Nuno Lobo Antunes: “Dizer que hiperatividade resulta de má educação é um insulto terrível aos pais”

Maio 19, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Carlos Manuel Martins

Entrevista do DN LIFE a Nuno Lobo Antunes no dia 7 de maio de 2019.

Sentidos, o livro lançado no fim do ano passado e que escreveu em colaboração com a equipa do PIN – Progresso Infantil, que coordena, tem 640 páginas e pretende responder às dúvidas de pais, técnicos e professores sobre perturbações do desenvolvimento e comportamento de crianças e adolescentes. O guião da entrevista tinha a pretensão de cobrir quase todas, mas o tempo não estica e Nuno Lobo Antunes não gosta de atrasos. Uma família e uma criança esperavam-no. São eles que importam. É sobre eles esta entrevista, é sobre eles o livro e é por causa deles que o médico de 65 anos e uma vasta experiência, nacional e internacional, não hesita em ir contra correntes.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Carlos Manuel Martins/Global Imagens

Amor e uma infância feliz é o melhor que podemos dar aos nossos filhos, disse uma vez. Não é tão fácil como parece, pois não?

Dar amor é fácil, já uma infância feliz não depende inteiramente dos pais. Essa história tem que ver com uma mãe que conheci, a quem tudo tinha corrido mal. O filho tinha uma doença horrível e tudo à volta dela desabava e ela mantinha um sorriso de uma serenidade extraordinária. Um dia perguntei-lhe como era possível manter aquela serenidade e ela respondeu: «porque tive uma infância feliz». Aquilo teve um enorme impacto em mim, pensar nesse porto de abrigo, nesse tempo, nessas memórias, aonde, à medida que a vida caminha, podemos sempre retornar.

A nossa obrigação como pais é procurar que os nossos filhos tenham uma infância feliz até porque, passada a infância, a felicidade deles depende cada vez menos de nós. Uma palavra de um amigo ou colega pode ser catastrófica e a palavra do pai ou da mãe passa a ter progressivamente menos relevância. Não interessa nada eu dizer que a minha filha é linda se a rapariga mais popular da turma diz que ela é feia.

Mas se nos primeiros anos de vida elogiar os seus feitos e conquistas estará a contribuir para a consolidação de uma autoestima e segurança difíceis de abalar mais tarde, até pela rapariga mais popular da escola, não é?

Exato.

Até que idade está a autoestima em construção?

Até ao fim da adolescência, sobretudo nas raparigas. Eu penso que, em geral, os rapazes vão de menos a mais [confiança] e as raparigas vão de mais a menos, ou seja, nelas, à medida que vão progredindo na adolescência, a fragilidade, a vulnerabilidade e a insegurança relativamente ao corpo vão aumentando. Depois as coisas mudam, mas entre o início da puberdade e a idade adulta, há uma grande vulnerabilidade, em especial nas raparigas.

Há diferença entre rapazes e raparigas no que diz respeito a perturbações do desenvolvimento e comportamento?

Há diferenças sensíveis, não só na incidência, maior nos rapazes, mas também na forma como algumas dessas perturbações se manifestam. Por exemplo, nas perturbações do espetro do autismo, creio que não serão diagnosticadas mais raparigas porque um certo isolamento é considerado até ajustado ao temperamento feminino.

Por outro lado, as dificuldades de interação nelas surgem bastante mais camufladas do que neles porque elas são melhores imitadoras, pedem emprestados estereótipos verbais, por exemplo, bué, tipo, a cena, palavras que nada significam, mas que de alguma maneira são identificadoras do grupo e da idade e levam a que as suas dificuldades de interação e até um menor vocabulário e léxico emocional passem despercebidos. Os rapazes, pelo contrário, tendem a utilizar uma linguagem mais sofisticada, mais pedante que soa esquisita entre os pares.

O autismo é por vezes “romantizado”, tanto na ficção, em séries e filmes, como na vida real, por exemplo com a história da jovem ativista Greta Thunberg. Isto é positiva ou contraproducente para as famílias que têm um filho com uma perturbação deste tipo?

Sim, as perturbações do espetro do autismo são muito cinematográficas, inspiram filmes e séries, como o The Good Doctor, por exemplo, mas essas são as exceções. A maior parte dos miúdos com perturbações do espetro do autismo não tem competências excecionais, muitos têm uma inteligência média ou abaixo da média, muitos não têm nenhuma competência extraordinária, têm é dificuldades.

Mas o pai do João, que tem síndrome de Asperger, não olha para o síndrome de Asperger no quotidiano, olha para o João, olha para o filho, o diagnóstico é um instrumento que lhe permite compreender algumas atitudes e comportamentos fora do comum e ter uma resposta mais ajustada, mas o João não deixa de ter um nome próprio para passar a ser um diagnóstico.

Quando se fala de um grande aumento de perturbações como o autismo ou a hiperatividade e o défice de atenção, que têm hoje um caráter de quase epidemia, isso deve-se a uma maior atenção às crianças, que leva a mais diagnósticos, ou será a sociedade atual, a forma como se organiza e outros fatores a isto associados que estão na base de um aumento destas perturbações?

Não temos a certeza absoluta, mas eu diria que será mais resultado de uma melhor deteção do que verdadeiramente de uma maior incidência. Dito isto, é difícil ter a certeza absoluta de que não existem fatores ambientais, mas se existem, não descobrimos ainda quais são. Por isso, diria que a fatia maior deve-se seguramente a uma maior atenção.

No caso da hiperatividade e défice de atenção, a medicação com ritalina está no centro da discussão. Muitos, entre os quais alguns médicos, afirmam que existe uma sobreprescrição. Porquê tanta polémica?

Não acho que exista qualquer discussão à volta da ritalina. Do ponto de vista científico, todos os estudos feitos com metodologias sérias chegaram à conclusão que para o tratamento da perturbação da hiperatividade e défice de atenção não existe nada tão eficaz como a medicação. Não existe, pois, qualquer polémica. A não ser talvez do tipo rede social.

Nenhum médico que trata esta condição tem qualquer dúvida quanto ao que afirmei. Qualquer consulta de PHDA, de norte a sul do país, está de acordo: é de longe a intervenção mais eficaz. Quanto a isso há zero dúvidas.

Portanto, todas essas vozes que se levantam contra a medicação são vozes de burro. São sobretudo vozes de quem não passou por isso e o mais injusto é que as outras vozes estão silenciadas, porque quem tem a experiência da medicação, quem tem miúdos medicados, está calado porque não quer identificar os miúdos, tem medo da exclusão, tem medo do dedo que aponta. As vozes dos milhares e milhares de famílias das crianças que beneficiam da medicação não se ouvem.

Há quem defenda também que há um sobrediagnóstico de PHDA e que a falta de regras, a falta de tempo dos pais ou mesmo a desadequação da escola poderão estar na origem de comportamentos que podem confundir-se com esta perturbação. Há até quem afirme que esta não existe e é uma invenção da indústria farmacêutica.

Bom, quanto à não existência do problema, só pode afirmar isso quem nunca teve um filho com um problema destes e ainda bem porque quem tem sente na pele o impacto da perturbação.

Quanto a ser resultado da falta de regras ou disciplina, às vezes em conferências perguntavam-me como é que eu sabia se uma criança era mal criada ou hiperativa, e eu durante algum tempo lutei com esta questão até chegar a uma resposta que é esta, verdadeiramente simples: uma criança mal criada não vai ao médico.

Só vão ao médico os que já tentaram tudo para ajudar a criança, já tentaram ser severos, já tentaram ser indulgentes, já tentaram ser assim às vezes e assado outras vezes, já deram tempo ao tempo, esperaram que se fizesse o clique, ouviram os conselhos da família, ouviram os conselhos do professor e em geral passam-se meses ou anos até que tomem a decisão de ir ao médico.

Até que ponto é negativo que algumas perturbações sejam tidas como falta de educação?

Dizer que a hiperatividade e défice de atenção é resultado de má educação é um insulto horrível a quem sofre e sofreu durante anos com uma criança que tem uma dificuldade que os pais não conseguem resolver. Não calcula a indignação que esse tipo de afirmações me provoca… porque eu vivo com as famílias e com o seu sofrimento.

Uma das histórias que conta no livro Sentidos, e me impressionou, é a de uma mãe e um pai que diziam que não se divorciavam porque nenhum deles queria ficar sozinho com o filho hiperativo. A PHDA é muito pesada para uma família a PHDA?

Sim, é muito pesado. Depende, obviamente, do grau, mas o número de divórcios aumenta de forma considerável. O facto de ser uma perturbação de cariz genético e por isso muitas vezes os próprios pais são pessoas poucos estáveis do ponto de vista emocional, também concorre para isso, mas é uma realidade que muitas famílias ficam prisioneiras: não podem ir a um café, não podem ir a uma festa, ninguém quer ficar com a criança, e isso tem um impacto terrível na vida das pessoas.

Se cada um de nós se interrogasse e perguntasse: com que facilidade daria eu ritalina ao meu filho? Todos diríamos que só em circunstâncias muito especiais. Ora bem, os outros pais, todos os pais que dão ritalina aos seus filhos, são pessoas iguais a nós. É de uma extraordinária arrogância pensarmos que somos melhores do que eles. Não somos. Eles estão é em situações mais difíceis. Portanto, provoca-me uma certa indignação e revolta todos os livros e psicólogos e pediatras que vejo a apontarem o dedo aos pais. Não sabem do que estão a falar.

É incutida muita culpa aos pais: porque não estão tempo suficiente, porque não educam como deve ser, porque não criam regras, porque criam regras a mais?

Eu acho que sim e estou em completo desacordo com isso. Acho que cada um de nós faz o melhor que pode e sabe. Somos muito melhores pais e mães do que os nossos antecessores e dedicamos muito mais tempo e atenção aos nossos filhos.

Um divórcio é sempre mau ou pode, pelo contrário, salvar uma infância?

Um divórcio é sempre mau, mas pode ser a menos má das soluções. Aqui não há regras e o médico tem pouco que ver com isso a não ser que o casal peça ajuda para terapia familiar, mediação ou aconselhamento.

Não tenho muito que dizer a esse respeito, visto que fui divorciado. Por vezes, as pessoas encontram-se em becos sem saída e essa é a melhor das soluções. Há imensos fatores que entram em linha de conta e é preciso perceber que os adultos também têm que viver a sua vida. Não se pode pensar só em termos do que é melhor para as crianças, tem que se pensar também no que é melhor para os adultos e geri-lo de forma a que seja o melhor para as crianças, acautelando o seu bem estar.

Em 40 anos de experiência como médico, o que mudou nas crianças e nas famílias portuguesas?

Mudou o que mudou na sociedade. Eu vou fazer 65 anos, tinha 20 anos quando se deu o 25 de abril, e a minha infância foi vivida numa família burguesa, grandemente privilegiada. Creio que as pessoas não têm a noção exata de que atualmente o cuidado que temos com as crianças é incrivelmente superior e melhor do que era há 40 anos. Eu acho que somos cada vez melhores pais, as crianças têm cada vez melhores condições e a igualdade de oportunidades, embora ainda não seja nem de longe nem de perto idêntica para todos, teve uma enorme evolução. Portanto, quando oiço muitas vezes pediatras e psicólogos famosos denunciarem a falta de tempo dos pais para as crianças, a vida de stress que as pessoas levam, acho completamente irreal se pensarmos no que é, e foi, o país globalmente.

Há muita gente que já esqueceu os homens e mulheres que nunca foram meninos e meninas.

Há 40 anos não havia adolescência, as crianças passavam diretamente da infância para a idade adulta, não era de todo raro famílias de 14, 15 crianças, e verdadeiramente não tinham infância, começavam a trabalhar cedíssimo, as raparigas tomavam conta dos mais novos, os rapazes iam trabalhar logo que podiam para contribuir para a economia doméstica.

Também não havia tecnologia que ajudasse às tarefas domésticas, nem dinheiro, nem educação…. a educação era feita à pancada. A violência sobre as mulheres hoje é chocante, mas não tem nada que ver com a que existia há 40 anos… as pessoas não têm noção do caminho que foi feito. Não quer dizer que não existam muitíssimas coisas por fazer ou que esteja tudo bem ou perfeito, mas é preciso ter consciência do caminho percorrido.

Se calhar, só é possível olhar para o tempo e a história em retrospetiva e não quando estamos a vivê-lo. Quais foram as grandes mudanças?

Por exemplo, a ideia de ter atividades extracurriculares, dança, música, desporto, a quantidade de miúdos que sabem nadar hoje, é praticamente universal… Até uma coisa tão simples como o acesso a férias de verão, quem é que tinha isso? As pessoas não têm noção. A preocupação que os pais têm hoje de passar o fim de semana com os filhos, nem que seja o domingo, brincar com eles, ir passear, isso é novo, é novíssimo. E tem sobretudo que ver com a melhoria considerável das condições de vida e o aumento da cultura, os pais são mais instruídos do que eram antes.

