A privação de sono está a afetar a vida de milhares de crianças

Agosto 24, 2016 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do site http://lifestyle.sapo.pt/

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Os estudos, quase todos alarmantes, sucedem-se. Para não prejudicar o desenvolvimento dos seus filhos, implemente estratégias que permitam que as noites em sua casa passem a ser de puro descanso

Uma nova investigação da Islândia, tornada publica no início de agosto de 2016, vem alertar para o facto das crianças europeias estarem a dormir cada vez menos. Estudos do National Center on Sleep Disorders Research (NCSDR) revelam também que crianças privadas de sono estão mais sujeitas a ter acidentes, são mais fracas e apresentam baixo rendimento escolar. Muitas delas parecem hiperativas, podendo transformar-se em adultos obesos e com problemas respiratórios e coronários.

Investigações paralelas, levadas a cabo em Itália, corroboram a mesma ideia. Aquelas que entre os três e os cinco anos, durmam menos de dez horas por dia, têm mais 86 por cento de probabilidades de sofrer acidentes. Por isso, mentalize-se que pôr o seu filho a dormir a tempo e horas é tão bom para si como fundamental para o desenvolvimento dele. Entretanto, a associação American Academy of Sleep Medicine também está atenta.

Nos primeiros meses de 2016, este organismo reviu em alta o número de horas que os mais pequenos devem dormir para garantir um desenvolvimento saudável, como pode ver aqui. Em julho, um grupo de especialistas do Murdoch Children’s Research Institute, afeto ao Royal Children’s Hospital, em Melbourne, na Austrália, identificou, numa amostra de 4.460 crianças entre os 6 e os 7 anos, cerca de 22,6% dormem regularmente mal.

Estágios do sono

Cerca de um terço da nossa vida é passada a dormir. E não é por sermos preguiçosos. Sem dormir não somos capazes de retemperar forças ou de criar resistências para o dia a dia. Neste ponto, os bebés não são excepção. A diferença é que os adultos podem adormecer de repente, ao passo que os mais pequenos, para atingirem o sono profundo, demoram um pouco mais.

A criança passa por duas fases distinta de sono, o não-REM (profundo, em que respira calmamente sem mexer os olhos) e o REM (agitado e superficial, em que a respiração é irregular e o coração fica acelerado). Assim se explica que você já tenha acordado sobressaltado com episódios noturnos do seu filho que não consegue explicar (movimentos, terror noturno, pesadelos, sonambulismo), mas que é natural que aconteçam.

Horas de sonho

Mas afinal quanto tempo deve a criança dormir? Tenha a noção de que o seu filho tem necessidades próprias, embora existam padrões de sono para cada idade. Até os dois meses, o bebé dorme ao longo das 24 horas do dia, por períodos entre os 30 minutos e as três horas, acordando frequentemente durante a noite. A partir desta idade começa a existir um ritmo regular de sono e a criança vai acordando mais durante o dia.

Com meio ano, já dorme 11 horas à noite, por períodos mais longos. Após o primeiro aniversário, repousa um total de 14 horas e meia, bastando-lhe uma ou duas sonecas, num total de duas horas. Seis meses depois, é normal que não sinta necessidade de dormir de manhã. As sestas são dispensáveis, entre os dois anos e meio e os cinco anos. Segundo o estudo da NCSDR, crianças entre os sete e os onze anos devem dormir pelo menos nove horas.

Veja na página seguinte: Os (maus) hábitos que deve evitar

Os (maus) hábitos que deve evitar

Uma das principais regras para que o seu bebé durma descansado, e você também, é colocá-lo no berço de costas. Esta é uma norma de ouro na prevenção da síndrome da morte súbita do lactente. Por outro lado, não durma com ele pois a criança corre perigo de sufocar. É possível que, mesmo mais crescido, ele insista em aninhar-se na sua cama. Mas seja firme. Essa situação poderá afetar a sua relação conjugal.

