“Quando for grande, quero ser youtuber”

Julho 11, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Astronauta, bombeiro ou médico, já não são as profissões de eleição dos sonhos dos mais pequenos. Hoje em dia, é comum ouvir uma criança dizer “quando for grande, quero ser youtuber”. Mas o que é isto de “ser youtuber” e como é que eles fazem dinheiro?

A VISÃO falou com o Miguel Raposo, que criou duas agências de sucesso e trabalha, atualmente, com os youtubers portugueses com maior alcance (como o Wuant, Windoh, Nuno Agonia, ou Inês Faria – esta última que, em um mês, conseguiu 20 mil subscritores no Youtube) para perceber de que forma é que alguém que publica vídeos na internet pode ter um retorno financeiro.

Veja o vídeo AQUI.

Reportagem publicada no site da Visão, em 3 de julho de 2018.

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Portugal é um país amigo das crianças?

Junho 28, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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mariocordeiro

 

Está na altura de denunciar oportunismos, negligências e algumas malfeitorias que ocorrem neste país onde os assuntos das crianças ainda são vistos como “brincadeiras”.

Portugal é ou não um país “amigo das crianças”? Supostamente sim, mas esmiuçando, há indícios que muita coisa poderia ser feita e não está a sê-lo… Não há dúvidas que a situação global de bem-estar das crianças portuguesas melhorou de uma forma quase inacreditável desde há 40 anos. Os indicadores não mentem e nem é preciso recorrer apenas à taxa de mortalidade infantil, mas a múltiplos outros parâmetros que mostram uma qualidade de vida e um nível de bem-estar largamente superiores ao de crianças de outras gerações, a nível físico, psicológico e social.

Todavia, centrando-nos no “agora” e na baixa da natalidade em Portugal, a pergunta subsiste: “É Portugal um país amigo das crianças?”. Sem querer colocar o país no “tribunal”, atrevo-me a dizer (obrigado, democracia!) que os governos e os órgãos de soberania em geral muito pouco têm feito, especialmente nos últimos anos, em termos de políticas globais para a infância e para a família. Um fogacho aqui, uma ilusão ali, criar algumas comissões e anunciar a sua criação com pompa e circunstância, mas debater pouco o que eventualmente estas sugiram… agora, quanto a políticas globais… quase zero. Quando vemos o espetáculo que é a degradação da Justiça (e das CPCJ), o caos escolar com políticas erróneas, lunáticas e desfasadas do que são as crianças e do que se pretende venham a ser futuros adultos, a anarquia nos serviços de saúde, e quando as medidas- -chave para o incremento da natalidade são um aglomerado de anúncios avulsos, demagógicos e eleitoralistas, não é líquido que Portugal seja amigo das crianças. Dou alguns curtos exemplos do que seria possível fazer: uma rede de ensino pré-escolar estatal com apoio de autarquias, associações, privados e mecenas; modificar as regras da habitação e consumos levando em conta a existência de crianças no aglomerado familiar; isentar de IVA os dispositivos de retenção dos automóveis e as fraldas e biberões, incluir todas as vacinas gratuitamente no PNV e ampliar ou pelo menos cumprir a atual legislação sobre apoio à família e aos filhos sem que isso representasse, como representa, penalização laboral… só isto já seria muito.

O nosso país evoluiu, mas a inversão do dinamismo de Leonor Beleza, quando formou a Comissão Nacional de Saúde da Mulher e da Criança, ou o de António Guterres, com a Comissão Nacional dos Direitos da Criança, é preocupante. Tudo caiu por terra! Há dez anos, com a Isabel Stilwell e o Eduardo Sá, fizemos uma “brincadeira a sério”, que foi o Sindicato das Crianças, para fazer uma greve aos TPC. Estará na altura, provavelmente, de redinamizar, com garras mais afiadas, a ideologia deste “sindicato” e denunciar oportunismos, ignorâncias, negligências e algumas malfeitorias que ocorrem neste país “à beira-mar plantado”, onde os assuntos das crianças ainda são vistos como “brincadeiras” ou apenas na perspetiva longínqua de “quem pagará as nossas pensões”. É redutor, indecente e inaceitável!

Abril trouxe-nos a primavera, mas trouxe-nos também a dor da morte de uma Amiga: Ana Vicente. Não cabe neste espaço tudo o que a Ana foi, tudo o que a Ana é. Defensora dos Direitos da Criança, escritora de livros infantis, mãe e avó, lutadora pela igualdade de género e pelo papel da mulher na Igreja e na sociedade, para mim foi uma Amiga e um exemplo. Muito aprendi com ela. Muito trabalhámos. Muito nos rimos. As pessoas continuam vivas enquanto perdurarem na memória de alguém. A Ana está imensamente viva, entre todos os seus amigos e admiradores. Bem haja por tudo o que (nos) fez.

Crónica do pediatra Mário Cordeiro para a revista Pais&filhos em junho 2015

E se o vizinho do lado estiver a espiar através da câmara do seu portátil ou telemóvel?

Junho 24, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Tapar a câmara de filmar para evitar olhares indesejados, seja das autoridades, de hackers mal-intencionados ou até de um conhecido, deu origem a um negócio com cada vez mais clientes. O diretor do FBI não é um deles – usa fita adesiva.

Não é trama de espiões e muito menos guião para mais um filme de James Bond. Já podem ouvir as nossas conversas privadas há muito tempo, no telefone fixo ou no telemóvel, tanto faz. Já podem saber onde estamos neste preciso momento e onde estivemos no fim de semana passado ou há três meses, como ainda ontem se podia ler neste artigo da VISÃO. E também nos podem ver, qual Big Brother, sempre que estivermos a usar um daqueles aparelhos dos quais nos tornámos inseparáveis, sejam computadores portáteis, tablets ou telefones inteligentes.

Basta terem incorporada uma câmara de filmar ou fotografar – e a maioria tem – para serem um possível alvo das autoridades, mas também da bisbilhotice do vizinho do lado ou de um qualquer hacker com más intenções – para se divertir à sua custa ou fazer chantagem e extorquir-lhe dinheiro. Não é tão difícil como se possa pensar.

“Meti um bocado de fita adesiva na câmara do meu portátil porque vi um tipo mais inteligente do que eu a fazê-lo”, assumiu o diretor do FBI, no mês passado, durante uma conferência sobre encriptação com estudantes universitários. James Comey não é só mais um entre um número cada vez maior de pessoas a tomar medidas para proteger a privacidade de possíveis ataques informáticos aos aparelhos electrónicos pessoais. Ele sabe que o próprio FBI consegue aceder às câmaras. Há anos. E sem acionar a luz que é suposto ser acionada quando a câmara começa a filmar.

Este Big Brother com participantes involuntários não é novidade para os mais atentos às potencialidades e perigos da internet, e deu origem um mercado de soluções para tapar as câmaras – desde as mais básicas, como autocolantes criativos, a outras um pouco mais sofisticadas, em que pequenas peças se encaixam no monitor e deslizam para tapar a destapar a câmara ou abrem e fecham uma janela com o mesmo propósito. Um simples post it também produz o mesmo efeito ou então é fazer como o diretor do FBI e usar fita adesiva – escura, de preferência.

À medida que os casos de violação de privacidade surgem nas notícias, parece crescer o número de utilizadores prevenidos e, por arrasto, o negócio. O responsável de uma empresa norte-americana, que comercializa autocolantes destinados a esse fim desde que os seus fundadores ouviram no Pentágono sobre as ameaças das câmaras, disse ao The Guardian que os lucros anuais atingem os seis dígitos.

