Mediação familiar: uma solução bem sucedida em casos de rapto parental

Outubro 15, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

mais informações no link:

http://missingchildreneurope.eu/mediator/news/categoryid/0/documentid/40

Em Portugal o 116 000 foi atribuído ao SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança. Mais informações aqui 

Crianças Desaparecidas na Europa: Crianças que fogem de situações complicadas em casa

Maio 25, 2017 às 12:30 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , ,

Por ocasião do Dia Internacional das Crianças Desaparecidas, celebrado a 25 de maio por todo o mundo, a Missing Children Europe (MCE) http://missingchildreneurope.eu/ lançou o seu relatório “Números e Tipologias de 2016”. Este relatório revela a evolução das tipologias que vão aparecendo nas diversas Linhas de Apoio 116 000 por toda a Europa.

O Instituto de Apoio à Criança faz parte do conjunto de ONG que em 2001 fundou a Missing Children Europe, Federação Europeia das Crianças Desaparecidas e em 2004 criou uma linha específica no âmbito do SOS Criança para atendimento nestes casos tão complexos do desaparecimento e exploração sexual de crianças. Quando em 2007, a Comissão Europeia criou o número único europeu, o Ministro da Administração Interna, reconhecendo o trabalho do IAC nesta área, atribuiu ao SOS Criança  essa linha telefónica com o nº 116000, que é igual em todos os Países da União Europeia.

As Linhas de Apoio às crianças desaparecidas, associadas à MCE, estão acessíveis através do número 116 000 em 31 países da Europa. Desde 2015, esta rede de parceiros tem apoiado um número cada vez maior de crianças. Em Portugal, é o Instituto de Apoio à Criança que desde 2004 atende estas chamadas com uma equipa multidisciplinar disponível para prestar apoio emocional, psicológico e legal às crianças e suas famílias.

Em 2016 houve um aumento de 12% no que toca aos apelos recebidos de crianças, comparativamente ao ano anterior. Os contactos duplicaram devido a canais de informação como SMS, EMAIL e CHAT.

Em 2016, as fugas representaram 57% dos casos reportados às linhas 116000. Os raptos parentais foram o segundo grupo, com 23% dos casos.

De acordo com os relatórios divulgados pela UNICEF e INTERPOL, mais de 50% de crianças migrantes desaparecem dos seus centros de recolhimento na Europa em menos de 48 horas. Os casos de crianças migrantes aumentaram em 2% em 2015 e 7% em 2016. Os números poderiam ser maiores, mas a falta de clareza nos papéis e responsabilidades das autoridades na prevenção e resposta a este grupo particularmente vulnerável de crianças constitui uma grande preocupação, pois existe pouca proteção e resposta para os mesmos.

Os raptos criminais constituem menos de 1% dos casos reportados em 2016, enquanto que a tipologia perdidos/outra forma de desaparecimento constitui 13% do total das situações.

Um em cada cinco casos de crianças desaparecidas são de natureza transfronteiriça, revelando-se assim a importância da colaboração e cooperação entre os governos nacionais, as linhas de apoio, as forças policiais e outros serviços de proteção infantil, bem como com os mediadores de conflitos familiares internacionais.

Em 2016, 42% dos casos de crianças desaparecidas que foram reportados às linhas 116 000 foram encontrados no mesmo ano, número inferior ao de 2015, que foi de 46%.

Enquanto mais crianças foram localizadas nas outras quatro categorias (raptos parentais, crianças perdidas, crianças migrantes não acompanhadas) regista-se um decréscimo significativo no número de crianças em fuga que foram encontradas, de 57% em 2015 para 46% em 2016.

Também relevante é o número acrescido de crianças que fogem três ou mais vezes consecutivas. Isto chama a atenção para um grupo vulnerável de crianças e jovens cujos problemas, em casa ou com outras razões para fugirem, persistem após a primeira fuga.

