COVID – 19 : Recomendações para pais divorciados ou separados: responsabilidade parentais. Ordem dos Psicólogos

Maio 20, 2020 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Carta aos pais separados ou divorciados durante a pandemia

Abril 2, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de publicado no Público de 23 de março de 2020.

A forma como os pais separados ou divorciados se relacionarem um com o outro, durante esta crise, será crucial para o bem-estar dos filhos num momento muito crítico para eles.

No contexto de pandemia covid-19, a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Ministério da Saúde, informaram no dia 14 de Março que “entrámos numa fase de crescimento exponencial da epidemia” e “é muito importante que todos colaborem nas medidas de contenção” para se tentar travar a propagação da doença. A DGS refere que “o isolamento social é uma prática para ser levada a sério”. Desde o dia 16 de março 2020, e pelo menos até 9 abril (altura que o Governo volta a avaliar a situação), todas as escolas vão estar fechadas e os nossos filhos vão ficar em casa. Através da Resolução do Conselho de Ministros, no dia 18 de março de 2020, foi decretado o estado de emergência em Portugal, para prevenir e conter a propagação do vírus.

“Estabelecer que, durante o período em que durar o estado de emergência, os cidadãos só podem circular na via pública para algum dos seguintes propósitos (…) g) Deslocações por outras razões familiares imperativas, designadamente o cumprimento de partilha de responsabilidades parentais, conforme determinada por acordo entre os titulares das mesmas ou pelo tribunal competente” (Resolução do Conselho de Ministros no dia 18 de março de 2020).

Existem muitas informações, opiniões e conselhos a circular, por vezes contraditórios, que em vez de tranquilizarem os pais provocam-lhes uma enorme insegurança. É fundamental que os pais estejam bem informados para poderem falar e explicar aos filhos o que se está a passar, mas para isso devem previamente colher informações seguras, de fontes credíveis, como é o caso dos sítios da Direção Geral de Saúde (www.dgs.pt) e da Organização Mundial de Saúde (www.who.int).

Esta situação de crise representa um momento de elevada exigência, em termos de adaptação social e psicológica dos diferentes elementos da família. A forma como os pais separados ou divorciados se relacionarem um com o outro, durante esta crise, será crucial para o bem-estar dos filhos num momento muito crítico para eles.

É fundamental que, embora afastados pela necessidade de isolamento social, ambos os pais continuem a assumir as suas funções educativas e a participar nas diversas atividades do dia-a-dia dos seus filhos, promovendo, desta forma, a sua segurança, assegurando-lhes que tudo correrá bem neste período.

A coparentalidade e o envolvimento empenhado dos pais nestas situações de risco, devem ser exercidas em prol da sua aproximação para uma tomada conjunta de decisões e sua cooperação, que assegurem a sua consistência, apoio recíproco, e a divisão de responsabilidades, de forma a e serem os primeiros protetores dos filhos que partilham.Muitos filhos, nesta fase, estão com medos a que os pais devem estar atentos. Este sofrimento pode ser diminuído, se as medidas forem tomadas em sintonia entre os pais, se forem bem orientadas, assegurando que, ao longo desta crise, as crianças viverão num clima de confiança, favorecedor do seu equilíbrio emocional. Neste momento, é essencial que os pais divorciados ou separados deixem de lado todos os desacordos e pensem na saúde e proteção dos filhos, dos familiares e dos amigos. A forma como os pais agem condiciona não só a forma como as crianças vão lidar com as situações de imediato, mas também a forma como ao longo da vida lidarão com outras semelhantes.

Na minha experiência de consulta em psicologia, tenho acompanhado inúmeras situações em que as mães e os pais separados ou divorciados não têm a oportunidade de partilhar informações e decisões inerentes às suas responsabilidades parentais sobre os seus filhos, isso cria verdadeiras situações de desespero e de reforço do sentimento de incapacidade de acompanhamento das medidas de saúde dos filhos por parte outros pais: “Estou muito angustiado… não sei nada dos meus filhos” é uma expressão que escutamos frequentemente.

