Quedas de crianças. Os casos que foram notícia

Março 1, 2016 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Observador de 19 de fevereiro de 2016.

Kevin Frayer Getty Images

Hugo Tavares da Silva

Janelas abertas, poços destapados, um insuflável que voou com o vento. Estes são alguns dos casos em que as quedas de crianças tiveram o pior desfecho.

Distrações, negligência, ou puro acaso aliado à má sorte. Entre 2000 e 2013 registaram-se 109 mortes de crianças em consequência de quedas. Falta juntar a este número os casos de 2014 e 2015, alguns deles noticiados pela comunicação social, que assim ajuda quem estuda estas matérias a “identificar alguns dos padrões de ocorrência deste tipo de acidentes (local do acidente, atividade no momento do acidente, parte do corpo lesionada, produtos envolvidos)”. “Este conhecimento mais aprofundado, que não surge nos dados referentes à mortalidade e internamento, é essencial para uma boa definição de estratégias de prevenção, assim como para o estabelecimento de prioridades de intervenção”, lê-se no relatório publicado pela Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI).

Recordamos aqui alguns casos que chegaram à imprensa nos últimos anos. Todos eles tiveram o pior dos desfechos.

Tinha quatro anos e uma movimentação repentina junto à janela, quem sabe atraído pela cortina, foi trágica. Gonçalo, filho único de um casal que vivia em Gaia, estava a brincar na sala com os familiares por perto. “Foi coisa de segundos. Foi tudo muito rápido, o avô ainda tentou, mas já não conseguiu agarrá-lo”, contou ao Jornal de Notícias o tio da criança. Os bombeiros de Lourosa ainda tentaram a reanimação, mas sem sucesso. Foi em junho de 2015.

Segundo a Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), morrem nove crianças por dia vítima de quedas. Entre 2000 e 2013, 109 crianças perderam a vida e mais de 60 mil foram internadas na sequência de quedas. As varandas e as janelas são os elementos mais repetidos nas quedas. Em Portugal, 4% das mortes acidentais que envolvem crianças têm origem em quedas e essa é também a principal razão para a ida às urgências e internamentos das mesmas. Na Europa, os números são igualmente alarmantes: qualquer coisa como 1500 crianças morrem todos os anos na sequência de quedas. O assunto volta a estar na ordem do dia devido à morte de uma criança depois de uma queda do 21.º andar, no Parque das Nações, em Lisboa.

Há sensivelmente cinco anos, a queda de uma manequim brasileira de um 15.º andar encheu as páginas dos jornais. Jeniffer tinha 17 anos e, segundo a história contada pelo Público, a sua vida envolvia traições, festas, álcool e luxo. E violência também — alegadamente chegou a ser agredida pelo namorado — que, aliado ao testemunho de uma amiga da modelo, levantou dúvidas quanto à tese do suicídio. O pai não acreditava nessa possibilidade, mas a mãe admitia ser possível. A queda fatal aconteceu também num prédio do Parque das Nações, tal como a tragédia desta sexta-feira.

Em maio de 2014, Diogo caiu numa caixa de saneamento na aldeia de Viduedo, em Bragança. “Fomos chamados ao local, mas a criança já tinha sido retirada da caixa, por alguém que não os bombeiros e estava em paragem cardiorespiratória”, revelaram os bombeiros de Bragança ao Diário de Notícias. O menino de dois anos acabaria por morrer no hospital. Segundo o JN, a criança estaria a brincar quando caiu na caixa com cerca de 80 centímetros. “Como a criança é muito pequena, facilmente entrou na caixa”, referiu ao JN José Fernandes, comandante dos Bombeiros de Bragança.

“O relatório da APSI revela mais dados sobre as mortes na sequência de quedas entre os anos de 2002 e 2012: foram 74. A maior parte das mortes ocorreram com crianças e jovens do sexo masculino (77%), com idades entre os 15 e 19 anos (34%). As crianças até aos quatro anos representam 31% das fatalidades, enquanto entre os 5-9 anos e os 10-14 representam 19% e 16%, respetivamente.

