Idosos e adolescentes nas antípodas em termos da vontade de cooperar

Julho 23, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 21 de julho de 2014.

Enric Vives-Rubio

Ana Gerschenfeld

Pela primeira vez, um estudo permitiu avaliar a evolução das atitudes de cooperação das pessoas em função da sua idade. Os resultados poderão ajudar a fomentar o espírito de cooperação nos jovens.

Os seres humanos são, de uma forma geral, excepcionalmente cooperantes quando comparados com outros animais sociais. E segundo resultados agora publicados na revista Nature Communications, globalmente essa atitude não depende da idade – excepto em dois casos, que dizem respeito às pessoas mais idosas e aos pré-adolescentes e adolescentes, colocando estes dois grupos etários nas antípodas.

“A questão de saber por que é que cooperamos [para obter um benefício comum] com pessoas com as quais não temos qualquer relação permanece em aberto”, explicam no seu artigo Mario Gutiérrez-Roig, da Universidade de Barcelona (Espanha) e colegas.

Agora, pela primeira vez, estes cientistas decidiram ver como essa atitude evoluía ao longo da vida. Para isso, realizaram duas experiências “no terreno”, sob forma de um jogo inspirado num exemplo clássico de situação em que as pessoas devem tomar a decisão de colaborar (ou não) com um desconhecido: o chamado “dilema do prisioneiro”.

Na primeira experiência, realizada durante uma feira de jogos de tabuleiro em Barcelona, em Dezembro de 2012, a equipa instalou uma dúzia de computadores num stand da feira e recrutou 168 voluntários com 10 a 87 anos de idade entre os visitantes, explica em comunicado a Universidade Carlos III de Madrid, que participou no estudo. A segunda experiência decorreu numa escola de Barcelona, junto de 53 alunos com 12 a 13 anos de idade.

Na experiência junto do público, os participantes foram distribuídos por grupos em função da idade. A versão do dilema do prisioneiro utilizada era a seguinte: ao longo dos 25 rounds que durava o jogo, dois “jogadores” tinham de escolher, em dada situação, entre cooperar e não cooperar, recebendo diferentes recompensas conforme as suas acções. Mais precisamente: ambos os jogadores recebiam um certo número de pontos quando ambos cooperavam; quando um cooperava e ou outro não, o primeiro recebia uma recompensa inferior à do primeiro (sim, o “traidor” era mais bem recompensado); e quando nenhum dos dois cooperava, não havia recompensa para ninguém. No fim, os pontos eram transformados em dinheiro e os participantes (ou os seus pais, se fossem menores de idade) imediatamente pagos.

O resultado mais notável desta primeira experiência foi o facto de as decisões dos mais novos serem muito mais imprevisíveis do que as dos outros grupos etários.

“Em geral, as pessoas têm em conta o que os outros têm feito quando colaboram, mas os nossos resultados mostram que os adultos também levam em conta as suas próprias acções passadas”, diz Yamir Moreno, co-autor da Universidade de Saragoça, no mesmo comunicado. “[Os adultos] têm tendência para acabar por colaborar; a sua reacção é mais previsível e ajuda um pouco a alimentar o espírito de cooperação.”

Adolescentes imprevisíveis

Já o comportamento dos mais novos não segue este padrão, explica Gutiérrez-Roig: “Segundo o nosso estudo, os miúdos são mais voláteis nas suas decisões; não têm uma estratégia definida e a sua cooperação é principalmente condicionada (…) pelas atitudes dos outros. Olham para o que os outros jogadores fazem e reagem de acordo com isso, em vez de serem condicionados pelas suas próprias acções passadas.” Ora, “isso dificulta o desenvolvimento de um ambiente cooperativo”, diz ainda o cientista.

Na outra extremidade do leque etário, está um outro resultado notável, diz por seu lado o co-autor Anxo Sánchez, da Universidade Carlos III de Madrid. “Os que têm acima de 65 anos parecem ser mais cooperantes do que os dos outros grupos etários”, salienta, “embora aqui ainda seja preciso testar o resultado de forma mais aprofundada”.

