Bicicleta e comida saudável fazem das crianças holandesas as menos obesas entre os países ricos

Agosto 13, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Menina anda de bicicleta entre os demais ciclistas de Amsterdã sem a supervisão dos pais (Foto: Mariana Timóteo da Costa/GloboNews)

Notícia e imagem do G1 Globo de 6 de julho de 2018.

Por Mariana Timóteo da Costa, GloboNews, Amsterdã, Haia e Roterdã

Só 7% das crianças holandesas de 11, 13 e 15 anos estão acima do peso; G1 publica série de reportagens sobre como a Holanda foi parar no topo dos países com as crianças mais felizes do mundo.

O percentual de crianças obesas na Holanda é o menor entre os países pesquisados pelo Unicef. Se nos EUA cerca de 30% das crianças de 11, 13 e 15 anos estão acima do peso, na Holanda o índice é 7%. Na França, outro país reconhecido pela alimentação saudável, o índice é 10%.

Apesar de o granulado de chocolate fazer parte de um lanche típico levado para as escolas, as crianças desde cedo fazem muito exercício porque andam para todo o canto de bicicleta. Além disso, iniciativas de prefeituras como a de Amsterdã vem reduzindo o consumo de açúcar e frituras nas escolas.

“Aos 6 anos já pedalava sozinha para a escola, aqui no bairro é tão tranquilo que nem precisamos de capacete, andamos sempre na ciclovia”, conta Ina Hutchison, hoje com 11, chegando de uma tarde no parque e no supermercado. “Vou sozinha, estaciono minha bike e faço as compras que minha mãe pediu.”

Desde quarta-feira (4), o G1 publica uma série de nove reportagens que investigam os fatores educacionais, econômicos e sociais por trás do sucesso holandês.

Mais bicicletas que pessoas

A Holanda tem 17 milhões de pessoas e 25 milhões de bicicletas. Ou seja, 1,3 bicicleta per capita. Na hora do rush em cidades grandes como Amsterdã, Roterdã e Haia, é comum ver mais bicicletas do que carros passando.

São mais de 35 mil quilômetros de ciclovias. Um holandês anda em média mil quilômetros por ano de bicicleta. E muitos desde cedo, como Ina Hutchison.

“A cultura da bicleta começa mesmo antes de as crianças aprenderem a andar, ou mesmo aprender a se movimentar com as pernas. Eu mesma só carrego ele aqui no bakfiet e ele adora”, diz a enóloga Agnes Demen, mãe de Jacob, de 1 ano.”

O bakfiet é uma estrutura de madeira que é colocada na bicicleta e usada para transportar crianças e compras de supermercado.

“É claro que o fato de as cidades serem planas e não termos problemas com segurança ajuda. Mas acho que é mais uma questão cultural mesmo. Aí a criança cresce e quer logo se deslocar de bicicleta”, acredita.

Agnes Demen transporta o filho Jacob na bakfiet, uma bicicleta adaptada para carregar crianças pequenas (Foto: Mariana Timóteo da Costa/GloboNews)

O granulado de chocolate levado de lanche, uma tradição holandesa, assim, não vira um vilão da alimentação.

Além do fato de as crianças fazerem muito exercício, prefeituras como a de Amsterdã iniciaram programas para estimular a alimentação saudável nas escolas. A Prefeitura parou de patrocinar eventos apoiados por marcas de fast-food e deu incentivo fiscais para escolas que, em suas lanchonetes, parassem de oferecer lanches processados ou com alto teor de açúcar.

O resultado foi uma redução de 12% do número de crianças obesas na cidade entre 2012 e 2015 – o que ocorreu especialmente no bairro de imigrantes.

“Aí foi um efeito cascata. Muitas escolas passaram a estimular apenas o consumo de água. Os pais começaram a mandar em vez de bolos para as festas de aniversário, frutas”, conta Leotien Peeters, da Fundação Bernard Van Leer, com sede na Holanda, dedicada à primeira infância, que advoca por mais saúde e bem-estar para crianças pequenas em vários países, incluindo no seu de origem.

Influência da nutrição na saúde

Uma das maiores cientistas da Holanda, Tessa Roseboom é professora de desenvolvimento infantil e saúde da Universidade de Amsterdã. Ela elogia as iniciativas da cidade ao perceber a influência da nutrição na saúde das crianças.