Edward Snowden, o espião que denunciou as práticas da NSA, terá dado um impulso, quando em 2013 avisou o mundo que a agência de segurança nacional dos Estados Unidos acedia às câmaras dos telemóveis e dos portáteis para espiar pessoas.

Menos mediáticos, mas talvez mais preocupantes, são os casos em que piratas informáticos entram no sistema e gravam a intimidade alheia para depois chantagearem as vítimas. Há também sites em que os hackers partilham esses vídeos, apenas para diversão própria, e as “protagonistas” nunca chegam a saber que foram filmadas. Entre eles designam as mulheres que vigiam como “escravas”.

Em 2015, o nível alerta subiu com o desmantelamento de um grupo de hackers. Ficou a saber-se que os Sombras Negras, como eram conhecidos, vendiam software capaz de fazer qualquer pessoa, mesmo sem grandes conhecimentos de informática, aceder a computadores de terceiros. Custava menos de 40 euros e, segundo as autoridades norte-americanas, serviu para espiar meio milhão de computadores por todo o mundo.

 

Rui Antunes para a Visão, em 9 de Junho de 2016.

 

Dez dicas para a chegada do bebé a uma família multi-espécie

Maio 10, 2016 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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O que pode ser feito, a titulo preventivo e não só, para minimizar o stress e levar o animal a aceitar pacificamente as inevitáveis alterações de rotinas.

Cada vez mais as famílias são compostas por elementos de várias espécies. Assim temos, a par dos humanos, os animais que com eles coabitam e aos quais são atribuídos direitos semelhantes aos do resto da família: alimentação de qualidade apropriada ao seu estado físico, raça e idade; cuidados médicos preventivos e curativos; atividades lúdicas com recurso a brinquedos cognitivamente interessantes e educativos; cuidados de higiene adequados, que incluem o pelo, a pele, os ouvidos, as unhas e os dentes; educação adaptada, com recurso a treinadores e escolas de treino.

Em casais jovens, um animal de estimação vem muitas vezes antes da decisão de alargar a família a um bebé humano, ou porque este já existia antes da união, ou porque foi adotado depois. Normalmente todos os afetos do casal são concertados no seu amigo de quatro patas. A partir do momento que acontece a gravidez a atenção foca-se nos cuidados com a grávida, nos preparativos para a chegada do bebé, nas atenções dos familiares que se regozijam com o eminente acontecimento. Em muitas famílias o animal passa de prioridade a algo secundário, em que as rotinas mudam, os cuidados básicos são negligenciados, a interação reduz-se drasticamente, com menos passeios, menos tempo de brincadeira, menos tempo de qualidade com a família. O relacionamento degrada-se, o animal fica confundido e frustrado, muda algumas atitudes, no sentido de tentar reconquistar o a sua anterior posição no seio familiar. Estas mudanças de comportamento contribuem, muitas vezes, para agravar ainda mais o relacionamento, com tutores já impacientes a penalizarem ainda mais o animal, sem compreenderem a verdadeira razão da sua atitude.

E tudo culmina com o nascimento do bebé. A sua chegada a casa vai, sem sombra de duvida, perturbar o ambiente social e os animais que a habitam. Um choro agudo e insistente, odores completamente desconhecidos, alterações drásticas na rotina, entrada e saída frequente de novos humanos, um corrupio de atividade, muitas vezes invasora da paz familiar, são no mínimo stressantes a até assustadoras. Mas algumas coisas podem ser feitas, a titulo preventivo e não só, para minimizar todo este stress e levar o animal a aceitar pacificamente as inevitáveis alterações de rotinas.

Por favor, lembrem-se que nenhum animal deve ser deixado sozinho com um bebé. O relacionamento deve ser sempre supervisionado, não por recear a sua agressividade contra o recém-nascido, mas porque, em busca de afetos ou calor, o animal pode deitar-se sobre a sua cabeça e este não tem capacidade para o evitar. Aliás, nenhuma criança deve ser deixada sozinha com o seu amigo de quatro patas, até ter idade suficiente para se comportar adequadamente com o mesmo. E isto pode só acontecer por volta dos 10/12 anos. Este cuidado protege ambos: a criança e a mascote.

Portanto, aqui deixo algumas dicas que podem facilitar muito a integração do recém-nascido no ambiente familiar multi-espécie.

1 – Antes do bebé nascer, tente implementar horários que sejam compatíveis com as rotinas que irá adotar depois deste chegar a casa. Comece por alterar gradualmente as rotinas de alimentação, higiene e passeios e adapte-as à futura realidade. Provavelmente têm que ser feitas alterações radicais e se o planeamento for feito atempadamente, assim como o começar a por, tais alterações em prática, o seu nível de stresse será com certeza menor e o seu animal aprenderá a adaptar-se à chegada do novo membro da família. Inclua no seu horário 5 a 10 minutos diários para dedicar exclusivamente ao animal. Durante este período brinque com o seu gato ou cão, afague-o, fale com ele, enfim, tudo aquilo que ele gosta, mas sempre de forma tranquila. Tente manter sempre os mesmos horários e faça-o na presença da criança, depois do nascimento. Poderá ser necessário acordar um pouco mais cedo e poderá, também, ser necessário que alguém olhe pelo bebé enquanto isto acontece, para que não tenha que interromper repentinamente a sessão, no caso deste chorar. Muitos cães e gatos ficam bastante incomodados com o choro dos bebés e a atitude do tutor pode condicionar a forma como estes o vão aceitar. Se se mantiver calmo, o animal aprenderá que este ruido, apesar de incomodativo, não trás nada de mal e passará a aceitar tranquilamente, como um ruido familiar. E aprenda a disfrutar do momento como forma de relaxar e descontrair, sem culpas. Afagar o pelo do animal, ouvir o seu ronronar, disfrutar do seu carinho, baixa a pressão arterial, promove o relaxamento muscular, faz subir a autoestima da recente mãe, ainda a braços com adaptações hormonais e físicas. Se houver vários animais na casa, cada um deles deve ter a sua quota parte de atenção, exceto nos momentos de brincadeira, se são animais que disfrutam adequadamente da companhia uns dos outros.

2 – Se seu cão não anda adequadamente à trela, ou seja, se passa todo o tempo a puxar para um lado e para o outro, cada vez que a sua atenção troca de alvo, está, agora mais que nunca, na hora de o treinar a comportar-se como esperado, passeando calmamente, sem esticões súbitos e imprevisíveis. O ideal seria que os passeios no exterior incluíssem toda a família, mesmo a de quatro patas. Quanto mais o cão obtiver emoções positivas na presença do bebé, mais o aceitará de forma natural e sem dramas. Mas poderá ser muito perigoso tentar conduzir um carrinho de bebé com uma mão e com a outra um cão descontrolado e demasiado energético. Nestas condições a recém mamã evitará os passeios conjuntos e o cão ficará em casa, a ver sair a criança e mais a sua amada tutora, ficando para trás a observar ansiosamente a saída dos dois. Um cão treinado é um cão controlado, que pode ser levado para qualquer lado. Todos têm a lucrar com isso. Quantas mais vezes exercitar o cão ou o gato, tanto física como cognitivamente, na presença da criança, mais forte e estável será o relacionamento entre todos.

