Como se diz a um filho que a mãe tem cancro?

Novembro 22, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Expresso de 12 de novembro de 2018.

Joana Nunes Mateus

Debate: pouco se fala do impacto emocional que o cancro tem na família do doente oncológico, desde o cônjuge, aos pais mais velhos ou aos filhos mais novos.

Se há momento que toda a mãe com cancro guarda para sempre na memória é aquele em que disse ao filho que estava doente. Que o diga a advogada Cristina Nogueira, que foi diagnosticada com um cancro na mama quando o seu filho tinha acabado de fazer cinco anos: “Eu soube que tinha cancro às três da tarde e só pensava que, daqui a uma hora, tinha de ir buscar o meu filho ao infantário. O que é que eu faço?! Não fiz. Não fui capaz”.

Sem guião para enfrentar o “pesadelo total” de falar com um filho tão pequeno sobre uma doença tão complicada, Cristina lá foi aproveitando as revistas que faziam capa com a atriz Sofia Ribeiro para explicar que também tinha aquela doença e que também iria perder o cabelo. “Mas vais ficar careca para sempre? E vais morrer?”, perguntou o filho. “Acho que não. Vou fazer tudo para não morrer!”, respondeu Cristina. Apesar de ser tratada num dos hospitais mais reputados na luta contra o cancro, esta doente oncológica lamenta nunca lhe ter sido oferecido qualquer apoio psicológico. Nem a ela, nem à família, nem ao filho.

Lidar com um stresse tão grande
Não é fácil ver a mãe, que fazia tudo com ele, perder as forças devido à quimioterapia: “Pegar nele ao colo, cambalhotas, andar de bicicleta… Tudo isso passou a ser ficção científica para mim!”, diz Cristina, que acabou por procurar apoio psicológico no privado. “Comecei a notar algumas características que não eram típicas dele: alguma agressividade, sinais de nervosismo, roer as unhas, mais rebelde em termos escolares… Tudo isso me foi explicado que são formas normais das crianças, em idade precoce, lidarem com um stresse tão grande”.

Também a presidente da associação Evita, Tamara Milagre, contou a sua história pessoal na terceira conferência “Tenho Cancro. E Depois?” promovida, esta semana, no IPO Coimbra, pela SIC Notícias e Expresso, em parceria com a Novartis.

Tamara Milagre era uma adolescente de 14 anos quando a sua mãe de 44 descobriu o cancro. “Ela era uma mulher muito bonita e a autoimagem dela caiu completamente ao chão. Ficou careca, inchada, sem mama, e a vida tornou-se dramaticamente diferente. Como filha de uma doente oncológica, tive uma reação completamente oposta ao lógico: eu fiquei revoltada com a minha mãe porque ela não estava a funcionar e eu precisava muito dela. A casa não estava tão limpa, eu tinha de fazer mais coisas e a minha mãe não estava lá para me dar atenção… Anos mais tarde, lavada em lágrimas, pedi desculpa à minha mãe”.

Só passada a adolescência, é que esta filha percebeu a razão da sua raiva: “Depois é que percebi melhor. Na realidade, era o medo enorme dela morrer que me estava a revoltar. E eu vivi isso com muita ansiedade e sofrimento”. Hoje Tamara Milagre é presidente da Evita e acompanha famílias onde a comunicação é ainda mais complexa: são as famílias com cancro hereditário que, não só têm mais casos de cancro, como os enfrentam em idade mais precoce.

“As crianças não gostam de mentiras”, diz Margarida Damasceno, oncologista há mais de 30 anos, aos pais que não sabem como falar do cancro aos filhos. Diretora do serviço de oncologia do Centro Hospitalar São João e presidente eleita da Sociedade Portuguesa de Oncologia, Margarida Damasceno avisa como dizer a verdade: “Uma verdade com final feliz, abrindo sempre a luz ao fundo do túnel”.

70% de divórcios
O cancro também se abate sobre a vida do casal. “Portugal tem uma triste estatística na taxa de divórcio após diagnóstico do cancro onde lideramos destacados com 70%”, alerta a doente oncológica Cristina Nogueira. “Penso que a maioria dos divórcios corresponde aos maridos que abandonam”, acrescenta a oncologista Margarida Damasceno. É que, perante a doença, a maioria das mulheres “tem aquele lado maternal, vai deixar de ser a mulher do doente para ser a mãe do doente, vai aceitá-lo como um filho”. Já a maioria dos maridos não reage assim: “Não sabe lidar com a situação e, ou desaparece ou então fica de tal maneira alheio à situação que a própria mulher não consegue lidar com um marido que não a compreende”.

Neste debate dos desafios familiares, Margarida Damasceno deixou uma proposta a todos os hospitais: a criação da figura do “gestor hospitalar do doente”, para que os doentes oncológicos e os seus familiares saibam com quem podem contar.

Mais psicólogos
“Quando pensamos num doente oncológico, temos de pensar no desequilíbrio que vai a nível físico, psicológico, existencial. E isto é muito complexo. São necessárias equipas multidisciplinares. É necessário mais psicólogos”, pediu também a coordenadora regional da rede de cuidados continuados, Maria José Ferros Hespanha.

A presidente do IPO Coimbra, Margarida Ornelas, deixou vários exemplos do que está a ser feito naquela instituição para apoiar as famílias a melhor enfrentarem o desafio do cancro. É o caso do programa Humaniza, financiado pela fundação La Caixa, que irá permitir ao IPO Coimbra ter, não apenas um psicólogo, mas mais dois psicólogos e dois assistentes sociais. É também o caso da consulta de onco-sexologia para o casal tirar dúvidas. Os familiares são ainda convidados a participar em todas as fases do processo, desde o acolhimento do doente oncológico até às consultas, podendo mesmo acompanhá-lo 24 horas nos cuidados paliativos.

Estatuto do Cuidador já

“O Estatuto do Cuidador Informal deve ser uma prioridade deste Governo nesta legislatura”, defende Margarida Damasceno, diretora do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar São João e presidente eleita da Sociedade Portuguesa de Oncologia. Maria José Ferros Hespanha, coordenadora regional da Rede Nacional de Cuidados Continuados, diz que, sem este Estatuto, “vamos ter as urgências hospitalares entupidas de pessoas que podiam resolver os seus problemas com os cuidadores informais”. Margarida Ornelas, presidente do IPO Coimbra, alerta que “a taxa de incidência do cancro, a crescer a 3% ao ano no nosso país, vai exigir necessidades assistenciais cada vez maiores ao nível dos profissionais e das condições dos serviços. É importante que o Estatuto do Cuidador Informal seja reconhecido, à semelhança de outros países. Os cuidadores informais devem ter apoio informacional, apoio emocional e apoio instrumental ao nível da prestação dos cuidados”.

Textos originalmente publicados no Expresso de 10 de novembro de 2018

 

A criança e o aprender

Fevereiro 6, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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rte.it

Texto do site http://uptokids.pt/

Educar uma criança significa conduzir a criança, o que prossupõe uma relação entre um adulto, que sabe conduzir, e uma criança, que precisa de ser conduzida, de um patamar de saber insuficiente para um de conhecimento aumentado. Esta relação deve ser benéfica para a criança e não deve ser assente na crença de que o adulto conduz altivamente a criança e que esta se deixa conduzir passivamente.

Aprender tem origem na palavra apreender que implica o uso das mãos. Aprender vem de prender, isto é, de ligar, unir o que estava separado. Com as mãos se estabelece ligações afectuosas, o primeiro aprender que temos na vida veio do agarrar afectuoso das nossas mães.

As primeiras aprendizagens são feitas pelas interacções afectuosas entre a mãe e o seu bebé.

Para uma criança estar disponível para as aprendizagem escolares e para que possa ter sucesso, os saberes básicos tem de estar consolidados. Estes saberes assentam no diferenciar entre o que é presença e o que é a ausência; entre o bem-estar e o mal-estar; entre o feio o belo; entre o bom e o mau, entre o amor e o ódio, entre construir e destruir; entre verdade e mentira; entre liberdade e opressão; entre mulher e homem; entre pais e filhos; entre gratidão e inveja; entre o que causa mal-estar e o que causa alivio, entre outros.

Os saberes básicos transformam-se em aprenderes fundadores que devem ser feitos sempre através de interacções afectuosas, pois são saberes que provocam muitas angústias e se estas não forem contidas, em vez de estimularam o crescimento paralisam-no. Em vez de termos um aprender claro que promove o crescimento saudável das crianças temos um aprender confuso que vai comprometer o crescimento e o desenvolvimento saudável da criança. Esta vai ficar presa nesse nível onde surgiu a confusão.

