“Nenhuma criança se estraga por excesso de mimo; estraga-se muita gente por falta dele”

Julho 11, 2020 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 25 de junho de 2020.

Os dois livros que o pediatra Hugo Rodrigues lança recentemente juntam-se aos esforços de partilhar conhecimento em saúde que tem desenvolvido quer no site “Pediatria para Todos”, quer no seu canal de YouTube.

Hugo Moreira

Seguir a carreira médica não era algo com que Hugo Rodrigues sonhasse desde criança e a escolha da especialidade surgiu já estudava no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, na Universidade do Porto. Aliás, explica entre risos, a pediatria, “teoricamente, seria das últimas opções” que colocaria quando entrou​ na faculdade. Contudo, a oportunidade de poder “apostar na prevenção e na promoção da saúde” convenceram-no. Hoje, aos 40 anos, diz não ter dúvidas de que tomou as decisões acertadas.

Natural de Viana do Castelo, onde exerce na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, é também docente na Escola de Medicina da Universidade do Minho e na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, além de formador pelo European Ressuscitation Council na área de Emergências Pediátricas. Ao mesmo tempo que considera um dever dos profissionais de saúde “sair dos consultórios” e educar a população, revela que o papel principal da sua vida é ser pai de dois filhos, de 9 e de 11 anos, cujos nascimentos lhe trouxeram uma nova visão da pediatria. Ávido defensor da vacinação, dá espaço para que os pais tomem as suas próprias decisões, desde que munidos de informação e não apenas opiniões.

A sua função enquanto comunicador de saúde faz-se através do site Pediatria para Todos e do seu canal de YouTube, mas o médico aventura-se agora pelo mundo dos livros com duas publicações, uma dedicada aos pais e outra aos filhos. Enquanto O Livro do Seu Bebé é um guia prático dos primeiros mil dias de vida, O Livro Mágico do Avô João tenta ajudar a explicar temas complexos aos mais novos.

É importante que os especialistas comuniquem de forma directa e aberta com o público?
Eu acho que a comunicação é um dever nosso enquanto médicos. Nós temos conhecimento específico sobre uma área e temos o dever de o divulgar para aumentar o nível de saúde da população. Sempre achei que tínhamos de sair dos consultórios, dos hospitais e aproximarmo-nos da população. O site “Pediatria para Todos” cresceu a partir daí. Foi um projecto que idealizei enquanto interno, mas que não consegui concretizar na altura. Mal acabei a especialidade achei que deveria seguir esse caminho.

Hoje em dia temos muita informação e muitos locais onde os pais a podem ir buscar. Se nós temos informação específica e técnica do nosso lado, por que não sermos nós a divulgá-la, em vez de serem pessoas que divulgam mais opinião do que propriamente conhecimento? Para além de um dever, é um prazer comunicar e poder informar e aumentar a literacia em saúde.

Nesta altura, além de exercer pediatria, gere o site, o canal de YouTube, agora lançou dois livros… Considera-se o Brazelton português?
(Risos) Não sou muito de comparações. Gosto muito do que faço, mas, acima de tudo, sou pai. Esse é o papel que destaco mais e que me ajuda muito no meu percurso profissional. Ter sido pai foi uma aprendizagem que coincidiu com a formação em pediatria, enquanto era interno. Foi um marco decisivo. O Brazelton foi um pediatra que marcou a história da pediatria moderna a nível mundial. Não tenho essa pretensão, mas, se puder ajudar pessoas, é para isso que trabalho todos os dias.

Como é que ser pai alterou a sua visão da pediatria?
Permitiu-me estar do outro lado da barricada e compreender por que é que os pais têm algumas questões. Por outro lado, pude ter conhecimento de causa das etapas do desenvolvimento, dos produtos que se vão utilizando, dos cuidados a ter no dia-a-dia, aqueles aspectos que só com a prática é que vamos adquirindo. Acho que foi uma mais valia perceber que, apesar de ser pediatra, enquanto pai também tenho as minhas questões, também tenho momentos em que não acerto como todos. Isso é mesmo assim.

E o que é que mudou na pediatria desde Brazelton?
Acho que Brazelton veio abrir mentalidades. Não foi ele que mudou a pediatria. O que nós temos de perceber é que a pediatria de agora é muito diferente da pediatria de há 30 ou 40 anos, que era muito centrada na doença. Havia muitas doenças graves e uma mortalidade infantil muito significativa. Nós conseguimos, ao longo das últimas décadas, melhorar drasticamente o panorama da mortalidade infantil muito à custa das condições socioeconómicas e das condições higieno-sanitárias da população, mas também muito à custa da vacinação e dos cuidados de prevenção. Por causa disso, a carga enorme que as doenças tinham no dia-a-dia médico dos pediatras foi diminuindo e abriu disponibilidade para estarmos atentos a outros aspectos do dia-a-dia que são igualmente importantes e que promovem a saúde como um todo.

Tais como?
O comportamento, o sono, a alimentação, o desenvolvimento, o bem-estar emocional… Tudo aspectos fulcrais no dia-a-dia das crianças. A definição de saúde, que antes era só a ausência de doença, neste momento é muito mais vasta: o bem-estar físico, psicológico, social, emocional, sexual. Faz tudo parte de um conceito muito mais global de saúde e que é o que devemos promover. Brazelton teve essa ousadia, essa visão pioneira de perceber que o caminho iria passar por essa definição mais larga de saúde. Não tenho dúvida nenhuma: a pediatria moderna é uma pediatria muito mais comportamental. Já não é uma pediatria de doenças.

A falta de vacinação é uma preocupação nos nossos dias? Chegam-lhe muitos casos de pais que têm dúvidas ou não querem vacinar os filhos?
Felizmente, em Portugal, a falta de vacinação não é um problema muito grave. Infelizmente, é um problema que tem tendência crescente. Cabe-nos a nós, mais uma vez, sair dos consultórios e hospitais e, com toda a certeza que a ciência nos traz — porque a ciência é inequívoca quanto aos benefícios da vacinação —, sermos vectores de comunicação correcta e fiável, assente em estudos científicos e não em ideias que surgem sabe-se lá de onde. Não vacinar é uma decisão individual, podemos aceitar isso, mas pode ser uma decisão irresponsável porque vai comprometer a saúde não só dos próprios filhos como de toda a gente.

Como é que se lida com um pai que chega ao consultório e diz abertamente que não quer vacinar o filho?
O público não tem esta percepção, mas a esmagadora maioria das pessoas que se posiciona contra as vacinas são os chamados ‘indecisos’. Ou seja, há pouca gente efectivamente contra as vacinas. Temos é uma franja relativamente grande de pessoas indecisas que se posiciona mais no lado contra as vacinas, mas estão sensíveis a ouvir outra opinião. É a essa franja da população que nós temos de chegar, não é à minoria que é claramente contra. Essa já tem as suas ideias preconcebidas. Faz sentido passar-lhes a informação, mas não vamos conseguir mudar a sua forma de pensar. Quando me chegam ao consultório com essas dúvidas, tento explicar os prós e contras da vacinação, estar disponível para ouvir os argumentos que me dão e tento, dentro do possível, desconstruir e perceber onde estão as falhas desses argumentos. Os argumentos contra a vacinação são todos desmontáveis, mas quando ditos com certeza parecem muito fortes.

E essa é uma das funções do seu trabalho enquanto comunicador?
Exactamente. Mostrar de forma inequívoca aquilo que sabemos sobre as vacinas hoje em dia. Temos a ciência do nosso lado. Só temos é de o saber transmitir e mostrar as falhas nos argumentos do outro lado.

Muitas vezes as redes sociais funcionam como propagadoras de todo o tipo de argumentos. A Internet veio trazer mais riscos que benefícios à parentalidade?
Isso é uma óptima pergunta. Eu faço a minha parte para melhorar esse rácio. Acho que veio trazer muita informação e muita desinformação ao mesmo tempo. As redes sociais e os profissionais de saúde em conjunto vieram fazer algo que não era um objectivo, mas que está a acontecer: castrar o poder de decisão dos pais. Isso não é correcto. Nós temos de passar a informação, é verdade, mas há sempre espaço para que os pais, com todas as informações que vão recolhendo, possam tomar as suas decisões. Se nós castrarmos essa capacidade de decisão, vamos estar a tirar algum sentido crítico acerca do que se vai lendo e, aí sim, pode ser mais prejudicial do que benéfico.

Há uma indústria em torno do bebé…
Ui… (risos)

Cadeirinhas, biberões, mesas… Como é que se distingue o que é realmente essencial?
É muito difícil porque é uma área em que as pessoas estão muito sensíveis e acabam por ceder em alguns aspectos por falta de experiência. De uma forma simples, os pais podem pensar: será que eu ofereceria este produto a um amigo meu que tivesse um filho? Será que isto lhe seria útil? Assim provavelmente vão conseguir perceber a relevância de determinados produtos.

Aparelhos electrónicos e crianças, a questão não é nova, mas agudizou-se com a pandemia. Como é que vê a entrada dos ecrãs cada vez mais cedo na vida das crianças?
Até aos 2 anos, não há vantagem nenhuma em introduzir ecrãs no dia-a-dia das crianças. Claro que com a pandemia damos espaço às videochamadas, tentar aproximar quem está distante e eu percebo essa intenção, mas isso é muito mais útil para os adultos do que para as crianças. Um bebé de oito meses pode reagir um bocadinho ao ver a cara da mãe ou do avô num ecrã, mas não vai sentir o mesmo que os adultos. Tirando isso, até aos 2 anos, o tempo de ecrã deveria ser zero. Não traz vantagem nenhuma em termos de desenvolvimento, aliás, traz desvantagens. A partir dos dois anos, é um pouco diferente. Já há jogos e aplicações que podem estimular algumas áreas do desenvolvimento e que podem ser úteis desde que sejam bem seleccionadas em termos de conteúdos e de quantidade de tempo dispendido. Diria que uma hora já é demais e uma hora em ecrãs passa muito rápido.

Há pais que utilizam estes dispositivos para ocupar os filhos. Mas é da opinião de que as crianças precisam de ficar aborrecidas de vez em quando
Exactamente.

Porquê?
A nossa tendência enquanto cuidadores é estar sempre a salvar as crianças do aborrecimento. “Coitadinhas das crianças, não podem estar sem nada para fazer.” Estamos constantemente a intrometermo-nos na capacidade de decisão delas sem pensar no que estamos a boicotar. Quando estamos a evitar que a criança passe por momentos em que não tem nada para fazer, estamos a castrar-lhes a criatividade e a limitar muito a sua capacidade de imaginar soluções para os problemas. Não ter nada para fazer, para uma criança, pode ser um problema, mas ela é capaz de encontrar mil e uma soluções. Aliás, basta uma tampa de uma garrafa que já dá para brincar. As crianças precisam efectivamente de ter momentos em que estão aborrecidas. Não no sentido de as chatear, como é lógico, mas no sentido de as ajudar a descobrirem-se a si próprias e a descobrirem estratégias para ultrapassar os desafios que vão surgindo.

Ao mesmo tempo considera que “não existe mimo a mais”
Sempre que os pais ouçam que estão a dar mimo a mais aos filhos, não liguem. O mimo, o contacto físico, o carinho são necessidades básicas de todas as crianças, principalmente de bebés e crianças pequenas. Os mais novos precisam de contacto físico para se sentirem seguros e tranquilos. Só assim é que vão ser felizes. Mimo a mais é um disparate, não existe. Nós devemos dar todo o mimo que pudermos às nossas crianças. Isto vai fazer com que cresçam mais felizes e até mais saudáveis porque está provado que o equilíbrio emocional é fundamental para uma boa saúde física. Nenhuma criança se estraga por excesso de mimo; estraga-se muita gente por falta dele. Contudo, mimo a mais e regras podem e devem coexistir no mesmo ambiente. Ou seja, dou todo o mimo e carinho, mas há momentos em que vou estabelecer limites às atitudes dos meus filhos.

Quais são as principais dúvidas dos pais que tenta responder com O Livro do Seu Bebé e porquê o enfoque nos primeiros mil dias de vida das crianças?Os primeiros mil dias correspondem ao tempo que dura a gravidez e os primeiros dois anos de vida. A investigação científica tem demonstrado que este é um período crítico em termos de crescimento, desenvolvimento e programação futura da saúde das crianças. Dou exemplos muito simples: uma criança aos 2 anos tem aproximadamente metade da altura que vai ter na idade adulta. O cérebro tem cerca de 80% do tamanho que irá ter. Estamos a falar de uma altura em que o crescimento físico e, sobretudo, o crescimento cerebral, e tudo o que isso acarreta, se desenvolvem drasticamente. Por outro lado, é também no período entre a gravidez e os 2 anos em que a criança vai desenvolver a maior parte das competências que vão ser úteis no futuro e que vão servir de base à sua inteligência, à sua habilidade motora, à habilidade social. Nesses primeiros mil dias vamos conseguir dotar a criança de um reportório de competências que vão fazer dela muito mais capaz seja do ponto de vista pessoal, seja do ponto de vista social. Este é um período crítico de programação futura. Nós conseguimos, com algumas atitudes relativamente simples no dia-a-dia das crianças, alterar a expressão dos genes e o funcionamento das células para toda a vida. Para mim faz todo o sentido comunicar estes conhecimentos e fazer com que os pais percebam que este início de vida pode fazer toda a diferença no futuro da saúde dos seus filhos.