3 – Antes da chegada do bebé permita ao animal explorar o quarto de dormir, a área de mudança de fraldas, a área dos banhos e todo o mobiliário e objetos adquiridos para satisfazer as necessidades básicas deste novo membro da família. Nunca deverá vedar o acesso do cão ou o gato às áreas reservadas ao bebé. Estas áreas, por serem novas, têm odores desconhecidos e por isso interessantes para serem explorados. Dê ao animal o direito de se familiarizar com todas estas novidades. Permita-lhe sentir o odor de loções, talcos, cremes e líquidos de lavagem. Se não o fizer, terá um animal a tentar insistentemente entrar na área proibida. E esta insistência poderá ser causa de stresse para a família humana, assim como para o animal, uma vez que lhe é proibido um comportamento exploratório completamente natural. No entanto, deixar explorar, não significa permitir que utilize a cama do bebé ou qualquer outra parte da mobília como dormitório ou zona de estar. Permita-lhe explorar mas só isso. Depois da chegada do bebé não poderá permitir que que este hábito se mantenha. Portanto, logicamente, não o permita antes. Se o cão ou gato possuem brinquedos macios ou sonoros, semelhantes aos do bebé, irá , com certeza, confundir os mesmos e considerará que pode brincar com qualquer dele. Se os brinquedos forem regularmente lavados, não haverá nenhum problema de saúde relacionado com este facto. No entanto, quando o bebé crescer, o cão (mais raramente o gato) poderá retirar o brinquedo da mão da criança e esta poderá ficar ferida. Escolha brinquedos visualmente diferentes para ambos, ou, em alternativa crie a regra que o que estiver no chão é do cão e o que estiver elevado é da criança. Esta regra será para ser cumprida pelos dois. Se o cão estiver treinado e tiver aprendido regras básicas de obediência, será mais fácil o “larga” ou o “dá” e a convivência será, sem duvida mais pacífica.

4 – Quando a mãe estiver na maternidade, depois do nascimento, leve para casa algumas peças de roupa do bebé e espalhe-as, por forma a que o seu odor se misture com os odores familiares. Nunca se esqueça que os animais “vivem no mundo olfativo”. Partindo deste pressuposto, é fácil compreender a importância de o habituar gradualmente a um novo aroma. Assim, quando o bebé chegar a casa, já será identificado como algo familiar e haverá menos curiosidade envolvida, facilitando a adaptação de humanos e animais a uma nova, ruidosa e odoríferas realidade. É também importante que o cão ou gato seja mantido em casa durante o tempo em que a mãe e filho estejam na maternidade. Se estiver fora durante este período, sobretudo em canil ou hotel para cães, voltará, sem dúvida, num maior estado de ansiedade e deparar-se-á com um novo ser, que não reconhece mas que relaciona com o momento de medo e stresse pelo qual acabou de passar.

5 – Quando a mãe regressar a casa deve pedir a alguém que segure o bebé, enquanto dedica uns momentos a cumprimentar o animal. Este sentiu a sua falta e estará ansioso por um pouco de atenção. Afastá-lo, enquanto se concentra no bebé, só causará mais ansiedade. E, em busca de atenção, poderá ser demasiado invasivo e inadvertidamente ferir um dos dois, se o bebé estiver no seu colo. Se for um cão que salta para as pessoas, deverá ser colocado noutra sala, até tudo acalmar. Será então a mãe, sem a criança, a entrar a sala, para calmamente o cumprimentar. Quando este sossegar poderá entrar o bebé , ao colo de alguém e mantido fora do alcance do curioso animal. Este poderá ser controlado pela trela e peitoral. Importante é que a apresentação só seja feita quando todos estejam mais calmos e a situação tenha regressado ao normal.

6 – Quando o pandemónio inicial acalmar, deve então começar a apresentação formal do bebé. Deverá ser a mãe a controlar animal , mantendo-o á trela se houver o risco de ser demasiado invasivo ou de fazer algum movimento brusco em direção á criança. Esta estará ao colo de alguém. Permita ao animal explorar e cheirar, mas se mostrar receio nunca o force a aproximar-se. NUNCA coloque o bebé à frente do nariz do cão. Este poderá sentir-se ameaçado e o medo fará com que possa reagir de forma agressiva. NUNCA coloque o seu bebé em risco, como forma de apressar as coisas. Fale gentilmente enquanto o encoraja a aproximar-se, premiando cada progresso. Se a mãe estiver sozinha, deverá prender o cão a uma parte da mobília e sentar-se numa zona controlada, com o bebé ao colo, permitindo-lhe que explore olfativamente o recém nascido, sem perigo. É importante que o animal possa ser controlado com um comando verbal. Se estiver incontrolável, pare a interação, coloque-o noutra sala. Espere que se acalme e tente de novo. NUNCA o afague quando mostrou agressividade em relação ao bebé, no sentido de lhe mostrar que também gosta muito dele. Terá que compreender que se quer fazer parte desta família alargada, estar presente em todas as situações e continuar a ter a atenção de todos, terá que aceitar este recém chegado. NUNCA corrija um comportamento de forma agressiva, pois inevitavelmente a presença da criança será associada a acontecimentos negativos.

7 – Se o animal for sossegado e controlável, não há motivo para não estar presente em todos os momentos da rotina diária do bebé, a partir da altura em que já se tenha habituado á sua presença e reaja de forma natural aos estímulos relacionados com a existência de recém-chegado. O sentir-se incluído irá fortalecer o relacionamento entre ambos e a criança crescerá mais humana, solidária, consciente dos factos simples da vida e socialmente adaptada.

8 – Em nenhuma circunstância deverá ser permitido ao cão ou gato dormir no quarto do bebé. Use um monitor ou um intercomunicador para vigiar o sono da criança, sem ser preciso manter a porta aberta. Não por recear algum tipo de comportamento predatório ou de agressividade gratuita, mas porque, inadvertidamente pode sufocar o bebé, quando se deita junto da cabeça. A culpa associada a uma tragédia deste tipo seria insuportável para os pais e o animal sairia também ele lesado.

9 – Se o animal mostrar agressividade ou medo na presença da criança, recue uns passos e volte a fazer a reintrodução gradual. O comportamento predatório é a maior causa de agressividade dirigida a crianças pequenas, quando se começam a movimentar pela casa. Também uma má experiência com outras crianças poderá fazer com que generalize e passe a recear qualquer criança. Estas são muitas vezes descoordenadas e sempre imaturas, podendo facilmente magoar o animal, durante uma brincadeira, uma tentativa de deslocação pela casa, ou mesmo uma interação não controlada. Animais idosos, muitas vezes com dores articulares, ou aqueles com alguma doença crónica que origine dor, são os que correm maior risco. Nestes casos deverá aconselhar-se com o veterinário assistente, no sentido de procurar ajuda de um comportamentalista que o ajude a resolver o problema.

10 – As crianças devem ser ensinadas desde cedo a respeitar a condição do animal e a interagir gentilmente. É também muitíssimo importante que aprendam, desde cedo, a interpretar a linguagem corporal do cão e do gato, por forma a compreender aquilo que o animal tenta transmitir. Muitos acidentes ocorrem por erros de interpretação. Qualquer animal evita o conflito, utilizando posturas corporais que pretendem transmitir um aviso. Simplesmente as crianças não compreendem a mensagem e invadem os limites do animal. Este, não tendo conseguido impor os tais limites, vê-se obrigado a utilizar a sua ultima arma: a dentada, no caso do cão ou a dentada/arranhadela, no caso do gato. Assim como ensina ao seu filho a língua materna e se preocupa com a sua educação no geral, deveria dar igual atenção aos ensinamentos da linguagem do cão e gato, recorrendo a imagens e desenhos. As escolas deveriam também incluir estes temas nos seus programas, uma vez que é significativo o número de crianças assistidas nas urgências dos hospitais, devido a agressões efetivadas por animais de companhia, sobretudo o cão. Muitos destes incidentes poderia ser evitados se a vitima tivesse interpretado adequadamente os avisos do agressor.