Quando os aprenderes da vida ou aprenderes fundadores ficam bem consolidados, a criança está preparada para os aprenderes escolares. Se houver uma falha num aprender isso implica que houve falhas anteriores nas dimensões de acolhimento, suporte, contenção, organização e estimulação no processo educativo da criança.

Não podemos esquecer que existe uma ligação entre a saúde mental e a saúde pedagógica e aceitar que para aprender bem é preciso pensar bem, e para pensar bem é preciso estarem completos os aprenderes fundadores baseados em distinções de afetos.

Quando as confusões da criança diminuem, as angústias ficam suportáveis, a tristeza atenua-se, o pensar torna-se mais claro e eficaz, os aprenderes quer escolares quer os básicos, acontecem. A criança que consegue pensar bem aprende bem e o aprender bem leva a um pensar ainda melhor.

Segundo João dos Santos a educação deve inspirar-se numa pedagogia de relação. A escola se proporcionar um ambiente de pedagogia de relação poderá criar condições para desbloquear aprenderes fundadores que ficaram bloqueados. João dos Santos e os seus educadores acreditavam que quando criavam um ambiente de acolhimento em que a criança, desvalorizada e bloqueada, sentia que existia um interesse real por ela enquanto pessoa, fazia com que a criança se valorizasse aos seus próprios olhos centrando-se nas suas habilidades e capacidades atuais, e não nas suas dificuldades, insuficiências e insucessos. Este bom acolhimento permitia retomar a aprendizagem dos aprenderes fundadores que falharam ou ficaram bloqueados.

Uma pessoa só aprende quando encontra suporte e contenção suficiente e sobretudo se se sentiu estimulado. As crianças na escola precisam de encontrar professores que lhe ofereçam suporte, contenção e estimulação.

A escola deve ser vista pela criança como um local de aventura onde o professor é o guia.

A família e a primeira responsável pela consolidação dos aprenderes fundadores quando estes falham vai ser difícil para a criança aprender os saberes escolares. Por isso família e escola devem caminhar lado a lado.

Joana Duarte, psicóloga clínica

imagem@rte.it

 

Estudo confirma que as crianças portam-se pior na presença das mães

Junho 24, 2017 às 11:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 22 de maio de 2017.

Um estudo do Departamento de Psicologia da Universidade de Washington revelou que as crianças são 800% piores na presença das respetivas mães.

Em crianças com menos de dez anos, a percentagem sobe para  1.600%

Não era preciso um estudo para nos dar esta novidade mas é bom ter aparecido para termos a certeza que não somos nós que estamos a ficar malucas!

Quantas vezes deixamos os miúdos na cresce a chorar e a educadora diz que passados 5 minutos estavam óptimos? Ou vamos busca-los e conseguimos vê-los a brincar animadamente, até que dão pela nossa presença e está o caldo entornado?

Pois é, não estamos sozinhas.

O estudo da Universidade de Washington acompanhou 500 famílias e avaliou em cada uma delas comportamentos como birras, gritos, tentativas de bater nos pais, carência e atos de começar a falar à bebé (crianças que já falam corretamente)… E  descobriram que as crianças de até aos oito meses de idade ficavam a brincar felizes de vida até verem a sua mãe chegar: 99,9% desta crianças demonstraram ter propensão para o choro e precisar de atenção imediata. Mesmo no caso de uma criança invisual que, a partir do momento em que ouviu a voz da mãe, começou a atirar coisas, e a querer lanchar (muito embora tivesse acabado de comer).

Um bebé de oito meses ainda se sente parte de sua mãe, o vínculo é fortíssimo. O fato de essa criança chorar, atirar as coisas ou “chamar a atenção” ao ouvir o som de sua mãe, é uma tentativa de voltar para perto de si!

Depois dos 2 anos, ou ainda nos 3 anos – idade da formação da sua própria identidade – as crianças tendem a confrontar mais aqueles em que eles têm maior apego e vêem como porto seguro, os pais, na procura das sua própria personalidade ainda em formação e ainda não conhecida por completo por eles. É algo complexo!

Crianças portam-se pior na presença das mães

O estudo revelou ainda que, nada mais nada menos do que a totalidade destas crianças se revelaram mais sensíveis às instruções passadas num tom de voz normal se provenientes de alguém que não a sua mãe. Para receber resultados comportamentais semelhantes, as mulheres tiveram de falar num tom de voz muito alto, como se alguém tivesse a ser atacado por um animal feroz.

Paul Olsen, pai de três crianças e participante no estudo, ficou chocado com os resultados: “Eu nunca percebi porque é que a minha mulher nunca conseguia fazer nada quando estava com os miúdos: ela é literalmente o íman e a kriptonite deles. No entanto, comigo eles são totalmente diferentes.”

Artigo de momsnewdaily, adaptado para Up To Kids®

 

 

 

Eduardo Sá explica “porque é que crianças inteligentes têm más notas”

Novembro 3, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://visao.sapo.pt/ de 21 de outubro de 2016.

jose-carvalho

No seu mais recente livro, ‘Querida Mãe’, o psicólogo clínico e psicanalista Eduardo Sá lembra às mães que elas não têm de ser perfeitas. Que podem arriscar e errar e que, mesmo assim, nunca andarão longe da perfeição.

O psicólogo clínico e psicanalista Eduardo Sá acaba de lançar o livro Querida Mãe (Lua de Papel), dedicado, como o nome indica, às mães portuguesas. Num esforço para lembrar as mulheres que “não percisam de ser perfeitas, só precisam de ser mães”, o autor junta uma vasta série de conselhos para lidar com as inúmeras facetas da maternidade e recorda que “as mães podem arriscar e errar e que, mesmo assim, nunca andarão longe da perfeição”.

Aqui reproduzimos o capítulo “Porque é que as crianças inteligentes têm más notas”, do livro Querida Mãe, de Eduardo Sá

“Mal se chega ao fim de mais um período de aulas, vêm lá as notas.

E chegam as reuniões de pais com os professores e uma ou outra má notícia acerca da avaliação final de alguns alunos. Virá aí, para muitos deles, uma ou outra negativa. Evidentemente que a primeira tentação de todos os pais, numa circunstância como essa, é concluírem que os filhos terão sido “preguiçosos”. Havendo alguns que, numa decisão impulsiva, irão decidir castigá-los. Ora obrigando-os a deixar o futebol, por exemplo. Ora levando até ao fim a decisão de os privar de prendas no Natal. Será isso razoável?

Comecemos pelo princípio: porque é que crianças inteligentes têm más notas? Porque são inteligentes! Eu sei que a resposta pode parecer um desaforo. Mas é verdade. Acreditem que não estou enganado: a tentação de falar de dificuldades cognitivas ou de “deficiência mental”, a propósito das crianças, merece uma imensa ponderação. Mas, vamos por partes.

Não há crianças “burras”! Eu sei que há termos ásperos, como este, para todos nós. Mas é importante que sejamos claros: tirando raríssimas exceções, de crianças com quadros genéticos ou neurológicos muito graves (e que são, realmente, raríssimas!) não há crianças que nasçam “burras” como, desde sempre, se foi imaginando ou formulando. Recordo que algumas das crianças consideradas assim, que viveram a escola de forma penosa, com resultados catastróficos e com experiências humanas humilhantes, se transformaram em grandes empreendedores, grandes empresários e pessoas cuja singularidade trouxe, realmente, mais-valias ao mundo.