Também tive já a oportunidade de acompanhar uma situação em que o pai e a mãe separados decidiram, nesta situação de crise, voltar a juntar-se na mesma casa para criar melhores condições de se apoiar e poderem estar ambos junto dos filhos. Recebi de um deles a informação: “Estamos em minha casa, estamos a apoiar-nos”. Noutra situação, em total concordância de ambos, ficou um dos pais com os filhos, e o outro numa situação mais afastada, mas de apoio e comunicação constante e securizante: “Decidimos em conjunto que neste momento era melhor ficarem com o pai, porque eu continuo a trabalhar no hospital.”

O dia a dia dos filhos, mesmo separados do pai/mãe, carece de acompanhamento de ambos. O pai/mãe que não estiver com os filhos deverá ser informado diariamente de como o outro está a gerir as rotinas dos filhos, bem como o primeiro deve aceitar as ajudas que necessita do outro (por exemplo, levar comida, medicamentos) para evitar que os pais que tenham de permanecer em casa sejam obrigados a sair muitas vezes.

Acabando os condicionalismos do período decretado de isolamento social com um dos pais, os filhos deveriam passar estar na casa do outro pai/mãe, retomando rapidamente as rotinas de partilha anteriores. Neste caso, os filhos podem ser compensados com um período maior de permanência com o pai/mãe com quem estiveram privados de conviver.

Os filhos que estão separados dos pais podem combinar diariamente fazer videochamada, para se verem, conversarem e partilharem rotinas do seu dia-a-dia ou telefonemas.

Em acordo e cooperação sobre a organização da vida dos seus filhos durante o estado de emergência, os pais separados ou divorciados estarão a dar um contributo inestimável para a prevenção da propagação do vírus e para o bem-estar dos seus filhos.

Psicóloga e terapeuta familiar

Estamos separados e amamos os nossos filhos

Fevereiro 7, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opnião de Vera Ramalho publicado no Público de 16 de janeiro de 2020.

Pais que são adequados na definição da guarda da criança, nas práticas parentais, que têm menos conflitos durante o divórcio e à frente da criança, podem amenizar o impacto do divórcio na criança.

Na literatura, o divórcio ou a separação dos pais é descrito como um evento que causa mal-estar psicológico às famílias, em concreto, porque implica mudanças e ajustamentos na vida dos adultos (pais e outros familiares) e das crianças. Sobretudo quando há adequação dos adultos, os efeitos negativos na adaptação da criança são maioritariamente transitórios.

O impacto do divórcio na criança depende de vários factores, entre eles o temperamento e a idade da criança; a psicopatologia dos pais, com especial relevância para a depressão; uma coparentalidade conflituosa, incluindo a intensidade e frequência do conflito interparental antes e após o divórcio.

No caso de desajustamento, a magnitude e a duração dos problemas que a criança pode exibir decorrem de várias circunstâncias, sendo que entre aquelas que podem causar maior impacto negativo está a forma como os próprios adultos lidam com o divórcio e como a transpõem para a criança. Pais que são adequados na definição da guarda da criança, nas práticas parentais, que têm menos conflitos durante o divórcio e à frente da criança, podem amenizar o impacto do divórcio na criança.

Em prol da adaptação da criança ao divórcio/separação, ficam aqui algumas sugestões para os pais e a família:

