Baby Led Weaning: O método que acaba com “miúdos esquisitinhos” com comida

Abril 16, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia da http://sicnoticias.sapo.pt/ de 3 de fevereiro de 2017.

Rita Ferro JORNALISTA

Se o seu filho tem mais de 6 meses está na altura de guardar as trituradoras, varinhas mágicas e robots de cozinha que põem tudo em puré, sem grumos e sem bocados. Há um novo método que está a conquistar as mães portuguesas. Apesar da sujidade, quem pratica defende que há muitas vantagens, entre elas, miúdos “pouco esquisitinhos” com comida. Andamos à procura de fotos de experiências [e de grandes bagunças]. Tem disso aí por casa? Envie fotos do seu filho em estado #blw com uma pequenina legenda, nome e idade para eureporter@sic.pt

O Baby Led Weaning [ou BLW para os amigos] é um método cada vez mais conhecido e adotado pelas mães portuguesas para introduzirem sólidos a partir dos 6 meses. Na sua essência mais pura, o BLW consiste no desmame conduzido pelo bebé. Ou seja, a partir do meio ano de idade o bebé vai, lentamente e ao seu ritmo, trocando a amamentação exclusiva por alimentos, inteiros.

O regresso ao trabalho antes desta altura, que acontece para tantas mães, pode comprometer a amamentação em exclusivo e leva à introdução de biberão, ou outras soluções. Entao aí, o BLW, já não serve completamente a sua função mas ainda conquista noutras. Com esta técnica, o bebé vai também ganhar gosto pela comida, descobrir texturas e sabores, trabalhar a motricidade fina e movimentos e ganhar autonomia.

Há regras para este método? Há algumas, sim. Deve ser feito juntamente com a família à mesa de refeição para que os mais crescidos sirvam de exemplo e “estarem de olho” no bebé, os alimentos devem ser cozinhados e cortados de forma especial conforme as idades, é preciso ter paciência e, o mais difícil de tudo, tempo.

Sentámo-nos à mesa com três mães bloggers adeptas do BLW e pusémos mãos à obra.

Joana Paixão Brás é co-autora do blog A mãe é que sabe e é onde costuma mostrar a filha mais nova, Luísa, a aventurar-se no Baby Led Weaning. A primeira questão que lhe fizemos [para sossegar quem nos está a ler] foi: E não tem medo que ela se engasgue?

Não muito. Do que li, este é, caso eles já mostrem estar preparados, um período óptimo para aprenderem a mastigar e, como têm uma coisa chamada gag reflex (que traduzido para reflexo de engasgo ou engasgamento parece mais assustador do que é, porque eles não se chegam a engasgar), que é uma espécie de ânsia de vómito, em que eles, sentindo que a comida não está ainda suficientemente pequena para engolir, voltam a trazê-la para a frente da boca para a mastigarem melhor.

E não foi só para passar da amamentação para os alimentos que Joana escolheu este método. A filha mais velha abriu portas a um caminho de descobertas para a caçula da família.

“Já tinha em casa uma filha pisca para comer e esquisitinha e quis tentar uma coisa diferente com a segunda. A Luísa não era amante de sopas, tentei três ou quatro vezes. Cuspia, protestava e não quis “fazer aviõezinhos” e obriga-lá a comer. Percebi que através do BLW, ela adorava comer, experimentar, provar e fazia as caras e os sons mais engraçados.”

Como está em casa, Joana tem conseguido este método praticamente no seu todo. Une a amamentação ao BLW e faz dele um ritual para bons momentos em família.

“O principal alimento continua a ser o leite materno. Estando em casa, acredito que tenha esta tarefa facilitada relativamente à grande maioria dos pais. Faço coisas simples, de forno e a vapor, não perco muito tempo com as refeições! Perdemos, sim, mais tempo à mesa. Mas não considero “perder”, considero ganhar. É óptimo comer com eles, com calma.”

Vera, do blog As viagens dos Vs, que também adotou a técnica com a Laura, a filha mais nova, é rápida a enumerar vantagens.

Do ponto de vista do bebé, são várias. Para mim, a principal é mesmo a autonomia no momento da refeição, pois é o bebé quem decide o que comer e qual a quantidade; facilita o desenvolvimento motor e também o processo de mastigação do bebé. Da perspectiva da mãe, ajuda-nos a ganhar mais confiança no nosso bebé e nas suas capacidades e, muito importante, a aprender a respeitar as suas vontades. Não somos nós que estamos a levar a colher à boca e, assim, deixamo-nos de guiar pelos “ml” de quantidade que supostamente um bebé deve comer em cada refeição.

Nas rotinas da família e já com outro filho, seria mais fácil para todos se a Laura partilhasse da nossa comida e a verdade é que ela começou desde logo a fazer parte dos nossos momentos das refeições e para o Vicente isso foi muito bom, ver que a irmã comia as mesma coisas que ele.

Eu sou completamente fã!

Beatriz do blog Better With my mom diz que, no início, é normal ter-se medo do engasgo, mas depois a confiança vence quando as mães se apercebem de que os bebés estão preparados [enquanto todas as regras do Baby Led Weaning estiverem asseguradas] para resolver o assunto e o medo vai desaparecendo.

Quanto mais ele treina a mastigação com alimentos sólidos mais rapidamente vai aprender a desengasgar-se. O Salvador já o faz. Quando tem um pedaço que não consegue engolir deita-o fora. Ter sempre um biberão com àgua e saber o que fazer caso isso aconteça traz-nos mais segurança.

Vermos as crianças como capazes de desenvolver determinadas actividades que nós achamos dificeis ou “perigosas”. Eles são curiosos por natureza e devemos deixá-los explorar. O nosso pediatra apoia muito esta ideia e estamos muito contentes com o resultado.

Dizem as mães que o Baby Led Weaning é um caso de paixão. Até porque uma vez que os bebés lhe tomam o gosto, já é difícil alimentarem-se de outra maneira.

Espreite a galeria que preparámos com fotos de bebés adeptos do Baby Led Weaning.

Envie fotos do seu filho em estado #blw com uma pequenina legenda, nome e idade para eureporter@sic.pt

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A reputação importa desde o jardim-de-infância

Abril 15, 2018 às 3:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 29 de março de 2018.

As crianças começam a preocupar-se com a sua imagem pública e a cuidar da sua reputação logo no jardim-de-infância, por volta dos cinco anos, concluem dois investigadores norte-americanos. Mais cedo do que se pensava, portanto.

ANDREA CUNHA FREITAS

As crianças de cinco anos demonstram ser mais generosas e, de uma forma consistente, quando sabem que estão a ser observadas. Esta será uma das várias pistas que levou dois psicólogos norte-americanos a antecipar os primeiros sinais de preocupação com a reputação em crianças para a fase do jardim-de-infância. Até agora, a maioria dos estudos sugeria que os comportamentos que denunciam um cuidado deliberado com a imagem pública surgiam por volta dos nove anos, já durante a etapa do ensino básico.

O artigo com o título “Pequenas [a versão original é pint-sized, sem tradução para português mas que remete para um tamanho reduzido de algo] relações públicas: O desenvolvimento da gestão da reputação” foi publicado na revista Trends in Cognitive Sciences, do grupo Cell.

Ike Silver e Alex Shaw, investigadores na área da psicologia da Universidade de Pensilvânia e de Chicago, respectivamente, começam por constatar que até há pouco tempo existia muito cepticismo sobre o desenvolvimento de um comportamento complexo associado à reputação antes dos nove anos. Porém, notam os autores, os resultados de investigações recentes “sugerem que por volta dos cinco anos as crianças começam a perceber a ampla importância da reputação e envolvem-se numa gestão das impressões surpreendentemente sofisticada”. Tal como os adultos ou as crianças mais velhas, os miúdos que frequentam o jardim-de-infância revelam que querem ser aceites por aquelas pessoas que admiram. Os investigadores fizeram uma revisão de estudos publicados recentemente e encontraram sinais da percepção de crianças pequenas sobre a reputação, nomeadamente quando mostram agir propositadamente para ter uma imagem positiva.

Parece demasiado cedo mas o marco dos cinco anos para o início de um “sofisticado sistema de gestão da reputação” não é sequer definitivo. Pode até ser que esta preocupação com a imagem pública surja antes disso, adiantam os investigadores que constatam a necessidade de mais investigação nesta área. “Há muito tempo que os psicólogos se interessam pela forma como construímos as nossas identidades e pela diversidade de estratégias que usamos para estar na sociedade”, refere Alex Shaw, num comunicado de imprensa da Cell sobre o estudo.

Além da questão da idade, de acordo com estes investigadores, a gestão da reputação acontece em várias culturas, apesar das diferentes normas e expectativas sociais. Exemplo: “Num estudo recente com crianças da China e do Canadá, entre os sete e os 11 anos, os investigadores perceberam que os dois grupos se mostravam motivados em causar uma impressão positiva depois de praticar uma boa acção em privado, mas apresentavam estratégias diferentes: no caso das crianças chinesas havia mais probabilidades de esconderem esse bom comportamento (sinal de modéstia), enquanto nas crianças canadianas a probabilidade de divulgarem esse comportamento era maior.”

No artigo, os psicólogos apresentam o resultado de algumas experiências que usaram a partilha de brinquedos para explorar a questão da reputação e da preocupação com a imagem no seu ambiente social nas crianças. Além de revelaram mais generosidade quando estão a ser observadas, o que indicia uma preocupação com a imagem, também adoptam mais este tipo de bons comportamentos perante “pessoas-chave”, como o professor ou educador, por exemplo.

Numa experiência de um outro estudo, as crianças revelaram mais generosidade quando estavam a ser observadas por alguém que interagia com elas do que com uma pessoa sobre a qual não tinham expectativas de interagir mais tarde. Noutra experiência com crianças de seis anos relatada no artigo, os pequenos comportaram-se de forma justa na presença de um observador, mas já não o fizeram quando foram levadas a acreditar que podiam ser injustas e, mesmo assim, parecer justas.

Por último, os investigadores referem ainda que as crianças reagem quando lhes é dito que têm uma boa reputação aos olhos dos seus colegas e que, neste contexto, é muito menos provável que cedam a fazer uma aldrabice que lhes é proposta. Ou seja, conclui-se que fazem uma gestão da sua imagem e reputação. “Na sociedade estamos muito focados na construção de imagens e na autoapresentação, e os nossos filhos são antecipadamente expostos às ideias de imagem e estatuto social”, refere Ike Silver. “As crianças são sensíveis à forma como as pessoas que estão à sua volta se comportam, incluindo os adultos que valorizam muito a sua reputação.”

