Privação na primeira infância altera estrutura cerebral do adulto

Janeiro 14, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de janeiro de 2020.

A mesma elasticidade que nos permite adaptar e reagir a factores negativos e positivos pode deixar o cérebro humano vulnerável quando exposto a experiências psicossociais adversas.

Carla B. Ribeiro

A privação de estímulos, afectos, nutrição e higiene nos primeiros anos de vida tem consequências permanentes na formação do cérebro. E nem o facto de as vivências posteriores serem mais ricas é capaz de diminuir o impacte inicial.

A conclusão é de um estudo de uma equipa de investigadores das universidades King’s College de Londres, de Southampton, de Bath (Reino Unido) e de Bochum (Alemanha), publicado esta semana na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), a publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, que prosseguiu as descobertas de uma outra investigação, designada de Adoptados Ingleses e Romenos, do King’s College, publicada em 2017 na revista científica The Lancet, que acompanhou vários órfãos romenos acolhidos por famílias britânicas desde os anos 90 do século passado.

Cerca de 30 anos depois, os cientistas observaram que, entre aqueles, os que, até aos três anos, tinham passado mais de seis meses em instituições romenas apresentavam, já adultos, transtornos do espectro autista, uma diminuída capacidade de interacção social (transtorno de personalidade anti-social), desconcentração ou hiperactividade. Comparados aos órfãos que passaram menos de seis menos em instituições romenas e com aqueles que passaram pelo sistema britânico, o estudo concluiu que aqueles apresentavam cérebros mais pequenos, cerca de 8,6%.

Agora, um novo estudo vai mais longe e acrescenta que as privações (de estímulos, afectos, higiene, alimentação) nos primeiros anos de vida podem ser associados a alterações na estrutura do cérebro, que não são reversíveis mesmo depois de as crianças serem enquadradas em ambientes saudáveis.

De acordo com a publicação, o grupo mais exposto a instituições com más condições revelou uma menor área de superfície e de volume no lóbulo frontal do lado direito, mas maior espessura, área de superfície e volume do lóbulo temporal inferior do mesmo lado. O primeiro facto, explicam os cientistas, foi relacionado com o tempo de exposição a condições deficitárias na primeira infância. Já o segundo parece ser de compensação, sendo que os indivíduos que manifestaram esta alteração apresentavam níveis mais baixos de défice de atenção/hiperactividade.
Cérebro elástico

A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de se adaptar e mudar dinamicamente em resposta às influências ambientais, promovendo ainda a recuperação do mesmo após lesões físicas ou insultos verbais. Porém, a mesma elasticidade que nos permite adaptar e reagir a factores negativos e positivos pode deixar o cérebro humano vulnerável quando exposto a experiências psicossociais adversas, como maus-tratos.
Segundo os investigadores, o cenário “pode ser especialmente verdadeiro durante a primeira infância, [período] caracterizado por mudanças rápidas e dinâmicas na estrutura e função do cérebro”. Além do mais, apesar de os indivíduos observados terem vivido durante mais de duas décadas em ambiente familiar estável, com adultos que lhes proporcionaram afectos e atenção total, os provenientes dos orfanatos romenos apresentavam graves problemas de saúde mental nos primeiros anos da idade adulta, sugerindo que as alterações que a privação provocou ao cérebro terão sido irreversíveis.

Estas descobertas, concluem, “são consistentes com a hipótese de que dificuldades severas e limitadas no tempo, vivenciadas nos primeiros anos de vida, podem ter um efeito adverso duradouro no desenvolvimento do cérebro que ainda é observável na idade adulta”.
Os órfãos de Ceausescu

O estudo teve por base a amostra final do estudo de 67 órfãos romenos, adoptados por britânicos, e 21 órfãos nascidos e institucionalizados no Reino Unido, no início da década de 1990, quando, meses após a queda de Nicolae Ceauşescu (1918-1989), o mundo foi surpreendido pelos relatos da existência de dezenas de milhar de crianças romenas que viviam em orfanatos, isoladas do resto da sociedade, sem condições de higiene, vítimas de maus-tratos e a sofrer de malnutrição.

