Uso excessivo da Net pode vir a ser considerado perturbação mental

Agosto 25, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 25 de agosto de 2015.

Maria João Gala

A Associação Americana de Psiquiatria, responsável pela edição do manual de diagnóstico das doenças mentais (DSM), uma espécie de bíblia para muitos dos que trabalham nesta área, está a ponderar incluir a chamada “perturbação de uso da Internet”, o uso excessivo das novas tecnologias, na próxima revisão da obra. A dependência extrema da Net poderá, assim, vir a integrar o catálogo das perturbações psiquiátricas, como já acontece, por exemplo, com o jogo patológico.

Especialistas contactados pelo PÚBLICO demonstram algumas reservas em relação a esta possibilidade, apesar de reconhecerem que o problema é “preocupante”. Tão preocupante que a equipa de Daniel Sampaio, director do serviço de psiquiatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, criou há cerca de um ano um “núcleo de utilização problemática de Internet” para dar resposta ao número crescente de pedidos de consulta para problemas deste tipo. Problemas de adolescentes e jovens adultos, basicamente, e que usam de forma excessiva uma série de novas tecnologias, sobretudo jogos online.

Os dados disponíveis para Portugal indicam que o problema é sério. Um recente estudo do Instituto Universitário de Psicologia Aplicada (ISPA) mostrou que quase três quartos dos jovens (até aos 25 anos) inquiridos apresentavam sintomas de dependência do mundo digital. E, destes, 13% exibiam níveis severos de dependência. Em casos extremos, o vício online pode implicar isolamento, comportamentos violentos e até exigir tratamento. Coordenado por Ivone Patrão, este trabalho passou por três fases de aplicação de questionários a cerca de 900 adolescentes e jovens dos 14 aos 25 anos.

O núcleo do Hospital de Santa Maria cobre escolas da zona, como as secundárias Virgílio Ferreirade Benfica e a Gomes Ferreira, exemplifica Daniel Sampaio. Mas quem se enquadra, afinal, neste tipo de definição? “São pessoas que não fazem mais nada, [estão viciadas] sobretudo em jogos online. Chegam a faltar às aulas, não cumprem os seus compromissos”, sintetiza, sublinhando que este comportamento está habitualmente “associado a ansiedade e a depressão” e que a adição surge muitas vezes como uma espécie de “tranquilizante”.

Na DSM 5 (que é de 2013), apesar a única dependência comportamental incluída ser o “o jogo patológico”, a Internet gaming disorder (perturbação de jogo na Internet) aparece já no apêndice das entidades que se reconhece precisarem de mais investigação. Mas o problema é mais lato, estendendo-se às novas tecnologias em geral.   Não deitem fora agenda em papel “Isto está em estudo há muito tempo”, frisa Daniel Sampaio, que lembra que estão a ser feitos trabalhos de campo para se perceber o uso excessivo da Net preenche ou não os critérios para ser considerado uma perturbação psiquiátrica. O que se pode dizer, por enquanto, é que o problema “existe e é preocupante”, enfatiza.  Mas não se sabe ainda se vale a pena elencá-la como uma perturbação independente por si mesma. Classificar como doença situações que podem ser apenas problemas de comportamento pode ser complicado, alerta.

“A maior parte das pessoas, mesmo que faça uso da tecnologia durante horas excessivas, ainda não o entende como uma adição”, sustenta Alexandra Rosa, que é psicóloga da saúde no Hospital dos Lusíadas e chama a atenção para outro problema relacionado com este: o da utilização constante de iPhones ou de agendas electrónicas, que pode acabar por prejudicar a memória. “Com os iPhone as pessoas deixam, por exemplo, de decorar datas de aniversário”.

A psicóloga até já se acostumou a recomendar aos seus doentes a não deitarem fora a velha agenda de papel. “A visualização e o treino de outros aspectos da memória são muito importantes, até porque a tecnologia também falha”, frisa.

