Se eu brincasse como se o mundo não me visse: o retraimento social na primeira infância

Junho 29, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 21 de junho de 2020.

Entre 10% a 15% das crianças apresentam níveis intensos e prolongados de vergonha e retraimento que as podem impedir de aproveitar oportunidades importantes para o seu desenvolvimento.

Maryse Guedes

Tal como os adultos, é frequente que as crianças de idade pré-escolar sintam vergonha e se retraiam perante pessoas e situações novas ou com os quais estão menos familiarizadas. Geralmente, esta vergonha e retraimento iniciais desaparecem ao fim de algum tempo. Em níveis moderados, têm uma função protetora, permitindo-nos ter um comportamento social ajustado e evitar a exclusão social.

Contudo, 10% a 15% das crianças apresentam níveis intensos e prolongados de vergonha e retraimento que as podem impedir de aproveitar oportunidades importantes para o seu desenvolvimento. Geralmente, estas crianças falam com facilidade em casa, mas escondem-se atrás dos pais quando têm de cumprimentar adultos no dia a dia. Mostram interesse em interagir com as outras crianças, mas não têm a iniciativa de se juntar a elas para brincar. Brincam de forma descontraída em casa, mas retraem-se quando têm de desempenhar atividades frente aos outros (ex., demonstrações artísticas ou desportivas) ou de participar em festas. É frequente que os pais destas crianças digam que têm “dois (duas) filhos(as) diferentes: um(a) dentro e outro(a) fora de casa” e que expressem o desejo de que elas brinquem em contexto social como em casa — como se o mundo não as visse.

Porque é que algumas crianças apresentam estes níveis mais intensos de vergonha e retraimento social? Os estudos associam o retraimento social em idade pré-escolar a uma característica de “feitio” ou temperamento que pode ser observada desde o primeiro ano de vida, sob forma de reações emocionais negativas intensas e prolongadas perante estímulos novos. Na sua génese, encontram-se fatores biológicos, nomeadamente um sistema de defesa mais sensível, situado na parte mais antiga do nosso cérebro. Apesar da influência de fatores biológicos, tal não significa que a criança e os pais tenham culpa e que nada possa ser feito. Pelo contrário, a família pode aprender e implementar estratégias que transmitam à criança que as suas características são aceites e respeitadas, mas que, simultaneamente, a incentivem a aproximar-se, passo a passo, das situações sociais que receia.

É comum que os pais se sintam frustrados ou desapontados perante os sinais de retraimento da criança e que possam ter a tentação de “empurrá-la” para as situações, especialmente quando estes sinais são confundidos com má educação ou desinteresse em contexto social. Embora nem sempre seja fácil, é importante que os pais evitem rotular a criança (ex., é tímida), corrijam as pessoas que o façam e reconheçam as suas áreas fortes (ex., capacidade de observação, perspicácia, criatividade) para que ela sinta que as suas características são aceites e respeitadas. A normalização do medo como parte da experiência humana comum e o incentivo à identificação e partilha das situações que o espoletam e dos sinais com que este se manifesta no corpo (com histórias ou filmes de animação infantis) também contribui para fomentar um ambiente familiar seguro, em que a criança se sente compreendida e apoiada.

Por outro lado, a preocupação dos pais em relação aos sinais de retraimento da criança pode levá-los a serem mais protetores, dizendo-lhe o que fazer ou falando no seu lugar. Embora tenham a melhor das intenções, estas respostas parentais não ajudam a que a criança desenvolva a confiança necessária para enfrentar, passo a passo, os seus medos. No dia a dia, a participação ativa em pequenas decisões ajustadas à idade e a brincadeira livre liderada pela criança ajudam a promover a independência e confiança em contexto seguro. Estas conquistas servem de base para que, a pouco e pouco, sem “empurrar” a criança demasiado “depressa”, os pais criem pequenos desafios que ela é capaz de enfrentar (ex., manter-se ao lado dos pais, sem se esconder, perante adultos do quotidiano). Antes dos desafios, é importante que os pais salientem as vantagens de experimentar as coisas, mesmo que tenhamos medo delas (ex., ser ainda mais corajosa do que já é, fazer coisas importantes), transmitam à criança confiança de que é capaz e a preparem para o que vai acontecer, utilizando, por exemplo, o jogo de faz-de-conta.

Dar atenção e encorajar todas as conquistas da criança, persistir na prática dos mesmos desafios até se tornarem muito fáceis para ela e transmitir-lhe uma atitude de “não há problema” quando as coisas correm menos bem são ingredientes-chave para que ela possa aprender a brincar e a aproveitar as oportunidades do mundo, quando este tem os olhos postos nela.

Maryse Guedes, investigadora, Centro da Criança e da Família, William James Center for Research

Creche em Lisboa quer introduzir novidades de forma lúdica e divertida

Maio 29, 2020 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de maio de 2020.

LUSA

Com poucas crianças em sala, nesta primeira fase, a creche Paço de São Francisco crê que será essencial introduzir as mudanças de forma divertida, para que não causem tanta estranheza e as crianças até possam achar piada à experiência.

Circuitos de entrada e saída das crianças, salas mais vazias, sem brinquedos difíceis de higienizar, pais que ficam à porta e horários reduzidos são algumas das mudanças numa das milhares de creches que reabrem na segunda-feira.

A reabertura progressiva das creches arranca na próxima semana, depois de encerradas durante cerca de dois meses como forma de conter a propagação do novo coronavírus, e, na Creche Paço de São Francisco, em Lisboa, ultimam-se os preparativos para o regresso.

Tanto as educadoras de infância como a directora concordam que, nesta fase, será essencial introduzir as novidades de forma lúdica e divertida, para que as mudanças não causem tanta estranheza e para que as crianças até possam achar piada à experiência.

“É como se estivessem a entrar numa missão a Marte”, exemplifica a directora, sugerindo também que as crianças que se sentem nas mesas individuais do refeitório sejam nomeadas o rei ou a rainha da sala naquele dia.

“Eles vão ver uma nova realidade, mas eu acho que nós vamos pintar com arco-íris essa realidade e o que queremos é que eles se sintam bem”, afirma Inês Cancela, sublinhando que esta é uma fase para as educadoras se reinventarem, seja nas actividades, seja nos afectos, com abraços diferentes e sorrisos tapados por máscaras e expressos pelo olhar.