Autora de um estudo que provou que as doenças são influenciadas pela alimentação quando a criança ainda está no útero da mãe, ela diz que iniciativas como a de Amsterdã revertem tendências desses jovens terem doenças crônicas no futuro.

“Além disso permitirá que as crianças desenvolvam todo o seu potencial. A cidade de Amsterdã está se dando conta da importância de investir nesses primeiros anos da vida da criança”, afirma.

Outras cidades holandesas também programam atividades para promover vida saudável entre as crianças. Em Roterdã, é comum eventos como o que o G1 acompanhou, promovido pelas escolas públicas do bairro: uma caminhada de 5 km com a participação de cerca de 700 crianças e 400 pais.

“Adoro vir nessas caminhadas, faz nos sentirmos parte da comunidade e ainda fazem bem para a saúde”, diz a joalheira Diana Spierings, acompanhada do filho Jules e de um amigo.”

A empresária Nanja Totorla passeia animada com o filho Gianlucca, de 8. Logo, o menino dispara no meio da multidão.

“Já já ele volta, as crianças aqui são muito livres”, brinca.

 

 

O percentil do seu bebé não está na média? Calma, isso pode não ser um problema

Outubro 2, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 20 de setembro de 2017.

Investigadores portugueses criaram tabelas de percentis adequadas à realidade portuguesa. Objectivo é conseguir diagnósticos mais rigorosos e diminuir angústias dos pais

Mariana Correia Pinto

Se durante os nove meses de gravidez o bebé se afasta da média, se o crescimento ou o peso fetal é baixo, os progenitores ficam “muito angustiados”. A gravidez, nota o investigador Ricardo Santos, “é o único momento em que os pais desejam ter um filho padronizado em vez de especial”. E, às vezes, acumulam preocupações excessivas. Foi também por isso que uma equipa de investigadores do Cintesis (Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde) se debruçou na criação de curvas de referência de crescimento fetal e peso à nascença — vulgarmente conhecidas por tabelas de percentis — adaptadas à realidade portuguesa.

O estudo, publicado no European Journal of Obstetrics & Gynecology, vem introduzir três novas curvas de referência: uma para meninos, outra para meninas e uma terceira indiferenciada para os dois géneros. Todas têm em conta as características das mulheres portuguesas. Os médicos de família e obstetras já podem descarregar gratuitamente uma aplicação (disponível apenas para Android) com esses valores. E há também uma outra possibilidade ainda mais personalizada (já lá vamos).

Estas tabelas de percentis são essenciais no acompanhamento das gravidezes. Permitem aos obstetras e médicos de família estimarem o tempo de gravidez, a data prevista do parto e diagnosticarem eventuais problemas de desenvolvimento dos fetos, nomeadamente restrição do crescimento fetal ou macrossomia fetal (excesso de peso). Esta diagnose permite identificar sintomas de doenças na gravidez como a diabetes, a pré-eclampsia, doenças metabólicas ou genéticas.

O problema, sublinha o também obstetra no Hospital de Guimarães Ricardo Santos, é que estas tabelas são excessivamente padronizadas: “Há uma busca por um padrão global que na minha opinião não existe”, disse em conversa telefónica com o PÚBLICO.

É muito fácil uma grávida obter valores que ficam fora da curva e isso “causa-lhe grandes transtornos” — quando muitas vezes nem é um problema. Ricardo Santos exemplifica: uma mulher com 1,90 metros que já vá na terceira gravidez terá sempre uma curva diferente de uma mulher de 1,55 metros, com 45 quilos e mãe pela primeira vez.

O uso das curvas de crescimento fetal é generalizado — e algo “sobrevalorizado”. Sobretudo tendo em conta as “deficiências” de algumas tabelas internacionais utilizadas. Se estas não reflectirem a distribuição da população e as suas características físicas e clínicas podem conduzir os profissionais médicos ao “sobre ou subdiagnóstico de algumas doenças”.

Para conseguir diagnósticos mais exactos — e ajudar a diminuir a angústia dos pais —, a equipa de investigadores do Cintesis recolheu dados de mais de 660 mil nascimentos ocorridos em 22 instituições portuguesas, seleccionando dados de 62 mil recém-nascidos.