Mas, sendo assim, quem transforma crianças inteligentes em maus alunos? De certa forma, todos nós. É claro que para os resultados duma criança na escola faz diferença que ela tenha tido — pelo menos, até entrar no primeiro ano de escolaridade — uma família minimamente equilibrada. Porquê? Porque todas as crianças nascem altamente sensíveis, atentas, intuitivas e inteligentes, a grande dificuldade dos pais passa por se adequarem a essa “esponja” habilitadíssima para os recursos cognitivos (é assim que muitos definem a forma como elas “absorvem” conhecimentos e os multiplicam através de operações mentais que as parecem tornar a todas “matemáticos de fraldas”, não é?). Trata-se de adequar às crianças um conjunto de rotinas que façam com que os seus ritmos (de sono ou de alimentação, por exemplo) não se desorganizem, ligando-as a regras que as façam conjugar aquilo que elas desejam e o que os pais consideram desejável. Mas, para além de regras, rotinas e ritmos, as crianças necessitam da sabedoria dos pais. Porquê? Porque quando as crianças leem o mundo à sua volta, elas têm uma espécie de “instinto de adivinhar” que faz com que, em tempo real, intuam de forma fulgurante aquilo que se passa, por mais que uma imagem que fique duma experiência como essa possa levar trinta anos, por exemplo, a ter a “legenda” apropriada. Isto é: as “legendas” que os pais colocam naquilo que elas intuem servem para as crianças atribuírem palavras àquilo que veem, servem para lhes dar um significado, servem para que elas saibam discernir as operações mentais que as levem a resolver os problemas que a vida sempre lhes traz e servem, sobretudo, para que elas vão aprendendo “coisas” mais complexas e as atinjam duma forma mais simples, mais rápida e mais eficaz. Como se compreende, quando os pais, na ânsia de que elas cresçam mais depressa do que deviam ou esperando que as crianças se adequem a exigências de “agenda” que não são as suas (pensar e aprender exige tempo, tentativas, erros e uma dose generosa de experimentação “autodidática”), não respeitam os seus ritmos, não enquadram os seus ímpetos, não lhes dão um perímetro de segurança esclarecido para aquilo que podem e não podem fazer. Para além do mais, trazem-nas para burburinhos ou conflitos que as magoam – para além de as baralharem ao colocarem “legendas” um bocadinho “ao lado”, considerando aquilo que elas já perceberam – e contribuem muito (contra a sua vontade, sem dúvida) para os maus resultados escolares das crianças. Porquê? Porque a escola é uma espécie de enciclopédia que vai multiplicar os conhecimentos que a própria família já de si gerou. E chegar lá com “as ideias fora do lugar” é meio caminho andado para que tudo o que podia ser simples se transforme numa “confusão”

Para os bons resultados escolares duma criança faz, também, diferença que ela tenha uma educação infantil sensata, pouco apressada e pouco dada à vaidade de conhecimentos que se repetem sem que se perceba como eles funcionam. É claro que se a ausência de educação infantil pode trazer limitações cognitivas a uma criança, uma má-educação infantil não deixará de lhe trazer constrangimentos. Sendo curial que se pergunte o que poderá ser uma má-educação infantil? Aquela que coloca os desempenhos de curto prazo à frente de aprendizagens centradas em áreas de conhecimento que contribuam para que os recursos das crianças se transformem, progressivamente, em aptidões para ligarem palavra, aptidões abstratas, sentimentos e expressividade, autonomia e solidariedade, capacidade lúdica e tolerância à frustração. Escusado será dizer que sobrepor conhecimentos às operações mentais que as crianças ainda não agilizaram, e submetê-las aos ritmos e aos objetivos dos pais e dos colégios (independentemente das distorções de médio e longo prazos que isso traz à versatilidade da sua aprendizagem) é, a médio prazo, amiga das más notas.

Depois, há as escolas, propriamente ditas. E aqui tudo se complica mais. Porque embora haja uma política educativa, ela parece carecer, em muitas circunstâncias, de robustez, de coerência e, sobretudo, de uma ideia do que se pretende para a aprendizagem dos alunos. Não se trata de fazer “cruzadas” contra os critérios de avaliação (nem isso seria sensato), nem de eleger as provas de aferição e os exames como “alvos a abater”.

Mas trata-se de não nos ficarmos, unicamente, na discussão sobre esses aspetos quando se trata de transformar a educação.

Sem perguntarmos o que queremos em cada momento formativo, de ponderarmos se aquilo que se exige das crianças terá em termos de objetivos, de forma e de conteúdos, a metodologia correta (que se irá refletir “no fim da linha”). Como se já não bastasse a ideia de que um pacto de regime acerca da educação nunca ter merecido uma oportunidade política ser inquietante, a construção das turmas, o casamento das disciplinas, a ligação que elas não têm (muitas vezes) com a vida das crianças, ou a interseção entre o lúdico, o expressivo e o aprendido que não se estimula faz com que se torne fácil que a escola estimule as más notas.

E, finalmente, há os professores. Que são preciosos, claro, mas que nem sempre têm a formação indispensável, os recursos exigíveis, a retaguarda de técnicos que os apoiem e protejam, ou os conhecimentos tão agilizados dentro de si que transformem um programa numa tarefa apetitosa para todos os alunos.

E que têm vida própria mas que nem sempre são acolhidos por uma escola com o carinho e o respeito que a sua tarefa exige.

E que têm com o ensino uma paixão quase difícil de se entender mas, ao mesmo tempo, a vão sentindo a burocratizar-se todos os dias, mesmo quando têm diante de si turmas difíceis e exigentes e pais que os desconsideram, por vezes, mais do que deviam. Isto é, nem sempre os professores são – ao contrário do que, seguramente, seria o seu anseio – os melhores amigos das boas notas.

É fácil, portanto, uma criança “tirar” más notas! Porque há sempre um ou vários destes incidentes que se emaranham, num momento qualquer, no seu percurso educativo. Por mais que todas as crianças sejam, de forma ardente e continuada, as melhores amigas dos bons resultados. Tanto assim é que, sempre que eles não surgem, e os pais, os professores, os explicadores e os avós se unem no sentido de as ajudar a pensar — todos de forma diferente a congeminar sobre uma mesma disciplina –, se os maus resultados perduram as crianças baixam os braços. Ou ficam, aparentemente, “burras” de tanto terem medo de não saber, que erram diante de problemas que elas, efetivamente, dominam. Ou desistem e desinvestem, que é uma forma de terem a ilusão de saírem vitoriosas dum confronto onde, geralmente, acabam a perder. Ou “deixam-se andar”, parecendo preguiçosas (ou numa versão mais urbana: parecendo desmotivadas), que é uma forma de desistirem antes de declararem qualquer desistência. Ou foram acumulando “défices” de conhecimentos ou de raciocínio a algumas áreas e como a aprendizagem é um longo puzzle chega a uma altura e não se torna possível contornar por mais tempo essas dificuldades. Ou “encasquetam” que não são aptas para algumas disciplinas por mais que sejam muitíssimo capazes noutras, como se fosse possível ser inteligente e “burro” ao mesmo tempo. Ou estão a viver uma relação difícil com um professor ou com a escola e tudo se complica. Não se pense, no entanto, que as crianças são, unicamente, “vítimas”. Não são. Mas não serão, seguramente, as únicas responsáveis pelos seus maus resultados escolares. Só que, a existirem más notas, elas são, unicamente, suas. Quase todos – pais e professores, à cabeça — reagem como se se sentissem um bocadinho traídos por cada negativa manifestando, até, alguma estranheza pelos maus resultados e castigando-as a elas, unicamente. Como se as notas duma criança não representassem um percurso dum longo trabalho de equipa onde elas não mandam tanto como as suas notas fazem parecer.

Qual será, então, a vantagem de descobrirmos parcerias em cada uma das suas notas? Não tanto o de nos sentirmos levados a estudarmos com elas ou estudarmos por elas, mas percebermos que nem sempre ajudamos as crianças a aprender a aprender. Apesar de isso ser o que elas mais querem e aquilo para o que estão, inequivocamente, mais capacitadas. Terão elas, porventura, mais dificuldades de aprender do que os adultos que as ensinam? Não! Seguramente. Sendo assim, trata-se de aprendermos com erros, percebermos aquilo que estará a gerar as nossas dificuldades e, todos juntos, passarmos das necessidades educativas especiais ao sucesso (que será, ele também, sempre o resultado dum trabalho de equipa).

Em resumo: uma nota negativa existe porque os pais foram complicando a relação com a escola ao contrário das suas genuínas intenções. Porque o “sistema” precisaria dum plano individual de recuperação para deixar de querer positivas sem olhar a meios, em vez de perceber que uma negativa (ou muitas negativas, a determinadas áreas de aprendizagem, por exemplo) são interpelações que o colocam, verticalmente, em causa. Porque as escolas foram insistindo, teimosamente, em normalizar crianças quando as deviam singularizar. E porque alguns professores vão tendo muitas dificuldades para ensinar e para tornarem claros e apelativos, para todos, os conhecimentos que pretendiam partilhar. No final da cadeia, as crianças só não têm mais sucesso porque –às vezes, por azar – foram tendo pais, escolas e professores que, mal começaram a desenhar-se as primeiras dificuldades escolares, lhes atribuíram a elas – e, sobretudo, a elas – “a parte de leão” dessa má notícia. Quando, na verdade, cada “negativa” pressupõe várias “negativas”. Sendo assim, porque é que os menos responsáveis pelas “negativas” são repreendidos, advertidos e castigados e os outros todos… não?”

