Mais adolescentes europeus têm problemas de saúde mental

Maio 26, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 19 de maio de 2020.

Novo relatório mostra que um em cada quatro adolescentes sente-se nervoso, irritado ou com dificuldades em dormir pelo menos uma vez por semana; tecnologia pode ter benefícios, mas também aumentar vulnerabilidades; consumo de álcool e tabaco continua caindo, mas permanece alto.

O bem-estar mental de adolescentes entre os 11 e os 15 anos caiu entre 2014 e 2018 em 45 países da Europa e Canadá. A conclusão é de um novo relatório publicado esta terça-feira pelo Escritório Regional da Organização Mundial da Saúde, OMS.

A situação piora à medida que as crianças crescem, com as meninas em maior risco. Um em cada quatro adolescentes disse sentir-se nervoso, irritado ou com dificuldades em dormir pelo menos uma vez por semana.

Preocupação

 O diretor regional da OMS para a Europa, Hans Henri P. Kluge, afirmou que o crescimento “é uma preocupação para todos.” Segundo o especialista, a resposta dos governos “terá efeitos por várias gerações.”

Kluge diz “que investir nos jovens, garantindo que tenham acesso a serviços de saúde mental, trará ganhos de saúde, sociais e econômicos aos adolescentes de hoje, aos adultos de amanhã e às gerações futuras.”

Diferenças

Existe uma variação substancial entre países, mostrando que fatores culturais, políticos e econômicos podem ter um papel.

Em cerca de um terço dos países, aumentou o número de adolescentes que se sentem pressionados pelos trabalhos escolares. O número de jovens que gostam da escola caiu. Na maioria dos países, a experiência escolar piora com a idade. O apoio de professores e colegas também diminui à medida que a pressão escolar aumenta.

O estudo examina a relação com o aumento do uso da tecnologia. A tecnologia pode ter benefícios, mas também aumentar vulnerabilidades e ameaças, como assédio na internet, que afeta meninas de forma desproporcional. Mais de 10% dos adolescentes foram vítimas deste tipo de assédio pelo menos uma vez nos últimos dois meses.

Desafios

A pesquisa destaca comportamentos de risco, nutrição e falta de atividade física como desafios centrais
O comportamento sexual arriscado continua sendo uma preocupação, com um em cada quatro adolescentes que são ativos sexualmente não usando proteção. Aos 15 anos, 24% dos meninos e 14% das meninas dizem já ter tido relações sexuais.

Atividades como beber e fumar continuaram a cair, mas o número de usuários permanece alto, sendo o álcool a substância mais usada. Cerca de 20% dos jovens de 15 anos já se embebedaram duas vezes ou mais na vida. Além disso, 15% se embriagou nos últimos 30 dias.

Em relação à atividade física, menos de 20% dos adolescentes cumpre as recomendações da OMS. Desde 2014, os níveis caíram em cerca de um terço dos países, principalmente entre os meninos. Entre meninas e adolescentes mais velhos, a pesquisa diz que os níveis de atividade “continuam particularmente baixos.”

Alimentação e pandemia 

A alimentação também é uma preocupação, com a maioria dos jovens não cumprindo as recomendações nutricionais. Cerca de dois em cada três não comem alimentos ricos em nutrientes e um em cada seis consome bebidas açucaradas todos os dias.

Os níveis de sobrepeso e obesidade aumentaram desde 2014 e agora afetam um em cada cinco jovens. Cerca de 20% dos adolescentes se consideram muito gordos, principalmente as meninas.

Segundo o diretor do Programa de Saúde da Criança e do Adolescente da OMS Europa, Martin Weber, o relatório permitirá perceber quais as consequências da pandemia de covid-19. Weber diz que, no próximo estudo, “será possível medir até que ponto o fechamento prolongado da escola e o isolamento social afetaram as interações sociais dos jovens e o seu bem-estar físico e mental”.

O relatório compila extensos dados sobre saúde física, relações sociais e bem-estar mental de mais de 227 mil crianças em idade escolar de 11, 13 e 15 anos de 45 países.

Privação na primeira infância altera estrutura cerebral do adulto

Janeiro 14, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de janeiro de 2020.

A mesma elasticidade que nos permite adaptar e reagir a factores negativos e positivos pode deixar o cérebro humano vulnerável quando exposto a experiências psicossociais adversas.

Carla B. Ribeiro

A privação de estímulos, afectos, nutrição e higiene nos primeiros anos de vida tem consequências permanentes na formação do cérebro. E nem o facto de as vivências posteriores serem mais ricas é capaz de diminuir o impacte inicial.

A conclusão é de um estudo de uma equipa de investigadores das universidades King’s College de Londres, de Southampton, de Bath (Reino Unido) e de Bochum (Alemanha), publicado esta semana na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), a publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, que prosseguiu as descobertas de uma outra investigação, designada de Adoptados Ingleses e Romenos, do King’s College, publicada em 2017 na revista científica The Lancet, que acompanhou vários órfãos romenos acolhidos por famílias britânicas desde os anos 90 do século passado.