Sobre o uso excessivo da Internet em geral, Alexandra Rosa lembra que está a ser tudo muito rápido: “No espaço de 15 anos, ficamos habituados ao contacto permanente, e agora sentimos ansiedade quando tememos ficar desligados do mundo”. O que defende é que a diferença entre o que será normal ou patológico deve ser ponderada em função da utilização que é feita da tecnologia. “Quando a pessoa deixa de ter padrões relacionais, quando prejudica o seu trabalho, o seu sono e até a sua alimentação, isso já é motivo de preocupação”, considera.

“Pode haver dependência de tudo e mais alguma coisa”, defende o coordenador nacional para a saúde mental, o psiquiatra Álvaro Carvalho, para quem nem todo o tipo de comportamentos excessivos deve ser entendido como patológico. “Isso depende de o uso da Internet poder ou não ser altamente pernicioso para o desenvolvimento, contribuir para desarranjar a vida, como acontece com a dependência do jogo”, compara.

“Face a uma  prevalência muito elevada, e no caso de pessoas que não vivem para outra coisa, estão sempre ligados à Net”, isto deve ser encarado como um motivo de preocupação, reconhece. Mas alerta que a DSM 5 “teve uma grande influência da indústria farmacêutica” e que esta perversidade até foi “denunciada pelo coordenador” da anterior versão do manual. O que Álvaro Carvalho teme é que “a psiquiatrização de comportamentos” seja usada para aumentar “a prescrição de medicamentos”.

O que se pode fazer nos casos extremos de dependência, então? É preciso que haja “um diagnóstico precoce e uma tentativa de reeducação”, nomeadamente através de “intervenção psicoterapêutica”, preconiza. Mas reconhece que existem “poucas respostas” deste tipo no Serviço Nacional de Saúde.

 

 

 

Mãe, não aguento mais

Maio 16, 2014 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Expresso de 10 de maio de 2014.

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Crianças devem manter-se longe dos tablets e smartphones

Março 25, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site crescer.sapo.pt de 17 de março de 2014.

A notícia citada na notícia é a seguinte (contém links para os estudos):

10 Reasons Why Handheld Devices Should Be Banned for Children Under the Age of 12

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Pediatras norte-americanos dão 10 razões para crianças e jovens, até aos 18 anos, adiarem ao máximo o uso intensivo destes aparelhos.

A Academia de pediatras norte-americana Kaiser Foundation, e a sociedade de pediatria canadiana Active Healthy Kids Canada, foram citadas este mês pela terapeuta ocupacional de pediatria Cris Rowan, num artigo publicado no Huffington Post. Neste artigo, podia ler-se que as crianças até aos 2 anos não devem ser expostas a equipamentos eletrónicos; que as crianças entre os 3 e os 5 anos já o podem fazer, mas apenas uma hora por dia; e que as crianças entre os 6 e os 18 anos devem restringir o uso de telemóveis, tablets ou jogos eletrónicos, a apenas duas horas por dia.

Quanto às razões concretas para justificar estes conselhos, elas são 10:

1. Rápido crescimento do cérebro: Entre os 0 e os 2 anos, o cérebro das crianças triplica de tamanho e continua a ter um rápido crescimento até aos 21 anos. Quando esse desenvolvimento é causado pela exposição excessiva à tecnologias, pode gerar défice de atenção, atrasos cognitivos, aprendizagem deficiente, aumento da impulsividade e diminuição do autocontrolo.

2. Atraso no desenvolvimento: A tecnologia restringe os movimentos, o que pode resultar num atraso de desenvolvimento físico das crianças, o que muitas vezes se reflete num desempenho escolar negativo.

3. Obesidade: A televisão e os vídeo-jogos estão associados ao aumento da obesidade. As crianças que têm um destes equipamentos no quarto, têm 30% mais hipóteses de sofrer de obesidade e todas as doenças que lhe estão associadas, como a diabetes. Por sua vez, uma pessoa obesa tem mais probabilidades de vir a sofrer de ataque cardíaco, enfarte e tem uma menor esperança de vida.

4. Privação do sono: 75% das crianças, entre os 9 e os 10 anos, que usam tecnologias nos seus quartos, sofrem de privação de sono e isso acaba por se refletir negativamente nas suas notas escolares.