Regressam apenas 14 crianças

Entre as mais de 40 crianças que em Março estavam inscritas nesta creche, apenas 14 vão regressar já em Maio e a directora, Inês Cancela, admite que este número reduzido facilitou a adaptação dos procedimentos e dos espaços à nova realidade, um trabalho que envolveu um grande esforço da equipa.

“Foi, literalmente, calçar os sapatos e tentar perceber o que é isto aplicado à creche, ou seja, que orientações é que a Direção-Geral da Saúde (DGS) nos deu, que nós tínhamos de aplicar aqui na nossa escola”, contou à Lusa.

Segundo Inês Cancela, a principal alteração foi na entrada e saída das crianças. No espaço exterior, as linhas verdes no chão indicam a distância de segurança que os pais devem manter enquanto esperam para entregar os filhos a uma educadora, que fica à porta a receber as crianças, uma vez que a entrada aos pais passa a estar interdita, para não comprometer a “zona limpa”.

Esta “zona limpa” é todo o espaço interior da creche, onde não entram brinquedos ou calçado do exterior, conforme as indicações da DGS, que prevêem também que o número de crianças por sala seja reduzido para maximizar o distanciamento entre elas.

Na Paço de São Francisco não vai ser necessário dividir as turmas, uma vez que, para já, só vão regressar 14 crianças, desde os quatro meses aos três anos.

“Em termos de distanciamento das crianças, nós vamos tentar garantir aquilo que a DGS e a Segurança Social nos pedem, sendo que com 14 crianças agora é mais fácil, mas quando em Junho tivermos a lotação das crianças que esperamos ter vai ser um desafio maior”, admite a directora, explicando que, nessa altura, espera voltar a receber pelo menos cerca de 32 crianças.

Além da dinâmica mais rigorosa à entrada, também a monitorização das crianças vai ser maior nesta fase e uma das novas medidas passa pelo controlo da temperatura de manhã, ao final do dia e depois da sesta.

“São crianças que já percebem toda a dinâmica”

A última semana foi dedicada à higienização, à definição dos novos procedimentos e à reorganização dos espaços. Nas paredes dos corredores, os desenhos feitos pelas crianças estão agora intercalados com as orientações da DGS para a covid-19 e com as novas regras. Nas várias salas, os brinquedos mais pequenos e de difícil limpeza foram arrumados e no recreio sobrou apenas o escorrega.

“Retirámos tudo aquilo que é difícil de higienizar, mas nós somos de hábitos e acho que facilmente as crianças se vão adaptar a uma nova vivência diária”, disse à Lusa uma das educadoras, explicando que também houve um esforço da equipa para não fazer alterações no espaço demasiado drásticas.

Célia Faustino acompanha crianças entre os dois e três anos e, com base na sua experiência, acredita que a adaptação nestas idades não será tão complicada, uma vez que antes as crianças já brincavam em grupos pequenos.

“São crianças que já percebem toda a dinâmica, e antes de toda esta realidade já brincavam nas várias áreas e muitas vezes individualmente”, recorda, admitindo que o regresso, depois de um período em que estiveram cerca de dois meses afastados, possa ser mais complicado.

“Quer queiramos quer não, têm saudades dos amiguinhos, independentemente de nós fazermos chamadas no grupo e de as crianças irem sempre vendo a cara uns dos outros. Agora vêm com vontade de tocar e de abraçar, mas vai correr tudo bem”, considera a educadora.

Apenas cinco educadoras

Na reabertura, só cinco das 10 educadoras vão regressar à creche, uma decisão que se justifica com o número reduzido de crianças e também com a necessidade de manter algumas delas em lay-off para assegurar a continuidade dos apoios da Segurança Social.

Por isso, também o horário de funcionamento da creche será reduzido nesta fase inicial, para que as mesmas educadoras possam acompanhar, durante todo o dia, o mesmo grupo de crianças.

No entanto, todos os membros da equipa da Paço de São Francisco realizaram testes de diagnóstico da covid-19 e estão prontas para regressar ao trabalho, se necessário.

A reabertura progressiva das creches arranca na próxima semana, depois de encerradas durante cerca de dois meses como forma de conter a propagação do novo coronavírus, e, na Creche Paço de São Francisco, em Lisboa, ultimam-se os preparativos para o regresso.

Reabertura das creches. Tudo o que pais e educadores precisam de saber

Maio 13, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Rádio Renascença de 8 de maio de 2020.

Luís Aresta

A DGS adverte que o regresso à atividade nas creches envolve riscos. Pais e educadores têm pela frente um desafio nunca visto. E as crianças também.

A diretora-geral da Saúde reconhece que a reabertura das creches comporta riscos, porque “a sintomatologia nas crianças em idade de creche é ligeira”, sendo passível de “transmissão aos idosos”.

Numa sessão de esclarecimento esta sexta-feira, em que participaram vários agentes envolvidos na reabertura das creches, Graça Freitas tentou transmitir alguma tranquilidade sobre o tema, afirmando que, pelo que se sabe até ao momento, a transmissão é normalmente feita “do adulto para a criança”, existindo hoje uma maior facilidade de identificar as cadeias de transmissão e, como tal, de isolar casos suspeitos de Covid-19.

Na mesma sessão, apurou a Renascença juntou de fontes envolvidas na reunião, a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social colocou um ‘se’ na reabertura das creches, prevista para 18 de maio.

Ana Mendes Godinho sublinhou que o regresso ao convívio entre crianças e educadores está ainda dependente da avaliação que o Governo e as autoridades sanitárias irão fazer desta primeira quinzena sob estado de calamidade.

Linhas orientadoras são desafio às creches, às crianças e aos pais

Apesar de algumas das medidas anunciadas esta sexta-feira já estarem contempladas nos planos de contingência das creches, outras, agora anunciadas e que serão formalizadas nos próximos dias, são um autêntico desafio para educadores, crianças e pais.