Mais do que constatar que o comportamento das crianças à volta dos cinco anos já denuncia uma preocupação com a reputação e a imagem, há muita coisa que ainda não se sabe. “Sabemos que os adultos usam uma grande variedade de situações para gerir e criar impressões, mas ainda não sabemos se as crianças entendem a importância de diferentes características (coragem, riqueza inconformismo) em diferentes momentos para diferentes públicos. Assim, é importante perceber onde, neste processo, as crianças conseguem controlar a sua reputação e onde têm dificuldade em fazer isso”, refere o comunicado. Os investigadores notam que é interessante, por exemplo, constatar que as crianças não reagem de forma negativa a algumas manifestações de “auto-promoção” – o chamado pôr-se em bicos de pés no mundo dos adultos.

E há também diferenças entre os cinco e os nove anos, ou seja, entre as crianças do jardim-de-infância e as da escola primária. Segundo os autores do artigo, a “generosidade privada” é aceite de melhor forma do que a pública para os miúdos à volta dos nove anos, enquanto para os mais pequenos passa-se exactamente o contrário. Talvez, admitem os investigadores, isso aconteça porque os mais novos são mais hábeis na gestão das suas próprias reputações do que na identificação deste comportamento nos outros. Os investigadores admitem que é necessário mais investigação com crianças mais novas para chegar a conclusões mais claras sobre este tema, e deixam mais uma intrigante questão em aberto: O que será que acontece antes dos cinco anos?

O artigo citado na notícia é o seguinte:

Pint-Sized Public Relations: The Development of Reputation Management

 

 

 

 

 

Tão crescida a usar chucha, que feia!

Março 22, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/

A nossa filha já foi alvo deste comentário várias vezes. Geralmente vira a cara, encosta-se a mim e tente ignorar o interlocutor; são claros os seus sinais de desconforto. Para muitos, estes sinais são interpretados como um incentivo para continuar pois estão a ter na criança o efeito desejado.

Acredito que a maior parte das pessoas profere este género de comentários com a melhor das intenções, querem que a criança se livre da chucha e acreditam que ao repreenderem-na estão a ajudar os pais nesta árdua tarefa. Contudo, tal não funciona.

Irei dividir as minhas observações em duas partes: 1) Para os outros; 2) Para os pais.

1) Para os outros

Quantas vezes fumaram um cigarro e alguém vos disse que deviam “largar isso pois faz mal à saúde”?; quantas vezes vos disseram que se deviam afastar daquele/a amigo/a pois é uma má influência nas vossas vidas?; quantas vezes comerem fast food e alguém vos alertou que dessa forma iriam engordar? Em termos concretos, que resultados isso provocou em vocês? Atiraram o cigarro fora e nunca mais fumaram? Enviaram uma mensagem ao/à amigo/a dizendo que pretendiam terminar a amizade? Cuspiram o alimento que estavam a ingerir e desde então detestam-no? Provavelmente não. Nada mudou com os comentários que vos foram feitos ou eventualmente ainda se ligaram mais “ao fruto proibido” exactamente por isso.

Não existe mudança sem motivação e esta última tem de ser intrínseca, isto é, tem de partir do próprio, caso contrário a mudança será temporária. Comentários negativos, que muitas vezes enfatizam a incapacidade de auto-controlo da pessoa e mexem com a sua auto-estima (como quando dizemos a uma criança que é feia por determinado comportamento) podem conduzir à manutenção do comportamento por o outro se sentir incapaz de mudar.

“Devo então incentivar ou ignorar?”, perguntarão alguns. Nem uma, nem outra; podemos encaminhar para a mudança num registo positivo. Quando eu digo: “acredito que vais ser capaz, levarás o teu tempo mas acredito que irás conseguir”, sobretudo quando é dito em frente aos outros, estou a deixar uma semente potente de expectativa que o outro se sentirá tentado a concretizar; mostro que o aceito, que o compreendo, que não o irei pressionar e que confio nas suas capacidades (afago-lhe a auto-estima).

Criticar de forma negativa sem deixar uma linha orientadora ou é improfícuo ou pura maldade.

2) Para os pais

Sejamos sinceros, a maior parte dos comportamentos dos nossos filhos, sobretudo quando são pequenos, resultam de escolhas nossas, ainda que nos arrependamos delas ou que não as reconheçamos a 100%, estamos na origem.

A nossa filha não escolheu usar chucha, na verdade quando nasceu ela até a rejeitava. Acabei por insistir por sentir que isso a iria acalmar e servir de consolo. Hoje, com 2 anos e meio, não a quer largar, se eu permitisse passava o dia todo com ela na boca.

Temos conversado sobre o assunto, sem pressões. Não a comparo com o menino x ou y que não usa chucha pois ela também não me compara com a mãe x ou y Mostro-lhe que vários desenhos de que ela gosta não usam chucha (sem comparar), digo-lhe que não percebo o que ela diz com a chucha posta, explico que a chucha precisa de descansar e por vezes guardamo-la.

Em momentos de crítica em público eu JAMAIS me junto ao outro para a criticar/fazer troça dela. Geralmente coloco-me ao nível dela e respondo que um dia, quando lhe apetecer, irá largar a chucha e evidencio os esforços que já faz: “ela tem usado muito menos, noutro dia até a guardou no quarto durante a manhã toda, fiquei mesmo feliz! Em breve iremos conseguir passar menos tempo com a chucha na boca, vamos com calma”; se tiverem dito que ela é feia, ainda acrescento um “estás tão crescida e LINDA, filha!”.

Não acho que tenhamos sempre de defender os nossos filhos, eles erram tal como nós. Não obstante, acredito que os assuntos se resolvem entre nós e ainda que possa dar razão à pessoa que o repreende, não é saudável juntar-me a ela numa sessão de linchamento público.

Como referi, a nossa filha não queria usar chucha, foi um hábito criado também por mim. Assim, assumo essa responsabilidade, aceito que sou parte activa na sua resolução e defendo a nossa filha de qualquer julgamento exterior feito em tom negativo, mostrando que este não é um problema só dela, é nosso, e como tal iremos resolvê-lo JUNTAS, ao nosso ritmo.

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“Até aos três anos de idade as crianças não devem dormir em casa do pai”

Março 22, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no https://www.publico.pt/ de 13 de fevereiro de 2018.

Que impacto no bem-estar da criança pode ter a ausência de pernoitas com o pai durante os três primeiros de vida?

Esta é uma afirmação e premissa de base sobre a qual assentam muitos, mas mesmo muitos, processos de regulação do exercício das responsabilidades parentais. Os pais separaram-se ou divorciam-se quando a criança é ainda bebé ou em idade pré-escolar e, desde logo, parte-se do pressuposto que até aos três anos deve apenas pernoitar em casa da mãe, mantendo contactos com o pai durante o período diurno.

Estes contactos podem ser mais ou menos frequentes, o que depende de diversas variáveis como, por exemplo, a idade da criança ou a proximidade geográfica entre residências. No entanto, permanece a ideia de impossibilidade de permanência na residência paterna até aos três anos de idade.

Penso que é preciso reflectir sobre isto. Se nos focarmos nos estudos sobre a relação de vinculação entre as crianças e os seus pais/cuidadores, é na primeira infância que as crianças estabelecem essa relação, pedra basilar do seu desenvolvimento. Para que esta se estabeleça é fundamental que ocorram interacções continuadas e regulares entre a criança e os cuidadores. Estas podem ocorrer em diversos contextos de cuidados, por e.g., mudar uma fralda ou dar o leite, ou de brincadeira e lazer. O principal é que as interacções ocorram e sejam marcadas pela sensibilidade e responsividade dos cuidadores: mãe ou pai.

Se, tradicionalmente, a mãe está associada ao papel cuidador, actualmente o pai está mais investido nos cuidados e educação da criança e, tal como a mãe, o pai aprende e constrói a sua parentalidade. Estudos apontam que os pais podem ser cuidadores sensíveis dos seus filhos e que as crianças estabelecem relações seguras, quer com as mães, quer com os pais nos primeiros anos de vida.

É nesta fase do desenvolvimento infantil, mais sensível e crucial para que esta relação de vinculação possa ser estabelecida. E para que a vinculação possa ser segura é fundamental que a criança se sinta amada, protegida e cuidada, permitindo-lhe criar laços que, de uma forma gradual, irão potenciar também a capacidade em explorar o seu meio envolvente e socializar.

Ora, para que estes vínculos possam ser estabelecidos é imprescindível um convívio regular e extenso com estas figuras de referência. O que implica mais do que meras “visitas”, termo que devia mesmo ser proibido neste contexto. Implica estar com a criança, satisfazer-lhe as suas necessidades mais básicas mas, principalmente, brincar, expressar afecto, ser parte integrante das suas rotinas, ajudar nas dificuldades, estar presente quando a criança experiencia emoções positivas ou negativas. Implica também participar nos rituais do adormecimento, aconchegar na cama, consolar um sono agitado, vestir e levar à creche ou jardim-de-infância. Implica estar presente nas festas e celebrações dos familiares e amigos, levar e ir buscar às actividades diversas, explorar os sons, as cores, as imagens… ou simplesmente não fazer nada.

Como me dizia uma vez uma criança de quatro anos, “é tão bom quando estamos sentados no sofá, com uma manta, só a rir e a fazer parvoíces”. Ser pai ou mãe implica tudo isto. E para isto é necessário tempo. Tempo. Tempo que as tais “visitas” nem sempre permitem. Tempo que as pernoitas permitem e com uma riqueza inigualável. Tempo que permita o envolvimento emocional de ambos os pais na vida da criança, aprendendo a reconhecer e a satisfazer todas as suas necessidades.

Querem-se pais sensíveis, responsivos e competentes para exercer de forma adequada a função parental. Para tal, é fundamental um convívio frequente e extenso com a criança, desde que esta nasce.

Pois vejamos então os estudos que contrariam estas conclusões e que sugerem que, até aos três anos, as crianças não devem dormir em casa do pai. Procuramos estudos metodologicamente válidos, com amostras adequadas e revisão de pares, cujos resultados possam ser generalizados à população em geral. Dificilmente encontramos estes estudos.

Encontramos, sim, teorizações acerca do modelo tradicional de família, assente na ideia de uma única figura primária de referência para a criança — a figura materna. Ideias apoiadas na premissa de que a mãe é, indubitavelmente, a figura mais importante para o desenvolvimento harmonioso da criança, e que o pai desempenha um papel importante, sim, mas secundário. Complementar.