 

 

 

 

Vai nascer… já nasceu! E agora, o que é que eu faço? na Biblioteca dos Coruchéus

Outubro 19, 2016 às 10:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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biblio

Entrada gratuita mediante inscrição prévia numa das BLX.

mais informações:

http://blx.cm-lisboa.pt/gca/?id=379

Mãe, sempre ela…

Agosto 30, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mário Cordeiro publicado no dia 24 de agosto de 2016 no site http://www.paisefilhos.pt/

pais filhos

Durante toda a vida formamos com os nossos pais um triângulo, psicologicamente muito forte, que resiste a praticamente todas as intempéries. Podem acontecer separações, divórcios, até mortes, mas a presença da família parental psicológica é quase perene. São raros os casos em que não temos, dentro de nós, ambos os progenitores – inclusivamente nos casos em que há maus tratos ou rejeição das crianças, estas mantêm uma ligação psicológica muito forte, além do que é verbalizado, com os pais.

E se com três letrinhas apenas se escreve a palavra pai, também a palavra avó, tio ou outras se escrevem assim, como não, sim, ou… mãe.

As mães são mães. Sempre. E é quem nos ocorre quando algo não está bem, quando nos apercebemos do perigo. É, dizem, a última palavra que alguém pronuncia antes de morrer.

As mães geraram-nos e cuidaram de nós, deram-nos mimo e afeto – e é para dentro da barriga delas que queremos regressar, sempre que nos sentimos tristes, desconfortáveis ou em risco, doentes ou com medo. Se estiver frio, deitamo-nos enroscados. Se alguém nos ameaçar, encolhemo-nos. Em situações de graves carências alimentares ou afetivas, voltamos à forma de girino. A posição fetal poderá não passar de uma ilusão de segurança, mas tão forte que funciona na nossa mente, pelo menos o suficiente para nos esquecermos do resto, do que nos ameaça.

As mães são calor, são fortes e são segurança. Estudos recentes revelam que os mamíferos precisam de ver a mãe, nos primeiros anos de vida, como farol de securização. Mal nascem deveriam ser postos a mamar, abraçados pela mãe mas tantas maternidades recusam à tríade esta opção, sem qualquer razão científica que o justifique. Nunca é demais relembrar: os ‘assaltos à mão armada’ que todos os dias se dão nas salas de parto, contrariando expectativas de mães, pais e bebés, que nem têm oportunidade de, nesse momento transcendente, tocar-se, cheirar-se, ver-se. O senhor ministro da Saúde está a milhas deste facto, certamente, e deve achar que isto são maluqueiras de um pediatra, mas é pena que tudo continue na mesma que as leis e o Estado, nisso e em tanta outra coisa, não compreendam o que a Ciência mostra, ao analisar os comportamentos humanos, designadamente os nossos próprios e das nossas crias.

 O DESEMPENHO DAS MULHERES

Na sociedade portuguesa, até há bem pouco tempo, era esperado de uns e outros, homens e mulheres, o desempenho de papéis marcadamente diferentes. Simplificando, às mulheres competia genericamente cuidar dos filhos e da casa e aos homens sair para trabalhar e ganhar dinheiro. Era esperado, das mulheres, que fossem gentis e submissas, enquanto a dureza e a ambição ficava para os homens. Apesar de não ter sido há muitos anos que se deu a viragem, esses tempos já parecem felizmente longínquos e espera-se que nunca mais regressem. Mas também não podemos considerar a tarefa acabada.

A bem dizer, não é verdade que antes das sociedades urbanas e do pós-Guerra as mulheres só estivessem a olhar para os bebés. Nada de mais falso. Além de trabalharem (em meio rural, desde amanhar fazendas, apanhar frutos ou dar de comer à criação e ao gado), faziam a lida da casa, tinham vida social (a ‘intriga’, com o seu papel fundamental, era garantida pelas mulheres), iam à venda todos os dias (não havia frigoríficos nem métodos de armazenagem que não o sal) e dedicavam-se a artes e ofícios (bordar, pintar, etc).

A diferença é a escala e o modo com que se faz o mesmo, mas também não se imprimem livros como na era de Gutemberg, com a mais-valia de as mulheres se preocuparem com a segurança das crianças, com a sua saúde e com a prevenção. E com o acréscimo de lhes darem mimo, afeto, brincadeira e educação.

Se as mulheres não se devem fazer de vítimas (dos homens, geralmente) como algumas feministas difundem, também não devem assumir culpas que não são suas, nem deixar que os arquétipos mais devastadores da moral judaico-cristã – a auto-flagelação psicológica – tome conta delas. São vencedoras. Felizmente. Mas com os homens, na mesma caminhada, e não contra os homens.

 DEPOIS DO PRIMEIRO ANO

Após os nove meses de idade, há uma nítida sensação de que os filhos fogem por entre os dedos das mães.

O surto de desenvolvimento que começa nessa idade, e que se prolonga pelo menos até ao ano e meio, faz-se no sentido da autonomia, embora com o correspondente contrapeso da regressão. No primeiro componente é o pai o principal motor, no segundo a mãe.

O instinto maternal, que não desapareceu só porque os estilos de vida mudaram, quanto muito amansou-se, leva a que as mulheres sejam ‘programadas’ para terem muitos filhos, mesmo que não os tenham ou decidam não os ter. Mas há que diferenciar o que é genético e antropológico, do que é social. O que é emocional do que é racional.

Ao longo de centenas de milhar de anos, quando a criança começava a crescer, no sentido dessa explosão autonómica, devidamente puxado pelo pai, a mãe já estaria à espera de outro bebé ou pelo menos a programá-lo para breve, e assim seria até ter uma dezena de filhos e ver totalmente preenchido o seu sentimento de maternidade, passando então ao desejo de ser avó.

Isto não acontece hoje, pelas múltiplas razões conhecidas, o que leva a que as avós muitas vezes vejam nos netos os filhos que já não tiveram, e as mães sintam que este crescimento dos filhos e a sua “fuga” dói. E dói muito. E às vezes a vontade de os manter pequeninos é grande – como provam todas as crianças com mais de um ano que mamam durante a noite ou quando fazem uma birra. Estes lutos são difíceis, como qualquer luto. Sofre-se. Dói. Mas não se lhes pode fugir, se se quer atingir a tranquilidade.

“Eu acho que já saí da vida dela!” – a frase foi proferida como se estivesse no teatro. Só que não estávamos, mas sim no consultório.

“Da vida de quem?” – parecia-me um diálogo de telenovela.

“Da minha filha, da Gina.”

“Porque é que sente isso?”

“Porque no fundo perguntei a mim própria: se eu desaparecesse, ela tinha tudo o que precisava… já deixou de ser bebé…”

Aquela mãe estava órfã. Órfã de filha, se assim se pode dizer.

Mas não tinha razão para ser tão dura com ela própria. Em primeiro lugar, porque era normal sentir a ausência de um bebé que pudesse considerar como completamente dependente, quase como se estivesse dentro da sua barriga. Depois, porque esse processo não tinha a ver com o crescimento e com a necessidade que a Gina tinha de ter sempre mãe, não apenas como lugar de refúgio, mas também como fator de crescimento, segurança e indutora da autonomia.

“O seu bebé há-de ser sempre o seu bebé, mesmo quando tiver quarenta anos de idade.”  Há que ultrapassar esse momento através, exatamente, de constatar o bom trabalho que já tinha feito e o que a Gina ainda precisava dela. “Se está a carpir as suas mágoas é que depois não tem disponibilidade para ela. E ela precisa muito de si… todos os filhos precisam das mães.”

Passado um tempo já tinha conseguido reposicionar-se, gracejando: “quando tenho muitas saudades dela em bebé vou ver as fotografias que tenho no computador.”

 MÃES E MAMÃS…

Se uma criança passa mais tempo com outra mulher, será que há razões para as mães temerem ser colocadas em segundo lugar e os afeos se dirigirem às pessoas que passam com elas praticamente todo o tempo em que estão acordadas (pelo menos nos dias úteis)?

Algumas crianças, no início do segundo ano de vida, podem chamar “mamã” às educadoras, amas ou até às avós. Mas uma coisa é a mãe, outra a mamã. Se a primeira é a verdadeira, a única, já a segunda tem outros significados para a criança, como mulher, prestadora de cuidados essenciais, amiga e companheira de brincadeiras. Mas as mães que não se preocupem porque mãe há só uma, como diz o ditado, embora mamãs possam passar pela vida da criança sem que isso as faça esquecer a sua real progenitora.

“Corre!” – gritou o pai da Inês, de dois anos e meio, mal chegaram ao grande relvado do parque onde tinham ido passear.