As crianças, que fogem repetidamente, são forçadas a usar estratégias cada vez mais arriscadas para sobreviver, tais como dormir na rua e mendigar, expondo-se assim ao risco da exploração sexual.

As Linhas de Apoio de alguns países (Bulgária, Chipre, Grécia, Roménia, Sérvia, Eslovénia e Espanha) não receberam qualquer apoio financeiro dos seus governos nacionais em 2016. Noutros países, o financiamento das autoridades nacionais apenas suportou metade dos orçamentos necessários.

O financiamento é o principal desafio para a rede de Linhas de Apoio, que se deparam com o risco de falta de recursos humanos ou de ter de encerrar por não terem apoios e formas de subsistir.

As Linhas de Apoio 116000 responderam a mais de um milhão de apelos relativos a crianças desaparecidas desde 2011.

Em 2016, quinze Linhas de Apoio receberam um subsídio da Comissão Europeia, que teve início em meados de 2016 e que terá a duração de 24 meses.

Ler o relatório estatístico (números e tipologias) do MCE de 2016 :

http://missingchildreneurope.eu/Portals/0/Docs/Annual%20and%20Data%20reports/Missing%20Children%20Europe%20figures%20and%20trends%202016.pdf

Vídeos de campanhas do MCE pelo youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=ARTDAYLmIWE

https://www.youtube.com/watch?v=cAsm63Craik

Texto traduzido e retirado da Press Release do MCE para divulgação a partir de 25 de maio 2016

Para assinalar o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas, o IAC leva a cabo mais uma Conferência. Este ano será a X Conferência Crianças Desaparecidas, que terá lugar na Assembleia da República, no dia 30 de maio.

Para aceder ao programa, entre no link:

http://www.iacrianca.pt/index.php/atualidades/noticias/item/878-x-conferencia-criancas-desaparecidas

TEXTO INTEGRAL para download

 

 

 

Figures and trends 2015 : from hotlines for missing children and cross-border family mediators – relatório da Missing Children

Maio 25, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

figures

descarregar o relatório no link:

missingchildreneurope.eu/Portals/0/Docs/Annual%20and%20Data%20reports/Missing%20Children%20Europe%20figures%20and%20trends%202015.pdf

ou

http://missingchildreneurope.eu/catalog/categoryid/24/documentid/409

A child is reported missing every 2 minutes in Europe. To support children and families at this crucial and challenging time, a network of hotlines for missing children was gradually set up in 29 countries in Europe operated through the same number – 116 000. The hotline provides free, professional support 24 / 7 to anyone calling the hotline. Data collected from this network of hotlines every year enables a better understanding of the issues affecting missing children and allows for the development of projects that are relevant to these needs. Most of the data collected in this report is from this network of European hotlines for missing children. 2015 has been a particularly challenging year for the hotlines. Funding from the European Union to national hotlines was discontinued in 2015 which led to a huge drop in the budget available and the number of staff members handling missing children cases. The hotlines have nevertheless continued to respond to thousands of calls.

Em Portugal o 116 000 foi atribuído ao SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança. Mais informações aqui 

Custódia, adoção, rapto parental: PE apela à salvaguarda do interesse superior da criança em casos transfronteiriços

Maio 9, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Custódia, adoção, rapto parental: PE apela à salvaguarda do interesse superior da criança em casos transfronteiriços

O Parlamento Europeu fez hoje uma série de recomendações aos Estados-Membros e à Comissão com vista a assegurar que o interesse superior da criança ocupe o lugar central na resolução de casos transfronteiriços relacionados com a custódia ou a adoção. Estas recomendações dão seguimento a numerosas petições sobre a custódia de menores, o rapto parental, a assistência à infância e as práticas dos serviços sociais que a comissão das Petições do Parlamento Europeu tem vindo a receber nos últimos anos.