5. Distúrbios mentais: O uso excessivo de tecnologia está relacionado com o aumento de casos de depressão infantil, ansiedade, dificuldades de relacionamento, défice de atenção, autismo, transtorno bipolar, psicose e problemas de comportamento.
6. Agressividade: Conteúdos violentos podem gerar crianças agressivas. As crianças estão cada vez mais expostas a conteúdos que envolvem violência física e sexual nos media. Nos E.U.A., a violência exibida nos media é já classificada como um Risco para a Saúde Pública, devido à relação que foi estabelecida entre esta realidade e a agressividade infantil.
7. Demência digital: Conteúdos rápidos podem contribuir para défice de atenção, assim como para uma diminuição da concentração e memória. As crianças que não conseguem prestar atenção a algo, não aprendem.
8. Dependência: Ao haver tanta tecnologia ao alcance das crianças, os pais acabam por lhes prestar menos atenção. Por sua vez, na ausência dos pais, as crianças ficam ainda mais “agarradas” à tecnologia e isto pode gerar dependência. Uma em cada 11 crianças, dos 8 aos18 anos, é viciada em tecnologia.
9. Emissões radioativas: Em maio de 2011, a World Health Organization classificou os telefones móveis na categoria 2B (possivelmente cancerígenos) no que diz respeito às radiações. Tendo em conta estes dados, e que o cérebro das crianças ainda está em desenvolvimento, os riscos para as crianças podem ser ainda maiores.
10. Insustentável: As crianças são o futuro, mas não há futuro se as crianças continuarem a usar excessivamente a tecnologia. Os responsáveis por este estudo consideram de extrema importância que algo seja feito para reduzir o uso das tecnologias por parte das crianças.

Fonte: Huffington Post

 

Na China, há uma geração crescente de “crianças deixadas para trás”

Janeiro 14, 2014 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 10 de janeiro de 2014.

William Wan The Washington Post

Beibei vive com a avó na aldeia onde o seu pai nasceu William Wan The Washington Post

William Wan

Peritos chineses alertam para problemas emocionais e psicológicos das crianças que crescem longe dos pais. Wu Hongwei e Wang Yuan viveram os primeiros anos da vida da sua filha longe dela e já se arrependeram. Em Fevereiro, prometem, a família estará unida.

Os fregueses de uma barbearia da cidade de Jianba, no Sul da China, encontraram-na recentemente fechada, com uma nota curiosa na porta. “Caros clientes, recebi um telefonema da minha filha ontem. Estou há tanto tempo longe que ela já nem sabe chamar-me ‘Papá’. Peço-vos uma semana fora para visitar a minha família”.

O recado, fotografado por um transeunte, foi postado na rede social chinesa equivalente ao Twitter e tornou-se rapidamente viral. Reflecte a crescente ansiedade do país em relação às “crianças deixadas para trás”.

Mais de 61 milhões de crianças – um quinto das crianças da China – vive em aldeias longe dos pais. A maioria descende de camponeses que afluíram às cidades, numa das maiores vagas migratórias da história da Humanidade.

Durante três décadas, a mão-de-obra barata dos migrantes ajudou ao crescimento da máquina económica gigante que é a China. Mas os trabalhadores nas cidades são de tal maneira esmagados com custos elevados e com longas horas de trabalho que muitos mandam os filhos para o campo viver com familiares mais velhos.

O barbeiro da nota pendurada na porta, Wu Hongwei, e a mulher deixaram a filha, então de nove meses, com os avós numa aldeia remota. O casal pensara, na altura, que a distância de 550 quilómetros não seria uma barreira.

Telefonavam todos os dias e diziam à criança “A mamã ama-te” e “O papá tem saudades tuas”. Colaram fotos deles pelas paredes de cimento do quarto dela na casa dos avós. Mas, quase dois anos depois, chegaram a uma conclusão gritante: “Somos completos estranhos para ela”, disse Wu.

Wu, de 24 anos, deixou a pequena aldeia de Zhaishi nas montanhas escarpadas da província de Hunan há oito anos. Ter ficado significaria trabalho de quebrar as costas por apenas três dólares por dia (2,20 euros) – e era quando houvesse trabalho. O jovem, alto e esguio, comprou um bilhete de autocarro para a cidade de Zhangzhou, onde tinha um tio que o levou para uma formação de barbeiro não-remunerada. Wu mudou-se depois para Zhuzhou, onde conseguiu um emprego por 500 dólares (367 euros) por mês.