Os próprios temas a que me dedico – a hiperatividade, o défice de atenção, a dislexia – eram praticamente inexistentes, ou desconhecidos, há 30 ou 40 anos. Não dava para a escola, não dava para a escola, saltava fora. Há uns tempos, fui a Moçambique falar sobre estas questões e um jornalista moçambicano perguntou de que servia falar daquilo quando havia tanto por resolver e eu lá dei a volta ai texto, mas é evidente que muitas destas questões são preocupação de nação desenvolvida, que já resolveu as suas questões de base, de saúde, alimentação, de um teto para dormir.

Entrei para medicina com uma média miserável de 11,7 e costumo dizer que hoje não daria nem para ministro, mas porquê? Porque não havia numerus clausus, porque eram pouquíssimos aqueles cujos pais tinham dinheiro para eles entrarem na faculdade. Eu, filho da burguesia, tinha o meu caminho completamente livre para o curso superior, para aquilo que a minha mãe chamava de uma enxada. Hoje, as minhas filhas competem por igual com todas as outras adolescentes da idade delas e têm que provar que são tão boas ou melhores, caso contrário acabou-se.

Claro que o privilégio de se nascer numa família culturalmente evoluída continua a ser uma vantagem evidente, mas apesar de tudo passou a haver um equilíbrio de oportunidades que antigamente não existia. Quem tem hoje vinte ou trinta anos não tem consciência do caminho que foi feito e eu acho que é importante ter essa perspetiva. Não que iniba de fazer mais e melhor, mas que permita um certo orgulho do que foi a evolução da sociedade portuguesa.

«Todos os meus doentes têm o meu telefone e o meu e-mail»

Uma das questões abordadas no livro Sentidos é a da relação do médico com as famílias e de como deve ser gerida a transmissão de diagnósticos complicados. Como dizer a uns pais que o filho que idealizaram tem um problema? Como é que isso se gere?

Acho que não há maneiras boas de dizer coisas más, mas há maneiras melhores do que outras. Eu tenho fama de ser eventualmente demasiado duro no contacto com as pessoas, o que não deixa de me espantar um bocadinho, porque não corresponde de todo à imagem que tenho de mim mesmo, mas a questão é esta, e às vezes é mal compreendida: eu tenho um treino oncológico feito nos Estados Unidos, e esse treino oncológico de alguma forma moldou-me na verdade. Para mim prende-se com o respeito pela pessoa.

Nessa altura, trabalhava com crianças com cancro?

Sim e se alguém me perguntasse quanto tempo tinha de vida, eu diria o tempo provável, não torneava a questão, não me afastava dela, não dizia números que não fossem verdadeiros. Portanto, se acho que uma criança tem uma perturbação do espetro do autismo, digo: «eu acho que o seu filho tem uma perturbação do espetro do autismo». Não digo: «vamos ver, vamos esperar, ainda é muito cedo», não uso subterfúgios, que aparentemente é a atitude bondosa, mas que, por um lado, é uma atitude insuportavelmente paternalista do meu ponto de vista, e por outro não respeita nem a dignidade nem a inteligência de quem nos pede ajuda. E sobretudo não protege a criança, que vê adiados todos os cuidados que devia ter. Mas pago um preço por isto.

Se digo a alguém que o filho tem uma perturbação do espetro do autismo e depois os pais vão a outro lado, onde lhes é dito que não tem coisa nenhuma e que eu não sei do que estou a falar, evidentemente arrisco a que vão para as redes sociais dizer que, além de incompetente, tenho um conjunto de outros defeitos. É um risco que corro.

E qual é o preço que paga uma família que não aceita o diagnóstico?

O de ver adiado o tratamento. Mas eu sou antes de tudo advogado da criança, essa é que precisa de ser defendida. As pessoas pagam para ouvir o que penso, pagam a minha experiência, o meu treino, e não faz sentido que levem gato por lebre, que eu diga uma coisa diferente daquilo que penso, por muito duro que seja.

O acompanhamento a pais e irmãos de crianças com perturbações de desenvolvimento e comportamento é fundamental para o tratamento, não é?

Claro e nós no PIN – Progresso Infantil fazemos isso. Temos uma equipa multidisciplinar que acompanha não só as crianças como as famílias. A equipa do PIN é um conjunto de gente bem formada, quer do ponto de vista técnico quer do ponto de vista humano.

Há uma coisa que eu faço questão: todos os meus doentes têm o meu telefone e o meu e-mail e mesmo de férias não deixo de responder. É preferível dar uma má notícia e dizer “sempre que precisar de mim, estou aqui” do que estar com falinhas mansas e desaparecer da vista quando a criança ou a família precisam de ajuda, que é o que algumas vezes acontece.

O PIN é privado, nem todos têm acesso. A resposta pública portuguesa na área da saúde mental infantil é satisfatória?

Acho que é variável. Não podemos generalizar, haverá sítios onde é ótima e outros onde é péssima. Mas há um problema de base que é: eu tenho uma hora para uma primeira consulta, os médicos do serviço nacional de saúde não têm uma hora. O tempo para ouvir e para cuidar necessariamente não é o mesmo porque eles têm listas de espera infindas e estão muito limitados, trabalham em condições muito mais difíceis do que aquelas em que eu trabalho.

O PIN dá consultas online, para dar resposta a outras regiões do país. Quais os resultados dessa experiência?

Tem tido um sucesso imenso. Neste momento, temos acima de três centenas de crianças acompanhadas regularmente, espalhadas por todo o país e no mundo inteiro. Mas apesar de tudo são pessoas que têm dinheiro para pagar a mensalidade, têm computador, têm câmara, têm internet.

Portanto, permite que pessoas que vivem em Trás-os-Montes tenham acesso a cuidados de extrema qualidade, mas são pessoas que têm algum suporte económico e cultural e não é para todos os miúdos – têm que ter uma idade suficiente para ficarem uma hora ligados ao computador sem se levantarem dali. É algo que fez uma enorme diferença, a experiência tem sido fantástica, mas não é resposta para tudo nem para todos.

É muito crítico das terapias alternativas. Não admite vantagens de algumas delas como complemento à medicina tradicional?

É preciso separar um pouco as águas. Eu sou ferozmente contra coisas como a homeopatia, o reiki e esse tipo de patranhas. Em relação ao mindfulness, por exemplo, tenho sérias reservas quanto à evidência científica da sua utilidade, mas essa minha reserva não é partilhada por alguns dos meus colaboradores que utilizam a técnica e a acham útil.

Eu sou líder da equipa, mas não sou um ditador, daí que tenha dado espaço para que a técnica seja abordada no livro por quem tem experiência dela e nela acredita. O livro resulta de um trabalho coletivo da equipa do PIN e a minha função é dar esse espaço de liberdade às pessoas que trabalham comigo, que têm direito a pensar de forma diferente da minha, são mesmo incitadas a pensar de forma diferente.

Entre as perturbações do desenvolvimento e comportamento, quais são as que representam um maior desafio para as famílias?

Cada uma tem as suas implicações e tudo depende da intensidade de cada uma delas. Há perturbações do espetro do autismo que são gravíssimas e destruidoras de tudo quanto está à sua volta e tornam a vida num inferno como as há ligeiras e com muito menos impacto.

O que eu acho é que ainda não foi feito o caminho para compreender o comportamento humano, sobretudo aquele que tem aspetos atípicos que levam as pessoas a procurar ajuda. Penso que estamos a fazer um caminho de uma maior compreensão e integração do pensamento sobre estes miúdos, mas existe uma simplificação excessiva na categorização diagnóstica. Essa simplificação é necessária por um conjunto de razões – estatísticas, demográficas, científicas, económicas, burocráticas – que levam a essa compartimentalização, mas perante o caso individual, temos que pensar nos múltiplos fatores e interações que existem em cada criança.

É excecional fazer um diagnóstico de uma perturbação absolutamente pura sem outros fatores a influenciarem, mas para pensar desta maneira é preciso pensar, é preciso tempo e é preciso coragem de pensar diferente daquilo que parece ser o conhecimento instituído e é isso que nós aqui tentamos fazer. Podemos fazer uma medicina de altíssimo nível, não devemos nada a ninguém.

Sentidos tem como subtítulo o grande livro das perturbações do desenvolvimento e comportamento. Pretende ser uma espécie de bíblia nesta área, em que há tanta informação contraditória?

Eu diria que sim, embora exista uma diferença grande: é que ninguém vai reescrever a Bíblia, enquanto em relação a um livro deste tipo se calhar daqui a quatro anos vai ter que ser reescrito porque entretanto houve coisas que mudaram, o pensamento alterou-se, fizeram-se novas descobertas. Mas sim, pretende ser a bíblia do momento.

 

 

Vamos falar (a sério) de Ritalina e Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção

Outubro 29, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto e gráficos do site Scimed de 16 de outubro de 2018.

Recentemente o PAN tomou a iniciativa de apresentar na Assembleia da República projetos de resolução relativamente à prescrição de ritalina. Segundo o PAN, o metilfenidato (conhecido popularmente como Ritalina) e a atomoxetina são prescritos em excesso para o tratamento da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). A preocupação do PAN incide sobretudo nas crianças com menos de 6 anos de idade dizendo que o metilfenidato “não deve ser utilizado em crianças com menos de seis anos (…) as próprias bulas do medicamento dizem exatamente isso, que a segurança e a eficácia não foram claramente estabelecidas neste grupo etário. Não há evidências empíricas nem da sua eficácia, nem dos seus resultados a longo prazo (…) Estamos aqui numa lotaria, a medicar cada vez mais as crianças.

Este tipo de afirmações mostra desconhecimento dos princípios e a razão da existência da prescrição off-label.

O que é a prescrição off-label?

A prescrição off-label surge quando um determinado medicamento não foi ainda aprovado pela entidade reguladora para ser usado da forma que o médico pretende. Neste caso, a indústria farmacêutica produtora da ritalina e da atomoxetina não entregou às agências reguladoras do medicamento estudos clínicos que determinem a existência de um perfil de risco-benefício favorável para estes medicamentos em crianças com menos de 6 anos de idade. No entanto, isso é extremamente frequente na pediatria.

Resulta da falta de investigação neste grupo etário devido a problemas técnicos, éticos e científicos, para além desta população não ser uma prioridade em termos financeiros para a indústria farmacêutica. Assim, ficamos com um grupo etário que necessita de diversos tratamentos, mas para os quais é escassa a investigação farmacológica. Se nos limitássemos a seguir o que está na bula do medicamento, as crianças seriam altamente prejudicadas. Não só no que diz respeito à ritalina, mas à utilização de anti-histamínicos, antibióticos, bombas inalatórias para a asma, etc.

Nos cuidados intensivos pediátricos, cerca de metade dos medicamentos utilizados são em regime off-label. Em diferentes contextos de saúde, a utilização de medicação off-label nos recém-nascidos e nas crianças varia entre 23-60%. E mesmo os incentivos institucionais recentes para aumentar a investigação na área pediátrica não tem levado à diminuição da utilização destes medicamentos em regime off-label. É uma realidade que dificilmente mudará. Não é má prática médica. Não significa que os medicamentos utilizados em off-label são prescrições indevidas. Significa que não temos informação (por diversas razões), sobre o impacto da utilização desses medicamentos, cabendo aos MÉDICOS decidir se medicam ou não as crianças e AVALIAR o impacto dessa medicação. É esta realidade que os responsáveis do PAN não compreenderam.

A perturbação de hiperatividade e défice de atenção não é doença moderna…

Existe o mito que a PHDA é uma doença da modernidade. Que a PHDA está a aumentar de forma dramática. Que a causa desse aumento é um sobrediagnóstico da doença em crianças que são saudáveis. Que as crianças não são doentes, são é mal-educadas ou incompreendidas. Que a culpa do “excesso” de medicalização destas crianças é provocada pela pressão exercida pela escola, pelos pais e pelo facilitismo dos médicos em prescrever medicação.

Isto não é verdade na maioria dos cenários avaliados. Primeiro, a PHDA tem um componente genético importante. Estudos de famílias, de gémeos e crianças adotadas demonstraram que a PHDA tem uma herdabilidade que ronda os 74%.

Se tem um componente genético importante poderemos perguntar, dadas as limitações que representa para a aprendizagem e socialização, porque é que não foi eliminada do “pool” genético através da seleção natural. Na realidade, alguns estudos levantam a hipótese de que no tempo em que éramos caçadores-recoletores, pessoas com PHDA não tinham grandes “limitações” em comparação o resto da tribo. Aliás, até poderá ter sido positivo, havendo evidências de ter sido seleccionado positivamente principalmente em populações nómadas (artigo e artigo). No entanto, estas vantagens parecem desaparecer no contexto de uma população sedentária, com métodos de ensino diferentes, estilo de vida diferentes e desafios sociais diferentes. Ou seja, o ambiente não causou o aparecimento da PHDA, mas as crianças com PHDA estão relativamente desajustadas a este novo meio ambiente. Apesar disso, existe alguma evidência que as crianças que sofrem de PHDA têm algumas vantagens mesmo neste novo contexto social, dado que parecem manifestar uma maior criatividade (artigo, artigo, artigo e artigo) o que eventualmente nos pode indicar que algumas profissões serão mais adequadas para pessoas com este problema.