 

Célia Palma para a Visão em 30 de Abril de 2016

Mimos a mais. Será?

Janeiro 11, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Dr. José Morgado para a revista Visão em 28 de Novembro de 2015.

As crianças não têm elogios ou mimos a mais. O que se passa mais frequentemente é que recebem “nãos” de menos.

As chamadas birras e outros comportamentos considerados negativos assumidos pelos mais novos são uma permanente fonte de inquietação designadamente para pais e objeto de recorrentes pedidos de ajuda.

Também neste contexto é muito frequente que, quando se verificam ou se comentam alguns comportamentos das crianças, sobretudo “birras” ou a imposição de desejos ou vontades aos adultos, em regra aos pais, surjam explicações como “é dos mimos”. Acontece que “mimo” é entendido quase como sinónimo de “afeto”, “amor”, “gostar”, etc.

Tal justificação costuma servir depois para se afirmar a ideia de que as crianças hoje em dia têm muitos mimos que as “estragam”, dito de outra maneira, têm “afeto” a mais ou ainda “gosta-se de mais” das crianças. Estes discursos, que alguns profissionais destas áreas também subscrevem, merecem-me alguma reserva pois assentam, do meu ponto de vista, num equívoco.

De uma forma geral, as crianças não terão afeto a mais, poderão, isso sim, ser objecto de “mau afeto”. É essa falta de qualidade que lhes poderá ser prejudicial. Não é mau por ser muito, é mau porque asfixia, oprime, não deixa que os miúdos cresçam, distorce a perceção da criança de si própria e do seu funcionamento, não permite o estabelecimento de uma relação saudável, protetora e promotora da autonomia das crianças, uma condição fundamental para o seu desenvolvimento positivo. No entanto, não é este tipo de reflexão que leva muitos de nós a falar dos “mimos a mais”.

Insisto, as crianças não têm elogios ou mimos a mais. O que se passa mais frequentemente é que recebem “nãos” de menos. Na verdade, muitos adultos, pais, sendo quase sempre capazes de dar os mimos, mostram-se muitas vezes incapazes de dar os “nãos”, de estabelecer os limites e as regras que, como sempre digo, são tão necessárias às crianças como respirar e alimentar-se. Estes “nãos” são outros mimos imprescindíveis na educação de crianças e adolescentes nos seus diferentes contextos de vida.

Esta dificuldade dos pais em oferecer os “nãos” às crianças e adolescentes decorre, em muitas situações, de algum desconforto culpabilizante sentido com as circunstâncias e estilos de vida que inibem o tempo e a disponibilidade que desejariam ter para os filhos. Dito de outra maneira, não querem perturbar o pouco tempo que estão juntos com o “não” e a eventual reação negativa da criança.

Ficando sem “nãos” muitas crianças, a coberto da ideia dos “mimos a mais”, transformam-se em pequenos ditadores que infernizam a vida de toda a gente, a começar pela sua própria vida. Não crescem saudavelmente.

Neste contexto, apoiar e ajudar os pais a desenvolverem de forma confiante comportamentos de disponibilidade e escuta de crianças e adolescentes, a assumirem com firmeza e sem culpa a necessidade de definir regras e limites, de mostrar afeto sem que se sintam a dar “mimos” a mais que “estragam” os filhos, só pode resultar em bom trabalho, para os pais e para os filhos.

De pequenino é que se constrói … o destino.

Fonte

 

Vídeo com jovem a ser agredido na Figueira da Foz torna-se viral

Maio 13, 2015 às 12:11 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Um vídeo que mostra duas adolescentes a agredir um rapaz, na Figueira da Foz, ao longo de 13 minutos e perante a passividade de outros jovens, está a levar dezenas de pessoas a exigirem a intervenção das autoridades.

O vídeo , divulgado ao final da tarde de terça-feira no Facebook, tornou-se viral na internet, com mais de meio milhão de visualizações e cerca de 20 mil partilhas em poucas horas, suscitando centenas de insultos e comentários de repúdio. Muitas outras pessoas reclamam a intervenção das autoridades judiciais, PSP e Comissão de Proteção de Crianças e Jovens.

Apesar de ter sido agora divulgado com a informação de que as agressões aconteceram num estabelecimento de ensino da Figueira da Foz, o vídeo terá sido filmado há cerca de um ano, não numa escola mas na via pública, junto a um complexo residencial do chamado Bairro Novo, zona turística da cidade. Envolve pelo menos cinco raparigas e um rapaz, para além da vítima, outro rapaz, hoje com 17 anos.

No filme, o agredido começa por levar dois estalos dados por uma rapariga, hoje com 15 anos e a principal agressora. Outra rapariga aproxima-se e, incentivada pelas amigas, dá três estalos ao jovem, mas depois recusa continuar e afasta-se, a rir.

O jovem, que ao longo do vídeo quase nunca esboça reacção, aparece junto a uma parede, com os braços caídos, mãos atrás das costas. É depois novamente agredido pela primeira rapariga com mais um estalo. A agressora diz: “Isto é força, isto é força? Queres ver com mais força?” e dá um murro e mais seis estalos ao rapaz enquanto as amigas riem.

Ouve-se a voz de outro rapaz que ordena: “Dá-lhe mais”. A agressora responde: “Já dei”. Mas o rapaz insiste: “Mas dá-lhe mais”. A segunda rapariga regressa e aplica uma sucessão de sete estaladas à vítima, com a mão esquerda.

Em alguns momentos, as agressões cessam, quando passa alguém na rua. A principal agressora reaparece e dá 10 estaladas seguidas à vítima enquanto as amigas continuam a rir.

“A mim não me apetece estar à chapada, apetece-me estar à porrada, sabes porquê? Porque tu meteste-me nojo”, afirma. O rapaz questiona o porquê das agressões, alega que não fez nada e quem responde é o rapaz que se mantém quase sempre fora do plano da imagem: “Metes-te com ela, metes-te comigo”, diz.

Até aos oito minutos do filme, a vítima – que tem desde a noite de terça-feira uma comunidade de suporte no Facebook, com mais de 1.300 apoiantes – volta a ser alvo da principal agressora, com oito murros, antes de se agarrar à cara e queixar-se de um dente.

Depois, leva dois murros no peito e esboça, pela primeira vez, uma reacção de defesa. A rapariga ordena: “Tira a mão daí”, dá-lhe uma joelhada nos genitais e pede ao rapaz que até então se tinha mantido fora da imagem para lhe agarrar as mãos. Manietado pelo outro jovem, a vítima é novamente agredida pela rapariga com um murro e um estalo e responde “Estejam quietos”.

Já no final do vídeo, o jovem recebe um copo de água da agressora, que, a certa altura, parece preocupar-se com o rapaz: fala com ele, numa conversa inaudível mas, chamada pelas amigas, despede-se com um forte murro.

Os envolvidos nas agressões, alunos de vários estabelecimentos de ensino da Figueira da Foz, distrito de Coimbra, foram, na sequência da divulgação do vídeo, quase de imediato identificados no Facebook e alvo de insultos. Parte deles apagou as suas páginas nesta rede social.