Um resultado, acrescenta este cientista, que sugere que “baixar a idade da reforma poderá não ser benéfico para as empresas e que seria interessante encontrar maneiras de manter este grupo etário activo ou numa situação alternativa para que conseguissem continuar a ser cooperativos”.

A segunda experiência (junto dos alunos de uma escola) permitiu confirmar e afinar o primeiro resultado, relativo aos mais jovens. Aqui, diz Carlos Gracia-Lázaro, co-autor da Universidade de Saragoça, “as crianças foram mais cooperativas, mas o seu comportamento permaneceu igualmente imprevisível”. E enfatiza: “Estes resultados levam-nos a pensar que existe uma componente evolutiva e cultural ao longo do ciclo de vida e que a propensão para colaborar é uma qualidade que pode ser aprendida.”

Essa falta de cooperatividade parece ser específica dos adolescentes e pré-adolescentes. “Estudos anteriores”, lê-se ainda no comunicado, “já indicavam que entre os seis e os dez anos, as crianças desenvolvem um sentido da cooperação – e o novo estudo aponta para o momento em que essa situação muda: a adolescência”.

“As causas disso não são claras”, diz Sánchez, “mas pensamos que, nas fases mais precoces [do desenvolvimento psicológico], as crianças começam por ser mais empáticas e altruístas. Porém, à medida que crescem, poderá existir uma fase durante a qual os jovens acreditam que o facto de perceberem o outro os coloca numa posição em que se podem aproveitar desse outro”. Trata-se porém de uma “ideia um pouco intuitiva”, diz Moreno, que também seria preciso aprofundar.

Seja como for, a equipa pensa que o estudo pode ter implicações na definição de estratégias para fomentar a colaboração nas crianças e jovens adolescentes. “Seria necessário desenvolver estratégias específicas, diferentes das que são usadas com os adultos, para promover a transição para uma conduta pró-social mais persistente nos miúdos”, argumenta o co-autor Josep Perelló.

 

 

5.º Curso Breve de Pós-Graduação em Responsabilidades Parentais

Julho 21, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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parentais

mais informações aqui

V Encontro de Avós e Netos na Guarda

Julho 18, 2014 às 3:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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avos

V Encontro de Avós e Netos 25 de julho, 14h, Parque Urbano do Rio Diz, na Guarda + info: Cátia Azevedo Núcleo Distrital da Guarda guarda@eapn.pt

EAPN Portugal / Rede Europeia Anti-Pobreza Largo Paço do Biu, N.º 19 6300-592 Guarda Telemóvel: 964 764 067 Telf: 00351 271 227 506 | Fax: 00351 271 227 507 www.eapn.PT

Sobre relações intergeracionais / relação Avós – netos pode consultar o Infocedi nº52 Relação intergeracional entre avós e netos da responsabilidade do IAC-CEDI.

 

A prestação de cuidados pelos avós na Europa : as políticas familiares e o papel dos avós na prestação de cuidados infantis

Julho 4, 2014 às 1:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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avos

descarregar o sumário do estudo em português aqui

mais estudos e  informações:

http://www.grandparentsplus.org.uk/reports-and-publications

O nosso estudo revela que em toda a Europa os avós, as avós em particular, estão a desempenhar um papel fundamental na prestação de cuidados intensivos e ocasionais aos seus netos. Mais de 40% dos avós em 11 países europeus2 estudados prestam cuidados aos netos sem a presença dos pais da criança, enquanto na Grã-Bretanha a pesquisa Atitudes Sociais Britânicas (British Social Attitudes – BSA) revelou que 63% dos avós com netos de idade inferior a 16 anos o fazem.3

