Medo de contagiar os avós foi preocupação das crianças na pandemia – Notícia do JN sobre um estudo do IAC

Agosto 3, 2020 às 7:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 26 de julho de 2020.

Deixar ou não os filhos com os avós nas férias de verão? A decisão natural que passou a ser um dilema

Julho 23, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 16 de julho de 2020.

Catarina Pires

As férias grandes, cortesia do verão, três meses inteirinhos, o triplo daquelas a que os pais têm direito, neste ano estão ensombradas pela pandemia de covid-19, que até o tempo com os avós, que devia ser considerado património imaterial da infância em particular e da humanidade em geral, põe em causa. Falámos com um pai, uma mãe e um pediatra.

Todos os anos, as férias de verão dos miúdos são um quebra-cabeças para os pais, reduzidos a míseros 22 dias úteis das ditas. Mas quando existem avós, e felizmente existem durante cada vez mais tempo, o quebra-cabeças é mais fácil de resolver.

Se, durante o ano, são um apoio fundamental, como revelava o estudo “A prestação de cuidados pelos avós na Europa”, da Fundação Calouste Gulbenkian, apontando Portugal como um dos países em que os avós mais cuidam, diariamente, dos netos, nas férias são a grande solução.

No entanto, este ano, a solução tornou-se um problema para muitas famílias que, desde que a pandemia começou, veem a mensagem repetida até à exaustão: os mais velhos são mais vulneráveis à covid-19 e o contacto entre avós e netos deve ser evitado e rodeado das maiores precauções. Tornou-se pois inevitável pensar duas vezes, ou mais, antes de tomar a decisão de lhes deixar as crianças a cargo.

Luís Milhano, que vive em Almada e tem três filhas, de 14, 11 e quatro anos, que costumavam passar dois meses com os avós maternos em São Martinho do Porto, onde estes têm casa, decidiu alternar as férias com a mulher para poderem ficar o máximo de tempo possível com as filhas e assim salvaguardar os sogros/pais.

“Entendemos que, não havendo vacina e tendo em conta a nossa forma de estar que é muito abraços e beijinhos com os avós, teríamos que arranjar uma alternativa quando começassem as fériasde forma a que as miúdas não fossem para os avós, por muito que nos custasse a todos”, diz Luís Milhano.

Apesar de ambos terem estado em teletrabalho até junho e neste momento estarem em regime misto (parte da semana presencial e parte à distância, também alternados) e as filhas terem estado as três sempre em casa, com a escola virtual, as duas mais velhas, e o “Canal Panda e o Zig Zag, a mais nova”, Luís e a mulher decidiram não arriscar.

“Entendemos que, não havendo vacina e tendo em conta a nossa forma de estar que é muito abraços e beijinhos com os avós, com os tios, com os primos, teríamos que arranjar uma alternativa quando começassem as férias, entre mim e a minha mulher, de maneira a que as miúdas não fossem para os avós, por muito que nos custasse, a nós, a elas e aos meus sogros, por uma questão de prevenção”, diz.

Tanto os sogros como os pais de Luís, que antes da pandemia eram o apoio diário das netas, para dar o almoço e ir buscar à escola, sentem-lhes a falta, mas compreendem a decisão. “É difícil porque os netos acabam por ser uma alegria, uma forma de se manterem ativos e de compensarem a solidão, mas neste momento é preciso salvaguardá-los. Apesar de termos muito cuidado, saímos para ir às compras e ir trabalhar e o risco é real”, diz Luís.

“Para os meus pais está a ser ótimo, o facto de estarem com o neto torna-os mais ativos e acho que em momento algum sentiram receio, porque sabiam dos cuidados que tivemos sempre a nível familiar e em casa”, diz Patrícia, que vive em Lisboa, e espera que o filho aguente um mês inteiro longe.

Patrícia Coelho está ciente dos riscos, mas ela e o marido fizeram uma escolha diferente. O filho, de oito anos, que, “desde pequenino”, passa 15 dias no Algarve, onde vivem os avós maternos, este ano ficará um mês.

“Em alturas normais, recorremos a campos de férias ou a outros programas e atividades de tempos livres, mas este ano, além de as ofertas serem poucas, não nos ofereciam muita confiança e, portanto, o que decidimos foi que passasse mais tempo com os meus pais.”

Em confinamento desde o início de março, com a escola à distância, sem contacto com os amigos e com os pais em teletrabalho, Rodrigo, na opinião de Patrícia e do marido, não constituía risco para os avós. “Não saíamos de casa e, se era necessário ir à rua, tínhamos imensos cuidados, quando chegávamos tirávamos a roupa e os sapatos e tomávamos banho, portanto, a probabilidade de contágio era mínima. Além disso, para os meus pais está a ser ótimo, o facto de estarem com o neto torna-os mais ativos e acho que em momento algum sentiram receio, porque sabiam dos cuidados que tivemos sempre a nível familiar e em casa”, diz Patrícia, que vive em Lisboa, e espera que o filho aguente um mês inteiro longe.

“Para ele também é sempre uma experiência fantástica, mas este ano o que notamos é que sente a falta da liberdade dos outros anos e de estar com outras crianças. Os meus pais são muito rigorosos com esta situação da covid e não há esplanada nem passeios à noite, não está com os amigos, só vai à praia de manhã e uma que garanta o distanciamento social e portanto há menos diversão, apesar de os meus pais serem muito ativos e brincarem muito com ele. Vamos ver.”

“Se a criança não está na escola, não está num contexto infeccioso significativo e está só com os avós não me parece que exista um risco grande”, diz o pediatra Hugo de Castro Faria.

Na consulta do pediatra Hugo de Castro Faria, da CUF Descobertas, tem sido muito frequente a questão do contacto entre as crianças e os avós, no contexto atual de pandemia e para o especialista não existe uma resposta simples e direta, existem é vários fatores a ter em consideração.

Por um lado, é preciso ter em conta o papel fundamental que os avós têm no crescimento, no desenvolvimento afetivo e psicológico e na educação das crianças e na importância que estas têm para a felicidade e bem-estar dos avós, “que são figuras de referência muito importantes pelo que significam em termos de experiência de vida e pela disponibilidade que têm para lhes dar tempo de qualidade. Este é um valor que não podemos esquecer nesta fase, em que obviamente a grande preocupação é proteger os chamados grupos de risco para infeção mais grave pelo coronavírus, em que muitos avós estão incluídos e isso também tem que ser tido em conta”, diz o médico.

