todas as adversidades da vida, e que os jovens estão a perder, porque hoje a regulação dos comportamentos é sempre feita através de um estímulo externo. Depende-se do iPad para uma criança comer, por exemplo, o que quer dizer que a paciência para esperar, a capacidade para esperar pela resolução de uma situação desagradável, a resiliência, tudo isto está em causa quando falamos não do uso mas do abuso da utilização da internet.

Rosário Carmona pergunta a Júlia Azevedo em que deve focar a apresentação que irá fazer em Aveiro. “Sinais de alerta, sinais de alerta, sinais de alerta”, responde a professora, que não se cansa de frisar que a formação é essencial para todos os membros da comunidade escolar que têm de estar preparados para identificar estes alunos. “Tanto as vítimas como os agressores”, diz a professora, “porque os agressores, muitas vezes já foram vítimas e as vítimas estão a um click de se tornarem agressores”.

 

 

Navegar sem perder o pé

Abril 9, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista a Rosário Carmona e Costa e Carlos Nuno Filipe pelo Notícias Magazine no dia 31 de março de 2014.

Por: Ana Pago

A mesma porta que a internet abre para o mundo dá passagem a diversas ameaças, sobretudo para as crianças.

A internet mudou a forma como trabalhamos, estudamos, fazemos compras e nos relacionamos, mas as mesmas portas que se abrem para o mundo dão passagem a ameaças insuspeitas. Sobretudo para os mais novos. Navegar com Segurança é o livro que ajuda pais e jovens utilizadores a conhecer as regras e os limites da rede.

Num artigo recente assinado por pediatras no Huffington Post, estes afirmam que as crianças até aos dois anos não devem ser expostas a telemóveis e tablets

ROSÁRIO CARMONA E COSTA: Os pais dão-nos às crianças para as entreterem, é mais prático do que andar com cubos atrás. E isso está na base daquilo que depois se trabalha com adolescentes com dificuldade em escolherem alternativas. Tenho um em consulta que não me consegue apontar cinco coisas de que goste que não envolvam ecrãs. Os pais usam os tablets para regularem o comportamento dos filhos, até para comerem a sopa. Vão a um restaurante e a criança só come com o iPhone ligado. Em vez de seguir o percurso normal, de fazer agora uma tarefa de que não gosta para ter a recompensa a seguir, ela está a ter a recompensa para fazer uma coisa de que não gosta. E se desde o primeiro ano de vida tem que ter o iPhone para comer, como é que regula o seu comportamento num contexto em que não o tenha? Como espera numa aula de 90 minutos? Não desenvolve estas competências. Os pais distorcem dizendo que eles só fazem com o iPhone. Não. Eles só não aprenderam a fazer de outra maneira.

Com que idade é que uma criança está preparada para fazer um uso benéfico da internet e das redes sociais?

RCC: Depende do seu grau de maturidade e do uso que fizer. Se calhar, até sair do famoso estádio das operações concretas, poderá não ser capaz de dar um sentido ao que está a ver. Uma criança até aos sete ou oito anos não o fará por incapacidade de maturação cognitiva. E a partir daí pode não conseguir fazê-lo por outras razões. A única coisa de que tenho a certeza é que até aos três anos a internet não lhe é necessária para nada. Poderá começar a ser interessante no pré-escolar, para ver os números e as letras, mas não é essencial. Só se torna minimamente significativa no primeiro ciclo.

Ainda assim, fala-se muito em nativos digitais e na geração touch-screen…

CARLOS NUNES FILIPE: É um mito isso de as crianças nascerem com propensão para os tablets. Parecem tê-la porque, do ponto de vista do controlo da motricidade, o gesto de afastar do touch-screen é instintivo, muito mais fácil do que virar a folha de um livro. Por isso aderem mais, não porque nasçam com um ADN diferente do dos nossos avós. E um tablet não é, de todo, o mesmo que um puzzle ou um livro. Não tem textura, nem forma, nem cheiro, não pode ser metido na boca. Quando muito, desenvolve competências bidimensionais visuais, nem táteis são. E isso é uma ínfima parcela do que deve ser o desenvolvimento das competências psicomotoras da criança. Só é útil no fim da linha, após terem metido o cubo na boca ou atirado a jarra das flores ao chão.