O elevado número de petições sobre casos relacionados com crianças indica a existência de “graves problemas” na aplicação do regulamento europeu relativo à competência, ao reconhecimento e à execução de decisões em matéria matrimonial e de responsabilidade parental, diz a resolução parlamentar.

A futura revisão deste regulamento seria “uma boa oportunidade para melhorar as respetivas disposições” e colmatar as atuais lacunas, afirma o Parlamento Europeu, salientando que as questões relativas à custódia de crianças têm “um impacto significativo na vida de todas as pessoas envolvidas e na sociedade, em geral”.

Na UE, cerca de 13% dos casamentos são considerados internacionais: casais de diferentes nacionalidades, casais a viver separados em países diferentes ou a viver juntos num país diferente do seu país de origem.

Melhor acompanhamento dos casos que envolvem crianças

Os eurodeputados sugerem que todos os países da UE designem secções especializadas nos tribunais de família ou organismos de mediação que lidem com processos transfronteiriços relativos a menores, salientando que “um acompanhamento adequado da situação na fase posterior à sentença é crucial, nomeadamente quando se trata do contacto com os progenitores”.

Os Estados-Membros devem também assegurar que as embaixadas ou as representações consulares sejam informadas desde o início sobre todos os processos relativos a cuidados infantis que envolvam os seus nacionais.

Os eurodeputados propõem a criação de uma plataforma que proporcione apoio a cidadãos da UE nacionais de outros Estados-Membros nos processos relativos à família, a par de uma linha única europeia para casos de rapto ou abuso de crianças, e o aconselhamento em matéria de prestação de cuidados e procedimentos para adoção.

O PE pede aos Estados-Membros que estabeleçam mecanismos de acompanhamento e avaliação – com estatísticas socioeconómicas discriminadas por nacionalidades – no âmbito de um “quadro nacional de coordenação dos casos transfronteiriços que envolvem crianças”. A Comissão Europeia deverá coordenar a transferência de informações entre as autoridades nacionais.

O PE insta também os países da UE a reforçarem e a melhorarem a cooperação dos respetivos poderes judiciais, lembrando a obrigação de as autoridades nacionais reconhecerem e executarem as decisões proferidas noutro Estado-Membro em casos relacionados com crianças.

Interesse superior da criança deve estar no centro de todas as decisões

“O interesse superior da criança tem de ocupar o lugar central em todas as decisões relativas a questões que se prendem com os cuidados infantis, a todos os níveis”, sublinha a resolução.

As crianças cujos pais exercem o direito à livre circulação têm o direito de manter regularmente relações pessoais e contactos diretos com ambos os progenitores, exceto se isso for contrário aos seus interesses, diz o PE.

Os eurodeputados exortam os Estados-Membros a garantirem aos pais direitos de visita regular, exceto nos casos em que tal prejudicaria o interesse superior da criança, e a permitir-lhes que utilizem a língua materna para comunicar com os seus filhos durante as visitas.

O PE recomenda também audições separadas dos pais e das crianças perante juízes, peritos ou assistentes sociais, a fim de “evitar que as crianças sejam influenciadas ou sejam vítimas de conflitos de lealdade”.

Os prazos para a duração de cada fase dos processos transfronteiriços relativos a cuidados infantis devem ser fixados de modo a que os membros da sua família alargada disponham de tempo suficiente para apresentar o pedido de adoção da criança ou que os pais possam resolver os seus problemas e propor alternativas sustentáveis antes da decisão final de adoção, diz a resolução. “Antes de optar por qualquer solução permanente, tal como a adoção, há que reavaliar a situação da família biológica”, sublinha.

O PE insta os Estados-Membros e a Comissão a legislarem sobre o reconhecimento das adoções nacionais, tendo em conta o interesse superior da criança e respeitando o princípio da não discriminação (atualmente, não existe a nível da UE um mecanismo que preveja o reconhecimento automático das decisões de adoção nacionais emitidas por outros Estados-Membros).