Em Portugal, Espanha, Itália e Roménia, onde as prestações sociais pagas aos pais e às mães que ficam em casa são limitadas e onde há pouca oferta de estruturas formais de acolhimento de crianças e poucas oportunidades de as mães trabalharem a tempo parcial, os avós asseguram uma grande parte dos cuidados intensivos prestados aos seus netos. Entre os 11 países estudados, Portugal, em particular, apresenta a mais elevada percentagem de mães com filhos com idades inferiores aos seis anos que trabalham a tempo inteiro. Adicionalmente, nestes países as mães que trabalham fazem-no frequentemente durante mais de 40 horas por semana; uma vez que há pouca oferta de estruturas formais de acolhimento de crianças a preços acessíveis, existe uma maior dependência dos cuidados intensivos prestados pelas avós. Com excepção da Roménia, nestes países há menos avós a prestarem cuidados ocasionais ou menos intensivos sem a presença dos pais.

Ser avô, um emprego a tempo inteiro

Julho 4, 2014 às 1:15 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 28 de junho de 2014.

Estudo europeu

Em Portugal, assim como em Espanha, Itália e Roménia, as crianças ficam muitas vezes ao cuidado dos avós, uma vez que “as prestações sociais pagas aos pais e às mães que ficam em casa são limitadas”.

Portugal é o país com o maior número de mães com filhos até aos seis anos a trabalhar a tempo inteiro e um dos países em que os avós cuidam mais dos netos, revela um estudo europeu.

O estudo “A prestação de cuidados pelos avós na Europa” faz uma análise comparativa sobre as políticas familiares e a sua influência no papel dos avós enquanto prestadores de cuidados infantis na Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Grécia, Itália, Holanda, Espanha, Suécia, Suíça, Portugal, Espanha Itália e Roménia.

Segundo o estudo, a que a agência Lusa teve acesso, mais de 40% dos avós dos países europeus analisados prestam cuidados aos netos sem a presença dos pais, sendo que os países do sul da Europa, Portugal, Espanha, Itália e Roménia, são os que apresentam uma maior percentagem de avós a cuidar de netos a tempo inteiro.

Os autores do estudo explicam que nestes quatro países “as prestações sociais pagas aos pais e às mães que ficam em casa são limitadas” e “há pouca oferta de estruturas formais de acolhimento de crianças e poucas oportunidades das mães trabalharem a tempo parcial”.

Mães trabalham mais de 40 horas 

Entre os países estudados, Portugal apresenta “a mais elevada percentagem de mães com filhos com idades inferiores aos seis anos que trabalham a tempo inteiro”.

Em Portugal, Espanha, Itália e Roménia, as mães trabalham frequentemente mais de 40 horas por semana, adianta o estudo financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, que será apresentado na terça-feira em Lisboa.

A investigação adverte que, tendo em conta que as avós entre os 50 e os 69 anos “que não exercem empregos remunerados são as que apresentam maiores probabilidades de prestar cuidados infantis, os planos dos governos europeus para o aumento das idades de reforma e da participação feminina na vida profissional em idades mais avançadas são suscetíveis de entrar em conflito com o papel dos avós no que se refere à prestação de cuidados infantis”.

Para os autores do estudo, “isto terá implicações significativas ao nível da participação das mães mais jovens no mercado de trabalho e na obtenção de pensões e de segurança financeira por parte das mulheres de meia-idade”.

 

Portugal é o país com mais mães com filhos menores de seis anos a trabalhar a tempo inteiro

Julho 4, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia  do Público de 28 de junho de 2014.

 

pedro cunha

LUSA

Estudo europeu mostra também que os avós portugueses são dos que mais cuidam dos netos.

Portugal é o país com o maior número de mães com filhos até aos seis anos a trabalhar a tempo inteiro e um dos países em que os avós cuidam mais dos netos, revela um estudo europeu.