No essencial, as medidas detalhadas pela DGS são as seguintes, para todas as creches:

  • Existência de área de isolamento de casos suspeitos de Covid-19, com circuitos definidos e isoláveis
  • Garantia de substituição de funcionários doentes
  • Não utilização de sistemas de ar condicionado em sistema de recirculação
  • Existência de um dispensador de gel desinfetante por sala
  • Encerramento de espaços não utilizados
  • Arejamento dos espaços com abertura de portas e janelas
  • Rigor na higiene de todos os espaços, com reforço de ações de limpeza e descontaminação, incluindo limpeza de mesas e cadeiras entre turnos nas “cantinas”
  • Distanciamento entre crianças nas pausas e espaços de refeição
  • Berços, camas ou catres sempre utilizados pela mesma criança e com espaçamento mínimo de 2m entre si (há creches que se queixam de falta de espaço para implementar esta medida)
  • Divisão de turmas, tornando-as mais pequenas
  • Turmas fixas, ocupando diariamente o mesmo espaço, com o mesmo educador e com os mesmos circuitos de circulação
  • Mesas de trabalho orientadas no mesmo sentido (as creches trabalham habitualmente com mesas redonda ou dispostas em “U”)
  • Uso de “máscara cirúrgica” pelos profissionais e pelas crianças com idade superior a 6 anos (abaixo desta idade a máscara não é permitida)
  • Espaçamento de 2m entre crianças (medida que a própria DGS reconhece não ser de fácil aplicação)
  • Material didático não deve ser partilhado entre as crianças
  • Os brinquedos pessoais ficam em casa
  • Os pais devem disponibilizar calçado para uso exclusivo no interior das creches
  • Os pais não podem entrar nas creches, devendo a entrega e receção das crianças ser feita de forma individual
  • No caso do transporte das crianças em viaturas disponibilizadas pelas creches, ou empresas prestadoras desse tipo de serviço, serão aplicadas as mesmas regras em vigor para os transportes públicos.

Máscaras: Saiba como ajudar as crianças a ultrapassar o medo

Maio 11, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Kids Marketeer de 23 de abril de 2020.

Para muitas crianças, ver os pais a usarem máscaras de protecção respiratória pode ser assustador, desconcertante ou mesmo motivo para tristeza. Uma das razões para tal acontecer é a capacidade limitada das crianças de reconhecer e ler rostos.

Kang Lee, professor de psicologia aplicada e desenvolvimento humano da Universidade de Toronto, especialista no desenvolvimento de habilidades de reconhecimento facial em crianças, explica melhor esta razão: “Se um adulto usar uma máscara, eu consigo reconhecê-lo pela estrutura do seu rosto, ainda que metade da cara esteja tapada”.

O mesmo não se passa com as crianças. Kang Lee esclarece que as crianças até aos seis anos concentram-se nas características individuais, em vez de reconhecerem a pessoa como um todo. “Por exemplo, prestam atenção ao formato dos olhos ou ao tamanho do nariz.

Vários estudos realizados constataram já que as crianças podem, inclusive, ter dificuldade em reconhecer rostos familiares que estejam parcialmente escondidos, exactamente por alguns recursos de informação (tamanho do nariz, formato da boca) não estarem visíveis e a criança não conseguir ler os sinais emocionais. Esta situação pode revelar-se assustadora ou desconcertante para os mais pequenos.

Para que o seu filho não fique assustado com a máscara, os especialistas aconselham que quando os pais colocarem máscaras, expliquem às crianças a razão de o estarem a fazer. Devem dizer que o estão a fazer para ajudar e proteger as outras pessoas. Transmitir a mensagem de que o uso de máscara é um acto de responsabilidade social e que é tão importante como lavar as mãos. Em alternativa, pode ser explicado às crianças que as máscaras transformam as pessoas em super-heróis porque protegem todas as pessoas dos germes, reforçando a ideia de que a máscara é como a capa dos heróis.

Outro conselho é que o tecido da máscara tenha desenhos divertidos ou a família em casa faça uma máscara para a criança consciencializar-se de que este é um objecto normal. Os pais podem também optar por fazer jogos de interpretação de expressões para retirar o medo; ou seja, toda a família coloca máscaras e depois tentam ler os rostos uns dos outros, através do olhar, para identificar as expressões/emoções que estão a transmitir – se estão a sorrir, por exemplo. Este tipo de actividade retira o factor assustador e insere a máscara como um objecto normal.

Os especialistas aconselham também que os pais estimulem os mais novos a colocarem todas as dúvidas que tiverem sobre o assunto e que a família dialogue, de forma tranquila, sobre todas as experiências e emoções que está a experienciar.

Recomendações sobre Saúde Mental em isolamento: famílias, crianças e jovens – DGS

Maio 8, 2020 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Visualizar todas as recomendações no link:

Privação do sono: Socorro, o meu filho não me deixa dormir, o que fazer?

Fevereiro 3, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 24 de janeiro de 2020.

A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono.

Diana Vilas Boas

Exaustos. Desorganizados. Irritados. Frustrados. Desesperados. Perdidos. Assim são os pais quando privados do sono. A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono. Os bebés choram, têm o sono desregulado e, por consequência, os pais tentam acalmá-los, adormecê-los e também descansar. A privação do sono tem consequências? Sim, “pode desencadear depressões, divórcios, desemprego e, em alguns casos, pais arrependidos de serem pais”, enumera Carolina Vale Quaresma, coach familiar. A neurologista Teresa Paiva desdramatiza e declara que se não estiver doente, o bebé dorme bem. O problema pode estar nos pais, alerta.

É preciso educar os bebés para dormir? ​Teresa Paiva, neurologista e especialista do sono, defende que o acto de dormir não precisa de ser educado. “O grande problema é quando o bebé acorda e choraminga e os pais vão logo a correr, seja para lhe dar de mamar, dar a chupeta ou o levar para a cama deles e o bebé habitua-se”, diz, criticando também a ideia que todos os bebés têm, por natureza, problemas para adormecer.

Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta no Centro do Bebé, em Lisboa, considera que na maior parte dos casos não existem problemas com o sono dos mais pequenos. O problema é que os pais estão exaustos. “É muito importante haver um trabalho de adaptabilidade com os pais para a realidade de que vão ter de mudar alguns hábitos, para garantirmos que não vão estar privados de sono. O sono tem de ser uma prioridade para todos”, defende.