Houve, na época, adopções em massa de muitos países, como foi o caso do Reino Unido, onde começaram a ser estudadas as crianças provenientes de tais ambientes. De acordo com os investigadores, os indivíduos observados foram institucionalizados nos primeiros dias de vida — muitas destas crianças eram abandonadas ou entregues aos orfanatos por pais que não conseguiam sustentar tantos filhos num país onde os contraceptivos eram proibidos e a natalidade encorajada —, tendo permanecido nesses espaços entre três e 41 meses.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Early childhood deprivation is associated with alterations in adult brain structure despite subsequent environmental enrichment

Falta de mimo causa “cérebros mais pequenos” nas crianças

Janeiro 29, 2016 às 10:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia da TVI24 de 29 de janeiro de 2016.

visualizar o vídeo da notícia no link:

http://www.tvi24.iol.pt/videos/sociedade/falta-de-mimo-causa-cerebros-mais-pequenos-nas-criancas/56aa19970cf21a5b7b001f19

tvi

Crianças que são institucionalizadas antes dos dois anos perdem ligações cerebrais. O mesmo pode acontecer com as crianças vítimas de maus-tratos. Falta de afeto prejudica a arquitetura cerebral de forma irreversível. Conclusões de uma conferência que reuniu especialistas do desenvolvimento da criança.

 

IVªs Jornadas Estimulopraxis ‘Novas Perspectivas no Neurodesenvolvimento – O que se sabe… O que se faz!’

Novembro 10, 2015 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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estim

mais informações:

http://www.estimulopraxis.com/projectos.html#jorna

 

Aprender a ler reorganiza o nosso cérebro e melhora o desempenho visual

Dezembro 11, 2014 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do Público de 27 de novembro de 2014.

Ana Banha

Ana Gerschenfeld

Quando aprendemos a ler, uma dada área do nosso córtex visual passa a dedicar-se ao reconhecimento da escrita. E esta reorganização funcional do cérebro acontece seja qual for a idade em que se faz a aprendizagem da leitura – e parece ser idêntica em todas as línguas.

Nunca é tarde de mais para aprender a ler. Esta é uma das conclusões de um estudo publicado na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por uma equipa de investigadores de França, Bélgica, Portugal e Brasil.

Mais: a aprendizagem da leitura aumenta o desempenho visual das pessoas, permitindo-lhes detectar diferenças entre objectos de todo o tipo – e não apenas na escrita – mais depressa do que as pessoas totalmente iletradas.

Estes cientistas já tinham publicado, em 2010, na revista Science, um primeiro estudo sobre a forma como a aprendizagem da leitura deixa uma “marca” no cérebro humano. Na altura, compararam a actividade cerebral de pessoas analfabetas e de pessoas que sabiam ler através da técnica de ressonância magnética funcional. E concluíram que a aprendizagem da leitura reorganiza literalmente o sistema visual humano. Mais precisamente, mostraram que o facto de uma pessoa aprender a ler leva ao aparecimento, no seu córtex visual, de uma área, chamada VWFA (visual word form area) e especializada no reconhecimento das letras e das palavras escritas.

Todavia, escreve agora na PNAS a mesma equipa – que inclui José Morais, conhecido especialista português de psicologia experimental da Universidade Livre de Bruxelas; Paulo Ventura, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa; Stanislas Dehaene, reputado investigador do Collège de France; e vários outros neurocientistas, psicólogos e especialistas de cognição humana –, o estudo da Science não chegava para perceber quais eram as etapas do processamento da informação visual que eram alteradas pela aprendizagem da leitura. É esta lacuna que o actual artigo visa agora colmatar.

Diga-se antes de mais que um dos pioneiros da ideia de que o cérebro muda quando se aprende a ler é português: trata-se do neurocientista Alexandre Castro Caldas, actualmente director do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

Voltando ao actual estudo, os autores submeteram voluntários adultos brasileiros e portugueses – 24 que sabiam ler, 16 ex-analfabetos e nove totalmente iletrados – a testes de discriminação visual enquanto registavam a sua actividade cerebral. Só que, desta vez, essa actividade foi recolhida através de múltiplos eléctrodos aplicados no couro cabeludo – ou seja, por electroencefalografia, uma técnica mais precisa.

O teste consistia na apresentação sucessiva de pares de imagens pertencentes a seis categorias de objectos diferentes: sequências de letras (“pseudo-palavras”), sequências de caracteres que parecem escritos num alfabeto diferente (designadas por “falsas fontes”), rostos, casas, ferramentas e padrões axadrezados. Cada par de imagens continha duas imagens idênticas, duas imagens “em espelho” ou duas imagens diferentes de objectos da mesma categoria.