O nascimento de Beibei
Foi nesta cidade que Wu conheceu Wang Yuan, uma mulher de gargalhada contagiante. Os amigos de Wang tratavam-na por “Baozi”, ou pãozinho, por causa das bochechas rechonchudas. O barbeiro cortejou-a com a sua guitarra e músicas populares. Por um tempo, a vida na cidade parecia cheia de possibilidades para os recém-casados. A filha, Beibei, nasceu em 2011.

Para tomar conta da filha, Wang, de 33 anos, largou o emprego de vendedora de telemóveis. O marido trabalhava horas extraordinárias, cortando cabelo desde manhã até às 11 da noite.

A princípio, as coisas resultaram. Pagavam pela casa uma renda mensal de 100 dólares. Tal como muitos trabalhadores migrantes, Wu tinha também de ajudar os pais aldeãos: 170 dólares iam mensalmente para eles.

Mas o bebé foi entretanto desmamado e precisava de leite em pó – um produto caro na China, onde os pais suspeitam das marcas locais baratas, muitas vezes adulteradas. Isso acontecia mesmo com marcas de qualidade média vendidas por pelo menos 100 dólares por mês, um quinto do rendimento mensal do casal. “Não tínhamos escolha. Precisávamos ambos de trabalhar”, disse Wang, cujos pais estavam demasiado doentes para poderem ajudar.

Então, em Maio de 2012, o casal viajou para a aldeia de Wu – uma esgotante viagem de 14 horas de autocarro, dois comboios e motorizada –, e entregaram o bebé aos cuidados dos pais dele.

Parecia uma solução óbvia. Quase todos os jovens casais da aldeia de Wu tinham feito o mesmo, de modo a poderem ter os seus empregos nas cidades. Isso até permitiu a Wu e a Wang porem algum dinheiro de parte para o seu sonho de terem a sua própria barbearia.

O casal confortava-se com a ideia de que Beibei estaria melhor no campo. “Não queremos que ela suporte a pressão da vida na cidade, que pense sempre em coisas materiais”, disse Wang. “Queremos que seja feliz”.

Os primeiros meses foram martirizantes. “Eu dormia agarrada aos pequenos objectos dela que tinham ficado”, disse Wang. “Chorava constantemente”. O marido, um homem tranquilo, concentrou-se no trabalho e nos cortes cabelo a 2,45 dólares cada, de modo a poder enviar dinheiro para casa.

Visita à aldeia
Três meses depois de terem entregue a filha aos avós, o casal regressou à aldeia, ansioso pela visita. Assim que entraram em casa, Beibei escondeu-se deles. “De cada vez que tentávamos abraçá-la, ela gritava pela avó e agarrava-se a ela”, recordou Wang. A dada altura, o casal perguntou à filha onde estavam a mãe e o pai. Ela correu para as fotos na parede, não para eles.

Com os avós à volta, Beibei era uma criança brincalhona, que crescera calma e levava muitos dos seus dias a cantar para as montanhas. Não entendia o chinês que a mãe falava, porque aprendera o dialecto étnico da aldeia. E a mãe não entendia as poucas palavras que a menina dizia. “Ela ama acima de tudo a avó”, disse Wang, que se tem esforçado por não sentir inveja por isso. “Quando se magoa, é para a avó que ela corre”.

Durante a viagem, o casal comprou numa cidade próxima brinquedos e pãezinhos doces para conseguir a atenção de Beibei. Para pegar na filha, o casal esperou que a avó a adormecesse com uma canção de embalar, depois meteram-se sorrateiramente na cama, a avó tirou os braços com que a abraçava e eles rodearam-na com os seus. “Aquelas poucas horas de noite”, disse Wang, “foram preciosas”.

No final da segunda visita, em Dezembro último, tinham finalmente ensinado a filha a dizer “mãe” e “pai”. “Mas a forma como diz ‘mamã’ não é mais do que um nome para ela”, disse Wang recentemente. “Há alguém chamado ‘mamã’, mas isso não tem significado”. Um dia no Outono passado, os avós de Beibei telefonaram para contar que alguns parentes – um casal recém-casado – tinham-lhes feito uma visita e levado brinquedos para Beibei. Quando a criança viu o jovem casal com brinquedos e guloseimas, chamou-lhes “mãe” e “pai”. “Custou-nos profundamente”, disse Wang.