Hábitos como adormecer o filho ao colo, embalado ou na “maminha” levam à criação de uma dependência que, mais cedo ou mais tarde, é difícil de combater. Por isso, é importante habituar a criança a adormecer sem ajudas externas, aconselha Carolina Vale Quaresma. Para Constança Cordeiro Ferreira não há problema que a criança adormeça a mamar. “O leite materno tem componentes como triptofano, melatonina, endorfinas e uma composição variável consoante o dia e a noite, que vai favorecer o sono, ao contrário do que é muitas vezes dito aos pais”, justifica. “O silêncio da casa e o sono dos pais criam a atmosfera para [o bebé] dormir”, recomenda, por seu lado, Marina Fuertes, docente na Escola Superior de Educação de Lisboa (ESEL). Além de se habituar a estar na cama, a calma e o silêncio também ajudam a criança a regular as suas emoções, acrescenta.

Pais sobrevivem

“Educar o sono” pressupõe que a maneira de adormecer ou de dormir está errada e que é necessário corrigi-la, começa por dizer Constança Cordeiro Ferreira. O que acontece é que essa é uma ideia errada, continua. “Parte do problema vem daí [desse pressuposto]. Um bebé nos primeiros meses procura as condições óptimas para descansar e os pais têm a cabeça cheia de medos, que lhes foram colocados, e, logo aí, têm medo de dar a mama, dar colo ou conforto”, aponta. Além disso, as mães mudam de hábitos, as “mulheres têm dificuldade em quererem arranjar-se, em estar com os amigos, em viver. E tudo se resume a isso: com a privação de sono os pais nem sempre vivem, sobrevivem ao dia-a-dia”, nota Carolina Vale Quaresma.

“Muitas vezes, os bebés não ficam tão mal como os pais. A privação de sono tem um impacto enorme nos adultos, mais ainda nos pais”, avisa Constança Cordeiro Ferreira. E não descansar pode levar a algumas complicações de saúde, alerta Teresa Paiva: os pais podem vir a ter problemas de saúde mental como depressão, ansiedade, dores de cabeça e insónias crónicas; mas também doenças físicas, como as cardíacas, cardiovasculares ou aumento de peso. Quanto aos filhos, dormir pouco ou com muitas pausas pelo meio pode afectar a memória, baixar a imunidade às bactérias e a regulação do apetite, tal como a capacidade dos bebés em gerir emoções, refere Carolina Vale Quaresma, acrescentando que, a longo prazo, as crianças podem vir a ter dificuldades de aprendizagem, falta de concentração e agitação elevada.

A agitação e o choro constante, a dependência da criança para ser alimentada e os “cuidados frequentes” são os grandes causadores da privação do sono dos pais. Então, como conseguir que toda a família descanse? De acordo com Carolina Vale Quaresma, para o bebé não sentir que estão “com truques para o enganar”, deve ir acordado para o berço e ter noção do que está a acontecer. “Nada melhor para um bebé ser seguro que sentir que pode confiar na mãe no pai”, defende.

Para Marina Fuertes não se deve forçar a criança a dormir, com o risco de criar tensão, tensão que levará o bebé a resistir ao sono por o considerar algo “indesejável”, ficando assim mais rabugento e, consequentemente, com mais dificuldade para adormecer. Não interromper o descanso do bebé para o alimentar, ou simplesmente por medo de ele não dormir quando os pais desejam, são actos importantes que ajudam o bebé a desenvolver a “aprendizagem biológica do dormir”, fundamentaCriar uma rotina de sono, juntamente com uma rotina para alimentação e banhos, ajudará o bebé a “antecipar a hora do sono”, aconselha.

Dormir pouco ou muito?

Segundo Carolina Vale Quaresma, os bebés não dormem tempo suficiente. Por exemplo, até aos 6 meses de idade deveriam dormir cerca de 12 horas nocturnas e 4 horas diurnas. Constança Cordeiro Ferreira diz que existem fases em que o descanso infantil poderá ser mais afectado como, por exemplo, quando os bebés começam a gatinhar, iniciam a alimentação complementar ou quando a mãe ou o pai regressam ao trabalho. “Os pais devem saber isto e não ficarem aflitos”, lembra.

Com o intuito de ter uma “boa noite de sono” e também de evitar o uso de tecnologia, tablets ou smartphones, para adormecer, a professora Marina Fuertes aconselha a criar o “momento da leitura” após o primeiro ano de vida do bebé, inicialmente com livros apenas com imagens, depois com pequenas histórias e, após os 3 anos, uma história real ou imaginada pelos pais. A escolha não deve recair sobre histórias “com monstros ou excesso de estímulos”, pois podem despertar a criança.

“Os maiores inimigos do sono da criança são a ausência de rotina e a instabilidade nas regras”

Janeiro 22, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do DN Life de 15 de janeiro de 2020.

Por Catarina Pires

Dormir bem é fundamental para todos, mas sobretudo para crianças e adolescentes, que estão em pleno desenvolvimento. É nas idades mais precoces que o sono pode e deve ser educado. A pediatra Nádia Pereira, do Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas, que integra a equipa multidisciplinar da consulta do sono pediátrica, explica o que é importante para uma correta “higiene de sono”.

Texto de Catarina Pires

Qual a prevalência de perturbações de sono das crianças e adolescentes e quais os distúrbios mais comuns?

Dados recentes de publicações internacionais apontam para uma prevalência significativa de perturbações do sono na infância, nalgumas séries atingindo os 50% na idade pré-escolar e 40% na adolescência.

De acordo com o grupo etário o tipo de perturbação de sono varia. Na idade pré-escolar e escolar a insónia de causa comportamental assume maior relevância. São as crianças que os pais referem que nunca conseguiram adormecer sozinhas, resistem a dormir, e mantêm vários despertares noturnos necessitando dos pais para readormecer.

Na adolescência, são mais comuns as perturbações do ritmo circadiano, nomeadamente a perturbação por atraso de fase, em que o adolescente parece que só tem sono por volta das 3 – 4h da madrugada e, se for possível, dorme até às 12 – 13h, acordando bem-disposto e descansado. Nessa impossibilidade, pelo cumprimento dos horários escolares, são comuns os sintomas de privação de sono.

Algumas mudanças simples na rotina familiar podem trazer de volta as noites bem dormidas.

Os pais devem estar preparados para noites mal dormidas nos primeiros meses do bebé, porque faz parte da tarefa de ser pai e mãe?