No Caniço, Funchal, viveu-se um drama semelhante em maio de 2015. Uma menina de oito anos estava a brincar com um insuflável, num parque de estacionamento de um restaurante. O vento levou o insuflável e a criança caiu de uma altura de oito metros. As lesões sofridas eram graves, com múltiplos traumatismos, incluindo um traumatismo craniano, e a criança acabaria por não resistir no Hospital Dr.º Nélio Mendonça, na capital madeirense.

Em janeiro, uma menina caiu de uma altura de 30 metros (12.º andar), em Alfragide, Lisboa. Beatriz vivia com o pai e acabara de chegar de um período de férias com a mãe e avós. Num domingo como outro qualquer, depois de dizer à filha para fazer os trabalhos de casa, segundo conta o Correio da Manhã, o pai não encontrou a filha na sala, restando-lhe procurar no quarto. A janela estava aberta… As autoridades colocaram em cima da mesa então as possibilidades de suicídio e queda acidental. Beatriz tinha 12 anos.

“46% das 109 mortes registadas pela APSI aconteceram devido a uma queda de altura elevada: 22 crianças morreram por uma queda de/ou para fora de edifícios ou outras estruturas, enquanto outras 12 perderam a vida devido a outro tipo de quedas de altura elevada, sendo que nesta categoria estão incluídas as quedas de leito, queda de árvore, queda de penhasco, mergulho ou salto para água (causando traumatismo que não o afogamento).

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, até 90% das mortes por quedas poderiam ser evitadas na Europa, quando falamos, naturalmente, de acidentes. A criação e manutenção de ambientes e produtos seguros para as crianças e jovens são fundamentais para a redução da sua exposição ao risco de quedas graves, diz o relatório da APSI de novembro de 2014.

Sem lei que defina normas para a supervisão das crianças, é exigido aos pais prevenção e bom senso. Estar sozinho aumenta o risco. Veja aqui o Especial do Observador sobre o assunto.

 

 

 

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Os Superpoderes Acabam na Varanda

Fevereiro 13, 2013 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Divulgação | Deixe um comentário
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super

Texto da Visão de 1 de Fevereiro de 2013.

Na sequência da mais recente queda, seguida de morte, de um menino de quatro anos, que se lançou de uma varanda do sétimo andar, em Corroios, vestido de super-herói, a Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI) recuperou uma campanha sobre esta temática.

“Os superpoderes acabam na varanda” é a frase chave do cartaz que a APSI voltou a fazer circular através das redes sociais. “Em dez anos, mais de 100 crianças morreram e 40 mil foram hospitalizadas devido a quedas. E uma grande parte destas foram quedas de edifícios (varandas ou janelas) e quedas de escadas. Por isso, nunca se esqueça que as guardas das varandas e/ou terraços devem ter pelo menos 1,10 metros de altura, que não podem ter elementos que permitam a escalada pelas crianças (como travessas ou muretes) e não devem possuir aberturas superiores a 9cm”, lembra a APSI. E acrescenta: “Acima de tudo, nunca se esqueça que, tal como os super-heróis, as crianças ignoram o perigo”.

APSI

Quedas mataram 100 crianças em dez anos e levaram ao internamento de 40 mil

Maio 13, 2011 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 4 de Maio de 2011.

O estudo mencionado no artigo é o seguinte:

QUEDAS EM CRIANÇAS E JOVENS: UM ESTUDO RETROSPECTIVO (2000-2009)

Por Romana Borja-Santos

No espaço de dez anos, morreram 104 crianças e jovens na sequência de quedas e cerca de 40 mil precisaram de ser internados. Os dados fazem parte de um estudo sobre quedas acidentais ocorridas entre 2000 e 2009 realizado pela Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI).