Daí que, para Hugo de Castro Faria, seja essencial avaliar cada situação em particular. “Se os avós têm risco acrescido pela idade e por comorbilidades que possam existir, é importante que se aconselhem junto dos médicos assistentes.”

“As crianças fazerem uma quarentena antres de irem para os avós foi a solução que, segundo percebo, muitos pais encontraram”, diz Hugo Faria.

Outra questão importante para o médico é se a criança vai ficar com os avós em substituição da escola ou se está em contexto de creche ou ATL e só ao fim do dia fica com os avós. “Se a criança não está na escola, não está num contexto infeccioso significativo e está só com os avós não me parece que exista um risco grande. Em relação àquelas que depois do confinamento voltaram à creche, ao infantário ou ao ATL e estiveram em contacto com outras pessoas, é prudente que se mantenham afastadas durante um período.”

Fazerem uma espécie de quarentena antes de irem para os avós? “Exatamente. É aquilo que, segundo percebo, muitos pais têm decidido fazer antes do período de férias. Agora se a criança está só com os avós, o risco é semelhante à vida normal destes sem ela e por isso pode e deve ser fomentada a estadia com os avós, desde que considerados os riscos individuais que referi.”

Quaisquer que sejam as circunstâncias, estando as crianças com os avós, é fundamental que não se descurem os cuidados para prevenir o contágio, dentro e fora de casa: evitar locais com muita gente, manter o distanciamento, lavar frequentemente as mãos, usar máscara em locais públicos fechados, respeitar a etiqueta respiratória.

Jovens, a covid “não é uma constipação” e é preciso pensar nos avós

Junho 6, 2020 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 29 de maio de 2020.

Rita Rato Nunes

Diretora-geral da Saúde fala numa “tendência para aliviar o comportamento” de proteção contra a covid-19, por parte dos mais novos. Nas últimas três semanas, os números de novos contágios entre os jovens subiu ligeiramente.

Prestes a entrar na terceira fase de deconfinamento (marcada para a próxima segunda-feira 1 de junho), os jovens voltaram a estar no centro dos apelos das autoridades de saúde e do Presidente da República. Podem não sentir com tanta intensidade a doença como os mais velhos, mas a covid “não é uma constipação”, alerta a diretora-geral da Saúde, e é preciso pensar nos mais velhos e pessoas de risco que estão à volta.

“Há de facto uma tendência para aliviar o comportamento”, disse, em conferência de imprensa, Graça Freitas, referindo-se aos mais novos. Os números atualizados no boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS), das últimas três semanas (entre 8 e 29 de maio), mostram um crescimento ligeiramente superior na taxa de novas infeções nas faixas etárias mais jovens.

Neste período, a taxa de crescimento foi maior entre as crianças (dos 0 aos 9 anos e dos 10 aos 19 anos) e depois nos jovens entre os 20 e os 29 anos. Na primeira quinzena do mês, os novos casos entre estes jovens passaram de 3270 para 3627 (um aumento de 10,9%) e esta semana estão nos 4178 (subida de 15,2%).

Perante isto, a responsável pela DGS relembra que “esta doença não é uma constipação. Mesmo que tenham a doença na forma ligeira podem transmitir o vírus a grupos de risco e a familiares mais velhos”, interpela diretamente os jovens. Graça Freitas refere ainda que foi notado um aumento dos ajuntamentos entre os mais novos na região da Grande Lisboa – a mais afetada pela pandemia, neste momento. Esta sexta-feira, a zona de Lisboa e Vale do Tejo registou 97% dos 350 casos de covid-19 notificados nas últimas 24 horas.

Horas antes, durante uma entrevista à rádio renascença, o Presidente da República fazia o mesmo apelo. Marcelo Recebo de Sousa pediu aos mais novos para pensarem que “têm avós, têm pais e têm tios” e comportarem-se tendo em conta “o risco social dos outros”.

Recuperando o essencial, Graça Freitas, relembrou: é preciso evitar o contacto próximo, utilizar máscara e respeitar as medidas de higiene e etiqueta respiratória. Depois, o discurso endurece. “Não se podem tolerar comportamentos que ponham em risco a saúde pública. Depende de nós e do nosso comportamento interromper cadeias de transmissão”, afirmou.

13% do total de infetados são jovens

Atualmente, o boletim da DGS dá conta de 4178 casos de infeção pelo novo coronavírus em jovens entre os 20 e os 29 anos, desde o início da pandemia. O que representa 13% do total de infetados (31 946). A nível de óbitos, existe apenas registo de um caso de um jovem de 29 anos, que tinha outras patologias associadas. A morte de um jovem de 14 anos também chegou a ser referenciada como consequência do novo coronavírus, mas a autópsia afastou essa possibilidade.

Os dados globais da pandemia apontam no mesmo sentido. Indicam que o risco de ocorrer uma morte por covid-19 é tanto maior quanto mais elevada for a idade. Até aos 9 anos a incidência é nula, entre os 10 e os 39 anos atinge a taxa dos 0,2%, segundo os números mais recentes do surto do novo coronavírus, tendo como base informação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da China (CCDC).

No entanto, estes número não devem servir de desculpa para o incumprimento dos conselhos divulgados pelas autoridades de saúde. No final do mês de março, numa mensagem dedicada aos mais novos, o diretor da Organização Mundial da Saúde lembrava isso mesmo. “Vocês não são invencíveis. Este vírus pode prender-vos durante semanas a uma cama de hospital ou mesmo matar-vos. E, mesmo que não fiquem doentes, as vossas escolhas sobre o que fazem e onde vão podem significar a diferença entre a vida e a morte para outras pessoas”, disse Tedros Ghebreyesus, congratulando-se depois com o facto de muitos jovens “estarem a passar a palavra e não o vírus”.

Simona Ciraolo: “Qualquer tema pode ser bom para um livro infantil”

Março 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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texto publicado no http://observador.pt/ no dia 20 de fevereiro de 2017.

