Espanha recomenda que crianças até aos 10 anos e grávidas não comam atum ou peixe espada

Novembro 29, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Notícia do Expresso de 20 de novembro de 2019.

O problema é a concentração de mercúrio presente nesta e noutras espécies, dado o metal ser nocivo para os humanos quando o cérebro está em desenvolvimento.

A recomendação já existia, mas foi alargada. A Agência Espanhola de Segurança e Nutrição Alimentar (AESAN) reviu os últimos dados sobre o consumo de peixe com alto teor de mercúrio e pede agora que as grávidas e as crianças até aos 10 anos – até aqui a fasquia eram os 3 anos – evitem a ingestão de espécies como atum e peixe espada. A recomendação abrange ainda as mulheres que planeiem engravidar ou amamentar, cabendo na lista dos peixes proibidos espécies tradicionalmente menos consumidas, como tubarão e lúcio.

Segundo a AESAN, a ingestão dessas espécies em crianças entre 10 e 14 anos deve ser limitada a 120 gramas por mês, já que o mercúrio pode ser um tóxico neurológico nos estágios iniciais do desenvolvimento.

O alerta deve ser contextualizado e não justifica alarmismos, considera o nutricionista Pedro Graça, diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Sobretudo, explicou ao Expresso, se tivermos em conta a realidade portuguesa, onde a existência de um “inquérito nacional alimentar e a realização regular de análises ao pescado, quer pela ASAE [Autoridade de Segurança Alimentar e Económica], quer pelo IPMA [Instituto Português do Mar e da Atmosfera], permite avaliar com segurança o grau de risco”.

A questão é: se sabemos exatamente o que os portugueses comem e em que quantidades, e se sabemos o grau de contaminação das diferentes espécies de peixe, é possível cruzar os dados e “fazer o mapeamento do risco”, conclui o também ex-diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da DGS.

O mercúrio é um metal pesado que está presente no ambiente e pode ser encontrado em certos alimentos. No pescado, a sua concentração é variável, maior nas espécies que surgem no final da cadeia alimentar. Peixes predadores, maiores e que vivem mais tempo, apresentam uma maior concentração, “peixes como a sardinha ou a cavala” quase não apresentam contaminação, adianta Pedro Graça.

Quanto aos riscos do mercúrio para a saúde, estão bem estudados. E não são imediatos, resultando antes do facto de este metal se acumular no organismo, aí se mantendo.

No caso de Espanha, o alargamento da recomendação é justificado pelo facto de novos dados científicos revelarem que as concentrações de mercúrio na população espanhola são mais elevadas do que as registadas noutros países europeus, adianta o “El País”, razão porque são agora aconselhadas preferencialmente espécies como anchovas, lulas ou truta, entre outras.

O mercúrio é nocivo nos períodos em que o cérebro está em desenvolvimento, pelo que fetos e crianças pequenas são especialmente sensíveis. Mas Pedro Graça recorda os benefícios reconhecidos associados ao consumo de peixe. É preciso fazer um controlo e os alertas são uma obrigação, sempre que se justifique, defende, mas os danos estão associados a elevadas concentrações, o que muitas vezes quereria dizer “consumir continuamente uma mesma espécie de peixe, oriunda sempre da mesma região”.

Mais informações na notícia do El País:

Sanidad recomienda a embarazadas y niños hasta 10 años no comer atún rojo ni pez espada

Um quinto dos casais separa-se nos primeiros 12 meses de vida do bebé

Novembro 7, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia e imagem do DN Life de 27 de outubro de 2019.

Falta de comunicação, vida sexual em declínio e parceiro pouco envolvido nos cuidados do bebé foram os principais motivos identificados num estudo recente feito no Reino Unido. Por muito desejado que um bebé seja, o nascimento de um filho coloca sempre o casal à prova. E muitos não resistem.

Joana Capucho

Quando Afonso nasceu, a relação de Carolina e Tiago já não estava bem. “Existiam alguns problemas, que tomaram proporções gigantescas com o nascimento do bebé”, recorda a mãe. Aos 23 anos, depararam-se com uma gravidez não planeada e nenhum dos dois estava “minimamente preparado emocional e psicologicamente para a chegada de um bebé” e para “todas as mudanças” que isso implicaria. “Começámos a discutir mais, a ser menos tolerantes um para outro. Eu sentia-me mais empenhada, mais madura e acabou por se abrir um fosso gigante entre nós, que nunca mais foi tapado”, conta Carolina, agora com 35 anos.

Separaram-se quando Afonso tinha apenas seis meses. Para a mãe, o maior desafio era conciliar todos os papéis: “Tinha de tomar conta do bebé, ter tempo para mim, ter tempo e disponibilidade para a relação, para as lides domésticas e ainda para trabalhar”. Tornou-se “muito difícil dar conta do recado. Algo tinha inevitavelmente de ficar para trás e no meu caso foi a relação”. Carolina diz que “um bebé exige muito dos pais”, mas “no caso da mulher ainda mais”. Por um lado, “toda a atenção é canalizada para o bebé, depois a mulher está completamente alterada emocionalmente, com comportamentos que ela própria não reconhece em si, e isso leva muitas vezes a um afastamento do casal”.

Na opinião de Carolina, “se não existir uma relação saudável baseada no respeito, compreensão, confiança plena, entreajuda e muito poder de encaixe, é muito difícil sobreviver aos primeiros meses”. Uma perceção que é confirmada pela ciência. De acordo com um estudo feito no Reino Unido, com cerca de dois mil pais, um quinto dos casais termina as relações nos primeiros 12 meses após o nascimento de um bebé.

Falta de comunicação e declínio da vida sexual

A mesma pesquisa, promovida pelo ChannelMum.com e pelo The Baby Show, refere que mais de seis em cada dez pais não estavam preparados para o impacto que a criança ia ter na relação e um terço dos casais assumiu ter problemas sérios nos meses seguintes ao nascimento de um filho. Citado pelo The Independent, o estudo refere que 30% dos participantes que terminaram as relações apontaram a “falta de comunicação” como o principal motivo e outros 30% justificaram o fim da relação com o declínio da vida sexual. Números que, de acordo com as especialistas ouvidas pelo DN, não devem andar muito longe da realidade portuguesa.

“De uma forma geral, os primeiros dois anos de vida da criança são os mais críticos e desafiantes para a conjugalidade”, diz a psicóloga Filipa Jardim da Silva, destacando que “a taxa de separações e divórcios é muito elevada” nesse período. “O nascimento de uma criança é uma mudança, e uma mudança constitui uma crise numa dinâmica familiar e conjugal”, explica.

Os primeiros dois anos de vida da criança são os mais críticos e desafiantes para a conjugalidade.

Com a chegada de um novo elemento, há um convite “à redefinição de papéis e de rotinas, levantando-se problemas que até então não existiam”. Multiplicam-se as noites sem dormir, fraldas para trocar, roupa para lavar, choro, birras. Filipa Jardim da Silva reconhece que “a privação de sono é um fator muito relevante” neste processo. Tal como “as alterações hormonais no pós-parto, que têm uma interferência muito preponderante” na relação. De acordo com o estudo britânico, o facto de o parceiro estar pouco envolvido nos cuidados do bebé também causa danos irreparáveis nas relações.

A família alargada, nomeadamente avós e tios, também “contribui para muitos atritos entre o casal“. “Os familiares próximos acabam por querer fazer parte da educação da criança, opinam e interferem”, pelo que é muito importante que o casal defina “de forma consistente o que é o espaço familiar e onde entram outros”.

Se existirem problemas de comunicação, a probabilidade de o casal se separar aumenta exponencialmente. “Ambos devem convidar-se a falar sobre o que estão a pensar, a sentir, necessidades, limites. A comunicação deve ser assertiva, objetiva e eficaz. Não deve partir do princípio que o outro sabe o que está a sentir, ou que é óbvio”. Até porque “é um período de aprendizagem, de adaptação” – é uma experiência nova para ambos.