Cerca de 30 anos depois, os cientistas observaram que, entre aqueles, os que, até aos três anos, tinham passado mais de seis meses em instituições romenas apresentavam, já adultos, transtornos do espectro autista, uma diminuída capacidade de interacção social (transtorno de personalidade anti-social), desconcentração ou hiperactividade. Comparados aos órfãos que passaram menos de seis menos em instituições romenas e com aqueles que passaram pelo sistema britânico, o estudo concluiu que aqueles apresentavam cérebros mais pequenos, cerca de 8,6%.

Agora, um novo estudo vai mais longe e acrescenta que as privações (de estímulos, afectos, higiene, alimentação) nos primeiros anos de vida podem ser associados a alterações na estrutura do cérebro, que não são reversíveis mesmo depois de as crianças serem enquadradas em ambientes saudáveis.

De acordo com a publicação, o grupo mais exposto a instituições com más condições revelou uma menor área de superfície e de volume no lóbulo frontal do lado direito, mas maior espessura, área de superfície e volume do lóbulo temporal inferior do mesmo lado. O primeiro facto, explicam os cientistas, foi relacionado com o tempo de exposição a condições deficitárias na primeira infância. Já o segundo parece ser de compensação, sendo que os indivíduos que manifestaram esta alteração apresentavam níveis mais baixos de défice de atenção/hiperactividade.
Cérebro elástico

A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de se adaptar e mudar dinamicamente em resposta às influências ambientais, promovendo ainda a recuperação do mesmo após lesões físicas ou insultos verbais. Porém, a mesma elasticidade que nos permite adaptar e reagir a factores negativos e positivos pode deixar o cérebro humano vulnerável quando exposto a experiências psicossociais adversas, como maus-tratos.
Segundo os investigadores, o cenário “pode ser especialmente verdadeiro durante a primeira infância, [período] caracterizado por mudanças rápidas e dinâmicas na estrutura e função do cérebro”. Além do mais, apesar de os indivíduos observados terem vivido durante mais de duas décadas em ambiente familiar estável, com adultos que lhes proporcionaram afectos e atenção total, os provenientes dos orfanatos romenos apresentavam graves problemas de saúde mental nos primeiros anos da idade adulta, sugerindo que as alterações que a privação provocou ao cérebro terão sido irreversíveis.

Estas descobertas, concluem, “são consistentes com a hipótese de que dificuldades severas e limitadas no tempo, vivenciadas nos primeiros anos de vida, podem ter um efeito adverso duradouro no desenvolvimento do cérebro que ainda é observável na idade adulta”.
Os órfãos de Ceausescu

O estudo teve por base a amostra final do estudo de 67 órfãos romenos, adoptados por britânicos, e 21 órfãos nascidos e institucionalizados no Reino Unido, no início da década de 1990, quando, meses após a queda de Nicolae Ceauşescu (1918-1989), o mundo foi surpreendido pelos relatos da existência de dezenas de milhar de crianças romenas que viviam em orfanatos, isoladas do resto da sociedade, sem condições de higiene, vítimas de maus-tratos e a sofrer de malnutrição.

Houve, na época, adopções em massa de muitos países, como foi o caso do Reino Unido, onde começaram a ser estudadas as crianças provenientes de tais ambientes. De acordo com os investigadores, os indivíduos observados foram institucionalizados nos primeiros dias de vida — muitas destas crianças eram abandonadas ou entregues aos orfanatos por pais que não conseguiam sustentar tantos filhos num país onde os contraceptivos eram proibidos e a natalidade encorajada —, tendo permanecido nesses espaços entre três e 41 meses.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Early childhood deprivation is associated with alterations in adult brain structure despite subsequent environmental enrichment

Inauguração da exposição “Bom Apetite! A ciência está na mesa” – 9 de Fevereiro no Pavilhão do Conhecimento às 18.30

Fevereiro 8, 2017 às 1:05 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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bom

mais informações no link:

http://www.pavconhecimento.pt/visite-nos/exposicoes/detalhe.asp?id_obj=4135

Sopa e peixe? Crianças consomem, adolescentes nem tanto

Outubro 10, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 22 de setembro de 2016.

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Um relatório do projeto “Almoço Virtual” mostra que mais de metade dos alunos dos seis aos 14 anos leva sopa nos tabuleiros, mas que a percentagem desce quando vão ficando mais velhos.

Novo relatório do projeto “Almoço Virtual” mostra que, à medida que envelhecem, as escolhas alimentares dos estudantes mudam e passam a consumir menos peixe e menos sopa.