Em termos contemporâneos, o primeiro exemplo da descrição de uma perturbação semelhante à PHDA foi feita num livro publicado por Weikard Melchior Adam em 1770-75. Há mais de 245 anos. Descrevia crianças e adultos inatentos,que se distraíam com facilidade, com falta de persistência para realizar tarefas, hiperativas e impulsivas. Semelhante à descrição da PHDA que fazemos hoje em dia.

Em 1798, Sir Alexander Crichton, na sua série de três livros intitulados “Uma investigação sobre a natureza e a origem da perturbação mental”, descreve uma doença caracterizada pela dificuldade em manter a atenção, uma predisposição à distração, inquietação e possivelmente algum tipo de impulsividade. Mais uma vez, semelhante à definição da PHDA (embora sem o componente de hiperatividade). Crichton até reconheceu a natureza do distúrbio e entendeu que isso poderia ser devido a uma disfunção neurológica.

Em 1844, o médico alemão Heinrich Hoffmann criou algumas histórias infantis ilustradas, incluindo “Fidgety Phil” (“Zappelphilipp”), que hoje em dia são consideradas uma alegoria popular para crianças com PHDA, dado que os livros descreviam com bastante clareza os típicos problemas de uma criança com esta perturbação. Isto serve para demonstrar que, no mínimo, o Fidgety Phil aponta para a existência de problemas comportamentais semelhantes à PHDA há cerca de 165 anos, numa sociedade muito diferente da nossa, sem TVs, iPods ou videojogos para atribuir a culpa.

Em 1902 o pediatra Britânico George Still diagnostica pela primeira vez 20 crianças com PHDA, descrevendo-a como “um defeito do controlo moral da criança“. Still referia que estas crianças tinham dificuldade em controlar os seus comportamentos, apesar de continuarem a ser crianças inteligentes.

Em 1937, Charles Bradley, tentou identificar alterações cerebrais em crianças com PHDA recorrendo a peumoencefalogramas. Verificou que as crianças após o procedimento ficavam com muitas dores de cabeça. Bradley tentou minorar este desconforto recorrendo à benzadrina, uma anfetamina. A benzadrina não tinha qualquer efeito na dor de cabeça, mas levou a melhorias dos sintomas nestas crianças em termos de comportamento, concentração e aprendizagem. Ou seja, o primeiro fármaco para o tratamento da PHDA foi encontrado por engano.

Bradley posteriormente iniciou um estudo sistemático em 30 crianças no seu hospital e observou alterações notáveis no comportamento das crianças:

 “A mudança de comportamento mais espetacular provocada pelo uso da benzedrina foi o desempenho escolar notavelmente melhorado em aproximadamente metade das crianças”.  As crianças “estavam mais interessadas no seu trabalho e realizavam-no com mais rapidez e precisão”.

Além disso, algumas diminuições na atividade motora foram observadas nas crianças que também “ficaram emocionalmente subjugadas sem, no entanto, perderem o interesse pelo ambiente”. Tal como nós, hoje em dia, ficamos algo perplexos como é que um estimulante pode acalmar uma criança com PHDA, também Bradley referiu na altura:

“Parece paradoxal que uma droga conhecida como estimulante produza um comportamento moderado em metade das crianças. Deve ter-se em mente, entretanto, que porções dos níveis mais altos do sistema nervoso central têm como função a inibição, e que a estimulação dessas porções pode, de facto, produzir o quadro clínico de atividade reduzida através do aumento do controlo voluntário”.

Embora Bradley e os seus colegas tenham publicado estas descobertas em revistas proeminentes da época, não tiveram grande influência sobre a investigação e a prática médica durante pelo menos 25 anos.  Possivelmente devido à ampla influência da psicanálise na época e à suposição de que as perturbações comportamentais não teriam base biológica e seriam tratadas apenas com intervenções psicológicas. A ideia de que estas patologias devem ser abordadas apenas com psicoterapia ou priorizando a psicoterapia tem quase 100 anos. Não resultou.

Chegamos à Ritalina. Desenvolvida em 1944 por Leandro Panizzon, o cientista testou o fármaco em si próprio e na sua esposa, Rita (prática comum na época). Embora sem grande efeito em Panizzon, Rita tomou o estimulante para se preparar para os jogos de ténis e melhorou bastante o seu desempenho. Em homenagem a Rita, Panizzon chamou o fármaco de “Ritalina”. Foi aprovada em 1955, há mais de 60 anos, e era utilizada para várias condições que nada tinham a ver com a PHDA como depressão, letargia e narcolepsia. Só mais tarde se percebeu que era eficaz no tratamento da PHDA, sendo o medicamento base para o tratamento desta perturbação.

Como se percebe, o conceito de PHDA é muito antigo. Apesar disso, só em 1968 foi descrita na segunda edição do manual da DSM, “oficializando” esta perturbação. Ao longo do tempo, o diagnóstico tem sofrido alterações à medida que mais conhecimento vai sendo adquirido sobre este problema. No DSM-III, houve um desvio do foco da hiperatividade para o défice de atenção, tendo sido descrito o défice de atenção com e sem hiperatividade. Essa mudança foi polémica e no DSM-III-R houve novamente alterações, tendo ficado descrita a “perturbação de défice de atenção-hiperatividade” e a “perturbação de défice de atenção não especificada”. No entanto, a “perturbação de défice de atenção-hiperatividade” enquadrava vários subtipos diferentes entre si. Assim, no DSM-IV a perturbação foi dividida em três subtipos: o subtipo em que predominava o défice de atenção, outro em que predominava a hiperatividade e o terceiro tipo em que os dois estavam presentes de forma importante.  No DSM-5, a última revisão dos critérios de diagnósticos, houve algumas alterações menos dramáticas que nas revisões anteriores, mas que possivelmente irá alargar o número de crianças diagnosticadas com PHDA. Por exemplo,  na área funcional, a presença da PHDA precisa apenas de “reduzir a qualidade do funcionamento social, académico ou ocupacional”, em vez de exigir que tal alteração seja “clinicamente significativa”.

A prevalência de PHDA está a aumentar?

Na realidade, ao contrário do que tem sido transmitido na comunicação social, tal não parece estar a acontecer. Como falamos relativamente ao autismo, a razão do suposto aumento parece relacionado com as alterações dos critérios de diagnóstico e maior sensibilidade ao diagnóstico desta patologia.  É consensual que a PHDA se manifesta nas diferentes culturas, em aproximadamente 5% a 6% das crianças e 2.5% dos adultos, sendo mais comum no sexo masculino com uma proporção de 2:1 nas crianças e de 1.6:1 nos adultos (artigo e artigo). As taxas de prevalência alteram‑se significativamente em função daquilo que é perguntado e das técnicas de recolha de dados utilizadas. As variações chegam a ir dos 2% aos 18%. No entanto, quando os fatores confundidores são ajustados (por exemplo, padronizando os critérios de diagnóstico), existe uma constância da prevalência de PHDA na ordem dos 5%. (artigo e artigo). Por exemplo, como podemos ver pelos questionários do CDC, a prevalência tem-se mantido relativamente constante, sujeita a pequenas variações.

Se os investigadores não tivessem feito ajustes ao questionário NSCH realizado em 2016 (a verde) para poderem comparar com os questionários anteriores, então iríamos assistir a um aumento da prevalência de PHDA para os 9.4%. Isto é para perceberem a importância que os critérios de diagnóstico ou mesmo as perguntas que são feitas aos pais e profissionais de saúde têm na estimativa da prevalência de determinadas doenças. Isso não significa que a doença esteja a aumentar, que haja uma epidemia relacionada com fatores ambientais. Muitas vezes basta haver mudanças de critérios ou das perguntas colocadas.

Avaliando a posição do PAN

O PAN apresentou três projetos de resolução apresentados à Assembleia da República. (1, 2, 3), que vamos analisar. Referem que a PHDA “encontra-se recorrentemente associado à prescrição de medicação como o “Concerta”, a “Ritalina” e o “Rubifen”, medicamentos que têm em comum o cloridrato de metilfenidato, que é uma substância química utilizada como fármaco estimulante leve do sistema nervoso central, mecanismo de acção ainda insuficientemente explicado, principalmente no que diz respeito aos efeitos de longo prazo.

Vamos ver a evidência sobre a eficácia da medicação…

Como referido anteriormente, o metilfenidato é um medicamento aprovado há mais de 60 anos. Não é algo novo e existem décadas de investigação sobre este fármaco. Obviamente a que a investigação existente não é perfeita. Pode e deve ser melhorada. Em 2016, os problemas da investigação na área foram levantados após a publicação de uma revisão da Cochrane bastante controversa sobre as opções farmacológicas para o tratamento da PHDA. A revisão concluiu que a medicação é eficaz, mas a qualidade da evidência é baixa ou muito baixa e os estudos tem duração curta (12 meses). Foram escritos alguns artigos com críticas relevantes à revisão Cochrane, referindo as falhas metodológicas importantes que menorizou a eficácia dos medicamentos para controlo da PHDA. Citando um desses artigos:

Em resumo, a inclusão e exclusão incorretas de estudos e a avaliação injustificada do risco de viés levou a resultados que contradizem décadas de evidências de ensaios clínicos randomizados. Uma vez que estudos randomizados de longo prazo são impossíveis e indisponíveis devido a limitações éticas, análises recentes de registos fornecem as evidências mais convincentes sobre os benefícios a longo prazo do metilfenidato. Esses estudos indicam, por exemplo, que o tratamento com metilfenidato tem efeitos benéficos em termos de desfechos distais importantes que vão além do controlo dos sintomas, como redução da comorbilidade, uso e dependência de substâncias, visitas relacionadas com traumas às salas de emergência e mortalidade. Além disso, na ausência de efeitos clinicamente relevantes das opções de tratamento não farmacológico nos sintomas centrais da PHDA, uma desvalorização dogmática do tratamento atualmente mais eficaz não é útil nem para a ciência nem para os doentes.

Em 2018 foram publicadas duas meta-análises importantes sobre o tema. Uma avaliou a utlização de metilfenidato e a melhoria da performance académica,contabilizando três décadas de investigação. Demonstrou que o metilfenidato melhora a produtividade académica (principalmente a nível da matemática), e tem um impacto ainda maior no controlo dos sintomas associados ao PHDA. Os efeitos não são espetaculares, mas são reais e palpáveis.  Outra meta-análise publicada no The Lancet, refere o seguinte:

“Os nossos resultados representam a base mais abrangente de evidências disponíveis para informar doentes, familiares, médicos, criadores de diretrizes e políticos sobre a escolha de medicamentos para PHDA em todas as faixas etárias. Levando em consideração tanto a eficácia quanto a segurança, as evidências desta meta-análise dão suporte ao metilfenidato em crianças e adolescentes e anfetaminas em adultos, como medicamentos preferenciais de primeira escolha para o tratamento de curto prazo. Novas investigações devem ser financiadas com urgência para avaliar os efeitos a longo prazo dessas drogas.”

Portanto, este apontamento do PAN está correto até certo ponto. Como em muitas áreas da ciência, é necessário melhorar o conhecimento. Para já temos alguns estudos preliminares demonstrando que a utilização de metilfenidato têm um impacto a nível cerebral dependente da idade em que é iniciado – quanto mais novo, maior o impacto (artigo, artigo). No entanto, os estudos que existem são estudos DOE, que avaliam resultados sem grande interesse prático em termos clínicos. São necessários estudos de longo prazo para verificar a eficácia e consequências da medicação. Essa falha é reconhecida. O estudo ADDUCE será o primeiro estudo clínico a ser realizado para colmatar essa falha.

Mas estamos a medicar excessivamente as crianças?

O PAN refere que “…em Portugal, 23.000 crianças estão medicadas para a perturbação da hiperactividade com défice de atenção.” (…) “”…de acordo com estudos realizados pelo Infarmed, a utilização do metilfenidato apresenta uma tendência de crescimento. O metilfenidato passou a ser comparticipado em 2003 e a atomoxetina em 2014.” (..) “De acordo com o mesmo estudo, as crianças portuguesas até aos 14 anos estão a consumir mais de 5 milhões de doses por ano de metilfenidato, sendo que o grupo etário dos 10 aos 14 anos foi o responsável pelo maior consumo desta substância, cerca de 3.873.751 doses. Ao grupo etário entre os 0 e os 4 anos de idade foram administradas 2900 doses de metilfenidato, tendo sido no grupo etário dos 5 aos 9 anos administradas 1.261.933 doses.