Wu e a mulher tinham finalmente posto de parte dinheiro suficiente para abrir uma barbearia num pequeno espaço, mas, quando ouviram a história, decidiram ir à aldeia. De partida, afixaram apressadamente a nota na porta. Muitos dos que a viram online deixaram comentários lamentando a natureza brutal da economia moderna da China. “As pessoas têm pago demasiado para conseguirem viver”, dizia um. “Saltam-me as lágrimas porque me revejo neles os dois”, dizia outro.

Nos últimos anos, o fenómeno das “crianças deixadas para trás” tem suscitado crescente atenção. Os peritos chineses alertam para problemas emocionais e psicológicos das crianças que crescem longe dos pais. São crianças que têm muitas vezes piores notas na escola e estudos sugerem que desenvolvem tendências crescentes de suicídio e abuso de álcool.

Mas, nas cidades, as crianças migrantes enfrentam problemas também: é-lhes muitas vezes vedado o acesso às escolas e aos cuidados médicos do sistema público, a não ser que os pais tenham autorizações de residência. E amiúde as populações urbanas discriminam as famílias rurais, considerando-as grosseiras e sem educação.

O que é ser mãe
“O campo tem sido bom para a Beibei”, disse recentemente a avó, Yang Peiyun, de 51 anos. “A comida aqui é limpa e o ar não é poluído, como o da cidade”. Mas acrescentou: “Não há futuro para ela na aldeia. Não há nada, a não ser montanhas”.

Por altura da chegada do Inverno, o casal pediu à avó da Beibei que a trouxesse até à cidade. À medida que a menina subia os degraus do apartamento, segurando a mão do pai, franziu a sobrancelha e perguntou: “De quem é esta casa?” “É a casa da Beibei”, responderam-lhe os pais, mas ela abanou a cabeça. Nessa noite, quando Wang tentou deitar-se com ela, Beibei recusou. A correr para a avó, gritava: “Não quero a mãe”.

Recordando-se destas palavras no dia seguinte, Wang limpava as lágrimas, à porta da barbearia. “Quero tanto ensinar-lhe o significado real de uma mãe”, disse ela. “Mãe é quem nos dá à luz. É quem nos ensina a andar, a falar e a cantar. A mãe é quem nos cria. É a pessoa mais próxima de nós”.

Wang e Wu decidiram então trazer a filha para a cidade e ficar a viver com eles. Ainda não sabem como vão ultrapassar todas as dificuldades financeiras que o plano comporta, mas já têm uma data-limite: o início de Fevereiro, depois do Novo Ano chinês. “Já perdemos muitas coisas, como os primeiros passos dela, as primeiras palavras”, disse Wang. “Mas ainda é pequena. Não é tarde para ela aprender o que significa verdadeiramente ter uma mãe”.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

Há falhas na intervenção terapêutica junto dos agressores acompanhados pela justiça juvenil

Novembro 29, 2013 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 28 de Novembro de 2013.

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Andreia Sanches

Nove em cada dez têm perturbação psiquiátrica e 31% consomem substâncias, revela estudo.

Aos 16 anos, pouco mais, muitos acumulam duas, três, quatro psicopatologias distintas — perturbações de comportamento, de personalidade, de défice de atenção. Em 31% dos casos o consumo de substâncias está presente. Por serem menores e terem cometido actos graves, qualificados na lei como crime, estão internados em centros educativos ou são regularmente acompanhados por um técnico da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP). É o retrato da saúde mental destes jovens que é feito num estudo que foi apresentado nesta quinta-feira, em Lisboa.

Mais de nove em cada dez dos que foram entrevistados têm pelo menos uma perturbação psiquiátrica, “o que é um dado astronómico”, diz Daniel Rijo, professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, um dos autores do trabalho que integra o PAIPA — Programa de Avaliação e Intervenção Psicoterapêutica no âmbito da Justiça Juvenil, promovido pela DGRSP e cofinanciado pela Comissão Europeia. Isto não significa, contudo, que estes jovens, que o Estado tenta reeducar, estejam necessariamente a ser alvo de um tratamento psicoterapêutico profundo e regular, continua.