 

Lusa, publicado na revista Visão em 13 de Maio de 2015

Daniel Sampaio: O tempo dos tribunais não é o tempo da criança

Abril 25, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Daniel Sampaio à Visão de 8 de janeiro de 2015.

Marcos Borga

 

No seu novo livro, ficcionando um divórcio traumático, Daniel Sampaio, psiquiatra e terapeuta familiar, defende que o sistema do tribunal de família não favorece o diálogo e o acordo

Clara Soares

Em O Tribunal É o Réu As questões do divórcio (Ed. Caminho, 220 págs., €13,90), Daniel Sampaio ficciona um divórcio traumático e critica a parcialidade e a hostilidade dos atores judiciais que quais personagens de O Castelo, escrito por Franz Kafka há quase um século complicam, ainda mais, a vida dos litigantes e dos seus filhos. O livro é publicado dois anos depois de O Labirinto de Mágoas, no qual questionava a facilidade com que muitos casais se separam, sem procurarem alternativas ao conflito. Nesta sua obra nova, o médico, 68 anos de vida e mais de 30 de prática clínica, sublinha a importância do regime provisório de responsabilidades parentais e da mediação conjugal.

Compara os juízes a monarcas, os procuradores a cortesãos, os advogados a residentes e os secretários a guardiões. Tem uma visão cética dos tribunais de família?

Não. Com a lei do divórcio de 2008, o casal pode divorciar-se sem ter que haver a noção de culpa. Este livro é centrado nos casais que têm filhos e partem para um divórcio litigioso.

A tese do livro é que todo o sistema do tribunal de família e menores não favorece o diálogo e o acordo, pelo contrário. Na conferência de pais, o juiz e o procurador deixam seguir o processo, que pode arrastar-se durante dois anos sem que os adultos saibam o que vão fazer com as crianças. Há uma omissão em tomar uma decisão, e uma demora, incompatível com a vida da criança.

Chega a dizer que os juízes oscilam entre Salomão e Pilatos, face à regulação das responsabilidades parentais.

O tribunal, ora adota uma posição salomónica, decidindo matematicamente para ser equitativo entre o pai e a mãe, ou deixa andar a situação, achando que ela se resolve por si, lavando daí as suas mãos, como Pilatos. Decide sem averiguar as situações reais em que pai e mãe podem ter as crianças e, na maior parte dos casos de litígio, promove a conferência de pais, com o juiz e o procurador, cada cônjuge efetua as suas alegações e, não havendo acordo, a situação arrasta-se sem que fique definido um regime provisório.

Mas não será óbvio que tal seja feito, tendo em conta o superior interesse das crianças?

A menos que existam situações excecionais, em que haja violência ou abuso sexual, por exemplo, defendo que se parta logo para essa solução, já que os filhos podem ficar dois anos, em média, numa situação indefinida.

E correndo o risco de um dos pais fazer valer a sua decisão ao ponto de excluir o outro, a chamada alienação parental?

O tribunal perde muitas vezes a discussão, chama peritos, pedopsiquiatras e psicólogos para ver se há a síndrome de alienação, mas a literatura científica não considera que haja uma identidade clínica, ou que tais situações correspondam a um diagnóstico, nem faz sentido estar a colocar um rótulo na criança. A controvérsia nos tribunais, se a criança foi ou não foi vítima de alienação parental, equivale a discussões e horas de alegações que não são importantes.

É frequente a Justiça fechar os olhos, perdendo-se para sempre a ligação de pais com filhos?

Há muitos sócios da Associação Pais para Sempre que ficaram privados do contacto com os filhos por muitos anos, sem qualquer justificação. Basta um advogado interpor uma situação de violência, o juiz receia que essa situação se agrave e priva o pai do contacto, sem avaliar.

O que é que se deve fazer, então?

O tribunal precisa de investigar se há práticas parentais alienantes e provar que a mãe, por exemplo, impede o acesso do pai à criança e inculca nesta aspetos negativos contra ele. Há que fazer um inquérito social, que, na maior parte das vezes, não é muito bem feito e, por isso, defendo que o tribunal deve ter uma assessoria técnica independente, isenta, em vez do parecer de um psicólogo ou psiquiatra.

No seu livro afirma que o tribunal, por incúria, ignorância ou lentidão, provoca danos às famílias, muitos deles irreparáveis. Refere-se a quê, concretamente?

À dificuldade de decisão do juiz, quando confrontado com vários relatórios. Se as pessoas têm dinheiro, pedem um parecer privado [cem euros ou mais], ou, então, o juiz pode pedir uma perícia médico-legal.

O pedido vai para o Instituto de Medicina Legal (IML), é distribuído pelos serviços, um psiquiatra fala com a mãe, outro com o pai, o pedopsiquiatra fala com a criança. São três relatórios, é muito difícil tirar qualquer conclusão.

Os relatórios não têm elementos suficientes para o juiz poder decidir?

Não consigo ver se a pessoa à minha frente é, de facto, um bom pai ou se é negligente e não tem competências parentais. Pela história biográfica ou pelos testes, posso dizer que não tem patologia indicativa de risco para a criança.

Não deveria haver uma mediação?

A mediação familiar está prevista na lei, mas os tribunais, em geral, não têm a ideia de que a mediação é uma coisa útil. Muitos advogados e juízes não têm essa cultura da mediação. Por outro lado, há poucos mediadores.

O sistema não tem as soluções para o problema. Noutros países, o juiz suspende a ação do divórcio e envia o casal para a mediação, que envolve dez ou 12 sessões e no final obtém-se, pelo menos, a diminuição do conflito. E o juiz tem mais capacidade de decidir.

Muitos pais veem a partilha do filho como uma perda narcísica ou uma derrota pessoal?

Sim. Muitos não estão a pensar no interesse da criança, antes em não prescindir de uma parte de si próprios, como sucede no caso ficcionado na segunda parte do livro.

De tão embrenhados no conflito e nos seus problemas pessoais, não conseguem pensar nos filhos. Acompanho um casal que não quis mediação familiar proposta pelo advogado e concordou em fazer sessões privadas comigo e o interessante é que quando começam a falar da criança, a certa altura começam a provocar-se e a falar de si próprios.

Entram em escalada, eles ou os advogados por eles.

Daí ser importante diminuir o grau de conflitualidade, centrar o acordo na criança e fazê-lo. O tribunal não favorece isso. Para os advogados, o seu constituinte é quem tem razão e não há uma abordagem sistémica. Nem eles, nem os juízes, nem os procuradores, são capazes de ver o conjunto. Vendo só uma parte do problema, não conseguem tomar uma decisão a favor da criança. O juiz tem de decidir, mas, para tomar uma boa decisão, às vezes é preciso sair um bocadinho do casal, imerso no conflito. Ouve-se muito pouco os avós, os médicos, os professores. Até a criança, com a necessária precaução.

Nota que tem havido evolução, na sua experiência clínica, com estes casos?

Neste momento, muitos juízes já pedem o apoio de um psicólogo ou pedopsiquiatra para acompanhar a criança quando ela tem de ser ouvida. É uma evolução positiva e a presença de um técnico de saúde mental pode facilitar um testemunho sobre as reais condições que tem em casa do pai ou da mãe e facultar ao tribunal mais dados para decidir.

Quanto tempo pode levar uma transição no período pós-separação?

A investigação permite dizer que, pelo menos durante um ano, as situações são muito indefinidas e é quando tudo é mais difícil. Se a conflitualidade dos pais aumenta durante esse ano, o tempo esperado para a criança se adaptar, isso prejudica a fase de transição.