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Ana Dias Ferreira

Ao terceiro livro, Simona Ciraolo escolhe olhar para “O Rosto da Avó” e escrever sobre envelhecimento, mesmo para crianças. Conversa com a autora que pinta magistralmente as relações familiares.

Cada ruga tem uma memória e é uma linha na história desta mulher. Uma ruga remete para a noite em que conheceu o marido, na montanha-russa, outra para o melhor piquenique que fez à beira-mar, com as amigas, outra ainda para uma manhã de primavera em que fez uma grande descoberta e viu uma gata a dar à luz. O mais recente livro da italiana Simona Ciraolo faz zoom no rosto de uma avó para contar uma história ternurenta sobre o envelhecimento. Depois de Quero um Abraço (2015) e O Que Aconteceu à Minha Irmã? (2016), O Rosto da Avó é o terceiro livro da também ilustradora publicado em Portugal. Pretexto para uma entrevista por e-mail entre Londres, Lisboa e Nova Iorque onde se tenta perceber como nasce a motivação para escrever livros para crianças.

Na dedicatória do seu primeiro livro Quero um Abraço escreveu: “Para a Pam e para o Martin, que me fizeram deitar mãos à obra”. Quem são eles e de que forma influenciaram o seu trabalho?

A Pam e o Martin são os maravilhosos professores que tiveram de testemunhar as minha lutas durante o mestrado [em ilustração de literatura infantil]. Sempre que tive crises de confiança eles souberam fazer-me sair da minha própria cabeça e ver as coisas sob outra perspetiva. Souberam sempre quando eu precisava de um bom pontapé no rabo, metaforicamente falando! Sem essa energia e sentido de humor tenho a certeza que teria perdido uma quantidade ridícula de tempo com pensamentos que não interessavam nada.

Li que se mudou para Londres depois da licenciatura em cinema de animação e que trabalhou em filmes e publicidade antes de estudar ilustração em Cambridge. Como é que começou a escrever livros para crianças?

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Adorei esses primeiros anos em animação, é uma indústria maravilhosa para se trabalhar por causa das pessoas que se conhecem. Por outro lado, os livros ilustrados são o amor da minha vida. Já os colecionava nessa altura e olhava para eles como a arte narrativa mais perfeita de todas. Nunca tinha sentido a necessidade absoluta de contar uma história usando a animação, ao passo que o formato de livro ilustrado fazia todo o sentido para as histórias que tinha na cabeça, e de forma muito natural. Daí ter decidido embarcar nessa aventura.

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Como é que se lembrou de ter um cato como protagonista do seu primeiro livro?

Quero um Abraço é a história de alguém muito sensível e com um grande coração que é profundamente mal interpretado e visto como defensivo. Enquanto estava a pensar nestas caraterísticas, a ideia de um cato surgiu-me e instantaneamente soube que ele ia ser perfeito para a história que eu queria contar.

Mesmo com uma planta, Quero um Abraço é uma história sobre família e amizade. Tendo em conta os seus dois outros livros publicados em Portugal, O Que Aconteceu à Minha Irmã? e O Rosto da Avó, podemos dizer que escreve sobretudo sobre relações humanas e familiares?

Sim, até agora os meus livros têm mostrado sobretudo os temas comuns às relações e às dinâmicas familiares. Gosto muito de observar a forma como as pessoas interagem umas com as outras, especialmente dentro das fronteiras de uma casa particular, onde todas as suas idiossincrasias são sublinhadas. Suponho que este interesse influencia inevitavelmente as minhas histórias.

uma

Primeiro um livro sobre uma irmã mais velha, depois outro sobre uma avó inspiradora. Estas histórias são autobiográficas? Qual foi a ideia por trás de cada uma delas?

Os meus livros não são autobiográficos, mas escrevo sempre sobre sentimentos e emoções com os quais me consigo relacionar, direta ou indiretamente. Gosto de imaginar uma personagem numa situação específica e como é que isso a faria sentir. O que quer que a motiva parece-me tão real, tão tangível, que acabo por gostar das personagens como se fossem entes queridos.

segundo

Normalmente como é que identifica um bom tema? É a história que surge primeiro ou o universo visual?

Uma ideia que vale a pena perseguir é uma que me envolva de forma profunda. Normalmente tenho um “pressentimento” em relação à história que quero contar e, apesar de todo o trabalho envolvido entre o primeiro rascunho e a obra acabada, consigo sempre reconhecer esse primeiro “pressentimento” no livro final. A narrativa vem sempre primeiro, enquanto a imagética nasce em resposta aos requisitos da história.

Como é que gostava que as pessoas lessem os seus livros?

Espero que os leitores os achem honestos e que as personagens pareçam humanas, credíveis. Para além disso, espero que cada leitor encontre a sua própria forma de se relacionar com estas histórias e as experiências que são narradas. Acho que os meus livros podem ser lidos de formas muito diferentes, consoante se seja criança ou adulto, mas há pessoas da mesma faixa etária que parecem dar ênfase a aspetos diferentes de uma história e já recebi interpretações bastante pessoais do mesmo livro. Adoro ver como as minhas histórias são filtradas através das experiências de outra pessoa.

muitos

Envelhecer, ou a passagem do tempo, não são assuntos fáceis. Teve sempre confiança que dariam um bom livro para crianças?

Lembro-me de ter noção da passagem do tempo quando ainda era bastante pequena. Muitas vezes pensava nisso com impaciência, mas por vezes invadia-me uma sensação de perda eminente. À partida (espero), a maioria das crianças não tem tanta noção disto como eu tinha e se calhar, para algumas delas, O Rosto da Avó vai ser a primeira oportunidade de pensar neste conceito e irão reconhecer uma abordagem positiva do assunto. Talvez alguns miúdos não estejam preparados e regressem ao livro mais tarde. Acredito que qualquer tema pode ser bom para um livro infantil, mas a criança tem de encontrá-lo no tempo certo para ela.

recente

Falando da ilustração, como é que descreve o seu universo e a sua técnica?