Em 85% da amostra — um total de 217 rapazes — a perturbação principal diagnosticada é uma das chamadas perturbações disruptivas do comportamento. “O que quer dizer que é uma perturbação grave, em que o comportamento do sujeito está tão desregulado que ele se mostra emocionalmente instável, impulsivo, sem pensar muito bem nas consequências do que faz, sendo capaz de ser agressivo, sem grande censura e sem grande auto-controlo.”

Mais: “Metade dos jovens têm mais do que um diagnóstico diferente de perturbação, são indivíduos em grande sofrimento e altamente perturbados.”

Na abertura do seminário destinado a debater os resultados do projecto PAIPA, no ISCTE, o director-geral de Reinserção e Serviços Prisionais, Rui Sá Gomes, apresentou a questão, da seguinte forma: são jovens cujas “vulnerabilidades são muito mais vastas do que aquelas de que se fala habitualmente — económicas, sociais, etc…”

Contudo, o sistema nacional de saúde não tem capacidade de resposta, há listas de espera para consultas e não há consenso sobre o próprio modelo de intervenção, foi referido no seminário. “O combate à delinquência juvenil tem de ser feito em parceria entre as autoridades judiciárias e o Serviço Nacional de Saúde. Caso contrário, nunca haverá resultados positivos”, dizia, no início desta semana, Licínio Lima, o subdirector da DGRSP, em declarações à Lusa.

Segundo Daniel Rijo, “os miúdos de alguns centros educativos, próximos de zonas urbanas com mais recursos, como Lisboa, Porto, Coimbra, podem ter acesso a uma intervenção na saúde mental, mas, noutras zonas, é mais difícil consegui-lo” — “Estes miúdos são vistos pela psiquiatria, pela pedopsiquiatria, mas depois não há intervenção psicoterapêutica. Ou seja, não há a continuidade nem a intensidade do acompanhamento que devia haver.”

“Na justiça juvenil, já temos uma intervenção altamente especializada ao nível da educação”, prossegue. “Os centros educativos têm currículos alternativos, cursos adequados, uma componente de formação profissional muito desenvolvida. Falta-nos agora uma intervenção mais forte, mais intensa e mais generalizada da parte da saúde mental.”

Em Setembro, segundo a DGRSP, havia dez centros educativos e 271 jovens internados em regime aberto, semiaberto ou fechado (a Lei Tutelar Educativa prevê que a medida de internamento, decretada pelos tribunais, possa ser executada em diferentes regimes, conforme o caso).

Daniel Rijo diz que “não basta agir só porque o miúdo cometeu um acto com relevância do ponto de vista do sistema de justiça juvenil”. “Há uma necessidade de melhoria do seu funcionamento, a todos os níveis. Por isso é que estes miúdos têm tantos problemas aditivos e de consumo de substâncias, abandono escolar precoce, baixa escolaridade. Falharam muitas coisas na vida destes miúdos, não foi apenas o facto de terem cometido um crime.”

Não esperar pela prisão
De acordo com o estudo feito para o PAIPA, muitos jovens intervencionados acumulam retenções na escola (três em média) e provêm (em 81% dos casos) de classes socioeconómicas baixas. A maioria (77,9%) cometeu crimes contra pessoas.

Com a idade, as perturbações tendem a aumentar. “E quase 50% dos jovens do subgrupo dos que têm 18 anos ou mais já têm uma perturbação anti-social da personalidade, o que significa que já houve uma evolução de uma perturbação de conduta para uma perturbação mais grave e mais difícil de mudar.”

O ideal, é que a intervenção psicoterapêutica se faça o mais cedo possível. “E não estarmos à espera de que eles vão parar à prisão mais tarde para uma intervenção que será progressivamente mais difícil e custosa.”
O estudo A prevalência das perturbações mentais em jovens agressores intervencionados pelo Sistema de Justiça Juvenil Português abrangeu 217 rapazes que foram alvo das duas mais graves medidas tutelares previstas na lei, o internamento e o acompanhamento educativo.