O tribunal deve criar condições para que haja um acordo entre as partes e a criança continuar a ter a presença do pai e da mãe.

No sentido de ter uma guarda partilhada?

Pode haver uma guarda partilhada sem residência alternada. Esta não tem riscos, desde que o casal tenha um diálogo mínimo que a permita. Tive o caso de uma mãe que rasgava a roupa da criança e acusava o pai de negligência com o vestuário. Durou anos, envolveu o Ministério Público e a Judiciária, mas veio a provar-se que era uma atitude deliberada para prejudicar o pai. Aí, a residência alternada transforma-se num inferno. “Não trouxeste a roupa, não vieram os trabalhos de casa feitos, não lavou os dentes, não deste banho, etc.”

Já há estudos sobre isso e alguns questionam até se será bom para a criança andar a saltar de casa em casa.

Os casos que funcionam bem são aqueles em que há um mínimo de acordo que possibilite um diálogo para questões práticas, e que as residências sejam próximas, até para os filhos não perderem os amigos.

Conheço um caso em que o pai alugou um apartamento na mesma rua e correu muito bem.

Que apreciação faz da forma como os pais encaram a guarda parental?

Muitas vezes, acho a guarda partilhada uma forma de os pais não pagarem pensão de alimentos. E há muito incumprimento da pensão de alimentos e muitas vezes não dizem ao tribunal quanto ganham efetivamente.

Porque é que o tribunal não verifica isso, cruzando dados com as Finanças?

Insisto: o problema do tribunal de família e menores é de avaliação: das circunstâncias de vida e financeiras do pai e da mãe; das condições da escola. O relatório social é capaz de demorar um ano, porque não há técnicos suficientes na Segurança Social, e pelo privado muitos pais não têm dinheiro para o pagar. Um ano é muito tempo na vida de uma criança.

Seja sob o mesmo teto ou em famílias separadas, é frequente a criança sentir-se um sem-abrigo emocional?

Se sim, como lida com as dificuldades que sente à sua volta? Verifico um fenómeno interessante na minha prática profissional: as crianças percebem, mesmo as muito pequenas, que não se devem envolver nos conflitos dos pais. Nas famílias recompostas, por exemplo, raramente falam do que se passa numa casa quando estão na outra. As crianças têm uma sabedoria emocional muito grande em relação às dificuldades dos pais. Sabem que passar informação vai agravar o conflito e são muito sábias na gestão dessa informação. Exceto as que são vítimas de alienação parental, que são industriadas para dizer que um dos pais é mau.

Mas deixa sequelas. Será um motivo forte para repensar a solução do divórcio?

Na primeira metade do século XX, a mulher era submetida a maus-tratos e permanecia nessa situação a vida toda, sem protesto. Hoje o divórcio pode ser uma boa solução para a saúde mental de todos. O divórcio é pernicioso quando se mantém a conflitualidade entre pais. O tribunal ainda é muito hostil e frio, ninguém informa ninguém, as pessoas andam lá perdidas, esperam horas. quando me nomeiam para ser perito, já sei que é um dia perdido. Ninguém cumpre horas. Os psiquiatras vão muito ao tribunal, sou diretor de serviço e muitas vezes tenho de ir, e há um profundo desprezo pelas pessoas. Espera-se, depois o juiz vai fazer uma diligência qualquer, continua-se à espera, e depois dizemnos que se continua no dia seguinte… Por isso é muito complicado pôr uma pessoa a falar.

O que pensam os protagonistas do castelo, os tribunais, do ralhete que lhes dá?

Os juízes não gostam, os advogados estão todos contentes, embora também diga mal deles! No lançamento do livro houve um debate com três advogados, que acharam que o livro era importante porque iria provocar a discussão e agitar as águas.

 

 

“O açúcar é o maior veneno que damos às crianças”

Abril 21, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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texto do site da Visão de 3 de abril de 2015.

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Veja aqui a Grande Reportagem Interativa da SIC , com a participação da pediatra Júlia Galhardo, responsável pela consulta de obesidade no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, e que usa palavras fortes para se referir ao abuso do açúcar em idades precoces: “maus tratos”

Miriam Alves, jornalista da SIC

A GRANDE REPORTAGEM INTERATIVA DA SIC: Somos o que comemos 

Quando as crianças não têm excesso de peso  é mais difícil que as famílias percebam os perigos do açúcar em excesso?

Sim. Os pais não devem ficar descansados quando o seu filho, que come muitos doces, é magro. Muitos desses meninos, que são longilíneos, têm alterações dos lípidos no sangue, têm problemas de aterosclerose. Não são gordos, mas têm alterações metabólicas. Nem tudo o que é mau se vê. Nem tudo o que é mau dói. A hipertensão não dói, a diabetes não dói. Não doem, mas matam. E, mesmo quando existe excesso de peso, os pais não dão a devida importância. Acham que a criança vai esticar quando crescer, como se fosse plasticina, e que o problema vai desaparecer. Só começam a perceber que há, de facto, um problema quando as análises dão para o torto. Quando o colesterol ou os glícidos ou o ácido úrico vêm aumentados, quando as análises revelam inflamação…

E as crianças que segue na consulta de obesidade têm, frequentemente, problemas nas análises?

Mais de 90 por cento das vezes. O que eu até agradeço, inicialmente. Porque é a única forma que tenho de mostrar aos pais que alguma coisa não está bem. Eu ajudei a começar esta consulta em 2006. Estamos em 2015 e vejo crianças mais obesas, com maiores problemas nas análises e em idades mais precoces. Ontem vi uma criança que tinha 10 meses e pesava 21 quilos. Tenho adolescentes com diabetes tipo 2, com hipertensão, com colesterol elevado. Patologias que, quando eu andava na faculdade, eram ditas de adulto, na pediatria não se falava! Surgiam aos 40 anos, agravavam aos 60 e tinham consequências mesmo palpáveis aos 80. Esses problemas são cada vez mais precoces e cada vez têm consequências mais graves. Quanto mais precocemente surgem, mais graves se tornam.

Como é que se explicam mudanças tão significativas no espaço de uma geração?   

Traduz toda uma modificação ambiental, porque a genética não muda numa geração. Se tiver dois gémeos, iguaizinhos, monozigóticos – em que o genoma é precisamente o mesmo – e  os sujeitar a ambientes diferentes, eles vão desenvolver problemas diferentes. Fazer menos e comer mais, foi isto que mudou no ambiente que nos rodeia. E comer mais erradamente. Come-se mais do pacote da prateleira. Produtos em que, além daquilo que parece que lá está, estão inúmeras coisas que os pais não identificam.

Por exemplo?

Os açúcares. Os pais só identificam a palavra “açúcar”. Se eu lhe chamar glícidos, dextrose, maltose, frutose, xarope de milho… Tudo isso é de evitar, mas os pais não identificam isso como açúcar. E a quantidade de açúcar que as crianças ingerem, diariamente, é assustadora. Tudo o que é processado e vem num pacote tem açúcar. Basta olhar para o rótulo. Se eu não conseguir ensinar mais nada na minha consulta, consigo ensinar, pelo menos, que é importante olhar para o rótulo. E que o ideal é escolher produtos sem rótulo, sem lista de ingredientes: aqueles que vieram da terra ou do mar ou do rio.  É a melhor forma de evitar o açúcar.

Costuma envolver os avós, a família alargada, nas consultas?