Nos primeiros meses de vida, o bebé ainda não tem um ritmo de sono-vigília bem estabelecido, necessita ser alimentado frequentemente, mesmo no período noturno, o que vai dificultar o descanso dos pais.

Com o crescimento, essencialmente a partir dos 6 meses de vida, o bebé tem a capacidade de estabelecer um ritmo de sono-vigília mais semelhante ao do adulto, fazendo um período mais longo de sono noturno, e sestas diurnas de menor duração.

No entanto, muitas vezes, apesar de terem as ferramentas biológicas para fazerem um período mais longo de sono noturno, as crianças mantêm dificuldade em adormecer associada ou não a despertares noturnos frequentes, o que condiciona uma má qualidade de sono dos pais, que aceitam este facto como parte da normalidade.

Mas não precisa de ser assim! Algumas mudanças simples na rotina familiar podem trazer de volta as noites bem dormidas.

O que significa higiene de sono e o que fazer para uma correta higiene de sono?

Entendemos com higiene do sono um conjunto de medidas que quando aplicadas facilitam um sono de qualidade. Destaco como medidas de higiene do sono:

  • Manter horários regulares de refeições e sestas durante o dia
  • Não efectuar atividades físicas estimulantes nas 2 horas que antecedem o sono
  • Não usar ecrãs cerca de 2 horas antes de ir para a cama.
  • Evitar refeições pesadas ao jantar
  • Criar um ritual no período prévio ao deitar, que deverá repetir-se diariamente
  • Repetir horários de forma diária e consistente no adormecer e acordar
  • Adaptar o ambiente do quarto: conforto, luz, temperatura, etc.
  • Ensinar a criança a ser autónoma no momento de adormecer: usar elementos de conforto externos (chucha, fralda, boneco, etc.), independentes dos pais.
  • Não associar os momentos de alimentação com o sono, incentivando que a criança não adormeça a comer.

Há crianças com um número de horas de sono diárias inferior ao recomendado que não apresentam sintomas de privação e outras que necessitam mais horas de sono para se sentirem descansadas.

Quantas horas por dia (noite) deve uma criança dormir e que benefícios tem uma boa higiene de sono para a saúde física e desenvolvimento?

Recentemente a Academia Americana de Medicina do Sono publicou uma recomendação relativamente ao número de horas de sono na população pediátrica.

Grupo Etário | Horas de sono por dia
4-12 meses 12-16h (inclui sestas)
1-2 anos 11-14h (inclui sestas)
3-5 anos 10-13h (inclui sestas)
6-12 anos 9-12h
13-18 anos 8-10h

Estas variam naturalmente com a idade da criança e devemos ter em atenção que poderá haver alguma variabilidade interindividual. Apesar da recomendação, existem crianças com um número de horas de sono diárias inferior ao recomendado que não apresentam quaisquer sintomas de privação, e outras que necessitam mais horas de sono para se sentirem descansadas.

O sono reparador é essencial para uma vida saudável. Não se pode viver sem dormir, sendo que o sono não é de todo um processo passivo, constituindo um momento de reorganização de funções e de recuperação física e psíquica. Nas crianças, o sono desempenha um papel fundamental no desenvolvimento cerebral, na aprendizagem e consolidação da memória, tendo também um papel significativo no crescimento corporal.

Existem diversas perturbações de sono que justificam uma avaliação médica. Quando surgem sinais de privação de sono nas crianças ou nos cuidadores, é importante obter aconselhamento médico.

E que problemas trazem as insónias infantis?

Na criança, dependendo do seu grupo etário e grau de desenvolvimento as consequências de sono insuficiente vão ser distintas:

no lactente e criança em idade pré-escolar: irritabilidade, choro frequente, maior dependência do cuidador

na criança em idade escolar: sonolência diurna, cansaço, dificuldade de concentração e problemas na aprendizagem

no adolescente: sonolência diurna, diminuição da capacidade de atenção e concentração, baixa do rendimento escolar, problemas de auto-estima.

Quando é que há razão para preocupação e recurso a aconselhamento médico?

Existem diversas perturbações de sono que justificam uma avaliação médica. Dentro das insónias comportamentais, quando surgem sinais de privação de sono nas crianças ou nos cuidadores, é importante obter aconselhamento médico.

Importa desmistificar que só se recorre ao médico quando há doença e que o não dormir faz parte dos primeiros anos de vida. Dormir é fundamental, pais e crianças necessitam de dormir, e quando isso não acontece uma avaliação em Consulta de Sono pode ajudar.

Outras perturbações de sono mais frequentemente avaliadas em Consulta de Sono são as parassónias (terrores noturnos, sonambulismo…), o síndrome de apneia obstrutiva do sono e as perturbações do ritmo circadiano.

Porque é que há bebés que dormem a noite toda e outros que estão sempre a acordar?

De facto, não se sabe bem porquê, mas existem bebés que dormem toda a noite sem qualquer ajuda e outros que repetidamente solicitam os pais para conseguir adormecer.

Sabemos no entanto, que os bebés em que desde cedo é estimulada a autonomia no momento do adormecer, dormem melhor em idades mais precoces.

E sabemos também que os bebés que necessitam dos pais para adormecer, seja no colo, enquanto mamam ou bebem biberão, têm maior probabilidade de despertar várias vezes durante a noite para pedir ajuda para readormecer.

O método de chorar até adormecer, que tem como objetivo que a criança adquira a capacidade de adormecer sozinha, apresenta bons resultados, mas pode ser causador de grande ansiedade familiar.

Mas não é normal que as crianças acordem durante a noite?

Como já referido é normal que até aos 6 meses os bebés possam necessitar de ser alimentados no período noturno, por razões nutricionais e de imaturidade dos ciclos de sono.

A partir dos 6 meses a maioria das crianças tem as ferramentas biológicas para dormir por um maior período noturno. O que não significa que seja “anormal” se mantiverem alguns despertares noturnos. Mas se estes forem muitos frequentes e com interferência na vida familiar seria útil uma avaliação médica.

O método, defendido por alguns, de deixar chorar até adormecer, é uma tortura para os pais e para as crianças. Tem algum mérito?

Existem diversos métodos de “sleep training” aplicáveis as insónias comportamentais e que devem ser adequados ao grupo etário e ao contexto familiar. Todos estes métodos se baseiam no princípio da autonomia no momento do adormecer.