O estudo A prestação de cuidados pelos avós na Europa faz uma análise comparativa sobre as políticas familiares e a sua influência no papel dos avós enquanto prestadores de cuidados infantis na Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Grécia, Itália, Holanda, Espanha, Suécia, Suíça, Portugal, Espanha Itália e Roménia.

Segundo o estudo, a que a agência Lusa teve acesso, mais de 40% dos avós dos países europeus analisados prestam cuidados aos netos sem a presença dos pais, sendo que os países do sul da Europa — Portugal, Espanha, Itália mas também a Roménia — são os que apresentam uma maior percentagem de avós a cuidar de netos a tempo inteiro.

Os autores do estudo explicam que nestes quatro países “as prestações sociais pagas aos pais e às mães que ficam em casa são limitadas” e “há pouca oferta de estruturas formais de acolhimento de crianças e poucas oportunidades das mães trabalharem a tempo parcial”.

Entre os países estudados, Portugal apresenta “a mais elevada percentagem de mães com filhos com idades inferiores aos seis anos que trabalham a tempo inteiro”.

Em Portugal, Espanha, Itália e Roménia, as mães trabalham frequentemente mais de 40 horas por semana, adianta o estudo financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, que será apresentado na terça-feira, em Lisboa.

O estudo atribui esta “maior dependência dos cuidados intensivos prestados pelas avós” há pouca oferta de estruturas formais de acolhimento de crianças a preços acessíveis.

Com excepção da Roménia, nestes países há menos avós a prestar cuidados ocasionais ou menos intensivos sem a presença dos pais.

Os países com maior recurso a estruturas formais de acolhimento de crianças (Suécia e Dinamarca) são os que apresentam as percentagens mais reduzidas no que se refere à prestação de cuidados infantis intensivos pelas avós.

A investigação adverte que, tendo em conta que as avós entre os 50 e os 69 anos “que não exercem empregos remunerados são as que apresentam maiores probabilidades de prestar cuidados infantis, os planos dos governos europeus para o aumento das idades de reforma e da participação feminina na vida profissional em idades mais avançadas são susceptíveis de entrar em conflito com o papel dos avós no que se refere à prestação de cuidados infantis”.

Para os autores do estudo, “isto terá implicações significativas ao nível da participação das mães mais jovens no mercado de trabalho e na obtenção de pensões e de segurança financeira por parte das mulheres de meia-idade”.

O estudo refere também que Portugal tem assistido a um aumento dos agregados familiares de avós com três gerações, enquanto a Inglaterra e o País de Gales, França e Alemanha Ocidental têm assistido a uma diminuição da percentagem de adultos com 35 ou mais anos a viver neste tipo de família.

“Tanto os agregados familiares de avós com três gerações como os sem continuidade geracional estão associados à pobreza e falta de recursos socioeconómicos em todos os países estudados”, salienta.

Os adultos que vivem em agregados familiares com avós apresentam maiores probabilidades de serem mulheres, divorciadas, viúvas ou separadas, com níveis de instrução mais baixos e economicamente inactivas, “o que é particularmente notório nos que vivem em agregados familiares de avós sem continuidade geracional”.

 

InfoCEDI n.º 52 Sobre Relação Intergeracional entre Avós e Netos

Junho 3, 2014 às 12:40 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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info

Já está disponível para consulta e download o nosso InfoCEDI n.º 52. Esta é uma compilação abrangente e actualizada de dissertações, estudos, citações e endereços de sites sobre Relação Intergeracional entre Avós e Netos.

Todos os documentos apresentados estão disponíveis on-line e pode aceder a eles directamente do InfoCEDI, Aqui

Brincar na Universidade Sénior

Abril 1, 2014 às 6:00 am | Publicado em Divulgação, Vídeos | Deixe um comentário
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Ação realizada pelo sector da Actividade Lúdica do Instituto de Apoio à Criança.

