Respostas sociais depois do tratamento hospitalar. “Crianças vindas dos PALOP são as mais desprotegidas”

Outubro 16, 2012 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 9 de Outubro de 2012.

Por Marta F. Reis

I Encontro Nacional de Respostas Sociais Pós-Hospitalares realiza-se hoje e amanhã em Lisboa

Que apoios existem no país para as crianças que necessitam de cuidados de saúde urgentes e não podem regressar às famílias quando têm alta do hospital e precisam de continuar em tratamento? Manuela Miguel Martins, coordenadora da Casa do Gil – que desde 2006 acolheu temporariamente 140 crianças após hospitalização com o objectivo de as reintegrar na sociedade – diz que esta é uma das questões de debate obrigatório. Quem está no terreno sente a falta de articulação e de uma estratégia. Hoje e amanhã, num encontro promovido pela Fundação do Gil no Oceanário de Lisboa, os especialistas debatem lacunas e soluções.

O que motiva este encontro?

Sentimos que andamos todos a fazer muita coisa mas não estamos ligados.Muitas vezes não sabemos uns dos outros e perde-se tempo, sobretudo na vida das crianças.Uma das maiores lacunas tem a ver com as crianças que vêm ser tratadas em Portugal ao abrigo dos protocolos de cooperação com os PALOP. Muitas vezes não são encontradas respostas sociais e tornam-se um dos maiores dramas dos hospitais. Vêm ao abrigo de acordos completamente desactualizados, que dizem que as embaixadas são responsáveis pela parte social. Sem dinheiro, esse acompanhamento fica a descoberto.

Tem visto muitos casos desses?

Muitos. Na Casa do Gil cerca de 70% das solicitações são de crianças dos PALOP.

Quando lançaram este projecto havia a percepção de que seriam a maioria?

O objectivo era reintegrar crianças que permaneciam indevidamente nos hospitais, sem olhar a origens. Tínhamos uma pequena noção porque a fundação já trabalhava com hospitais há seis anos. Hoje sabemos que são as crianças mais desprotegidas. Há crianças portuguesas, mas é mais fácil encontrar-se ajuda, em instituições locais ou redes familiares.

Houve melhorias nestes anos?

Hoje a humanização hospitalar é mais cumprida, não se deixa agudizar tanto as situações, mas ainda haverá crianças sem resposta. O primeiro caso que segui foi um menino guineense que esteve 11 anos internado no Hospital D. Estefânia. Ao fim de poucos meses estava tratado e capaz de regressar a casa, mas como não tinha para onde ir foi ficando. Isto hoje já não acontece.

Esse rapaz regressou à Guiné?

Teve de ficar cá por motivos clínicos. Em alguns casos tem de se pensar a reintegração em Portugal, mas isso também se poderia resolver contribuindo para o reforço das estruturas nos países de origem. Não estamos a falar de emigração mas de importação de miséria. Chegámos a ter crianças a fazer diálise em pensões com baratas a subir pelos tubos, nos alojamentos pagos pelas embaixadas.

O que espera ouvir dos dois ministérios que convidaram para o encontro?

Não temos confirmação de que estará alguém da Saúde ou da Segurança Social, mas é essencial envolver o Estado. A sociedade civil pode fazer a sua parte mas isto é um problema de todos. É preciso perceber quantas crianças estão hoje nesta situação e que impacto isto pode ter no futuro. Cada criança que vem dos PALOP pode trazer um acompanhante. Muitas vezes a primeira coisa que essa pessoa faz, que vem à procura de melhores condições de vida, é largar a criança. Quando o acompanhante é um homem poligâmico pode engravidar quatro ou cinco mulheres e no espaço de um ano nascem mais cinco crianças em condições miseráveis. São sinalizadas para as comissões de protecção de menores e acabam invariavelmente em instituições ou em famílias subsidiodependentes. Não se trata de julgar, mas não podemos ignorar. Poderia não ter mal nenhum se estivéssemos bem e se conseguíssemos dar condições dignas a estas pessoas. O problema é que não damos.

Como se resolve?

Revendo os acordos de saúde para garantir que há um acompanhamento da entrada no país até à saída, quando a situação clínica o permite. A fundação tem feito algum trabalho: temos parcerias na Guiné e acompanhamos as crianças durante toda a estada. A fórmula da fundação pode não ser perfeita, pode não ser única, mas resulta. Era importante sentarmo-nos a uma mesa, perceber quanto é que isto pode custar. Uma criança institucionalizada num hospital custará 350/400 euros por dia. Na Casa do Gil, uma alternativa, custa 80 a 100 euros. Vai à escola e prepara-se a integração. Não nos cai bem sermos os únicos, queremos saber como é que podemos melhorar todos.

Faltam também cuidados continuados?

Quando nasceu a rede dos cuidados continuados o objectivo era ser para todos mas actualmente não existe qualquer unidade para pediatria. A Casa do Gil não é exactamente de cuidados continuados porque o objectivo é a reintegração, o acolhimento temporário. Faz falta uma estrutura, e temos esse sonho, que acolha crianças sem perspectiva de reintegração. Há crianças que infelizmente perderam a possibilidade de recuperar uma vida social mas que, com o avanço da medicina, não vão morrer amanhã. Ficam nos hospitais ou são integradas nos poucos lares para crianças com deficiência, não o sendo.

I Encontro Nacional de Respostas Pós-Hospitalares para Crianças e Jovens

Setembro 25, 2012 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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