Segundo Filipa Jardim da Silva, os problemas estão muitas vezes relacionados com a gestão de expectativas, nomeadamente quando os casais esperam que os filhos os unam ainda mais ou que ajudem a fazer as pazes em fases mais desafiantes. “Sem dúvida que um filho é um elo de ligação entre um homem e uma mulher, sem dúvida que é um legado que deixam e que pode ser fruto de um amor maior entre os dois. Mas, ao mesmo tempo, não é um salva relações, não é um elemento que garantidamente vá unir duas pessoas”. E essa responsabilidade é dada ao bebé mesmo antes de nascer. “Isso pode acontecer ou não. Mesmo que aconteça, não é de forma mágica e linear”.

Sem dúvida que um filho é um elo de ligação entre um homem e uma mulher, sem dúvida que é um legado que deixam e que pode ser fruto de um amor maior entre os dois. Mas, ao mesmo tempo, não é um salva relações, não é um elemento que garantidamente vá unir duas pessoas.

Modificação dos papéis

“Os filhos são ótimos para os casais, mas o aparecimento de um filho é um dos momentos em que o casal é posto à prova”, reconhece Catarina Mexia. Segundo a psicóloga e terapeuta familiar, “há uma necessidade de adaptação muito grande”. Numa família tradicional, é a passagem de um modelo de duas pessoas para um de três. “Por muito desejada que a criança tenha sido, obrigada a um investimento num terceiro elemento e a um desinvestimento na relação a dois”.

No caso da mulher, a modificação do papel – para mãe – “é mais evidente” e esta está “fisiologicamente mais preparada para responder às necessidades do bebé”. Por outro lado, o papel do homem na relação é posto em causa: “No primeiro ano de vida, a mulher está completamente apaixonada pelo seu bebé. O homem tem um grande competidor”. Uma realidade à qual ambos os membros do casal têm de estar atentos. Ao mesmo tempo, com o passar do tempo surgem frases como “estou cansada, vai lá tu”, que “podem ser entendidas como guerras de poder”.

Se o casal não se constitui de uma “forma boa, para estar atento às necessidades de cada elemento, para conversar de forma consistente e não de ataque”, é natural que surjam mais complicações na relação.

Os casais que já tinham dificuldades em “estabelecer um ‘nós’ consistente e rico são aqueles que vão ter mais problemas com a chegada de um bebé”. Segundo a terapeuta familiar, “são aqueles que vão à consulta e queixam-se que ele/a sai muito com os amigos, não participa nas tarefas de casa ou continua muito ligado à família”. No fundo, explica, “são aqueles que mantêm uma postura mais individualista”.

Do cansaço à diminuição das relações sexuais

A falta de tempo e disponibilidade para o sexo é um dos motivos que conduz ao término das relações. “A questão sexual põe-se porque existe o cansaço. Quando estamos cansados, o sexo entra na última das prioridades. E a isto junta-se o facto de algumas crianças terem problemas de sono, de aparecimento dos dentes e outros”, diz Catarina Mexia. Mas este não será um fator determinante. “A questão sexual costuma estar presente, mas não aparece isolada como sendo a gota de água. Muitas vezes, já existiam alterações na frequência e no desejo de um ou de outro”.

Quando estamos cansados, o sexo entra na última das prioridades. E a isto junta-se o facto de algumas crianças terem problemas de sono.

No decorrer da gravidez, diz, a mulher sofre mudanças importantes ao nível da imagem corporal, o que não está relacionado apenas com o aumento do peso. “Não é só o que vemos no espelho. É o que sentimos e o que ficou registado. A adaptação às alterações no corpo leva algum tempo. E isso pode complicar a vida sexual, porque a mulher fica menos disponível para a sexualidade”, esclarece a psicóloga. Além disso, sublinha, essa vontade “tem muito de psicológico”. “Quando há tensão constante, agudiza mais a falta de disponibilidade sexual”.

Para que a parte sexual não venha a ser um problema, Filipa Jardim da Silva diz que o “autocuidado” é essencial: “Cuidar da mulher e do homem que já existiam antes de ser pai e mãe, cuidar do sistema que se cria e da terceira entidade – o nós”. Para isso, “é fundamental que haja tempo a dois”. “E é importante que seja definido em agenda. Se ficar à espera do momento ideal, não vai acontecer”. Pode ser um dia por semana ou de 15 em 15 dias para jantar fora, estar com amigos ou para outra atividade que quebre a rotina.

Quando já existem problemas

Um quarto dos entrevistados admitiu já ter problemas antes da chegada do bebé, que pioraram nos primeiros meses após o nascimento. Quando já existem atritos ou conflitos, Filipa Jardim diz podem ocorrer vários cenários: “Ou o nascimento da criança agudiza os desencontros e conflitos e o casal fica ainda mais separado; ou o casal coloca o máximo foco no papel da parentalidade e, durante algum tempo, mais do que homem e mulher, funcionam como pai e mãe; ou passam a ter uma motivação maior para ultrapassar o que os separa e resolver as diferenças”.

Como a percentagem de relações que não resiste ao nascimento de um bebé é significativa, Filipa Jardim da Silva conta que os pediatras começam a trazer este assunto para as consultas periódicas, perguntando aos pais como estão enquanto casal, como está a comunicação”. Até porque “a consistência entre o casal vai ser fundamental para o respeito pelas regras e a estabilidade emocional da criança”.

Direcção-Geral da Saúde recomenda que creches não dêem bolachas, sumos e doces

Outubro 25, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

Notícia do Público de 16 de outubro de 2019.

DGS lança manual com recomendações sobre alimentação saudável para crianças até aos seis anos. Excesso de peso atinge 32,6% das crianças com idades compreendidas entre 1 e 3 anos em Portugal.

Ana Maia

Os “alimentos processados (por exemplo bolachas, cereais de pequeno-almoço) ou doces (como sumos, xaropes e mel) não deverão fazer parte da oferta alimentar das creches e infantários nem da rotina familiar”, defende a Direcção-Geral da Saúde (DGS). Esta é uma das várias recomendações que pais, educadores e profissionais de saúde podem encontrar no manual Alimentação Saudável dos 0 aos 6 Anos, lançado esta quarta-feira.

Uma das novidades do manual, que marca o Dia Mundial da Alimentação, são as recomendações direccionadas para berçários e creches, algo que até agora não existia. Para os jardins-de-infância e para as escolas existem várias normas que resultam de um trabalho conjunto entre a DGS e a Direcção-Geral da Educação.

O manual, que lembra que o excesso de peso atinge 32,6% das crianças com idades compreendidas entre 1 e 3 anos em Portugal, traz indicações sobre quantidades e a forma como devem ser introduzidos os alimentos. “A partir dos seis meses é hora de começar a diversificar a alimentação. Esta é uma oportunidade única para treinar o paladar e as texturas”, diz Maria João Gregório, directora do Programa Nacional para a Alimentação Saudável, da DGS.

A comida confeccionada para as crianças até um ano não deve ter sal e açúcar adicionados e “os alimentos introduzidos devem ser os da Roda dos Alimentos”. “Neste período deve-se variar a oferta alimentar e há alimentos proibidos: o açúcar e o sal adicionados e também os alimentos processados que têm adição de açúcar e sal”, aponta a responsável.

A partir dos 12 meses, a criança passa a partilhar a mesma alimentação da família. “Os pais têm um papel enquanto modelo e a creche também”, diz Maria João Gregório. Crianças pequenas comem doses pequenas, reforça a directora do programa nacional que destaca que “não se deve forçar” a criança a comer mais quando não quer, nem “não aceitar que repita a dose” para evitar o consumo excessivo. Sumos devem estar fora da ementa — a água é a bebida mais importante —, tal como os doces e os alimentos processados, que “poderão ser a excepção nos dias de festa”, dizem as recomendações.