De acordo com a análise feita pela APSI, a partir de dados do Instituto Nacional de Estatística, Organização Mundial de Saúde e Alto Comissariado da Saúde e Observatório da Saúde, isto significa que, em média, cerca de nove crianças e jovens sofrem diariamente uma queda com consequências consideradas graves.

Os dados permitiram também apurar que a maior parte dos acidentes mortais (76 por cento) e dos internamentos (69 por cento) foram no sexo masculino, sendo que o maior número de mortes ocorreu entre os 15 e os 19 anos (24 casos) e entre o um e os quatro anos (19 casos). Já os internamentos ocorreram em crianças mais pequenas, dos zero aos quatro anos e dos cinco aos nove (29 por cento, em ambos os casos.

“Em Portugal, tal como no resto da Europa, as quedas são o mecanismo de acidente mais frequente em crianças e jovens e a maior causa de idas à urgência nestas faixas etárias”, lembra a APSI, recuperando dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). E acrescenta que na Europa morrem todos os anos 1500 crianças e jovens entre os zero e os 19 anos na sequência de uma queda.

O trabalho, que resultou de uma parceria com a Century 21, descreve também que, de acordo com a OMS, “até 90 por cento das mortes por quedas poderiam ser evitadas na Europa” através da “criação e manutenção de ambientes e produtos seguros para crianças e jovens”.

Em relação ao tipo de quedas, a APSI conseguiu identificar um padrão para estes acidentes, apesar de só haver dados para metade da amostra no caso das mortes e para 30 por cento dos internamentos: “A maior parte das mortes resultam de quedas de edifícios e outras construções. De acordo com os dados disponibilizados pelo INE (2002-2009), 31 por cento das mortes resultaram de uma queda de edifícios ou outras construções”. “Há ainda a registar sete casos de crianças que sofreram uma queda de um nível para o outro não especificada. (…) São ainda referidas mortes que resultaram de queda de leito, queda de árvore, penhasco, mergulho ou salto para a água, sendo que estas, por razões relacionadas com o segredo estatístico não são possíveis de quantificar”, refere a APSI.

Quanto ao tipo de lesão, a lesão traumática intracraniana é a mais frequente e “as quedas de um nível para o outro representam aproximadamente 61 por cento, sendo que destas mais de metade são quedas de um nível para o outro não especificadas (67 por cento), logo seguidas das quedas de edifícios e/ou outras construções (16 por cento) e quedas de escadas ou degraus (14 por cento)”. Já as quedas ao mesmo nível perfazem 39 por cento dos internamentos, sendo a maior parte por tropeção/escorregão (72 por cento). Apenas nas quedas em buracos ou aberturas as crianças mais velhas são as mais atingidas (a partir dos dez anos).

Em termos de local, 41 por cento das quedas aconteceu em casa e 34 por cento na escola, sobretudo em momentos de lazer e em varandas e janelas. Em casa mais de metade das quedas ocorre com crianças até aos quatro anos e na escola a maior parte dos acidentes são entre os dez e os 14 anos.

“Os resultados deste estudo mostram claramente que as quedas com consequências mais graves estão relacionadas com os espaços construídos e que a construção ainda não salvaguarda de forma eficiente a segurança das crianças. É urgente projectar e construir habitações e escolas adaptadas às características e necessidades das crianças. Só desta forma poderemos reduzir o número de mortes e internamentos resultantes de quedas de edifícios (varandas, janelas) e quedas de escadas. Não só as construções novas, mas também as construções existentes devem cumprir requisitos mínimos de segurança de forma a não apresentarem riscos inaceitáveis de acidente durante a sua utilização”, defende a APSI.

A associação sugere, por isso, “a colocação de guardas eficazes nas varandas e terraços” e “limitadores de abertura nas janelas, bem como cancelas em escadas e que se implemente a Norma Portuguesa para Guardas para Edifícios, publicada em 2009.


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