  • Dar prioridade ao bem-estar da criança e às suas necessidades separando a conjugalidade da parentalidade e abrindo mão da eventual vontade de contrariar o ex-cônjuge;
  • Respeitar o outro promovendo a comunicação com o pai/mãe da criança quanto às necessidades dos filhos;
  • Promover uma parentalidade cooperativa. A qualidade da parentalidade é um dos melhores preditores do bem-estar social e emocional da criança. Assim, a partilha de um estilo parental democrático, baseado na coparentalidade cooperativa, marcada pelo envolvimento de ambos os pais na educação, cuidados e decisões sobre a vida dos filhos, é decisiva no ajustamento da criança ao divórcio;
  • Separar a relação conjugal da relação coparental (a relação dos adultos é só com eles, não cabe à criança saber coisas relacionadas com o fracasso da relação dos pais ou se a mãe/o pai acha que o seu ex-parceiro a/o deixou porque tem outra pessoa;
  • Reduzir ao máximo o conflito: O conflito entre pais é considerado o factor de risco com maior impacto no ajustamento da criança à separação. O conflito pode ser manifestado pela raiva, pela hostilidade, pelas dificuldades de cooperação nos cuidados e na comunicação com os filhos, pela linguagem agressiva, pela agressão física, ou outras situações nefastas e cria stress, tristeza e insegurança na criança. Além disso, o conflito entre os pais traduz-se, na maioria das vezes, em disciplina permissiva e inconsistente, instabilidade emocional, impulsividade nas práticas parentais e menor responsabilidade e disponibilidade emocional para a criança;
  • Não envolver a criança na disputa; ela não é um juiz ou conselheiro matrimonial. Quando as crianças são envolvidas nos conflitos parentais, acontece a deterioração das relações pais-filhos. O impacto na criança é muito negativo, causando stress e desadaptação. Quanto mais a criança percebe que os conflitos entre os pais são desadequados, maior o risco para ter problemas de ajustamento e de bem-estar. Também está comprovado que ambientes pós-divórcio altamente conflituosos podem acarretar mais problemas de externalização (comportamentos de oposição, agressividade, hostilidade, etc.) na criança;
  • Respeitar o direito da criança de gostar do pai, da mãe e dos restantes membros da família;
  • Não perguntar à criança se prefere estar com o pai ou com a mãe, pois isto só causa tensão à criança;
  • Mostrar interesse pelo que a criança possa estar a sentir e disponibilidade para responder a perguntas e esclarecer dúvidas relacionadas com receios acerca do divórcio;
  • Não perguntar o que acontece em casa do outro progenitor;
  • Manter ao máximo hábitos e rotinas diárias;
  • Não dizer mal do outro progenitor ou da sua família à criança nem permitir que a restante rede familiar o faça;
  • Não usar a criança como forma de apoio pessoal, mas procurar ajuda noutros adultos;
  • Se os pais estiverem juntos numa festa ou em qualquer outro momento festivo da criança, não devem discutir ou entrar em conflito à frente da criança e dos seus amigos;
  • Não expor a vida da criança (mesmo quando fala de si) nas redes sociais. A probabilidade da criança ouvir comentários desagradáveis é enorme e o dano que isto pode provocar nela também;
  • Deixar a criança levar as suas roupas, brinquedos e outros pertences para a casa do pai/mãe. São dela.
  • Não usar a criança como mensageiro para falar com o outro progenitor. Este tipo de envolvimento da criança é totalmente desaconselhado e causa ansiedade, tristeza e mágoa. Os adultos devem agir como tal e comunicar entre si pelo bem-estar dos seus filhos.

A residência alternada é a melhor opção para todas as crianças?

Fevereiro 3, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de António Castanho publicado no Diário de Notícias de 24 de janeiro de 2020.

A grande maioria das crianças quer um relacionamento com os pais depois da separação, e a maioria dos pais quer e pretende manter um relacionamento pleno com os filhos/as.

Nesta fase da discussão, já não existe espaço para questões como a vinculação, se a mãe ou o pai tem ou não mais ou menos capacidade para cuidar de uma criança ou se a criança tem direito à presença dos pais na sua vida. A ciência já respondeu a isto e não deve existir lugar a dúvidas.

Após o divorcio/separação dos pais, a família da criança continua a existir e a residência única é um modelo por vezes desadequado e sempre que possível devem ser dadas às crianças as condições necessárias para possam passar tempo de qualidade com mãe e pai depois da separação ou divórcio, e sempre que possível através de um modelo justo para ambos os progenitores e para a criança. Os estudos comprovam isso.

Existem, contudo, neste mundo ideal, alguns problemas de partida que se podem acentuar se o Estado assumir a condição de regulador único do Superior Interesse da Criança partindo do princípio que o melhor para todas as crianças e famílias é aplicar sempre a mesma bitola e decretar para todos os casos, a residência alternada e a guarda partilhada.