Encontramos também estudos cujos resultados dificilmente podem ser generalizados, na medida em que utilizam amostras de conveniência, não têm grupos de controlo ou, ainda, não acompanham as crianças ao longo do seu desenvolvimento (estudos longitudinais), de forma a perceber o impacto que estas pernoitas podem ter a médio e/ou longo prazo. Encontramos ainda outros estudos que não controlam diversas variáveis, como a existência de irmãos, novos/as companheiros/as dos pais, nível de conflito parental, competências de comunicação e cooperação parental.

É urgente desenvolver mais estudos sobre esta questão, sendo que uma resposta do tipo “sim” ou “não” revela-se demasiado simplista e redutora, quando se pergunta se deve, ou não, uma criança com idade inferior a três anos pernoitar em casa do pai.

Temos todos que fazer esta reflexão. Que impacto no bem-estar da criança pode ter a ausência de pernoitas com o pai durante os três primeiros anos de vida? Que impacto tem na relação de vinculação que virá a estabelecer com esse pai mais ausente?

Assim sendo, e na ausência de validação empírica desta premissa de base, importa que todos nós (pais, mães e outros familiares, técnicos das diversas entidades e peritos, advogados e magistrados) façamos um esforço no sentido de uma mudança de paradigma. Que se traduza em acordos de regulação do exercício das responsabilidades parentais mais adequados e justos, adequados a cada caso em concreto, e centrados na perspectiva da criança. E no seu superior interesse.

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

Lançamento do Livro “Ser Bebé na Creche” 16 de Fevereiro, 19 horas, nas instalações da ESE Almeida Garrett

Fevereiro 13, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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ESE Almeida Garrett tem o prazer de Vos convidar para o lançamento do livro de uma docente desta Escola, Professora Mestre Ana Bela Baptista da Silva, intitulado

“SER BEBÉ NA CRECHE. VIAGEM MARAVILHOSA PARA
A AUTO CONFÇIANA”,

cuja apresentação será feita pela Senhora Professora Doutora Ângela Cremon de Lemos.
Dia 16 de Fevereiro de 2018 pelas 19 horas, nas instalações da ESE Almeida Garrett, na Rua de São Paulo, nº 89, 1200 – 427 Lisboa.

Colóquio Literacias na primeira infância – 24 e 25 novembro na Biblioteca Municipal José Saramago (BMJS), em Loures

Novembro 16, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://www.cm-loures.pt/Conteudo.aspx?DisplayId=3638

James Heckman e a importância da educação infantil

Outubro 24, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://veja.abril.com.br/revista-veja/ a James Heckman no dia 22 de setembro de 2017.

O Nobel de Economia, que falará em São Paulo nesta segunda 25, diz que investir nos anos iniciais das crianças é o caminho para o país crescer

Por Monica Weinberg

O americano James Heckman, 73 anos, é reverenciado tanto em sua área de origem, a economia — que lhe rendeu o Prêmio Nobel em 2000 —, como na educação, que ele investiga com a curiosidade de quem ama calcular. Heck­man criou métodos científicos para avaliar a eficácia de programas sociais e vem se dedicando aos estudos sobre a primeira infância — para ele, um divisor de águas. É sobre esse assunto que falará, na segun­da-feira 25, no encontro Os desafios da primeira infância — Por que investir em crianças de zero a 6 anos vai mudar o Brasil, organizado pelas revistas Exame e VEJA e apoiado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, pela Funda­ción Femsa e pela United Way Brasil. Professor na Universidade de Chicago, Heckman veio uma dezena de vezes ao Brasil. Estava no Rio quando recebeu o telefonema de sua vida. “Disseram-me que seria premiado com o Nobel, e eu achei que era trote”, revela ele, que fala com rara propriedade sobre o país.

Por que os estímulos nos primeiros anos de vida são tão decisivos para o sucesso na idade adulta? É uma fase em que o cérebro se desenvolve em velocidade frenética e tem um enorme poder de absorção, como uma esponja maleável. As primeiras impressões e experiências na vida preparam o terreno sobre o qual o conhecimento e as emoções vão se desenvolver mais tarde. Se essa base for frágil, as chances de sucesso cairão; se ela for sólida, vão disparar na mesma proporção. Por isso, defendo estímulos desde muito cedo.

Quão cedo? Pode parecer exagero, mas a ciência já reuniu evidências para sustentar que essa conta começa no negativo, ou seja, com o bebê ainda na barriga. A probabilidade de ele vir a ter uma vida saudável se multiplica quando a mãe é disciplinada no período pré-natal. Até os 5, 6 anos, a criança aprende em ritmo espantoso, e isso será valioso para toda a vida. Infelizmente, é uma fase que costuma ser negligenciada — famílias pobres não recebem orientação básica sobre como enfrentar o desafio de criar um bebê, faltam boas creches e pré-escolas e, sobretudo, o empurrão certo na hora certa.

Qual é o preço dessa negligência? Altíssimo. Países que não investem na primeira infância apresentam índices de criminalidade mais elevados, maiores taxas de gravidez na adolescência e de evasão no ensino médio e níveis menores de produtividade no mercado de trabalho, o que é fatal. Como economista, faço contas o tempo inteiro. Uma delas é especialmente impressionante: cada dólar gasto com uma criança pequena trará um retorno anual de mais 14 centavos durante toda a sua vida. É um dos melhores investimentos que se podem fazer — melhor, mais eficiente e seguro do que apostar no mercado de ações americano.

Se isso é tão claro, por que a primeira infância não está na ordem do dia de quem tem a caneta na mão para decidir? Há ainda uma substancial ignorância sobre o tema. Algumas décadas atrás, a própria ciência patinava no assunto. A ideia que predominava, e até hoje pesa, é que a família deve se encarregar sozinha dos primeiros anos de vida dos filhos. A ênfase das políticas públicas é na fase que vem depois, no ensino fundamental. E assim se perde a chance de preparar a criança para essa nova etapa, justamente quando seu cérebro é mais moldável à novidade.

A classe política também evita olhar para a primeira infância por achar que esse é um investimento menos visível a curto prazo? Os políticos podem, sim, considerar isso, mas estão redondamente enganados. Crianças pequenas respondem rápido aos estímulos de qualidade. Para quem tem o poder de decidir, deixo aqui a provocação: não investir com inteligência nesses primeiros anos de vida é uma decisão bem pouco inteligente do ponto de vista do orçamento público. Basta usar a matemática.

O que mostra a matemática? Vamos pegar o exemplo da segurança pública. Há ao menos dois caminhos para mantê-la em bom patamar. Um deles é contratar policiais, que devem zelar pelo cumprimento da lei. O outro é investir bem cedo nas crianças, para que adquiram habilidades, como um bom poder de julgamento e autocontrole, que as ajudarão a integrar-se à sociedade longe da violência. Pois a opção pela primeira infância custa até um décimo do preço. Recaímos na velha questão: prevenir ou remediar? Como se vê, é muito melhor prevenir.

O senhor pode soar fatalista: ou bem a criança é estimulada cedo ou terá perdido uma oportunidade única para o aprendizado? A discussão realmente abre uma margem para essa interpretação, mas não é bem isso. A mensagem jamais pode ser: depois dos 5 anos, já era. Desde que a criança esteja vivendo em sociedade, ela vai aprender. Existe na espécie humana uma extraordinária capacidade de se beneficiar do ambiente. Só não podemos deixar de encarar o fato de que uma criança que tenha sido alvo de elevados incentivos conquistará uma vantagem para o resto da vida. De outro lado, quanto mais uma criança fica para trás, mais dificuldade ela terá para preencher as lacunas do princípio.

O senhor discorda então de uma ala de cientistas que vê as chamadas janelas de oportunidade para o aprendizado como algo mais definitivo? Acho que há exagero nesse campo: é como se tivéssemos no cérebro janelas que se abrem por inteiro numa fase e se fecham por completo em outra. Dito isso, há, sim, momentos mais favoráveis para a aquisição de certos conhecimentos: se quiser falar um idioma sem sotaque, é mais apropriado começar aos 8 do que aos 16 anos.

A propósito dos 8 anos, o economista Adam Smith (1723-1790) dizia que as crianças eram todas essencialmente iguais até essa idade. O senhor concorda? Não. Smith tinha uma visão idealista segundo a qual todos seríamos iguais por natureza até esse ponto da vida e, só aí, começaríamos a nos diferenciar uns dos outros. Mas a ciência já deixou claro que há capacidades inatas que nos distinguem, como a noção espacial ou a habilidade numérica ou ainda o talento para piano, artes e xadrez. Reconhecê-las e incentivá-las cedo torna-­se uma vantagem.

Que tipo de política pública de primeira infância tem surtido mais efeito? O grande impacto positivo vem de programas que conseguem envolver famílias pobres, creches e pré-­escolas, centros de saúde e outros órgãos que, integrados, canalizam incentivos à criança — não só materiais, evidentemente. O programa americano Perry, da década de 60, é um exemplo clássico de que o investimento em uma boa pré-escola produz ótimos resultados.

Por que esse modelo é bom? Ele envolve ativamente os alunos em projetos de sala de aula, lapidando habilidades sociais e cognitivas, sob a liderança de professores altamente qualificados. A família mantém um estreito elo com a escola. Temos de ter sempre certeza de que a família está a bordo, qualquer que seja a iniciativa.

Não é irrealista esperar tanto de famílias que vivem na pobreza, como no Brasil? Um bom programa de primeira infância consegue ajudar a família inteira, fazendo chegar até ela informações, boas práticas e valores essenciais, como a importância do estudo para a superação da pobreza.

Pesquisas brasileiras mostram que muitas crianças que frequentam creches e pré-escolas acabam se saindo pior nos primeiros anos de estudo do que outras que ficam em casa. O resultado o espanta? Não. Já vi estudos que chegaram a conclusão idêntica nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa. Trata-se de uma questão sem resposta absoluta: tudo depende do tipo de incentivo que a criança tem em casa e daquele que receberá na creche. Não é que a escola faça mal, mas é preciso indagar: onde a criança tem mais a ganhar ou menos a perder?

O que o Brasil pode aprender com a experiência internacional? Os programas de maior retorno são justamente aqueles que se apoiam em uma rede e, através dela, levam às famílias toda sorte de incentivos, de diferentes áreas que convergem. Aliás, o Brasil tem uma vantagem aí: o sistema público de saúde alcança todos os cantos e pode funcionar como ponto de partida para essa rede de estímulos. O país também deveria prestar atenção na qualidade dos professores: países como a Finlândia souberam valorizar a carreira docente — não apenas no salário, que fique claro — e colheram grandes resultados na educação desde cedo.