Acredito que as ilustrações de um livro têm de servir a narrativa: afinal de contas, uma boa parte da história é contada através dos desenhos. Quando estou à procura da melhor abordagem a adotar para um livro em particular, procuro indicações no tom do texto mas também nas coisas que o texto não diz mas que estão implícitas — essas coisas têm de passar através das ilustrações. Por outro lado, se o texto nos está a dizer como é que uma personagem se está a sentir, posso querer usar as cores no desenho para dizer aos leitores que vai ficar tudo bem, ou seja, para tranquilizá-lo. A cor é apenas um exemplo: todos os elementos num desenho transportam uma qualidade expressiva, por isso quando estou a desenhar uma página tento explorar a força das marcas do lápis, o espaço livre à volta de uma figura, até o branco no papel, para me ajudar a atingir não só um efeito estético agradável mas também transmitir a atmosfera emocional certa.

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No novo livro, por exemplo, é muito bonita a maneira como faz zoom na cara da avó ou como transforma as suas memórias em desenhos tão coloridos e cheios que quase saem das páginas.

Para este livro funcionar eu tinha de criar duas dimensões temporais separadas e precisava que esta distinção fosse inequívoca. O espaço em que a menina está com a avó tinha de parecer íntimo, enquanto eu pretendia que o reino das memórias se destacasse pela sua riqueza, por estar cheio de vida e carregado com estas emoções todas. Encontrei esta solução muito cedo na história e apesar de não ter a certeza se seria capaz de desenhar o rosto da avó com a graciosidade que tinha em mente, sabia que era um desafio a ultrapassar para poder criar um livro que celebra verdadeiramente a idade e a experiência.

 

 

 

Avós que cuidam dos netos vivem até 10 anos mais

Janeiro 17, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://zap.aeiou.pt/ de 5 de janeiro de 2017.

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Por SV

Ajudar os outros compensa. É a conclusão de um estudo levado a cabo por uma equipa de investigação internacional que constatou que as pessoas mais velhas que apoiam e cuidam dos outros vivem mais tempo.

Este estudo apurou que “os avós que cuidam dos seus netos vivem, em média, mais tempo do que os avós que não cuidam deles”, salienta num comunicado a Universidade de Basel (UNIBAS), na Suíça, uma das entidades internacionais envolvidas na pesquisa.

Publicada no jornal Evolution and Human Behavior, esta análise envolveu mais de 500 pessoas, com idades entre os 70 e os 103 anos, e informações do Estudo de Envelhecimento em Berlim, recolhidos entre 1990 e 2009.

Os investigadores compararam dados sobre os avós que cuidam “ocasionalmente” dos netos e sobre idosos que, embora não tendo filhos ou netos, cuidam de outras pessoas da sua rede de relações.

Os resultados evidenciaram que “este tipo de cuidado pode ter um efeito positivo na mortalidade dos cuidadores”, sustenta a UNIBAS.

“Metade dos avós que cuidavam dos seus netos ainda estavam vivos cerca de dez anos depois da primeira entrevista em 1990″, refere a instituição, notando que o mesmo efeito se aplica “a participantes que não tinham netos, mas que apoiavam os seus filhos – por exemplo, ajudando nas tarefas domésticas”.

“Em contraste, cerca de metade dos que não cuidavam de outros morreram em cerca de cinco anos”, realça a UNIBAS.

Este efeito positivo não está apenas relacionado com a prestação de cuidados no seio da família, mas também se verifica em idosos sem filhos que disponibilizaram algum tipo de “apoio emocional” a outras pessoas.

“Metade destes cuidadores viveram por mais sete anos, enquanto os não cuidadores viveram, em média, por apenas mais quatro anos”, reporta a Universidade.

Um dos investigadores envolvidos no estudo, Ralph Hertwig, do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano, na Alemanha, avisa contudo que “ajudar não deve ser mal interpretado como uma panaceia para uma vida mais longa”.

“O envolvimento de um cuidar de nível moderado parece ter efeitos positivos na saúde. Mas estudos anteriores mostraram que um envolvimento mais intenso causa stress, o que tem efeitos negativos na saúde física e mental”, destaca o investigador, citado pela UNIBAS.

A investigadora que liderou o estudo, Sonja Hilbrand, estudante de doutoramento no Departamento de Psicologia da UNIBAS, salienta, por seu turno, a ideia de que o “comportamento pró-social” tem origem na família.

“Parece plausível que o desenvolvimento dos comportamentos pró-sociais dos pais e avós, relativamente aos seus parentes, deixam a sua impressão no corpo humano em termos do sistema neural e hormonal que, subsequentemente, lança a fundação para a evolução da cooperação e do comportamento altruístico em relação aos não-parentes”, destaca Hilbrand no site da UNIBAS.

Além da Universidade de Basel e do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano, participaram também nesta investigação as Universidades australianas Edith Cowan e Austrália Ocidental e a Universidade Humboldt de Berlim, na Alemanha.

SV, ZAP //

 

Um avô que faz todos os dias desenhos para os netos

Dezembro 17, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://p3.publico.pt/ de 5 de dezembro de 2016.

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autoria Andreia Cunha

Natural da Coreia e residente no Brasil, Chanjae Lee, reformado de 75 anos, tinha até há pouco tempo uma única tarefa diária: levar os netos à escola. Um dia, Arthur e Allan regressaram à Coreia com os pais e o avô ficou sem nada para fazer. Os dias eram passados a ver televisão coreana. A família ficou preocupada e decidiu ajudar Chanjae a encontrar uma nova actividade. Ji Lee, um dos filhos, lembrou-se do tempo em que o pai costumava fazer desenhos para as crianças. A ideia era convencê-lo de que podia voltar a desenhar e depois partilhar as fotos no Instagram. O pai odiou a ideia e nem sequer sabia o que era esta rede social (nem um e-mail ou o Google). A mulher, por outro lado, é muito curiosa. Com 75 anos usa Gmail, Google, Facebook e Instagram. Ela e o filho uniram-se. Depois de algumas tentativas falhadas, Chanjae recomeçou um passatempo antigo. Os desenhos são para os três netos. De repente, passou de “velho mal-humorado” a ilustrador das aventuras de Arthur, Allan e Astro e a um sucesso do Instagram – como mostra o vídeo que o filho partilhou. Ensiná-lo a usar esta rede social não foi fácil, mas ele aprendeu (lentamente). Desde perspectivas de Nova Iorque a um retrato da mulher, de um desenho dos netos a tomar banho até ilustrações dos brinquedos que Arthur e Allan deixaram no Brasil. Tudo é partilhado na página @drawings_for_my_grandchildren (desenhos para os meus netos). Animais e plantas são outros dos temas preferidos, bem como as tradições e os locais da Coreia, desenhados com diferentes técnicas e estilos. Chanjae faz um desenho por dia e já tem centenas de ilustrações no Instagram. Mas não está sozinho no projecto. A avó é a responsável pelas histórias que acompanham os desenhos do avô e que encantam os netos. Os filhos traduzem cada uma para inglês e português. O projecto tornou ainda mais unida uma família que está em diferentes cantos do mundo. O sucesso foi tanto que até surgiu a ideia de expor e vender os desenhos para financiar as viagens de visita aos netos. Entretanto, “o Astro começou a correr e o Arthur e o Allan já não são pequenos rapazes”. Chanjae não mudou muito – “continua um velho mal-humorado” –, mas tornou-se um especialista do Instagram.