A internet afeta a construção social da infância?

RCC: Sim. Não tenho um menino em acompanhamento a quem não tenha de fazer treino de competências sociais em algum momento. Há uma série de capacidades que não desenvolveram, as redes sociais propiciam isto. Antigamente, uma jovem acabava com o namorado e tinha que saber verbalizar o sucedido para lidar com a intensidade das reações e conseguir o apoio dos colegas na escola. Hoje, basta-lhe ir ao mural do Facebook e pôr um emoticon triste para desencadear uma série de resposta sociais. Mas será que a primeira pessoa que comenta o seu post seria a primeira a ir ter com ela no corredor da escola? Provavelmente não. Portanto, temos uma série de miúdos que não precisam de grande esforço para conseguir esta ilusão de apoio social.

Permitir que uma criança aceda à internet sem restrições é o mesmo que deixá-la sozinha numa grande cidade?

CNF: Acaba por ser. No fundo, tenho de conhecer o meu filho: se é cauteloso na vida real, irá reproduzir esse comportamento na rede. Se é temerário, tenho que ter cuidados acrescidos. A internet é apenas mais uma plataforma. Que tem, apesar de tudo, características particulares, uma das quais é a facilidade de acesso, condicionadora de imensas coisas. Um jovem não tem que se deslocar para ver um filme pornográfico: basta-lhe estar no quarto quando os pais pensam que está a estudar. Também não precisa de ir ao casino nem provar ser maior de idade para apostar: acede logo à sala do póquer. Esta entrada discreta e sem restrições equivale a ter em cima da mesa, constantemente, substâncias que causam adição. E o limite para não consumir são os filtros do próprio utilizador: a educação, a formação, os valores transmitidos pelos pais.

Mas isso não transmite aos pais uma sensação de falsa segurança?

RCC: Sim. Tive uma adolescente que me dizia: «Nunca estive tão contente por ficar de castigo como agora.» Às sextas, a mãe mandava-a ir para o quarto, onde tinha o computador, o telemóvel, a televisão, o iPad. E os pais estão tranquilos na sua função de educadores (porque a filha está de castigo e até nem levantou ondas), agarram-se à falsa sensação de que ela está em casa, segura, e não é necessariamente verdade. As características da internet que a tornam tão atrativa – o anonimato, a acessibilidade, o estar em todo o lado sem filtros –, juntamente com as características dos jovens – o ensaiar papéis, a importância do social, a pertença a um grupo, mesmo que para isso tenha que enviar e-mails com fotos da colega no balneário –, resultam num cocktail explosivo. Depois tenho, ou não, a tal educação que me permite perceber que isto são fases normativas do desenvolvimento, mas não a todo o custo.

Quais são as principais ameaças decorrentes da rede?

RCC: O cyberbullying é claramente um perigo. Assim de repente conto três meninos, todos em acompanhamento no CADin por outras razões, que em sessões diferentes trazem algo para contar a esse nível. Também do ponto de vista comportamental o uso excessivo da internet tem-se revelado uma ameaça: pais preocupados porque os filhos não se envolvem na escola, crianças que não estudam para passar mais um nível…

CNF: Foi por recebermos tantos miúdos com comportamentos de uso excessivo da internet que sentimos necessidade de entender o fenómeno. A rede tornou-se veículo para uma série de comportamentos que antes se faziam de outra forma, como o bullying ou o jogo. O que procurámos neste livro foi falar com os especialistas que mais sabem sobre novas tecnologias e pô-los em contacto com quem mais precisa.