O livro tem um cariz muito prático. Isso pode evitar idas desnecessárias ao pediatra? Vai-se demasiado ao pediatra?
O objectivo é dotar os pais de um conhecimento muito alargado e com conselhos que possam efectivamente pôr em prática no seu dia-a-dia. Claro que se as pessoas tiverem mais conhecimento, vão recorrer menos aos serviços de saúde, mas nunca foi um objectivo do livro substituir consultas médicas, tal como o site não tem essa pretensão. Isso não seria responsável. Se me pergunta se as pessoas vão demasiado ao pediatra, eu colocaria a questão de outra forma: se as pessoas recorrem demasiado aos serviços de urgência dos hospitais. E aí eu acho que sim. Acho que uma percentagem muito significativa das nossas idas às urgências são situações que não necessitam propriamente do recurso a um hospital. Contudo, entendo que da forma como está estruturado o Sistema Nacional de Saúde, nós praticamente só temos pediatras nos hospitais. Os outros são privados, têm um custo acrescido. Assim eu percebo que as pessoas se sintam mais seguras em ir às urgências.

Como pai, compreende o outro lado da secretária do consultório…
Percebo. Acima de tudo, temos de valorizar as queixas que nos colocam. Mesmo que pareçam descabidas, as pessoas colocam porque são importantes para elas naqueles momentos. Mais do que achar as queixas descabidas, nós temos de passar informação correcta que ajude os pais a descobrir que essas preocupações não são assim tão preocupantes.

Numa altura que lança O Livro do Seu Bebé surge também O Livro Mágico do Avô João, que é narrado pelo Avô João. É o avô dos seus filhos?
(Risos) Sim, o Avô João é o meu pai, a Avó Céu é a minha mãe. O Diogo e o Gonçalo são os meus filhos e a Inês e a Margarida são as minhas sobrinhas. Sempre gostei de inventar e contar histórias aos meus filhos e já as escrevi há algum tempo. A ideia foi usar situações que se passam no dia-a-dia dos meus filhos ou dos amigos deles. Neste livro, os quatro primos vão comer a casa dos avós e trazem todas as semanas um amigo diferente que tem sempre consigo algo que não conhecem, o que vai ser explicado pelas histórias do Avô João. Acredito que muitas crianças, ao ler o livro, vão sentir-se confortadas porque se revêem naquelas questões.

Ou seja, tenta-se explicar às crianças um conjunto de situações que talvez os pais não saibam explicar?
Exactamente. Eu tentei pegar em temas recorrentes que os pais trazem para as consultas e que as próprias crianças vão demonstrando como preocupações. Vamos tentar normalizar algumas situações que causam ansiedade às crianças e aos pais. Eu tentei aliar um pouco a versão “Hugo pai” à versão “Hugo pediatra” e juntar os dois num livro só.

“A quantidade de crianças que precisa de internamento é pequena. Todas, até aqui, tiveram alta”

Maio 7, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 27 de abril de 2020.

Maria João Brito, coordenadora do serviço de infecciologia do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, concorda com a opção de reabrir as creches: “É mais fácil começar pelas crianças que se infectam menos, que são as mais pequeninas”.

Ana Maia e

Miguel Manso (Fotos)

Unidade de referência para doenças emergentes, é para o serviço de infecciologia do Hospital Dona Estefânia que são encaminhadas as crianças com covid que na zona Sul do país precisam de internamento. As dez camas de pressão negativa na enfermaria e as duas em cuidados intensivos foram suficientes até ao momento, explica a coordenadora Maria João Brito, pediatra especialista em infecciologia. A primeira criança a precisar de cuidados intensivos na Estefânia foi internada este sábado. Em entrevista ao PÚBLICO explica o que pode justificar que as crianças se infectem menos que os adultos, mas também que ainda há muito por saber. Sobre a reabertura da sociedade, lembra que não será nunca para o normal que se conhecia antes da pandemia. As medidas têm de ser faseadas e as normas sempre seguidas.

Apenas uma percentagem muito pequena dos infectados são crianças. Esta seria uma realidade se não tivéssemos fechado as escolas?
Provavelmente os números seriam muito semelhantes, porque as crianças ficam menos sintomáticas do que os adultos. O vírus, para se ligar ao nosso aparelho respiratório, tem de se ligar a uns receptores que são em número muito menor nas crianças do que nos adultos. Por isso é que a quantidade de vírus que uma criança pode ter é menor, no geral, com o mesmo tipo de contacto de um adulto. É preciso haver um grande envolvimento com a criança, por exemplo, situações em que o pai e a mãe estão com cargas virais elevadas e estão sempre a pegar no bebé. Isso faz com que a criança que está sempre ao colo se possa infectar, mas no geral as crianças infectam-se menos. Por outro lado, as crianças têm uma imunidade diferente, por exemplo, da do idoso. Têm uma resposta às infecções muito forte, a que chamamos imunidade inata, que vai diminuindo ao longo da vida. Pode haver ainda um factor adicional, que tem a ver com o facto de as crianças terem co-infecções. Podem ser infectadas por este novo coronavírus e podem ser infectadas por outros vírus. Ou seja, esta competição dos vários vírus pode fazer com que um entre menos porque tem menos oportunidade de entrar. São teorias que circulam entre a comunidade científica e que estão em cima da mesa para esta situação da criança não se infectar tanto quanto um adulto.

As crianças são mais ou menos transmissoras que os adultos ou que os idosos?
Não se sabe. Habitualmente, rastreiam-se as pessoas que estão doentes. Seria preciso pegar em todas as crianças no mundo sem sintomas e rastreá-las para perceber se, mesmo sem sintomas, estariam a transmitir a doença.

A Organização Mundial de Saúde disse recentemente que apenas 2% a 3% da população mundial terá imunidade ao novo coronavírus. Isto resulta porque são poucos os infectados, porque os anticorpos produzidos são poucos ou pode ser uma questão de como os testes estão a ser feitos?
Países com grande impacto da doença, como Espanha ou Itália são países nesta altura que não têm imunidade. A Itália tem uma imunidade de 7%, a Espanha 10%. O que sabemos é que a maior parte da população ainda não contactou com o vírus. É por isso que não podemos baixar subitamente as medidas que foram tomadas até agora. A reintrodução da vida — não vou dizer ao normal, porque tão cedo não vamos voltar ao normal —, tem de ser faseada, porque a imunidade de cada país ainda é muito baixa. No nosso país é mesmo muito baixa, provavelmente deve ser à volta de 1%.

A estratégia do Governo é reabrir as creches a 1 de Junho. É uma boa altura?
Não existem alturas ideais. O levantamento do estado de emergência será a 4 de Maio e se existirem repercussões não serão imediatas, serão algumas semanas depois. Provavelmente, teremos reabertura no secundário a 18 de Maio e das creches a 1 de Junho, o que dá para reavaliar a decisão de acordo com a situação. Não podemos ficar confinados para sempre e abrir com medidas faseadas umas das outras parece-me bem. Acho que é mais fácil começar pelas crianças que se infectam menos, que são as mais pequeninas. Se me vai dizer que conseguimos ensinar regras de etiqueta a crianças muito pequeninas, é óbvio que não. Mas nas escolas vai haver de certeza lavagem das mãos mais frequentes, maior passagem da desinfecção. Penso que todas essas medidas gerais vão ser replicadas mais vezes. As pessoas criaram bons hábitos durante esta fase de isolamento e quarentena. Aprenderam a lavar as mãos, a não se tocarem a toda a hora, a usar o gel desinfectante, a máscara. É muito importante garantir que estes bons hábitos não se perdem. Vai ajudar, aos poucos, ir abrindo a vida.

Na sua opinião deve haver um número menor de crianças por espaço?
Penso que depende das idades. Uma coisa são as turmas dos bebés de berço, outros são maiores. Mas o número de crianças que está indicado de acordo com o número de educadoras não é muito elevado. Provavelmente terá de se aumentar o espaço para elas circularem.

Quais são os sintomas predominantes nas crianças?
Felizmente uma grande maioria dessas crianças está com sintomatologia leve e permanece no domicílio. Temos dois quadros: sintomas semelhantes a uma gripe, com febre, dores de cabeça, de garganta, mialgias, tosse, ranho no nariz. Isto pode acontecer nas crianças no geral. Depois temos uma percentagem de doentes, que são doentes muito pequeninos, que têm febre muito alta. A tosse é um sintoma que acompanha a doença. Mas a tosse é semelhante a imensas infecções. Os critérios clínicos não ajudam o médico a fazer o diagnóstico. Vamos sempre precisar de uma análise para confirmar ou excluir se o doente tem covid.

Há artigos que falam de outros sintomas como a diarreia, erupção na pele, perda de olfacto. Qual é a vossa experiência?
A perda de olfacto é um sintoma muito frequente, mas não é na idade pediátrica. Pode haver casos com sintomas gastrointestinais, mas sem outros sintomas acompanhantes é raro. Na pele, o que aparece são alterações cutâneas e algumas são semelhantes a outros vírus. Podem aparecer exantemas, pode haver outro tipo de lesões que chamamos vasculite.

Quais têm sido os maiores desafios?
Todos os doentes são um desafio. Temos de pensar se vamos oferecer um tratamento experimental ou não e se naquele doente vale a pena, qual o tratamento que vamos propor. Isto tem de ser tudo muito bem discutido na equipa e conversado com os pais. Mas claro que tivemos algumas crianças que nos preocuparam mais porque a gravidade da doença foi maior.

A que opções recorreram?
O tipo de tratamentos que oferecemos são os que foram utilizados noutros países. Na China, na Itália, em Espanha. Nós, médicos que estamos na linha frente, temos de beber tudo o que está a ser feito nos outros países e quais são os resultados. Utilizámos medicamentos que se utilizam na infecção VIH, para a malária, para tratar bactérias. Explicamos sempre aos pais que não estamos a inventar nada e dizemos uma coisa muito importante: atenção que não há nenhuma confirmação que o tratamento seja eficaz. Para isso, é preciso tempo e outro tipo de estudos que ainda não temos tempo para estarem feitos.

É muito difícil avaliar os se tratamentos ajudaram?
Todas as nossas crianças até aqui tiveram alta para casa. A amostra do número de crianças internada é muito pequena. As amostras têm de ser muito maiores. Ainda não passou tempo suficiente para se poder saber se este ou outro tratamento é eficaz, se nenhum é eficaz ou se a evolução teria sido diferente ou igual.

A severidade da doença é diferente consoante a idade? Ou acontece como nos adultos, em que os sintomas se agravam quando têm outras doenças associadas?
Tivemos crianças internadas com as duas situações, com cormobilidades e saudáveis.

Qual a vossa capacidade no serviço de infecciologia?
Nesta altura temos em funcionamento dez camas na unidade de infecciologia com pressão negativa e duas em cuidados intensivos de pressão negativa. A quantidade de crianças com doença que precisa de internamento é pequena, contrariamente ao que vemos nos adultos. Neste momento [segunda-feira] temos internadas seis crianças, uma delas em cuidados intensivos. Temos 29 doentes seguidos no domicílio e 37 curados.

Qual foi a média de tempo de internamento na vossa unidade?
A média habitualmente de internamento de cada criança variou de cinco a sete dias. Vou dar exemplos. Tive uma criança internada, não porque tinha uma gravidade do covid, mas porque precisava de fazer tratamento para hidratar e para a dor provocada pela enxaqueca. Ao fim de 24 horas estava bem, não tinha nenhuma gravidade de covid que justificasse estar a fazer estes tratamentos experimentais que falei. Mas tive uma criança com uma doença crónica, que também tinha covid, e a complicação da sua doença crónica pô-la em maior risco. Há um pouco de tudo.

Teme-se muito as sequelas que a covid possa provocar. Existe alguma indicação em relação às crianças?
As sequelas são sempre situações que acontecem a longo prazo. Nunca em menos seis a 12 meses vou poder dizer se aquele doente tem sequelas ou não.

Têm um plano de seguimento destas crianças de covid, para ir analisando a sua evolução?
Criámos uma consulta no hospital Dona Estefânia, que se chama a consulta covid, onde já seguimos doentes. Algumas crianças precisam de ser reavaliadas, outras não chegam a ser internadas, mas precisamos de as ver ou de uma radiografia ou fazer exames. Todos os doentes com pneumonia que tiveram alta estão a ser seguidos e vão ser seguidos por nós.

O que foi preciso adaptar no serviço?
A unidade de infecciologia da Estefânia tem sido unidade de referência para doenças emergentes. Ou seja, a Febre de Marburgo, a gripe pandémica do H1N1, o ébola. Estamos sempre preparados, temos treino, tínhamos os equipamentos de protecção individual. Aqui a situação que ocorre, e que é um pouco mais violenta digamos assim, é que habitualmente circulamos dentro do hospital. E pelo risco de infecção ficámos confinados à nossa unidade. É onde tomamos as nossas refeições, o banho, temos as nossas pausas, dormimos três, quatro horas. Essa parte do isolamento é uma parte um pouco mais dura, mas somos profissionais de saúde e a equipa está treinada para essa função. Há uma coisa que digo aos médicos que aqui vêm estagiar. Aqui não há médicos, não há enfermeiros, não há assistentes operacionais ou administrativas. Aqui é uma equipa e todos são importantes.