Primeiro, não é possível avaliar, recorrendo a estes números, se existe ou não sobreprescrição ou sobrediagnóstico da doença. É como dizer que o aumento da utilização de terapia ocupacional por parte de crianças autistas demonstra a existência de um sobrediagnóstico do problema. Ou um aumento da utilização de consultas de psicologia pelas crianças com PHDA. Ou aumento de prescrições de óculos nas crianças míopes. Podem existir mais diagnósticos por existir mais consciencialização e sensibilidade para detetar e tratar determinada doença. Pode existir aumento de medicação porque as crianças não melhoraram com acompanhamento psicológico de forma isolada.

Agora, tendo em consideração que a PHDA é um espectro e algumas crianças se encontram numa zona cinzenta, é possível que a pressão de pais e professores e mesmo os médicos “empurrem” essas crianças para o diagnóstico de PHDA. Mas dificilmente será algo representativo. No entanto, vamos analisar os números:

Se virmos na imagem superior e como o próprio PAN refere, a prescrição de metilfenidato nas crianças entre os 0 e 4 anos representa 0.04% das crianças medicadas, valores de 2014. Ou seja, representam um número altamente residual, o que dá alguma confiança no trabalho desenvolvido pelos médicos relativamente à contenção na prescrição de metilfenidato nesta faixa etária. Depois, olhando para imagem abaixo, da autoria do Público, o que verificamos neste últimos 3 anos é uma estabilização do número de prescrições dos medicamentos para tratamento da PHDA.  Alguém que explique o drama levantado relativamente à prescrição do metilfenidato em crianças com menos de 6 anos. E onde está o aumento galopante de prescrições deste tipo de medicação nas restantes faixas etárias.

Paradoxalmente ao que foi argumentado pelo PAN, na Europa parece existir uma subprescrição destes medicamentos. Esta subprescrição aparenta ser uma resposta ao excesso de prescrição nos Estados Unidos, estando associado a um medo exagerado dos efeitos adversos da medicação e a um exagero da eficácia das intervenções não farmacológicas. Então, de acordo com estes dados, o PAN deveria estar preocupado com o acesso das crianças à medicação do que propriamente com um excesso de medicalização das crianças.

Medicar em crianças com menos de 6 anos…sim ou não?

O PAN refere que “Segundo o Infarmed, nomeadamente conforme resulta das bulas do “Rubifen”, “Ritalina” e “Concerta”, o metilfenidato é indicado como parte de um programa de tratamento abrangente para a PHDA em crianças com idade igual ou inferior a 6 anos quando as medidas tomadas para a resolução deste problema se revelarem insuficientes. Consta inclusive que o metilfenidato não deve ser utilizado em crianças com menos de 6 anos de idade, pois a segurança e a eficácia não foram estabelecidas neste grupo etário. Todavia apesar das recomendações, esta substância está a ser prescrita e administrada a crianças com idade igual ou inferior a 6 anos pelo que consideramos essencial que se promovam campanhas de informação e sensibilização dirigidas aos profissionais de Saúde por forma a não administrar o metilfenidato ou atomoxetina a este grupo etário.

Refere ainda que “Os folhetos referem ainda expressamente que estes medicamentos não se destinam a ser utilizados como tratamento para a PHDA em crianças com menos de 6 anos de idade, uma vez que a sua segurança e eficácia não foram estabelecidas neste grupo etário.

E mais importante, diz que ““Várias directrizes europeias foram recentemente publicadas sobre o tratamento de Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção aplicadas à prática clínica Europeia, compiladas em 2017 pelo Instituto para PHDA: Orientações Clínicas Europeias da Sociedade Europeia para a Psiquiatria da Criança e do Adolescente (ESCAP) para HKD, As diretrizes do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Assistência (NICE) e As diretrizes da Associação Britânica de Psicofarmacologia”.  Sobre o tratamento de Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA) em crianças com menos de 6 anos, estas entidades adoptam posições consensuais sobre a prioridade que deve ser dada a intervenções psicológicas e ao treino dos pais para lidar com a situação de forma continuada, a menos que deficiências significativas persistentes justifiquem a revisão do especialista.”

Já falamos acima da razão da prescrição off-label.  E evidentemente que a utilização do metilfenidato em qualquer idade deve ser bem ponderada, em particular em crianças em idade pré-escolar por ser menor a experiência. Contudo, existem diversos estudos que parecem provar a eficácia e segurança nessas crianças. Não nos podemos esquecer que a PHDA tem sérias consequências que são transversais à vida da criança e não só do ponto de vista escolar. O número acrescido de acidentes, por exemplo, é um desses aspetos. Como podem ver na figura abaixo, o risco está aumentado em todos os tipos de ferimentos avaliados:

Um dos estudos mais conhecidos a avaliar a prescrição de metilfenidato em idade pré-escolar tem o acrónimo PATS (preschool ADHD Treatment Study – 1,2,3) mas atualmente há mais de uma dezena de estudos sobre o assunto. O PATS estudou 303 crianças entre os 3 e os 3 anos e meio. O estudo tinha um desenho complexo mas deu informação importante ao demonstrar a eficácia do metilfenidato. A eficácia foi menor nas crianças com idade pré-escolar mas limitações de dosagem poderão estar implicadas. Como em todas as farmacoterapias uma avaliação cuidadosa do risco-benefício é necessária. A decisão de tratar e como fazê-lo resulta de um diálogo informado e aberto entre o médico, o doente e a sua família. A utilização do metilfenidato em crianças em idade pré-escolar é excepcional, como vimos acima, mas a sua proibição iria privar um conjunto de crianças de uma arma terapêutica que poderá ser essencial ao seu bem estar.

Nenhuma das guidelines referidas acima pelo PAN dá indicações para a proibição ou limitação do ato médico no que diz respeito à prescrição desses fármacos, ao contrário do que é o seu objetivo. A compilação realizada em 2017 para a PHDA por parte do instituto para a PHDA não faz uma transcrição correta das guidelines, pelo que devem ser consultadas as fontes originais. Por exemplo, relativamente às guidelines da NICE, refere que a medicação não é recomendada em crianças em idade pré-escolar, quando as guidelines referem que a medicação não deve ser oferecida “a qualquer criança menor de 5 anos sem uma segunda opinião especializada de um serviço de PHDA com experiência na gestão de PHDA em crianças pequenas.” O que é bastante diferente.

Quanto às diretrizes da Associação Britânica de Psicofarmacologia, publicadas em 2014, os critérios são ainda mais alargados. A medicação é prioridade perante doença grave, não dependente da idade. Uma nuance fundamental que passou ao lado do PAN:

“Todas as crianças com PHDA grave devem receber tratamento farmacológico. Além disso, considere o tratamento farmacológico para crianças com sintomas moderados de PHDA que não responderam a intervenções psicológicas.

A primeira linha de atuação deverá ser exclusivamente psicológica?

O PAN diz o seguinte: “É igualmente importante a promoção de campanhas de informação e sensibilização dirigidas à população em geral sobre a PHDA, contribuindo para o esclarecimento aprofundado e alargado desta patologia, dos seus sintomas e modos de intervenção, e de campanhas de informação e sensibilização dirigidas à população em geral e, em especial aos profissionais de saúde, sobre o diagnóstico, prescrição e administração de metilfenidato ou atomoxetina, alertando-os para a importância da intervenção psicológica como tratamento de primeira instância.”

Os estudos habitualmente demonstram que a associação de psicoterapia com medicação atinge melhores resultados que as terapias isoladas. Até é possível que a associação de ambas as terapêuticas leve à utilização de menores doses da medicação e à necessidade de um menor número de consultas de psicoterapia. 

A maior pesquisa científica em relação a linhas de atuação distintas é o Multimodal Treatment (MTA). A investigação avaliou as seguintes estratégias em crianças com 7 a 10 anos, no espaço de 14 meses:

  • Só medicação (incluindo procurar o fármaco e a dosagem ideais para cada criança, contendo consultas mensais de farmacoterapia).
  • Só um intenso programa comportamental e psicoterapêutico, o qual incluía intervenções em casa e na escola.
  • Uma combinação das duas primeiras estratégias (farmacoterapia mensal e programa comportamental e psicoterapêutico incluindo escola e casa).
  • O tratamento comum nos serviços de saúde primários (medicação com visitas esporádicas).

Resultado: A associação de ambas as intervenções foi a que obteve melhor resultado, com sucesso de 68%. Seguiu-se a farmacoterapia intensiva (56%), tendo a intervenção comportamental um registo de sucesso de 34% e os serviços da comunidade com 25% de sucesso. Verificou-se também que 25% das crianças que faziam apenas o programa comportamental tiveram que ser medicadas antes do término dos 14 meses do estudo.

Ou seja, neste estudo a medicação foi superior à psicoterapia e muitas crianças não medicadas tiveram que o ser posteriormente. Uma meta-análise publicada em 2017 parece confirmar isso. Mesmo em crianças pré-escolares, verifica-se que a medicação poderá ser superior à intervenção psicológica isolada, no entanto os estudos existentes nesta área são muito limitados para tirar qualquer tipo de conclusão nesse sentido. Isto não serve para menorizar a importância da psicoterapia mas para salientar que, mais uma vez, a orientação das crianças deve ser feita caso a caso, de acordo com a avaliação do terapeuta e não por decreto.  O que não parece haver grandes dúvidas é que a combinação de medicação mais intervenção psicológica e educacional consegue obter os melhores resultados nas crianças com PHDA. A própria American Psychological Association valida a utilização da medicação e, algo importante para os decisores políticos, é um medicamento custo-efetivo.

Recorrer a falácias da autoridade

Em vez de falar com os profissionais de saúde sobre o tema, o PAN recorre a falácias de autoridade, citando o que alguns profissionais de saúde disseram em jornais e revistas. Para além disto não ter qualquer valor científico, o PAN fê-lo de uma forma desonesta, dizendo que “Perante o aumento da utilização de metilfenidato, vários médicos e psicólogos têm reconhecido publicamente diagnósticos errados e prescrições indevidas. A título de exemplo, o neuropediatra Nuno Lobo Antunes admite receber muitas crianças “medicadas de forma errada para o problema errado”.

O neuropediatra Nuno Lobo Antunes, que assina este artigo e deu uma entrevista no canal Dissenter sobre este tema, não valida a posição do PAN. Citar pessoas sem lhes perguntar qual a sua posição relativamente ao tema sobre o qual vão ser citadas não parece correto.

Conclusão

A complexidade do tema exige que sejam os especialistas a pronunciarem-se sobre o assunto. Decerto não cabe aos médicos representarem politicamente a população, mas também não cabe aos deputados vestirem a bata e opinarem sobre assuntos técnicos fora da sua competência. Se os partidos pretenderem melhorar o acesso às crianças à pediatria de desenvolvimento, neuropediatria e pedopsiquiatria, são bem-vindos. Se pretenderem melhorar o acesso a consultas de psicoterapia especializadas em PHDA, dificilmente alguém se oporá a essa solução. Se quiserem melhorar o acesso à terapia ocupacional, todos os profissionais de saúde e famílias que querem ajudar estas crianças ficarão satisfeitos.

No entanto, tentar impor por via legislativa restrições ao ato médico, indo contra a ciência existente e as posições da larga maioria dos profissionais que tratam esta perturbação, não parece fazer sentido.

 

 

 

Hiperatividade infantil. Estamos a medicar demasiado os miúdos?

Abril 23, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://magg.pt/ de 5 de abril de 2018.

por MARTA GONÇALVES MIRANDA

Os pais acusam as escolas de fazerem pressão, os professores alertam para os perigos de ignorar o problema da hiperatividade.

Quando Jasper estava no terceiro ano do primeiro ciclo do ensino básico, foi-lhe diagnosticado défice de atenção. A meio do ano, a professora sugeriu que a criança começasse a tomar medicamentos. “Eu disse: ‘Ele não toma medicamentos’”, conta Regina, mãe de Jasper, no novo documentário da Netflix, “Take Your Pills: Receita para a Perfeição”. A professora respondeu-lhe: “Nesta escola toda a gente toma medicação”.

Em 2015, o Infarmed lançou o primeiro (e para já único) estudo sobre o consumo de fármacos para a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Os números eram alarmantes: cerca de cinco milhões de doses estavam a ser prescritas por ano a miúdos até aos 14 anos. Por outros números, em 2014 tinham sido dispensadas 276 mil embalagens de metilfenidato em Portugal continental.

Metilfenidato. Falamos da substância ativa mais comum em Portugal para tratar a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Nas farmácias portuguesas é vendida com os seguintes nomes: Concerta, Ritalina e Rubifen.

Na altura, a Direção Geral de Saúde descreveu os números como “alarmantes”. Felizmente, nos anos seguintes os números melhoraram: segundo o Infarmed divulgou ao jornal “Público” no início deste ano, verificou-se uma diminuição no consumo de medicamentos para tratar a hiperatividade e défice de atenção. Entre janeiro e novembro de 2016 foram vendidas 259 mil embalagens. Em 2017, foram 254 mil.