O que podem fazer os pais e professores para proteger as crianças e educá-las para o mundo virtual?

RCC: Temos aqui duas questões essenciais: uma tem a ver com o tempo passado online, a outra com a qualidade daquilo que elas fazem online. Quando falo com os pais, costumo dizer-lhes que prefiro que o meu filho esteja uma hora ligado, a ver filmes de gatinhos, do que cinco minutos a ver pornografia. Os pais estão muito centrados no tempo, naquilo que os filhos deixam de fazer por estarem ligados: «Ai, o meu filho passa muito tempo online e não estuda, não põe a mesa…» Minimizam os conteúdos. E os pais precisam de estar confortáveis com esta certeza de saberem aquilo que os filhos fazem online, o que ele visitam na rede, com quem se dão.

CNF: É tão importante como conhecer as suas companhias na vida real.

Esse é precisamente um dos limites da internet, a par dos muitos benefícios…

RCC: Na rede nenhum tem essa noção. Além de que os conteúdos não têm só a ver com aquilo que os mais novos veem, mas muito com o facto de processarem as coisas de maneiras diferentes consoante a fase de desenvolvimento em que se encontram. E depois há ainda uma questão que se prende com fenómenos de grupo: eu posso estar confiante de que o meu filho está só no Facebook, mas não sei se ele vai às mesmas páginas, aos mesmos chats, aos mesmos blogues. E aqui sucede termos crianças convictas de que não aceitam estranhos, não saem com eles, sem se aperceberem de que, indo todos os dias à mesma página ou jogando o mesmo jogo, as pessoas que lá encontram deixam de ser estranhos. Formam-se comunidades com esta sensação de já se conhecerem, de pertença a um grupo.

Que se calhar se envolve em perigos a que não dariam azo noutro contexto…

CNF: Sim. Usamos abusivamente uma linguagem enganadora – como chamar amigo a um contacto – e isso tem que ser esclarecido. Os pais, até agora, vivem ofuscados pelo veículo e muito perdidos porque não o conhecem. Enquanto para eles é óbvia a necessidade de regras e horas para chegar a casa, não lhes é assim tão claro que as haja para a internet. E o que temos vindo a perceber é que a maioria dos problemas não tem nada a ver com o veículo e sim com a utilização que dele se faz. Que também é muito modulada pelos pais: ao navegarem num meio que desconhecem, inibem-se de agir.

Como é que os educadores (e as próprias crianças) podem denunciar situações abusivas?

RCC: Primeiro: quantos pais já leram o manual do Facebook? Os termos e políticas de privacidade estão disponíveis para toda a gente e são de uso muito intuitivo. Qualquer pai que sinta haver ali algum conteúdo impróprio pode denunciá-lo. Nos e-mails, se virem que os filhos estão a ser alvo de mensagens agressivas, podem direcioná-los para o spam ou para a sua conta pessoal. O YouTube também permite denunciar conteúdos. E muitas vezes os pais têm que recorrer à sua própria rede: se denunciarem algo e enviarem e-mails aos amigos para que façam o mesmo, menor é o gap de tempo até ser retirado. O nosso parceiro Internet Segura é um recurso ótimo. Não é difícil, isto. Os pais sentem-se é assoberbados com o que está a acontecer.

Proibir o acesso alguma vez é solução? As crianças entendem essa proibição?

RCC: Pode ser solução para quem não se dedicou antes à prevenção. Os pais preocupam-se em saber onde se liga o computador, mas não há uma conversa do tipo: «É esperado de ti que faças este uso e não o utilizes a partir da meia-noite. Se o fizeres, o castigo é este. Se souber que agrediste alguém, ficas sem ele.» Estou em crer, e por isso temos investido muito nas formações a pais, que se houver esta cultura não precisamos de chegar à interdição. Mas há claramente casos em que tem de se proibir.

CNF: E as crianças não têm que concordar com a proibição. Esse é o mal da nossa era.

 


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