Neste momento o serviço está totalmente dedicado à covid.
Nesta altura estamos totalmente dedicados à covid. Mas temos a equipa médica dividida. Uns estão na consulta covid, outros estão a ver doentes covid e outros estão a ver os seus doentes que têm na consulta. Não pode faltar medicação aos doentes com VIH ou com uma tuberculose. Na grande maioria dos doentes estamos a fazer a consulta não presencial e a nenhum doente faltou medicação. Para facilitar, a farmácia do hospital faz o encaminhamento da medicação para as farmácias junto dos sítios onde as pessoas moram, com toda a privacidade. Não nos podemos esquecer que há outras doenças além da covid e esses doentes tem de continuar a ser seguidos.

Todas as crianças têm direito a um acompanhante. Se calhar as mais pequenas sentem mais essa necessidade…
Todos. Os adolescentes ficam mais impressionados com o facto de só nos verem os olhos. As crianças pequenas às vezes até se riem, pensam que é uma brincadeira. Na unidade temos um tipo de vidro que, de acordo com a luz ou a hora do dia, fica espelhado ou transparente. Aproveitamos muito a altura em que o vidro permite para que, quando estamos na zona limpa, nos vejam a cara. Dá alguma tranquilidade.

O que perguntam?
A primeira que coisa que explicamos é porque estamos vestidos daquela maneira, para não se sentirem assustados. Explicamos que na idade delas a situação não é tão complicada, que vamos resolver o problema da falta de ar. Vamos desmistificando assim e muito com o toque — estamos protegidos com luvas —, que dá alguma tranquilidade. O tocar, o ajudar a fazer a cama, são tarefas que temos para humanizar um pouco mais a nossa relação médico-doente.

Os pais estão no mesmo quarto dos filhos?
Oferecemos a todos os pais a oportunidade de um ficar, com a ressalva que se pode infectar. Não houve nenhum pai até hoje que não quisesse ficar com o seu filho. Há pais que estão infectados, não têm doença importante, e ficam tranquilamente. Mas pode acontecer um pai ou uma mãe infectar-se. Nessa altura, fazemos raio x e se tiver radiografia alterada, falamos com os colegas do [hospital] Curry Cabral, que seguem os adultos. Pode haver pais que tenham de ir ao Curry fazer medicação ou inclusivamente ficar internados. Temos pais que não se infectaram.

“Oferecemos a todos os pais a oportunidade de um ficar, com a ressalva que se pode infectar. Não houve nenhum pai até hoje que não quisesse ficar com o seu filho”

Os pais usam algum tipo de protecção?
Podem usar se quiserem, mas a maior parte não usa. Estão dentro de um quarto de pressão negativa. Estão 24 sob 24 horas num quarto junto com o seu filho. É como se os pais estivessem internados com os filhos.

Tem-se apontado 14 dias como período médio de duração da doença, mas há quem se mantenha positivo por mais tempo. Existe algum tipo de evidência nas crianças?
Ainda sabemos muito pouco. Às vezes um teste positivo ao fim de quatro semanas não quer dizer que ainda tenha replicação do vírus. São testes feitos com biologia molecular, em que faço a identificação molecular do DNA do vírus. Só sei que a partícula do vírus ainda está lá naquela amostra, mas não sei se ainda está activa, se ainda provoca doença. Isso acontece nas crianças com muitos outros vírus. Às vezes ainda temos a presença de um vírus passado ainda muito tempo, mas vírus já não está em replicação.

Conferência “Family Centered Care: um apoio partilhado à criança doente” 14 outubro em Lisboa

Outubro 2, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrições até 7 de outubro

Mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/1421789707985200/

A solução para as cólicas pode estar no mimo. “A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito”

Julho 3, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 12 de abril de 2018.

As cólicas são um dos dramas de quem acabou de ter um bebé. Pediatras explicam o que são, como se podem atenuar e dão conselhos úteis.

São uma das maiores inimigas dos novos pais. As cólicas dos bebés, que geralmente surgem ao final do dia, provocam desconforto à criança, fazendo-a chorar durante longos períodos, o que lhe gera um elevado grau de irritação, que não ajuda a que se acalme. Mas afinal, o que são as cólicas e o que é que as causa?

“Na verdade, não se sabe muito bem o que as causa”, diz à MAGG Hugo Rodrigues, pediatra, que acrescenta que se calcula que estas “estejam relacionadas com alguma imaturidade do intestino e acumulação de gases”.

A definição médica das cólicas baseia-se na chamada “regra dos 3”, como explica o pediatra — se os bebés choram mais de três horas por dia, mais de três dias por semana e mais de três semanas por mês.

“Na prática, consideramos que um bebé tem cólicas quando tem episódios de choro que não têm causa evidente e se fora desses episódios, a criança estiver bem”, afirma o especialista.

No entanto, existem outras teorias, e uma das mais consistentes assenta na premissa de que as cólicas dos recém-nascidos são apenas mais uma etapa do desenvolvimento cerebral do bebé.

As cólicas são tão comuns como gatinhar ou sentar

O pediatra Miguel Fragata Correia acredita que as cólicas são uma etapa do desenvolvimento das crianças, tão comum como aprender a gatinhar.

“O cérebro dos recém-nascidos, ainda muito imaturo, tem uma perceção alterada dos estímulos dos intestinos e reage aos mesmos com um choro excessivo.”

“O bebé passa por um desenvolvimento cerebral e as cólicas são o reflexo disso mesmo. O cérebro dos recém-nascidos, ainda muito imaturo, tem uma perceção alterada dos estímulos dos intestinos e reage aos mesmos com um choro excessivo.”

O especialista afirma que as cólicas permanecem um mistério, dado que todos os estudos feitos no sentido de perceber a razão das mesmas se revelaram inconsistentes.

“Existe uma associação geral com os gases, e que é de facto um contributo (dado que quanto mais gás temos nos intestinos, maior é o desconforto), mas não é a razão principal”, refere o pediatra.

A obstipação das crianças também costuma ser um fator apontado por muitos pais como a causa mas, mais uma vez, o especialista desmente. “Se esse fosse o caso, não teríamos bebés que fazem cocó três e quatro vezes por dia e sofrem imenso com as cólicas.”

“Acredito que não fazem mal ao bebé, só à família”

Apesar do enorme desconforto que causa nas crianças, Miguel Fragata Correia acredita que as cólicas não são prejudiciais para a saúde. “Acredito que as cólicas não fazem mal

ao bebé, só à família. São um período muito complicado, de extremo cansaço, muito stressante e os pais passam muitas horas sem dormir”, salienta o pediatra.

Débora Grilo Esteves, produtora, tem 30 anos e é mãe de duas crianças: Frederica, de dois anos, e Lopo, com apenas 10 semanas. “A Frederica nunca sofreu com cólicas por isso não fazia ideia do que me esperava. Nos primeiros dias o Lopo era um anjinho, dormia dia e noite e só acordava para mamar”, conta Débora.

Mas não demorou muito para o cenário se alterar. Com cerca de duas semanas, o filho de Débora e do companheiro de quase dez anos, Sebastião, começou a sofrer muito com cólicas. “Por volta das 19 horas começava a ficar irrequieto. De repente acordava a chorar, aos gritos mesmo, muito encarnado e não acalmava com nada. Tentava dar mama, colo, mimos — mas nada funcionava. E ficava assim horas e horas.”

As cólicas do filho mais novo foram complicadas de decifrar para Débora, e a produtora chegou a pensar se Lopo teria fome. ”Estás num tal estado de desespero que pensas em tudo e equacionei que o meu leite não fosse suficiente para o alimentar. Mas percebi numa consulta que estava a aumentar bem de peso e acabei por descartar essa hipótese.”

A produtora concorda que a fase das cólicas, que ainda atravessa no presente, é um período muito duro, principalmente para os pais, privados de sono e exaustos ao limite.

“Já ouvi várias vezes que é uma fase, que geralmente termina por volta dos três, quatro meses e estou aqui em countdown.”

“Já ouvi várias vezes que é uma fase, que geralmente termina por volta dos três, quatro meses e estou aqui em countdown. São semanas muito complicadas. Quando a Frederica nasceu, aproveitava os momentos em que ela dormia para descansar mas agora a realidade é outra.”

Com uma criança de dois anos e um bebé de dez semanas em casa, Débora confessa que a gestão do tempo é desafiante e que o apoio do companheiro é crucial — assim como os momentos a dois para respirar.

“Os meus filhos não gostam de dormir ao mesmo tempo. Quando consigo adormecer o Lopo, a Frederica acorda e está super ativa, o que é completamente normal para a idade dela. Quer brincar, ver filmes, o que for. Mas o meu tempo de descanso desaparece. Acabámos por nos organizar por turnos: de noite eu fico responsável pelo bebé, de manhã o Sebastião cuida da nossa filha para eu dormir mais, por exemplo.”

O cansaço e a noites sem dormir também podem causar danos no casal, como explica o pediatra Miguel Fragata Correia, que considera que alguns pais até “podem ter de fazer terapia de casal. É um facto, as cólicas de uma criança podem alterar a dinâmica familiar.”

No caso de Débora e do companheiro, a exaustão também gera conflitos, apesar de o casal conseguir reconhecer facilmente a razão porque está a discutir.

“Estamos tão exaustos que começamos a discutir por tudo e por nada. Mas pouco depois conseguimos parar um bocadinho e perceber que o cansaço é o culpado de todas essas brigas. E tentamos também ter espaço para nós. De vez em quando recorremos aos avós ou às nossas irmãs e arranjamos forma de ir jantar com amigos ou a dois. É importante ter três horas para estarmos um com o outro, sem falar nem pensar em bebés.”

Há uma luz ao fundo do túnel: as cólicas, como qualquer fase, também passam

Patrícia Ferreira Ramos, blogger e assessora de imprensa, tem 35 anos e é mãe de dois filhos. Mas foi com a filha mais velha, de quatro anos, que passou pelo pesadelo das cólicas.

“A Leonor teve imensas até aos dois meses. Usámos todas as gotas e mais algumas, como o Aero-Om, e até pedimos a uma amiga da Irlanda para nos trazer umas especiais que não se vendiam em Portugal”, conta Patrícia.

A filha não dormia, os pais também não — e não sabiam mais o que fazer. Chegaram a ir ao hospital e passavam noites com a bebé ao colo e a fazer muitas massagens.

“Os nossos esforços aliviavam-na um pouco mas, de repente, as cólicas desapareceram por completo com cerca de dois meses.”

Os pediatras concordam: as cólicas têm uma linha de tempo. “Geralmente, começam por volta das três semanas, têm o seu pico nas seis, oito semanas, e terminam aos três ou quatro meses”, explica Miguel Fragata Correia, que acrescenta que ”são uma fase que todos os bebés passam, apenas existem uns que se manifestam mais que outros. E nunca vi casos de cólicas que não passassem, há que explicar isso aos pais.”

Enquanto não se atinge a marca dos quatro meses, que geralmente representa o fim desta saga, há que não desesperar — e existem técnicas para tentar acalmar o seu bebé.

A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito.”

“O mais importante é o contacto físico com os pais, porque tranquiliza os bebés”, afirma o pediatra Hugo Rodrigues. “Para além disso, devem sempre tentar-se as massagens ou dobrar as pernas do bebé sobre a barriga, para ver se ajuda.”

Miguel Fragata Correia é um apologista do colo para acalmar os bebés e vai mais longe — há que abandonar a ideia de que este pode ser prejudicial.

“A noção de que os recém-nascidos ganham habituação ao colo é um mito e, até aos cinco meses, nenhuma criança ganha manhas. Há sim que acalmar o bebé com colo, é mais fácil e as crianças respondem melhor. Se colocarmos um recém-nascido sozinho num berço, este não vai ter capacidade para se acalmar.”

O especialista acrescenta que, apesar de não existirem fórmulas precisas e cada criança ser diferente, as técnicas que acalmam mais os bebés são aquelas que recriam o ambiente do útero.

“Um ambiente calmo, quente, em que a mãe encoste o bebé a si fazendo um contacto pele a pele e embrulhado numa manta podem ser ferramentas úteis, bem como as massagens na barriga a cada muda da fralda”, afirma Miguel Fragata Correia, que acredita que há que “acalmar os bebés para acalmar os pais.”

Hugo Rodrigues conclui: ”Por fim, e se mesmo assim não se conseguir resolver a situação, existem alguns medicamentos no mercado com uma eficácia considerável. Faz sentido que os pais tentem testá-los para atenuar o desconforto do seu filho, desde que sempre aconselhados pelo médico pediatra.”

 

O leite de fórmula causa mais cólicas que o materno?

Existem vários mitos à volta do tema das cólicas, sendo a alimentação um dos mais recorrentes. Afinal, existe alguma validade na ideia de que os bebés alimentados a leite artificial sofrem mais de cólicas do que os bebés amamentados?

O pediatra Miguel Fragata Correia garante que não existe verdade nessa ideia. “Se assim fosse, todos os bebés alimentados a fórmula, que são bastantes, iriam ser os únicos a ter cólicas, o que não é a realidade. Essa ideia surgiu porque os bebés que não são amamentados bebem o leite através do biberão, que pode causar mais ingestão de ar, o que gera gases e que se acreditava serem o motivo das cólicas”, explica o especialista.