Com o pressuposto, de que a residência alternada é o melhor para todas as crianças, esquecemo-nos que pode ser a melhor ou a pior de todas as opções. É a melhor opção quando os pais se centram na criança e cooperam e poderá ser pior das opções quando existe um conflito que coloca no meio de uma guerra e que a criança funciona como arma de arremesso.

A minha experiência profissional permite-me assegurar que:

– Os pais devem continuar a decidir, como sempre o fizeram, sem a intervenção do tribunal ou de outras instituições do Estado.

– Pais que não estão em conflito resolvem, frequentemente, a guarda das crianças sem recorrer ao tribunal.

– Em regra, os pais não necessitam que o Estado assuma o seu papel, decretando medidas como a residência alternada e quando o fazem é por existe um conflito.

– Em casos em que o conflito é de baixa intensidade, o papel regulador do Tribunal é pontual e resolve a situação com intervenção mínima.

– Mais importante que o tempo passado com os filhos, é a qualidade desse tempo.

– Pais em conflito esquecem-se das crianças tornando-se estas um meio para atingir um fim e que estas são completamente ignoradas e tornam-se, tristemente, objetos divididos ao meio.

– Agressores/as controladores/as, mesmo sem registo de violência, utilizam as crianças como uma extensão do seu controlo sobre o outro utilizando o sistema para o perpetuar.

– A residência alternada requer grande coordenação logística por parte dos progenitores (seja a 50%, 40% ou 30%) e muitos pais vivem a dezenas ou centenas de quilómetros e/ou trabalham por turnos, sem rede de suporte.

– A residência alternada em casos de conflito grave é, e quem trabalha com crianças sabe, a pior das opções.

No entanto, para qualquer opção, incluindo a guarda partilhada ou residência alternada, é importante perceber se estão garantidas:

  1. as necessidades físicas, emocionais, sociais e educacionais, incluindo a necessidade de estabilidade e segurança, tendo sempre em conta a idade e o estágio de desenvolvimento da criança;
  2. a disposição de cada progenitor/cuidador para apoiar o desenvolvimento e a manutenção do relacionamento da criança com o outro;
  3. o histórico de cuidados e os planos propostos para o cuidado e educação, levando em consideração as necessidades físicas, emocionais, sociais e educacionais da criança;
  4. as opiniões e preferências da criança sempre, que possível;
  5. a natureza, força e estabilidade do relacionamento entre a criança e cada um dos progenitores/cuidadores e outras pessoas significativas na vida da criança;
  6. a capacidade de cada progenitor/cuidador de comunicar e cooperar em questões que afetam a criança;
  7. o impacto de qualquer violência, abuso ou intimidação, independentemente da criança ter sido diretamente exposta ou ter experimentado a situação;
  8. a natureza da violência, abuso, intimidação, frequência e há quanto tempo aconteceu;
  9. os danos causados à criança pela violência, abuso ou intimidação;
  10. A opção de residência/guarda exigirá cooperação entre os pais/cuidadores e avaliação se esta cooperação ameaça a segurança da criança, do outro progenitor ou outra pessoa.

Aqui chegados, reafirmo que defendo a residência alternada sempre que se confirme como o melhor, assegurando o Superior Interesse da Criança e não de outros interesses e que a residência alternada é uma boa opção, mas existem outras igualmente boas. Para que o Superior Interesse da Criança seja garantido, a criança e a família devem ser vistas como únicas e não incluídas em tabelas decisórias.

Os/as decisores/as, nos casos em que são chamados a intervir, têm de dedicar energia, atenção, sensibilidade que cada criança merece, não arriscando medidas tabelares para todos os casos.

Não devemos esquecer que os pais já se articulam e decidem o melhor para os seus filhos e quando tal não acontece o regime legal já prevê e aplica a medida considerada a melhor ao caso concreto, cada vez mais, a residência alternada.

Assim, a residência alternada pode constituir a melhor opção, mas pode também constituir um limbo para a criança, se for aplicada forma tabelar ignorando a especificidade de cada caso e a singularidade de cada criança.