Existe um debate no Brasil sobre a extensão da licença paternidade — a lei brasileira garante hoje apenas cinco dias ao pai. O senhor é a favor? O princípio de o pai ter a chance de estreitar laços com o filho desde o começo é bem-vindo. Os benefícios vão depender, porém, de como esse tempo será efetivamente aproveitado.

O senhor é um dos precursores de uma discussão que agora está em alta nas rodas educacionais: o desenvolvimento de habilidades so­cioemo­cio­nais. É possível mesmo ensiná-las? Sim, na escola e em casa. O grande erro nesse debate é tratar tais habilidades — autocontrole, resiliência, trabalho em equipe — como algo que não tem nada a ver com as habilidades cognitivas, o aprendizado das matérias propriamente ditas. Não existe essa fronteira. O bom professor está sempre ensinando as duas: ao aprender a ler e a soletrar as palavras, a criança interage com amigos, forma vínculos, lida com emoções ligadas ao sucesso e ao fracasso — enfim, aprende a se comunicar de forma ampla.

Por que tantos educadores torcem o nariz quando se fala em habilidades socioemocionais? Eles ainda estão aferrados à ideia obsoleta de que inteligência se resume a QI, um conceito de cinquenta anos atrás que não evoluiu com o mundo.

Ler para a criança desde cedo está no rol dos grandes incentivos de efeito comprovado pela ciência. Por que isso é tão poderoso? Porque estimula ao mesmo tempo o gosto pela leitura, a capacidade de comunicação e a curiosidade para adquirir conhecimento. Se nada der errado, isso se desdobrará por toda a vida.

O incentivo dos pais pode virar exagero? Observo em famílias de classes mais altas uma tendência à proteção exagerada dos filhos. Considero isso um erro. Todo mundo deve experimentar não só as vitórias como também os fracassos. São eles, afinal, uma fonte essencial para o aprendizado.

Publicado em VEJA de 27 de setembro de 2017, edição nº 2549

 

 

Apenas 15 países no mundo têm três políticas nacionais essenciais para apoiar famílias com crianças pequenas (incluindo Portugal) – relatório da UNICEF

Outubro 4, 2017 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Comunicado de imprensa da Unicef Portugal de 21 de setembro de 2017.

Apenas 15 países no mundo têm três políticas nacionais essenciais para apoiar famílias com crianças pequenas – UNICEF

Novo relatório diz que cerca de 85 milhões de crianças menores de cinco anos vivem em 32 países que não proporcionam às famílias dois anos de ensino pré-primário gratuito; dispensa remunerada para amamentação para as mães durante os seis primeiros meses de vida do bebé; e licença parental adequada e remunerada – três políticas cruciais para apoiar o desenvolvimento cerebral nos primeiros anos de vida

NOVA IORQUE, 21 de Setembro de 2017 – Apenas 15 países no mundo põem em prática três políticas nacionais básicas que ajudam a assegurar o tempo e os recursos de que os pais precisam para apoiar o desenvolvimento cerebral saudável dos seus filhos, afirmou hoje a UNICEF num novo relatório. Um cenário mais sombrio é o que se verifica em 32 países – nos quais vive uma em cada oito crianças do mundo menores de cinco anos – que não adoptam nenhuma dessas políticas.

Segundo o relatório “Early Moments Matter for Every Child” (“Os primeiros momentos contam para todas as crianças”), dois anos de educação pré-primária gratuita, dispensa paga para amamentação durante os seis primeiros meses de vida da criança, e seis meses de licença de maternidade bem como quatro semanas de licença de paternidade remuneradas ajudam a lançar bases que são cruciais para um desenvolvimento adequado na primeira infância. Estas políticas ajudam os pais a proteger melhor os seus filhos e a proporcionar-lhes uma nutrição mais adequada, e permite-lhes brincar e ter experiências de aprendizagem precoce nos primeiros dois anos de vida, que são cruciais na altura em que as ligações neurais se processam a um ritmo que não voltará a repetir-se.

O relatório refere que Cuba, França, Portugal, Rússia e Suécia estão entre os países que garantem estas três políticas. Contudo, 85 milhões de crianças menores de cinco anos estão a crescer em 32 países onde nenhuma destas políticas cruciais é posta em prática. Surpreendentemente, 40 por cento destas crianças vivem em apenas dois países – o Bangladesh e os EUA.

“Qual a coisa mais importante que as crianças têm? A sua capacidade cerebral. Mas não estamos a cuidar do cérebro das crianças como cuidamos do seu físico – sobretudo na primeira infância, uma altura em que a ciência prova que o cérebro e o futuro das crianças estão a ser moldados a um ritmo acelerado,” afirmou Anthony Lake, Director Executivo da UNICEF. “Temos de fazer mais para proporcionar aos pais e cuidadores de crianças pequenas o apoio que precisam durante este período mais crítico do desenvolvimento cerebral.”

O relatório também destaca que milhões de crianças menores de cinco estão a viver os seus anos formativos em ambientes inseguros e não estimulantes:

 

  • Cerca de 75 milhões de crianças menores de cinco anos vivem em zonas afectadas por conflitos, aumentando o risco de stress tóxico, que pode inibir as conexões cerebrais na primeira infância;
  • A nível global, uma nutrição pobre, ambientes insalubres e doenças deixaram 155 milhões de crianças com atrasos de desenvolvimento, o que as impede de desenvolver todo seu potencial físico e cognitivo;
  • Um quarto de todas as crianças com idades entre os 2 e os 4 anos em 64 países não participam em actividades essenciais para o desenvolvimento cerebral, tais como brincar, ler e cantar;
  • Cerca de 300 milhões de crianças no mundo vivem em zonas onde o ar é tóxico, o que, segundo estudos recentes, pode danificar o desenvolvimento cerebral das crianças.

O facto de não se proteger e proporcionar às crianças mais desfavorecidas oportunidades de desenvolvimento precoce afecta o potencial crescimento das sociedades e das economias, alerta o relatório, citando um estudo que mostrou que as crianças de agregados familiares mais pobres que tiveram acesso à aprendizagem na primeira infância viriam a ganhar em média mais 25 por cento em adultos do que as que não tiveram essa possibilidade.

“Se não investirmos agora nas crianças e famílias mais vulneráveis, continuaremos a perpetuar ciclos de desvantagem e desigualdade intergeracionais. Por cada vida, por cada oportunidade perdida, estamos a aumentar o fosso que separa os que têm e os que não têm e a comprometer a nossa força e estabilidade a longo prazo,” afirmou Lake.

Em média, os governos gastam menos de 2 por cento dos seus orçamentos alocados à educação em programas para a primeira infância. Porém, o relatório destaca que os investimentos que forem feitos nos primeiros anos de vida das crianças de hoje se traduzem em ganhos económicos significativos no futuro. Cada dólar americano investido em programas que apoiam ao aleitamento materno gera um retorno de 35 US dólares; e cada US dólar investido em cuidados e educação na primeira infância das crianças mais desfavorecidas pode ter um retorno de 17 US dólares.

O relatório apela aos governos e ao sector privado para que apoiem políticas nacionais básicas em matéria de desenvolvimento na primeira infância, nomeadamente:

  • Investindo e expandindo serviços de desenvolvimento na primeira infância em casa, na escola, nas comunidades e unidades de saúde – que dêem prioridade às crianças mais vulneráveis;
  • Tornando as políticas de apoio às famílias, nomeadamente dois anos de educação pré-primária gratuita, licenças parentais e dispensas para amamentação remuneradas numa prioridade nacional;
  • Proporcionando aos pais que trabalham o tempo e os recursos que precisam para apoiar o desenvolvimento cognitivo dos seus filhos mais pequenos;
  • Reunindo e desagregando dados sobre o desenvolvimento na primeira infância e monitorizando os progressos no que diz respeito ao universo das crianças e famílias mais desfavorecidas.

“As políticas que apoiam o desenvolvimento na primeira infância são um investimento da maior importância para a capacidade cerebral das nossas crianças, e, por consequência, para os cidadãos e para a força de trabalho de amanhã – e literalmente para o futuro do mundo,” conclui Lake.

***

Nota quanto aplicável:

Para esta análise a UNICEF usou variáveis do WORLD Policy Analysis Center da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, EUA. Os dados sobre a população provêm do UNPD (PNUD), 2017. As variáveis incluem: dois anos de educação pré-primária gratuita; dispensa para amamentação paga para as mães durante os primeiros seis meses de vida do bebé; e seis meses de licença de maternidade e quatro semanas de licença de paternidade pagas.

Os países onde estas três políticas são praticadas incluem:

Bielorrússia, Bulgária, Cuba, França, Hungria, Itália, Letónia, Luxemburgo, Portugal, Roménia, Rússia, São Marinho, Suécia, Turquemenistão e Ucrânia.

Países onde nenhuma destas três políticas é posta em prática incluem: Argélia, Austrália, Bangladesh, Barbados, Belize, Butão, Bósnia e Herzegovina, Brunei, Dominica, Gâmbia, Grenada, Quénia, República Popular Democrática da Coreia, Libéria, Malawi, Malásia, Estados Federados da Micronésia, Myanmar, Namíbia, Omã, Serra Leoa, Singapura, África do Sul, São Cristóvão e Neves, Santa Lúcia, Suazilândia, Tonga, Trinidad e Tobago, Uganda, Estados Unidos, Iémen e Zâmbia.

O relatório, apoiado pela H&M Foundation – parceira da UNICEF – será lançado amanha, 21 de Setembro, durante um evento de alto nível, entre as 11:00 e as 12:30 (16:30 – 17:30 hora de Lisboa) no The Every Woman Every Child Hub, nas Nações Unidas em Nova Iorque, durante a 72ª Sessão da Assembleia Geral das Nações.

 

 

Mário Cordeiro: “Na escola primária há menos tempo de recreio do que numa prisão a sério”

Setembro 16, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://ionline.sapo.pt/ a Mário Cordeiro no dia 30 de agosto de 2017.

Marta F. Reis

Pediatra admite-se apreensivo com as gerações mais novas e com a sociedade do agora. Para a rentrée, prescreve mais filosofia.

Aos 61 anos, Mário Cordeiro mantém o consultório na Av. Guerra Junqueiro, mas são variados os interesses. Dos projetos editoriais aos passeios com a Tenrinha, passando pela paixão pela história de arte, conversar é outras das coisas que gosta de fazer. Foi assim, ao sabor do tempo, numa manhã de verão em Lisboa.