 

 

“Os pesadelos não pertencem aos pais”

Setembro 23, 2015 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Escrito por Isabel Stilwell em 3 de Setembro de 2015:

Queremos tirar todos os obstáculos do caminho dos nossos filhos. Quando somos avós, a tarefa é ainda mais dura, porque damos tudo para tornar a vida mais fácil não só a filhos, como também a netos — e o pior é que, às vezes, dá ideia de que a felicidade de uns conflitua com a dos outros.

Habitualmente conseguimos fazer o papel de adivinhos e anjos da guarda, e a sensação de que conhecemos tão bem aqueles que amamos ao ponto de lhes adivinhar os desejos e os medos vai-nos alimentando um sentimento de omnipotência. E, subjacente a esta omnipotência, está a certeza de que os conseguimos controlar, como marionetas que obedecem a um puxar de fios. E, à sensação de controlo, segue-se a certeza de que somos insubstituíveis, o que seria deles sem nós, e que, convenhamos, nos insufla de felicidade e de propósito.

Foi tudo isto o que senti, não por tantas palavras, é certo, quando a Carmo acordou a gritar com pesadelos e veio a correr para o meu quarto aterrorizada. Abracei-a, deitei-a na minha cama e quis perceber o que a tinha assustado. É claro que, como nos acontece quando acordamos sobressaltados, também ela não tinha uma ideia precisa do que a perseguia. Acabou por construir uma história de piratas e monstros que, suspeito, considerou justificar a cena toda. Acabamos por adormecer abraçadas e de manhã sugeri-lhe que desenhasse os seus pesadelos num papel, que depois atirámos à lareira para que ardessem e se transformassem em inocentes cinzas. De caminho, e por causa das coisas, comprámos um espanta espíritos índio, que ficou pendurado no vão da janela.

Evitei, como avó, porque já aprendi alguma coisa como mãe, estabelecer um tribunal de inquisição, contra mim, e contra a criança. Muitas vezes os pais (e os avós) sentem que os pesadelos resultam de uma culpa sua, afinal não são eles os protetores últimos do sono dos seus filhos?, e desfilam erros cometidos: terão deixado os filhos ver demasiada televisão, jogar até muito tarde e jogos demasiado violentos, assistir a uma discussão que os poderá ter atemorizado, ou foi antes o quebrar do ritual do deitar… Motivos não faltam. Na ânsia de entender o que se passou, perguntam e tornam a perguntar, esmiúçam, e acabam por levar a criança a confessar uma mentira, na esperança de escapar à tortura.  Sim, que tiveram medo do monstro dos desenhos animados, sim que se assustaram porque acharam que os pais se iam embora, sim, meteu-lhes medo o cão grande com que se cruzaram naquela tarde. E aí os pais sossegam, acusam-se um ou outro e juram nunca mais expor a criança à mesma situação.

É claro que pode haver momentos de stress que desencadeiam noites assombradas, mas o que custa mais aos pais admitir, dizem os especialistas, é que a criança tenha uma vida mental própria, independente da dos seus queridos progenitores. Que pense coisas que não partilha com os pais, que dentro da sua cabeça exista um universo só seu. Mais ainda, que os pais não sejam o início e o fim de tudo o que acontece aos filhos, o que destrói a ilusão de que eles são apenas réplicas de si mesmos.
É difícil não tentar solucionar um pesadelo, ver um filho ou um neto assustado e não ter o antídoto preparado, mas é uma preparação para a autonomia. Então, o quê, ficamos a vê-los tremer como varas verdes, cruzando os braços? Eduardo Sá recomenda aos pais que combatam o acordar aterrorizado com o silêncio e um abraço apertado. Os vigilantes do seu sono marcam presença, é tudo o que importa que ela saiba. Acreditando que os pesadelos são a digestão da vida e fazem bem à saúde. Mas nunca propriedade dos pais.

Fonte

No tempo das reguadas

Julho 14, 2015 às 1:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Eram crianças no Estado Novo e agora são avós. Contaram aos netos como foi a sua vida na escola e fora dela. Os miúdos escutaram, registaram e fizeram um livro. Havia reguadas, mas também brincadeiras e solidariedade. Foi isso que os “jovens historiadores” escolheram transmitir.

Alunos de 14 e 15 anos entrevistaram os seus avós e ficaram a saber como era a escola primária de outros tempos. Dos 52 testemunhos, maioritariamente femininos, resultou o livro No Tempo da Escola das Nossas Avós (edição da Estuário Publicações). Um projecto que envolveu 90 alunos de 9.º ano e seis professores de História da Escola Secundária D. João II, de Setúbal.

“Era obrigatório ir à escola?”, “que matérias estudavam?”, “que acontecia quando se portavam mal?”, “como eram as salas de aula?”, “como iam para a escola?”, estas foram algumas das perguntas que os alunos fizeram às suas avós, que durante o Estado Novo (1930-1974) teriam entre seis e 12 anos.

“Queremos que os alunos se sintam historiadores. Aprendam a pesquisar, investigar, compilar. A melhor maneira de aprender é fazer, e os miúdos percebem imediatamente o essencial”, diz ao PÚBLICO Jaime Pinho, co-autor do texto e coordenador do projecto em conjunto com Alberto Lopes, ambos professores de História. Este último sublinhou, durante a apresentação do livro, num fim de tarde de domingo numa esplanada em Setúbal, “o prazer de participar num trabalho colectivo estimulante, que contribuiu para o conhecimento da comunidade e contou com o empenho de todos os professores de História”.