Os avós têm um papel fundamental! Os avós são do tempo em que não havia esta parafernália do pacote. O doce era o mimo do dia de festa. Mas transformam este mimo num bolo ou num chocolate todos os dias. Porque… “coitadinho do menino”. Eu peço aos avós, por favor, que transformem estas coisas em mimos de abraços, de afetos. Que vão com eles ao parque brincar, ver o pôr do sol, fazer castelos de areia. Que os ensinem a cozinhar coisas saudáveis. A fazer pão, salada de frutas. Eu aprendi a fazer pão com a minha avó e ainda hoje me lembro. Peço aos avós que nos ajudem a modificar esta carga. E que percebam que, hoje em dia, o maior inimigo dos seus netos é o açúcar. A comida não é castigo nem prémio.

Começa a ser frequente ouvir especialistas dizer que, um dia, olharemos para o açúcar como olhamos hoje para o tabaco. Concorda?

Eu acho que ainda é pior. O açúcar, em termos neurológicos, e de neurotransmissores, e de prazer, e da precocidade com que é introduzido, tem consequências mais nefastas do que o tabaco. A frutose, a dextrose, todos os açúcares criam dependência. Entramos no domínio dos recetores cerebrais, no domínio do prazer, da compensação, do conforto. Se eu me habituar a consumir açúcar e a ter prazer pelo açúcar, há modificações epigenéticas – genes que são acionados e que fazem com que eu passe a ter mais tendência para o açúcar. Ou para o sal. E a mesma dose não surte o mesmo efeito a longo prazo. Portanto vou aumentando o açúcar.

Qual é o limite máximo, se é possível responder a isto, que uma criança deve consumir de açúcar por dia?

O mínimo possível. Não tenho número para lhe dar. E quanto mais tarde, melhor. É óbvio que precisamos de açúcar, nomeadamente de glicose, porque é esse o nosso combustível. É a nossa lenha celular. Mas não é disso que estamos a falar quando dizemos a palavra açúcar.

Os açúcares de que precisamos estão presentes nos alimentos.

Claro. Nos cereais, no leite e derivados, nas frutas.

Como é que explica, às crianças e aos pais, os efeitos do açúcar na saúde?

Aos mais pequeninos costumo dizer que o açúcar é um bocadinho venenoso. Aos pais explico que o açúcar adicionado causa os mesmos problemas metabólicos que o álcool. Lembro que o álcool vem, precisamente, do açúcar. Do açúcar dos tubérculos, do açúcar das frutas. E que a consequência é exatamente a mesma: o chamado “fígado gordo”. A curto prazo traduz-se em alterações nas análises. Mais tarde traduz-se em tudo aquilo que contribui para o síndrome metabólico: diabetes tipo 2, hipertensão arterial, alteração do colesterol no sangue, aumento do ácido úrico. E, a longo prazo, tudo isto se traduz em alterações cardiovasculares. Enfarte precoce do miocárdio, acidente vascular cerebral… São doenças que os pais associam aos pais deles.

E não aos seus filhos.

E não aos seus filhos. Mas, se assim continuarem, vão presenciá-las nos filhos. Estarão vivos, ainda, para as presenciar nos filhos. Porque um adolescente que é diabético tipo 2, 20 anos depois vai ter problemas desta diabetes. E, se for uma menina, é exponencial, porque vai gerar um bebé neste ambiente intrauterino. Em que a própria carga genética — que não é alterada, porque genes são genes — vai ser ativada ou inibida de acordo com o ambiente que lhe estamos a dar in utero. É assustador.

Estudos recentes, como o EPACI Portugal 2012 ou o Geração 21, mostram que as crianças portuguesas começam a consumir doces muito cedo, a partir dos 12 meses. Aos 4 anos mais de metade bebe refrigerantes açucarados diariamente e 65% come doces todos os dias. É por falta de informação?

Alguns pais ficarão chocados, mas há uma expressão para o abuso do açúcar em idades tão precoces: maus tratos. Os meninos já não sabem o que é água. Os meninos, ao almoço e ao jantar, bebem refrigerantes. Não acredito que seja falta de informação. Toda a gente sabe que bolachas com chocolate, leite achocolatado, gomas, bolos, estas coisas, fazem mal. É a ambiência, é o corre-corre. É porque é mais fácil ir no carro a comer bolachas e sumo, a caminho da escola. Para alguém que já se deita muito tarde, porque tem tarefas sobreponíveis, pode ser difícil acordar meia hora mais cedo para preparar um bom pequeno-almoço.

Como é um bom pequeno-almoço?

Deve ter três componentes: fruta, um componente do grupo dos cereais e leite ou derivados. Quando a criança tem mais de 3 anos, estamos a falar de produtos meio gordos. Os cereais podem ser, por exemplo, papas de aveia, pão fresco ou torradas. Pão da padaria, não é pão de forma. Porque o pão de forma tem, além de imensos aditivos, açúcar. O pequeno-almoço deve ser variado, ao longo da semana, e deve garantir 20 a 25% da quantidade diária de calorias. Nem um por cento das pessoas faz isto. E o stress é o centro de toda esta nossa conversa. É o centro de todas estas alterações que nós estamos a sofrer. Porque os pais não têm tempo, porque chegam a casa e estão estoirados. Não há tempo para ser criança, não há tempo para ser pai. Para estar à mesa meia hora a contar o dia de cada um. As nossas crianças não dormem o que deviam. A sociedade moderna está a adoecer os seus cidadãos.

Os médicos têm suficiente formação sobre nutrição?

Não. Só se a procurarem. Se não a procurarem, não têm. Falo-lhe do meu curso, que foi há uma década, e falo-lhe de agora. Apesar de haver alguma modificação, não é suficiente. A nutrição é vista como secundária. Não é fármaco, não é vista como tratamento. Mas é. Por exemplo, após uma cirurgia, se não houver uma nutrição adequada, o organismo não consegue organizar o colagénio e tudo o que favorece o processo de cicatrização, para sarar. Na oncologia, por exemplo, há muito cuidado em várias terapias, mas muito pouco cuidado na parte da nutrição. A alimentação está na base da saúde e da doença.

É favorável a taxas sobre os produtos mais açucarados, como acontece em países como França, Hungria ou Finlândia?

Para não criar tanta polémica: e se deixássemos de taxar aqueles que são frescos, por exemplo? Peixe. Fruta, nomeadamente a portuguesa. Os legumes, os hortícolas. O nosso leite dos açores. Com tudo isto, é possível fazer refeições saudáveis para os meninos. Mas, se vir o IVA dos seus talões de supermercado, poderá constatar que há coisas que não deveriam ser taxadas ao nível que são.

Por exemplo?

Alguns refrigerantes são taxados a seis por cento. Mas a eletricidade e o gás, por exemplo, estão à taxa mais alta. Consegue cozinhar sem eletricidade e sem gás? Não é um produto de luxo. Às vezes sentimo-nos a puxar carroças sozinhos. E nós contra a indústria não temos muita força. Eu gostaria de perceber porque é que é permitido oferecer brinquedos com alimentos que são considerados nefastos. Pior: brinquedos colecionáveis. O problema é que cada governo preocupa-se a quatro anos. E os ministérios trabalham cada um por si.

O Ministério da Educação reduziu, em 2012, a carga horária de Educação Física no terceiro ciclo e no ensino secundário. E a nota de Educação Física deixou de contar para a média de acesso ao ensino superior.