Não existe uma avaliação à comida oferecida nas creches. Mas as respostas que os profissionais de saúde recebem dos pais quando questionam sobre a alimentação “não são muitas vezes as que gostaríamos de ouvir”, reconhece Maria João Gregório.

“O manual pretende uniformizar um conjunto de orientações e dar ferramentas para que os berçários, creches e jardins-de-infância estejam mais capacitados para poderem ser promotores de uma alimentação saudável”, refere, adiantando que faz parte dos objectivos do programa trabalhar em conjunto com a Segurança Social para avaliar a alimentação dada nestes espaços.

Primeiros mil dias de vida

A par do manual, a DGS apresenta também a primeira Estratégia Nacional para a Alimentação do Lactente e Criança Pequena, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Dedicada aos primeiros mil dias de vida — a começar durante a gestação —, a estratégia divide-se em cinco eixos e será coordenada pela antiga ministra da Saúde e pediatra Ana Jorge.

Um dos focos principais é a promoção do aleitamento materno. “Dados da Notícia de Nascimento digital (instrumento de registo do Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil) no SNS, ainda não publicados (relativos a um período de 3 meses em 2017), permitem verificar que até à data da alta da maternidade 79,1% dos recém-nascidos tiveram aleitamento materno exclusivo. Destes, 45% mantinham aleitamento materno exclusivo aos seis meses”, diz o documento.

“Sabemos que para promovermos o aleitamento materno durante um maior período de tempo, será necessário implementar um conjunto de medidas para um ambiente mais facilitador”, assume Maria João Gregório. Entre as medidas a promover estão a criação de uma rede nacional de bancos de leite humano — actualmente só a Maternidade Alfredo da Costa tem um — e a criação/revisão de legislação que preveja a existência de espaços próximos dos locais de trabalho onde as mães possam amamentar.

A estratégia pretende também que as áreas da actividade física, estilos de vida saudáveis e nutrição com especial ênfase na prática do aleitamento materno sejam incluídas nos currículos de formação de professores, educadores e outros profissionais. Outro dos eixos passa pela aposta em investigação com o objectivo de se criarem políticas e programas nacionais nesta área.

 

 

Sim às papas, não à repetição do prato: 25 recomendações para bebés e crianças

Outubro 20, 2019 às 7:11 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

getty images

Notícia e imagem do Público de 16 de outubro de 2109.

A DGS lançou um manual recheado de recomendações. Diz, por exemplo, que não deve forçar a criança a comer mais, mas também que não deve deixar repetir. E que as refeições não devem ter mais de 30 minutos. Ou que as papas “normais” compradas podem ter benefícios em relação às bio e às caseiras.

Patrícia Jesus

Sabia que o primeiro ano é a fase em que mais se cresce durante toda a vida? Daí a importância da alimentação logo nos primeiros meses, mas também porque estas primeiras experiências moldam as preferências e a saúde/doença para a vida.

E depois do primeiro ano? Um novo manual da Direcção-Geral de Saúde (DGS) traz uma série de recomendações para uma alimentação saudável do nascimento aos seis anos, que valem para as famílias e para as creches e infantários. O objectivo é aplicar “a evidência científica mais recente” num documento de fácil leitura, que até tem propostas práticas.

Sabia, por exemplo, que não deve forçar a criança a comer mais quando não quer, mas também que não deve deixar repetir? Que as refeições não devem ter mais de 30 minutos? Ou que as papas “normais” compradas podem ter benefícios em relação às biológicas e às caseiras? Que não deve dar bolachas aos bebés com menos de um ano?

Bebés até um ano

O leite materno, em exclusivo, é o ideal para o bebé nos primeiros seis meses. O bebé deve ser alimentado quando pede.

– A mãe que amamenta deve ter uma alimentação variada e equilibrada e não precisa de excluir qualquer alimento da dieta.

– Quando os bebés não são amamentados, os pais devem optar por fórmulas pelo menos até ao final do primeiro ano, idealmente até aos 2-3 anos. E não deve ser excedido o volume de 180-210 ml por cada refeição.

– A partir dos seis meses de vida é essencial a introdução progressiva de outros alimentos, para treinar o paladar para novos sabores e texturas. Mas nunca sumos ou chá.

O bebé deve alimentar-se sentado, inicialmente à colher (sopas, papas, purés) e depois com colher e quando possível sozinho.

– A “auto-alimentação” (baby lead weaning) só deve adoptada quando exista comprovada segurança (neuromotora e nutricional) e sempre sob controlo do cuidador e vigilância médica.

– Deve ser respeitado o apetite da criança: logo, deixe a criança gerir a quantidade e respeite os sinais de auto-regulação do apetite. Esteja atento aos extremos, quando come sempre de mais ou de menos.

Sal e açúcar são proibidos no primeiro ano, o que exclui alimentos como sumos, sobremesas, bolos, doces e enchidos.

– No primeiro ano nada de alimentos processados, nem doces nem salgados – isto inclui, por exemplo, bolachas.

– Deve ser feita a suplementação com vitamina D pelo menos durante o primeiro de vida.

– Embora seja importante começar com a sopa, as papas são uma importante fonte de hidratos de carbono e, pela sua suplementação, são um importante veículo de vitaminas e minerais (ferro). E as comerciais “normais” até têm benefícios em relação às biológicas que não são enriquecidas e às caseiras, que “não são nutricionalmente seguras”.

– A proteína animal (carne ou peixe) não deve exceder as 30 g/dia, devendo oferecer-se carne quatro vezes e peixe três vezes por semana. O ovo pode ser introduzido a partir dos 8-9 meses de idade, até três vezes por semana, em vez da carne ou do peixe.

– Os alimentos devem ser progressivamente menos moídos, de forma a permitir a mastigação de alimentos moles aos oito meses.

– O iogurte natural pode ser introduzido aos 8-9 meses.

– Num bebé filho de mãe vegetariana, a realizar aleitamento materno, deve ser rigorosamente vigiada a suplementação materna em vitaminas e minerais e também ao bebé.

Depois de um ano

No final do primeiro ano de vida a transição para a alimentação da família deverá estar completa. Os pais são exemplos e esta é uma boa altura para melhorar a alimentação de toda a família.

Não permita repetições, incentive a comer devagar, respeite o horário das refeições e não mantenha a criança à mesa mais de 30 minutos.

Não substitua por outros alimentos aqueles que a criança não gosta e incentive à autonomia na mesa.

– É importante a alimentação ser variada — se houver uma recusa inicial de um alimento não desista e encoraje a experimentar coisas novas.

– Ofereça à criança apenas alimentos incluídos na roda dos alimentos.

O pequeno-almoço é importante, mas dê “cereais de pequeno-almoço” apenas de vez em quando, e não dê bolachas ou “pães doces” e embalados.

– As merendas devem integrar produtos lácteos (leite/iogurte/queijo), hidratos de carbono complexos (pão de cereais variados) e frutos. Bolachas e sumos apenas de vez em quando.

– Mantenha a sopa ao almoço e ao jantar.

– Ofereça água durante o dia e às refeições e deixe os sumos para os dias de festa – o leite não deve ser confundido com uma bebida, já que é um alimento.

– Por fim, a “criança pequena” tem necessidades alimentares “pequenas” e volumes “de adulto” estão totalmente desajustados das necessidades nutricionais desta idade, contribuindo para obesidade. Porções pequenas e variedade da oferta são fundamentais. E tudo completado com actividade física, aproveitando todas as oportunidades para pôr as crianças a mexer.

O manual citado na notícia é seguinte:

Alimentação Saudável dos 0 aos 6 anos : Linhas de Orientação para Profissionais e Educadores

Afogamento em idade pediátrica: verão após verão a tragédia repete-se

Setembro 18, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Texto do site Educare de 16 de agosto de 2019.

Estamos no verão! A pior época do ano no que respeita aos afogamentos.