Psicólogo Clinico/Psicoterapeuta (ex-OPC e ex-Comissário numa CPCJ)

Quando a escola se transforma num campo de batalha de pais separados – o que fazer?

Dezembro 5, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eva Delgado-Martins publicado no Público de 1 de dezembro de 2019.

VI Encontro CPCJ´S – “A geração i: Crianças de hoje, Adultos de amanhã – Que Futuro?” com a participação de Paula Duarte do IAC, 8 novembro em Tentúgal

Outubro 16, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Dra. Paula Duarte, coordenadora do Instituto de Apoio à Criança – Pólo de Coimbra irá participar com a comunicação “Um mundo melhor para a criança : uma responsabilidade de todos”.

Inscrições até 5 de novembro no link:

https://www.cm-montemorvelho.pt/index.php/residentes/comunicacao/eventos-e-agenda-cultural/item/3752-vi-encontro-cpcj-s-a-geracao-i-criancas-de-hoje-adultos-de-amanha-que-futuro-tentugal

As férias dos filhos de pais divorciados

Julho 29, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 25 de junho de 2019.

O que fazer quando, por alguma razão, a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

As férias escolares chegaram e, como em todos os anos por esta altura, temos um calvário que se repete. O calvário das férias dos filhos de pais separados.

A separação ou divórcio parental é (ou deveria ser) apenas entre os elementos do casal, e não entre pais e filhos. Entre pais e filhos não há divórcio. Assim, e partindo sempre do pressuposto que as crianças têm o direito a conviver regularmente com ambos os pais, os períodos de férias tendem a ser (e bem) igualmente repartidos com cada um deles. Mas atenção, porque nesta distribuição do tempo durante as férias e, particularmente agora, nas férias de Verão (mais extensas), há uma variável chave que deve ser tida em conta: a idade da criança.

Os períodos de tempo que a criança deverá passar com cada um dos pais devem ter em conta a sua idade e nível de desenvolvimento, e não apenas aquilo que dá mais jeito aos pais.

As crianças a partir dos dois ou três anos de idade têm uma noção de tempo que, na maioria das situações, não vai além do “hoje” e do “amanhã”. À medida que crescem, até aos cinco ou seis anos de idade, a sua noção de tempo aumenta um pouco mais, conseguindo já entender o que significa “hoje”, “amanhã”, “ontem” e “depois de amanhã”. Ainda recentemente uma criança de cinco anos me dizia que algo iria acontecer “duas vezes amanhã”, o que traduz bem a sua dificuldade em situar-se no tempo.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças começam a interiorizar os conceitos de semana, fim-de-semana e mês. A escola e todas as rotinas a ela associadas ajudam as crianças neste tipo de aquisições.

Quando pensamos na divisão do tempo de férias de Verão com os pais, a noção de tempo daquela criança em concreto deve ser tida em conta. Ainda que estejamos a falar de um período que apenas acontece uma vez no ano, a regra base é simples: a criança não deve passar períodos de tempo que sejam muito mais longos do que aqueles que é capaz de compreender.

O que significa isto?

As crianças até aos três anos devem passar períodos de tempo mais curtos, que lhes permitam não estar mais do que três ou quatro dias seguidos sem estar com o outro progenitor.

As crianças em idade pré-escolar, com maior capacidade para lidar com as separações, já conseguem lidar com intervalos de tempo de cerca de uma semana, sem que a distância face ao outro progenitor seja geradora de stresse.

É a partir da idade escolar, de uma forma geral, que as crianças evidenciam um desenvolvimento cognitivo e emocional que lhes permite tolerar períodos de tempo mais longos, como uma quinzena.

E o que dizer dos adolescentes? Aqui, a nossa preocupação não se relaciona tanto com aspectos do seu desenvolvimento, mas sim com a necessidade, legítima, que sentem em estar com os amigos. Assim, será legítimo também ouvir o adolescente e tentar perceber de que forma a interacção com os seus pares poderá ser integrada nos períodos de férias escolares. Lembre-se que, para um adolescente, passar as férias todas com os pais e sem acesso aos amigos equivale a uma espécie de tortura.