Para além do estudo, a equipa testou um modelo de intervenção psicoterapêutica, que foi ensaiado em 12 sessões, com 17 miúdos, feitas por psicólogos da Universidade de Coimbra e da DGRSP.

Daniel Rijo diz que os primeiros resultados são positivos. “Houve mudança clínica significativa” em 50% a 60% dos casos.

“Actualmente, não há nenhuma definição oficial que permita à priori dizer: é este tipo de intervenção que se deve ter com os miúdos. Nem há um consenso, mesmo entre a comunidade científica, sobre um modelo. Devia haver e há organizações internacionais que estão a fazer alguma pressão no sentido de propor guidelines para a intervenção. Neste momento, cada serviço que está em colaboração com cada centro educativo faz um bocadinho o que entende e sabe fazer. Mas em Portugal não temos muitos serviços especializados para trabalhar com adolescentes com perturbação”, remata o professor universitário.

 

 

Bullying na infância e na adolescência tem efeitos na vida adulta

Setembro 4, 2013 às 12:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia do site crescer.sapo.pt de 19 de Agosto de 2013.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Impact of Bullying in Childhood on Adult Health, Wealth, Crime, and Social Outcomes

Novo estudo mostra que adultos expostos ao «bullying» durante a infância têm maior probabilidade de desenvolver distúrbios psicológicos.

Há muito que se reconheceu que o bullying numa idade jovem representa um problema para as escolas, para os pais e para os formuladores de políticas públicas. Embora as crianças passem mais tempo com os seus pares do que os pais, há relativamente poucos estudos publicados sobre a compreensão do impacto dessas interações na vida para além da escola.

Os resultados de um novo estudo, publicado na revista Psychological Science, da Associação para a Ciência Psicológica, destaca a medida em que o risco de problemas relacionados com a saúde, a pobreza e as relações sociais é agravado pela exposição ao bullying. O estudo leva em consideração muitos fatores que vão além de resultados relacionados com a saúde.

Dieter Wolke, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e William E. Copeland, do Centro Médico da Universidade de Duke, nos Estados Unidos da América, olharam para além do estudo das vítimas e investigaram o impacto sobre todos os afetados: as vítimas, os próprios agressores e aqueles que se enquadram em ambas as categorias, as chamadas «vítimas-bullies».

«Não podemos continuar a ignorar o bullying como sendo uma parte inofensiva, quase inevitável, do crescimento», diz Dieter Wolke. «Precisamos de mudar esta mentalidade e reconhecer o bullying como um problema sério tanto para o indivíduo como para o país, já que os efeitos são duradouros e significativos.»

As « vítimas-bullies» apresentam um maior risco de problemas de saúde na idade adulta, com uma probabilidade seis vezes mais elevada de serem diagnosticados com uma doença grave, de serem fumadores regulares ou de desenvolverem um distúrbio psicológico quando comparadas com adultos que nunca se viram envolvidos em episódios de bullying.

Os resultados mostram que as «vítimas-bullies» são talvez o grupo mais vulnerável de todos. Este grupo pode virar-se para o bullying depois de ser intimidado, uma vez que pode não ter a regulação emocional ou o apoio necessário para lidar com o bullying.

«No caso das “vítimas-bullies”, o estudo mostra como o bullying pode alastrar-se quando não é tratado», acrescenta o investigador. «Algumas intervenções já estão disponíveis nas escolas, mas são necessárias novas ferramentas para ajudar os profissionais de saúde a identificar, monitorizar e lidar com os maus efeitos do bullying. O desafio que enfrentamos agora é aplicarmos tempo e recursos a tais intervenções para tentar colocar um fim ao assédio moral.»

Maria João Pratt

 

 

Crianças com puberdade precoce tendem a ter mais problemas mentais

Abril 10, 2013 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TVI 24 de 3 de Abril de 2013.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Early Puberty and Childhood Social and Behavioral Adjustment

Notícia original do Murdoch Childrens Research Institute

Early poor mental health link to early puberty

Conclusão é de um estudo realizado pelo Instituto de Investigação Infantil Murdoch de Melbourne, na Austrália

Por: tvi24

As crianças com puberdade precoce tendem a ter mais problemas mentais que as outras e enfrentam uma «dupla desvantagem» ao anteciparem o período de «vulnerabilidade emociona» dos adolescentes. A conclusão é de um estudo divulgado esta quarta-feira na Austrália.