Um dos testemunhos recolhidos: “(…) A professora tinha, no canto da sala, uma cana-da-índia que era muito comprida e dura. Servia-se dela para nos bater nas mãos.” Outro: “Tinha uma régua que era de cinco olhos… e tinha um, dois, três, quatro buracos e outro no meio, cinco. Era redonda, apanhava a mão toda.” Outro ainda: “Éramos castigados por qualquer coisa. Se fizéssemos algum mal, ficávamos 10 minutos virados para a parede. Se fosse algo de grave, davam-nos reguadas, ou então uma chapada e não se podia fazer queixa aos pais, pois eles eram da opinião de que se o professor bateu ou castigou era porque tinha motivos.”

As respostas às entrevistas foram trabalhadas pelos docentes, dando origem a um texto colectivo organizado segundo alguns temas: Ambiente escolar, Métodos de ensino, Instrumentos de trabalho/tempos livres, Castigos, Relação escola/pais, Higiene, Diferenças de género, O primeiro dia de aulas, Instalações, Divertimentos, Trabalho infantil, Sociedade.

Título recusado
O título do livro foi alvo de discussão, e a proposta inicial (de que nos apropriámos para este artigo, No Tempo das Reguadas) não agradou aos alunos. Argumento: “As nossas avós não falaram só disso.” Os professores aperceberam-se de que os jovens não queriam um título “pela negativa”, respeitaram a vontade deles e escolheram outro, “mais neutro”.

No entender dos jovens historiadores em formação houve respostas positivas que interessava divulgar, como esta: “(…) Lembro-me de que a minha mãe me fez duas tranças e eu ia muito vaidosa com a minha mala nova, toda contente para a escola.” E esta: “Era uma alegria juntarmo-nos todos.” Ou mesmo esta, que descreve tão-só as aprendizagens: “1.ª classe, aprendi o abecedário, a ler e a escrever; 2.ª classe, aprendi a contar, fazer contas de somar, dividir, subtrair e de multiplicar e aprofundei a Língua Portuguesa; 3.ª classe, aprendi a resolver os problemas e a estudar pelo caderno de verbos. Na 4.ª classe, comecei a aprender Geografia, História e Ciências. A Língua Portuguesa e a Matemática tornaram-se mais complicadas.”

Também no livro se fala da solidariedade de alguns professores: “Para os que tinham maiores dificuldades económicas, o lanche era escasso e, por vezes, partilhavam o que a professora trazia.” E das brincadeiras: “Os recreios eram pátios de terra batida. (…) jogávamos ao mata, à calha (macaca), fazíamos rodas, cantávamos, conversávamos umas com as outras, saltávamos à corda e ríamos. Assim eram os nossos recreios.”

Nas ex-colónias, rapazes e raparigas brincavam juntos: “O recreio era um campo e brincávamos ali uns com os outros e juntávamo-nos aos rapazes.” Em Portugal, “os meninos e meninas estavam geralmente separados”. Tinham salas e horários diferentes.

Há descrições das salas de aula: “As paredes eram pintadas a cal e não havia aquecedores e muito menos ar condicionado. Quando chovia, passava muito frio ou então nem ia à escola porque não tinha roupa quente”; “numa das áreas da sala estavam duas fotografias, uma delas do Chefe de Estado Craveiro Lopes. Havia também uma cruz (…), cadeiras de madeira”.

Há relatos das férias: “As férias eram a trabalhar. Comecei a trabalhar com dez anos de idade. Agora há muitas férias, mas antes não havia.”

Há recordações dos caminhos até à escola: “Na província, íamos a pé para a escola. Chegava-se a andar 5km. Morava nos montes e não tinha companhia”; “o meu transporte era uma carroça e percorria em média 2km”.

Há informações sobre o abandono escolar: “A maioria abandonava a escola no final do 4.º ano”; “os pais podiam precisar que os filhos trabalhassem”.

Origens alentejanas e africanas
A Escola D. João II situa-se no limite urbano da cidade de Setúbal (bairro da Camarinha) e acolhe 1100 alunos (do 7.º ao 12.º ano) de famílias de classe média/baixa, muito diversificadas. Umas vivem em meio rural, outras são inteiramente urbanas e algumas têm origem africana, resume Jaime Pinho. Mas o Alentejo é uma das geografias mais presentes nas avós entrevistadas, daí o subtítulo do livro: Setúbal, Alentejo/ Estado Novo.

A grande dificuldade em encontrar fotos daquela região e daquele tempo fez com que se optasse por usar imagens de Américo Ribeiro (1906-1992), conhecido como “o fotógrafo de Setúbal”. Paulo Curto Baptista, responsável pela escolha das fotos e pelo design da obra, deu-nos conta dos seus critérios: “Foquei-me nos temas gerais do livro e, dentro do que pesquisei no Arquivo Fotográfico Américo Ribeiro [da Câmara Municipal de Setúbal], escolhi as imagens que tinham melhor composição e expressividade. Mas não há ligação directa com as pessoas entrevistadas.” O designer assume ainda: “Fugi daquelas fotos cheias de ‘burguesinhos’. Não espelham de todo a comunidade que aqui se queria retratar.”

Quem muito se orgulha sempre que sai um livro com imagens de Américo Ribeiro é Isabel Almeida, sobrinha e “afilhada de baptismo e casamento” do fotógrafo. “Ele foi ter connosco à África do Sul para ser nosso padrinho de casamento”, diz ao PÚBLICO, num pequeno compartimento que serve de escritório a uma mercearia tradicional, que explora com o marido, José Almeida, num bairro histórico da cidade (Fonte Nova).

A sobrinha do fotógrafo lembra como ele “gostava muito de viajar” e lamenta ter deitado “fora muitos negativos”, já que, na altura da sua morte, “não tinha noção da importância do que ali podia estar”. No entanto, guardou “alguns slides e duas máquinas fotográficas”. Sobre a simpatia ou não de Américo Ribeiro relativamente ao regime de então, diz nada saber. “O que sei é que ele trabalhava para a Câmara de Setúbal e para vários jornais: Setubalense, Diário de Notícias, Bola, Século. Assim que havia algum acontecimento importante, era o primeiro a ser chamado.”