Participámos na Universidade Sénior da Junta de Freguesia de Alcântara a convite da Dra. Patrícia, coordenadora do módulo de Saúde, onde contámos com a participação de 30 alunos ao longo de duas sessões. Estas tiveram como mote “Brincar ao longo dos tempos” e como objetivo reforçar a importância do brincar e a intergeracionalidade da atividade lúdica.

Refletimos sobre o Brincar, como primeira atividade que a criança realiza com liberdade e prazer e sobre a participação cada vez maior que os avós têm na vida e educação das crianças.
Conversámos ainda sobre a aquisição de brinquedos e jogos para as diferentes faixas etárias e a sua qualidade e também sobre a seleção e os perigos das novas tecnologias, nomeadamente a internet e os videojogos. Neste ponto, abordou-se a necessidade de manter sempre uma atitude vigilante: mais do que controlar, é estar atento e envolver-se nos assuntos das crianças, saber do que trata cada site ou jogo.
Recordámos ainda como se brincava antigamente, de modo a perceber a evolução das brincadeiras nos dias de hoje e refletir sobre o universo lúdico atual das crianças. Partilhámos recordações de infância, criaram-se momentos de alegria e de prazer, nos quais se reviveram memórias e se contaram histórias!

“Quando eu era miúdo, nós é que fazíamos os brinquedos: a bola de trapos, a bilharda, o botão e aprendíamos a fazer, com as canas, cavalos, moinhos, cachimbos, gaiolas … e às vezes lá ganhávamos um boneco na loja.”   João dos Santos

Leonor Santos
Coordenadora da Actividade Lúdica

Veja o vídeo que preparámos sobre esta ação!

ludi

Avós e netos adolescentes: uma cumplicidade construída!

Dezembro 7, 2013 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Sofia N. Silva no Público de 28 de Novembro de 2013.

O avô foi ver o meu treino de futebol! Aproveitei a boleia para te vir dar um beijinho!

Gonçalo: Olá avó!
Avó Maria: Olá meu querido! Que bom que vieste!
Gonçalo: O avô foi ver o meu treino de futebol! Aproveitei a boleia para te vir dar um beijinho!
Avó Maria: Eu sei! E por isso fui comprar as bolachas que adoras à Sardinheira...
Gonçalo: O quê?! A velha caixa já estava vazia, desde a última vez? Estiveram cá os mânfios dos meus primos!
Avó Maria: Sim… Mas muito diferente de quando vocês eram todos mais novos, em que tínhamos que ter o frigorífico sempre cheio!
Gonçalo: E a velha caixa tem resisitido ao longo dos anos… brutal!
Avó Maria: Muitos anos… a caixa já veio de casa da minha mãe…
Gonçalo: Tens saudades da tua mãe?
Avó Maria: Muitas…
Gonçalo: Por isso vais muitas vezes à caixa das bolachas…
A avó Maria sorri.
Gonçalo: Avó, um dia posso ficar com esta caixa?
Avó Maria: Se tens gosto nisso… acho que tenho que cheguem para distribuir por todos…
Gonçalo: Já que aqui estou, podes tirar-me umas dúvidas de matemática? Eu sei que não tínhamos combinado…
Avó Maria: Claro que sim, meu querido. Temos só que terminar a horas de eu me arranjar para ir ao cinema com o avô. Por falar nisso, onde é que ele está?
Gonçalo: No escritório a ver os emails, claro! Eu tenho uns avós muito à frente! Ele é emails, cinemas, teatros, livros!
Avó Maria: Então, muitas dúvidas?
Gonçalo: Algumas.. Não tenho estudado muito…
Avó Maria: Ai não? Porquê?
Gonçalo: Oh avó, por nada especial… é muita coisa nesta altura…
Avó Maria: Muito bem. Vamos então!
Gonçalo: Avó…
Avó Maria: Sim?
Gonçalo: Tenho tido menos tempo agora porque… tenho uma namorada…
Avó Maria: Ai, sim? Que bom Gonçalo! Estás feliz?
Gonçalo: Estou avó. Mas parece que tenho menos vontade de estudar…
Avó Maria: É natural…
Gonçalo: Achas?!
Avó Maria: Acho! Mas também acho que deves contrariar um bocadinho essa falta de vontade!
Gonçalo: Prometo que vou contrariar! Mas não contes nada à mãe, senão já sei que não vai parar de me chatear e dizer que baixei as notas por causa da miúda, que ainda por cima está sempre a dizer para eu ir estudar!
Avó Maria: Achas que a tua mãe não sabe como são essas coisas?
Gonçalo: Ás vezes não parece! Oh avó, eu vou contar, mas a seu tempo!
Avó Maria: Claro que sim, meu querido. Tudo tem o seu tempo. Mas fico feliz pelo teu voto de confiança. Mas agora convém vermos as dúvidas, não?
Gonçalo: És o máximo avó! Bute lá!