Os números estão mais baixos, no entanto o debate continua aceso. Para alguns, como a professora do 3º ciclo do ensino básico, Carla Magalhães, há crianças que deveriam estar a ser medicadas e não estão porque os pais não se querem render à chamada “doença da moda”. Precisam de facto de ajuda porque, sem ela, não conseguem aprender ou sequer integrar-se. No extremo oposto, outros defendem que há miúdos mal-medicados ou a serem incentivados a tomar medicamentos prematuramente, com pais a acusarem as escolas de fazerem pressão.

“Eu sei que não era um miúdo fácil, mas não foi a medicação que o ajudou”

Vânia Barreiras é educadora de infância. Aos 37 anos, conviveu de perto com o problema da hiperatividade e défice de atenção. Ou pelo menos acha que sim: um dos seus filhos, hoje com 18 anos, foi diagnosticado com a doença quando passou para o quinto ano numa escola privada em Viana do Castelo. Um médico aconselhou a criança a tomar medicação. Começaram por uma dose baixa de Concerta.

“Eu recebia queixas do género: ‘Ele brinca com tudo, até com a borracha’. Era a forma que ele tinha de se manter atento, precisava de se mexer. Eu notava isso em casa, quando estávamos a estudar o dois estava sempre a abanar as pernas, por exemplo.”

Porém, Vânia Barreiras acabou por aceitar o que os médicos lhe diziam, que a medicação era a única alternativa. No primeiro ano, as coisas pareciam estar a correr bem. Os professores pararam de a chamar à escola, o filho parecia estar mais concentrado, até tinha a letra mais legível. Só que logo a seguir vieram os efeitos secundários, como as dores de cabeça e a falta de apetite.

“Quando vinha o corta-mato da escola, dizia que não queria tomar o medicamento porque se não depois não conseguia correr”

“Estava apático, parecia uma crianças doente. Quando vinha o corta-mato da escola, dizia que não queria tomar o medicamento porque se não depois não conseguia correr.”

Até que começou a mentir — farto de se sentir alterado com a medicação, a criança começou a deixar de tomar os medicamentos às escondidas dos pais. Vânia Barreiras apercebeu-se disso e, percebendo a aflição do filho, decidiu cortar com a medicação no 7.º ano.

“No 8.º ano mudou de escola e eles diziam o inverso: nada de medicação. Hoje está a terminar o 12.º ano e não toma nada. Eu sei que não era um miúdo fácil, mas não foi a medicação que o ajudou. Não foi a pressão da escola que o ajudou. Há casos e casos, as coisas têm de ser avaliadas individualmente.”

Aos 18 anos, o filho de Vânia é uma criança perfeitamente normal. Mas nunca mais conseguiu encontrar o equilíbrio com a escola — detesta ler, escrever, tudo o que seja teórico é um martírio. “Mas se forem actividades práticas não há problema nenhum. Ele pratica equitação, por exemplo, e tem um talento natural para acalmar os cavalos. Conseguiu ir ao pódio de um campeonato regional sem qualquer dificuldade.”

Há pressão das escolas para medicar os miúdos?

Joana Esteves, 31 anos, está neste momento a trabalhar na área social, mais precisamente no rendimento social de inserção. Há pouco tempo lidou com um caso de uma criança diagnosticada com PHDA que, inesperadamente, começou a sentir palpitações. Os médicos suspeitaram que podia ser um problema cardíaco, por isso pediram aos pais que parassem com a medicação até serem feitos todos os exames.

“A escola recusou que ele tivesse aulas até voltar a estar medicado”, conta Joana Esteves à MAGG. “A criança esteve em casa até saírem os resultados dos exames e perceberem que o problema não era da medicação.”

“Está na moda medicar os miúdos. Fala-se muito nisto: é uma criança agitada, logo se calhar é uma criança hiperativa. Não, se calhar é só uma criança normal que salta, pula”

Joana Esteves trabalhou praticamente toda a vida com crianças, nomeadamente em contexto de ATL. Tal como os números do Infarmed atestam, também ela sentiu uma diminuição no consumo de psicofármacos no ano letivo e 2016/2017. Nos anos anteriores, não tem dúvidas: havia muitas crianças medicadas. Se tivesse de apontar um número, diria entre 15 a 20%.

“Há pressão das escolas para ter as crianças medicadas”, afirma. “Está na moda medicar os miúdos. Fala-se muito nisto: é uma criança agitada, logo se calhar é uma criança hiperativa. Não, se calhar é só uma criança normal que salta, pula.”

Um empresária de 45 anos que pediu anonimato sentiu isso na pele. No ano letivo de 2014/2015, o filho entrou para o primeiro ano num colégio privado em Lisboa. “Senti logo pressão por parte da escola para que ele fosse ao psicólogo do colégio.” Os pais assim fizeram, e o menino foi diagnosticado como tendo défice de atenção. Encaminhado para outro gabinete de psicologia infantil, a avaliação foi completamente diferente — o miúdo estava ótimo, garantiram.

“A única coisa que lhe prescreveu foi um café de manhã para aumentar a concentração. Mas a pressão na escola continuou.”

Nunca ninguém disse abertamente “o menino precisa de tomar medicação”, mas indiretamente parecia ser essa a resposta. Os pais estavam constantemente a receber chamadas de atenção, na escola o rapaz sentia-se inferiorizado. “Ele começou a ser acompanhado por uma psicóloga e a professora dizia que ele estava muitas vezes distraído. ‘Parece que não dormiu, estava deitado em cima da secretária’. Ela nunca percebeu que ele fazia isto, não porque não tivesse dormido à noite, mas porque estava desmotivado — isto foi-me dito pela psicóloga.”

“Eles querem miúdos robot, que não olhem para o lado. Uns são mais quietos, outros são mais distraídos. Os mais distraídos são logo rotulados com défice de atenção. No mínimo!”

O filho da empresária esteve no colégio durante o primeiro e segundo anos do primeiro ciclo do ensino básico. A auto-estima da criança estava cada vez pior. Começou a ficar obcecado com as notas, e a fazer comentários em casa como “eu não sou bom, só tive 57%”. Quando a mãe encontrou uns desenhos do filho com as frases “eu não devia ter nascido” e “sou um falhado”, linguagem que ele nunca tinha ouvido em casa, tomaram a decisão de o tirar do colégio. Fizeram-no em janeiro deste ano.

“Hoje em dia as escolas privadas estão muito vocacionadas para rankings. Querem ser as melhores, porque isso vende mais. Eles querem miúdos robot, que não olhem para o lado. Uns são mais quietos, outros são mais distraídos. Os mais distraídos são logo rotulados com défice de atenção. No mínimo! Isto é um massacre para os miúdos.”

Na nova escola, o comportamento do rapaz mudou completamente. “Hoje o meu filho está muito mais feliz. Não teve qualquer problema de adaptação e não tem de tomar nada.”

Marta Calado, psicóloga na Clínica da Mente, no Porto, assegura que a maioria dos casos que chegam à clínica vêm por sugestão das escolas. “Quando os pais chegam aqui com crianças que foram diagnosticadas com PHDA, normalmente isto acontece devido a uma queixa escolar.” Muitas vezes, a clínica recebe estes pais porque eles não conseguem reconhecer os seus filhos após a toma da medicação — eles ficaram completamente diferentes, regra geral pior.

“O pedido de apoio muitas vezes passa por aqui: eu não quero ter o problema que tinha anteriormente mas também não quero este novo problema com que me deparo agora.”

Na opinião de Marta Calado, é muito fácil perceber se uma criança tem ou não hiperatividade. “Conseguimos identificar rapidamente quando há uma limitação que é de âmbito físico ou emocional.” E à pergunta se recebem mais casos de crianças bem ou mal-diagnosticadas, a resposta é imediata: “Mal. Sem dúvida. Temos poucos casos dos ditos ‘verdadeiros’ hiperativos. Cada vez mais são os casos de crianças mal-diagnosticadas.”

“Os professores não querem ter os miúdos medicados”

Carla Magalhães é professora de fisico-química há 23 anos. Neste momento numa escola em Lisboa a dar aulas ao 3.º ciclo, deixa o alerta: no que diz respeito à medicação, estamos a entrar num debate onde de um lado estão as pessoas a favor e no outro as pessoas contra. E isso sim é o mais preocupante: não podemos ser contra ou a favor. Tudo depende dos miúdos.

“Obviamente que não podemos pensar em ter a maioria dos nossos jovens dopados. E preocupa-nos que haja um consumo excessivo. Mas há casos em que é absolutamente imprescindível. Miúdos hiperativos não são miúdos agitados, não são miúdos com mau feitio ou que não sabem estar. Eles sofrem hiperatividade, e a hiperatividade é uma patologia.”

A professora de 46 anos realça que maus profissionais existem em todas as profissões. Não pode falar por uma classe inteira e garantir que não há professores que incentivam os pais a procurarem soluções medicamentosas, no entanto, afirma que esta não é de todo a regra.

“Os professores não querem ter os miúdos medicados. É de facto difícil gerir turmas com 30 ou mais alunos, e também se sabe que a nossa profissão carece de facto de apoio. Antes bastava passar a informação de que o menino estava mal-comportado e o assunto era resolvido, agora se calhar pensa-se primeiro que a responsabilidade não é da criança. Mas não é por isso que vamos agora desatar a caçar miúdos com hiperatividade. Eu pelo menos espero que não seja isso que se esteja a passar.”

Só que o contrário também não pode acontecer: não podemos ter miúdos que precisam de ajuda e não a recebem. “Há alturas em que é aflitivo o sofrimento destas crianças. Se eu pedir a um miúdo agitado para sossegar e dizer-lhe que no final ele pode fazer aquilo que quer — a tal questão da recompensa —, ele consegue. Com um miúdo hiperativo isto não funciona porque ele simplesmente não consegue. E ele ficafrustrado, porque quer fazê-lo mas não consegue.”

Carla Magalhães explica que os miúdos hiperativos são, regra geral, extremamente inteligentes. Logo têm consciência que não conseguem fazer aquilo que lhes é pedido, o que os deixa em luta consigo mesmos. Além disso, são muitas vezes usados pelos colegas para causar distúrbio nas aulas — eles sabem que eles não vão conseguir controlar-se —, no entanto, no recreio, são estereotipados e postos de parte. Isto porque até para os colegas eles são demasiado agitados.

“Que também há o contrário, há. Há miúdos que quase roçam o abandonado pelos pais quando estes não tentam pelo menos perceber o que se passa com eles.”

“Já tivemos alguns casos em que tivemos de falar com os pais para encaminharem esses miúdos. Porque de facto estavam em sofrimento. O máximo que um professor pode fazer é pedir à mãe ou ao pai para verem, fazerem um rastreio, e depois agirem em conformidade. Que seja generalizado que os professores querem que os miúdos tomem medicamentos, não. Agora, que também há o contrário, há. Há miúdos que quase roçam o abandonado pelos pais quando estes não tentam pelo menos perceber o que se passa com eles.”

“Eu não queria que ele tomasse medicação. Pensei que podia ser só uma fase, todas as crianças são agitadas”

O filho mais velho de Tatiana Gaspar, 32 anos, foi diagnosticado com hiperatividade e défice de atenção há dois anos. No início, a recepcionista em Lisboa foi completamente contra a utilização de medicamentos. “Eu não queria que ele tomasse medicação. Pensei que podia ser só uma fase, todas as crianças são agitadas.”

Só que a situação tornou-se cada vez mais grave. No jardim de infância, Tatiana Gaspar era constantemente chamada à escola pela educadora — o filho não parava quieto, batia nos outros meninos, subia aos móveis, não respeitava nenhuma regra. A educadora chegou a dizer à mãe que, nos dias em que ele estivesse mais agitado, tinha de o ir buscar à escola.

“Já não sabia o que fazer. Acabei por falar com a médica e começámos a dar medicação, primeiro para o défice de atenção e mais tarde para a hiperatividade.”

Tatiana Gaspar notou imediatamente mudanças no comportamento do filho. Não é que de repente se tivesse tornado numa criança calma. Nada disso: continuou agitado, fazia as suas birras, mas pela primeira vez conseguia concentrar-se nas tarefas. Já consegue pintar e fazer desenhos, por exemplo, coisas que não fazia antes.

No início de fevereiro, uma troca na medicação pelo genérico causou o terror lá em casa. “Durante um mês, foi como se tivéssemos começado tudo outra vez. Voltou àquilo que era. Nós perguntávamos-lhe: ‘Porque é que estás assim, porque é que estás a fazer isso?’, e ele respondia: ‘Porque a minha cabeça não para’. ‘Filho, para um bocadinho.’ ‘Mãe, a minha cabeça está maluca’.”

Nenhum pai gosta de tomar a decisão de medicar um filho. No caso de Tatiana Gaspar, foi uma decisão extremamente difícil. No entanto, as melhorias são evidentes: sim, continua agitado e irrequieto mas, nas palavras da mãe, os miúdos também não nasceram para ficar quietos. É normal. O que interessa é que agora já consegue prestar atenção às tarefas que tem de realizar, seja na escola, seja na terapia da fala.