Afogamento, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), define-se por um processo que condiciona insuficiência respiratória em resultado da imersão (pelo menos da face e da abertura da via aérea) ou submersão (todo o corpo) em água/outro líquido, independentemente da sobrevida ou não. Desde o nascimento que o contacto com água torna-se rotineiro e, para a maioria das crianças a água é uma diversão atrativa. Contudo, esta interação acarreta risco e a vulnerabilidade das crianças varia de acordo com a idade, género e estádio de desenvolvimento.

O afogamento é um acontecimento trágico, muito rápido (segundos são suficientes), silencioso (a criança não faz barulho e não pede ajuda) e que pode ocorrer em pequenas quantidades de água (menos de um palmo de água).

Apesar das campanhas anuais de prevenção da morbi-mortalidade por afogamento, as situações fatais ou com consequências devastadoras permanecem.

Em Portugal, o afogamento é a segunda causa de morte acidental nas crianças (depois dos acidentes de viação) e a grande maioria poderia ser prevenida. De acordo com o último relatório da Associação para a Promoção e Segurança Infantil (APSI), nos últimos 16 anos ocorreram 247 afogamentos com desfecho fatal e 586 internamentos na sequência de afogamento e, desde há 7 anos que estes números têm vindo a diminuir. Nas crianças hospitalizadas, o prognóstico é geralmente reservado, e as que sobrevivem podem apresentar sequelas neurológicas permanentes. No entanto, estes números não devem subestimar este problema de saúde pública. A maioria das crianças e jovens com necessidade de internamento ocorre dos 0 aos 4 anos e a maioria das mortes por afogamento dos 15 aos 19 anos. O género masculino associa-se à maioria dos afogamentos (66%). Quanto aos locais, as piscinas são os planos de água com maior registo de afogamentos, sobretudo na primeira década de vida, seguido das praias e dos rios/ribeiras/lagoas com crianças e jovens mais velhos. Em todos os meses do ano há registo de afogamento, no entanto Junho, Julho e Agosto são os meses onde se verificam mais casos.

É importante conhecer os riscos:
– Vulnerabilidade da idade;
– Género (sobretudo masculino);
– Acessibilidade a planos de água (piscina, praia, rios/ribeiras/lagoas e poços) e ausência de barreiras físicas que impossibilitem o acesso livre à água ou dispositivos de flutuação adequados (braçadeiras e/ou coletes salva-vidas essenciais em ambientes aquáticos). De alertar que as boias e os colchões são falsamente seguros, uma vez que facilmente são deslocados quer pelo vento quer pela ondulação.
– Ausência ou inadequada vigilância (mesmo na banheira): devendo evitar-se qualquer elemento distrativo como exemplo o uso do telemóvel;
– Consumo de álcool e drogas e exposição simultânea a banhos;
– Incumprimento das regras de segurança do local;
– Patologias de base como por exemplo epilepsia.

É fundamental criar ambientes seguros, minimizando os acidentes:

1.  Vigilância ativa: o cuidador deve vigiar as crianças na água ou na sua proximidade, sem distrações (como por exemplo o telemóvel) e de forma atenta e permanente para que possa intervir de imediato sempre que necessário. Com ressalva de que o cuidador deverá saber nadar de forma a evitar colocar a sua vida e das crianças em risco.
2.  Nas férias, vigilância redobrada, com reconhecimento do local e dos planos de água.
3.  Quando em ambiente de festa, com muita gente, estabelecer um sistema rotativo de vigilância, havendo sempre um adulto responsável pelo ambiente aquático.
4.  Esvaziar baldes, alguidares e banheiras, logo após a sua utilização. Não deixar a criança sozinha no banho, sem supervisão e esconder a tampa da banheira para evitar que a criança a encha sozinha.
5.  Colocar barreiras físicas que impossibilitem o acesso à água (piscinas, poços, fossas e tanques). O uso de barreiras não deve substituir a supervisão do cuidador. Outros sistemas de proteção para a piscina existentes no mercado não mostraram benefício. Não deixar brinquedos atrativos perto e/ou na piscina.
6.  Optar por praias e piscinas vigiadas, localizar o nadador salvador e cumprir as regras de segurança e sinalização do local.
7.  Equipamento de flutuação (braçadeiras/coletes salva-vidas ajustados ao corpo) devem ser sempre colocados nas crianças junto aos ambientes aquáticos. No entanto, esta medida não substitui as supramencionadas.
8.  Formação em suporte básico de vida, sobretudo para quem tem piscina no domicílio.
9.  Iniciar aulas de natação e promover comportamentos seguros o mais precocemente possível.
10.  Fortalecer a consciencialização pública e advertir para a vulnerabilidade das crianças.
11.  Alertar para os riscos de mergulhar em zonas com profundidade da água desconhecida ou onde existam rochas submersas ou desníveis.
12.  Incentivar as crianças a permanecerem perto das margens e a nunca entrarem na água sem vigilância.

Prevenir o afogamento está nas nossas mãos!

Ana Ribeiro, com a colaboração de Clara Machado, Pediatra do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga.

“A brincar também se educa”. Um guia para envolver os pais e afastar as crianças dos ecrãs

Setembro 10, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

istock

Notícia e imagem do Observador de 15 de agosto de 2019.

Ana Cristina Marques

90% das crianças entre 5 e 14 anos já têm telemóvel e preferem o smartphone aos jogos tradicionais. Os pais têm cada vez menos tempo. Mas os especialistas alertam: brincar sem ecrãs é fundamental.

Uma amostra de 1.200 crianças portuguesas, dos 5 aos 14 anos, concluiu que 90% tinha um telemóvel ou um Ipad próprio ou, então, partilhado com os irmãos. “São os dispositivos que os pais já não querem e que ficam para os filhos. Fiquei surpresa, os professores também não sabiam”, relata Ivone Patrão ao Observador, investigadora, psicóloga e terapeuta familiar do ISPA – Instituto Universitário. O estudo por ela coorientado teve por base alunos de escolas públicas e privadas e serviu para criar o jogo Missão 2050, lançado em junho último, que visa a promoção do uso saudável de tecnologia. “Enquanto investigadora foi uma surpresa”, insiste. “Tinha ideia que isto começava aos 10 anos, com a entrada para o 5.º ano. Mas não. E eles comunicam uns com os outros depois da escola, à noite.”

Enquanto se rendem aos ecrãs — assumam eles a forma de smartphones ou de tablets –, as crianças estão a tirar tempo aos estudos e à própria brincadeira. Ivone Patrão fala “na normalização de comportamentos”, isto é, de um comportamento online que substitui o ir brincar para a rua ou o jogar ao UNO, por exemplo. Não quer isto dizer que estas crianças sejam dependentes do uso do ecrã — isso é outra conversa — mas pode realmente existir um comportamento considerado excessivo.

Vários artigos que alertam para o facto de haver pais que usam os telemóveis e os tablets como babysitters: segundo o estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças”, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa, as crianças que mais usam aplicações têm até 2 anos e são os pais os primeiros a dar aos filhos o acesso a dispositivos eletrónicos, além de 90% das casas portuguesas ter ligação à internet, “smartphones, computadores portáteis ou tablets”.

O debate em torno dos ecrãs é tanto que o insólito já aconteceu: nos EUA há famílias que contratam coaches para as ajudar a educar crianças longe dos ecrãs, porque é difícil recordar um tempo em que tal não existia. Também nos Estados Unidos, como já antes explicou o Observador, são cada vez mais os pais que atrasam de propósito a idade a que os filhos recebem smartphones para as mãos, existindo até movimentos organizados nesse sentido — por exemplo o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º).

O papel dos pais nas brincadeiras dos filhos

Brincar é essencial para o desenvolvimento dos mais novos, seja a nível sócio-emocional, psicomotor ou cognitivo. O ato de brincar deve seguir três etapas evolutivas: as atividades que geram ação (quando um bebé atira um brinquedo ao chão está a ter uma primeira noção da lei da gravidade), as simbólicas (pegar numa vassoura e transformá-la num cavalo é um exercício de imaginação) e as que exigem regras (os jogos de computador e os de tabuleiro ajudam a perceber que a vida se rege por um conjunto de normas).