Neste diálogo da avó Maria com o neto Gonçalo podemos encantar-nos com a unicidade desta relação que pela sua construção permitiu a manutenção dos afectos, partilhas e cumplicidade!

Na realidade, a cumplicidade de avós e netos durante a fase da adolescência vai depender, mais ou menos, do estilo de relação que foi desenvolvido nos anos anteriores, ao longo da infância dos netos, agora adolescentes. A intensidade do contacto, a participação activa na vida uns dos outros e o desenvolvimento de um estilo de relações próximas entre as gerações dentro de uma família têm grande influência na forma como avós e netos vão construindo a sua relação. Como qualquer relação de outra natureza, esta também tem de ser construída e alimentada para que possa continuar a ter lugar nesta nova etapa!

Com a entrada dos netos na adolescência é de esperar que a frequência dos encontros possa diminuir. Há, nesta fase de ciclo de vida, uma intensificação da relação com os pares, o desejo de conhecer novos contextos e desenvolver novos interesses, o despoletar das primeiras relações amorosas e o envolvimento em actividades fora da família que são sentidas como importantes e atractivos desafios! A conquista de alguma autonomia também facilita este novo contexto, ao qual pais, filhos e avós se têm de adaptar para a construção de uma nova forma de viver as suas relações.

A diminuição da frequência dos encontros não significa a diminuição na intensidade e intimidade da relação. Antes pelo contrário, nesta altura os encontros com os avós não dependem tão exclusivamente da interferência dos pais, bem como a generalidade das relações do adolescente. A vontade de estar com os avós depende mais da iniciativa do próprio, conferindo um cunho de maior autenticidade e voluntarismo neste investimento!

Os primeiros anos desta relação ficaram marcados pelas brincadeiras, saídas, ensinamentos e cuidados por parte dos avós aos netos. Nesta nova fase, a relação passa a ter um espaço mais ocupado por conversas, escuta activa e apoio dos avós aos netos, sobretudo na gestão por vezes necessária e desejável dos conflitos tão comuns entre pais e filhos, que agora tendem a acentuar-se.

Os avós são olhados como referências pelos netos, embora sejam distinguidos de forma muito clara relativamente a outros adultos de referência, que orientam e avaliam, como os pais ou professores, o que naturalmente confere um grande sentido de liberdade a esta relação! Sobretudo, num momento do ciclo de vida em que a conquista deste valor assume o seu expoente máximo.

Esta é uma relação onde há menos confronto, onde a necessidade de afirmação, diferenciação e conquista de autonomia não tem tanto lugar, nem necessidade para existir, como na relação pais/filhos. O grande movimento de autonomização é feito relativamente aos pais, que mantêm a importante função de impôr regras e limites, que o adolescente agora contesta e questiona, neste caminho difícil, mas desejado, para a construção e conquista da sua identidade.