A amostra revelou, por exemplo, que o peso médio de um bebé português à nascença pode variar em mais de 150 gramas quando comparado com um recém-nascido do Reino Unido, Irlanda, Nova Zelândia ou Estados Unidos da América. E, por outro lado, se aproxima muito do peso dos bebés espanhóis e franceses.

Há vários factores que influenciam o crescimento fetal: o género (os rapazes são, regra geral, maiores), a etnia, a herança genética, o peso e altura da mãe, as doenças da progenitora, bem como o número de filhos tidos anteriormente, o consumo de álcool ou tabaco (fumar diminui aproximadamente 5% o peso do bebé às nascença). Até a altitude do local onde a mulher vive pode ter influência.

Por isso, “ter curvas de percentis fidedignas é fundamental”, aponta: “Tem de ser algo matematicamente fiável.” Com este estudo, a equipa do Cintesis espera “disseminar a importância destas tabelas” ao mesmo tempo que “desmistifica” o seu uso. “Um percentil de 10 pode não ser preocupante. Tem apenas de pôr a pulga atrás da orelha, deixar os médicos mais vigilantes”, diz.

Depois das curvas clássicas, os investigadores portugueses desenvolveram ainda um software — este não está disponível gratuitamente — que permite aos médicos criarem curvas de percentis de peso fetal e à nascença personalizadas, introduzindo valores de referência de uma grávida em particular.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Development of a birthweight standard and comparison with currently used standards. What is a 10th centile?

 

 

O que dizem os percentis

Agosto 4, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto da Pais & Filhos de 24 de julho de 2014.

pais & filhos

Escrito por Teresa Diogo

Está a crescer bem? As curvas de percentis são uma ferramenta fundamental para avaliar o desenvolvimento do bebé.
Mas é preciso saber interpretá-las para evitar preocupações desnecessárias.

 Existem poucas questões que preocupam tanto os pais no início de vida dos filhos como esta: “O meu bebé está a crescer bem?”. É aqui que começa a viagem pelo, até então, desconhecido mundo dos percentis. E quando os valores fogem da normalidade, sobretudo quando o percentil é muito baixo, começam as preocupações e, por vezes, uma certa obsessão. Quase sempre desnecessária. Até porque os bebés não são todos iguais, não crescem todos ao mesmo ritmo e podem parecer bastante diferentes dos filhos dos amigos e até dos irmãos quando tinham a mesma idade. E, ainda assim, são perfeitamente normais e saudáveis.

As curvas de percentis, incluídas nos boletins individuais de saúde, são ferramentas indispensáveis para os médicos, mas é preciso saber interpretá-las. Um percentil isolado tem muito pouco significado. “A avaliação antropométrica permite avaliar o crescimento e o estado de nutrição individual e populacional, e assim identificar os desvios da normalidade”, explica o pediatra António Guerra, referindo que “os parâmetros sistematicamente avaliados incluem o peso, o comprimento/estatura e o perímetro cefálico”. Mas, sublinha o especialista, “para além da avaliação daqueles parâmetros, importa interpretá-los corretamente”.

E é aqui que entram as curvas de percentis: “Permitem-nos confrontar os dados das nossas avaliações com os valores de referência”. Na realidade, não são mais do que valores estatísticos que nos dizem qual é a percentagem da população (com a mesma idade e do mesmo sexo) que tem um valor igual ou inferior. Por exemplo, dizer que um bebé de oito meses do sexo feminino está no percentil 75 de peso significa apenas que 75 por cento dos bebés daquela idade e daquele sexo têm um peso igual ou inferior ao dele (e que os restantes 25 por cento pesam mais do que ele).

Ou seja, “a cada idade (em meses ou anos) e sexo corresponde um valor de referência médio (percentil 50) em torno do qual se distribuem os valores das curvas de referência, que vão do valor superior máximo expresso nas tabelas (percentil 95 das curvas dos antigos boletins ou percentil 97 de acordo com as novas curvas da OMS, já incluídas nos novos boletins da saúde) ao valor mais baixo (percentil 5 ou percentil 3)”. Na prática, explica António Guerra, isto significa que “cerca de 95 por cento das crianças tem valores entre os dois percentis extremos.”

Assim, um bebé com um peso no percentil 10 não significa necessariamente que tem pouco peso, só porque está abaixo do percentil 50. Na prática, este valor significa apenas que 10 por cento dos bebés saudáveis com aquela idade tem um peso igual ou inferior ao daquele bebé. Da mesma forma, um bebé no percentil 90 não terá obrigatoriamente excesso de peso. Tudo depende da correlação com o percentil da altura.