“Cuidado!” – gritou simultânea e instintivamente a mãe.

Incongruência? Dissensão familiar? Não, pelo contrário, A complementaridade que exige que exista, para a criança, um pai e uma mãe.

O que ficará na sua cabeça é a expressão “Corre… com cuidado”, ou seja, exercita as tuas capacidades, gere o teu risco mas de forma controlada e cautelosa.

Pais e mães são necessários.

Abaixo os juízes, os pais e as mães que recusam, em caso de separação, e sem razão justificável, esta conjunção astral. São maus profissionais, são maus pais, são más mães. E não vou estar com papas na língua ou com rodeios num assunto que é do superior interesse da criança.

 HOMENAGEM ÀS MÃES

Na consulta dos dois meses, costumo dizer aos parceiros das mães que amamentam, que, quando o bebé tiver dois meses e dois dias, terão que dar um presente à mãe, pela ‘quinhentésima’ mamada. A sete por dia, é o que dá. E, em geral, os pais assumem o ónus, riem-se e dizem: “prometido!”

As mães são realmente formidáveis. Geram, amamentam, cuidam, sossegam, cantam com as palavras, securizam. E trabalham, vão às compras e sabem o que é o melhor para a família.

Na sociedade romana, a mãe era a encarregada de manter a chama da lareira da casa acesa, com a lenha que o pai trazia diariamente. O deus Lar era o protetor das casas, e é daí que vem a palavra lareira, e também a designação das habitações como “fogos”. A lareira ficava no centro da habitação, e aquecia os adultos e crianças residentes, permitindo também cozinhar e reunir as pessoas à sua volta.

O papel da mãe no lar, lugar eminentemente regressivo e apaziguador, securizante e calmante, não deve ser subestimado, nem denegrido porque algumas mulheres consideram que o lar é sinónimo de “tachos e panelas”, opressão machista e outras coisas mais. Para a criança, a mãe significa psicologicamente a regressão (mesmo que esse puzzle seja composto pela própria mãe e por muitas mais peças) e o pai a ousadia.

Por outro lado, as mães têm também uma simbologia de organização, calma e pensamento a prazo, ao contrário dos pais, mais ousados, exteriorizantes mas imediatistas e tantas vezes imaturos e inconsequentes (notem, sem que isto seja necessariamente mau, se complementado pela influência das mães). O triângulo funciona se os vértices forem equilibrados e a influência dos pólos Mãe e Pai eficiente e adequada.

Mas hoje, que falamos de mães, prestemos homenagens a elas. Recordo a minha, com saudade. Mesmo cá já não estando, está. Como aquela que dá um beijo, aconchega os cobertores e diz: “dorme bem, meu querido!” Não está, mas está. Sempre!

 

 

Mãe, ou melhor amiga?

Julho 21, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da Pais & Filhos de 23 de junho de 2016.

pais&filhos

Escrito por Rosa Cordeiro

A cumplicidade entre mães e filhos é natural. Mas é importante que a mãe não se esqueça do seu papel: ela é a mãe e não a melhor amiga. Por mais tentador que seja, ter uma relação de melhor amiga com os filhos não é moderno ou “cool”, é tóxico.

Enquanto a filha Sara, de 17 anos, toma duche, a mãe Alexandra coloca a roupa dela em cima da cama para ela vestir. E às vezes, quando o filho mais novo tem torneios ao fim-de-semana, que o obrigam a acordar às sete num sábado, ela levanta-se um bocadinho mais cedo e faz-lhe panquecas com mel, o seu pequeno-almoço preferido, para amenizar um pouco o golpe. “Tenho amigas que dizem que eu sou maluca, mas são apenas miminhos, pequenos gestos de amor de mãe. Curiosamente, algumas dessas amigas que me chamam maluca por causa destes gestos, são aquelas que deixam a filha de 13 anos passar a noite numa festa – ‘porque os amigos vão todos, ela nunca me perdoaria se ficasse de fora’ – e o filho de 16 e os amigos fumarem ganzas no quintal lá de casa – ‘porque ele assim sabe que pode contar comigo, que não o vou julgar, e os amigos acham-me a mãe mais cool de sempre’. Enfim…”, desabafa.

No ano passado, um estudo realizado pela agência norte-americana The Family Room LLC revelou uma nova dinâmica presente nas famílias da geração Y: pais que desejam ser os melhores amigos dos seus filhos. De acordo com esta pesquisa, 54 por cento dos pais dessa geração, que hoje têm entre 25 e 35 anos, descrevem os seus filhos como os seus “melhores amigos”. Entre os pais da geração anterior, a chamada geração X, que estão hoje na faixa etária dos 36 aos 50 anos, esse número cai para 38 por cento. Sinais dos tempos? O psicólogo Rui Guedes acha que sim: “A forma dos pais se relacionarem com os filhos está a mudar há décadas. Porque, enquanto sociedade, ainda estamos à procura do modelo mais saudável para as famílias. Passámos por uma fase de autoritarismo exacerbado dos pais, depois veio uma fase de liberdade desmedida, e agora estamos à procura do meio-termo. Tudo isto é natural, desde que os papéis não se confundam, o que nem sempre acontece.”

Cada macaco no seu galho

A cumplicidade natural entre mães e filhos (“claro que também há pais que querem ser os melhores amigos dos filhos”, afirma o psicólogo, “mas, seja pela relação mais visceral com as mães, seja porque as mães deixam de trabalhar para estar com os filhos, centrando-se completamente neles, ou porque trabalham demasiado e sentem-se culpadas por isso, seja porque em caso de divórcio os filhos ficam, normalmente, com as mães, a verdade é que os casos que nos chegam ao consultório são sobretudo entre mães e filhos”) às vezes ganha contornos pouco saudáveis, com as mães a fazerem de tudo para se tornarem nas melhores amigas dos filhos. Alexandra reconhece algumas das suas amigas e conhecidas neste papel, mas não enfia a carapuça. “Tenho alguma dificuldade em perceber essas mães que dizem com vaidade ser as melhores amigas dos filhos”, diz. “E não é por eu ser antiquada ou não ter uma mente aberta. É porque os meus filhos têm imensos amigos, e não precisam de mim para engrossar essas fileiras. Eu sou amiga dos meus filhos, mas não sou ‘amiguinha’ dos meus filhos. Procuro estabelecer com eles uma relação de confiança, respeito, companheirismo, intimidade e muito amor, mas não quero ter com eles a mesma relação que têm com os amigos da idade deles. Eu ofereço-lhes algo inestimável, que nenhum amigo, por mais leal, lhes dá: uma clara definição de limites, um amor duro a que só uma mãe se atreve. E digo ‘atreve’ no verdadeiro sentido da palavra, porque dizer ao meu intrépido adolescente que não pode ir à festa de aniversário do Carlos, onde sei que vai haver bebida a rodos e zero supervisão, ou à minha Sara que não pode sair de casa com aquele top que não deixa nada à imaginação, é um desafio! Os meus filhos são as minhas crianças, não são os meus amiguinhos. Os amigos deles não lhes lavam a roupa suja, não vão a três supermercados diferentes só para encontrar o seu iogurte preferido e não se certificam que ainda têm cuecas que lhes sirvam. E sei, até pela experiência com a minha própria mãe, que esta minha determinação em ser, efetivamente, mãe, terá recompensas na idade adulta dos meus filhos, estabelecendo laços mais fortes entre nós.”

 A importância dos limites

O que faz, então, com que tantas mães sofram desta síndrome da melhor amiga? A psicóloga Carolina Birr diz-nos que, normalmente, há sempre uma história para trás. “É uma relação simbiótica, em que há uma dissolução da hierarquia, e que, normalmente, é um padrão repetido. Ou seja, uma mãe que estabelece este tipo de relação com a filha teve uma mãe que fez isso com ela, ou então exatamente o oposto, e teve uma mãe demasiado rígida, que não deixava espaço para a intimidade.”

Rui Guedes aprofunda esta questão do oposto: “Muitas mães educam os filhos da forma que gostariam que os seus pais as tivessem educado. A ideia até parece interessante, mas não funciona, porque esta forma de educar fazendo o contrário do que nos fizeram a nós é reativa, e, como tudo o que é reativo, é pouco saudável e traz sempre consequências que não conseguimos prever.”