Pode interferir na medida em que pode contribuir para que ela não consiga dormir noutro local, tornando-se demasiado dependente de si. Leve-a carinhosamente de volta ao quarto, coloque-a na cama e explique-lhe que não há razões para medos. Outra dúvida frequente é saber o que fazer quando o seu filho chora.

A sua tendência é ir ver imediatamente o que se passa e levá-lo para a cama do casal. Mas alguns especialistas recomendam que se deixe o bebé sonolento no berço, mesmo que chore, voltando algumas vezes ao quarto para que sinta a presença dos pais. A ideia é dar-lhe hipótese de voltar a adormecer sozinho. É também um erro andar em bicos de pés ou sussurrar. Só o está a habituar a acordar ao mínimo ruído.

Ponha fim ao martírio

Já reparou que à medida que ele vai crescendo, maior é a tendência para querer impor a sua vontade. Método é, por isso, a palavra chave para si que quer pô-lo a dormir sem dramas. É fundamental que crie uma rotina diária que torne a hora do sono um acontecimento natural. Habitue-o, por exemplo, a não deixar os trabalhos de casa para a última da hora e a dormir entre as 21h30 e as 22h00.

Prepare-o para esse momento, avisando-o com antecedência. Se ele resistir, pode explicar-lhe o quão importante é dormirmos. Por outro lado, se ele encarar o quarto como um local lúdico, durante o dia, verá que à noite não revelará tantas resistências em ir para a cama. Aconchegá-lo, contar-lhe uma história ou cantar-lhe uma canção são também truques eficazes para chamar o João Pestana.

Mesmo que ele tenha medo, os especialistas recomendam que não se deixe a luz acesa, porque a escuridão é fundamental para o seu crescimento. Pode, de qualquer forma, deixar a porta aberta, para que ele sinta que você está por perto. Depois saia do quarto e deixe-o nos braços de Morfeu. O deus dos sonhos encarregar-se-à do resto e o seu filho conseguirá o tão almejado descanso, que lhe permitirá desenvolver-se com saúde.

Texto: Nazaré Tocha com Luis Batista Gonçalves (edição online)

 

As crianças e a televisão: riscos

Outubro 20, 2010 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo publicado no Portal Educare no dia 6 de Outubro de 2010.

Serviço de Pediatria do Hospital de Braga

As crianças com menos de 8 anos, têm muitas dificuldades em entender que a publicidade é uma forma de vender um produto, tornando-se assim impossível ver qualquer defeito no objecto anunciado. Os riscos de ver muita televisão são bem conhecidos e estudados.

Violência
A violência na televisão surge como uma ameaça ao seu filho de duas formas diferentes. Em primeiro lugar, embora os pais queiram transmitir aos filhos que a violência e a agressividade não são o melhor caminho para a resolução de problemas, muitas vezes a televisão apresenta-a sob o ponto de vista dos “bons”, dos heróis que simplesmente fazem justiça e dão aos “maus” aquilo que eles merecem, transmitindo a ideia errónea de que, dependendo de quem a pratica e das suas intenções, a agressividade é um acto justificado. Por outro lado, ver cenas de violência pode assustar a criança, de formas variadas dependendo da sua idade. Dos 2 aos 7 anos, a criança fica particularmente assustada com cenas que apresentam figuras grotescas como bruxas e monstros, pois nesta fase tem ainda alguma dificuldade em distinguir a fantasia e a realidade. Mais tarde, dos 8 aos 12 anos os medos associam-se a cenários de desastres naturais, guerras ou situações em que as crianças são vítimas, quer estas sejam apresentadas em ficção, nas notícias ou em reality-shows.

Comportamentos de risco

Quem vê televisão sabe que quer em séries de ficção, filmes ou anúncios, comportamentos de risco como o consumo de álcool, drogas ou tabaco são apresentados como sendo cool e normal, não apresentando muitas vezes as reais consequências destes hábitos. Da mesma forma, a actividade sexual é muitas vezes banalizada e descontextualizada, não se dando qualquer importância ao perigo de doenças sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência e outras doenças problemáticas que daí poderão advir.