“Um lactente com o peso no percentil 95 e uma estatura no mesmo percentil ou num percentil próximo (90 ou 97, por exemplo) não terá excesso de peso, ou seja, terá um índice de massa corporal dentro da normalidade”, explica António Guerra, referindo que ”se o comprimento/estatura estiver num percentil inferior, aí haverá já peso a mais para aquela estatura, que será tanto maior quanto menor o valor do percentil estatural”.

Queremos bebés “gordinhos”?

Pensar que o percentil 5 é pior do que o 50 ou que o 90 é melhor do que os outros é uma ideia errada já que, por si só, não significam nem que o bebé é excessivamente magro (no primeiro caso) nem que está mais desenvolvido que os outros (no segundo caso). Muitas vezes, esta descodificação dos valores não é explicada aos pais, acabando por gerar alguma ansiedade, sobretudo no que diz respeito ao percentil do peso. É frequente os pais preocuparem-se mais quando o percentil do peso é muito baixo, o que denota ainda a ideia de que um bebé “gordinho” é mais saudável do que um bebé magro.

“Espero que essa tendência, que admito ainda existir (já que são conceitos que vão passando de geração em geração), se vá modificando”, diz o pediatra, explicando que “se nos centrarmos no peso e no comprimento/estatura, será fácil compreender que há um peso ideal (dentro de uma certa margem de variabilidade) para cada estatura”. Ou seja, “se duas crianças da mesma idade tiverem estaturas diferentes, uma no percentil 10-25 e outra no percentil 90-97, esta última terá necessariamente um peso superior para que se mantenha a adequação do peso à estatura”.

Nos casos em que os dois parâmetros (peso e altura) se encontram em percentis diferentes, “é preferível que o percentil superior seja o da estatura, naturalmente desde que a relação peso/estatura se situe dentro da faixa da normalidade”. Ter um bebé “gordinho” “significa sempre um valor de peso num percentil superior ao da estatura, podendo mesmo significar já excesso de peso para a estatura”, alerta o pediatra.

Embora os pais se foquem mais nos percentis do peso e altura, há um terceiro parâmetro que é tão ou mais importante na avaliação do desenvolvimento do bebé: o perímetro cefálico.

“É um parâmetro somático fundamental já que traduz o crescimento do sistema nervoso central, que cresce no primeiro ano em termos dimensionais o que cresce nos 19 anos seguintes e que aumenta nos primeiros quatro meses de vida 50 por cento do que aumenta no primeiro ano”, explica António Guerra. Isto obriga a uma “monitorização muito cuidadosa do crescimento do perímetro cefálico no primeiro ano e, sobretudo, nos primeiros meses de vida, já que qualquer desvio da normalidade (crescimento insuficiente ou excessivo) deverá ser de imediato investigado e corrigido para que não resultem danos irreversíveis ao lactente”.

Desvios que preocupam

Da mesma forma, as alterações nas curvas dos percentis do peso e comprimento do bebé ajudam o médico a avaliar se existe algum desvio preocupante no seu crescimento e no estado de nutrição. Na maioria dos casos, as variações não têm grande significado até porque as crianças não se desenvolvem sempre ao mesmo ritmo.

“Quando se olha para as curvas de percentis verificamos que elas são muito perfeitas, alisadas, diria quase que traçadas a compasso. No entanto, as crianças na sua larga maioria não crescem com o mesmo perfil, ou seja, se unirmos os pontos de avaliação do peso e do comprimento/estatura de um lactente ou de uma criança assinalados nas tabelas, obteremos uma linha quebrada e não uma linha com o mesmo perfil das curvas de percentis”. Estas pequenas acelerações e desacelerações não significam que existe algum problema, “desde que a amplitude desses ‘saltos’ (para cima e para baixo) não seja considerada excessiva”, sublinha o pediatra. E esclarece: “Nunca será preocupante se essa amplitude não cruzar (para cima ou para baixo) um espaço correspondente ao intervalo entre dois percentis contíguos”.