Da mesma forma, o médico pediatra também desmistifica a ideia de que a alimentação das mães pode ser um fator.

“Já existiram vários estudos a tentar encontrar uma ligação entre a alimentação das mães e a amamentação mas todos se revelaram inconclusivos”, afirma Miguel Fragata Correia.

 

 

 

 

Os conselhos de Brazelton, da gravidez aos três anos

Maio 4, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://observador.pt/ de 14 de março de 2018.

Ana Cristina Marques

O homem que revolucionou a pediatria morreu esta quarta-feira aos 99 anos. T. Berry Brazelton deixa várias obras publicadas, incluindo “O grande livro da criança”, que aqui resumimos.

O pediatra T. Berry Brazelton morreu esta quarta-feira aos 99 anos, a dois meses de completar um século de vida. Considerado por muitos o homem que revolucionou a pediatria, escreveu mais de 200 artigos científicos e 30 livros nas áreas da pediatria, desenvolvimento infantil e parentalidade, incluindo o muito conhecido “O grande livro da criança”.

Com base na mais recente edição do livro, em Portugal, recordamos alguns dos conselhos do cientista e perito norte-americano em desenvolvimento infantil que, segundo o pediatra Mário Cordeiro,humanizou a criança e reforçou o reconhecimento das competências parentais. O livro em questão, editado pela primeira vez em Portugal em 1995, resulta dos 40 anos de prática pediátrica de Brazelton em Cambridge, no Massachusetts, ao longo dos quais ajudou 25 mil pacientes. Foi com base nessa “amostra” que Brazelton desenhou um mapa de desenvolvimento comportamental e emocional, destinado a ajudar pais a enfrentar os “surtos previsíveis do desenvolvimento”.

O livro tem por base o conceito de “touchpoints” (pontos de referência), que Brazelton define como “aquelas fases previsíveis que ocorrem precisamente antes de um surto de crescimento rápido em qualquer linha do desenvolvimento — motor, cognitivo ou emocional –, quando, durante um breve espaço de tempo, se verifica uma alteração no comportamento da criança”.

Considerando os diferentes “touchpoints”, reunimos e resumimos alguns dos conselhos de Brazelton, para aplicar desde a fase de gravidez até aos três anos de vida de uma criança.

Gravidez

O sétimo mês de gravidez é encarado por Brazelton como a altura ideal para uma primeira consulta entre pais e o pediatra que, após o nascimento, acompanhará a criança. Este é, na verdade, o primeiro “touchpoint” apresentado no livro, já que corresponde a uma oportunidade para o médico se relacionar com os pais. “Esta visita pode ter efeitos duradouros”, escreve. A ideia é conhecer bem pai e mãe antes de o bebé vir ao mundo, conhecer as suas preocupações, angústias e dúvidas. Brazelton reforça a igualmente importante participação do pai e explica que, no caso de ambos os progenitores estarem envolvidos na gravidez, é natural que haja uma competição saudável e normal pela atenção e afeto do bebé. “Se os maridos tencionam participar, pai e mãe têm de estar preparados para esta subtil competição.”

Há uma grande riqueza de informação na primeira parte do livro, sendo que, entre muitos outros aspetos, Brazelton explora um pouco da vida intra-uterina. “Existe alguma correlação entre a atividade fetal e o comportamento do bebé. O modo como um feto responde a estímulos pode ser significativo”, escreve, explicando que os fetos adaptam-se à tensão e ao meio ambiente e que podem fazer aprendizagens desse mesmo meio — alguns ficam sossegados, outros mais ativos. Há motivos de preocupação quando há demasiada atividade ou quando o feto não responde aos movimentos da mãe.

Neste capítulo destinado à gravidez também se abordam algumas preocupações associadas ao parto e a alguns dos momentos mais importantes imediatamente após o nascimento. No que à amamentação diz respeito, Brazelton assegura que o leite materno tem inúmeras vantagens e é o ideal para o bebé: “Nenhuma criança é alérgica ao leite materno. A percentagem de proteínas e de açúcar é a ideal, e o leite materno contém anticorpos que vão aumentar o nível de imunidade das mães através da placenta, mas esta imunidade vai diminuindo ao longo dos meses seguintes, a não ser que o leite materno a mantenha. Por isso, os riscos de infeção diminuem com a amamentação”. A amamentação, garante, é a forma ideal de comunicação entre mãe e bebé.

Recém-nascido

O segundo “touchpoint” estipulado por Brazelton consiste na observação do bebé após o nascimento. A observação inicial, refere o autor, é conhecida por índice de Apgar e tem em conta a cor do bebé, a sua respiração, o ritmo cardíaco, o tónus muscular e a sua atividade, sendo feita momentos depois do parto. Este método pretende avaliar a capacidade do recém-nascido em responder ao trabalho de parto e ao novo meio ambiente — a avaliação descrita não prevê o futuro bem-estar do bebé, mas reflete o tipo de parto em causa. Uma avaliação mais profunda, essa, acontece durante os primeiros dias de vida e, já nesta altura, o bebé é avaliado quanto ao “bem-estar físico e ao modo como reage, sob o ponto de vista nutricional”.

“O comportamento de um recém-nascido parece destinar-se a atrair os pais. A maneira como se aconchega deliciosamente ao pescoço ou ao ombro e como procura o rosto do pai ou da mãe, provocam nestes um enorme desejo de o amparar e compreender.”

No livro, Brazelton deixa claro que o bebé é dotado de uma “espantosa variedade de respostas” desde o momento em que nasce. A importância dos estímulos é clara para o autor, que procura esclarecer que quando os bebés são prematuros ou foram sujeitos a sofrimentos intra-uterinos têm uma particular dificuldade em alhear-se de estímulos repetidos. “Respondem a cada agitar da roca, a cada toque de campainha, a cada foco luminoso”, escreve Brazelton, referindo que tal é penoso para os prematuros. “Mostram desagrado, e por vezes dá-se até uma alteração na cor da face, visto que os seus ritmos cardíaco e respiratório aceleram cada vez que há um estímulo.”

Muitos bebés, no período pós-parto, reagem aos estímulos de uma forma muito lenta, “como se estivessem a recuperar do sofrimento que passaram para nascer”, diz o autor. Nesse sentido, e caso a situação persista, deve ser encontrada uma causa, como por exemplo, “um sistema nervoso abalado”. “Será necessário agir o quanto antes”, escreve Brazelton. “Sabemos hoje que uma intervenção precoce num bebé perturbado pode ser muito útil à sua recuperação.”

“O arquear da cabeça e o levar das mãos ao rosto para retirar o pano são exemplos de um sistema nervoso intacto num recém-nascido de termo. Se o bebé estiver muito sedado por medicação materna, ou se for prematuro, todos os seus padrões motores estarão acentuadamente diminuídos. Se houver uma lesão cerebral, a sua atividade motora será desorganizada, e o tipo de tentativas ineficazes para desempenhar todos estes comportamentos tornam-se indicativos de que ele tem problemas.”

Três semanas

“No nosso mapa de pontos de referência, em que são abordadas as fases da vida da criança em que é mais provável surgirem problemas, a questão da alimentação surge inevitavelmente nesta altura em que ela tem três semanas”, assegura Brazelton. Se no início de tudo dar de comer ao bebé sempre que ele acorda é a resposta mais adequada, a partir da terceira ou da quarta semana as mamadas podem ser um pouco adiadas em substituição de um momento de brincadeira. “Não fará mal ao bebé esperar um pouco. Ele aprenderá gradualmente que as brincadeiras intercalares podem ser tão agradáveis como as mamadas.”

“Os pais normalmente encaram a alimentação como a sua maior responsabilidade. Quanto mais intenso é este sentido de responsabilidade, mais receiam que a criança não esteja a alimentar-se convenientemente.”

Assim que os pais ganham maior confiança tendo em conta a alimentação do bebé, estes “podem começar a prolongar os estados vígeis que medeiam entre a altura da sua higiene e o sono”. Segundo Brazelton, as mães têm mais e melhor leite depois de um intervalo de três a quatro horas do que após períodos de amamentação mais próximos uns dos outros. A isso junta-se o facto de as mamadas com intervalos maiores entre si serem menos lesivas para os seios das mães.

“O objetivo é conseguir que o bebé fique acordado cerca de três a quatro horas entre as refeições e faça um sono longo durante a noite.”

Já o ajustamento dos ciclos de sono e de vigília do recém-nascido constituem a primeira tentativa dos pais de adaptaram o bebé ao mundo que o acabou de receber. De facto, conseguir controlar os seus estados de consciência é também uma tarefa muito importante para o recém-nascido. Nesse sentido, importa conhecer os diferentes estados: sono profundo; sono ligeiro; estado indeterminado; completamente acordado, vigília total; estado vígil, agitado, e choro.

Quatro meses

O comportamento exploratório tendo em conta a alimentação faz parte desta fase, altura em que o bebé vai começar a querer brincar com o biberão — não há motivo para não deixá-lo pegar-lhe pela parte de baixo. A alimentação, garante Brazelton, é muito mais do que comida, e a comunicação com o bebé é fundamental. Para atestar esta afirmação, o autor cita estudos que demonstram que os fluídos necessários à digestão “não são ativados se o bebé não tiver um clima agradável quando está a comer”.

Considerando os alimentos sólidos, Brazelton faz notar que alimentos mistos, ovos e trigo são de evitar até aos nove meses, uma vez que estes são alimentos com maior probabilidade de desencadear alergias nos mais pequenos. A introdução dos alimentos sólidos vem acompanhada de uma natural experimentação e brincadeira por parte do bebé que deve ser encorajada.

Mais importante do que os alimentos sólidos é o leite. Caso o bebé esteja a ser alimentado a biberão, o autor sugere como quantidade de leite adequada 570 a 680 gramas. “Quando se torna difícil dar-lhe o peito ou o biberão, é aconselhável diminuir os sólidos, para ser mais fácil dar-lhe o leite. Pode dar-se-lhe o peito ou o biberão duas vezes por dia, num quarto sossegado e escurecido. Deste modo ele irá ingerir o leite de que precisa para crescer e aumentar peso. Um bebé só aumenta de peso quando está a ingerir a quantidade adequada de leite.”

No que toca ao sono, e caso o bebé já consiga adormecer sozinho, os pais podem contar que ele durma noite fora. Certo que ainda se vai agitar na cama, chorar e voltar a adormecer — estes padrões de autoconforto, bem como a capacidade de adormecer sozinho, “tornar-se-ão ainda mais importantes para o bebé ao longo dos dois meses seguintes”.

Ainda nesta altura, o desenvolvimento cognitivo é contínuo, pelo que o mais provável é que o bebé esteja um tanto ou quanto irrequieto, o que obriga a uma vigilância redobrada dos pais: “É vital nunca o deixar sozinho enquanto lhe mudamos a fralda ou o vestimos depois do banho, sobre o tampo da banheira. Deve mantê-lo sempre seguro, mesmo que só com uma das mãos.”

Nove meses

Brazelton é perentório: aos nove meses o bebé vai precisar de ganhar um maior controlo sobre a sua própria alimentação, mesmo que isso faça torcer muitos narizes adultos. Nesta fase, e ao contrário do que se possa pensar, os alimentos não são o mais importante, uma vez que a necessidade que o bebé tem de “imitar, de explorar, de começar a aprender a recusar” passa a ser prioritária. “Aconselho firmemente o pai e a mãe a reconsiderarem quaisquer tentativas para dominarem a refeição da criança e, em vez disso, tornarem esta num espaço de entretenimento e de aprendizagem”, escreve o autor.

“É demasiado importante para a criança começar a aprender a comer sozinha. O problema é que a maioria dos pais sobrevaloriza as refeições. É uma herança do seu próprio passado, que é difícil não querer perpetuar.”

Aos nove meses dá-se o caso de os bebés começarem a acordar de noite à medida que vão adquirindo novas capacidades motoras, ao porem-se de pé e até caminharem, situações de grande excitação para os mais novos. É nesse sentido que Brazelton sugere que os pais estejam preparados “para manter um padrão de conforto mas que seja firme, ajudando o bebé a adormecer sozinho após cada ciclo de sono”.

Ainda neste capítulo, o autor refere-se ao controlo das necessidades fisiológicas para explicar que, ao contrário do que terceiros possam sugerir, é a criança que deve instruir-se a si própria. “Se o fizerem [se treinarem os bebés nesse sentido], estarão a treinar os esfíncteres do bebé, tal como se fazia antigamente quando ainda não havia fraldas descartáveis.”

No reino dos ensinamentos está, então, a difícil arte da separação de pais e bebé. Até por causa dos meses que se seguem, o autor aconselha os pais a prepararem os filhos de cada vez que tiverem de sair e, ao início, a estarem ausentes por um curto período de tempo e a deixarem-nos com alguém familiar. O tempo de ausência deverá ser gradualmente aumentado. “Nesta idade, ele está a desenvolver o conceito de independência e o de afastamento, mas à medida que o faz torna-se cada vez mais dependente.”