Pai de cinco filhos, três a passar pela adolescência, o pediatra admite que a pedalada é diferente e os desafios também, mas a idade trouxe-lhe mais calma e sabedoria. Nos últimos tempos, sente-se um bocado pessimista com o rumo da sociedade e um certo umbiguismo dos mais novos. Disciplina-se desde cedo, avisa, sob pena de estarmos a criar uma geração de narcisistas.

É médico pediatra há mais de 30 anos. Tem cinco filhos, cinco netos. Ainda se surpreende com as saídas das crianças?

Acho que sim. Surpreendo-me sempre com o ser humano e com a sociedade, em constante mutação, com coisas inimagináveis há meia dúzia de anos. Como as pessoas resultam muito da sua interação com o contexto em que vivem, é natural que acabem por mudar.

Com toda a informação e estímulos, podemos dizer que hoje os miúdos estão mais espertos?

Não acho que isso seja verdade. Se calhar, para os nossos avós que só tinham uma telefonia, sabermos agarrar num comando de televisão e mudar de canal, mesmo antes desta parafernália de canais, era capaz de gerar a mesma reação de espanto que hoje temos com as coisas que os miúdos são capazes de fazer. Mas não acho que os miúdos sejam mais inteligentes. Têm um enorme acesso a informação, muitas vezes de mais. Uma informação que não chega a pouco e pouco, vem em catadupa. Coisas de menor de dimensão, não digo um acidente na Madeira, mas algumas coisas que hoje chegam na hora demorariam uma semana a ser conhecidas.

E isso traz consigo o quê?

Há um apelo maior a estarem informados, a procurar informação. Agora perceber o que se está a passar, saber relativizar, aí é que falha e isso não mudou. Mesma a relação com a tecnologia não terá nada de especial. Muitas vezes ouvimos dizer que o cérebro funciona como o computador… É o computador que funciona como cérebro. É uma extensão do cérebro em termos de funcionamento e isso leva a que quando estamos a pensar em alguma coisa, se pudermos materializar esse raciocínio puxando o rato para um lado ou deslizando o dedo, vamos fazê-lo. É intuitivo, os nossos avós e bisavós é que não o tiveram.

Ainda assim, uma das constatações dos mais velhos é que hoje os recém-nascidos até abrem os olhos mais cedo.

As pessoas é que não estavam despertas para que um bebé pudesse abrir os olhos tão cedo. Há pais que me perguntam: “Quando é que o nosso bebé começa a ver?” Vê ainda antes de ter nascido. É um dado cientifico irrefutável. Os bebés não mudaram, as pessoas é que não lhes ligavam como ligam hoje. O conceito era: o bebé come e dorme, interessa que esteja quentinho, mudar a fralda e dar-se uns miminhos, mas nos primeiros tempos era um sujeito passivo do amor dos pais. Só mais tarde, quando sua excelência começava a barafustar, ali a partir dos seis meses, é que se dizia que o bebé espevitava, isto quando desde o início vê, ouve, tem competências. A sociedade hoje dá mais atenção às crianças e, com isso, elas começam cedo a apreender tudo. Um bebé está aqui e olha para esta lata de Coca-Cola. Se nunca lhe disser o que é, não sabe. Se convive com os pais, se vê o pai pedir uma cola, vai identificando a lata, ligando as coisas. As crianças hoje têm esta excelente oportunidade de conviver com o mundo adulto, os pais falam mais com elas e elas vão pescando mais informação. Antes ninguém lhes explicava nada, é só essa a diferença.

Sente que já existe essa perceção generalizada da mais valia dos estímulos? Às vezes até aquela pressão do “se não fizer isto o meu filho vai ser um burro”?

Cada vez mais, às vezes em excesso. Poderá haver exceções, mas acho que a maior parte dos pais já sabe que uma criança tem bastante para dar e se, puxar por ela, terá mais hipóteses. Como um jogador de futebol ou qualquer talento: é preciso treino para dar alguma coisa.

A partir de que idade é que uma criança começa a ser manipuladora?

Desde cedo, mas isso é o normal. Em qualquer situação, uma pessoa tenta ver como conseguir o melhor para si. Um bebé a partir dos nove meses, um ano – quando já passou à história aquela angústia de saber se vai comer ou não, se estão garantidas as suas necessidades básicas – começa a sentir maior autoestima. Começa a perceber que consegue fazer muitas coisas em termos corporais, que consegue comunicar mesmo que atabalhoadamente. De repente sente: “Afinal não sou um suplente da equipa B, estou em campo na equipa A”, e isso dá-lhe uma pujança ao ego incrível. Numa fase em que uma criança se vê a partir de si, em que acredita que o seu umbigo é o centro de tudo e que é a pessoa mais importante do universo, começa essa manipulação. E depois quando os adultos pedem uma gracinha, para bater palminhas, o artista sente-se ainda mais no centro do palco e vai tentando fazer o que quer. Percebe que há um caminho a percorrer, coisas a conquistar e começa a ver os trunfos que tem. Aquele arzinho, o choro, a tossezinha para interromper o pai e a mãe quando sente que não é o centro das atenções, os guinchos. É tudo para testar até que ponto é capaz de manipular. Vê-se muito quando caem e reforçam a situação de fragilidade com aquele “dói dói dói”.

Educa-se a partir dessa idade ou é deixar passar essas primeiras fitas?

Acho que deve haver traços de educação coerente e consistente ao longo do tempo. Não é por acaso que uma pessoa aos 18, 20 ou 30 anos se revela ou se constitui uma pessoa narcisista, sem empatia.

Mas esse traço de personalidade já nasce em parte connosco, não? Qual é o peso da educação?

Toda a gente pode ser um narcisista. Claro que há fatores intrínsecos ou extrínsecos que podem levar isso a agravar-se ou não, mas vem sobretudo da falta de limitação externa. Todos nós somos candidatos, uns mais ou menos, mas todos preenchemos o papel de candidatura para sermos tiranos. Felizmente, depois, os nossos pais, a sociedade e até o nosso superego, o nosso polícia interno, intervêm: as pessoas aprendem que não é caminho e percebem que, além disso, não se iam sentir muito felizes. Agora isto reprime-se desde cedo.

Como?

O tal bebé que comeu, que está bem disposto no chão a brincar. Os pais finalmente vão para a mesa jantar e estão descansados. O bebé vê aquela cena e pensa qualquer coisa do género: “Olha-me aqueles meus dois escravos a libertarem-se” e começa numa guincharia. Aí não há hipótese: os pais têm de dizer “xiu, caluda. Agora estou a falar com a mãe e tu estás calado”. E mesmo que a criança continue a chorar, naquela vitimização de que ninguém gosta dela, os pais devem continuar a conversar sem dar muita atenção, sem se enervarem muito nem entrarem também naquelas grandes explicações: “não vês que eu tive um dia muito difícil no trabalho, etc..”

Não é pedagógico? Às vezes há essa tentação de falar com eles como se fossem mais crescidos.

Entrar nessas explicações que a criança não percebe não é muito produtivo, não percebe.

Depois, quando os pais são mais assertivos em público, acabam por surgir uns olhares recriminadores. Por exemplo, se uma criança desata aos berros no supermercado e se tenta dizer “parou”. É como se estivesse instalada uma certa vigilância…

Há uma certa vigilância que me parece idiota. Lá estão as mudanças na sociedade. Passou-se de um país onde se podia bater, zurzir e queimar crianças que ninguém se metia – e os vizinhos até sabiam mas “era lá com eles” – para um país onde há leis e regras contra os maus tratos infantis mas as pessoas estão muito mais indignadas e intrometidas. Exagerou-se. Passou-se de ver um pai espancar um filho e ninguém intervir para ver-se um pai que fala mais rispidamente e meterem-se logo na conversa a perguntar se aquele pai não esta a ser demasiado duro com o filho.

De onde vem essa inversão?

De uma certa vontade de fazer o bem, certamente, mas também de protagonismo e de necessidade de censurar o outro.

Acha que as redes sociais, tendo dado microfone a toda a gente, acabaram por alimentar essa imiscuição na vida dos outros?

Também. As pessoas gostam de ser justiceiras. Apanham ali uma cena que nem viram desde o início mas fazem logo o seu statement e depois voltam as costas com ar de Lucky Luke.

Há uma tentativa maior de proteção das crianças do que havia no passado. Tem o efeito desejado?

Acho que com a voragem do tempo e com a autonomia que conquistam nas redes sociais está a haver um certo paradoxo: têm muita informação mas esquecem-se de que a informação, só por si, não vale nada. Precisam de experiência e sabedoria. E depois acham que sabem muito, e como sabem muito, podem atuar pensando pela sua cabeça, mas não podem porque não têm maturidade. Há crianças de 12 anos que são mais altas do que a Marta. Porque não podem conduzir um automóvel? Se calhar usavam melhor toda a tecnologia. Não podem porque não têm uma visão sistémica: esqueciam-se da pessoa que vai atravessar a estrada, do semáforo. Essa visão de ecossistema não é algo que um adolescente possa ter. E, de facto, eles conseguem fazer tudo nos computadores, mas depois falta-lhes essa visão e esse filtro. A autonomia a navegar não é acompanhada de uma autonomia no pensar, no estruturar ideias e na tomada decisões. Resultado: temos bebezolas enormes convencidos de que sabem tudo e que vivem muito no hoje, no agora. É levantarem-se de manhã, aguentar uns “stôres” pelo caminho e depois dominar nas redes sociais e as mensagens.

E os pais?

Muitos pais deixam andar e vai faltando uma visão mais a médio prazo. É importante um jovem ter noção de que o seu percurso escolar se dirige algures e o que é que pretende desse algures. Tomar decisões, pensar a médio prazo não é compatível com querer viver só o hoje.

Os adolescentes não foram sempre um bocado inconsequentes?

Não tanto, parece-me. Os pais acabavam por estar mais disponíveis para coisas tão simples como ensinar a mudar um pneu de um carro ou a construir um móvel e aplicar bondex. Há coisas que se perderam.

Mas não será também porque hoje os sonhos parecem mais difíceis de concretizar, maior precariedade no trabalho.

Não creio. O que acho é que se contemporiza hoje mais com a falta de rigor e com o “tanto faz como fez”. Em coisas pequenas. Ali perto de casa há uma zona de calçada portuguesa que tinha um desenho simétrico. Quando vieram arranjar umas caixas e foi preciso calcetar de novo, puseram tudo à balda. Nem é uma questão de esforço, porque pôr as pedras de uma maneira ou de outra ia dar ao mesmo, mas é uma questão de brio e de perceber que havia ali um desenho que era importante completar. Mesmo que isso não interessasse nada ao calceteiro.