“Tem dado muito resultado. Ficou muito mais interessado nas coisas, mais participativo. Também melhorou bastante na fala e na concentração.”

“Eu até digo na brincadeira que ele agora está mais chato, porque quer saber o porquê de tudo. Isso não acontecia antes.”

Uma dos temas tabu que envolvem a questão da medicação é o facto de os miúdos ficarem apáticos, quase sem vida. Isso nunca aconteceu com o filho de Tatiana: “Na terapia, às vezes fica muito quieto, porque é só ele e a terapeuta e não tem outros estímulos. Mas é porque está concentrado, não apático. Eu até digo na brincadeira que ele agora está mais chato, porque quer saber o porquê de tudo. Isso não acontecia antes.”

“Passo mais tempo a tirar medicação do que a pôr”

O grande problema actualmente é olhar para uma criança que se mexe muito e assumir de imediato que ela é hiperativa ou tem um défice de atenção. “Passo mais tempo a tirar medicação do que a pôr”, revela à MAGG Pedro Cabral, diretor clínico do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil, CADIn. “Toda a gente está a utilizar critérios de medicação em função do grau de movimento.” E isso não podia ser mais errado: “Às vezes precisamos de nos mexer para fixar melhor as coisas. O exemplo mais básico é contar pelos dedos: se eu contar pelos dedos, consigo contar até mais tarde e melhor.Estou a recrutar mais circuitos para a mesma tarefa e em sítios diferentes do cérebro.”

“O que há mais são miúdos quietinhos a olhar para os professores e a segui-los com os olhos e os professores a pensarem que eles estão muito atentos quando na realidade estão a pensar que ela tem o nariz quase a cair”

Na opinião de Pedro Cabral, há cada vez mais diagnósticos feitos em consulta, nos infantários e nas escolas em que se assume que a criança não está a prestar atenção porque se mexe. Isso não é verdade. Para aprender nós precisamos de estar atentos. Não interessa se nos estamos a mexer muito. “Mas como é que ele pode estar atento se se está a mexer?”. “A pergunta é: ‘Se não para atento, como é que consegue estar quieto?

“O que há mais são miúdos quietinhos a olhar para os professores e a segui-los com os olhos e os professores a pensarem que eles estão muito atentos quando na realidade estão a pensar que ela tem o nariz quase a cair. O facto de a criança estar quieta ou parada não quer dizer que esteja a seguir o raciocínio do professor.”

A forma como as crianças estão a ser educadas também é relevante no que diz respeito aos diagnósticos errados de PHDA. Pedro Cabral sublinha que vivemos tempos em que, quando interrompem os pais, as crianças recebem logo atenção; quando pedem qualquer coisa, recebem-na de imediato. Além disso, há cada vez mais pessoas a interferir na educação dos miúdos — pais, avós, tios, profissionais, todos a opinar sobre as crianças. Às vezes, essas vozes só causam ruído.

Os medicamentos deixam as crianças apáticas?

Marta Calado, da Clínica da Mente, relata que muitas crianças que recebe chegam de facto num estado de apatia. “A criança fica nitidamente diferente daquilo que era antes. Obviamente que isto depende de caso para caso. Se temos uma criança que é ativa e faladora, vamos ter uma criança quase muda; se temos uma criança ativa mas que não é muito faladora, assistimos a uma alteração de comportamento a outro nível.”

“Se os medicamentos deixam as crianças apáticas, então é porque estão a ser dados em excesso. E isso é muitas vezes o efeito procurado pelos pais, professores ou cuidadores porque querem ter as crianças sossegadas e, pensam eles, talvez atentos”, explica Pedro Cabral. “O café e a Ritalina têm exatamente o mesmo efeito ao nível do sistema nervoso. Não é suposto ficar ‘pedrado’.”

E quais são os maiores perigos da medicação? Para Pedro Cabral são dois: os miúdos convencerem-se que só conseguem estudar medicados; e os pais, médicos e professores ficarem contentes esquecendo-se de pensar no que é que não está certo em casa ou no ambiente que rodeia a criança.

“Temos miúdos que às vezes se deitam à uma da manhã ainda com o telemóvel a tocar com o Instagram, WhatsApp e Messenger, a dormir pouco, habituados a ser constantemente bombardeados com estímulos que mudam muito rapidamente e trazem novidades constantes, e depois ficam incapazes de ouvir uma aula de História ou de Filosofia”, lamenta o especialista.

Antes de qualquer medida como medicamentos ou café, é muito mais importante para a criança libertar-se dos ecrãs a partir de determinadas horas, dormir bem, praticar desporto. É que, alerta Pedro Cabral, “a medicação é uma coisa muito séria para ser entregue desta forma a pessoas que não sabem o que é que estão a fazer.”

 

 

‘Plano de ataque’ para crianças com falta de concentração

Fevereiro 25, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://activa.sapo.pt/ 8 de novembro de 2017.

Sentam-se à frente do livro e… nada. Daí a cinco minutos, não se lembram de patavina. Os pais inquietam-se, os professores desesperam. Mas são as crianças as mais perdidas nisto tudo.

Quase todos os pais se queixam do mesmo: “Ai o meu filho é tão cabeça no ar… Ele até podia ter boas notas, mas não consigo que se concentre.” Uma das causas da falta de concentração é óbvia: eles têm, basicamente, muito mais distrações do que nós tínhamos. “Recebem tanta informação visual desde que nascem que o seu cérebro não está preparado para a gestão de tantos estímulos”, explica a psicóloga Ana Manta, no livro ‘Filho, presta atenção’ (Clube do Autor). “De certa forma, podemos dizer que as estamos a ‘deixar loucas’. O mais natural é que a sua capacidade de concentração se disperse para dar atenção a tanta coisa, não conseguindo focar-se no mais básico.” Paralelamente, há a valorização de um conjunto de competências que não são as mais importantes para o desenvolvimento das crianças. “É mais importante uma criança saber respeitar as regras de um jogo do que saber escrever o nome dos familiares aos 4 anos.” Mas a maioria de nós valoriza sobretudo as competências ‘escolares’.

Ou seja, muitas vezes não é que a criança não esteja concentrada: ela está é concentrada noutras coisas. “O número de solicitações tem um lado positivo, que é a diversidade de experiências”, nota Vítor Cruz, técnico de reabilitação e desenvolvimento especial do SEI (Centro de Desenvolvimento e Aprendizagem). “Mas se não for bem gerido arrisca-se a tomar conta de toda a vida da criança, que se perde em atividades muitas vezes sem interesse. Claro que este controlo é difícil de concretizar, mas é um dos desafios de hoje não só para os pais mas para a sociedade em geral, porque todos nós estamos a contribuir para que as crianças sejam mais superficiais e mais consumistas, para que se percam em coisas sem interesse. Está na nossa mão ajudar a travar isto.” E como? “Não é preciso nem desejável controlar tudo e estar sempre em cima, mas sim encontrar um equilíbrio através de horários e responsabilização da criança.”

Desconcentrado ou hiperativo?

Como distinguir se uma falta de concentração é ‘normal’ ou se há outros problemas por diagnosticar? Pode existir uma causa neurológica ligada ao défice de atenção. Mas saber se uma criança é hiperativa só se consegue com a ajuda de um técnico. “As crianças estão hoje mais agitadas, mas nem todas precisam de Ritalina [medicamento à base de metilfenidato usado para o Déficit de atenção e hiperatividade]”, afirma a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. “Esta agitação dos miúdos tem de ser contextualizada globalmente. Há hoje em dia uma insatisfação geral em que as pessoas julgam mais do que compreendem. Pensamos muito mais depressa e acabamos por desenvolver recursos motores para lidar com isto: há tantos estímulos visuais que o corpo tem de se mexer. É o caso daquelas pessoas que estão sentadas numa reunião mas não param de mexer o pé ou bater com a caneta na mesa. E as crianças também se tornam mais agitadas.”

Há uma lógica social por trás disto: a sociedade de consumo e de concorrência, em vez de nos orientar o cérebro para a paz, faz com que estejamos sempre na defensiva, ou seja, o cérebro é muito menos capaz de estar sossegado a aprender qualquer coisa.
E isto passa para os miúdos? “Claro que passa. Os miúdos têm de ter positivas à força, os professores têm cada vez mais alunos e portanto têm menos paciência, os pais pressionam, e tudo se conjuga para que se procurem as soluções mais fáceis, como a Ritalina. Que também não é nenhum papão, há casos em que de facto ajuda.”

A partir de quando é que a receita? “Eu costumo pedir uma análise aos neurotransmissores. Mas o mais importante, quando se toma uma droga, é que as pessoas sejam donas dos seus efeitos, ou seja, a toma de uma droga tem de ser feita com consciência. Todos percebemos se um medicamento nos está a ajudar ou não. Tenho colegas que medicam ‘para despachar’. Mas a hiperatividade não é uma doença, é um sintoma de que algo não está ajustado como deveria. É como a crise (risos). É fundamental que se saiba o que andamos a fazer e porquê.”

Aprender a ensinar melhor

Ora então, se o meu filho não é hiperativo, vamos saber que outras coisas podem estar a correr mal. Às vezes eles estão simplesmente… cansados. E desmotivados. Por volta dos 10 anos, a curiosidade da infância já foi destruída. “Na maior parte das vezes, estamos a ensinar à criança coisas que ela não quer aprender e que não percebe porque é que tem de aprender. É estar a remar contra a maré”, nota Vítor Cruz. “O esforço intelectual é muito desgastante, e além disso raramente este esforço é feito de maneira divertida e integrada no quotidiano. Se houvesse possibilidade de a criança aprender indo ao supermercado com os pais, lendo qualquer coisa para a mãe ou mesmo vendo televisão, em vez de sentada e quieta, a aprendizagem seria mais efetiva, porque o nosso cérebro aprende mais pela experiência do que passivamente. Essa aprendizagem não é uma perda de tempo. E não é por estar sentado duas horas com o manual de matemática que ele vai aprender efetivamente.”

Os TPCs exaustivos não ajudam. “Mas tudo pode ser discutido, podemos encontrar um consenso. Perpetuam-se muitos comportamentos só porque sempre foi assim, sem se pensar se estão ou não a ser efetivos. Mas há muitos professores abertos à mudança. Portanto, com boa vontade, até se pode chegar a um acordo.”

O que os pais podem fazer: em vez de os massacrar com mais aprendizagens sentadas, tirá-los de casa e tentar que haja mais atividades ao ar livre, por exemplo. “Aprende-se imenso a jogar à bola, que é a vida experienciada e não memorizada, mas nós não consideramos isso uma competência”, explica Vítor Cruz. “Aprende-se sempre mais pelo fazer do que pelo ouvir, temos de nos lembrar sempre disso e sempre que possível, incorporá-lo na vida da criança. Agora, quando a criança apenas faz mais do mesmo, que é ficar sentada à mesa, por um lado estamos a negligenciar a experiência corporal e a nossa ligação com o mundo, e por outro esquecemos o ditado ‘mente sã em corpo são’. Como podemos aprender se somos frágeis, temos pouco oxigénio e músculos pouco desenvolvidos?”

Menos telemóveis e mais recompensas

Lembra-se dos tais ‘muitos estímulos’ e da forma como se podiam controlar? Até podemos achar que isso dá muito trabalho: mas o importante é ir com calma.

“Fez-se um estudo em que algumas crianças foram privadas de ir à Internet durante um dia”, conta Vítor Cruz. “Tiveram comportamentos de medo, de insegurança e de privação. Depois, uns foram fazer os trabalhos, outros foram ler, outros procuraram outras atividades. Portanto, o facto de ter menos net, menos telemóveis, etc., obriga a procurar alternativas.” O segredo para isto funcionar: não ser radical. Se proibir a net durante a semana toda, isto não vai funcionar. Mas se o fizer durante duas horas, talvez eles encontrem mais com que se entreter.

Outra via, algo polémica, é a da recompensa: “Podemos dizer ‘se tu fizeres isto, tens aquilo’. Isto é estar a comprá-los? Não é: ficamos todos a ganhar. O prémio pode ser imediato, mas se ele aprender, é uma mais-valia para o futuro. Eles devem aprender apenas por aprender? Isso é muito bonito mas não faz sentido. Pense lá: quantos de nós trabalham sem serem pagos? Se nós não trabalhamos de graça, a criança também pode ser recompensada, e quanto mais novas são, maior a necessidade deste reforço imediato, para vincular a recompensa à ação.”
Se já a está a dizer ‘ai comigo ninguém fez isso’, tem muita razão. Mas também o mundo deles é muitíssimo diferente do que foi o nosso. “Se eu não conseguir colocar-me no lugar do meu filho, não vou perceber as dificuldades dele. Isto é um desafio tremendo. Assim como ensinar-lhes a eles a pôr-se no lugar dos outros. Valorizamos muito a inteligência escolar e muito pouco a emocional. Não só não nos preocupamos em que o nosso filho se torne uma ‘boa pessoa’ como até nos orgulhamos quando ele bate nos outros.”