Um ano

O primeiro ano de um bebé consiste num surto de desenvolvimento, que precede um período de desorganização. É precisamente nesta fase que o desejo de independência se intensifica e a palavra “não” passa a ser constantemente usada. O negativismo é natural, pelo que os pais têm de se preparar e aceitar a situação, sem que se sintam culpados — “Caso contrário, encaram esse negativismo como se se dirigisse a eles em particular e tentam reprimi-lo ou contrariá-lo”. Morder, bater e arranhar são atitudes que fazem parte de um comportamento exploratório e estão associadas a períodos de sobrecarga.

As birras também são protagonistas desta etapa e, nesse ponto, Brazelton refere que, por vezes, uma atitude firme e fria pode ser a solução: “Sei que parece cruel ignorar uma grande birra, mas as pessoas experientes sabem que, se os pais interferirem, é muito provável que a birra se prolongue mais”. A disciplina é, então, necessária — diz Brazelton que, depois do amor, a disciplina é a segunda coisa mais importante para uma criança.

“Nesta idade, quando a criança pede atenção, precisa de carinho ou de um pouco de consideração, mas não de repreensões. Os castigos físicos como bater-lhe ou dar-lhe palmadas significam duas coisas para ela: uma, que os pais são maiores e não precisam dela para nada e, outra, que gostam de agredir.”

Dois anos

Aos dois anos de idade, uma criança está pronta para começar a ajudar nas tarefas domésticas. Um ponto interessante se pensarmos que o sentimento de utilidade e o ser-se capaz reforça a auto-estima dos mais novos. Ensinar um filho a ajudar em casa deve ser feito de forma gradual e não isento de elogios, que devem acontecer na sequência da participação ativa da criança. Diz o autor que todos estes momentos são um investimento no futuro: “Nesta geração, os rapazes e as raparigas que aprendem a ajudar estarão muito mais bem preparados para um mundo em que os dois elementos do casal têm de trabalhar. Estarão prontos a compartilhar as tarefas domésticas e não ficarem à espera que lhes peçam ajuda”.

É nesta fase que Brazelton introduz o tópico da televisão. Diz o pediatra que a televisão exige um esforço de atenção visual e auditiva muito grande, pelo que uma criança pequena fica extenuada ao assistir a programas televisivos. A TV não pode, por isso, fazer de baby-sitter, até porque as crianças não podem ver televisão durante mais de 30 minutos e apenas duas vezes por dia. 

“Os programas devem ser cuidadosamente escolhidos e as crianças só devem ver no máximo meia hora de cada vez, e não mais de duas vezes por dia. O ideal é a mãe ou o pai participarem pelo menos numa destas sessões”, escreve o autor, que garante que os programas televisivos constituem uma agressão aos sentidos das crianças. “Isso paga-se caro.”

Três anos

“O tipo de aprendizagem tumultuosa que a criança faz neste período parece-me uma antevisão do turbilhão da adolescência”, escreve o autor, referindo-se ao desenvolvimento intenso a que uma criança de três anos está sujeita. É nesta fase que se dá a aprendizagem da identidade sexual e que a criança se identifica mais com o pai ou com a mãe. “Neste período, centraliza a sua paixão e absorve completamente um deles durante algum tempo, ignorando o outro. Se observarmos de perto uma criança desta idade, poderemos detetar características de identificação com o pai ou com a mãe no modo como ela caminha, no ritmo com que fala, nas suas preferências alimentares e em muitas outras áreas.”

Aprender a dominar a fúria e a agressividade é das tarefas mais difíceis para uma criança desta idade, que testa os pais até obter deles uma reação ou regressa a antigos padrões de birra. “Prefiro ver uma criança desta idade ficar zangada, arreliar e provocar os pais. Está a exprimir abertamente a sua agitação e a aprender mais. Uma criança desejosa de agradar a todos os que a rodeiam sofre mais e terá de estar os pais mais tarde.”

E não esquecer: para Brazelton, brincar é o modo mais poderoso de as crianças aprenderem tarefas importantes.

https://twitter.com/mercnews/status/973945613736992769

 

 

Morreu Berry Brazelton, o médico que revolucionou a pediatria

Abril 3, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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REUTERS

Notícia do https://www.publico.pt/ de 14 de março de 2018.

Autor da obra O Grande Livro da Criança, Brazelton foi um dos clínicos e defensores mais influentes em pediatria e em desenvolvimento infantil da era moderna. Em Portugal, a Fundação T. Berry Brazelton é representada pelo pediatra Gomes-Pedro.

BÁRBARA WONG

Faria cem anos no dia 10 de Maio, mas os preparativos já tinham começado a ser feitos, não para essa data, mas para 23 e 24 de Abril, um congresso e a comemoração antecipada do aniversário, em Boston, EUA. O pediatra, cientista e perito norte-americano em desenvolvimento infantil Thomas Berry Brazelton morreu nesta terça-feira, aos 99 anos, na sua casa em Barnstable, Massachusetts, anunciou o Centro Brazelton Touchpoints. “O mundo perdeu um verdadeiro herói para os bebés, crianças e famílias”, diz o comunicado.

Antes de Brazelton, assim que nascia, “o bebé era embrulhado e esquecido a um canto”. Foi Brazelton quem descobriu a importância de, nos primeiros minutos de vida, o recém-nascido ter contacto com a mãe, “pele com pele”, resume Gomes-Pedro, pediatra que em Portugal desenvolveu a teoria dos Touchpoints do norte-americano e criou o primeiro centro fora dos EUA com o nome do especialista, a Fundação Brazelton/Gomes-Pedro para as Ciências do Bebé e da Família.

O conceito de Touchpoints consiste numa abordagem teórica e prática de um modelo de desenvolvimento focado no bebé ou na criança e centrado na família — mas também pode ser usado com adolescentes e adultos, nota Gomes-Pedro. Esta proposta explica o desenvolvimento humano e levou a uma mudança no modo de intervenção dos profissionais, não só dos pediatras mas de todos os que lidam com os mais pequenos, de modo a privilegiar a relação bebé-família. Em Portugal, a fundação faz isso mesmo: oferece formações a pediatras, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, educadores, etc..

“Quando fortalecemos as famílias, fortalecemos a comunidade. O nosso objectivo é que os pais, em todos os lugares, trabalhem com profissionais [de saúde e educação] que lhes dêem apoio, se sintam confiantes no seu papel parental e criem ligações fortes e resilientes com os seus filhos. Para ajudar a alcançar isso, os profissionais devem responder aos pais, pois são os que conhecem o desenvolvimento da criança e estão ansiosos por ver todos os pais a serem bem sucedidos”, defendia Brazelton, citado no site do centro com o seu nome.

“É uma partilha que é uma autêntica descoberta”, aponta o pediatra português, acrescentando que Brazelton esteve em Portugal mais de 30 vezes. “Não havia aldeia que não conhecesse. Ele gostava da nossa comida, da nossa cultura. Nos primeiros anos vinha fazer congressos, nos últimos já não tinha coragem para lhe pedir para vir falar”, confessa o pediatra, emocionado com a notícia da morte do seu “mestre”.

Ler e compreender a criança

Berry Brazelton, autor de O Grande Livro da Criança, e de mais de três dezenas de títulos, a grande maioria best-sellers, era professor emérito de pediatria na Harvard Medical School e pediatra emérito no Hospital Pediátrico de Boston. Foi talvez o mais conhecido especialista depois de Benjamin Spock (1903-1998), o primeiro a aplicar a psicanálise à compreensão da dinâmica familiar e considerado um “herói” por Brazelton, recorda o Washington Post. A grande mudança que Brazelton protagonizou, na década de 1970, foi a de o pediatra não ser apenas o médico que trata das doenças das crianças, mas que acompanha a família, que conhece as competências das crianças e as potencialidades dos pais.

Gomes-Pedro conta que, antes de Brazelton, os médicos e cientistas estavam convencidos de que os recém-nascidos não viam, não ouviam, não entendiam nada à sua volta; uma das inovações propostas pelo pediatra norte-americano foi precisamente fazer uma consulta pré-natal, antes de o bebé nascer, porque a interacção entre pais e filho acontece muito antes do nascimento. “Brazelton criou um modelo relacional baseado na interacção, na descoberta do outro, de significado afectivo e emocional”, define Gomes-Pedro.

Em vez de dar lições aos pais sobre como criar o bebé, o médico defendia que estes deviam ser ajudados a “ler” o filho, a compreendê-lo. “A minha missão é revelar aquela criança aos pais. Conseguir que compreendam a personalidade do filho que têm e, agindo em conformidade com o seu temperamento, sejam capazes de se ligar a ele desde o primeiro momento”, dizia o pediatra norte-americano, em entrevista à edição portuguesa da Marie Claire, em 1990.

Brazelton defendia que é preciso transmitir aos pais que são eles as pessoas mais importantes na vida dos filhos e que têm de se sentir competentes para serem pais. Para isso, têm a ajuda do pediatra e de outros especialistas, profissionais de saúde e de educação, define Gomes-Pedro. “O nosso sonho, e também o de Brazelton, é que cada bebé nasça com oportunidades. Uma das grandes mudanças nas maternidades foi trazer o bebé para junto da mãe, e isso representa o ponto de partida no sentido da felicidade”, acrescenta o pediatra português, que se orgulha de ser um discípulo do norte-americano.

As palavras do famoso pediatra continuam actuais, em 1979 apontava o dedo aos pais que se preocupavam tanto que não sorriam. “Não conseguem sorrir e passar às crianças o entusiasmo que é ser progenitor. Gostaria de saber o que é preciso fazer para que os pais relaxem e não levem a parentalidade tão a sério”, dizia então, citado agora pelo Washington Post. “Cada criança tem direito a que pelo menos um adulto esteja loucamente apaixonado por ela”, declarou à Marie Claire.

Brazelton dizia que a sociedade americana era a “menos amiga das famílias, de todo o mundo ocidental”, e lembrava os casos dos tiroteios nas escolas, levados a cabo por adolescentes. “Ainda estamos a pagar caro o facto de não darmos à família toda a atenção que ela merece”, dizia ao Correio da Manhã, em 2004. Sobre os pais portugueses, elogiava: “Sinto que ainda há uma ternura, um calor humano entre as famílias.” Contudo, dois anos antes, alertava para os malefícios da televisão e da Internet, apelando aos pais para que as crianças não tivessem acesso a estes meios nos seus quartos.

 

 

 

Gomes-Pedro: “A mãe não precisa de descansar e dormir, precisa é de namorar com o seu bebé”

Novembro 23, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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@André Carrilho/ Observador

Entrevista do http://observador.pt/ a João Gomes-Pedro no dia 9 de novembro de 2017.

Rita Ferreira

É pediatra há 50 anos e defende um modelo onde se privilegia a relação dos bebés com os pais. João Gomes-Pedro diz que está na hora de se criar um Ministério da Criança.

Aos 78 anos, diz que vai deixar de dar consultas, mas é difícil imaginar que assim seja, tal é a forma apaixonada com que fala sobre o modelo de touchpoints que promove, defende e ensina. Um modelo em que os pediatras não se limitam a ver se está tudo bem com a saúde da criança, mas a conversar com os pais, a ouvir-lhes as inquietações, a dar-lhes confiança e principalmente a explicar-lhes que quando se cresce, as coisas desorganizam-se para que se aprenda um pouco mais. Por isso, quando o bebé quer andar, vai desleixar o sono e dormirá pior. Mas aprendeu a andar. Quando o bebé começa a falar, se calhar vai deixar de comer como comia. Mas aprendeu a falar. Como explica Gomes-Pedro, o desenvolvimento não é feito numa linha, mas em degraus. E a cada degrau há uma desorganização, que permite que ele seja ultrapassado.

E como este pediatra acredita que cada bebé é único, rejeita receitas, quer para as cólicas, quer para o sono. Diz que as que há, normalmente são más. Gostava que todas as famílias tivessem acesso a uma consulta pré-natal, onde o casal, antes de o bebé nascer, pode começar a descobrir quem vem aí, ou a perceber que já sabe muita coisa sobre a personalidade daquele bebé que ainda está na barriga. E a levar para casa avisos tão importantes como este: não deixe que o seu bebé saia de ao pé de si no hospital por um segundo que seja

Através da Fundação Brazelton/Gomes-Pedro, já formou muitas dezenas de profissionais no modelo dos touchpoints, mas diz que o sonho ainda está longe de ser concretizado em Portugal. Este ano, na comemoração do 15º aniversário da Fundação, a habitual conferência anual — que se realiza a 9 e 10 de novembro em Lisboa — vai ser dedicada ao Bem Estar da Família e da Criança. Ao mesmo tempo, o pediatra lançou um novo livro intitulado “Pensar a Criança, Sentir o Bebé”. O Observador entrevistou-o na sede da Fundação em Lisboa.

O que é isto de pensar o bebé?
Pensar a criança, pensar o bebé, é um misto de cognição, um misto de sensibilização, de desenvolvimento emocional, desenvolvimento afetivo, desenvolvimento dos vínculos organizados sucessivamente ao longo da vida do bebé. É esta transformação de um modelo que foi um modelo patológico, num modelo biológico.