O trabalho, realizado pelo Instituto de Investigação Infantil Murdoch de Melbourne, foi publicado na «Revista da Saúde do Adolescente e é o primeiro estudo deste tipo», de acordo com a agência noticiosa espanhola EFE.

O estudo assinala que as crianças com puberdade precoce avançam muito menos «em termos do seu mundo emocional» que as outras da mesma idade, indicou George Patton, um dos investigadores.

Além disso, têm uma maior taxa de problemas mentais, sobretudo as raparigas que atingem a puberdade entre os oito e os nove anos, adiantou.

A investigação revelou ainda que rapazes e raparigas com puberdade precoce têm os mesmos problemas psicossociais, mas que os primeiros têm também mais problemas de comportamento que os seus pares.

Os problemas sociais, emocionais e de conduta são comuns durante a puberdade e incluem a ansiedade, a depressão, a agressividade e a tendência para o abuso de substâncias psicoativas.

Em caso de puberdade precoce a vulnerabilidade aquele tipo de problemas é antecipada, segundo o estudo realizado entre 3.500 menores australianos.

Dados históricos indicam que a idade média do início da puberdade nas mulheres passou dos 17 para os 13 anos entre 1830 e 1960, uma variação que os especialistas atribuem a uma melhor nutrição e a um índice de massa corporal mais elevado.

No entanto, desde 1960 já se registou outra queda, disse George Patton, defendendo que as crianças com puberdade precoce necessitam de maior ajuda para ultrapassarem este período difícil das suas vidas.

Physical Punishment in Childhood Tied to Mental Disorders

Agosto 2, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da PsychCentral de 5 de Julho de 2012.

O artigo mencionado na notícia é o seguinte:

Physical Punishment and Mental Disorders: Results From a Nationally Representative US Sample

Foto da PsychCentral

Foto da PsychCentral

By Traci PedersenAssociate News Editor
Reviewed by John M. Grohol, Psy.D. on July 5, 2012

Individuals who are physically punished are at greater risk of developing a mental disorder, such as anxiety, depression or another personality disorder, according to researchers at the University of Manitoba in Canada.

Approximately two to seven percent of mental disorders in the study were tied to physical punishment.

Lead study author Tracie Afifi, Ph.D., evaluated data from a government survey of 35,000 non-institutionalized adults in the United States, taken between 2004 and 2005. Almost 1,300 of the participants (all over the age of 20) had experienced some form of physical punishment throughout their childhood.

Many of these reported they had been pushed, slapped, grabbed, shoved or hit by their parents or adult living in the house. Six percent of these respondents said their punishment may have been more than just spanking either “sometimes,” “fairly often” or “very often.”

Individuals who suffered a harsh physical punishment were more likely to have a range of mood and personality disorders or abuse to drug and alcohol.

Almost 20 percent of those who remembered being physically punished had suffered depression, and 43 percent had abused alcohol at some point in their life. This is compared to 16 percent of people who were not hit or slapped who complained of having suffered depressed and 30 percent who abused alcohol.

Afifi and her team were sure to not include those who have reported being physically, sexually or emotionally abused. Afifi also took into consideration those parents or legal guardians who had been treated for mental illness, race, income and level of education.

Although some experts are against physical punishment, others believe it is fine in certain circumstances. Dr. Robert Larzelere, a psychologist from Oklahoma State University thinks that severe punishment is not appropriate, but for younger children spanking may be suitable as long as the child views the spanking as a motivational tool for their behavior and overall good.

Although the results cannot prove a direct correlation, the physical punishment may lead to chronic stress, which in turn could increase a child’s chance of developing depression or anxiety.

Knox suggests that parents choose other ways of punishment such as “time out” or using positive reinforcements as a reward for good behavior.

The study was published in the journal of Pediatrics.

Source: Journal of Pediatrics

Man abusing child photo by shutterstock.


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