A adolescência é uma fase de grande turbulência e questionar interiores, onde a relação com os avós pode representar apaziguamento e tranquilidade, pela maior disponibilidade física e emocional que os avós podem geralmente dedicar, pela fase do ciclo de vida em que se encontram. Torna-se mais fácil, pela natureza desta relação, os desabafos ou as confidências, as queixas relativamente aos pais, e os “conselhos” são geralmente aceites de forma  mais tranquila, e muitas vezes, até procurados. É o respeito dos avós pela intimidade dos netos que estes mais valorizam, levando-os a confiar e aproximar-se.

É uma relação de trocas e suporte mútuo – os avós têm o desejo de desenvolver a sua continuidade através dos netos, procurando transmitir os seus valores, onde se destaca o comprometimento nas relações e a valorização dos afectos; em contraste, a adolescência é um período em que a novidade e o estabelecimento de relações fora da família é muito valorizado. No entanto, a garantia de que o “colo” dos avós está sempre lá, transmite a segurança tão importante e fundamental, para que os afastamentos esperados e desejados nesta fase possam acontecer de forma mais tranquila.

Os avós têm que ter uma grande atenção na gestão do seu lugar na vida dos netos e da família. As alianças criadas com os netos não devem contribuir para aumentar o “gap” entre pais e filhos, correndo o risco de aumentar ainda mais os sentimentos de poder do adolescente, que também têm nesta fase que ser refreados.

Os avós que se colocam na posição de “guardiões dos segredos”, criam alianças que podem aprisionar avós e netos, tornando redutora a função desta relação. Há segredos que não podem ser mantidos ou escondidos da esfera parental, como são as questões relacionadas com drogas ou álcool.

Não interferir nas decisões educativas dos pais e evitar tomar partidos nas situações de conflito será a postura mais correcta a adoptar. Podem sim, assumir a importante função de mediadores e conciliadores das duas gerações: pais e filhos. Afinal, qual é a geração que poderá ter maior conhecimento, sabedoria e experiência relativamente às outras duas?

Sofia Nunes Silva é psicóloga clínica e terapeuta familiar.

 

Avós e netos podem proteger a saúde mental uns dos outros

Agosto 26, 2013 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site Ciência Online de 12 de Agosto de 2013.

Mais informações sobre o estudo:

Strong grandparent-adult grandchild relationships reduce depression for both

Avós e netos desempenham papéis importantes na saúde de cada um, segundo um novo estudo. O estudo de duas décadas descobriu que a qualidade das relações entre as duas gerações tem consequências mensuráveis ​​sobre o bem-estar mental de ambos.

Os pesquisadores analisaram 376 avós e 340 netos, e seguiram a sua saúde mental entre 1985 e 2004. Eles descobriram que tanto os avós como os netos adultos que se sentiam emocionalmente perto da outra geração tinham menos sintomas de depressão.

“Membros da família, como avós e netos, têm funções importantes nas vidas diárias de cada um durante a vida adulta”, disse a pesquisadora Sara Moorman, professors de sociologia na Boston College, EUA.

As relações entre os membros da família podem ser mais importante hoje do que no passado, disseram os pesquisadores. Como a expectativa de vida está a aumentar, as gerações co-existem sem precedentes para longos períodos de tempo, e eles podem ser fontes de apoio, ou de tensão, através de vida das pessoas, disseram os pesquisadores.

Para o estudo, que foi apresentado hoje (12 de agosto), na Reunião Anual da American Sociological Association, em Nova York, os participantes preencheram pesquisas a cada poucos anos, respondendo a perguntas. Os participantes também relataram quantas vezes sentiam sintomas de depressão, como tristeza e falta de apetite.

Os resultados mostraram que, além dos efeitos de saúde mental positivos de ter uma relação emocionalmente próxima, é importante para os avós serem capazes de retribuir a ajuda que recebem dos seus netos, de acordo com os pesquisadores.

Os resultados também mostraram que é importante para os netos ajudarem os seus avós a permanecerem independentes, e manter uma relação de apoio, a fim de afastar os efeitos negativos do envelhecimento sobre o bem-estar mental e emocional dos idosos.

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