Falo do valor da paixão, da criação da paixão, do estímulo da paixão fazendo vingar um vínculo que hoje está a ser prejudicado e enfraquecido, porque as grávidas estão dois dias, três no máximo no hospital, diria que dois na maioria, e quando é o primeiro filho, se não houver uma intervenção favorável à descoberta desse bebé, torna-se praticamente impossível reforçar aquilo que hoje é uma necessidade fundamental, porque a sociedade contemporânea está a apagar a força dos vínculos do pai, da mãe, do bebé, da família.

Mas não era sequer preciso estar no hospital para ter esse apoio. Ele podia existir em casa, ou não?
Mas nós não temos o apoio que há, por exemplo, em Inglaterra com as midwives [enfermeiras parteiras que acompanham as grávidas no hospital e em casa]. Não temos visitas domiciliárias. No primeiro filho, o bebé nasce por exemplo em Santa Maria e com sorte vai lá o interno vê-lo….

Ainda assim, a abordagem desse interno, ou do pediatra, nesse tempo que tem com o recém-nascido, pode ser diferente, não é? O método que defende não é o convencional, digamos assim.
Uma vez estava com um grupo de alunos de pós-graduação a fazer a avaliação neurocomportamental do bebé e a mostrar as etapas da avaliação, quando me chamou a atenção da cama do lado da janela, um rapaz novo, se calhar interno, a fazer a avaliação do som e do olhar do bebé. Ele tinha uma lanterna com uma bola vermelha e outra azul, mas meteu aquilo no bolso e convidou a mãe a chamar o bebé pelo nome, do lado esquerdo e do lado direito, e o bebé virava para um lado e para o outro 90 graus, cumprindo aquilo que era já patente, uma desejabilidade imensa de interagir, que é o expoente máximo que nós e os pais pretendem, que é descobrir mutuamente o quem é quem. Quem é este bebé que levamos para casa ao fim de dois dias, não sabemos o que lhe havemos de fazer, não sabemos como o vamos descobrir, não tivemos ajuda no hospital, não temos ajuda aqui em casa, é com as minhas amigas e às vezes aqui com a ajuda do médico de família do centro de saúde que a gente vai aguentando e vai fazendo pelo melhor.
A parentalidade está muito na moda, mas nem sempre com os princípios que deveria ter.

Bom, falei ao rapaz e disse-lhe: “Estive a reparar e fizeste uma avaliação como nós temos ensinado. Costumas fazer?” Costumo, disse ele. Aprendi com o professor. E eu disse: já pegou! É um dos grandes sonhos de Berry Brazelton e da sua equipa, é contagiar os profissionais de saúde com este novo modelo de avaliação.

Mas porque acha que é tão difícil isso acontecer? Fazer passar essa mensagem, essa filosofia?
Porque é outra linguagem. Aquilo que aconteceu com este rapaz é a nossa desejabilidade nas maternidades. Que no dia que o bebé nasça ou no segundo dia, pelo menos, haja alguém sentado ao pé da mãe a perguntar “então como está tudo a correr?”. E aí virá uma enxurrada de perguntas da mãe a querer saber mais do que é o seu bebé. E aí nós perguntamos: ele é mais sensível à voz ou ao olhar? Como é o comportamento dele? Como acha que é a sua personalidade? Esta é a oportunidade de explicarmos que com 24 ou 36 horas de vida é possível descobrir o bebé mais controlado, que se autorregula quando está chorar, ou a ser virado, ou despido; o bebé que se autorregula e responde de forma mais completa e suave em relação àquilo que a família vai perguntando. Nós hoje sabemos pela neurociência de que as diferenças fundamentais entre os bebés, nas primeiras horas de vida, vão repercutir-se em dominó até aos 5/6 anos. Nomeadamente, por exemplo, em relação à hiperatividade, não a patológica. Perceber como é a sua motricidade, porventura inibidora de outras descobertas como o olhar e o ouvir, a forma como ele responde às carícias quando está a chorar… Aqueles bebés que não precisam de chucha, graças a Deus, são bebés que se consolam facilmente, têm uma concentração fantástica e que mais tarde, aos 6 anos, nós percebemos que aquele bebé tinha já um autocontrolo diferente de outros, com particularidades específicas.

Está optimista?
Estamos numa revolução do conhecimento, numa revolução que nos capacita para a descoberta do bebé, para a nossa intervenção junto dos pais, junto dos avós, junto nomeadamente do profissionais de saúde que vão ver aquele bebé à nascença e depois aos oito dias no centro de saúde. O médico de familia vai ser provocado a entrar na nossa linguagem. Virá o tempo em que todas as mães portuguesas irão ter a possibilidade de partilhar o quem é quem do desenvolvimento, de interação, de vínculo, de autocontrolo. De saber que um bebé não precisa de chucha para nada porque logo de início vai, em segundos, levar a mão à boca e consolar-se. Chupar é a melhor gota para as cólicas, para aquilo que é suscetível de romper o equilíbrio e que aquele bebé já é capaz de controlar. E os pais percebem nesse momento que a autorregulação é fundamental.

Não ouve que isso é fácil de dizer para quem é conhecido por calar os bebés todos que lhe aparecem a chorar no consultório?
Uma vez apareceram-me no consultório os pais e um bebé que só chorava. O pai e a mãe apareceram a suar, o pai com o bebé ao colo só saltava, saltava para ele não chorar. E assim que ele parava passava o bebé para a mãe e a mãe a saltar, coberta de suor. Este bebé tinha uma motricidade muito sensível, com os tremores, com os sustos, com a desorganização dos membros superiores e inferiores. E, a certa altura, percebi que este bebé precisava de ter controlada a sua desregulação motora. Disse: ponha aqui a mão do bebé em cima da sua e tente travar esta atividade toda. Este bebé está descontente porque não aguenta várias horas neste stress todo. E assim o bebé calou-se, como por encanto. Está a ver, disse-lhe eu? É simples, só ajudou o seu bebé a estar, por segundos, mais seguro, mais controlado e a partir daí ele vai ganhar novas forças para novos controlos, para novas capacidades, para novas potencialidades. Aquele bebé era tão competente quanto os outros, mas não há dois bebés que mostrem a mesma competência de igual maneira. Eles são todos competentes, mas cada um à sua maneira. É essa descoberta das diferenças que inspira este livro de “Pensar a Criança e Sentir o Bebé”.

A criança precisa de sentir que tudo faz sentido na sua vida. A paixão do pai e da mãe com ela, dos avós, a professora da escola. Que tenham um sentido de paixão, um sentido de coerência. Quando os bebés têm stress, são infelizes, estão negligenciados, sobretudo com fome de amor, estas crianças estão em risco e nós temos de garantir-lhes uma coerência, que faz sentido viver, senão temos crianças como os órfãos da Roménia que já não olham, já não viram a cara. Pensam ‘para que é que eu hei-de fazer um movimento para a direita ou para a esquerda se não tenho nem um colo, nem uma palavra, nem uma melodia?’ Ficam como se fossem pedras, como se fossem coisas não vivas.

Organizámos um encontro sobre a felicidade, que deixou de ser um termo foleiro das revistas de cabeleireiro e temos um conceito científico de felicidade, em que ela implica essa coerência que eu abordei, essa forma de estar que dá sentido à vida, à criança e ao jovem, qualquer que seja a idade.

O que mudaria nos hospitais e nas maternidades nesse momento em que o bebé nasce? Que items faltam, por exemplo, aos hospitais amigos do bebé?
Falta o modelo. Não chega fomentar a amamentação e mesmo neste particular eu tenho o máximo de cuidado com isso. Porque há mães e famílias que, por infinitas razões, pessoais e individuais, decidem ou terão decidido, porventura conversando ou não com o pai — a mulher tem o direito de pensar sozinha o que fazer quando o bebé nasce e tem de o alimentar — não amamentar. Se a mãe pergunta eu digo que a amamentação é muito importante, mas quando percebo que ela está a colocar reticências eu não vou aumentar-lhe a culpabilidade, a dureza de ela poder pensar que não é uma mãe tão boa como as outras, porque não amamenta e vê tudo à volta a dar de mar.

Tão importante quanto a amamentação, sendo hospital amigo do bebé, é garantir que esse bebé é ajudado sobretudo na construção de um vínculo, no reforço de uma ligação, que porventura já vem de trás. Mas nem sempre o instinto familiar está garantido. É preciso ampará-lo, motivá-lo.

Isso faz-se como?
Quando o bebé tem de ser visto, e normalmente é só visto uma vez, o profissional deve ter uma intervenção educacional e não o modelo patológico que nos ensinaram de ver a anca, auscultar, etc. É preciso caminharmos para outra mentalidade. Como dizia o professor Pádua uma vez que foi dar uma aula: “Estamos aqui em mais uma das faculdades da doença deste país”. E eu secundo isto com toda a vivacidade. Aprendi medicina no modelo patológico: perturbação; semiologia da observação, diagnóstico, tratamento, prognóstico. Isto é o modelo patológico. Mas eu falei no interno que estava a fazer o seu exame daquela forma maravilhosa, lembra-se? Temos depois todas as enfermeiras que estão na maternidade e que acompanham a mãe durante as 48h que a mãe lá está, de uma maneira disponível, mas porventura muito confinada… “Então vamos lá, a mãe agora vai descansar, levo o bebé para o berçário e depois volta cá.” Eu aviso sempre as mães na consulta pré-natal que não deixem o bebé sair de ao pé delas nem por um minuto, porque a probabilidade de, durante esse minuto, receberem uma garrafa com uma tetina pela boca abaixo, bebés competentes e resilientes, é enorme.

Eu ainda sou do tempo em que o berçário de Santa Maria tinha um vidrão enorme, onde estavam os berços e os bebés todos vestidos de igual, todos acastanhados. Um dia estavam dois pais homens atrás do vidro a falar um com o outro: “Já viste qual é o teu? Não, não consigo. É capaz de ser aquele ali, mas estão vestidos das mesma cor, parecem aqueles pintos que nascem nos aviários”. Isto já não existe, mas existe ainda um risco: em 70% dos casos, os bebés vão para um sítio para a mãe poder dormir sozinha. A mãe não precisa de descansar e dormir, precisa é de namorar com o seu bebé. Quando muito, precisa de duas ou três horas. Trocar palavras de amor, fazer a voz de bebé, trocar juramentos, naquela linguagem que é uniforme em todas as línguas do mundo: os bebés identificam as suas mães através da melodia com que elas falam nessa voz de bebé. Por isso defendemos a existência de uma consulta pré-natal, que é tão importante e também serve de alerta para o que vai acontecer no hospital quando o bebé nascer.

Pode explicar melhor em que consiste a consulta pré-natal?
É uma revolução. Fundamenta a descoberta do bebé, a partilha com a família, a amamentação, ensina a respeitar o comportamento e a personalidade de cada bebé, permite avaliar à distância como vai ser aquela criança aos seis anos em termos de mobilidade, de desregulação motora, de fixação de atenção, de concentração. Estes parâmetros todos permitem-nos saber se aos seis anos essa criança vai aguentar os 50 minutos de uma aula, por exemplo. Eu, por exemplo, aguento em média 40 minutos a ouvir uma conferência, se ela não for má. [risos] Se for má, ao fim de 20 minutos quero ir embora. Hoje, medimos a avaliação comportamental do recém-nascido e a progressão da interação mãe-bebé,. M as é fundamental os pais acreditarem que seis anos antes, nós já conseguimos predizer alguma coisa em termos comportamentais.

A consulta demora cerca de trinta minutos, tempo durante o qual tentamos ir ao encontro da identidade e da circunstância daquele bebé que ainda não nasceu. A identidade é a forma como cada um interage com o outro, como é que a mãe nos conta quando é que começou a chamar Manelinho ou Joãozinho ao bebé. Há muitas mães que nos dizem, ‘foi só há 15 dias, estávamos na dúvida’. Não é que isto seja um risco grande, mas vale uma intervenção de 10 minutos.

Mas qual é a importância disso?
Estes pais, porventura já apaixonados pelo bebé, não tinham ainda pessoalizado essa paixão o que é uma fase importante. Em meia hora falamos de tanta coisa que os pais querem saber e tudo isso reforça a sua paixão com aquele bebé e que eles depois de o bebé nascer vão ver com os seus próprios olhos que ele gosta mais de ouvir do que ver, ou que gosta muito da música que a irmã mais velha canta, que tem uma personalidade diferente de todos os outros. Na consulta acontece toda uma explosão de perguntas, de questões, de ansiedades que no terceiro trimestre os pais já têm e que através delas e das respostas que damos facultam a descoberta da identidade, da circunstância que envolve o bebé, o que chamamos de epigenética.

A forma como os pais nos contam: ‘é verdade, ele sabe distinguir a mão da mãe da mão do pai a fazer festinhas na barriga’ faz com que logo aí o profissional aproveite essa oportunidade e promova e desenvolva a paixão esperada. ‘Já viu como ele distingue a voz de um e de outro? E agora ele nasceu há quatro horas e quer falar comigo… E nós dizemos: “Ele está a precisar de namorar, tal como você precisa de namorar o seu bebé. E logo aí, falamos de outra coisa: as visitas. É importante a família partilhar a explosão do nascimento, mas também é muito importante que a família perceba — e dou essa tarefa aos pais homens — que aquelas pessoas precisam do seu espaço e que no namoro não há interferências. E este é um namoro muito especial entre bebé e mãe. Portanto sugiro que o pai avise a família e até organize um plano de visitas em casa, para os amigos e família, não alterando nem subtraindo nada àquelas primeiras horas de vida.