De onde acha que vem essa erosão do brio da sociedade?

Odeio generalizações, mas vem muito da família, da escola e da sociedade, deste viver apenas o hoje. É uma sociedade que se está a demitir de reconhecer o brio, desde miúdos. Limita-se a estas coisas dos rankings, dos quadros de honra, que são sempre instrumentos muito enviesados dependentes de duas ou três disciplinas e que não avaliam o estudante como pessoa.

Vive perto de uma escola pública que este ano esteve no centro de uma polémica na altura de inscrições, com suspeitas de moradas falsas. Como vê esta corrida ao Liceu D. Filipa de Lencastre?

Há outros casos assim em Lisboa, no Porto ou em Coimbra. São escolas que atingiram patamares de excelência educativa, mesmo que os alunos digam sempre que há “stôres” horríveis. O facto é que há escolas e escolas e esta é uma boa escola. Conheço bem, os meus filhos estudaram lá.

Percebe os pais que sentem a tentação de apresentar uma morada falsa?

Percebo que exista uma tentação de pensar em fazê-lo. Sobretudo se uma pessoa até vive perto e vai demorar mais tempo no trânsito para pôr o filho na escola dele e que nem tem tantas atividades. Se o critério é a morada, deixa-me cá arranjar… As pessoas obviamente fazem-no. Não é legal, mas como toda a gente faz… E sobretudo porque há uma sensação de injustiça: se morar naquela rua pode e naquela outra já não pode.

Não é preocupante que se formem depois estes guetos de bons alunos, escolas muito concorridas e outras que ficam com os alunos que sobram?

Acho que não se formou um gueto. Estive na associação de pais durante nove anos e o que conseguimos foi desenvolver muitas atividades extracurriculares em conjunto e ir além das disciplinas centrais.

E isso é replicável em todas as escolas, mesmo em bairros mais problemáticos? Esta é uma zona de Lisboa com maiores rendimentos.

Creio que aqui mais de 90% dos pais têm licenciatura, mas acredito que é possível. Não é uma licenciatura que dá capacidade de empatia, de solidariedade. É preciso olhar mais para os alunos, perceber de que é que eles precisam, repensar a forma como se dá aulas. Parece-me que a imaginação dos professores tem de melhorar um bocadinho em muitos casos. E depois os pais podem formar associações, mobilizar-se. Em Lisboa há protocolos com as câmaras para financiar as atividades extracurriculares. Se a escola não tiver ninguém disponível para fazer esse trabalho, vai contratá-lo a uma empresa, que cobra x por esse serviço. Se a associação de pais gerir esse dossiê já sobra mais dinheiro para aplicar nas atividades.

Mas pais de uma boa escola se calhar estão mais motivados.

Isso tem muito que se lhe diga. Quando estava na associação de pais da EB1 eram 400 alunos, 800 pais e mães, e apareciam à roda de 10 a 15 pessoas. E digo-lhe, muitas vezes era angustiante. Éramos mais da associação do que os pais a aparecer. Os pais nunca foram muito às reuniões. Gostam que se faça, mas não aparecem. Claro que às vezes a pessoa pensa: para que estou aqui em vez de ir para casa? É o tal espírito de missão. E quando há ideias giras e isso tem algum eco na direção das escolas, mais motivação ainda.

No fim do ano letivo, uma das suas crónicas no i condenava a postura de Mário Nogueira e da FENPROF por terem feito greve num dia com exames. Vê nos professores um dos problemas do ensino?

Conheço professores excelentes e professores horríveis. Acho que a posição do sindicato é constantemente de defesa de uma série de coisas que compreendo que precisem de ser defendidas, mas se calhar devia haver uma Ordem dos Professores, para se focar mais na parte pedagógica e académica, para ver como os alunos poderiam aprender mais.

São, ainda assim, uma profissão um pouco maltratada. Suportar grandes deslocações, estarem até a última sem saber onde ou se vão ser colocados.

Isso sem dúvida, relatos como vemos de professores que se levantam às 5 da madrugada para ir dar aulas são inacreditáveis. E não percebo como é que estamos para começar as aulas e nem os professores sabiam onde iam estar colocados, nem os pais sabem os horários. Sendo o número de alunos algo bastante previsível, tirando uma criança ou outra que emigra ou muda de escola, em abril devia-se fazer logo tudo para que as pessoas, quando fossem de férias, soubessem mais ou menos com o que contar.

Esta instabilidade não contribuirá para uma depreciação do papel do professor?

Parece-me que contribui para uma certa desvalorização. Mas há muitas coisas que deviam mudar. Em primeiro lugar é errado que continue a chamar-se Ministério da Educação e que não seja Ministério do Ensino e da Aprendizagem. Isso fazia logo a diferença. Educar remete para uma relação paternalista quando não é isso que se pretende. Depois creio que as matérias deveriam ser reduzidas no sentido de perceber o que interessa saber. Multiplicar potências: para que é que isso serve em termos práticos?

Podemos sempre argumentar para que servem outras matérias em termos práticos, a História…

É diferente. A História serve de contexto, mostra como o ser humano interage em sociedade. Agora, multiplicar potências… Depois é preciso acabar com aquelas aulas de hora e meia em que os alunos, coitados… Quando vou às reuniões de pais sento-me naquelas cadeiras e, passado uma hora, é uma sova de cadeira.

Quanto tempo é que um miúdo está concentrado?

Uns 16 a 18 minutos.

Isso também não dava para nada.

Não era preciso acabar a aula, mas fazer uma pausa ali ao fim de um quarto de hora, dizer agora vamos lá espreguiçar-nos, falar de outra coisa qualquer. Um bom professor não tem de ter medo de estar a falar de matemática e parar para comentar um golo do Ronaldo no dia anterior, o atentado em Barcelona.

Tem um professor que o marcou?

Tive vários. Tive o Rómulo de Carvalho no Pedro Nunes, que fazia as coisas assim. O Jaime Leote a Matemática.

Porquê esses e não outros?

Íamos para as aulas deles com gozo. Íamos aprender.

Hoje os miúdos conseguirão ter esse sentimento? Conseguem ir à internet ver tudo.

A internet não ensina. Permite saber tudo, mas não fornece as ligações. Antes o professor era a fonte principal de informação. Uma pessoa que soubesse ler, escrever e contar tinha mais hipóteses de passar de uma profissão no campo para outra com melhores perspetivas. Bastava. Isso hoje é um dado adquirido, o ensino tem de mudar. O que é preciso é dar competências, potenciar os talentos. Porque é que os alunos têm todos as mesmas matérias? Porque é que não há mais aulas interligadas? Não fazia mais sentido as Invasões Francesas serem dadas pelos professores de História, Português e Francês em conjunto? Creio que é necessário interligar mais as coisas. Porque se é só para despejar a informação, é como diz, há a internet. E depois acho que seria preciso refletir sobre onde é que estes miúdos que têm hoje 15, 16, 17 anos vão estar daqui a 20 anos e de que é eles vão precisar.

As profissões do futuro?

Sim. Podemos falhar nessa análise, mas já temos alguma noção. Tivemos alguma disrupção, mas mesmo na tecnologia ultimamente não tem havido nada de muito novo. E mais assustador para mim: há décadas que não há uma ideia filosófica nova. Produzem-se teorias económicas, produzem-se vipes do “morte ao estrangeiro/venha o estrangeiro”…

Como a turismofobia em Lisboa.

Sim. Esta discussão do “és pró ou contra” turistas é um disparate.

Não se deixa contaminar?

Não, pelo contrário. Pois se eu adoro ser turista, não havia de gostar que os turistas viessem ao meu país? Na minha rua já há oito alojamentos locais. A passear a Tenrinha à noite era o deserto total e agora é menos, sinto uma maior segurança. Mas o que queria dizer é que temos estas reações umas atrás das outras e menos reflexões de fundo sobre quem somos, para onde vamos. Está-se a viver o dia a dia sem pensar globalmente. Era preciso mais Eduardos Lourenços.

O que mudou?

As pessoas distraíam-se menos.

Não eram tão forçadas a pensar sobre os casos que se sucedem, sobre o debate do momento.

Às tantas cansa.

Vivemos este verão o drama dos incêndios. Perdeu um familiar bombeiro.

Vivi-o de perto e sinto que muitas vezes a discussão devia ser mais contida. Como no terrorismo. Mesmo antes de Barcelona todos os dias havia uma notícia de fulano que esfaqueou, atropelou. À boleia do terrorismo noticia-se tudo e questões como a violência doméstica, que continua a existir, ficam para um segundo plano.

A discussão mediática diz alguma coisa às famílias enlutadas?

São esferas diferentes. É evidente que tem de se perceber tudo o que se passou para que não se repita, como em qualquer coisa que corre mal, mas isto evidentemente demora tempo. O timing das famílias não é nem podia ser o timing da investigação. Para a família, a dor é tão grande que a pessoa tenta arranjar explicações, responsabilidades, como quando se tem um cancro e se pensa se o médico não podia ter visto mais cedo a massa. Mas é demais. Veja-se o caso do avião que aterrou na praia. No próprio dia passados minutos já havia especialistas em brevês a dizer tudo e mais alguma coisa, como se pudessem saber ao certo o que se passou.

Esta discussão piora o luto das famílias?

Piora, sem dúvida. Para não falar de quando dá ideias, basta ver os casos em que pessoas com problemas mentais copiam ataques com facas e carros, mesmo sem uma intenção terrorista. Ou a transmissão dos fogos nos casos dos pirómanos. Uma vez vi um pirómano falar do prazer de ver as labaredas. Ele não via a floresta a ser destruída, falava do cheiro da lenha a queimar, daquele crepitar, uma experiência sensorial que lhe dava prazer. A televisão ao transmitir isto, na minha opinião, potencia novos casos. E há outros efeitos colaterais. As pessoas ficam assustadas e até se sentem quase complexadas de estar a desfrutar das férias. E depois tudo o que é em overdose dessensibiliza. O nosso sistema imunológico funciona assim. As pessoas estão muito alérgicas aos ácaros fazem vacinas até saturar o mecanismos de resposta. Aqui acontece exatamente o mesmo.

Qual é o perigo da dessensibilização?