O método de chorar até adormecer, é um método de extinção simples, e que tem como objetivo que a criança adquira a capacidade de adormecer sozinha, sem ajuda dos pais. Quando aplicado apresenta bons resultados, mas pode ser causador de grande ansiedade familiar.

Não se poderá dizer que é prejudicial os pais adormecerem os seus filhos, mas é um hábito que mantido ao longo do tempo, aumenta a probabilidade de uma perturbação de sono.

Até que idade as crianças devem fazer a sesta?

A sesta é um assunto que tem levantado algumas questões, essencialmente porque o fazer ou não a sesta é atualmente decidido pelas regras dos estabelecimentos de ensino que a criança frequenta.

O princípio será sempre que a sesta complete a necessidade de horas de sono diárias. Mais uma vez aqui a questão deverá ser analisada com família e com cada criança individualmente.

Regra geral até aos 3 – 4 anos a criança ainda deverá apresentar um ciclo de sono bifásico, com um maior período de sono noturno, e um período curto de sono diurno. A partir dos 4 – 5 anos, algumas crianças começam a dar alguns sinais que não precisam de fazer a sesta. Por exemplo pode ser muito difícil adormecer na sesta, ou se quando faz sesta não tem sono para adormecer à hora habitual, ou consegue, não fazendo sesta, ficar desperta para as atividades habituais. Nesta altura pode ser ponderado suspender a sesta.

A decisão neste grupo etário dos 4 – 5 anos, de fazer ou não sesta, deve ser tomada entra família e estabelecimento de ensino, de acordo com as necessidades da criança.

A partir dos 6 anos, com a entrada no ensino básico, a sesta é naturalmente eliminada.

É prejudicial os pais adormecerem as suas crianças nos primeiros anos de vida?

Não se poderá dizer que é prejudicial os pais adormecerem os seus filhos, mas é um hábito que mantido ao longo do tempo, aumenta a probabilidade de uma perturbação de sono no futuro, nomeadamente de insónia comportamental.

Quais são os maiores inimigos do sono para uma criança?

Diria que os maiores inimigos do sono para uma criança será a ausência de rotina e a instabilidade nas regras.

A necessidade de horas de sono vai diminuindo com a idade? Qual diferença entre uma criança e um adolescente?

No primeiro ano de vida o desenvolvimento cerebral e as imensas aquisições cognitivas e motoras, exigem que o número de horas de sono diárias seja maior do que na criança em idade escolar ou adolescente.

As recomendações em relação ao número de horas de sono diárias variam com a idade, mas a título de exemplo um bebé pode precisar de 14 a 15h de sono diárias, uma criança de 5 anos será normal dormir 10 a 12h e um adolescente a partir dos 13 anos deverá dormir pelo menos 8h por dia.

Mais importante que o horário em si, é a regularidade do mesmo. O nosso sono é melhor se dormimos e acordamos a mesma hora.

Dormir de mais também pode ter consequências negativas ou dormir nunca é de mais?

Biologicamente o nosso corpo está preparado para dormir o número de horas que necessita. A questão que se põe atualmente é que geralmente dormimos menos do que precisamos e tentamos compensar esporadicamente quando podemos. Mas esta não é uma compensação real. A regularidade nos horários é fundamental para um sono de qualidade.

Importa só a quantidade de horas de sono ou também são importantes a hora a que se deita e acorda?

Mais importante que o horário em si, é a regularidade do mesmo. O nosso sono é melhor se dormimos e acordamos a mesma hora. No caso dos adolescentes, que biologicamente têm sono mais tarde e dormiriam também até mais tarde, há uma colisão entre o horário que lhes seria natural dormir e a atividade escolar. Neste caso, a regularidade dos horários é ainda mais importante, para permitir um bom desempenho escolar.

A creche não é apenas uma resposta social, também é educativa

Janeiro 5, 2020 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Educare de 30 de dezembro de 2019.

Análise às respostas e ao funcionamento das instituições dedicadas à primeira infância revela que é necessário rever a legislação, refletir sobre a qualidade da educação, perceber as condições laborais dos profissionais. A investigação está no relatório “Estado da Educação 2018”, do Conselho Nacional de Educação, e apresenta várias propostas.

Sara R. Oliveira

As crianças, nos primeiros tempos de vida, expressam-se de variadas formas. Choram, riem, batem palmas, gatinham, rebolam, mexem as pernas e os braços. Não há palavras, não há explicações. É uma linguagem diferente da usada no mundo dos adultos. Maria Assunção Folque, da Universidade de Évora, doutorada em Educação, e Teresa Vasconcelos, da Escola Superior de Educação de Lisboa, debruçam-se sobre a educação na primeira infância, em vários patamares e aspetos, num texto assinado em conjunto no relatório “Estado da Educação 2018” do Conselho Nacional de Educação (CNE).

As autoras começam o texto por resgatar um excerto do poeta Herberto Hélder. “Uma criança disse: dá-me aquele ramo de estrelas maduras. (…) Às vezes, as crianças não falam quando estão dentro do silêncio. As crianças falam até ao fim de cada palavra”. As crianças que ainda não falam precisam que falem por elas. Até ao fim de cada palavra. Maria Assunção Folque e Teresa Vasconcelos analisam respostas e possibilidades para as crianças dos 0 aos 3 anos, a função das creches no passado e no presente, lembram recomendações, o que foi e não foi feito, o que deve ser revisto e mudado. Além disso, recordam que grande parte dos partidos que concorreram às últimas eleições legislativas, de 6 de outubro deste ano, mencionou “a necessidade urgente de creches para as crianças dos 0 aos 3 anos, de modo a permitir a conciliação trabalho-família e/ou a resposta ao direito à educação desde o nascimento”.

Vários estudos nacionais e internacionais indicam que “se as creches e os jardins de infância não forem de superior qualidade educativa, em nada contribuirão para o desenvolvimento das crianças, principalmente as mais desfavorecidas”. Essa qualidade deve ser estrutural e pedagógica. “Talvez possamos afirmar que a creche é ainda vista socialmente como uma resposta quando não há outras alternativas, privilegiando-se para os três primeiros anos a possibilidade de ficar em casa com um familiar”. Mas investigações feitas revelam também que os adultos que cuidam de crianças em ambientes isolados, como o caso de mães sozinhas ou pais desempregados que não participam em atividades da comunidade, “estão mais expostos a desenvolverem estados depressivos que podem ter um impacto negativo na qualidade das interações e das experiências que proporcionam aos seus filhos”.