Na ficha técnica do livro, escreve-se sobre Américo Ribeiro: “Fotógrafo profissional com loja no centro da cidade, respondia também a pedidos de reportagens fotográficas sobre eventos organizados pelo regime da época.”

O sonho de Alexandre Herculano
No Tempo da Escola das Nossas Avós – Setúbal, Alentejo/Estado Novo é o quinto livro que a Escola Secundária D. João II edita, contando sempre com a confiança e apoio da direcção da escola e seguindo invariavelmente o método de escutar de viva voz a experiência dos mais velhos. A segunda edição já está garantida, tendo a primeira, de mil exemplares, esgotado por estes dias (o livro custa cinco euros, está à venda em livrarias e papelarias da cidade e pode ser encomendado através da escola).

O primeiro projecto data de 1986 e teve como título A Vida e o Trabalho em Setúbal no Tempo dos Nossos Avós. O que mais sucesso de vendas obteve foi Quando a Tróia Era do Povo, em 2009 (5200 exemplares), que “beneficiou” de um contexto em que houve alterações na travessia do Sado e em que os cidadãos estavam apreensivos com as mudanças na península de Tróia.

Num outro livro, de 1993, Entre Urzes e Camarinhas As Festas da Arrábida e de Tróia, José Mattoso escreveu, na Introdução: “(…) Ocorre-me a esse respeito que [Alexandre] Herculano sonhou um dia escrever, em vez da história dos reis de Portugal, como se fazia até ao seu tempo, a história do povo português. Não sabia como. (…) Para poder escrever a história do povo português, teria de utilizar elementos do género dos que, neste livro, bem mais modesto do que o dele, afinal, se recolhem. A verdade é que ninguém depois de Herculano conseguiu realizar o seu sonho. Com dados como os que aqui se apresentam, talvez isso venha um dia a ser possível.”

Quando se fala deste elogio de José Mattoso, o professor Jaime Pinho fica entre o orgulhoso e o constrangido, mas reforça a ideia de que “é preciso fazer a história das pessoas, do povo e não apenas e sempre a história do poder”, lembra ainda que “as escolas têm um potencial enorme para o realizar, com tanta energia jovem e com uma grande concentração de professores de várias áreas do conhecimento, permitindo a interdisciplinaridade”. O que o investigador mais gostava era que outros colegas aplicassem o guião da entrevista semidirigida publicada no final do livro nas comunidades das suas escolas. Com ou sem adaptações.

Não foge às reflexões teóricas e críticas sobre a História baseada na oralidade, está consciente de que o afecto entre entrevistado e entrevistador pode enriquecer a informação transmitida, dando-lhe um cariz mais próximo e verdadeiro, mas sabe também que o mesmo pode aumentar a fantasia de quem relata. “Os avós podem querer agradar ou impressionar os netos.” Por isso, foi pedido aos alunos que transcrevessem os diálogos na totalidade, cabendo aos professores aferir e validar – aliando as ferramentas próprias das ciências sociais às suas experiências de investigação – a informação que poderia entrar neste retrato de época, de região e de comunidade.

Uma certeza Jaime Pinho tem: “Estes projectos deixam marcas positivas nos alunos, nos professores, nas famílias e na cidade.” E não quer deixar de estudar as vivências de “quem ainda as pode contar na primeira pessoa”. Por isso, na tal apresentação de fim de tarde, invocou a ideia de que, “quando morre um velho, é uma biblioteca que arde”. Mesmo que esse velho jamais tenha lido um livro.

 
No Tempo da Escola das Nossas Avós – Setúbal, Alentejo/Estado Novo
Textos: Alberto Lopes, Elisabete Isidoro, Natércia Gouveia, Jaime Pinho, Sara Pereira, Susana Nogueira
Coordenação: Alberto Lopes, Jaime Pinho
Design: Paulo Curto Baptista
Edição: Estuário Publicações
132 págs., 5€

 

Rita Pimenta para o jornal Público em 2 de Julho de 2015

 

Superavós. Criaram os filhos e agora educam os netos

Março 11, 2015 às 2:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia do i de 4 de março de 2015.

António Pedro Santos

Por Bárbara Marinho

Os avós já não substituem as creches no entanto continuam a ter um papel fundamental na vida dos netos e no apoio que prestam aos filhos

Os avós portugueses são entre os europeus os que mais tempo passam com os netos. Seja porque a crise se intrometeu na vida familiar ou porque os pais estão ocupados com o trabalho, o certo é que esta nova geração de avós tem um papel muito mais activo no crescimento dos netos, avisa o pediatra José Guimarães. É o caso de Leonor, agora com cinco anos. Passava os dias “e até as noites” com a avó Ilda desde os três meses, mas ao completar três anos foi para a pré-escola. “Deixou-me muita pena”, lamenta a avó Ilda, de 79 anos, recordando como passavam os dias a contar histórias e cantar-lhe muitas canções porque não queria que a neta fosse uma criança infeliz por conviver com uma velhota.

“A minha neta é como uma filha para mim, usufruo mais dela e acompanho todos os seus passos”, conta Ilda. O tempo que lhe sobra é o tempo que falta à mãe de Leonor por estar a trabalhar. É a avó portanto que ainda hoje vai todos os dias buscar a neta ao colégio, que está próximo da sua casa.

O recurso aos avós para cuidar das crianças a tempo inteiro tem muitas vezes razões económicas, mas não só. O estudo do “Fórum da Criança”, recentemente  divulgado, revela que dois em cada três avós dizem estar com os netos em casa durante o dia ou depois das aulas, assumindo um “papel primordial” na gestão do dia-a-dia das famílias, estando presentes nas rotinas diárias dos netos.

A importância dos avós é cada vez mais perceptível, conta o pediatra José Guimarães. E essa presença até se nota quando vê que são os avós que agora acompanham as crianças nas consultas. A crise tem tido um “impacto terrível “ no apoio financeiro: “Com as elevadas taxas de desemprego e com o aumento de emigração, os pais têm menos possibilidades de ajudar.” Apesar do convívio intergeracional ser fundamental, o especialista avisa que os avós devem ter apenas um papel “interventivo” sendo que os pais é que devem educar.