É a banalização do mal de que falava Hannah Arendt. Um certo alheamento. Esta repetição até exaustão das mesmas imagens não faz nada bem. Andamos a dizer aos pais que deve haver poucos estímulos antes de ir dormir, uma história para adormecer e depois os adultos vão para a cama assustadíssimos à espera que rebente a bomba. Dormem mal, andam irritáveis. Isto é acentuado no meio urbano. No meio rural, acha que aquelas pessoas estiveram a noite toda a ver os debates na televisão quando têm de acordar cedo para ir para o campo?

Estamos a terminar o período de férias. Parece um paradoxo, mas para muitas famílias são um período de stress.

São. As férias não deviam ser uma repetição da vida do dia a dia. Deviam ser um polo endorfínico, de calma, para quem tem um polo adrenalínico no dia a dia. Ou o contrário, para quem tem um dia a dia mais tranquilo. O que se passa é que as pessoas organizam muito mal as férias. Planeiam tudo, o hotel, a praia, o sítio, mas não pensam naquilo de que estão a precisar física e psicologicamente. Parece que há uma vergonha de dizer não fui ao Algarve, não fiz uma viagem, não fui às Seychelles. E depois esgotam-se nisso, mais no dinheiro que têm de arranjar. Como vivemos numa época de muito show off, de selfies, de mostrar nas redes sociais onde estamos, dizer que estou no Gerês tem menos sucesso do que dizer que estou nas Seychelles. Então se a pessoa puser que ficou em casa a dormir ou foi passear o cão…

Pensam que está deprimida.

Possivelmente. E depois, como as pessoas vão ver o número de likes e comentários, o “ah que lindo”, “que inveja”, com não sei quantos “eeee”, é uma ditadura terrível. As pessoas não são verdadeiramente livres: só sabem o que foi bom ou mau consoante os likes que têm.

Perde muito tempo com as redes sociais?

Zero. Tenho uma página de Facebook onde não meto nada, as pessoas é que de vez em quando metem lá coisas.

Nem a seguir os seus filhos?

Os mais velhos não metem grandes coisas, os mais novos menos. É mais o Instagram, gostam de fotografia.

Os mais novos já têm telemóvel?

Os mais novos têm 14, já têm. Mas tento passar-lhes que há mais coisas a fazer, nomeadamente ler, ir passear o cão, conversar. Interagir.

É fácil fazer a gestão enquanto pai?

Tem de ser pelo exemplo. Nem eu nem a minha mulher andamos no Facebook nem agarrados ao telefone à hora das refeições.

Já teve aquela cena de ter pai, mãe e criança de telemóvel na mão na consulta.

Já. Numa das crónicas no i escrevi sobre uma adolescente que não largava o telemóvel.

Foi na crónica em que falava dos pais-multibanco.

Muitas crianças veem os pais assim. É “o pai dá, o pai compra”. Como não sabem a história da família, não têm sequer ideia do custo das coisas. Que o avô ou bisavô nasceu numa aldeia, que ia de bicicleta na neve para a escola. Não lhes interessa sequer saber. “Lá vem a história do pobrezinho”. Acho mesmo que os jovens estão a recuperar uma faceta narcísica do “tenho direito a tudo”.

Não será um gap geracional… está a ficar mais velho, menos tolerante com as falhas das gerações mais novas.

Talvez, mas existem diferenças. Quando éramos miúdos tudo era uma oportunidade para nós. Quando fazíamos InterRail era com pouco, íamos ao supermercado comprar comida, ficamos sentados a conversar, a observar as pessoas. Hoje os miúdos querem mais coisas e ao mesmo tempo são muito mais apegados aos pais.

Sente isso nos seus filhos mais novos?

Sim, talvez. Este ano tentámos mandá-los para campos de férias, fazer coisas diferentes. Se não depois cria-se uma rotina em que eles acomodam-se a este conforto – terem cama e roupa lavada, terem televisão, acesso à internet – e para eles é o status natural da humanidade.

Uma proposta nas suas crónicas era mais trabalhinhos de verão.

Sim, não faz mal a ninguém. Uma das tarefas deles foi andarem a pintar umas paredes lá de casa, a apanhar o lixo. Tem de ser. Podia pagar a alguém, mas havia tinta e, em vez de chamar alguém, fizeram eles. Até para eles perceberem que quando tiverem a sua independência económica não vão ter dinheiro para tudo, a menos que ganhem o euromilhões ou façam algum negócio escuro. É fazê-los perceber de alguma forma que não vão ter um T4 com vista para o Tejo, vão arranjar um T1 ranhoso algures e fazer a sua evolução e isso não tem de os fazer infelizes. Se tiverem uma vida interior intensa, uma vida cultural e relacional, serão felizes na mesma. Mas confesso-lhe que estou apreensivo com as gerações mais novas…

Pessimista?

Sim, um bocado pessimista com o desinteresse e ignorância que se vem instalando.

O que lhe faz mais confusão no consultório?

Às vezes a ignorância de pais e filhos sobre factos ou até palavras da língua portuguesa. Wittgenstein tinha razão quando dizia que o que mostrava a evolução das sociedades era a evolução da palavra. Desde os “grunfes” da pré-história, o ser humano teve necessidade de arranjar designações para as coisas que conhece, de construir frases elaboradas. A escolha da palavra numa sociedade evoluída não é à balda. E hoje muitos adolescentes estão com uma linguagem paupérrima.

Sempre houve o calão, o bué.

Não é o bué, é o que fica para lá disso. E o que fica é um discurso muito pobre. Não há aspetos metafóricos, não há associação a memórias. Acho que antes havia mais imaginação e criatividade.

Os mais pequenos têm-na.

Sim, mas depois perdem. Acabam formatados por uma escola que não estimula a criatividade nem o pensar pela cabeça. E depois diz-se que há muitos miúdos hiperativos: havê-los há, mas há sobretudo muitos miúdos que não conseguem estar ali encerrados naquela prisão, onde há menos recreio do que uma prisão a sério. As horas de recreio numa prisão são superiores às horas de recreio numa escola primária.

Depois das férias, como se desacelera os miúdos?

Muitos estarão com vontade de regressar. As férias para as crianças tornam-se um bocado repetitivas. Para os mais novos são totalmente disruptivas: mudanças de casa, de pessoas, come-se quando se come. E por isso é importante, uns dias antes do regresso, começar a haver um reset, entrar nos ritmos de dormir. E depois eles dizem “mas amanhã não tenho aulas”. É começar a deitar mais cedo, gradualmente. E começar a refrescar a memória sobre as matérias dadas no ano anterior. Não é estudar, mas reler para que haja alguma sequência. Não vai tirar mais que meia hora por dia.

A última vez que falámos com mais vagar há dois anos ia aprender violino para acompanhar um dos filhos mais novos. Conseguiu?

Aprendi, comecei no final desse verão, tenho aulas e tento todos os dias estudar um bocadinho.

É muito diferente ser pai de um adolescente aos 60 do que aos 30?

Começam logo por ser realidades diferentes: os anos 80 são diferentes de 2017. Mas é sempre um desafio. Já não tenho aquela pedalada enorme, mas tenho uma calma e sabedoria maior.

Qual é o projeto para a rentrée?

Vou publicar um livro sobre vacinas. Estou a escrever outro sobre “pais sem pressa”.

O seu estilo?

Sim. Será sobre como contrariar esta corrida para nenhures, uma maratona sem meta à vista que não faz qualquer sentido. E dar dicas para, no dia a dia, viver com mais calma sem ser preciso enfiarmo-nos numa gruta na Serra da Estrela. A nível pessoal tenho dois livros de poesia mas há ideias para peças de teatro, romance. E depois leio livros e livros de História de Arte.

Concluiu há poucos anos o curso.

Sim e muda a perspetiva. Ainda agora em Salamanca… Não é que tenha alguém para impressionar, mas percebendo porque é que há umas igrejas mais escuras e outras mais claras, o porquê dos arcobotantes, tira-se mais das coisas.

Onde gostava de ir?

Itália, é um repositório de arte. Gostava de voltar à Toscana.

E em Lisboa, quais são as suas paragens prediletas?

Em termos de museus, o Museu de Arte Antiga, o Museu do Azulejo e agora quero ver se vou à Cordoaria ver a exposição dos guerreiros. Também queria ver a do Van Gogh. Foi um dos primeiros museus que visitei no InterRail, em Amesterdão. Lembro-me que escrevi um poema muito emotivo sobre a vida dele.

Ter sido um pintor incompreendido.

Sim, estava lá sentado e foi uma reflexão sobre aquela dicotomia de estarmos ali num museu moderno a admirar as obras ignorando o sofrimento da vida dele.

Sente-se mais sensível hoje a essas ironias?

Sempre gostei muito de refletir e de ler compulsivamente o que me faz talvez irónico, às vezes sarcástico. Felizmente a minha mulher partilha essa paixão comigo e os miúdos também vão crescendo nesse ambiente.

Que livro o tocou este verão?

Gostei imenso de um que é em homenagem à minha parceira, um livro sobre um beagle, “Uma Prenda para Bertie”.

Sente que a Tenrinha é como um filho?

Não é… Mas que sinto que faz parte da família sim. E que respeitar os animais e natureza é uma melhor forma de respeitar a humanidade. Não ponho cães aqui e humanos ali, é tudo parte da natureza. Um dia que tivemos de abater uma árvore na Lourinhã quase que chorámos. É um bocado pueril, mas ponho-me a pensar o que é que esta oliveira já viveu, há quantos séculos está aqui. E acho que a natureza faz-nos ver o quão ridículos somos. Entrei na faculdade com 16 anos. É um bocado disto que falo. Os tempos eram outros, mas com a idade dos meus filhos já debatíamos a existência de Deus, as questões metafísicas, a guerra do Vietname e hoje acho que conversam menos sobre estas questões. Não éramos um grupo de contestatários, mas discutir aquelas coisas dava-nos um gozo enorme, exercitar a teorização, filosofar, debruçarmo-nos sobre a vida.

É a prescrição para a rentrée?

Sim, muito mais filosofia, procurar perceber o outro, não rotular logo e olhar mais para a beleza natural e possível à nossa volta, sabendo que o mundo tem coisas más. É bom compensar esse lado agressivo com a beleza, as folhas que começam a cair. Deleitarmo-nos com a nossa existência. Não é no leito de morte que vamos ter tempo para isso

 

 

 

E viveram com livros para sempre. Como criar um leitor

Agosto 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 9 de julho de 2017.

Catarina Homem Marques

De pequenino, torce-se o pepino e também se começa a gostar de livros. Basta que os pais leiam aos bebés – até receitas –, que a leitura se faça em família e que todos se deixem levar pelos livros.