E tem de baixar expectativas aos pais sobre o bebé que acabou de nascer?
Todos os pais que vi durante a minha vida têm expectativas enormes, muito diferentes. Acho que a nossa missão não é levantar expectativas, mas é acompanhar, não é impor comportamentos.

Estou a perguntar no sentido de, por exemplo, os pais acharem que há os bons filhos e os bons pais, já dorme 12 horas e só tem uma semana, não chora… O bebé ideal, a família ideal…
Na consulta pré-natal valorizamos muito a vivência fantástica do bebé ideal, do bebé cor de rosa em contraste com o bebé real. O bebé ideal é o que mama bem, a mãe sorri antes de ele começar a mamar, e depois ele dá sinal à mãe com um olhar profundo, que a refeição acabou… Este bebé maravilhoso, que eu não sei se já vi algum na vida, é capaz de não existir mesmo. As expectativas de todo o pai e toda a mãe são grandes. Portanto falamos do bebé real. E o bebé real tem cólicas, por exemplo. Todo o bebé do mundo tem cólicas, o indiano, americano, o chinês, o português, tem cólicas ao fim de duas semanas. E agora veja como é importante o modelo que defendemos. No modelo relacional apercebemo-nos de que o estado de aprendizagem de um bebé nas primeiras horas de vida é uma coisa não mais igualável. Imaginemos como nos sentimos na véspera de um exame que vai determinar a entrada na faculdade, cheios de tensão acumulada, podemos sair de casa, dar uma volta ao quarteirão, tentar dormir, qualquer coisa. Pois o bebé não pode dar voltas ao quarteirão, nem refugiar-se no sono, mas acumula na mesma essa tensão e essa tensão são as cólicas, que não dependem de gotas miraculosas. O bebé não precisa de remédio para as cólicas, precisa de outra atenção, de uma massagem, de uma cantiga e isso é diferente consoante está com a mãe ou com o pai. Por isso é tão importante descobrir as diferenças de personalidade do bebé tão cedo quanto possível.

Mas presumo que a maioria das pessoas tem uma experiência do modelo patológico, da ida ao pediatra para fazer um exame de avaliação física. Na maternidade então será assim a esmagadora maioria das vezes, não?
Uma das nossas investigações mais longas foi a de um grupo de bebés em que os médicos que os viram na maternidade usaram os 7 minutos de que dispunham a falar dos comportamentos do bebé e falar aos pais. Dividimos população em dois grupos: um com 7/8 minutos do nosso modelo, outro com prática normal da maternidade: auscultação, palpação abdominal, verificação do clique da anca…. Seguimos estas mães aos 8 dias de vida, aos 3 meses, aos 6 aos 9 aos 18, aos 3 anos, aos 6 e aos 9 anos de vida. O que constatamos, entre outras coisas, é que as mães, 9 anos depois do nascimento, lembravam-se exatamente das palavras que o pediatra que usou o nosso modelo pronunciou e lhes dirigiu nove anos antes na maternidade. É por isso de extrema importância a projeção daquilo que podemos fazer para ajudar uma família na consulta pré-natal, na descoberta do bebé recém-nascido.

Quanto mais cedo tivermos a oportunidade de garantir uma coerência, um sentido de competência, de felicidade em cada bebé e em cada família, a vontade que temos que isto aconteça vai mudar aspetos fundamentais do comportamento, alguns só observáveis 6 anos, 7, 8 anos depois.

Mas nem todos os pediatras têm essa formação…
No outro dia perguntaram-me: os bebés são todos diferentes… E os profissionais, são todos diferentes? São, necessariamente, e cada vez mais. Eu acredito que o desafio só está ganho quando ajudarmos a substituir o modelo patológico pelo relacional, baseado na humanidade de cada mãe, de cada pai, patente na forma como a criança organiza a sua arquitetura cerebral, quando come, quando brinca, quando está com a avó e o avô, quando passeia pelas ruas. Porque quanto mais cedo identificarmos as diferenças e dermos o nosso apoio, não só ao Joãozinho que tem uma auscultação e uma apalpação normal, mas às suas particularidades emocionais e afetivas…

Quando eu dava aulas fazia o seguinte exercício com os meus alunos. Mostrava um slide de um berçário com 30 berços todos iguais, os bebés com roupa da mesma cor, todos virados para o mesmo lado, praticamente com o cabelo igual e perguntava-lhes: “Estes bebés, o que vos parecem? São i guais? São todos diferentes?”. Alguns respondiam: “Professor, são todos iguais, mas se utilizarmos o estetoscópio podemos encontrar diferenças”. É verdade, embora seja uma raridade haver mal formações cardíacas num bebé, mas há. Pode ser. E mais?, perguntava eu. Então, diziam eles, que se faça uma boa apalpação abdominal, se não há nada na auscultação, na eventual deteção de um tumor congénito, ou na eventual presença de um clique na coxa, mostrando uma disfunção articular, que obriga a fazer uma ecografia.

Se não houvesse o modelo touchpoints continuaríamos a auscultar, a ver a barriga, a fazer um exame neurológico, mas aí não haveria ninguém diferente, são todos iguais, com raras anomalias. O fundamental é garantir que a resposta àqueles que nos perguntam “são todos diferentes?” seja, “sim, são”. Quem fez um curso de touchpoints nunca mais vai achar que faz sentido prosseguir no modelo patológico.

Que perguntas fazem os pais nas consultas?
75% das consultas são com perguntas sobre o comportamento do bebé. Não se preocupam muito sobre a borbulha ali, querem saber coisas da vida real de cada bebé. Falamos sobre a alimentação, sobre vacinas, sobre como dorme. E sim, falamos muito sobre o sono. Às vezes dizem “se é para o outro ser assim, a gente desiste!” e aí há uma oportunidade mágica de falarmos sobre o sono. Digo sobre o sono que a primeira coisa que é preciso ter bem presente é que não há receitas. E as que há são más. Vivemos ainda na febre da receita.

Não podemos ser intrusivos. Há uma receita individual, que é por exemplo mudar o estilo de vida na grávida. “Ele só está bem quando eu ando, quando estou quieta dá-me pontapés na barriga.” Eu digo: “Provavelmente o seu bebé gosta de passear, de apanhar ar, dos seus circuitos visuais, tudo isto precisa de ser apoiado, de ser encarado como a maravilha do comportamento do seu bebé. O seu bebé fala para si, não precisa de tradutores nem de coisas escritas em modalidade de receita. É a sua criança e só ela vai ajudá-la a descobrir o que ela precisa. A sua criança não é mais uma que precisa de uma receita universal, mas é alguém único e a necessitar da garantia de uma efetiva participação e intervenção.

O sono é uma forma fundamental de o bebé revelar as suas necessidades. Não faz sentido termos uma consulta e dizer aos pais que o bebé tem de dormir 9 horas e depois da refeição mais uma sesta e depois ao fim da tarde mais isto. Isto não faz sentido, porque há bebés que precisam de dormir 12 horas e outros que se aguentam com menos. Os bebés mais curiosos, mais atrevidos, mais despertos, mais sonhadores, mais qualquer coisa que lhes dê oportunidade de aprender, porventura terem mais cólicas, mas aprender, porventura têm mais tensão, mas promovem mais a descoberta, o conhecimento, as competências.

Ouvir um pediatra falar tantas vezes da felicidade realmente não é muito comum, ou melhor, se calhar não é o que as pessoas esperam ouvir de um especialista em saúde infantil.
Tenho 50 anos de prática pediátrica, tive oportunidade de fazer investigação e de a publicar, e parece impossível, com estas oportunidades, que em Portugal o nosso sonho está porventura tardio. Com investigação feita, com livros publicados, com a nossa pressão de descobrir e ajudar a família a sentir-se coerente, a sentir-se bem, mãe e pai, que o bebé está a gostar de ser gostado, isto reforça os vínculos que estão em risco. Temos uma taxa de mortalidade infantil das melhores do mundo, menos de 3 por mil, temos outros indicadores que não nos sossegam. Temos a taxa de divorcialidade mais alta da Europa, um país católico e religioso, com casamentos pela igreja extremamente bem decorados e fotografados… Cada bebé é um bebé de ouro, mas a família está em risco de não se chegar a constituir como família, as relações interpessoais estão deterioradas. Isto obriga-nos a reforçar o instinto das famílias, sobretudo daquelas que esperam o primeiro filho. Como foi a construção da paixão durante nove meses de gravidez? Como foi a paixão pré-nupcial? Como decorreu o apoio? Foi só ecografias e análises? O que houve mais de aproveitamento de constituir uma paixão entre pais, bebé, profissional?

Nós conhecemos os bebés. Identificamos uma disfunção comportamental, bebés com 30 tremores em 25 minutos, com 7 ou 8 sustos, com modificação de manchas vermelhas e brancas na pele. Este stress, estas desorganizações, devem ser aproveitadas para definir um programa de felicidade. Os casais têm de ser ganhadores. Espero que num futuro não muito longínquo os bebés possam ser apoiados antes do nascimento. É prioritário investir na educação dos profissionais. Precisamos de um Ministério da Criança, para que se possa fomentar o que a criança precisa, principalmente nos primeiros anos de vida: ser amada, ser aquecida, ser alimentada, ser apaixonadamente descoberta por quem quer que esteja nas maternidades a ajudar os profissionais neste volte face, nesta nova missão.

Por falar em direitos das crianças e da família… O que pensa sobre as licenças parentais?
Já cresceram, já ganharam novas oportunidades, mas ainda não chega. O primeiro ano de vida é um ano fabuloso de encontros, de expectativas, de responsabilidades, de aprendizagens. Diria que deviam ser de um ano, o primeiro ano de vida, é o ano decisivo, em que se constrói a arquitectura da casa. O alicerce é o mais importante. É o ano em que se organiza o sistema nervoso central, o comportamento, é quando se projetam de uma maneira mais sistémica e mais completa as desorganizações, os desequilíbrios, que levam a que os pais ganhem confiança. O país ficaria mais rico investindo na criança, na ligação, no modelo relacional.

Pais e mães?
Reúno na mesma categoria pais e mães. Nos anos 70/80 era impossível fazer investigação com pais homens, tinham emprego, não podiam faltar ao emprego, diziam que isto eram coisas de mãe. Arredavam-se. O estudo em que medimos a influência da consulta pré-natal no sucesso da amamentação e no sucesso da vinda dos homens à nossa consulta foi espantosa. As mães que vieram à nossa consulta, aos 3 meses 74% ainda amamentava os seus filhos; aos 6 meses 30 e tal por cento amamentava.

Só?
Sim, só. Mas 72% dos pais vieram à nossa consulta.

Se pudesse pôr fim a alguma prática que existe na pediatria seria qual? Acabava com quê?
O modelo em que eu acredito não entra o erro. Não definiria pela negativa. Temos de criar a oportunidade de… Não reforçaria a negativa. Tudo o que eu descubro, quanto mais converso com as famílias na consulta pré-natal, a riqueza é tão grande, que eu diria que até o que pode ser negativo ou de risco não é, é uma oportunidade para crescer, para fomentar o desenvolvimento intelectual afetivo, para acompanhar e fazer acreditar que aqueles pais podem ter a ajuda daquele profissional ao longo daqueles anos de vida. Vamos aproveitar esta desorganização e fazer dela uma oportunidade positiva para construir paz, felicidade e harmonia no casal, baixar índices de divórcio, que essas taxas denotam qualquer coisa que não vai bem. Essas pessoas não têm porventura acesso a uma consulta pré-natal, a uma consulta de desenvolvimento, e têm esse risco que nós podemos detetar logo nos primeiros meses de vida do bebé. O nosso modelo relacional é de positividade, nós não partimos nunca da negativa.

 

 

Estudantes criaram site que agrega desenhos de crianças internadas

Outubro 31, 2017 às 6:00 am | Publicado em Site ou blogue recomendado | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.noticiasaominuto.com/ de 19 de outubro de 2017.

 

Um grupo de estudantes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) criou uma plataforma online que agrega desenhos da autoria de crianças hospitalizadas em pediatrias de todos os distritos de Portugal.

Os desenhos ilustram a visita do papa Francisco a Fátima por ocasião do centenário das aparições, no passado dia 13 de maio.

“De fácil navegação e bastante intuitivo”, o ‘site’ está preparado para ser apresentado em cinco diferentes línguas (português, inglês, francês, italiano e espanhol) e possibilita a consulta dos desenhos através da navegação do mapa de Portugal dividido em distritos, explica a FEUP, em comunicado.

O projeto, denominado ‘Waves of Drawings’, foi desenvolvido por sete estudantes da FEUP, cinco do Mestrado Integrado em Engenharia Informática e Computação e dois do Mestrado em Multimédia, que realizaram todo o trabalho em regime extra curricular. O grafismo da plataforma ficou a cargo da ‘designer’ Emília Dias da Costa.

A FEUP esclarece que “o pontapé de saída do ‘Waves of Drawings’, projeto nacional agregador de todas as pediatrias do Serviço Nacional de Saúde (SNS), foi dado pelo Centro Hospitalar de São João”, do Porto, que coordena.