A brincadeira funciona como uma espécie de tubo de ensaio para a vida real. Permite explorar, conhecer, aprender e percecionar o mundo, perceber como este funciona. Brincar faz parte da vida de uma criança e é tão importante que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda três horas diárias de atividade física, leia-se jogos e brincadeiras, a partir do primeiro ano. O gesto tão naturalmente associado à infância parece estar, por estes dias, em vias de extinção. Tanto que há sensivelmente um ano a Sociedade Norte-americana de Pediatria recomendava que os pediatras receitassem mais tempo para brincar. A escassez está, muito provavelmente, associada ao atual estilo de vida marcado por agendas cheias e acesso facilitado aos ecrãs, o que veio alterar a forma como as crianças olham o mundo à sua volta.

Para Inês Afonso Marques, psicóloga infantil e autora do livro “A brincar também se educa” (editora Manuscrito), quando os pais dão tempo aos filhos para brincar estão a educá-los, a ajudá-los a fazer escolhas e a usar a criatividade, entre outras vantagens. Mas o uso que fazemos da tecnologia pode estar a impedir as crianças de brincar, diz. E os pais são o modelo dessa realidade. Ao Observador, a psicóloga explica que brincar implica envolvimento e atividade, enquanto a tecnologia é passiva. “As crianças gostam de se sujar, de sentir, de envolver os cinco sentidos naquilo que estão a fazer. Tudo aquilo que possa suscitar a descoberta, tudo isso estimula uma criança.”

Foi Sílvia e o marido que aproximaram a tecnologia do filho de três anos para garantir aos pais momentos de descanso e para ajudar a criança nas refeições. Ao Observador, esta mãe admite que o filho sempre comeu mal, pelo que recorria ao ecrã para o distrair. “Talvez isto tenha sido um pouco mau porque ele hoje não come bem. Antes fazia as refeições sem saber o que estava a comer, hoje não tem uma relação boa com a comida.” Atualmente, o filho vê alguma televisão em casa — sempre sintonizada em canais infantis — e Sílvia congratula-se pelo facto de ele não ter ficado muito adepto dos ecrãs. “Sinto-me aliviada porque ele não os procura, não ficou dependente. Entretém-se sozinho, encarna personagens com acessórios.”

A psicóloga e investigadora Ivone Patrão é perentória quando argumenta que as crianças não deveriam ter ecrãs nas horas das refeições e no tempo de brincar porque “têm de estar concentradas no que estão a fazer, seja comer ou brincar”. O ecrã, continua, deve ser encarado como um complemento à brincadeira, mas não o pode substituir. “O ecrã é muito assumido como algo que os vai tranquilizar, mas é preciso fazer um uso adaptado, caso a caso, dependendo das necessidades da família. Acho que os pais devem perguntar-se porque usam a tecnologia. Muitas vezes dá-se a ferramenta, mas não o manual de instruções.”

Segundo a Sociedade Norte-americana de Pediatria, até aos 2 anos o uso de smartphones e de tablets não é recomendável, sendo que a introdução deve ser feita de forma gradual e com a supervisão dos adultos. Inês Afonso Marques insiste nesta tónica: é importante controlar o que é transmitido à criança, bem como limitar ao máximo todo o tipo de monitores. “Há crianças [em consultório] que verbalizam ‘Preciso do telefone porque não tenho nada com que me entreter’. Isso revela uma dependência associada à incapacidade de a criança encontrar outros estímulos.”

“Não gosto de culpar a tecnologia… Na minha infância tive consolas. Muitas vezes, no consultório, pergunto aos miúdos as brincadeiras preferidas e a maior parte responde o telemóvel, o tablet, o computador e a consola. Por outro lado, sinto que eles têm sede de brincadeiras, têm vontade de usar os jogos que estão nas prateleiras do consultório, jogos banais, mas o mais imediato é a tecnologia muito por observação e pelo modelo que têm à sua volta”, continua Inês Afonso Marques, que ressalva que cabe aos adultos quebrar o ciclo e encontrar ou reencontrar outras formas de brincar. A isso acrescenta-se a “falsa questão” da falta de tempo, até porque a psicóloga ouve em consultório como as crianças se queixam de que os pais não têm tempo para brincar e como os pais argumentam que já não sabem brincar. “Não é necessário muito tempo, desde que este seja de qualidade”, diz, aconselhando os adultos a seguir os interesses da criança e a seguir o ritmo desta.

O uso pouco saudável das tecnologias pode, entre outras coisas, impactar a criança do ponto de vista motor, no sentido em que pode prejudicar a sua destreza. Também por isso a OMS alertou recentemente para a necessidade de as crianças com menos de cinco anos terem de passar menos tempo sentadas diante dos ecrãs para passarem, ao invés, mais tempo a brincar de maneira a crescerem de forma saudável. Entre as recomendações da Organização Mundial de Saúde está, por exemplo, o facto de os bebés com menos de um ano de idade terem de ser “fisicamente ativos várias vezes ao dia e de formas diversas” e não ficarem “contidos” mais de uma hora de cada vez em cadeiras ou carrinhos. “Tempo de ecrã não é recomendável”, acrescenta a OMS.

Sobre isso, Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), disse em 2015 ao Observador que o ecrã “alterou muito significativamente a vida das crianças e dos pais”. “Passou-se da trotinete ao tablet de uma forma rapidíssima e não há equilíbrio. E o que está em causa neste momento é que nem a atividade desportiva que as crianças fazem em clubes, nem a educação física escolar, nem o desporto escolar — que são muito importantes — são suficientes para acabar com o sedentarismo que existe.”

Aos 44 anos e com duas filhas, de 7 e 8 anos, Sofia não diaboliza a tecnologia, mas faz questão de impor regras que, espera, um dia, as miúdas levem consigo para a complicada fase da adolescência. O ecrã mais utilizado lá em casa é a televisão, sobretudo para ver desenhos animados e filmes familiares como a saga “Harry Potter”. “A regra, embora não seja sempre cumprida, é dois desenhos animados quando chegam da escola, o que dá no máximo uma hora de televisão”, conta ao Observador. Limitar o tempo de acesso à televisão deriva da preocupação de Sofia, que considera que os estímulos emitidos por este ecrã são muito rápidos para os cérebros das crianças. “Se passar o tempo, a mais nova, por ter alguns problemas, fica perturbada, começa a rodopiar em loop, sem parar, a mexer freneticamente as pernas, até o discurso dela fica mais confuso.”

Outra regra imposta por Sofia passa pelo uso de smartphones: o uso exclusivo dos telefones dos pais (elas não têm gadget próprio) serve para jogar jogos escolhidos a dedo e testados pela mãe, preferencialmente que estimulem o raciocínio matemático, embora também haja momentos para “maquilhar e vestir princesas”. As filhas só podem jogar duas a três vezes por semana, cinco jogos à vez. “Quanto mais cedo elas tiverem noção de que os ecrãs têm de ser usados com inteligência, melhor. Eu não uso o telemóvel à frente delas, caso contrário nada disto faria sentido. Faço questão de dar o exemplo.”

Também o pedopsiquiatra Pedro Strecht considera que as tecnologias — em particular as aplicações — podem interferir no desenvolvimento das crianças, sobretudo em relação a algumas áreas cognitivas e de relação social. “Se um menino de 8 anos brinca no tablet ou se um de 12 anos joga na playstation, diria que isso é normal e não vejo mal nisso — só aconselho os pais a darem os jogos apropriados à idade dos filhos; mas se ele só brincar com o tablet ou com a playstation… Há crianças que crescem quase só com experiências de relação e de estímulo centradas no ecrã. Há pessoas que acham que tenho uma visão muito crítica em relação às tecnologias… As tecnologias têm coisas ótimas que podem facilitar ganhos de tempo, simplesmente acho que, nos dias de hoje, elas próprias se tornam tão opressivas no chamado tempo tecnológico que também bloqueiam a nossa vivência, o nosso tempo biológico e emocional”, já antes disse ao Observador.