Os eurodeputados apelam às autoridades nacionais envolvidas nos processos de adoção que façam todos os esforços possíveis para evitar a separação de irmãos.

Serviços sociais e família

Os eurodeputados exortam os Estados-Membros a adotarem uma “abordagem preventiva” para “evitar, sempre que possível, os procedimentos de assistência”, introduzindo sistemas de alerta rápido e mecanismos de monitorização, e proporcionando “apoio adequado às famílias, enquanto primeiras prestadoras de cuidados”, sobretudo nas comunidades vulneráveis que apresentam um risco de exclusão social.

O PE realça que “a avaliação adequada dos casos individuais em questões relacionadas com a família não deve ser prejudicada por cortes orçamentais devido a medidas de austeridade, nomeadamente no que toca à qualidade dos serviços sociais”.

 

Comunicado de imprensa do Parlamento Europeu em 28-04-2016.

Rapto parental transfronteiriço de crianças – Vídeo

Agosto 24, 2015 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Raptar um filho – Reportagem Especial da SIC

Agosto 5, 2015 às 7:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Reportagem Especial da SIC de 4 de agosto de 2015.

Para ver a reportagem clicar no link:

http://sicnoticias.sapo.pt/programas/reportagemespecial/2015-08-04-Raptar-um-filho-

sic

Todos os anos, em Portugal, há uma média de 80 casos de raptos parentais internacionais. A convenção de Haia foi criada precisamente para ajudar o outro progenitor a recuperar o seu filho, mas a batalha legal, que envolve países estrangeiros, pode ser longa e dolorosa. Na Reportagem Especial contamos a história de um pai que há 3 anos luta para voltar a ver a filha.

 

Missing Children Europe: Here to help – vídeo

Junho 9, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Publicado a 24/05/2015

A child is reported missing every 2 minutes in the EU.

But who are these missing children? Over 50% of missing children cases reported to the 116 000 missing children hotline network are those of children running away from home or care institutions, another 37% are of children abducted by a parent while 1% of missing children cases are those of unaccompanied migrant children and criminal abductions respectively. 25% of these cases involve a cross-border element and therefore require coordinated cross border cooperation and support. This is the role played by Missing Children Europe. Missing Children Europe and its members ensure that support is available to missing children and their families across borders 24/7.

Missing Children Europe is the European federation for missing and sexually exploited children representing 30 grassroots NGOs in 24 countries in Europe who work directly with missing children and their families. This International Missing Children’s day, help protect missing children by saving the European missing children hotline number- 116 000 – in your phone. This hotline provides free, professional support to children and families facing child disappearances 24/7.

Together, we can create a safer Europe for children.

Cross-border Parental Child Abduction in the European Union – Estudo do Parlamento Europeu

Maio 14, 2015 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

cross

descarregar o estudo:

http://www.europarl.europa.eu/thinktank/de/document.html?reference=IPOL_STU%282015%29510012

Training in Cross-Border Family Mediation – curso de formação da Missing Children Europe em Sesimbra

Maio 7, 2015 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

crossmais informações:

http://missingchildreneurope.eu/news/Post/873/Join-the-network-of-Cross-Border-Family-Mediators

A prenda que fica por dar

Janeiro 1, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

texto da Visão de 20 de dezembro de 2014.

Há cada vez mais crianças impedidas de ver um dos seus pais pelo outro progenitor. Nos tribunais, sucedem-se as lutas, as denúncias de rapto, as súplicas por um simples telefonema. Em dezembro, o desespero é ainda maior.

Rita Ferreira

Era uma vez um pai que não via a filha há nove meses. Tudo começou quando, no final de umas férias em família, no Brasil, a mãe, brasileira, decidiu que não regressava a Portugal e que a criança de 3 anos ficaria com ela. Dois meses depois, o pai voltou ao Brasil e recebeu a notícia: a mulher queria o divórcio e não deixava a criança voltar. Zangada, moveu-lhe um processo por maus tratos e por afastamento do lar. Condenado em primeira instância e proibido de ver a criança, recorreu e o tribunal de segunda instância brasileiro anulou a primeira sentença.