“Após ter organizado, em 2015, uma exposição de desenhos de 28 serviços de pediatria dos estados-membros da União Europeia (UE), decidiu organizar uma outra, desta vez com desenhos de todas as pediatrias do SNS, apresentada no passado mês de setembro, à presidente do Hospital ‘Bambino Gesù’, Mariella Enoc, em Roma”, refere.

O Bambino Gesú, também conhecido como o ‘Hospital do Papa’, é um hospital pediátrico tutelado administrativamente pela Secretaria do Estado do Vaticano e é considerado “um ponto de referência no tratamento de crianças não só de Roma como de toda a Itália”.

mais informações na notícia:

Pediatrias do Serviço Nacional de Saúde unidas em projeto com ADN FEUP

 

 

 

 

Marcelo Rebelo de Sousa conta histórias a crianças internadas no Hospital Santa Maria

Março 27, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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O Presidente da República esteve no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a contar histórias a crianças e jovens internados no serviço de Pediatria, a convite da Associação Nuvem Vitória. A associação partilhou um vídeo na sua página de Facebook, em que se vê Marcelo Rebelo de Sousa sentado numa cama do hospital, junto a uma criança, a contar uma história. A publicação refere ainda que o Chefe de Estado “contou duas horas de histórias às crianças internadas”.

De acordo com informação divulgada no site da Presidência, que também partilhou um vídeo e várias fotografias, a visita de Marcelo Rebelo de Sousa deu-se a propósito do Dia Mundial do Sono, que se comemora no dia 17 de março. O Presidente foi recebido por Fernanda Freitas e Pedro Dias Marques, presidente e vice-presidente da associação, por Carlos das Neves Martins, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Lisboa Norte, e por Maria do Céu Machado, diretora do Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria.

Durante a visita, Marcelo Rebelo de Sousa recebeu os voluntários da associação e esteve presente durante “um briefing sobre cuidados e procedimentos a ter com as crianças”.

Criada em 2016, a Associação Nuvem Vitória tem como objetivo “contribuir para melhorar o sono das crianças, nomeadamente em hospitais ou outras instituições que, temporariamente, as retirem dos seus ambientes familiares”, lê-se na página de Facebook. Além de desenvolver materiais e ferramentas para um ambiente favorável a uma boa noite de sono, a associação pretende estimular “o envolvimento dos progenitores e restantes familiares e cuidadores na área da leitura e da narração oral”.

 

Rita Porto para o Observador, em 16 de março de 2017

Veja os vídeos AQUI.

7 perguntas para o pediatra Daniel Becker: “Seu filho deve aprender que não é o centro do mundo”

Setembro 23, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Entrevista do site http://www.revistapazes.com/ a Daniel Becker no dia 24 de julho de 2016.

pazes

Por Fabiana Santos

O pediatra Daniel Becker é o criador da Pediatria Integral: um conceito de que a criança precisa ser vista de forma mais abrangente. Não é apenas tratar e prevenir doenças, mas cuidar do bem estar emocional, social e até espiritual da criança e da família. São 20 anos de experiência de consultório no Rio de Janeiro. Formado pela UFRJ, ele é especialista em Homeopatia e mestre em Saúde Pública. Médico do Instituto de Pediatria da UFRJ, ele foi pediatra da Médicos sem Fronteira em campos de refugiados na Ásia e fundador de uma ONG, o CEDAPS, Centro de Promoção da Saúde, com atuação em comunidades carentes.

Becker é um apaixonado pela profissão e conta que ao olhar sua trajetória se diz satisfeito pelas escolhas que fez. Ele é separado, pai de dois filhos, um menino de 17 anos, roqueiro, e uma menina de 20 anos, psicóloga. “Eles são muito bacanas. Tenho muito orgulho deles”, diz o médico. Com tantos compromissos, entre palestras e consultas, ele abriu gentilmente um espaço na agenda para responder às minhas perguntas.

1.Na sua palestra no Ted, você diz que um dos pecados contra a infância é a “entronização”. O que isso significa? Estamos colocando nossas crianças em um trono?

A gente vive em tempos de hipervalorização da infância tanto pela mídia quanto pretensamente pela família e pela sociedade. Mas na verdade a infância é desvalorizada naquilo que ela tem de real, na sua essência. Um dos fatores que explica esse paradoxo é a falta de intimidade e de convivência entre pais e filhos por causa das questões da vida moderna. E quando estão juntos, os pais não conhecem essas crianças, não sabem lidar com elas. Estão estressados com os seus trabalhos, estão viciados nos seus telefones e não querem também se submeter à desaprovação social de uma criança que chora ou se comporta mal. Acaba que essa criança não tem direito de se manifestar de forma negativa, que faz parte do comportamento infantil. Ela não pode fazer uma birra, dizer “não”, chorar, explorar seus limites de atuação no mundo. Como os pais não sabem lidar com essas situações, a criança acaba tendo todos os seus desejos realizados, não lhe colocam limites, não lhe dizem que ela tem que lidar com a frustração. A gente quer calar a qualquer custo o mal estar. Então para parar com o chilique, a gente acaba cedendo. Ao invés de aprender as regras de convivência, a criança passa a ser uma rainha que dita as normas, os programas, os horários.

2.E o pecado que você chama de “superproteção da infância”?

A superproteção é impedir que as crianças tenham suas próprias experiências. A gente está presente o tempo todo, aquilo que os americanos chamam de “helicopter parent”, pais que ficam flutuando em torno das crianças fazendo com que elas não tenham a experiência do mundo, justamente porque os pais se interpõem entre o mundo e a criança. Elas ficam impedidas de lidar com o risco, com a aventura, com as relações interpessoais, com os problemas da escola, com a dor, com os machucados. Se a criança tem um problema com uma outra criança, os pais se interpõem para resolver a questão, no playground não deixam ela se arriscar a subir mais alto no trepa-trepa. É claro que ninguém quer que o filho quebre um dedo ou receba um ponto, mas são experiências da infância. A criança tem que ter a experiência do risco, do machucadinho e da frustração. Outra coisa muito grave é que para evitar os perigos do mundo, as famílias ficam muito em casa, se expõem pouco à natureza, as praças e as praias. Os riscos desses lugares existem e temos que lidar com eles, pois fazem parte da vida.

  1. Qual o prejuízo real para crianças que não sabem ouvir a palavra “não”? O que vai ser (ou já está sendo) dessa geração sem limites?

Eu já vi criança dormindo às duas da manhã, já vi criança de dois anos que comanda o que tem na geladeira e no armário da despensa. Outras que determinam o programa da família nos fins de semana, se elas não querem sair, ninguém sai. Pais que deixam a criança de 3 anos ficar horas na televisão porque não sabem desligar o aparelho e deixar ela ficar frustrada. Criança que come o biscoito ao invés da comida, que ganha o presente depois de ter se jogado no chão do shopping. Isso tudo causa um prejuízo enorme, tanto na qualidade de vida dessa família, quanto na psiquê, na emocionalidade dessa criança. Ela precisa saber que a sua vida tem limites, que a sua influencia tem limites, que o mundo não gira em função do seu umbigo. Muitos meninos e meninas dessa geração vão levar isso para a vida adulta e não só terão dificuldades de convívio como vão quebrar a cara nos seus ambientes de trabalho e em relacionamentos interpessoais. Porque nem sempre a vida vai acolher esse tipo de onipotência que é resultado de uma educação cheia de falhas nesse sentido.

  1. A culpa que os pais carregam é a grande vilã nessa história?

Eu tenho muito medo da gente restringir a questão à responsabilidade da família. A família é responsável sim, tem que saber lidar com a frustração, o choro, as emoções negativas da criança, tem que saber mostrar a ela que esses momentos passam, que estas situações vão deixar ensinamentos importantes. Os pais sentem culpa porque não estão presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar presença. Muitas vezes o tal “deficit de atenção” é deficit de atenção de pai e mãe que a criança sofre. Mas a gente tem que justamente tomar muito cuidado para não piorar isso dizendo que os pais são os culpados porque o que leva a tudo isso é a vida moderna, é a perda de referências, é a falta de capacidade de aprender com as gerações anteriores, com a experiência dos outros, é a invasão do tempo de trabalho e do tempo de entretenimento no tempo em família, é o vício do smartphones. Tudo isso tem que ser pesado na compreensão desse fenômeno da entronização e da superproteção da infância, a gente não pode restringir a responsabilidade e nem as soluções apenas a nível familiar.

5.A justificativa sincera de muitos pais é de que eles fazem o melhor que podem, trabalham o dia todo, batalham para dar conforto aos filhos, chegam exaustos em casa. É até mesmo controverso: as pessoas querem ter filhos mas não conseguem ter tempo de conviver com eles. Como resolver este impasse?

As pessoas querem ter filhos e imaginam que tudo vai ser um mar de rosas. Elas têm que ter consciência de que vão ter filhos neste mundo em que vivem: nas grandes cidades, muitas vezes com a falta de presença de familiares, com trabalhos que demandam excessivamente, com transporte que fazem elas chegarem tarde em casa, isso tudo tem que ser incorporado por um casal quando eles planejam filhos. Planejar ter filho é ver o futuro. Claro que a maioria das pessoas não faz isso, a gente quer ter filho, a gente quer reproduzir a nossa própria genética, isso faz parte de um mandato biológico. Mas hoje em dia a gente tem que pensar nas condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos pais, dos avós, tios, primos. Escolher um lugar para morar com natureza por perto. De novo a gente não pode reduzir a solução deste impasse a nível da família, a gente tem que tentar pensar na sociedade como um todo. A sociedade brasileira é insegura, desigual e cheia de problemas e isso influencia nas condições de vida das famílias.

6.O video americano “Childhood is not a mental disorder” já deu o que falar sobre o uso exagerado de remédios em crianças para controlar “doenças do comportamento”? Você concorda que é preciso ter muito cuidado com os diagnósticos?

Eu gosto muito desse vídeo e ele traz mesmo uma dimensão terrível do que a sociedade está fazendo com a infância. O mercado pressiona a família por soluções fáceis, todo mundo quer resolver os problemas imediatamente. A energia da criança está sendo reprimida. É claro que o comportamento dela vai ser muito afetado por todas as questões que eu já citei, podendo se rebelar, ter insônia, desatenção, brigar na escola, ser impulsiva. Em vez da gente repensar como oferecer a estas crianças uma infância melhor, mais saudável, mais verdadeira, o que o mercado propõe é que elas sejam medicalizadas. A indústria de diagnósticos e de remédios é monstruosa e crescente. No Brasil, a Ritalina é o principal remédio usado para criança. Em 10 anos a venda de Ritalina subiu de 75 mil caixas para 2 milhões de caixas. O Ministério da Saúde agora está estabelecendo uma regulação para a venda do remédio. A gente não pode negar que essas doenças existem, o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é uma doença grave, mas ela atinge um pequeno número de crianças. A grande maioria desses diagnósticos está sendo feita de forma arbitrária, sem critério suficiente, eu diria até perversa. É preciso mudar o comportamento da família ou ir para psicoterapia, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, que são benéficas para este tipo de problemas e poderiam ser tentadas antes e de forma mais eficaz. Porque o remédio vai ter efeitos colaterais, vai rotular esta criança, como o video expõe muito bem, vai colocar na cabecinha dela que ela é apenas um transtorno e não uma criança que tem potencialidades múltiplas e possibilidades infinitas para o seu futuro. Tem a historia de uma mãe que levou a filha ao pediatra porque achava que ela tinha problemas e o pediatra deixou a criança com uma música e saiu da sala por alguns minutos com a mãe. Eles ficaram observando a criança do lado de fora, enquanto ela dançava o tempo todo. E o pediatra disse: “Sua filha não tem um problema, sua filha é uma bailarina, leve-a para uma aula de ballet e vão ser felizes”. Gillian Barbara Pyrke, a menina da historia, se tornou uma famosa coreógrafa da Broadway. Quantos gênios, artistas, cientistas nós não estamos perdendo medicando e rotulando essas crianças?

7.Quais as suas dicas para criarmos “crianças como crianças”?

Acolher as crianças nas suas emoções. Especialmente as crianças pequenas têm uma racionalidade limitada e uma emocionalidade muito grande. Se ela está com raiva, você pode dizer pra ela “você está com muita raiva”. E mostrar de forma teatral o que está acontecendo com ela, fazê-la entender o sentimento que ela está tendo e dar permissão para ela sentir essas emoções, tanto negativas quanto positivas. Acolher também os desejos: “você quer esse brinquedo, eu sei que você quer muito ele, eu te entendo, mas a mamãe não pode comprar ele agora”. Isso quebra um pouco esse mecanismo da birra. Ter convivência com os nossos filhos, oferecer a eles oportunidades de conversa, de refeições em família, de sair na rua juntos, brincar nos parques, subir no trepa-trepa, ralar o joelho no chão, cair do skate (com capacete!), subir numa árvore, levar um zero, aprender com a frustração. Tudo isso é importante para formar uma criança mais feliz e um adulto mais íntegro, preparado para conviver com o outro. Pra saber respeitar o outro a primeira coisa que a criança tem que entender é que ela não é o centro do mundo. Ela é um membro da família e ter relações igualitárias com os outros membros da família vai fazê-la entender que ela vive numa sociedade. Esse é o nosso papel como pais.

 

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