E o que fazer quando, por alguma razão, esta regra não pode ser cumprida e a criança está longe de um progenitor mais tempo do que aquele que é capaz de compreender? Existem algumas formas de tentar minimizar o potencial impacto negativo que este distanciamento poderá ter na criança.

Uma imagem vale mais do que mil palavras

O Francisco tem um ano e meio de idade e nas férias irá estar uma semana com cada progenitor. Diariamente, faz uma videochamada com o progenitor que está longe. Mesmo que ainda não saiba falar muito bem, ouve a voz e vê a imagem, e a interacção é seguramente mais rica.

Torre de legos

A Inês tem três anos e vai estar uma semana com cada um dos pais. Como não tem ainda uma noção de tempo que lhe permita compreender o que isso significa, os pais arranjaram um jogo. No início de cada semana tem sete peças de lego espalhadas. Todas as noites, quando se deita, coloca uma peça em cima da outra. À medida que os dias vão passando, vai construindo uma torre. Ela sabe que quando a torre estiver completa será o dia de mudar para a casa do outro progenitor.

Um dia de convívio durante as férias

A Sara tem quatro anos de idade e tem o seu tempo de férias dividido por quinzenas. A meio de cada quinzena de férias com a mãe ela passa um dia inteiro com o pai. E vice-versa.

Caixa do tesouro

O Martim tem seis anos e tem o seu tempo dividido por quinzenas. Apesar de já ir para a escola este ano, ainda não consegue perceber muito bem o que são duas semanas seguidas. Então cada progenitor tem consigo uma caixa especial, que decorou previamente com ele, onde colocam pequenos objectos simbólicos durante o tempo em que estão longe. Uma flor de um jardim, uma concha da praia, um papel rabiscado com um desenho. Quando se reencontram, abrem juntos esta caixa e exploram cada objecto. Qual a mensagem que é transmitida? “Penso em ti mesmo quando estou longe de ti, nas mais pequenas coisas do dia-a-dia.”

Vamos tentar?

 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL

Carta aberta aos pais divorciados em conflito

Fevereiro 19, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 18 de janeiro de 2019.

Caros pais separados ou divorciados, e que estão em conflito, esta carta é para vocês.

Não interessa a vossa idade, profissão ou estatuto socioeconómico. Não interessa se vivem numa barraca, numa casinha modesta ou numa mansão que vale milhões, no centro da capital. Não interessa também o volume da vossa conta bancária, o carro que conduzem ou o colégio que os vossos filhos frequentam. Se têm empregada externa ou interna, se não têm empregada nenhuma, se viajam muito ou pouco, nada disso realmente importa.

Aquilo que realmente importa é o que estão a fazer, muitos de vocês, aos vossos filhos.

Podia tecer aqui inúmeras considerações sobre o impacto negativo que as vossas discussões têm no bem-estar das crianças. Explicar o quão danoso é expor as crianças ao conflito, utilizá-las como arma de arremesso numa guerra que é vossa, e não delas, ou torná-las mensageiros entre os pais. Podia ainda explicar os sentimentos de tristeza e ansiedade que as crianças experienciam, o medo, a desconfiança, os conflitos de lealdade. Já para não falar das noites mal dormidas destas crianças, povoadas de insónias e receios, bem como das dificuldades em concentrarem-se na escola, por terem a cabeça tão cheia de pensamentos maus.

Mas porque explicar tudo isto tem, para tantos pais, impacto zero, na medida em que continuam centrados em si próprios e no conflito, ignorando totalmente o bem-estar das crianças, iremos abordar o assunto de outra forma.

Vamos utilizar um paralelismo com os maus tratos físicos, que são, efectivamente, mais fáceis de identificar. A única diferença é que os maus tratos físicos deixam marcas visíveis.

Deixo o resto à vossa consideração.

Dizer mal do pai ou da mãe na presença da criança equivale a dar-lhe um murro na cara.