 Amizade responsável

Nada disto significa que mães e filhos não possam – e não devam – ser amigos. Mas as mães têm de ser “amigas responsáveis” e não BFF (Best Friends Forever). “Mães e filhos estão preparados geneticamente para se amarem e confiarem uns nos outros. Mas o papel das mães não é apenas emocional, mas também funcional, e educar faz parte das suas funções”, alerta o psicólogo. “A questão é que educar passa, entre outras coisas, por definir limites, e esse papel torna-se mais importante à medida que a criança cresce, e não permite que as mães sejam as melhores amigas dos seus filhos. Quando dizemos que queremos ser os melhores amigos dos nossos filhos, estamos a dizer que queremos ser seus confidentes e que eles sejam os nossos, e isso é um risco muito grande, porque a criança não está preparada emocional, moral e intelectualmente para esse papel. Além disso, ser o melhor amigo significa participar nas tomadas de decisões, mas mãe e filho não podem ser codecisores. Os mais novos podem participar dando a sua opinião, mas as decisões têm de ser tomadas pelo adulto.”

Quando a mãe deixa de ser cuidadora e passa a ser a melhor amiga, impõe-se a pergunta: quem está a cumprir o seu papel de mãe? E esse é um grande perigo, pois a criança e o jovem precisam de orientação e de segurança, além de alguém que apenas os ouça e os aconselhe, como um amigo faria. As mães que querem ser as melhores amigas dos filhos fazem-no para não os desapontar nem terem de lidar com o conflito. Por isso têm sérias dificuldades em dizer não e em estabelecerem limites. O que raramente fazem é pensar nas consequências imprevisíveis deste tipo de atitudes: por exemplo, uma criança que nunca ouve um “não” vai ter sérias dificuldades no futuro, esperando que o mundo inteiro e a vida lhe digam sempre “sim”. Carolina Birr explica que “esta relação simbiótica entre mãe e filho faz com que não haja uma hierarquia, um limite, um respeito pelo outro, e no futuro este filho terá dificuldades em lidar com o espaço e com os sentimentos do outro, para além de não perceber a autoridade e a hierarquia”.

Esta educação “fofinha”, de “amiguinhos”, tem muitos perigos: não permite à criança nem ao adolescente desenvolverem a autoconfiança, a independência, e, sobretudo, a responsabilidade, para poderem tornar-se adultos completos. A questão é que, para os filhos se transformarem em adultos saudáveis, os pais não devem nunca hesitar na demarcação dos limites entre eles e os filhos. “Não existe nenhum estilo de educação saudável em que os pais se demitam da sua autoridade”, afirma, categórico, o psicólogo Rui Guedes.

Amigos são, por definição, pessoas que partilham as mesmas ideias e a mesma visão de vida. Mas as crianças – e mesmo os adolescentes – não partilham das mesmas ideias e da mesma visão que a mãe, simplesmente porque não têm a mesma maturidade. E, se mais razões fossem precisas, Rui Guedes deixa uma última: “A mãe não pode ser amiga porque ela não desempenha uma função que se possa escolher, tal como se escolhem os amigos”.

Portanto, aposte numa educação democrática, baseada na dignidade e no respeito mútuos, mas lembre-se que mesmo em democracia existe a necessidade de um líder. A criança precisa de autoridade, de ser confrontada, de lhe serem negadas coisas, para desenvolver autocontrolo. E precisa desse autocontrolo para se sentir segura, confortável, saudável e capaz de enfrentar e lidar com os desafios da sua vida atual e futura, gerindo lutas e desafios, frustrações e desapontamentos. Amar a criança incondicionalmente não é a mesma coisa que fazer tudo por ela. Por isso, seja muito mais que a melhor amiga. Seja mãe.

Relações de poder

Este tipo de relação entre mãe e filho é sempre uma relação de poder, em que um seduz e o outro se deixa seduzir. “E o poder tanto pode estar na mãe como no filho”, afirma a psicóloga Carolina Birr. “O objetivo é o mesmo, o de ser a melhor amiga, de não deixar o filho ‘escapar’, tornar-se independente. Há casos em que os filhos seduzem as mães neste sentido, garantindo assim que a mãe se anula enquanto figura de autoridade, satisfazendo todos os seus caprichos. E há outros casos em que é a mãe a sedutora, dominando os filhos através dessa sedução da melhor amiga, mantendo uma relação de dependência face a si, uma relação absorvente, em que custa respirar. Isto acontece muito na pré-adolescência e na adolescência, que são as alturas por excelência da independência, da individualização. Muitas vezes as mães dizem ‘o meu filho está insuportável, porquê?’ Porque ele quer separar-se e a mãe não aceita.”

De facto, quando a criança é muito pequena, a mãe serve sobretudo como protetora, que a ajuda e ama. No entanto, à medida que a criança cresce e entra na adolescência, esta relação muda, pois o objetivo da adolescência é a individualização. Os adolescentes precisam de se separar dos adultos para terem privacidade, ganharem liberdade para poderem exercer o seu poder pessoal, a sua autonomia, examinarem novos pontos de vista e até para poderem fazer escolhas que possam resultar em erros. É importante que os pais percebam que não se trata de uma traição nem de um abandono, mas sim de algo imprescindível no seu crescimento: “É fundamental haver este corte com a figura materna, para que depois o adulto consiga funcionar”, diz Carolina Birr.

A pergunta que as mães têm de se fazer, quando acham que estão a cair neste ciclo é: estou a colocar as minhas necessidades e desejos à frente das necessidades e desejos do meu filho? Se a resposta for sim, está na hora de deixar a criança ou o jovem pensar e agir por si próprio. Lembre-se, as melhores orientações vêm das melhores perguntas, e não das melhores respostas.

 

 

Mãe, ou melhor amiga?

Julho 6, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Mother with her preteen daughter at home

 

 

A cumplicidade entre mães e filhos é natural. Mas é importante que a mãe não se esqueça do seu papel: ela é a mãe e não a melhor amiga. Por mais tentador que seja, ter uma relação de melhor amiga com os filhos não é moderno ou “cool”, é tóxico.
Enquanto a filha Sara, de 17 anos, toma duche, a mãe Alexandra coloca a roupa dela em cima da cama para ela vestir. E às vezes, quando o filho mais novo tem torneios ao fim-de-semana, que o obrigam a acordar às sete num sábado, ela levanta-se um bocadinho mais cedo e faz-lhe panquecas com mel, o seu pequeno-almoço preferido, para amenizar um pouco o golpe. “Tenho amigas que dizem que eu sou maluca, mas são apenas miminhos, pequenos gestos de amor de mãe. Curiosamente, algumas dessas amigas que me chamam maluca por causa destes gestos, são aquelas que deixam a filha de 13 anos passar a noite numa festa – ‘porque os amigos vão todos, ela nunca me perdoaria se ficasse de fora’ – e o filho de 16 e os amigos fumarem ganzas no quintal lá de casa – ‘porque ele assim sabe que pode contar comigo, que não o vou julgar, e os amigos acham-me a mãe mais cool de sempre’. Enfim…”, desabafa.
No ano passado, um estudo realizado pela agência norte-americana The Family Room LLC revelou uma nova dinâmica presente nas famílias da geração Y: pais que desejam ser os melhores amigos dos seus filhos. De acordo com esta pesquisa, 54 por cento dos pais dessa geração, que hoje têm entre 25 e 35 anos, descrevem os seus filhos como os seus “melhores amigos”. Entre os pais da geração anterior, a chamada geração X, que estão hoje na faixa etária dos 36 aos 50 anos, esse número cai para 38 por cento. Sinais dos tempos? O psicólogo Rui Guedes acha que sim: “A forma dos pais se relacionarem com os filhos está a mudar há décadas. Porque, enquanto sociedade, ainda estamos à procura do modelo mais saudável para as famílias. Passámos por uma fase de autoritarismo exacerbado dos pais, depois veio uma fase de liberdade desmedida, e agora estamos à procura do meio-termo. Tudo isto é natural, desde que os papéis não se confundam, o que nem sempre acontece.”