Será quase impossível pedir aos avós para não assumirem também o papel de educadores. Ilda Colaço é uma das principais figuras na vida da neta, mas ressalva que não se limita a fazer-lhe só as vontades: “É “é preciso educar sendo que quando digo não, explico-lhe sempre o porquê”.

E não é só um dos lados deste elo que sai a ganhar, admite a avó: “A Leonor é muito mais útil a mim do que eu a ela pois ajuda imenso, faz-me sentir feliz preenchendo-me, de outra forma, a minha vida seria muito mais parada e não teria muito para fazer”. Se há diferenças entra ela e a avó dela, Ilda não sabe explicar porque nem os chegou a conhecer, mas não duvida que esta nova geração de avós é muito diferente da anterior.

Se Ilda tem neste momento uma única neta para cuidar, a avó Antonieta TEVE sete e sabe que a proximidade que há hoje com os netos não é a mesma de antigamente: “Não existia essa intimidade nem passávamos tanto tempo com eles.”

Antonieta educou quase todos os seus sete netos pois o trabalho dos seus filhos não permitia que passassem mais tempo com as crianças. A maioria dos netos esteve com a avó até aos três anos e depois entraram para o infantário, por conselho do pediatra. Os netos foram crescendo, mas mesmo os mais velhos continuam a visitar a avó e a passar tempo com ela.

“Temos o mesmo amor de filho igual ao amor de netos mas com ainda mais responsabilidade por não serem nossos”, explica Antonieta, concluindo que “não se pode fazer todas as vontades às crianças: “Dou muitos mimos mas não ao ponto de estragá-los”.

E avós há muitos e para todos os gostos, dependendo de vários factores – idade, situação profissional, distância geográfica, entre muitos outros. A socióloga Maria Filomena Mónica diz até que “a ideia de estão a educar mais os netos hoje do que antigamente, é uma visão anacrónica pois as avós sempre educaram, uma vez que ficavam em casa”, explica.

E que peso têm os avós na personalidade dos mais novos? Depende sempre do tipo de avós, responde a socióloga.  “Se a avó é desleixada e passa a vida no cabeleireiro, não dará um bom exemplo para a neta mas, se por outro lado, for um bom modelo vai influenciar positivamente a neta”, refere. Maria Filomena Mónica explica ainda que “a educação dos filhos continua a estar muito mais associada à mãe do que ao pai sendo que as mães abdicam muito mais da carreira do que os pais.

 

 

Dois terços dos avós ficam com os netos em casa de dia ou depois das aulas – Estudo

Fevereiro 24, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 22 de fevereiro de 2015.

Darek Delmanowicz EPA

 

Agência LUSA

Dois em cada três avós inquiridos num estudo dizem estar com os netos em casa durante o dia ou depois das aulas, assumindo um papel essencial na educação das crianças.

Dois em cada três avós inquiridos num estudo que tentou perceber os comportamentos dos jovens e como vivem dizem estar com os netos em casa durante o dia ou depois das aulas, assumindo um papel essencial na educação das crianças. Segundo o estudo Fórum da Criança, que será divulgado na terça-feira no seminário “Kids & Teens”, em Lisboa, os avós assumiram um “papel primordial” na gestão do dia-a-dia das famílias, estando presentes nas rotinas diárias dos netos.

O estudo, que será apresentado num seminário subordinado ao tema “A Reinvenção da Família Alargada”, refere que cerca de 72% dos pais inquiridos elegeram os avós como os principais parceiros na educação dos filhos, uma vez que os acompanham nos estudos, nas atividades extracurriculares e na comunicação digital, que também tem um “poder crescente” na vida dos mais novos. Mas também assumem um papel essencial enquanto suporte financeiro, ajudando muitas vezes economicamente os pais na criação dos seus filhos.

Mais de metade (56%) dos avós diz que compra algumas roupas e calçado para os netos, refere o estudo, que teve início em 2005 e já envolveu cerca de 6.000 crianças, 1.700 pais e, na última edição, em 2014, incluiu os avós.

“Com a crise económica que se instalou começámos a reparar claramente que os hábitos das famílias alteraram-se”, com os avós a assumirem “um papel muito relevante nas famílias, não só a nível de acompanhamento das crianças, como na ajuda na compra de roupas e até bens alimentares”, disse à agência Lusa Leonor Archer, responsável pelo Departamento de Marketing Infantil da Brandkey, empresa promotora da sétima edição do seminário em parceria com a Ipsos Apeme. “São um apoio fundamental para os pais e têm um papel funcional na educação dos netos, ao mesmo tempo que também têm laços muito fortes”, sustentou Leonor Archer.

Questionado pela Lusa sobre a importância desta ligação entre avós e netos, o pediatra Mário Cordeiro disse que “o convívio intergeracional é fundamental”, considerando que “não é concebível uma sociedade com tecido social fraturado e com lacunas nas suas diversas componentes”. Mário Cordeiro adiantou que “os avós podem transmitir sabedoria”, resultante da sua experiência de vida e que vai “dar sentido à informação que as crianças hoje recebem em catadupa”.

Além disso, frisou, “é bom o contacto humano, calmo, tranquilo, mas firme e com regras e afeto, que os avós podem transmitir aos netos”. “As pessoas continuam a ser de carne e osso e as relações interpessoais não se podem reduzir a ‘avatares’ no Facebook”, sustentou.

Por outro lado, para os avós, “os netos são a garantia da continuidade, da sua vitória sobre a morte e da eternidade do seu desígnio de vida”, porque “ajudam a rever o passado, a contemplar o presente e a garantir-lhes que terão futuro, mesmo que a morte sobrevenha”, salientou Mário Cordeiro.

O estudo salienta também a importância que a televisão, a Internet e o telemóvel têm na vida das crianças e dos jovens, referindo que três quartos dos jovens inquiridos têm acesso à internet e, destes, nove em 10 fazem-no em casa. Os dados indicam que 52% das crianças usam o ‘Facebook’ sobretudo para jogar e falar com os amigos e que seis em cada dez têm telemóvel, sendo a maior proporção no 3º ciclo (8 em 10).

Leonor Archer salientou o facto de a televisão continuar “a ter um papel tão relevante” na vida das crianças e dos jovens, o que está relacionado com “o aumento da penetração dos operadores de cabo com os canais temáticos”.

 

 

 

 

 

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