Neste momento, as creches são uma resposta simultaneamente educativa e social, acolhem crianças entre os 4 meses e os 3 anos. Nem sempre foi assim. No século XVI, surgem as primeiras creches no país através das Misericórdias. Durante a monarquia, as primeiras instituições para crianças até aos seis anos eram de iniciativa privada e destinavam-se às classes sociais mais vulneráveis. Mais tarde, no início do Estado Novo, acaba a obrigatoriedade vigente, desde os tempos da 1.ª República, de criação de creches em fábricas para os filhos das mulheres trabalhadoras. Prevalece a “ideologia da maternidade”. Em finais dos anos 60, início dos 70 do século passado, as estruturas do Ministério da Saúde e Assistência começam a apoiar iniciativas com carácter social e privado. “Remonta a essa altura uma conquista importante: as educadoras de infância – e não apenas as enfermeiras – passaram a trabalhar em creches.”

Rigidez nos horários e condições de frequência
Informações recentes dão conta que mais de metade das crianças dos 0 aos 3 anos não tem lugar numa creche financiada direta ou indiretamente pela Segurança Social. No entanto, a capacidade de resposta aumentou nos últimos dez anos. Entre 2006 e 2017, a taxa de cobertura subiu de 26,7% para 49,1%. Em 2017, havia cerca de 118 500 lugares em creche, 62% dos quais comparticipados pelo Estado, através de acordos de cooperação com entidades da rede solidária. “A questão que colocamos é saber onde estão as outras 50% das crianças dos 0 aos 3 anos”, observam as autoras do texto.

Comparações feitas com outros países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Portugal surge como o quarto país que menos gasta em benefícios familiares e educação para as crianças até aos cinco anos (cerca de 20%), face ao que disponibiliza para as crianças dos seis aos 11 anos (cerca de 35%) ou dos 12 aos 17 anos (45%). Os números conduzem a uma conclusão. “Este indicador revela que ainda não assumimos as crianças mais novas como nossa responsabilidade comum”, comentam.

“Em termos de acessibilidade promovida pelo alargamento de horários das creches, dada a diversidade cada vez maior de horários de trabalho das famílias, temos observado um aumento das horas de abertura das creches. Se por um lado esta flexibilidade permite às famílias uma melhor gestão dos compromissos profissionais e familiares, não deixa de ser preocupante este excessivo número de horas de frequência das crianças em creches”, constatam Maria Assunção Folque e Teresa Vasconcelos.

Em termos de horários e de condições de frequência, verifica-se que ainda há alguma rigidez e estandardização nos serviços de educação de infância. É difícil encontrar, em meios urbanos, uma vaga para a frequência em part-time e a constituição de grupos heterogéneos em termos etários é uma prática pouco comum. O alargamento e universalização da oferta educativa, sobretudo nos grandes centros urbanos, e a necessidade de uma qualidade educativa dos diversos tipos de atendimento às crianças deste nível etário, são dois aspetos importantes e que exigem, segundo as autoras, uma urgente revisão ou intervenção “cirúrgica” na Lei de Bases de 1986.

Em 2011, o CNE recomendou ao Governo, na altura com Isabel Alçada como ministra da Educação, a revisão urgente da Lei de Bases, de modo a contemplar no sistema educativo a educação dos 0 aos 3 anos, no pressuposto de que a educação se inicia à nascença. “Esta recomendação insiste ser urgente uma educação de infância que se inicie aos 0 e não aos 3 anos de idade dando uma prioridade à promoção de estruturas de atendimento para as crianças dos 0 aos 3 anos de superior qualidade.” Quase nove anos depois, há pelo menos duas perguntas inevitáveis. Onde estão as crianças dos 0 aos 3 anos que não frequentam creches ou infantários? Que fizeram os ministérios da Educação de sucessivos governos?

Políticas de intervenção para comunidades específicas
Maria Assunção Folque e Teresa Vasconcelos fazem o diagnóstico da situação, avançam com linhas de ação futuras, e avisam que é necessário, desde logo, rever a legislação que regula o funcionamento das creches e dos jardins de infância, a sua qualidade, e as condições laborais dos profissionais. O objetivo passa por conferir uma maior coerência interna das instituições que atendem famílias e crianças entre os 0 e os 6 anos. O tempo de serviço prestado por educadores que trabalham ou trabalharam em creche deve ser contabilizado como serviço docente e o regime de habilitação para a docência deve ser revisto, “no sentido de reequilibrar os pesos atribuídos às diversas disciplinas e os que se destinam a saberes da área de formação geral”.

As autoras referem que é preciso investir em políticas específicas de intervenção com famílias ou comunidades mais desfavorecidas, garantindo projetos que promovam a excelência pedagógica e comunitária. As crianças migrantes e refugiadas, ou de minorias étnicas e socioeconómicas, não podem ser esquecidas. E a diminuição do número de crianças por adulto, no caso de crianças com necessidades educativas específicas ou em situação de desvantagem, deve ser acautelada, em respeito pelos direitos de aprendizagem diversificados.

A progressiva municipalização da educação dos 0 aos 6 anos é vista como uma vantagem e, para tal, é necessário fazer uma caracterização geográfica das instituições. “Para além de garantir a universalização do atendimento evita-se o desdobrar de serviços, alguns deles podendo estar duplamente financiados”, sustentam. A avaliação da qualidade e a divulgação dos resultados das creches e jardins de infância devem estar nas mãos da Inspeção Geral de Educação e, por outro lado, é essencial reconhecer a necessidade de permanência de uma educadora de infância no berçário da creche para garantir, em conjunto com as auxiliares, “uma rotina que traga segurança, que seja repousante, mas simultaneamente estimulante para os bebés a partir dos 4 meses de idade, garantindo uma intencionalidade pedagógica”.