Proibir a criança de levar as suas coisas de uma casa para a outra, alegando que são da «casa da mãe» ou da «casa do pai», equivale a apertar-lhe o pescoço.

Gerar discussões nos momentos festivos da criança, como a sua festa de aniversário, na presença dos amigos, equivale a dar-lhe pontapés e socos na barriga.

Dizer à criança que o pai ou mãe não gosta dela equivale a queimar-lhe o peito com um cigarro.

Proibir a criança de falar ou estar com o pai ou a mãe equivale a bater-lhe com a fivela do cinto nas costas e nas pernas.

Perguntar à criança se gosta mais da mãe ou do pai equivale a chicoteá-la com fios descarnados.

Gritar, berrar, ofender ou bater no outro, na presença da criança, equivale a derramar por cima dela uma frigideira com óleo a ferver.

Por fim, expor tudo isto nas redes sociais ou na televisão, equivale a prostituir a criança.

Sobre os jornalistas que publicitam e promovem esta violência, na senda de um aumento de audiências, pois equivale ao crime de lenocínio.

 

 

Programa de intervenção para Pais em conflito Coparental Pós-Separação ou Divórcio ​For2Parents

Outubro 10, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O que é o For2Parents?

​É um programa de intervenção psicológica para pais separados ou divorciados, em conflito judicial, por questões relacionadas

​com a guarda e/ou custódia dos filhos, promovido ​pela Escola de Psicologia da Universidade do Minho.

Proporciona, de forma gratuita, uma resposta inovadora para o conflito parental pós-divórcio.

mais informações no link:

https://www.psi.uminho.pt/pt/Sociedade/Paginas/Formacao.aspx

Como é o teu Natal? – pela voz de adolescentes com os pais separados.

Dezembro 24, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://uptokids.pt de 20 de dezembro de 2015.

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Está a chegar o Natal. A escola fecha para férias e as famílias preparam aquele que, supostamente, é o momento do ano em que se vive a paz e a harmonia.

Ouvimos dizer que o Natal é das crianças e quando o pai e a mãe não vivem na mesma casa, o Natal é necessariamente diferente.

Em vez de falarmos sobre o tema especulando como é que as crianças de pais separados vivem esta quadra, decidimos pedir a alguns pré adolescentes e adolescentes que nos dissessem como sentem e vivem o Natal…

No final cabe aos adultos enquanto pais sentirmos aquilo que os nossos filhos nos dizem. E talvez repensarmos e aprendermos com estes testemunhos, que o verdadeiro espírito natalício por vezes se perde por não sermos capazes de cumprir o nosso papel de adulto responsável. Podemos quase sempre decidir, escolher e comunicar sob o lema da paz, nem que seja só porque é Natal…

13 anos | Rapariga | Os pais nunca viveram juntos.

“Passo o Natal com a minha família, a mãe, os primos, o avô e os tios. Não mudava nada.”

13 anos  | Rapariga | Os pais estão separados há 11 anos.

“Gostava de passar o dia 24 com o pai e o dia 25 com a mãe, de forma alternada para poder estar com os dois no Natal. Teria que ser um dia com cada um, porque não se dão bem e quando estão juntos discutem”.

Diz que não tem sido possível porque o pai está neste momento a viver em França e não pode vir muitas vezes a Portugal. Há uns anos esta menina vivia em Angola e o pai em Portugal e refere que nessa época era ela que não conseguia vir cá.

15 anos | Rapaz | Os pais estão separados há 14 anos

“O meu Natal é muito feliz… um ano passo com a minha mãe e outro ano passo com o meu pai, noite e dia alternadamente.

Diz que não mudava nada, porque está bem como está.

14 anos | Rapaz | Os pais estão separados há 13 anos

“O meu Natal com os meus pais separados é diferente dos normais, já há muitos anos que a noite de natal (24 Dez) é passada com a minha mãe e o almoço de dia 25 é passado com o meu pai”

Diz que não sabe se mudava alguma coisa porque não se lembra dos pais juntos, pois estão separados desde os seus 18 meses.