Pior do que reduzir as aulas de educação física, é vê-las como supérfluas. Eu vou-lhe confessar: eu era péssima. Era um desastre. E também era obesa. Portanto, estou à vontade para falar disto. E digo isto aos meus doentes, porque acho que os estimula. Tenho saudades de crianças que esfolavam os joelhos em cima do que já estava esfolado. Não vejo isto hoje em dia. Não é que goste de ver meninos magoados. Mas significa que estão quietos. Quando muito, têm tendinites nos polegares, que vai ser a doença ortopédica do futuro. E miopia.

Estive três anos num hospital no Reino Unido, onde via adolescentes, sem patologias de base, com obesidade simples, deitados numa cama, que nem banho conseguiam tomar. Nós sabemos isto. Não há falta de informação, há inércia. Eu não queria que o meu país fosse para aí, não queria que a geração que vem a seguir a mim fosse para aí.

E está a ver o país ir para aí?

Estou. E não há prevenção, não há comportas. Estou a tentar montar um projeto para chegar aos pais e às crianças nos jardins de infância e nas escolas. Sinalizar para os centros de saúde, através da saúde escolar, crianças que estão a começar a ter peso a mais. A este hospital só deveria chegar a obesidade que tem uma causa endócrina, genética, ou que, não a tendo, já tem consequências. Mas há centros de saúde que nem nutricionistas têm. Isto, a longo prazo, paga-se com juros. Basta fazer contas. Basta ver a carga que são as consultas de obesidade, que eu já não sei o que hei de fazer a tanta consulta que me pedem. Uma consulta hospitalar de nível 3, como esta, tem um custo. Pais que faltam ao trabalho para vir com os meninos tem um custo. Fora as consequências que vêm por aí. A obesidade é a epidemia do século XXI. Mas como, ao contrário das infeções, o impacto não é imediato — é a 10, 20, 30 anos — ninguém olha para ela como tal. Só quando se transformar na epidemia de doença, e não na epidemia de caminho para a doença, é que vamos tentar travar. Mas já não vamos travar nada, porque já tivemos o acidente completo. E aí vamos gastar o dobro. E já nem estou a falar só de saúde e de vida. De anos de saúde e de vida que se poderiam poupar. Falo da questão monetária, porque parece que é aquilo que as pessoas entendem melhor atualmente.

 

 

 

 

 

Filhos com peso a mais: Os pais são cegos?

Abril 11, 2015 às 2:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 30 de março de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Child obesity cut-offs as derived from parental perceptions: cross-sectional questionnaire

Reuters

Um terço dos pais são incapazes de determinar que os filhos sofrem de excesso de peso, a menos que os níveis de obesidade sejam extremos

Um estudo realizado Instituto de Saúde Infantil de Londres e pela Escola de Higiene e Medicina Tropical descobriu que 31% dos pais que participaram na investigação subestimam o peso dos filhos – Apenas quatro pais os descreveram como tendo grande excesso de peso, apesar de este ser o caso de 369 das crianças analisadas.

O estudo publicado no British Journal of General Practice conclui ainda que os pais mais propensos a subestimar o peso de filhos são os de raça negra ou do sul da Ásia, os que têm origem em meios mais desfavorecidos ou os que são pais de uma criança do sexo masculino.

Os investigadores sugerem que se os pais não sabem identificar se o filho está acima do peso saudável, a eficácia das intervenções de saúde pública acerca da obesidade estão em causa.

 

 

 

Malala, o Direito à Educação e as Meninas Raptadas Crónica de Dulce Rocha na Visão Solidária

Maio 21, 2014 às 1:15 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Crónica mensal da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança, na Visão Solidária de 21 de maio de 2014.

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Em Maio, costumo escrever sobre as Crianças Desaparecidas, porque cada vez mais Países assinalam o dia 25 de Maio para lembrar todas as crianças raptadas por esse mundo fora, quase todas com fins de exploração sexual

A exploração sexual é o flagelo associado quase sempre ao Desaparecimento das crianças. São aos milhares as crianças que da Europa aos Estados Unidos, da África à Ásia, da América Latina ao Brasil e ao Canadá são traficadas para fins de exploração sexual.

Mas claro que este ano o nosso pensamento está com as cerca de trezentas meninas sequestradas no Nordeste da Nigéria, roubadas durante a noite, enquanto dormiam, das instalações anexas à escola, que de espaço de paz e tranquilidade, foi assim transformada num lugar de pesadelo.

O grupo raptor entende dever ser negado o direito das meninas a frequentarem a escola e por isso, arroga-se o direito de as manter em cativeiro, reduzindo-as à escravidão.

Esta visão das mulheres despojadas de direitos, como se fossem coisas, é ainda muito generalizada em diversas partes do mundo, e radica em conceções contrárias à Declaração Universal dos Direitos Humanos que estatui que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.

Saliento que a publicação no Diário da República da Declaração Universal, que só foi ratificada por Portugal em 1978, continua a revelar, através do título adotado -“Declaração Universal dos Direitos do Homem”-, que na altura a linguagem sexista não incomodava os decisores.

Na verdade, quando leio “Direitos do Homem”, lembro-me sempre de Olympe de Gouges, curiosamente nascida também em Maio, autora da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, por considerar injusto que na Revolução Francesa tivessem sido excluídas as mulheres da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Olympe de Gouges, que era anti-esclavagista e contra a pena de morte, defendia o direito de voto das mulheres, o direito a disporem dos seus bens, e defendia já nessa altura a não discriminação entre filhos legítimos e ilegítimos, o que era verdadeiramente pioneiro, se nos lembrarmos que entre nós, só depois do 25 de Abril, a Constituição da República veio a consagrá-la. As suas ideias eram demasiado inovadoras e durante o período de terror, em 1793, veio a ser executada pela guilhotina.

No fundo, se bem repararmos, a negação do direito à liberdade de pensamento está sempre na base de todas as ações reivindicadas por grupos extremistas. Porque a liberdade de pensamento não faz sentido sem o direito à sua livre expressão e essa só consegue ser posta em prática com o complementar direito à educação, que vai permitir desenvolver o espírito e claro, ler, escrever e comunicar. Por isso, a proibição das meninas irem à escola é apenas o meio para ser alcançado o fim da sua autonomia e da sua emancipação. Por isso, quando a educação não é tolerada, é todo um conjunto de direitos que é atingido, desde o direito à cultura até ao direito ao desenvolvimento pessoal, à autonomia e à felicidade.

Quando Malala foi baleada, não foi apenas porque frequentava a escola, mas porque, através do seu blogue apelava a que todas as crianças, sem distinção de sexo, tivessem reconhecido esse direito, utilizando a palavra como instrumento ao serviço da causa do Direito à Educação.

Daí que, quando soube que lhe tinha sido atribuído pela União Europeia, com todo o mérito, o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, tenha também achado muitíssimo adequado, porque era esse sobretudo o direito que move os ódios, porque é ele a causa do desenvolvimento de todos os outros.

Desde que foram raptadas as meninas nigerianas, Malala tem estado presente diariamente, no apelo às autoridades, nas exigências aos raptores, no clamor para que regressem, sãs e salvas, na divulgação de imagens de solidariedade e mais recentemente no apoio concreto a organizações da Nigéria cuja atividade promova o direito à educação das meninas.

Neste mês de Maio, embora jamais esqueça os horrores a que estão sujeitas as crianças desaparecidas, retiradas do ambiente acolhedor a que teriam direito, num mundo que as respeitasse, achei que seria oportuno lembrar também este Direito maior, estruturante das Democracias, o Direito à liberdade de expressão do pensamento.

E decidi também homenagear Malala, incansável no seu compromisso permanente com esta causa, que é afinal a causa nobre dos Direitos Humanos.

 

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