Obesidade

Bem conhecida e comprovada é a ligação entre a televisão excessiva e a obesidade infantil, esta última constituindo já um grave e preocupante problema de saúde pública. As razões desta associação são óbvias: por um lado, se uma criança passa grande parte do seu tempo a ver televisão (actividade que não exige grande dispêndio de energia), passa menos tempo a realizar actividades menos sedentárias como jogar à bola, ou às escondidas, que exigem que corra ou se movimente, tornando-o mais susceptível ao aumento de peso. Por outro lado, a criança é bombardeada constantemente com anúncios de alimentos “fáceis”, apelativos e altamente energéticos como os snacks, hambúrgueres, chocolates, gomas, batatas fritas e bebidas gaseificadas, que ainda por cima associam muitas vezes a oferta de brindes (dos heróis da TV mais conhecidos), tornando-as absolutamente irresistíveis para qualquer criança. Esta combinação de sedentarismo com alimentos de elevado teor calórico é uma das grandes responsáveis pela epidemia do século XXI como já é apelidada a obesidade!

Alteração dos padrões de sono

O risco de vermos alterados os padrões de sono das nossas crianças pelo facto de verem muita televisão apresenta-se sob duas formas: a primeira, e decerto bem presente no dia-a-dia de muitas famílias reside na dificuldade que muitos pais têm em arrancar os filhos da frente do ecrã na hora de deitar. Cada vez mais programas com conteúdos apelativos para os mais jovens passam a horas tardias, fazendo com que muitas vezes o sono seja preterido em detrimento deste ou daquele programa. Deste modo a criança deita-se mais tarde, mantendo a hora de levantar, ficando privada do sono tão essencial para o seu normal desenvolvimento e rendimento escolar. A outra forma da afectação do sono prende-se com o conteúdo dos programas a que a criança assiste. Nos mais novos, figuras agressivas (monstros, bruxas, etc.) geram medos e angústias que podem perturbar o sono causando insónia ou terrores nocturnos. Nas crianças mais velhas, que assistem frequentemente aos noticiários, pode levar a uma certa ansiedade e medo de acontecimentos muitas vezes aí reportados como crimes violentos, guerras ou catástrofes naturais.

Publicidade

A publicidade é um dos grandes perigos da televisão, não só por influenciar aspectos como a obesidade e os comportamentos de risco, como pela ansiedade que pode causar na criança que quer ter determinado produto altamente publicitado. Isto pode constituir um grave problema para os pais na medida em que o filho simplesmente exige o objecto anunciado, causando muitas vezes rivalidades e disparidades entre os pares (os amiguinhos que têm e os que não têm). As crianças com menos de 8 anos têm muitas dificuldades em entender que a publicidade é uma forma de vender um produto, tornando-se assim impossível ver qualquer defeito no objecto anunciado, tornando-o ainda mais apelativo.

Por fim, alguns conselhos para os pais que querem tornar a televisão uma actividade mais segura para os seus filhos:

– Retire a televisão do quarto das crianças e coloque brinquedos, jogos e outras alternativas apetecíveis na divisão onde esta se encontra.

– Desligue-a na hora da refeição, privilegiando assim um momento de convívio em família.

– Seleccione os programas mais adequados de acordo com a idade da criança, e idealmente, veja-o com o seu filho – isso proporcionar-lhe-á uma forma de filtrar conteúdos, bem como ir explicando e educando à medida que o programa decorre.

– Discuta as suas preocupações com outros pais e professores, assim poderá evitar que o seu filho seja o único que não vê este ou aquele programa, sentindo-se de certa forma diferente.

– Veja também poucas horas de televisão: além de dar o exemplo, é mais tempo que poderá passar com o seu filho a praticar desporto, ler ou simplesmente brincar…

Joana Dias com a colaboração de Augusta Gonçalves, pediatra do Hospital São Marcos em Braga


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