O mais importante, acrescenta o pediatra, é que a linha de crescimento (em peso e comprimento) mantenha uma tendência “mais ou menos paralela às curvas de referência”, o que significa que existe um crescimento harmonioso e sem sobressaltos. Quando esta tendência revela alterações e, sobretudo, nos casos em que se verifica uma “aceleração ou desaceleração anormais”, então o médico “deverá investigar já que poderá haver uma situação de suprimento alimentar inadequado ou uma patologia subjacente”, nota ainda. Poderá existir, e por isso a situação deve ser bem avaliada, mas não significa que de facto exista. Porque cada criança tem o seu próprio ritmo de crescimento e uma herança genética que influencia as suas caraterísticas fisiológicas e que não deve ser desvalorizada. Por isso, mais importante do que se deixar influenciar por uma certa “ditadura” dos percentis, o melhor é não fazer comparações entre o seu bebé e os filhos dos seus amigos. Assim evitará certamente angústias e preocupações desnecessárias.

As novas curvas de crescimento

As curvas de crescimento que constam dos novos boletins de saúde infantil foram atualizadas no início de 2013 e traduzem, agora, um crescimento mais próximo do “ideal”. Em vez das anteriores tabelas, baseadas em valores de referência definidos nos Estados Unidos pelo Center for Disease Control and Prevention (CDC), a Direção-Geral da Saúde adotou as curvas propostas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). “Desde o final da década de 80 que a OMS vinha reconhecendo a inadequação das curvas norte-americanas, particularmente as referentes aos primeiros anos de vida, apelando à necessidade de se construírem novas curvas preferencialmente elaboradas com base em avaliações longitudinais e que traduzissem o perfil de crescimento de crianças nascidas e criadas em ambiente favorável”, explica António Guerra.

As novas curvas traduzem o “modo ideal de crescimento, já que foram construídas com base em populações que cresceram em ambiente favorável, de acordo com o seu potencial genético”. Entre esses fatores favoráveis ao crescimento “destaca-se, desde logo, a alimentação com leite materno exclusivo no primeiro semestre de vida e sua manutenção durante todo o período de diversificação alimentar até pelo menos ao ano de vida”.

As antigas tabelas foram definidas com base numa amostra de bebés alimentados com fórmulas lácteas, pelo que as curvas não eram as indicadas para avaliar da forma mais correta o crescimento de um bebé alimentado exclusivamente com leite materno.

”O perfil de crescimento é diferente nestes lactentes”, confirma o pediatra, sublinhando que “a composição corporal de lactentes alimentados exclusivamente ao peito também é diferente, no sentido de um claro benefício do ponto de vista somático e metabólico, com menor frequência de patologias a curto e longo prazo, como é o caso da obesidade e de doenças metabólicas e cardiovasculares”. As novas curvas são, assim, mais “rigorosas na identificação dos desvios da normalidade”.

 

 

 

 

A “neurose” dos percentis

Outubro 14, 2012 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro no Público de 7 de Outubro de 2012.

Ao contrário do que alguns pensam, crescer no percentil 10 não quer dizer que cresce apenas 10% do que se deve. As curvas de percentis são médias de medições rigorosas de milhares de crianças, em várias idades, que definem vários pontos.

Não se trata de um “filme” da evolução de várias crianças, mas mais de “fotografias paradas” de uma série de crianças, nascidas, portanto, com um intervalo de 18 anos, em que muita coisa acontece. Por outro lado, as curvas são elaboradas a partir de dados de populações que mudam com o tempo, sobretudo em países como o nosso, com rápida evolução socioeconómica. Acresce que, para elaborar uma tabela, é preciso milhares de medições, muito rigorosas, e, na minha opinião, atendendo ao que se espera das curvas, gastar uma enormidade para ter, por exemplo, uma curva “portuguesa”, que rapidamente se desactualizaria, parece-me um perfeito desperdício e uma inutilidade. Claro que isto não quer dizer que não se actualizem adaptando curvas de outros países que possam espelhar melhor a nossa realidade, não esquecendo, todavia, as grandes transformações que, por exemplo, os fenómenos migratórios vieram dar ao nosso país.