De volta a Portugal, o pai moveu um processo para regulação parental. Tentava ligar para o Brasil mas as chamadas caíam, ou não eram atendidas. Enviava presentes que nunca eram entregues. Até que decidiu partir novamente. Acompanhado do advogado, conseguiu que uma juíza ordenasse que a criança fosse levada, naquela hora, ao tribunal, para o pai a ver. Os olhos de Francisco (nome fictício, como o são todos os nomes de pais e crianças referidos no texto) brilharam. “Foi um momento lindo. Estivemos duas horas juntos, sempre a brincar. Abraçámo-nos tanto… os funcionários que presenciaram o encontro relataram que a nossa relação estava intacta.” Era dezembro, mês de Natal e de presentes, de contos de fadas e de princesas. E para a princesa Maria, o pai tinha levado uns sapatos da Cinderela. Mas ela tinha crescido tanto que já não lhe serviam. Ficaram os sapatos na caixa e o pai voou para Portugal.

Passaram mais 742 dias até que Maria voltasse a casa do pai. Tinha seis anos. “Quando chegou, vasculhou a casa toda à procura da outra família que lhe tinham dito existir, e que não encontrou”, conta o pai. Vinte e três dias depois foi-se embora, para regressar em julho. “Sempre que minha filha veio, tive de acionar os mecanismos internacionais de rapto para garantir que ela entrava no avião. Ainda assim, nesse julho de 2013, deveria cá ter estado 15 dias e só ficou oito. Neste verão, como houve o Mundial no Brasil, ficou cá quatro semanas. Agora, é suposto chegar no dia 13 para passar o Natal comigo, pela primeira vez em quatro anos.”

Francisco conseguiu, durante todo este tempo de ausência, falar com a filha quase diariamente. No início, inventaram uma família. Ela tinha três anos e o pai arranjou uns fantoches de dedo que formavam a família das sopas: havia o rei das sopas, a rainha careca, a filha consomé e o filho shot. Mais tarde, juntaram-lhe o Cavaleiro da Noite, que era malvado, e que aparecia sempre que Maria dava o “sinal de boicote”, ou seja, que alguém iria desligar a ligação. “Chegámos a estar quatro horas no Skype”, conta. Nunca é ele quem termina a chamada, é Maria quem lança a frase-chave: “Tem um dia feliz.” ?E desligam.

O drama de ser alienado

Francisco é um dos muitos pais e mães que travam batalhas nos tribunais – sempre longas e muitas vezes inglórias – para verem os filhos que o outro progenitor decidiu “alienar”. É assim que comummente se designam estas situações: alienação parental. Uma figura que “não existe na lei e que representa uma série de comportamentos de um progenitor que, ao mesmo tempo que tenta denegrir a imagem do outro, não deixa o pai ou a mãe ver os filhos”, explica Jaime Roriz, advogado ligado à Associação Pais Para Sempre. Nestas situações, só há dois caminhos: ou pedir nova regulação parental ou comunicar pedidos de incumprimento quando um dos progenitores não faz o estabelecido pelo tribunal. “Em cerca de mil casos, consegui quatro condenações. Uma delas, de uma mãe que, por dois anos de incumprimento, foi multada em cem euros. Recorreu para a Relação, que baixou a multa para 50 euros”, revela Jaime Roriz, considerando não só que os tribunais não dão garantias às crianças nesta situação, como que as punições são tão absurdas que infringir compensa. Vai mais longe, dizendo que muitos magistrados – principalmente nos casos em que os alienadores são as mães – tratam o assunto como  há uns anos se tratava a violência doméstica: “Resolvam lá isso entre os dois.”