Maria Assunção Folque e Teresa Vasconcelos defendem que é necessário introduzir o conceito de uma rede nacional para a educação e atendimento das crianças dos 0 aos 3 anos com creches públicas municipais que, sublinham, “permitam a disseminação de centros de qualidade que possam inspirar e complementar outras iniciativas: IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social] e Misericórdias, autarquias e juntas de freguesia, cooperativas e ensino particular (infantários) ou ainda creches ligadas a escolas, a universidades e politécnicos, a empresas, etc.”. E o Ministério da Educação deveria assumir a parte pedagógica na sua totalidade, não distribuindo responsabilidades nesta área.

O sistema de financiamento das creches e jardins de infância deve ser também revisto, segundo as autoras, de forma a diferenciar o apoio do Estado às famílias que tenham menores recursos. “Este sistema promoverá o acesso de todos e a sustentabilidade económica das IPSS evitando a recusa de vagas para crianças de famílias com menores recursos financeiros”, explicam as autoras da análise feita às respostas sociais e pedagógicas na primeira infância.

Youtube vai começar a monitorizar vídeos para crianças com menos de oito anos

Janeiro 2, 2020 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal Económico de 26 de dezembro de 2019.

João Tereso Casimiro

O Youtube aconselha os pais a reportarem que um vídeo é inapropriado, através das ferramentas no site, para que o vídeo seja analisado e removido.

Depois de ter sido condenado a pagar 170 milhões de euros por não respeitar a lei da privacidade online para as crianças, o Youtube anunciou que vai começar a monitorizar todos os vídeos destinados a crianças com menos de oito anos, segundo a Bloomberg.

Durante o ano de 2019 várias foram as queixas recebidas pela empresa-mãe, a Google, de que a plataforma de vídeos para crianças – Youtube Kids – teria conteúdo inapropriado para crianças, e que esse mesmo conteúdo esteve presente na plataforma durante vários meses sem que nada acontecesse.

As queixas deram origem ao processo que obrigou o Youtube a pagar 170 milhões de euros à Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos.

Entre as soluções em cima da mesa, o Youtube chegou mesmo a considerar criar uma equipa de 40 pessoas para inspecionar os milhares de vídeos individualmente, mas a presidente executiva da empresa, Susan Wojcicki impediu o plano, segundo fontes da Bloomberg.

Uma das medidas mais significativas que foi posta em prática, foi a desativação da secção de comentários em milhões de vídeos, que teve como consequência uma diminuição da percentagem de visualizações (80%), enquanto que os vídeos de fontes fidedignas aumentaram 60%.

Ainda assim o Youtube não anunciou mais medidas, porque consideram que seja impossível monitorizar as dezenas de milhões de vídeos presentes na plataforma. Por hora, são carregadas 500 horas de vídeo para a plataforma, o que torna virtualmente impossível a monitorização individual de cada vídeo.

A solução atual é utilizar o mesmo algoritmo que impede a publicidade de aparecer em vídeos considerados inapropriados, e aplicá-los aos vídeos destinados a crianças. O Youtube aconselha também que, caso os pais reparem que um determinado vídeo é inapropriado, reportem através das ferramentas disponíveis na plataforma, para que o vídeo seja analisado e removido.

Espanha recomenda que crianças até aos 10 anos e grávidas não comam atum ou peixe espada

Novembro 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 20 de novembro de 2019.

O problema é a concentração de mercúrio presente nesta e noutras espécies, dado o metal ser nocivo para os humanos quando o cérebro está em desenvolvimento.

A recomendação já existia, mas foi alargada. A Agência Espanhola de Segurança e Nutrição Alimentar (AESAN) reviu os últimos dados sobre o consumo de peixe com alto teor de mercúrio e pede agora que as grávidas e as crianças até aos 10 anos – até aqui a fasquia eram os 3 anos – evitem a ingestão de espécies como atum e peixe espada. A recomendação abrange ainda as mulheres que planeiem engravidar ou amamentar, cabendo na lista dos peixes proibidos espécies tradicionalmente menos consumidas, como tubarão e lúcio.

Segundo a AESAN, a ingestão dessas espécies em crianças entre 10 e 14 anos deve ser limitada a 120 gramas por mês, já que o mercúrio pode ser um tóxico neurológico nos estágios iniciais do desenvolvimento.

O alerta deve ser contextualizado e não justifica alarmismos, considera o nutricionista Pedro Graça, diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Sobretudo, explicou ao Expresso, se tivermos em conta a realidade portuguesa, onde a existência de um “inquérito nacional alimentar e a realização regular de análises ao pescado, quer pela ASAE [Autoridade de Segurança Alimentar e Económica], quer pelo IPMA [Instituto Português do Mar e da Atmosfera], permite avaliar com segurança o grau de risco”.

A questão é: se sabemos exatamente o que os portugueses comem e em que quantidades, e se sabemos o grau de contaminação das diferentes espécies de peixe, é possível cruzar os dados e “fazer o mapeamento do risco”, conclui o também ex-diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da DGS.

O mercúrio é um metal pesado que está presente no ambiente e pode ser encontrado em certos alimentos. No pescado, a sua concentração é variável, maior nas espécies que surgem no final da cadeia alimentar. Peixes predadores, maiores e que vivem mais tempo, apresentam uma maior concentração, “peixes como a sardinha ou a cavala” quase não apresentam contaminação, adianta Pedro Graça.

Quanto aos riscos do mercúrio para a saúde, estão bem estudados. E não são imediatos, resultando antes do facto de este metal se acumular no organismo, aí se mantendo.

No caso de Espanha, o alargamento da recomendação é justificado pelo facto de novos dados científicos revelarem que as concentrações de mercúrio na população espanhola são mais elevadas do que as registadas noutros países europeus, adianta o “El País”, razão porque são agora aconselhadas preferencialmente espécies como anchovas, lulas ou truta, entre outras.

O mercúrio é nocivo nos períodos em que o cérebro está em desenvolvimento, pelo que fetos e crianças pequenas são especialmente sensíveis. Mas Pedro Graça recorda os benefícios reconhecidos associados ao consumo de peixe. É preciso fazer um controlo e os alertas são uma obrigação, sempre que se justifique, defende, mas os danos estão associados a elevadas concentrações, o que muitas vezes quereria dizer “consumir continuamente uma mesma espécie de peixe, oriunda sempre da mesma região”.

Mais informações na notícia do El País:

Sanidad recomienda a embarazadas y niños hasta 10 años no comer atún rojo ni pez espada

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