Daí ter que se dar aos percentis o seu devido lugar. Sendo um instrumento importante, não é correcto descer ao pormenor do “percentil 14 ou 15”. O que interessa é que uma criança tenha curvas equilibradas, quer na evolução com o tempo, quer entre as várias curvas (peso, estatura e perímetro cefálico), salvaguardando algumas acelerações e desacelerações dos primeiros doze meses, que podem ter a ver com o ajustamento do tamanho intra-uterino ao verdadeiro tamanho genético, bem como naturais discrepâncias de quem é leve ou pesado, “cabeçudo” ou não, mas tudo dentro da normal variação do ser humano.

A Maria estar na curva 25 dos percentis significa apenas que, dispondo cem crianças da mesma idade e sexo, por ordem, a Maria teria 75 mais pesadas e 24 mais leves. O Manel estar no percentil 90 de altura significará que tem apenas 10 à sua frente nessa disposição e 89 atrás. Apenas isto, tal e qual acontece à população geral.

O mesmo se passa com os outros parâmetros biológicos: tensão arterial, temperatura, etc. Qualquer fenómeno biológico pode ser medido em termos de percentis. É apenas isto.

O que interessa, pois, é saber o seguinte:

– os vários percentis do bebé estão mais ou menos em sintonia? Ou seja, especialmente o peso e a estatura estão equivalentes (embora possa haver pessoas mais pesadas sem serem gordas e pessoas mais leves sem serem magras)?;

– o bebé tem tido uma evolução regular, sem se desviar rapidamente em muitos degraus da escala? O cruzamento de curvas de percentis só tem significado se for muito rápido e apenas num parâmetro, ou se for muito grande. Caso contrário, pode ser apenas um “acerto”, de que se falará mais adiante;

– o percentil do bebé está acima do 95 ou abaixo do 5? Quando assim é, ainda estamos na normalidade, mas acima do 97 e abaixo do 3 (que as nossas curvas não contemplam) a probabilidade de poder existir uma doença é maior, embora ainda minoritária (mas, atenção, estamos a falar de probabilidade e não de certeza, e a maioria das crianças nessas faixas serão ainda completamente normais!).

Acertar percentis “para cima” significa que o bebé está a subir, de modo uniforme, nas várias curvas de percentis, provavelmente porque, por razões da sua estadia intra-uterina, terá nascido mais pequeno do que o seu real tamanho determinado pela genética. Embora represente a mesma coisa que acertar “para baixo”, causa menos problemas aos pais porque quando o objectivo é crescer, “decrescer” no que quer que seja, relacionado com o crescimento, é sempre fonte de preocupação e gera ansiedade, mesmo que o facto seja fisiológico e normal. Nem sempre o tamanho resultante da vida intra-uterina coincide, pois, com o tamanho real, e o acerto far-se-á nos primeiros meses de vida, podendo ir até ao ano, ano e meio.

 

Portugal vai adoptar novas curvas de crescimento para bebés e crianças

Outubro 13, 2012 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de Outubro de 2012.

Por Andrea Cunha Freitas

A “tabela dos percentis” que está em todos os boletins de saúde individuais vai mudar. O Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil prevê a adopção das curvas de crescimento propostas pela Organização Mundial de Saúde.

Os bebés nascidos em 2013 em Portugal vão receber uma nova versão dos boletins individuais de saúde. Entre outras alterações, o caderno azul ou cor-de-rosa será diferente nas páginas reservadas para as “tabelas de percentis” que servem de referência para monitorizar o desenvolvimento de bebés, crianças e adolescentes portugueses. A substituição das actuais curvas de crescimento pelos padrões defendidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) está prevista no Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil. Na prática, esta mudança vai fazer com que os valores expressos nestas tabelas de percentis traduzam um crescimento mais próximo do “ideal” e vai ainda permitir detectar com mais rigor algumas situações problemáticas, como os casos de obesidade.

A cada consulta, o pediatra ou médico de família vai assinalando num gráfico impresso no boletim individual de saúde a evolução do peso, do comprimento/altura e do perímetro cefálico da criança. Se, há alguns anos atrás, este era um espaço que só merecia a atenção dos médicos, hoje são muitos os pais que se ocupam e preocupam na análise desta curva de crescimento e com o percentil correspondente. De acordo com o novo Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil, elaborado pela Direcção-Geral de Saúde (DGS) e actualmente em revisão, estes gráficos e os valores que serviam de referência vão mudar.