Como os processos de discriminação visual em estudo não são conscientes, não era pedido aos participantes para discriminarem conscientemente as imagens de cada par. De facto, “os participantes deviam simplesmente estar atentos [às imagens] e carregar num botão de cada vez que surgia uma imagem que não fazia parte do par (uma estrela preta)”, lê-se na PNAS.

Primeiro efeito da literacia: menos de 200 milissegundos após a apresentação de sequências de letras escritas, a actividade cerebral das pessoas que sabiam ler aumentava de forma espectacular na já referida área VWFA, especializada no tratamento visual da escrita e situada na zona lateral traseira do hemisfério esquerdo do cérebro (nas pessoas dextras). “O que isto significa é que os efeitos da literacia emergem muito cedo no processo de tratamento da informação visual”, disse Paulo Ventura em entrevista telefónica ao PÚBLICO.

Tigre da esquerda, tigre da direita

“Um outro efeito muito forte [da literacia] é o aumento da precisão da nossa discriminação dos objectos visuais”, acrescenta este cientista. Acontece que as pessoas que sabem ler discriminam melhor duas imagens semelhantes (mas não idênticas) do que as pessoas iletradas. E ainda um terceiro efeito detectado pelos cientistas tem a ver com as imagens “em espelho” – onde, mais uma vez, o desempenho de quem sabe ler é muito melhor do que o de quem não sabe. “Saber distinguir entre um ‘b’ e um ‘d’ e entre um ‘p’ e um ‘q’ basta para melhorar drasticamente a nossa discriminação das imagens em espelho”, frisa Paulo Ventura.

E de facto, os autores constataram que estas melhorias do desempenho visual associadas à literacia não se limitam às palavras escritas, estendendo-se também às outras categorias de imagens apresentadas. “A literacia melhora o processamento visual em geral”, diz Paulo Ventura.

E a seguir, brinda-nos com uma colorida analogia: “Por exemplo, se eu vir um tigre aproximar-se pela direita ou pela esquerda, o meu sistema visual detecta que se trata de um tigre, que é o que interessa (e depois localizo o tigre). Ora, nós usamos este sistema até começarmos a ir à escola, altura em que temos de aprender a distinguir entre pares de letras em espelho. E se eu antes tratava duas imagens em espelho como idênticas, quando aprendo a ler passo a discriminá-las – e passo a ver o tigre da esquerda e o tigre da direita como objectos diferentes.”

Ainda uma outra diferença foi observada pelos autores, desta vez ao nível do reconhecimento das caras, entre a actividade cerebral dos participantes letrados e iletrados. “A aprendizagem da leitura tem dois efeitos muito importantes no funcionamento das regiões cerebrais envolvidas no processamento visual”, resume por sua vez José Morais num email: “Aumenta a capacidade de discriminação de objectos muito para além da identificação das letras; e conduz a uma reorganização do processamento das caras.”

Reciclagem neuronal

O co-autor Stanislas Dehaene tem uma teoria acerca desta reorganização cerebral ligada às caras, como nos explica ainda Paulo Ventura: “As áreas do cérebro que respondem à identidade do rosto estão sobretudo no hemisfério direito e um pouco – muito pouco – no esquerdo.” E a teoria de Stanislas de Dehaene é que, na altura da aprendizagem da leitura, ocorre uma “reciclagem neuronal”.

Mais precisamente, segundo Dehaene, refere Paulo Ventura, “a invenção da leitura é demasiado recente (foi há uns 5000 anos) para ter tido impacto ao nível do genoma humano.” E o que isto quer dizer, frisa ainda este investigador, é que não fomos formatados para a leitura pela evolução – e que, por isso, quando aprendemos a ler, temos de “recrutar” para essa nova função uma área do cérebro que até ali servia para outra coisa – neste caso, para identificar rostos. “É como se essa área fosse invadida, reciclada para uma nova função”, diz Paulo Ventura.