Para resumir, eu tenho uma criança cabeça-no-ar. Qual é o plano de ataque imediato? “Perceber como é a vida dela, como ela se dá com os professores e os colegas, de que é que gosta mais, como aprende melhor, se precisa de ir dar uma volta antes de fazer os trabalhos ou prefere atacá-los logo. Perceber se há situações emocionais pontuais, uma mudança na escola, um problema em casa. E depois, ter calma e não a stressar como nós stressamos.”

Estamos a fazer demasiada pressão?

Será que a origem da falta de concentração deles é o nosso próprio stresse? “Às vezes, a nossa pressão sobre eles é que prejudica a concentração”, explica o técnico Vítor Cruz. “Eles estão tão conscientes das expectativas dos pais que desistem por vezes antes mesmo de tentar, porque têm medo à partida de não conseguir. Porque se alguém não faz qualquer coisa bem feita, não é porque não quer, não faz porque não sabe ou não consegue. Portanto, temos de descobrir a razão por trás disto.”

4 ideias Para Motivar

Segundo a Psicóloga Ana Manta, autora do livro ‘Filho, Presta Atenção’

1. Pôr um relógio de ponteiros na mesa dos trabalhos de casa, negociando um período de tempo para os fazer. Se terminar mais cedo, o resto do tempo é passado a praticar uma atividade de que a criança goste.

2. Ter tudo pronto para trabalhar: assim ela não tem de se levantar para ir buscar nada.

3. Criar um cartão em que os pais fazem uma rubrica de cada vez que os trabalhos forem feitos sem reclamar. Completado o cartão, ganham tempo para atividades com os pais.

4. Jogar jogos de tabuleiro com eles. É uma das melhores formas de treinar a concentração.

O preço a pagar por ser criança

Novembro 30, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Filipa Chasqueira publicado no https://sol.sapo.pt/ de 6 de novembro de 2017.

Filipa Chasqueira

Crianças mais caladas, sossegadas, que nunca levantam problemas podem ser crianças em sofrimento. No entanto, como não se dá por elas, e até dá jeito que assim seja, normalmente são as que suscitam menos preocupações. Pelo contrário, crianças mexidas, desatentas, irrequietas e que têm dificuldade em fazer a mesma coisa durante muito tempo, ou seja, crianças impossíveis e muitas vezes saudáveis, são frequentemente sinalizadas como problemáticas ou hiperativas.

O moderno conceito de Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA), inicialmente reservado aos profissionais de saúde mental, associado ao medicamento que o controla, veio trazer inúmeras vantagens a pais, educadores, professores, médicos e farmacêuticas. A exigência e falta de tempo do dia-a-dia fez com que ambos se tenham banalizado e estejam na boca de todos os que lidam com crianças. O que é muito perigoso.

Já me deparei com casos de crianças de três anos que são consideradas hiperativas pelos pais ou educadores, simplesmente porque cresceram e mudaram de comportamento. Começaram a descobrir o mundo e as suas capacidades e estão tão entusiasmadas que têm dificuldade em fazê-lo calmamente, de acordo com o que esperam delas ou da disponibilidade e paciência que lhes é reservada.

No serviço de psiquiatria e saúde mental de um hospital onde trabalhei, eram raros os pais acompanhados em consulta que não tinham um ou mais filhos a serem seguidos em pedopsiquiatria, medicados com a famosa Ritalina. A Ritalina é um medicamento indicado para crianças com mais de seis anos e diagnóstico de PHDA. Tem efeitos milagrosos de melhorar a atenção e concentração, bem como de reduzir o comportamento impulsivo. Quem, no seu íntimo, principalmente pais e professores – também eles muitas vezes em situações difíceis – não desejaria esta mudança mágica para o seu filho ou aluno mais irrequieto?

Muitas vezes os pais chegam com o filho ao médico já desesperados e incentivados por educadores ou professores igualmente desesperados, na esperança de uma solução para a sua criança-problema. Alguns médicos, que naturalmente gostam de dar uma resposta rápida e eficaz, acabam por recorrer à solução mágica. Assim ficam todos satisfeitos.

Todos menos a criança. Das duas uma: ou a criança é saudável, feliz e irrequieta e ao ser medicada fica limitada na sua espontaneidade, expansão e expressão; ou está de facto em sofrimento e a forma de o demonstrar simplesmente desaparece. Aparentemente fica tudo bem. A criança fica sossegada e silenciosa, os pais e professores ficam mais calmos e o médico cumpre o seu papel. Mas para onde foi a razão que levava a criança a reagir assim? Para onde foi o que a preocupava ou aquilo com que tinha dificuldade em lidar? Isso pouco importa porque ficaram todos bem na fotografia. Só a criança, que foi ao médico supostamente para melhorar, ficou pior. 

Nem sempre as crianças são fáceis, muitas vezes a vida é exigente e o tempo é escasso. Mas não se pode permitir que continuem a ser vítimas do desgaste e do facilitismo que lhes corta o que muitos adultos já não têm: a energia, a impulsividade, a irreverência e a possibilidade de serem devidamente ouvidos, abraçados e acompanhados, para se tornarem crianças e adultos mais felizes.

 

 

Vendas de ritalina duplicaram em sete anos

Fevereiro 20, 2017 às 3:15 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site http://uptokids.pt/ de 20 de fevereiro de 2017.

upkids

Psiquiatras e psicólogos criticam banalização do uso do medicamento para tratar a hiperactividade e défice de atenção.

As vendas do medicamento habitualmente utilizado para tratar perturbações de hiperactividade e défice de atenção (PHDA), o metilfenidato, cuja designação comercial é ritalina, duplicaram entre 2010 e 2016. Segundo o Jornal de Notícias deste domingo, em 2010 venderam-se 133 mil embalagens daquele que é conhecido como “comprimido da inteligência”, porque ajuda as crianças a concentrarem-se e a melhorarem os seus resultados escolares. Um número que mais que duplicou em 2016, quando as vendas rondaram as 270 mil embalagens.

Ainda assim, o diário, que cita dados fornecidos pela consultora QuintilesIMS e pelo Infarmed (a autoridade que regula e supervisiona o mercado dos medicamentos) nota que em 2016 houve uma descida de vendas face a 2015, quando o número de embalagens vendidas atingiu as 283 mil. No entanto, o JN também nota que surgiu no mercado uma nova molécula para tratar as mesmas perturbações, a atomoxetina, cujas vendas mais que duplicaram de quatro mil embalagens em 2015 para nove mil em 2016.

O problema dos diagnósticos psiquiátricos feitos pela net, em casa

“São muitas as crianças medicadas porque foram consideradas desatentas e problemáticas. O que era excepção tornou-se habitual”, declarou o presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos de Escolas Públicas, Filinto Lima, considerando que se trata de “um exagero”.

“Só em casos extremos se deveria recorrer a fármacos”, disse ao JN o bastonário da Ordem dos Psicológos, Francisco Miranda Rodrigues. O especialista defende que o efeito da medicação “não proporciona uma mudança de comportamento” e sustenta que a intervenção psicológica nas crianças poderia corrigir grande parte dos problemas.

O responsável pelo Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro Carvalho, adiantou que o tema é motivo de preocupação e adiantou que há muitos pais que se queixam aos médicos que os filhos são hiperactivos, instáveis ou irrequietos. Mas o psiquiatra frisou que “o sofrimento mental na criança é muito inespecífico” e que estas podem apresentar “os mesmos sintomas para uma grande variedade de situações”, pelo que não significa forçosamente que tenham PHDA.

O responsável pela consulta de hiperactividade no Centro de Desenvolvimento em Coimbra, José Boavida Fernandes, defende que o metilfenidato pode ser um protector social da criança ao evitar outros comportamentos problemáticos. Se a perturbação existe e afecta a vida da criança por um longo período de tempo, o melhor é medicar, mas é preciso fazer um bom diagnóstico e evitar os “maus usos da medicação”, alerta.

O pediatra também assegura que “o metilfenidato tem um padrão de segurança e eficácia enorme” e que “não há um único estudo científico que alerte para efeitos negativos e já lá vão mais de 50 anos de uso”.

Notícia publicada no Público a 19.0.2017

 

 

 

Ritalina, a droga legal que ameaça o futuro

Outubro 25, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.psicologiasdobrasil.com.br/ de 31 de março de 2016.

ritalina

É uma situação comum. A criança dá trabalho, questiona muito, viaja nas suas fantasias, se desliga da realidade. Os pais se incomodam e levam ao médico, um psiquiatra talvez.  Ele não hesita: o diagnóstico é déficit de atenção (ou Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH) e indica ritalina para a criança.

O medicamento é uma bomba. Da família das anfetaminas, a ritalina, ou metilfenidato, tem o mesmo mecanismo de qualquer estimulante, inclusive a cocaína, aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. A criança “sossega”: pára de viajar, de questionar e tem o comportamento zombie like, como a própria medicina define. Ou seja, vira zumbi — um robozinho sem emoções. É um alívio para os pais, claro, e também para os médicos. Por esse motivo a droga tem sido indicada indiscriminadamente nos consultórios da vida, a ponto de o Brasil ser o segundo país que mais consome ritalina no mundo, só perdendo para os EUA.

A situação é tão grave que inspirou a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a fazer uma declaração bombástica: “A gente corre o risco de fazer um genocídio do futuro”, disse ela em entrevista ao Portal Unicamp. “Quem está sendo medicado são as crianças questionadoras, que não se submetem facilmente às regras, e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de mil  anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias. Estamos dificultando, senão impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos diferentes. E isso é terrível”, diz ela.

O fato, no entanto, é que o uso da ritalina reflete muito mais um problema cultural e social do que médico. A vida contemporânea, que envolve pais e mães num turbilhão de exigências profissionais, sociais e financeiras, não deixa espaço para a livre manifestação das crianças. Elas viram um problema até que cresçam. É preciso colocá-las na escola logo no primeiro ano de vida, preencher seus horários com “atividades”, diminuir ao máximo o tempo ocioso, e compensar de alguma forma a lacuna provocada pela ausência de espaços sociais e públicos. Já não há mais a rua para a criança conviver e exercer sua “criancice”.

E se nada disso funcionar, a solução é enfiar ritalina goela abaixo. “Isso não quer dizer que a família seja culpada. É preciso orientá-la a lidar com essa criança. Fala-se muito que, se a criança não for tratada, vai se tornar uma dependente química ou delinquente. Nenhum dado permite dizer isso. Então não tem comprovação de que funciona. Ao contrário: não funciona. E o que está acontecendo é que o diagnóstico de TDAH está sendo feito em uma porcentagem muito grande de crianças, de forma indiscriminada”, diz a médica.

Mas os problemas não param por aí. A ritalina foi retirada do mercado recentemente, num movimento de especulação comum, normalmente atribuído ao interesse por aumentar o preço da medicação. E como é uma droga química que provoca dependência, as consequências foram dramáticas. “As famílias ficaram muito preocupadas e entraram em pânico, com medo de que os filhos ficassem sem esse fornecimento”, diz a médica. “Se a criança já desenvolveu dependência química, ela pode enfrentar a crise de abstinência. Também pode apresentar surtos de insônia, sonolência, piora na atenção e na cognição, surtos psicóticos, alucinações e correm o risco de cometer até o suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration (FDA)”.

Enquanto isso, a ritalina também entra no mercado dos jovens e das baladas. A medicação inibe o apetite e, portanto, promove emagrecimento. Além disso, oferece o efeito “estou podendo” — ou seja, dá a sensação de raciocínio rápido, capacidade de fazer várias atividades ao mesmo tempo, muito animação e estímulo sexual — ou, pelo menos, a impressão disso. “Não há ressaca ou qualquer efeito no dia seguinte e nem é preciso beber para ficar loucaça”, diz uma usuária da droga nas suas incursões noturnas às baladas de São Paulo. “Eu tomo logo umas duas e saio causando, beijando todo mundo, dançando o tempo todo, curtindo mesmo”, diz ela.

TEXTO ORIGINAL DE ANTROPOSOFY

 

Alunos sobremedicados: “Não podemos ficar de braços cruzados”

Outubro 23, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 6 de outubro de 2016.

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Clara Viana

O bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Telmo Mourinho Baptista, defende que, face aos níveis de prescrição alarmantes de medicamentos para fazer face à hiperactividade e défice de atenção, que no fundamental são anfetaminas, é necessário que sejam dadas respostas a várias questões.

Telmo Mourinho Baptista considera que compete à autoridade de saúde pôr cobro à teia de pressões, envolvendo professores, pais e médicos, que funciona como pano de fundo da prescrição de medicamentos a crianças e jovens. “Toda gente quer pacificar os jovens todos”, comenta.