 13 anos | Os pais estão separados há 1 ano

“O meu Natal é sem a minha mãe, mas com o meu pai, com o meu irmão e o meu avô. Se eu pudesse mudar alguma coisa punha os meus pais juntos.”

14 anos | Rapaz | Os pais estão separados há 5 anos

“O meu Natal é bom como antes, pois os meus pais já encontraram os dois outra pessoa e até o celebro com duas famílias e duas vezes. Se eu pudesse mudar alguma coisa não mudava nada, pois vejo os meus pais mais felizes e eu também fico mais feliz, assim tenho mais irmãos da minha idade.”

16 anos | Rapariga | Os pais estão separados há 8 anos

“O meu Natal é bastante normal, dentro dos possíveis, sendo que os meus pais estão separados. Passo a noite de 24 com a minha mãe e o almoço de 25 com o meu pai.

Não gostaria de mudar nada uma vez que sinto que sou mais chegada à minha mãe do que ao meu pai. Não sinto muito a falta do meu pai na noite de 24 porque, como os meus pais se separaram já há algum tempo, estou bastante habituada ao processo.

Sei que esta situação é o melhor e apesar de gostar que os meus pais continuassem juntos, sei que o facto de não estarem é para bem do resto da família.

Para além disto, não dou muita importância ao Natal, apenas gosto de estar com a minha família mais próxima.”

10 anos | Rapariga | Os pais estão  separados há 6 anos

“Este natal eu vou passar o dia 24 de Dezembro em casa da minha mãe e o dia 25 de Dezembro com o meu pai. Todos os anos o meu pai e a minha mãe trocam.

 Se eu pudesse mudar alguma coisa era que o meu irmão fosse simpático e brincasse comigo.”

16 Anos | Rapaz | Os pais estão separados há 1 ano

“Para mim o Natal é uma quadra que “morreu” um pouco, ou simplesmente hibernou da minha vida por uns anos até voltar a haver o conceito de família, desta vez criado por mim, pois ele desapareceu!

É uma época que se tornou menos alegre, embora veja os dois, normalmente janto dia 24 com o meu pai e depois vou a casa da minha mãe. No dia 25 alterno de ano para ano o almoço com os meus pais.

Neste momento, muito sinceramente, não mudaria nada, pois foi uma separação complicada e ainda é, se fosse logo a seguir acho que o que mudava era voltar a fazer tudo de modo a ficarem juntos, mas agora já não. Para mim também foi complicado, por isso seria difícil e estranho voltar a vê-los juntos.”

16 anos | Rapaz | Os pais estão separados há 12 anos

“Passo a véspera de Natal com um dos meus pais e o dia com outro, alterno todos os anos para não passar sempre os mesmos dias com um ou outro.

Se pudesse passava sempre a véspera com a minha mãe e o dia com o meu pai, pois a família da minha mãe tem muito mais tradição.”

13 Anos | Rapariga | Os pais estão  separados há 13 anos

“O Natal não tem grande significado religioso para mim, confesso que associo a palavra Natal a presentes, não a família, apesar de o passarmos juntos. Quando era mais nova passava-o com a minha mãe e com a avó. Muitas vezes a mãe só chegava do trabalho, na noite de Natal, depois da meia-noite, pois é enfermeira.

Nos últimos anos tenho passado com a minha mãe, o meu padrasto e os seus respectivos familiares.

Este ano, vou passar com a minha mãe e os familiares da parte dela, apesar de no ano passado a noite de Natal com a minha família da parte do pai.

Não mudaria nada, pois a família não é obrigada a estar junta, não há lei para isso. O que interessa é o bem-estar e o conforto”

14 Anos | Rapaz | Os pais estão separados há 3 anos

“O meu Natal com os pais separados é um pouco diferente do usual, porque nesta época encontramo-nos na mesma aldeia e passo o natal em casa dos dois.

Eu não mudaria nada.”

 

Este artigo foi escrito em parceria com a How To  – Centro Educativo.

Um agradecimento especial a todos os que participaram respondendo às questões que permitiram escrever este artigo.

A todos um Feliz Natal!

 

 

 

 

 


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