O juiz António José Fialho, que trabalha no Tribunal do Barreiro, também defende a criação de uma figura jurídica que classifique estes comportamentos. “A maioria dos tribunais trata estes casos como simples incumprimentos dos acordos de regulação parental, quando são muito mais do que isso: são um afastamento deliberado e injustificado. E a garantia de execução é ainda mais complexa. Não se pode fazer isto com a polícia, porque é ainda pior para a criança.”

Ricardo Simões pertence à Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e não acredita que o problema esteja na lei, mas no modelo de intervenção: “Os tribunais têm de estar centrados nos problemas das crianças e não na lógica da divisão.” A chave, acredita, é a mediação familiar. Dá o exemplo de França, onde esta existe dentro do tribunal, e o da Bélgica, onde os pais só chegam à sala de audiências depois de ultrapassados os conflitos. “Quando a regra for a de que a criança deve conviver de forma tendencialmente igualitária com o pai e com a mãe, os conflitos vão diminuir”, defende.

Portas trancadas

João e a companheira separaram-se pouco tempo depois de ela engravidar. Foi a avó da criança que lhe telefonou a dar a notícia: a bebé ia nascer. Correu para o hospital e, durante os primeiros seis meses da filha Carolina, conseguiu visitá-la três vezes por semana, em casa da mãe. Em novembro, mudança de planos: duas visitas semanais em casa da ama. “A bebé chorava nos meus braços e eu achava que não havia contacto suficiente para ela se sentir bem comigo.” Duas semanas passaram e nova sentença saiu da boca da mãe: “Não passes tanto tempo em casa da ama que ela não se sente confortável.” Mais uma vez, João acatou.

Até que, um dia, recebeu uma carta do tribunal, para regulação do poder parental. “Nem levei advogado e chegámos a um acordo: duas visitas semanais em casa da ama, das 14 às 16 horas – o que era difícil, estando a trabalhar, mas lá consegui -, visita anual no aniversário e nas manhãs de domingo, de 15 em 15 dias, na casa da ama também. A guarda e a responsabilidade parental eram da mãe.” Foi nesta altura que João começou a parar para pensar: “Senti que fui tratado naquele tribunal como um irresponsável, ou um toxicodependente ou um ex-presidiário.” Mas acatou.

Tudo se complicou quando a bebé foi batizada às escondidas do pai. Ele foi a casa da mãe, ela não lhe abriu a porta. Ele bateu com mais força, ela ameaçou chamar a polícia. Ele bateu com mais força ainda – “pensei que a polícia me pudesse ajudar a ver a minha filha”. A polícia chegou e mandou-o embora.

Num dos domingos em que quis levar Carolina a dar um passeio, a ama trancou-o em casa. Quinze dias depois, nova tentativa. ?A ama acabou por ceder, mas assim que João abriu a porta do elevador “apareceu a avó da criança aos gritos, acompanhada da polícia”. A partir daqui, a porta não mais se abriu. João ia todos os dias a casa da ama, para fazer cumprir a ordem do tribunal, que carregava sempre consigo. E decidiu-se, finalmente, a procurar um advogado. Nove meses se passaram sem que visse a filha. No Natal do ano passado, com um boneco na mão, foi a casa da avó, para ver Carolina. Não atenderam o telefone, não abriram a porta e João foi à esquadra, com a ordem do tribunal. “Quando lá cheguei, ouvi no intercomunicador da polícia: ‘O suspeito já não se encontra junto da residência’. O suspeito era eu.”

Desistir, jamais

Os primeiros seis meses de divórcio de Joana correram normalmente. Tinha guarda partilhada com o ex-marido, e as crianças (Catarina, 12 anos, Pedro e Martim, de 10) passavam semanas alternadas em casa de cada um dos pais. “Nas primeiras férias, em agosto, foram com o pai para o Algarve por dez dias. Um dia, recebi um telefonema da minha filha, dizendo que não voltavam mais. Durante dois meses e 16 dias não soube onde estavam e avancei com uma providência cautelar para fecharem as fronteiras. Durante esse tempo, só tinha contacto com o pai. Enviava-me e-mails a dizer que estava tudo bem e que se encontravam nesta ou naquela zona do país”, recorda.