O que mais preocupa a psicóloga Ivone Patrão é precisamente o estado das relações sociais. A socialização, diz, deve ser mista, tanto presencial como online. “O que me preocupa é se for só online. Se as crianças começam assim já não vão ter relações”, afirma, referindo-se ao impacto nas respetivas competências sociais. “Elas deixam de estar treinadas para a resposta em direto.”

Afinal, o que dizem os estudos?

Indepentemente da idade, Ivone Patrão refere que o ecrã tem, de facto, afetado pela negativa o ato de brincar. “Vejo que isso os deixa sentados, inertes, parados do ponto de vista físico. E há outra questão: o ecrã dá-lhes um input… o output vai ter de sair. Quando deixam de estar ao ecrã podem ficar mais irrequietos. A energia natural da infância tem de sair de outra forma. Isso tem impacto ao nível do comportamento e do ponto de vista cerebral. A luz do ecrã, por exemplo, pode provocar alterações no sono”, assegura.

O problema não é necessariamente o ecrã, mas o uso que se faz deste. Porque também nos smartphones ou nos tablets há vantagens: como a facilidade de acesso à informação, a capacidade de aprender novas línguas ou o facto de ser uma ferramenta útil na sala de aula. Nem de propósito, segundo um estudo do ano passado, publicado no jornal semanal The Lancet Child & Adolescent Health, limitar o tempo que as crianças passam a olhar para um ecrã melhora a sua capacidade de aprendizagem — o ideal seria passarem menos de duas horas por dia nessa condição.

Em 2017, a Sociedade Norte-americana de Pediatria apresentava um estudo — feito entre 2011 e 2017 com 894 crianças entre os seis meses e os dois anos — que mostrava que as crianças menores de dois anos que usavam ecrãs táteis corriam o risco de começar a falar mais tarde. Sobre isso, Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”, já antes disse ao Observador que “o tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora.”

As recomendações já antes citadas pela Organização Mundial de Saúde, tendo em conta o uso do ecrã por parte das crianças, não foram bem aceites por todos, já que o The Guardian cita especialistas que argumentam que, na sua base, há falta de provas. Juana Willumsen, uma das autores das referidas recomendações, diz que não há como negar que os ecrãs fazem parte da vida moderna, ao mesmo tempo que argumenta que o grupo de trabalho em questão não encontrou vantagens em introduzi-las a crianças com menos de três anos. “Capacidades sociais e cognitivas são mais bem desenvolvidas com outra pessoa do que com um ecrã. Cuidadores que brincam interativamente são absolutamente vitais para o desenvolvimento das crianças, em particular nos primeiros anos.”

Brincadeiras e linguagem

Agosto 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Cenkerdem/Getty Images

Artigo de opinião de Ana Rita Gonzalez publicado no Público de 28 de julho de 2019.

Cada criança é diferente e irá despertar para o poder da comunicação ao seu ritmo. No entanto, há sinais de alerta aos quais deve estar atento.

Brincadeiras?!… Sim! Brincadeiras porque o brincar é uma ferramenta de aprendizagem essencial no desenvolvimento global e de competências cognitivas que estão diretamente ligadas com a comunicação e a relação com os outros. Brincar cria um contexto relaxado e securizante, permitindo aos pais orientar, modelar e ensinar.

Desde que nasce, o bebé vai descobrir várias formas de comunicar com os pais e com quem o rodeia, desde o choro ao sorriso, chegando por fim às palavras.

Ao longo dos primeiros meses, os momentos de interação com os pais vão aumentando e vão para além dos até então estabelecidos e regulados pelo choro. O bebé já descobriu que quando chora recebe atenção, ou seja, se faz barulho, os pais aproximam-se. E é aqui que reside a descoberta do poder da comunicação. Vão então aprimorando as diferentes formas a utilizar para modificar o ambiente à sua volta, sempre com base neste princípio de ação-reação. Surgem as primeiras conversas, horas de filme gasto pelos pais para registar estas preciosidades! Pais e bebé num diálogo que só eles entendem. O bebé palra, os pais respondem, o bebé palra de novo, os pais imitam. O bebé sorri, os pais, derretidos, sorriem também.

Estes momentos são fundamentais para o estabelecer de uma relação que se quer segura e para a aquisição de uma regra básica de comunicação, o pegar a vez. Aquilo que, mais tarde, vai permitir à criança participar em conversas, sabendo como iniciar, manter e terminar diálogos, dando espaço aos outros participantes para comunicarem também.

Antes de conseguir falar, a criança tem então de adquirir uma série de requisitos cognitivos para ser capaz de aprender conceitos linguísticos — por exemplo, aprender que palavras não são coisas, não são os objetos, são, sim, representações dos objetos.

Inicialmente, entre os nove e os 12 meses, as crianças utilizam uma determinada palavra numa determinada situação e não em todas as situações em que esse conceito aparece. Isto acontece porque ainda não têm a noção de que a mesma palavra tem o mesmo significado em diferentes contextos. Por exemplo: a criança diz “cão” quando, na sua varanda, vê o cão do vizinho do lado, mas não o diz quando vê um cão junto a si, na rua. Nesta fase, observando a criança a brincar e o progressivo aumento da complexidade das suas brincadeiras, vamos vendo o desenvolvimento da linguagem a acontecer. A criança vai explorando os brinquedos típicos de causa-efeito, em que carrega e acendem luzes, puxa e faz um som, roda e aparece um boneco. Mantendo as palavras soltas ainda muito dependentes do contexto, dirigindo-as sempre com o olhar para os outros que estão por perto. A comunicação verbal vai-se desenvolvendo e tornando-se mais intencional e consistente.

Entre os 17 e os 19 meses, a criança faz um jogo simbólico centrado em si. Faz de conta que está a comer com um prato e uma colher, pega numa maçã de brincar e finge que a come. Nesta fase, a linguagem verbal está a desenvolver-se, aumenta o vocabulário, e as palavras são usadas para vários contextos, para fazer referência ao aqui e agora. A criança pode utilizar a palavra “papa” para sopa, carne, iogurte, etc.

Antes dos 20 meses, a criança já dirige o seu jogo simbólico a um brinquedo ou mesmo a outra pessoa, dá com a colher a sopa à boneca, ou até penteia com um pente de brincar os cabelos da sua mãe. Começamos a ouvir a combinação de palavras e a criança começa a fazer referência a objetos ou pessoas que não estão presentes naquele instante.

Perto dos dois anos, com as brincadeiras de faz de conta, brincar às casinhas, aos pais e às mães, ouvimos frases curtas e simples, que descrevem o que estão a fazer. Mais tarde, vêm as representações de situações vividas ou observadas noutros contextos. Nesta fase, a criança tende essencialmente a brincar junto às outras crianças, mas desenvolvendo as suas próprias ideias com os seus brinquedos (jogo paralelo). No entanto, começa pontualmente a surgir um jogo mais interativo, pode estar num grupo de crianças em que desenvolve atividades semelhantes, mas não necessariamente seguindo as mesmas instruções. Começamos, assim, a ouvir a utilização da linguagem para analisar e descrever situações.

Com o desenvolver das brincadeiras vamos ouvindo as primeiras perguntas: “O quê?”, “quem?”, “onde?”. Aos três anos, as brincadeiras de faz de conta continuam, agora mais complexas, com vários acontecimentos encadeados. Já brincam entre si, de forma mais organizada para atingir um fim comum (numa cozinha, a preparar uma refeição para servir aos amigos ou aos pais). A criança já percebe uma sequência de acontecimentos, começa a ter noção de acontecimentos presentes e passados.

Mais tarde, vêm brincadeiras mais elaboradas, em que a criança percebe que pode brincar com objetos cada vez menos realistas porque a sua capacidade de representação simbólica está cada vez mais desenvolvida (com peças de Lego representa copos, pratos, etc.)