Nem todas as histórias têm de ter um final feliz para serem bonitas, nem sequer as histórias que se contam às crianças, mas o final feliz para os pais que querem que os filhos leiam é que eles comecem mesmo a gostar de livros. E isso, já que não é uma capacidade que nasça com as crianças, é algo que se pode – e deve – trabalhar, como afirmam Pamela Paul e Maria Russo, especialistas em literatura infanto-juvenil do New York Times, num artigo cheio de dicas para as famílias.

Não é apenas um capricho – está mais do que comprovado que os livros contribuem para o desenvolvimento das crianças, e que são também aliados saudáveis para a vida adulta. É por isso que se contar um conto deve mesmo acrescentar um ponto, e mais um ponto, e mais um ponto, até que a leitura seja um elemento de proximidade familiar, uma atividade enriquecedora para todos e, mais importante, um momento feliz.

Os bebés dormem, comem, choram… e gostam de livros

Há aquela imagem dos filmes em que uma mulher grávida embevecida põe os auscultadores em cima da barriga para o filho começar logo a ouvir música. E faz sentido. Os bebés reagem a estímulos sensoriais e esses estímulos contribuem para o desenvolvimento das suas capacidades. O que significa que – embora o bebé possa não mostrar grande entusiasmo quando está a acontecer – também faz sentido que os pais leiam para os filhos desde as primeiras fraldas.

“Como não se nasce leitor, é necessário guiar e acompanhar a criança, ao longo do percurso, desde a descoberta do pré-leitor até à sedimentação da leitura. O mergulho progressivo nos livros constituirá, decerto, um desafio apetecível porque as crianças são, por natureza, curiosas e a curiosidade é motor das aprendizagens ao longo da vida”, explicam os responsáveis pelo Plano Nacional de Leitura ao Observador.

Nesta primeira fase, as boas notícias é que os pais nem sequer têm de ler histórias com sentido: podem ler o livro que já estavam a ler antes sobre a II Guerra Mundial, um manual de instruções para alguma máquina que estava a dar trabalho ou a receita de um bolo para o jantar. O importante é o som da voz dos pais, a cadência típica da leitura e que as palavras sejam dirigidas para o bebé.

“Em nenhum genoma humano está presente uma inclinação para os livros. O que se sabe é que um leitor – tal como um escritor, ou um artista em geral – descobre-se quando acende o seu fogo interior, que a escritor Laura Esquível comparou a uma caixa de fósforos imaginária. Segundo ela, cada um de nós traz no interior essa caixa de fósforos e, para acendê-los, é necessário um prato apetitoso, uma companhia agradável, uma canção, uma carícia, uma palavra. Mas a chispa varia de pessoa para pessoa, e cada um tem de descobrir os seus detonadores… a tempo, ou a caixa de fósforos humedece e nunca poderá acender um único fósforo”, diz Álvaro Magalhães, autor de dezenas de livros para crianças que já foi integrado na lista de honra do prémio internacional Hans Christian Andersen.

Os outros sentidos também podem ajudar nesta detonação. Mesmo que o bebé interrompa a leitura para puxar as páginas ou comece a fazer sons em resposta aos sons que está a ouvir, não faz mal. Este é o tipo de leitura em que os pais têm de estar disponíveis para a interrupção. E até há livros cheios de texturas que podem ajudar. Tal como ajuda ter tempo e paciência.

“O ouro da literatura sempre foi o tempo, e é cada vez mais isso. Por isso é que a nossa livraria é afastada de um local de passagem. Se é para virem até aqui, é mesmo para escapar à rotina. E se há uma obrigação que os pais têm, desde que os filhos são muito pequenos, é de cuidar da curiosidade dos filhos, e a leitura faz parte disso. Só que a leitura não se faz apenas sentado com um livro na mão. Tecnicamente, temos de transformar a leitura num jogo que se realiza em diferentes dimensões, que é um universo comum em que a palavra abre espaço para dança, música, movimento e tudo o que quisermos”, explica Mafalda Milhões, responsável pela livraria Bichinho de Conto, em Óbidos, a primeira que abriu em Portugal dedicada apenas ao livro infanto-juvenil.

A leitura é para ocupar a casa toda. E a família.

Para criar um leitor é preciso ser um leitor. E isto não implica que o serão da família tenha de incluir sempre um debate profundo sobre literatura russa ou sobre poesia japonesa do século XIX. Acontece apenas que, ao partilhar leituras com as crianças desde cedo, ao tornar-se uma atividade que se faz em conjunto – o que acontece naturalmente quando as crianças ainda não sabem ler sozinhas –, os livros começam a ficar associados à voz dos pais e a um sentimento positivo de proximidade.

© Getty Images/iStockphoto

“Infelizmente, fala-se muito em leitura sem falar em comunicação. E nisso a família tem um poder que não tem a escola, é a melhor incubadora para um leitor, para abrir horizontes e fazer ligações”, diz Mafalda Milhões.

Há pequenos truques para ir expandindo esta sensação e para a prolongar nas diferentes fases de crescimento da criança: em vez de ler para a criança só à noite, antes de deitar, é importante arranjar tempo para ler em outras alturas do dia – e, milagre, isso vai fazer também com que a criança abrande; transformar a leitura numa atividade interessante para as duas partes – nem tem de ler sempre livros que deteste, nem a criança tem de gostar das caretas que os pais fazem ao ler e pode interromper a qualquer momento; não fazer da leitura uma obrigação ou um castigo, mas sim um momento de brincadeira e alegria; ter livros espalhados pela casa, em vários sítios, que possam a qualquer momento transformar-se num ponto de interesse e num fator de distração; ir associando os livros e a leitura independente a um ato de maturidade – também dando o exemplo – sem provocar uma quebra abrupta na possibilidade de se continuar a fazer a leitura em conjunto.

“Há quem leia porque aos dez anos teve uma pneumonia e para matar as horas de aborrecimento não lhe ocorreu melhor coisa do que ler Stevenson. Até hoje. O curioso é que todas as pessoas, sejam ou não leitoras, podem falar da sua genealogia como leitores ou não-leitores, sempre com referência a uma contingência ou um mero acaso. Ou seja, o ato de ler não nasceu quase nunca de um ato puro de vontade ou da falta dessa vontade. Foi sempre a resposta a uma situação. Convém então repeti-lo: chega-se à leitura graças a um golpe de dados, quer dizer, a encontros e desencontros ocasionais”, explica Álvaro Magalhães.

E se os pais não são leitores, porque perderam o interesse pelos livros ou porque nunca encontraram esse golpe de dados, podem ser as crianças a servir de inspiração. “Há algumas famílias que não sabem mesmo fazer isto, mas podem aproveitar para seguir as crianças. Os pais têm de ter coragem para essa predisposição, para aprender isso com os filhos”, diz Mafalda Milhões. Uma ideia que Álvaro Magalhães completa: “No meu livro O Brincador há uma epígrafe que é todo um programa de vida, dois versos de Carlos Queiroz: ‘Menino que brincas no jardim / Tu sim, podias ser um Mestre de mim.’ Eles afirmam a minha fé numa inteligência infantil ainda não contaminada nem corrompida pelo mundo. Um dia perguntaram a Stanislavsky como se fazia teatro para crianças e ele respondeu: ‘Como se faz teatro para adultos, mas melhor’. É o que tento fazer, pois, tal como a concebo, a literatura para os mais novos é uma arte maior. Para comunicar com eles é preciso elevarmo-nos, e não o contrário – traduzirmo-nos, imbecilizarmo-nos, infantilizarmo-nos, que é o que mais se faz, infelizmente.”

Os livros também fazem coisas

Os livros fazem coisas. E não são só aqueles livros que têm pássaros que saltam em formato pop up, que emitem sons ou que servem, numa pilha, para levantar o monitor de um computador. Os livros são histórias, e são imagens, e levantam questões que se podem associar depois a outras actividades. “Se a criança gostou muito de um livro sobre animais, se calhar era divertido a seguir irem todos ao Jardim Zoológico com o livro”, exemplifica Mafalda Milhões.

Além disso, os livros são também uma desculpa para ir à livraria do bairro, ou para entrar numa biblioteca. Há cada vez mais atividades que se podem encontrar em diferentes livrarias: desde oficinas de ilustração, como aquelas que acontecem regularmente na It’s a Book, em Lisboa, a atividades pelo bairro ou oficinas de leitura entre avós e netos, como são comuns na Baobá, em Campo de Ourique, passando pela simples possibilidade de andar de baloiço ou ouvir uma história no grande quintal da Bichinho de Conto. É importante que a família fique atenta à agenda das livrarias nas proximidades ou tire um tempo para ir a uma que fique mais distante.

A Bichinho de Conto, em Óbidos, foi a primeira livraria dedicada apenas ao livro infanto-juvenil em Portugal. © Divulgação

Na Bichinho de Conto, por exemplo, Mafalda Milhões sente que muitas vezes o espaço se transforma “no quintal da avó que muitas crianças já não têm isso”. “As crianças vêm aqui para ler, mas também para andar de baloiço, para brincar com as cabras, e isso tem tudo de literatura, não tem? Isto antes era só uma sensação que eu tinha, mas agora já é conhecimento técnico ao fim de muitos anos de trabalho: na leitura, o mais importante é a relação. Nós conhecemos os nossos leitores desde pequenos e agora vejo-os na faculdade e continuamos a fazer parte da vida uns dos outros.” É essa a relação que se pode criar com um livreiro, que pode ser importante a ajudar na escolha dos livros, e que se pode integrar nesta relação que se tem – ou não – com os livros.

“O PNL e outros programas institucionais da leitura só se preocupam com números e estatísticas. Do que precisamos é de leitores que contagiem leitores e sejam capazes de transmitir a sua paixão. Pequenas comunidades, círculos de leitura, clubes de leitores – que estão agora mais ativos com as redes sociais –, pessoas que partilhem e propaguem a sua paixão e a sua felicidade. Só quem verdadeiramente sente esse prazer e essa paixão a pode comunicar aos outros”, diz Álvaro Magalhães.

Outra coisa que os livros podem fazer é transformar-se numa prenda divertida para dar aos amigos que fazem anos, uma prenda que se pode escolher em família e que depois se pode aproveitar em conjunto com o aniversariante. E podem também ser uma coleção: as crianças gostam naturalmente de colecionar, e vão adorar ter uma prateleira ou uma estante só delas para irem arrumando os seus livros.

É um ovni? É da Amazon? Não. São dois livros infantis por mês, surpresa

 

 

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