Mais: a partir do momento em que aprendemos a ler, essa região especializada que é a VWFA, essa “zona cerebral das palavras escritas”, passa a existir. E é a mesma em todas as línguas – em português, em russo, hebraico, japonês, mandarim…

De facto, os resultados agora obtidos abonam em favor da ideia de reciclagem neuronal. Estudos anteriores já tinham observado que, quando lhes são apresentadas imagens de faces, as pessoas iletradas activam uma área do seu hemisfério cerebral esquerdo que “calha” justamente na área VWFA de reconhecimento da escrita usada pelas pessoas letradas. Ora, os autores do actual estudo constataram que, quando as pessoas letradas estão a discriminar duas faces, a actividade da região VWFA diminui. Mas, ao mesmo tempo, a actividade aumenta numa área homóloga do seu hemisfério cerebral direito. O que sugere efectivamente que uma componente do processamento visual dos rostos humanos terá sido “deslocada” de um hemisfério cerebral para o outro quando o lugar onde inicialmente residia ficou “ocupado” pela aprendizagem da leitura. Terá havido, portanto, reciclagem neuronal.

Quer isto dizer que quando aprendemos a ler, passamos a reconhecer menos bem as faces? “Não, antes pelo contrário”, responde Paulo Ventura. “Discriminamos melhor as faces, devido à melhoria [geral] do processamento da informação visual.”

Há ainda uma boa notícia a destacar neste trabalho: os autores terminam dizendo que os seu estudo confirma que, no cérebro dos ex-iletrados – aqueles que aprenderam a ler na idade adulta –, a área específica VWFA, que se activa com a leitura no hemisfério esquerdo, também existe. “Não interessa a idade em que se aprende a ler; a melhoria do processamento da informação visual pode ser adquirida aos seis anos ou em adulto”, diz Paulo Ventura. “Nunca é tarde para usufruir dos benefícios cerebrais que a leitura traz”.

 

 

Jogar videojogos aumenta a “massa cinzenta” do cérebro

Novembro 13, 2013 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do P3 do Público de 6 de Novembro de 2013.

flickr

Um estudo alemão revela que jogar videojogos ajuda a desenvolver várias regiões do cérebro e pode mesmo funcionar como forma de intervenção terapêutica em doenças neurológicas e psiquiátricas

Texto de Liliana Pinho/JPN

Um grupo de investigadores do Max Planck Institute for Human Development (MPIB) e da Universidade St. Hedwig-Krankenhaus de Berlim levou a cabo um estudo, publicado na semana passada na revista “Nature“, que tentou perceber a forma como os jogos afectam o cérebro.

Assim, pediram a um grupo de adultos (homens, entre os 20 e os 45 anos) que jogassem meia hora por dia do jogo “Super Mario 64”, ao longo de dois meses; e a outro que não jogasse qualquer videojogo. Durante esse período, a equipa avaliou o volume cerebral dos participantes, através de ressonâncias magnéticas, e notou um aumento de “massa cinzenta” do cérebro naqueles que jogaram frequentemente, ao nível do hipocampo direito, do córtex pré-frontal direito e do cerebelo. O grupo “inactivo” não revelou quaisquer transformações.

As áreas “afectadas” estão relacionadas com factores como a orientação espacial, a formação de memória, o planeamento estratégico e os movimentos das mãos. O aumento destas capacidades, segundo os resultados da pesquisa, mostraram que jogar videojogos pode mesmo vir a funcionar como intervenção terapêutica em doenças neurológicas e psiquiátricas, principalmente naquelas em que se registam alterações ou reduções no tamanho do cérebro, como a esquizofrenia, o stress pós-traumático ou o Alzheimer.

Jogos de lógica ou puzzles mais eficazes

De acordo com os investigadores, a vontade de jogar também constitui um factor muito importante no desenvolvimento do cérebro: nos jogadores com maior vontade, o nível de crescimento foi superior. O tipo de jogo também é importante: jogos de lógica, quebra-cabeças ou puzzles — como o Tetris ou o Minesweeper —, ou jogos de correr e saltar — como o Super Mario ou o Sonic —, são mais eficazes do que jogos de acção como o Fallout ou Mass Effect.

“Estudos anteriores não mostraram diferenças na estrutura do cérebro de quem joga videojogos, mas esta investigação consegue demonstrar uma relação causal entre este hábitos e um aumento do volume do cérebro, o que prova que determinadas regiões cerebrais podem ser treinadas através dos jogos”, garantiu Simone Kühn, coordenadora do estudo, em comunicado.

Jürgen Gallinat, da Universidade de St. Hedwig-Krankenhaus e co-autor do estudo, acredita mesmo que “muitos pacientes aceitarão mais facilmente os videojogos [como terapêutica] do que outras intervenções médicas”. O próximo objectivo é, portanto, uma pesquisa mais aprofundada do efeito dos videojogos na área da saúde mental.

 

 


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