O Conselho Nacional de Educação alertou recentemente para os riscos de se estar a sobremedicar crianças e jovens, com medicamentos dos quais se desconhecem os efeitos a longo prazo, remetendo para o relatório da Direcção-Geral da Saúde onde se dá conta que, em 2014, as crianças portuguesas até aos 14 anos estavam a consumir mais de cinco milhões de doses de metilfenidato (ritalina e concerta) para combater situações de hiperactividade e défice de atenção. O que é que um número como este nos diz?

Temos de nos perguntar se essa é a primeira intervenção que se deve ter. Há recomendações internacionais, inclusive do Colégio Americano de Pediatria, apontando que a intervenção por excelência no primeiro momento deve ser psicológica. A recomendação existe, o problema é que não estamos sequer a dar ouvidos ao que se preconiza porque provavelmente torna-se mais fácil prescrever um comprimido, embora não se saiba exactamente quais são as consequências de longo prazo. E, nesse sentido, o alerta do Conselho Nacional de Educação faz todo o sentido. São números impressionantes e face a eles não podemos ficar de braços cruzados.

Mas de quem é a responsabilidade para esta explosão de medicação? Os professores dizem que são pressionados pelos pais, estes dizem que são pressionados pelos professores, os médicos referem que os pais insistem com eles para medicarem os filhos para que estes tenham bons resultados escolares…

É um facto que existem todas essas pressões. Mas em Portugal há uma autoridade de saúde que tem o dever de emanar recomendações sobre estas intervenções, com base na investigação e nas recomendações internacionais que já existem. Claro que, a partir do momento em que toda gente quer pacificar os jovens, todos entramos na situação que descreveu. Mas para isso é que existem autoridades de saúde, para dizerem o que deve e o que não deve ser feito. Temos de ter estratégias diferenciadas com vista a informar os professores, os pais, a fornecer guidelines aos médicos.

Recentemente, um professor disse-me que quando olha para adolescentes que estão a ser medicados há anos com ritalina se lembra do que os electrochoques faziam aos internados no filme de Milos Forman, Voando sobre um Ninho de Cucos. É abusiva esta visão?

Não sei. Não conheço essa realidade tão de perto. Mas quando temos um alerta de consumo temos de reflectir sobre o que ele significa. Por que é que está a acontecer? Há sobrediagnóstico? Há incentivo ao consumo? Há utilização não regulada da medicação? São questões para as quais temos de ter resposta.

Ficou-se a saber também recentemente que os jovens portugueses são dos que mais consomem tranquilizantes e sedativos entre os europeus, e que estes são receitados por médicos. A propósito deste resultado, o coordenado do Programa de Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, referiu que uma das razões para tal se deve à ausência de psicólogos nos cuidados de saúde primários capacitados para lidar com crises de ansiedade, sem recurso automático à medicação. O que é que os psicólogos podem então fazer face às crises de ansiedade dos alunos, que são muito frequentes, por exemplo, na altura dos exames?

Há imensas estratégias de intervenção para o controlo da ansiedade num curto espaço de tempo. Até há formatos grupais, com a constituição de grupos com os alunos que têm esses problemas de ansiedade face aos exames e onde se dão estratégias que são também treinadas em grupo. Isso pode ser feito nas escolas, nos centros de saúde, nas organizações.

Existem estratégias de relaxamento, estratégias cognitivas, de modo a que se seja capaz de diminuir os pensamentos perturbadores geradores da ansiedade, como por exemplo um aluno estar sempre a pensar que não vai conseguir passar naquele exame ou ter bons resultados nos testes.

O problema da ansiedade por causa dos exames tem a ver com o excesso, porque alguma ansiedade até é necessária, é focalizadora. O problema é que na maior parte dos casos se excedeu tanto este nível que começa a ser um problema. Temos pessoas formadas para lidar isso.

O problema coloca-se ao nível da intervenção precoce?

Uma parte fundamental deste processo é a triagem. Apurar se, para uma determinada situação, só é preciso uma intervenção curta, focalizada, e se para outra é necessária uma intervenção mais diferenciada, que se calhar exige psicoterapia. Mas na maior parte das situações nem será esse o caso. E, se fizermos prevenção a tempo e horas, se calhar não vamos ter muitas destas situações que entretanto se agravaram. Uma condição que apareceu num determinado momento com o passar do tempo torna-se crónica porque não foi resolvida. E, portanto, perdeu-se uma oportunidade de ouro.

O mesmo acontece, por exemplo, com o diagnóstico de crianças com queixas de mau comportamento, que muitas vezes é consequência de outros défices. Se uma criança estiver alheada da escola porque não se consegue concentrar então obviamente que o seu grau de motivação desaparece e começa a fazer outras coisas na sala de aula.

E ainda há outras situações a montante, que exigem uma maior coordenação com a saúde escolar. Existem situações de dificuldade de aprendizagens que, por exemplo, têm a ver com problemas de audição. E o que acontece quando estes não são despistados? A criança está no fundo da sala, quase não ouve o que o professor diz, começa a alhear-se, a desmotivar-se, e tudo isto poderia ser evitado.

 

 

 

Obsessão em medicar crianças para estarem mais atentas e sossegadas preocupa CNE

Setembro 26, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia da http://sicnoticias.sapo.pt/ de 24 de setembro de 2016.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Estado da Educação 2015

A obsessão em ter as crianças mais atentas e sossegadas, com recurso a substâncias químicas, poderá representar um condicionamento irreversível do seu desenvolvimento cognitivo e social que nenhum medicamento poderá recuperar, alerta o Conselho Nacional de Educação (CNE).

No relatório “Estado da Educação 2015”, hoje divulgado, o presidente do CNE, David Justino, escreve que se tornou preocupante o consumo de substâncias estimulantes do sistema nervoso central, especialmente as orientadas para a superação de “supostos problemas” de hiperatividade e défice de atenção.

“O recurso cada vez mais generalizado ao metilfenidato (princípio ativo da designação comercial de Ritalina) reflete um problema que não deverá ser menosprezado”, adverte o ex-ministro da Educação na apresentação do documento.

O investigador refere a venda de quase 300.000 embalagens deste medicamento, em 2014 (dados do Infarmed), para defender uma reflexão por parte dos pais, dos professores, dos profissionais de saúde e dos decisores políticos sobre as razões de “tão rápido crescimento do consumo” e sobre os efeitos que o abuso destas substâncias pode ter no desenvolvimento geral das crianças.

O CNE recorreu também a dados da Direção-Geral de Saúde para mostrar que o consumo destes medicamentos passou de 2.937.039 doses diárias em 2009 para 6.515.293 em 2013 (considerando os fármacos comparticipados e dispensados à população em regime de ambulatório).

De acordo com o relatório Saúde Mental em Números 2015, as crianças portuguesas até aos 14 anos estão a consumir mais de cinco milhões de doses diárias de metilfenidato.

O investigador nota, por outro lado, uma “assinalável tendência” para a diminuição do consumo de substâncias aditivas: “Há uma clara redução dos que reconhecem ter experimentado o consumo de tabaco e cannabis e uma tendência positiva dos que afirmam não consumir”.

Os resultados apurados por este estudo relativamente às bebidas alcoólicas referem uma situação menos favorável, “ainda que a tendência seja para diminuir”.

No que diz respeito ao ensino superior, o presidente do CNE assinala que há alunos e oportunidades a menos e que um dos problemas que se coloca na internacionalização das instituições é “a escassa especialização”.

“As ofertas generalistas de caráter tradicional tendem a dominar, face ao desejável desenvolvimento de núcleos de ensino e investigação especializados em domínios onde as instituições portuguesas possam ser reconhecidas e com capacidade para competir com as suas congéneres estrangeiras”, observa.

David Justino refere também que os indicadores de produção científica “continuam a ser moderados” quando comparados com os de países de idêntico nível de desenvolvimento económico e social.

“O facto de possuirmos alguns centros de excelência, não consegue esconder que a maioria não ultrapassa a mediania, bem como a irremediável tendência para paroquialização e enquistamento das equipas e das instituições de investigação científica”, critica o presidente do CNE.

O documento, de 300 páginas, é editado anualmente pelo CNE.

Lusa

 

 

Como a Guerra Fria deu origem à ritalina, a droga da ‘concentração infantil’

Junho 27, 2016 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Durante a década de 1960, era comum, nos Estados Unidos, que crianças hiperativas recebessem um medicamento para ajudá-las a se concentrar nas aulas.
A chamada “pílula da matemática”, a ritalina, continua sendo um dos tratamentos mais usados em vários países para tratar o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

Seu principal componente, o metilfenidato, da família das anfetaminas, tem a propriedade de estimular a concentração e reduzir a impulsividade.

Essas qualidades eram consideradas necessárias dentro da transformação, durante a década de 1960, do sistema escolar dos EUA, que queria competir com a União Soviética no contexto da Guerra Fria, de acordo com o historiador Matthew Smith, da Universidade de Strathclyde (Escócia) e autor do livro Hyperactive: The Controversial History of ADHD (“Hiperativos: a controversa história do TDAH”, em tradução livre).

“Havia uma corrida científica e espacial com a União Soviética, e por isso o novo sistema educativo exigia que as crianças permanecessem sentadas em suas carteiras fazendo tarefas”, disse.

Quando a droga foi sintetizada, em 1944, pelo químico italiano Leandro Panizzon, não estava previsto que crianças pudessem tomá-la.

Então como ela acabou virando a solução predileta dos pais e psiquiatras para os pequenos hiperativos?

 
Fármacos no pós-guerra
Existe uma lenda de que Panizzon batizou o medicamento de “ritalina” em homenagem a sua mulher, Margarida, que chamava pelo apelido carinhoso de Rita.

“Ela tomava o comprimido antes de jogar tênis. Aparentemente, sofria de pressão baixa e isso lhe dava um empurrão na partida”, destacou Smith.

O laboratório onde ele trabalhava, Ciba, começou a comercializar o fármaco para adultos com a mensagem de que era mais forte que uma xícara de café, mas não tão intenso, nem com os efeitos secundários de outras anfetaminas mais potentes.

Na época de seu surgimento, o mercado de medicamentos passava por várias mudanças e avanços.

No pós-guerra, começaram a ser tratadas doenças como tuberculose, e teve início a vacinação contra a pólio.
“As pessoas começaram a recorrer a fármacos como solução para tudo”, disse Smith, acrescentando que drogas psiquiátricas também geraram otimismo e que isso se manteve por mais duas décadas até a descoberta de efeitos secundários e de seu potencial viciante.

 
Fórmula para crianças
Em uma pesquisa de 1937, o psiquiatra Charles Bradley fez uma descoberta: depois de administrar anfetaminas a um grupo de crianças para tratar dores de cabeça, ele notou que elas tinham o surpreendente efeito de estimular sua concentração.

Sua descoberta foi investigada duas décadas depois, quando o psicólogo clínico Keith Conners, em 1964, da Universidade Johns Hopkins em Baltimore (EUA), fez o primeiro ensaio clínico aleatório com ritalina em crianças com “transtornos emocionais”.

O jovem pesquisador estava intrigado com a possibilidade do tratamento com drogas, porque os baseados em terapia não pareciam dar resultado.

O estudo mediu concentração, níveis de ansiedade e impulsividade. A resposta das crianças foi imediatamente positiva.

“Estavam emocionadas de tomar um remédio que ajudava com suas tarefas. Sentiam que já não eram crianças problemáticas ou más”, disse Conners à BBC.

Depois que Conners e seus colegas publicaram os resultados, a ritalina começou a ser usada com mais frequência para tratar hiperatividade em crianças americanas.

Segundo o historiador Matthew Smith, os professores começaram a indicar crianças com problemas de conduta a psiquiatras, que quase sempre diagnosticavam transtorno de hiperatividade.

“O sistema escolar pressionava as crianças a se sentarem quietas nas carteiras e se concentrarem”, disse Smith.

 
Consumo ‘excessivo’
Apesar de haver ajudado a popularizar o medicamento na sociedade americana, Conners acredita que hoje ele é usado em excesso.

“Quando começamos, não conseguíamos convencer as pessoas de que havia crianças com TDAH. Agora parece que elas são encontradas até embaixo das pedras”, disse ele à BBC.

O psicólogo considera que este transtorno está sendo diagnosticado de forma excessiva e que outros fatores são ignorados.

“Um número significativo de crianças em idade escolar é dignosticado com TDAH quando, na realidade, pode ser que sejam muito jovens para a série em que estão. Ou podem ter outras desordens parecidas com o TDAH”, disse.
No Brasil, a discussão sobre consumo excessivo da droga entre crianças também ocorre.

Um boletim divulgado no ano passado pelo Ministério da Saúde diz que, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos, o Brasil era, em 2010, o segundo maior consumidor de ritalina do mundo.

O ministério recomendou que os Estados aumentassem o controle sobre prescrição e distribuição da droga para evitar a “medicação excessiva” de crianças.

O documento diz que há estimativas discordantes sobre a ocorrência de TDAH em crianças e adolescentes no Brasil, que variam de 0,9% a 26,8%.

 

BBC Brasil, em 10 de junho de 2016

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