A questão não é nova. Desde a publicação dos resultados do exaustivo trabalho da OMS, publicado em 2006, que vários especialistas defendem a adopção destes novos valores de referência. Em Agosto de 2011, de acordo com a DGS, 125 países em todo o mundo já usavam as curvas de crescimento da OMS. Portugal, que desde a década de 1970 usa outras tabelas, deverá juntar-se no próximo ano ao grupo de países que se guia pelas curvas da OMS.

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Actualmente, para monitorizar o estado de nutrição e crescimento das crianças e adolescentes, guiamo-nos pelos valores de referência propostos pelo Center for Disease Control and Prevention (CDC) e baseados num estudo que envolveu apenas crianças norte-americanas.

Além de estar limitado à análise da população de um país, este registo de padrões apoiou-se maioritariamente numa amostra de bebés alimentados com fórmulas lácteas. Desta forma, as curvas não reflectem de forma correcta o que pode acontecer quando estamos perante o cenário (recomendado) de um bebé alimentado exclusivamente com leite materno. E, segundo os especialistas, isso faz diferença.

Por essas e por outras, a OMS considerou as curvas de crescimento da CDC inadequadas e publicou uma nova versão destes valores de referência para o desenvolvimento infantil e juvenil. A versão da OMS é baseada num estudo realizado, entre 1997 e 2003, em diferentes continentes e que incluiu amostras selectivas de milhares de lactentes e crianças. Desta vez, o gráfico reflecte o resultado de um crescimento em “cenário ideal” que, entre muitos outros factores, como o acesso a cuidados de saúde adequados, passa também pelo aleitamento materno exclusivo durante os primeiros quatro/seis meses de vida.

O pediatra António Guerra, que fez parte do grupo de peritos consultados pela DGS, defende esta substituição há já vários anos. “As curvas de crescimento da OMS valorizam de modo mais correcto o estado de nutrição e outros factores que têm influência no desenvolvimento”, diz, acrescentando que as principais diferenças entre os valores de referência são sobretudo perceptíveis no primeiro ano de vida, uma altura “determinante” para a saúde futura do bebé.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria deixa um exemplo das diferenças que podemos encontrar entre as actuais e as futuras “tabelas de percentis”: de acordo com os especialistas, os bebés alimentados apenas com leite materno crescem mais nos primeiros quatro/seis meses, mas sofrem depois uma desaceleração do ritmo de crescimento. Essa “natural” desaceleração não está prevista nas curvas de crescimento do CDC, o que muitas vezes pode fazer com que se introduza suplementos como o leite artificial ou a papa na dieta do bebé. Um erro, de acordo com a opinião de muitos especialistas. As curvas da OMS prevêem já essa desaceleração “natural”. Por outro lado, António Guerra nota ainda que as curvas de crescimento da OMS vão também melhorar a detecção de situações de obesidade, que actualmente é um dos problemas mais preocupantes da saúde infantil e juvenil portuguesa.

Apesar de sublinhar a importância desta medida, António Guerra sabe que muitas vezes o percentil de uma criança é sobreavaliado e, pior do que isso, mal interpretado pelos pais. Não há um bom percentil e muito menos é verdade que, quanto mais alto o percentil, melhor. “Não importa se a criança tem o percentil 25, 50 ou 75. O importante é crescer a uma velocidade normal, em paralelo com as curvas de referência, e ter o peso e o comprimento a progredir de forma proporcionada e harmoniosa”, avisa o pediatra.

De acordo com Bárbara Menezes, da equipa da DGS que redigiu o novo programa, as mudanças previstas deverão ser implementadas até ao final do ano. Ou seja, os bebés nascidos em 2013 já terão novos boletins individuais de saúde. “Os actuais boletins serão mantidos e não serão substituídos, mas os profissionais de saúde terão acesso a toda a informação sobre as novas normas, nomeadamente nos sistemas informáticos”.

Além desta mudança nas curvas de crescimento, está também prevista a alteração na cronologia das consultas referentes a idades-chave da vigilância e um “novo enfoque nas questões relacionadas com o desenvolvimento infantil, as perturbações do comportamento e os maus tratos”. Sobre as consultas, o programa prevê a introdução de uma consulta “aos 5 anos, com o objectivo de avaliar a existência de competências para o início da aprendizagem, aos 6/7 anos, para detecção precoce de dificuldades específicas de aprendizagem, e aos 10 anos, para preparar o início da puberdade e a entrada para o 5.º ano de escolaridade”.


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