Ao ler esta descrição do desenvolvimento da linguagem, deve estar a reconhecer o seu filho, o seu neto e outras crianças com quem convive. Cada criança é diferente e irá despertar para o poder da comunicação ao seu ritmo. No entanto, há sinais de alerta aos quais deve estar atento.

Se o seu filho de três ou quatro meses não emite sons, não palra, não sorri, ou não olha para si, ou se está perto dos dois anos e não diz palavras nem parece ter interesse em brincar e/ou comunicar, deve expor essa preocupação ao médico pediatra, que o poderá orientar e encaminhar para um terapeuta da fala ou outro especialista, caso verifique essa necessidade.

Terapeuta da Fala do CADIn – Neurodesenvolvimento e Inclusão

Laura Sanches: “Os bebés sofrem de stress como nós”

Agosto 14, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia e imagem do DN Life de 17 de junho de 2019.

Todos os pais amam os filhos, mas e o resto? Como se educa uma criança segura? De onde vêm as birras? Qual a importância do colo? A psicóloga clínica Laura Sanches explica isto e muito mais em Amar Não Basta (embora ajude bastante). Um livro para pais que desejam saber o que sentem os seus bebés.

Entrevista de Ana Pago | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Diz que os bebés sofrem de stress como nós. A que se deve esta reação inesperada neles – e forte ao ponto de muitas vezes se tornar um stress tóxico?
O stress surge da ativação do nosso sistema de alarme e os bebés já nascem com o seu a funcionar perfeitamente – aliás, no último trimestre da gravidez já o têm desenvolvido e a operar em sintonia com as emoções da mãe. A partir daí, se são expostos a situações que os fazem sentir-se inseguros e os levam a ativar esse sistema de alarme antes de os pais conseguirem reconhecer e responder aos sinais que eles dão, os bebés ficam sob stress.

Mas não pode ser um stress positivo, se o bebé não se sentir ameaçado e inseguro o tempo todo?
Sim, há pequenos momentos que podem ser úteis para reforçar a confiança nos pais e até aperfeiçoar a resposta aos estímulos. Está provado que aquilo que vivemos nos primeiros anos, e como vivemos, pode ter um impacto permanente na vida adulta por definir a forma como o nosso organismo fica programado para lidar com todos os desafios que irá encontrar. O stress tóxico só surge se o sistema de alarme dos bebés for demasiado solicitado, o que no caso deles é desencadeado – tal como em todos nós, de resto – pelo sentimento de que a ligação com as pessoas importantes da sua vida está a ser ameaçada. As crianças nascem com o instinto de se ligarem a pelo menos uma figura de referência.

A mãe?
Por norma é a mãe. Foi ela quem esteve grávida durante nove meses, com o bebé a vivenciar e a ser afetado por todas as suas emoções dentro do útero. É ela quem passa mais tempo com o bebé após o parto. Então ele nasce com o instinto ativo de procurar o conforto da mãe – e quanto mais pequenino maior é a necessidade de contacto físico – para se sentir seguro com o seu cheiro, o batimento cardíaco, o calor do corpo dela quando lhe pega. Esta programação existe naturalmente. Claro que se por algum motivo a mãe desaparecer, o pai pode tomar esse lugar e preencher o vazio na perfeição.

“No extremo da privação de uma figura de referência temos a morte.”

Pai ou mãe, que efeitos tem a privação dessa figura de referência?
Efeitos devastadores como os documentados na Roménia, em que as políticas de fomento à natalidade impostas pelo líder comunista Nicolae Ceauşescu, a par de uma enorme pobreza no país, resultaram em dezenas de milhar de crianças abandonadas e institucionalizadas durante o período ditatorial. Em 1990, após a queda do regime, o que se viu foi que mesmo nas raras instituições onde não faltava comida, higiene e cuidados de saúde, a taxa de mortalidade era muito superior à expectável porque se negava às crianças a possibilidade de criarem um vínculo forte e seguro com um adulto (os cuidadores estavam sempre a rodar para evitar laços que dificultassem a adoção). Isso significa que, no extremo da privação, temos a morte.

E nos casos menos extremos?
Verificou-se que as crianças tinham atrasos cognitivos, emocionais e que todo o seu desenvolvimento era afetado a ponto de até a estatura ser inferior à que seria normal para a idade. O organismo estava submetido a uma carga tão tóxica de stress que era como se já nem lhes sobrasse energia para crescerem. E não era apenas o corpo que não crescia: o cérebro apresentava várias regiões com um tamanho inferior ao que seria esperado. Essa figura de referência é fundamental para o bem-estar e desenvolvimento infantil, é o que nos ensina a amar. Por oposição, a primeira grande causa de stress para bebés e crianças é a impossibilidade de estabelecerem esse vínculo, ou dificuldades persistentes que surjam sempre que tentam fazê-lo.

Ainda assim, muitos pais receiam que abraçar e pegar nos seus bebés nos primeiros meses os encha de manhas. O colo nunca é demais?
Nunca. A maternidade não é lá muito racional, sobretudo nos primeiros meses, e se a mãe não tiver consciência de que a necessidade de sentir o bebé junto de si é tão grande como a do bebé em estar junto dela, o mais certo é ignorar os instintos e deixar de lhe pegar sempre que tem vontade ou o filho chora. Sim, é um facto: bebés que nunca têm colo ou são deixados a chorar para dormirem no quarto sozinhos deixam de pedir a mãe. O que não vemos acontecer dentro deles, na sua forma de se relacionarem com o mundo, é que mesmo não chorando continuam em tensão, inseguros, apenas silenciaram as emoções. E este sentimento é tão forte que pode comprometer o próprio instinto do apego, além da capacidade de virem a confiar em si mesmos e nos outros.

Também a amamentação é uma facilitadora desse vínculo. Todas as mães deviam amamentar os seus bebés, incluindo as que não desejam fazê-lo?
Tem de se ver sempre caso a caso, não é algo que se possa forçar. Se por um lado o bebé merece que pelo menos tentem, dados os inúmeros benefícios ao nível do crescimento e saúde, por outro o facto de a mulher estar em sofrimento a dar mama, com uma postura rígida, não será bom para nenhum dos dois. Ter um filho a alimentar-se de nós é um ato de grande vulnerabilidade para a mãe, que desperta nelas emoções intensas. É natural sentir medos antigos ou feridas mal curadas virem ao de cima. No caso de não querer fazê-lo, o importante é reconhecer que essa ferida existe e trabalhar para tentar resolvê-la.

“Nas culturas que vivem de forma tradicional é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo.”

E dar de mamar até quando? Alguns médicos defendem que após os 12 meses induz comportamentos regressivos…
Até a mãe e a criança quererem e estarem ambas confortáveis com isso. Ainda hoje, nas culturas que vivem de forma tradicional, é comum amamentar-se até aos 5, 6 anos e está tudo certo, não tem que acabar à força por imposições externas ou teorias mal fundamentadas. A própria Organização Mundial de Saúde recomenda que se amamente no mínimo durante dois anos mas só nos países subdesenvolvidos, e eu pergunto que sentido é que isso faz? Não é por não termos escassez de alimentos e haver água potável para as fórmulas que o leite materno deve ser desprezado. Pode não ser essencial do ponto de vista alimentar, mas faz bem à mesma. Além de que do ponto de vista psicológico estaremos a negar a uma criança algo de que ela ainda precisa.