 

Cada macaco no seu galho
A cumplicidade natural entre mães e filhos (“claro que também há pais que querem ser os melhores amigos dos filhos”, afirma o psicólogo, “mas, seja pela relação mais visceral com as mães, seja porque as mães deixam de trabalhar para estar com os filhos, centrando-se completamente neles, ou porque trabalham demasiado e sentem-se culpadas por isso, seja porque em caso de divórcio os filhos ficam, normalmente, com as mães, a verdade é que os casos que nos chegam ao consultório são sobretudo entre mães e filhos”) às vezes ganha contornos pouco saudáveis, com as mães a fazerem de tudo para se tornarem nas melhores amigas dos filhos. Alexandra reconhece algumas das suas amigas e conhecidas neste papel, mas não enfia a carapuça. “Tenho alguma dificuldade em perceber essas mães que dizem com vaidade ser as melhores amigas dos filhos”, diz. “E não é por eu ser antiquada ou não ter uma mente aberta. É porque os meus filhos têm imensos amigos, e não precisam de mim para engrossar essas fileiras. Eu sou amiga dos meus filhos, mas não sou ‘amiguinha’ dos meus filhos. Procuro estabelecer com eles uma relação de confiança, respeito, companheirismo, intimidade e muito amor, mas não quero ter com eles a mesma relação que têm com os amigos da idade deles. Eu ofereço-lhes algo inestimável, que nenhum amigo, por mais leal, lhes dá: uma clara definição de limites, um amor duro a que só uma mãe se atreve. E digo ‘atreve’ no verdadeiro sentido da palavra, porque dizer ao meu intrépido adolescente que não pode ir à festa de aniversário do Carlos, onde sei que vai haver bebida a rodos e zero supervisão, ou à minha Sara que não pode sair de casa com aquele top que não deixa nada à imaginação, é um desafio! Os meus filhos são as minhas crianças, não são os meus amiguinhos. Os amigos deles não lhes lavam a roupa suja, não vão a três supermercados diferentes só para encontrar o seu iogurte preferido e não se certificam que ainda têm cuecas que lhes sirvam. E sei, até pela experiência com a minha própria mãe, que esta minha determinação em ser, efetivamente, mãe, terá recompensas na idade adulta dos meus filhos, estabelecendo laços mais fortes entre nós.”

 

A importância dos limites
O que faz, então, com que tantas mães sofram desta síndrome da melhor amiga? A psicóloga Carolina Birr diz-nos que, normalmente, há sempre uma história para trás. “É uma relação simbiótica, em que há uma dissolução da hierarquia, e que, normalmente, é um padrão repetido. Ou seja, uma mãe que estabelece este tipo de relação com a filha teve uma mãe que fez isso com ela, ou então exatamente o oposto, e teve uma mãe demasiado rígida, que não deixava espaço para a intimidade.”
Rui Guedes aprofunda esta questão do oposto: “Muitas mães educam os filhos da forma que gostariam que os seus pais as tivessem educado. A ideia até parece interessante, mas não funciona, porque esta forma de educar fazendo o contrário do que nos fizeram a nós é reativa, e, como tudo o que é reativo, é pouco saudável e traz sempre consequências que não conseguimos prever.”

 

Amizade responsável
Nada disto significa que mães e filhos não possam – e não devam – ser amigos. Mas as mães têm de ser “amigas responsáveis” e não BFF (Best Friends Forever). “Mães e filhos estão preparados geneticamente para se amarem e confiarem uns nos outros. Mas o papel das mães não é apenas emocional, mas também funcional, e educar faz parte das suas funções”, alerta o psicólogo. “A questão é que educar passa, entre outras coisas, por definir limites, e esse papel torna-se mais importante à medida que a criança cresce, e não permite que as mães sejam as melhores amigas dos seus filhos. Quando dizemos que queremos ser os melhores amigos dos nossos filhos, estamos a dizer que queremos ser seus confidentes e que eles sejam os nossos, e isso é um risco muito grande, porque a criança não está preparada emocional, moral e intelectualmente para esse papel. Além disso, ser o melhor amigo significa participar nas tomadas de decisões, mas mãe e filho não podem ser codecisores. Os mais novos podem participar dando a sua opinião, mas as decisões têm de ser tomadas pelo adulto.”
Quando a mãe deixa de ser cuidadora e passa a ser a melhor amiga, impõe-se a pergunta: quem está a cumprir o seu papel de mãe? E esse é um grande perigo, pois a criança e o jovem precisam de orientação e de segurança, além de alguém que apenas os ouça e os aconselhe, como um amigo faria. As mães que querem ser as melhores amigas dos filhos fazem-no para não os desapontar nem terem de lidar com o conflito. Por isso têm sérias dificuldades em dizer não e em estabelecerem limites. O que raramente fazem é pensar nas consequências imprevisíveis deste tipo de atitudes: por exemplo, uma criança que nunca ouve um “não” vai ter sérias dificuldades no futuro, esperando que o mundo inteiro e a vida lhe digam sempre “sim”. Carolina Birr explica que “esta relação simbiótica entre mãe e filho faz com que não haja uma hierarquia, um limite, um respeito pelo outro, e no futuro este filho terá dificuldades em lidar com o espaço e com os sentimentos do outro, para além de não perceber a autoridade e a hierarquia”.
Esta educação “fofinha”, de “amiguinhos”, tem muitos perigos: não permite à criança nem ao adolescente desenvolverem a autoconfiança, a independência, e, sobretudo, a responsabilidade, para poderem tornar-se adultos completos. A questão é que, para os filhos se transformarem em adultos saudáveis, os pais não devem nunca hesitar na demarcação dos limites entre eles e os filhos. “Não existe nenhum estilo de educação saudável em que os pais se demitam da sua autoridade”, afirma, categórico, o psicólogo Rui Guedes.
Amigos são, por definição, pessoas que partilham as mesmas ideias e a mesma visão de vida. Mas as crianças – e mesmo os adolescentes – não partilham das mesmas ideias e da mesma visão que a mãe, simplesmente porque não têm a mesma maturidade. E, se mais razões fossem precisas, Rui Guedes deixa uma última: “A mãe não pode ser amiga porque ela não desempenha uma função que se possa escolher, tal como se escolhem os amigos”.
Portanto, aposte numa educação democrática, baseada na dignidade e no respeito mútuos, mas lembre-se que mesmo em democracia existe a necessidade de um líder. A criança precisa de autoridade, de ser confrontada, de lhe serem negadas coisas, para desenvolver autocontrolo. E precisa desse autocontrolo para se sentir segura, confortável, saudável e capaz de enfrentar e lidar com os desafios da sua vida atual e futura, gerindo lutas e desafios, frustrações e desapontamentos. Amar a criança incondicionalmente não é a mesma coisa que fazer tudo por ela. Por isso, seja muito mais que a melhor amiga. Seja mãe.

 

Escrito por Rosa Cordeiro, em 23 Junho de 2016, para a Pais & Filhos

 

13 lições sobre maternidade que o primeiro filho ensina para a mãe

Outubro 7, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://educarparacrescer.abril.com.br de 22 de setembro de 2015.

Reprodução Sex And The City

Elas cometem erros na primeira vez, mas não repetem na segunda, na terceira, na quarta…

Texto Luiza Monteiro, Bebê.com.br

  1. Para ser uma boa mãe, é preciso estar bem por inteira.

Desde a gravidez, a maternidade exige um exercício diário de paciência, confiança, calma… Caso contrário, todas as inseguranças, medos e nervosismos da mãe serão passados, de alguma forma, para o bebê – o que pode prejudicar não só o seu desenvolvimento emocional e social, mas também sua saúde. De acordo com um relatório da Academia Americana de Pediatria, divulgado em 2012, a exposição excessiva da criança a conflitos tende a afetar, entre outras coisas, o seu sistema imunológico, abrindo portas para infecções, por exemplo. Felizmente, muitas mamães aprendem isso com a maturidade e, na segunda gravidez, se fortalecem muito mais!

  1. Não é possível dar conta de tudo.

Não adianta: você não vai conseguir cuidar do bebê, deixar a casa sempre limpa, se dedicar 100% ao trabalho e ainda manter cabelo, pele e unha impecáveis. Pelo menos não dá para fazer tudo isso da melhor forma possível. Daí a importância de estabelecer prioridades e fazer planejamentos. Especialistas indicam que o ideal é criar metas de curto, médio e longo prazo, que incluem desde tarefas do dia a dia até a formação de crianças íntegras.

  1. É normal a criança chorar.

Quando se é mãe de primeira viagem, qualquer lágrima derramada pelo seu filho torna-se um verdadeiro desespero. Depois, você aprende que o choro nada mais é do que a maneira que o bebê tem de manifestar seus desejos, sentimentos e sensações, como cólica, fome e sono.

  1. Palpites alheios nem sempre são bem-vindos.

“Esse menino está muito magro!”, “Nossa, mas você dá esse tipo de comida para o seu filho?”, “Ele deve estar com frio”… Tantas opiniões de avós, amigas e tias deixam qualquer mãe doidinha. Com o segundo filho, não há comentário que seja mais válido do que a sua própria experiência!

  1. Variar o cardápio do bebê é fundamental.

Por mais que essa seja a recomendação do pediatra, muitas mães não aguentam o fato de o filho rejeitar certos alimentos – e até refeições inteiras. E aí, acabam dando apenas o que o bebê gosta. Com isso, aumenta a probabilidade de essa criança se tornar extremamente seletiva para comer. Na segunda experiência como mãe, muitas já sabem: variar o cardápio e as preparações são atitudes fundamentais para que o pequeno seja bom de garfo desde cedo.