Joana sabia que as crianças teriam de voltar para a escola e, no primeiro dia de aulas, lá estava, como encarregada de educação. “Quando chegaram, não quiseram cumprimentar-me. A Catarina chorava.”

Em outubro, começou a saga do tribunal. Quando a filha mais velha entrou na sala, com um papel na mão para ser ouvida pelo juiz, achou que estava a dar uma pista para que alguém entendesse que ela estava instruída. Mas ninguém percebeu. O juiz decretou que as crianças ficavam com o pai – tendo em conta as palavras de Catarina e o facto de estarem com o pai há três meses – e que a mãe teria direito a visitas aos fins de semana de 15 em 15 dias.

O terror passou para dentro de casa. “Quando o pai os trazia, eles agiam em bloco. Não saíam do quarto, não almoçavam, não jantavam à mesa, iam juntos à casa de banho e diziam que me odiavam”, conta. Depois foi acusada por três vezes de violência contra as crianças. Das três vezes, as queixas foram arquivadas. Mas tudo piorou. Ainda mais. As visitas foram reduzidas para um domingo de duas em duas semanas, sem pernoita.

Mais tribunal, mais correrias. Todos os dias Joana ia à escola ver os filhos. E todos os dias eles a ignoravam. Nova decisão judicial. Fins de semana de 15 em 15 dias e mais uma quarta-feira. “O que eu queria era um acordo que ele cumprisse”, desabafa Joana. Até que, num desses fins de semana, Catarina não quis voltar para o pai. “Fiquei aflita, disse-lhe que tinha de ir, o tribunal mandava, mas ela insistiu e está comigo há quatro meses e meio.” Os rapazes continuam com o pai e deixaram de falar à irmã na escola.

A filha começou a contar o que se passava no outro lado da barricada. “Disse-me que pediu ao meu ex-marido: ‘eu só quero ter pai e mãe’. Ele respondeu-lhe que ela só precisava de ter pai.” Os rapazes, agora com 13 anos, nunca mais voltaram a casa da mãe. Mas a mãe vai todos os dias à escola vê-los. E telefona. “É horrível. A chamada está em alta voz e eles tratam-me mal ao pé do pai. Não me chamam mãe. Sou a ‘olha’ ou ‘a outra’. Quatro meses sem tocar num filho é muito tempo. Vê-los ao longe é muito duro. O Pedro cresceu tanto…”

Se não houver uma alteração de guarda, Joana não vê fim à vista para o pesadelo. Acredita piamente que os filhos sabem que não desistirá deles. “Nunca tive férias com os meus filhos rapazes desde a separação. Nunca passei um Natal com eles. Mas não tenho nenhuma dúvida de que eles estão comigo.”

Debaixo da árvore

Joana já sabe que só terá Catarina com ela no Natal. João aguarda, com ansiedade, a chegada de dia 25, em que, por ordem do tribunal,  poderá estar com a sua filha Carolina entre as 10 e as 17 horas.

Maria deve aterrar no aeroporto de Lisboa no dia 13. “Está tudo pronto para quando ela chegar”, explica Francisco, que, mais uma vez, acionou os mecanismos de rapto internacional e tem na mão uma sentença definindo que a criança tem de vir passar o Natal com o pai. Pela primeira vez, em quatro anos.

“Virá mesmo?”, pergunta Francisco, já emocionado, a pensar na coleção de bonecas Ever After High, já embrulhada para lhe oferecer. Depois, limpa um resto de lágrima e lembra-se do que a Cinderela dos pés grandes lhe disse um dia: “Não te preocupes, pai. Se as coisas não estão bem, é porque a história ainda não acabou.”

 

 

 

 

 

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.