Mesmo assumindo que possa ser uma ligeira regressão ela vir procurar a mãe e sentir-se um bocadinho bebé?
Mesmo assim. Seria uma regressão ao serviço do crescimento, que se faz por janelas temporais e nunca em linha reta. Às vezes é necessário andar um pouco para trás na altura certa para não termos de o fazer mais tarde, regra geral de maneira muito menos adaptativa. Se a criança procura a mãe para mamar porque isso lhe traz algum conforto, e se essa segurança lhe vai permitir continuar a crescer depois com maior confiança, então não é mau que aconteça. Ver indecência nisso deve-se unicamente aos preconceitos que nos condicionam, não a evidências científicas. Já para não falar que todas as crianças – e repito: todas – largam a mama de forma natural quando se sentem preparadas

Outra questão fraturante para a maioria dos pais é a de levarem os filhos para a cama deles, por julgarem que estão a criar miúdos mimados e adultos dependentes. Porquê tantos fantasmas nas nossas camas?
De novo por culpa de preconceitos, inseguranças pessoais e teorias psicanalíticas antiquadas que defendiam uma excessiva sexualização da infância. Não tem nada de mal. Nenhuma razão para haver culpa ou vergonha, como vejo tantas vezes. Até aos 12 anos, pelo menos, é natural que uma criança ainda precise dessa presença e não é negando-a à força que os pais vão conseguir que se torne autónoma, pelo contrário. A mim parece-me mais prejudicial recusar o contacto agora, com medo de que no futuro não estejam lá para lho darem, do que simplesmente conceder-lhe o que ela procura no presente, sem receios, até um dia deixar de ser necessário.

E a noite é uma altura de muitos medos…
Exacerba muito as nossas angústias, sim. As crianças também sentem isso. Se quando mais precisam de nós lhes dizemos sistematicamente que não podem estar connosco, elas nunca vão sentir que os pais as compreendem, acolhem as suas inseguranças e as aceitam como são, o que gera ainda mais inseguranças. Do que ouço dos meus pacientes chega a haver noites em que ninguém dorme lá em casa, com os filhos a irem para a cama dos pais e os pais a recambiarem-nos para a cama deles, quando a questão se resolvia facilmente se os deixassem ficar. Até porque na grande maioria dos casos esses pais também gostam de dormir com os filhos, não são só os miúdos. Acabavam por descansar melhor todos juntos, sem qualquer prejuízo para o desenvolvimento infantil.

“Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa.”

Seja como for, o que se pode fazer com bebés que acordam muito?
Não podemos ensiná-los a dormir, apenas criar condições que facilitem o sono. Isso passa por estabelecer rotinas tranquilas ao final do dia, respeitar os primeiros sinais de sono da criança (mesmo que os pais cheguem tarde a casa e lhes apeteça brincar), evitar sons demasiado altos, luzes fortes e o brilho de ecrãs, que afetam a produção de melatonina. O problema não está em os bebés acordarem várias vezes à noite, mas no modo exigente como organizamos a vida e esperamos que eles se adaptem. Em última análise, crianças agitadas tendem a dormir pior porque ainda não controlam as emoções fortes que sentem e ficam ansiosas. Cabe aos pais dar-lhes tempo para aprenderem essas estratégias de regulação e perceberem do que realmente precisam para descansar. O choro e as birras que eventualmente façam são só uma resposta ao stress que não sabem verbalizar.

Os pais também têm direito a fazer birras?
Os pais fazem muitas birras, na verdade. Por vezes são mais crianças do que os miúdos que têm em casa – já tive vários a dizerem-me isso em momentos de reflexão nas consultas –, embora saiba que nem sempre é pacífico lidar com os sentimentos fortíssimos que os nossos filhos despertam em nós. Ser adulto não significa ser maduro. Muitas vezes o nosso próprio desenvolvimento não foi o melhor: o cérebro não apurou tudo o que devia para nos ajudar a controlar os impulsos, ou talvez tenhamos crescido com a imagem errada de que éramos um pouco defeituosos, o que agora nos leva a reagir de formas desadequadas. Então é bom ter esta noção de que ainda temos muito a aprender para educarmos os nossos filhos.

A AUTORA

Laura Sanches licenciou-se em psicologia clínica em 2002, pela Universidade Lusófona, e em 2004 concluiu o mestrado em Consciousness and Transpersonal Psychology da Universidade John Moores, em Liverpool. Paralelamente à psicologia clínica, entre 2001 e 2014 deu aulas de yoga, que integra nas consultas juntamente com o mindfulness, técnicas de relaxamento e gestão de stress. Desde 2012 que se centra nas áreas da parentalidade positiva e aconselhamento parental (com foco nas implicações da teoria do apego no desenvolvimento infantil). Trabalha no Espaço Vida, em Lisboa, onde dá consultas, workshops e cursos. É autora do blogue Parentalidade com Apego e coautora do PsiYoga. Escreveu ainda os livros Mindfulness Yoga – Atenção Plena para Lidar com os Desafios (ed. Mahatma), Mindfulness para Pais (ed. Manuscrito) e o muito recente Amar Não Basta (ed. Matéria-Prima).

Actividade Física na infância (até aos 5 anos)

Agosto 7, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Alerta da OMS. Alimentos para bebés têm excesso de açúcar

Agosto 6, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

thumbs.web.sapo.io

Notícia e imagem do Sapo Lifestyle de 15 de julho de 2019.

A Organização Mundial de Saúde detetou em quatro cidades europeias que pelo menos um em cada três alimentos infantis tem níveis de açúcar excessivos e são comercializados de forma incorreta como adequados para bebés com menos de seis meses.

Nos estudos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recolheu dados sobre 7.995 alimentos ou bebidas comercializadas para bebés e crianças pequenas de 561 lojas em quatro cidades europeias da Região Europeia da organização – Viena (Áustria), Sofia (Bulgária), Budapeste (Hungria) e Haifa (Israel).

Em todas as quatro cidades, entre 28% e 60% dos produtos era comercializada como sendo adequada para bebés com menos de seis meses de idade e em três das cidades metade ou mais dos produtos forneciam mais de 30% das calorias através dos açúcares.

Em cerca de um terço dos produtos, o açúcar, sumo de frutas concentrado ou outros agentes edulcorantes faziam parte da lista de ingredientes. “Esses aromas e açúcares adicionados podem afetar o desenvolvimento das preferências de sabor das crianças aumentando o gosto por alimentos mais doces”, indica a OMS.

Apesar de alimentos como frutas e vegetais, que naturalmente contêm açúcares, serem apropriados para bebés e crianças pequenas, “o nível muito alto de açúcares livres em produtos comerciais como o puré também é motivo de preocupação”, frisa a organização.

As recomendações da OMS indicam que as crianças devem ser amamentadas exclusivamente nos primeiros seis meses de vida e que os alimentos complementares não devem ser anunciados como para bebés com menos de seis meses de idade, mas estes dois estudos mostram que as empresas não as seguem.

Embora seja permitido pela legislação da União Europeia, a OMS diz que este comportamento das empresas “não presta homenagem ao Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno” nem ao guia da organização.

“Ambos afirmam explicitamente que os alimentos complementares comerciais não devem ser comercializados como adequados para crianças com menos de 6 meses de idade”, sublinha a OMS, num comunicado sobre o estudo, hoje apresentado em Bruxelas.

Este trabalho foi realizado entre novembro de 2017 e janeiro de 2018.

“Os alimentos para bebés e crianças pequenas devem atender a várias recomendações estabelecidas de nutrição e composição. No entanto, há preocupações de que muitos produtos ainda possam ser muito ricos em açúcares”, diz João Breda, chefe do Escritório Europeu de Prevenção e Controle de Doenças Não Transmissíveis da OMS.

Para ajudar os países a avançar com recomendações nutricionais, a OMS propõe a proibição de açúcares adicionados, incluindo o concentrado sumo de fruta, em todos os alimentos para bebés, a limitação do teor total de açúcar dos snacks salgados a valores inferiores a 15% da energia e do uso de puré de fruta a 5% do peso total do alimento.

Propõe igualmente uma melhoria da rotulagem no que se refere aos produtos de açúcar e aos teores totais de frutas, assim como a redução do teor máximo permitido de sódio para 50mg/100Kcal e 50mg/100gr na maioria dos produtos.

A OMS defende ainda que as bebidas de frutas e sucos, as alternativas de leite / leite de vaca adoçadas e os salgadinhos doces não devem ser comercializados como adequados para bebés e crianças de até aos três anos de idade (36 meses).

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.