  1. A superproteção pode ser prejudicial.

Amor, carinho e proteção são ingredientes essenciais na criação de um filho. Mas, como tudo na vida, é preciso saber dosar! Mães superprotetoras podem acabar criando pessoas inseguras, dependentes e que não têm espaço para desenvolver e mostrar sua personalidade.

7. O bebê não vai usar tantas roupas e sapatos.

É difícil resistir a tantas coisinhas lindas nas vitrines de lojas de bebês. Mas vá com calma! Eles crescem rápido e a chance de não usarem boa parte dos itens do enxoval. Com o segundo filho, dá para aproveitar algumas peças – e, mesmo se não for possível, você já sabe que precisa se controlar!

8. Amamentar não é um bicho de sete cabeças.

É claro que cada filho é diferente um do outro. Às vezes, a amamentação do segundo não é tão tranquila quanto a do primeiro. Mas uma coisa é certa: na segunda experiência como mãe, questões como a melhor posição para dar de mamar e a pega correta não são mais um grande problema.

9. Exagerar na comida durante a gravidez não faz bem.

A fome na gravidez é tanta que fica difícil se controlar. Mas está provado que ganhar muito peso durante a gestação não faz bem nem para a futura mamãe nem para o bebê. Além de facilitar o surgimento de problemas como o diabetes gestacional, estudos mostram que filhos de grávidas obesas estão mais propensos a desenvolver, entre outras coisas, autismo, doenças cardiovasculares e também obesidade.

  1. Crenças populares são verdadeiras balelas.

Beber cerveja preta aumenta a produção de leite materno, azia é sinal de que o bebê é cabeludo, a mudança da lua influencia no parto… São tantas crendices que uma mãe inexperiente pode facilmente acreditar nelas. Mas nada que as vivências da gestação e dos cuidados com o bebê não desmistifiquem por si mesmas.

  1. Tudo tem hora para acontecer durante a gestação.

Por que ainda não estou sentindo enjoos? Quando o bebê deve começar a mexer? Essas são algumas dúvidas que afligem mamães de primeira viagem. Na segunda gestação, essas respostas já estão na ponta da língua!

  1. Cada criança tem seu tempo de desenvolvimento.

Comparar o seu filho com outras crianças é algo que muitas mulheres fazem na primeira vez que são mães. Mas quando novos membros chegam na família, fica claro que isso não está certo – cada indivíduo vai crescer e se desenvolver no seu tempo e à sua maneira.

  1. Na hora de dormir, é importante que a criança tenha o espaço dela.

Nos primeiros meses de vida, muitos pais se preocupam em ver se está tudo bem com o bebê durante a noite e, assim, trazem o pequeno para dormir com eles. O problema é que, não raro, esse hábito se torna um vício e a criança não consegue mais pegar no sono sozinha. Além de isso ser um risco para o bem-estar do neném, o casal também sai perdendo, pois não tem mais tempo nem espaço para momentos a dois.

 

 

 

Para a mãe da criança que estava aos berros na feira do livro da escola

Setembro 6, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://uptokids.pt de 20 de agosto de 2015.

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Vi-te na biblioteca da escola primária onde eu dou aulas, e o teu filho de quatro anos estava a berrar contigo. Estava a gritar, desesperadamente, na tua cara. Foi por isso que eu olhei para ti. Foi por isso que toda a gente olhou para ti. Ele estáva desesperado porque não lhe compraste o novo livro da Lego Star Wars, de 19.99€, que traz os bonecos que ele “precisa, precisa preciiiiiiiiiisa” mesmo de ter.

Está a fazer uma cena enorme. Eu ouvi do outro lado do corredor. Está a gritar e a espernear enquanto se contorce no chão. Ele só chora e grita, e diz que a mãe é má porque não lhe dá o que ele tanto quer. O mundo dele está desmoronar-se, e ele só consegue dizer que és a pior mãe do mundo.

Todas as pessoas à volta já estão a olhar para ti. A empregada está congelada, sem saber como reagir. Toda a gente está a olhar para ver o que vais fazer em relação à sua birra. É uma daquelas birras barulhentas e incomodativas de se assistir.

Vejo as lágrimas a subirem-te aos olhos, mas também vejo a coragem e força estampadas na tua cara. Estás calma e serena, e aparentemente não estás incomodada com a birra do teu filho. Continuas o pagamento na caixa, depois colocas os livros na mala, calmamente dás a mão à tua filha, recolhes o miúdo enquanto grita, e sais biblioteca fora. Ele continua a contorcer-se e a empurrar-te. Acabou de te arranhar na cara, deixando uma grande marca na bochecha, mas continuas a caminhar calmamente.

Conforme andas até ao carro (e eu não posso deixar de seguir-te e observar com admiração as tuas técnicas mágicas de parentalidade) ouvi-o gritar, entre soluços enquanto tentava recuperar o fôlego sem sucesso: “-A MÃE PROMETEU QUE EU PODIA COMPRAR UM LIVRO HOJE!“. Calmamente respondeste: “Eu dei-te 10€ para gastares num livro hoje. Escolheste um livro mais caro. A seguir preferiste passar o teu tempo na feira a chorar e a gritar em vez de procurares um livro que pudesses comprar com o dinheiro que te dei. Tenho muita pena que tenhas feito essa escolha, deve ser muito triste para ti saíres da feira sem nenhum livro hoje.”

Ele, claro, não gostou dessa resposta. Na verdade, ainda gritou e chorou mais alto. Contorceu-se tanto que quase que te caia dos braços. Colocaste-o calmamente no chão com firmeza, mas com amor, agarraste-lhe no pulso para que ele não fugisse. Num tom calmo, paciente e maternal disseste: “querido, eu adoro-te. Eu amo-te muito. Eu sei que agora estás triste, e eu fico triste quando tu estás triste. Vamos entrar no carro e vou dar-te o teu cobertor: faz-te sempre sentires-te melhor.”

Ele responde: “mas, mas, mas…a mãe não comprou o meu livro…” Repetiste o que disseste anteriormente: que estás triste por ele ter escolhido perder o seu tempo a chorar em vez de procurar um livro que custasse 10€.

Depois, em silencio, deste-lhe um grande abraço (ao qual ele resistiu), pegaste-lhe ao colo (apenas para ser novamente arranhada na cara), e sentaste-o na sua cadeirinha no carro. Fechaste a porta e, apoiaste-te inclinada no carro por um momento. Deixaste escapar um suspiro, de frustração, antes de entrar no carro e ir embora.

Hoje, tu não cedeste. Não cedeste em momento algum, e por isso eu quero agradecer-te.

Obrigada por seres uma mãe que estabelece limites para o seu filho. Obrigada por seres uma mãe que não cede ao constrangimento social para apaziguar os desejos do seu filho pequeno que está aos gritos.

Obrigada por escolheres não lhe dar tudo o que ele quer.

Obrigada por teres a maturidade de lhe pegar ao colo enquanto ele se contorcia e gritava, e calmamente explicar-lhe as razões pelas quais não compraste o livro da Lego hoje.

Obrigada por teres maturidade para conversar com o teu filho como um adulto e permitir-lhe ver as consequências de suas ações. Obrigada por lhe teres explicado que não era um problema teu, que era uma confusão criada por ele, baseada numa (má) escolha que ele fez.

Muito obrigada por seres um exemplo para todas as mães, porque ser uma mãe firme que cumpre a sua palavra é muito mais importante do que ceder, para evitar uma birra. Obrigada por seres uma mãe em quem os teus filhos podem confiar, porque és consistente e firme.

Obrigada por seres uma mãe que faz os seus filhos sentirem-se seguros. Obrigada por amares os teus filhos o suficiente ao ponto de não seres a amiga deles, mas sim assumires o papel de mãe.

Como professora, eu vejo todos os dias uma grande variedade de pais e vejo todo o espectro de estilos parentais e abordagens. E como uma professora, eu consigo ver a extrema necessidade que o mundo tem da existência de mães como tu.

A feira do livro foi há três meses, e eu ainda estou a pensar na forma como lidaste com a birra do teu filho naquele dia.

Obrigada por seres o tipo de mãe que cria filhos respeitosos e humildes. A tua influência é muito maior do que jamais saberás.

Atenciosamente, Uma professora grata

Por sara michelle, no blog argyle in spring
traduzido e adaptado por Up To Kids®

 

 

 

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