O projeto “Almoço Virtual”, com a parceria da Direção-Geral da Saúde, monitorizou as escolhas alimentares em mais de 14.g00 crianças e adolescentes que frequentam escolas da Grande Lisboa durante o ano letivo 2015-2016. A análise mostra que maior parte dos estudantes analisados dava preferência a produtos excessivamente calóricos.

O estudo mostra que em mais de metade (57,5%) dos alunos entre os seis e os 14 anos levavam sopa nos tabuleiros. Na faixa etária seguinte, entre os 15 e os 18 anos, apenas 44% dos alunos escolhia levar sopa. No peixe, a frequência era maior nos alunos mais novos (23% escolheram peixe) do que nos mais velhos (21%).

Nos tabuleiros dos alunos mais velhos existe, por norma, mais carne e refrigerantes do que nos dos mais novos.

Na constituição da sua refeição, os adolescentes escolhem menos vezes sopa, peixe, água, legumes e fruta e mais vezes carne, cola e doces do que as crianças e do que os adultos, o que contribui para o facto de os adolescentes apresentarem um excesso calórico (67%) superior ao das crianças (62,6%).

João Martins, um dos responsáveis por este estudo, afirmou ao JN – na sua edição impressa – que os resultados “podem querer dizer que os mais novos ainda agem sob influência do que aprendem”.

O projeto “Almoço Virtual” promove a “informação e o espírito crítico das crianças e adolescentes” e pretende que estes façam escolhas alimentares saudáveis.

Depois do estudo, maior parte dos inquiridos revelaram querer mudar os hábitos alimentares, como se pode ver pelo gráfico abaixo.

A iniciativa do Almoço Virtual desenrola-se através da simulação de um self-service, disposto num autocarro, em que os inquiridos são convidados a escolher réplicas de silicone de alimentos comuns. O autocarro do Almoço Virtual vai rumar, durante o ano letivo 2016/2017, pelo Porto, Coimbra, Évora e Beja.

 

O telemóvel e a televisão também jantam com os portugueses

Dezembro 11, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://lifestyle.publico.pt  de 26 de novembro de 2015.

publico

Por Life&Style

Dietistas preocupados pois estes hábitos podem levar a maus comportamentos alimentares.

Cinco vezes por semana, 98% dos portugueses janta à frente da televisão ou com o telemóvel ao lado. Quem o diz é um inquérito levado a cabo pela Iglo, junto de cerca de 4500 pessoas.

Para a Associação Portuguesa de Dietistas (APD) e para o Movimento 2020 – um projecto da APD, com o objectivo de promover e implementar as boas práticas no que respeita à saúde alimentar e hábitos de vida saudável – estes hábitos podem levar a maus comportamentos alimentares.

Segundo Zélia Santos, presidente da APD e membro do conselho executivo do Movimento 2020, “o momento da refeição deve ir muito além da sua função nutricional, dada a conotação social e cultural que a alimentação tem nas nossas vidas. Cozinhar e conviver à mesa, na companhia de familiares e amigos, fomenta o bem-estar e cria condições para uma alimentação correcta e consciente. Por exemplo, a mesa é o cenário ideal para passar às crianças a importância de fazer uma alimentação equilibrada e criar apetência pelas escolhas mais saudáveis”. No contexto dos resultados apurados pelo inquérito, a responsável conclui: “Ao ritmo a que se vive, a hora de jantar torna-se no momento privilegiado para as famílias se reunirem e conversarem. Ao ocupar espaço com o telemóvel ou a televisão, há uma probabilidade acrescida de estarmos a tornar a refeição numa ingestão indiscriminada de alimentos e a perder o prazer do convívio, que é um dos conceitos em que assenta a dieta mediterrânica”.

O inquérito foi feito online através de um questionário, tendo a recolha de dados decorrido entre os dias 16 de Julho e 5 de Agosto de 2015. A amostra global é composta por 4469 indivíduos residentes em Portugal (86% do sexo feminino, 60% solteiros e 39% entre os 26 e os 35 anos), o que corresponde a uma margem de erro de 1,47%, para um intervalo de confiança de 95%.

 

 

 

A qualidade da alimentação nas nossas escolas

Novembro 3, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do blog http://nutrimento.pt de 12 de outubro de 2015.

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Foi publicado recentemente pela Dra. Joana Pinto de Carvalho, sob orientação da Prof. Doutora Margarida Liz Martins uma interessante investigação sobre o estado da oferta alimentar nos bufetes e máquinas de venda automática (MVA) em estabelecimentos públicos de 2º e 3º ciclos e ensino secundário da cidade do Porto.

Apesar de ser um estudo académico, que não dá informação nacional e da responsabilidade da oferta ser das próprias escolas, observou-se que 62,5% dos bufetes disponibiliza bolachas com elevado teor de gordura/açúcares e 56,3% tem produtos de pastelaria à venda. Dos bufetes observados quase todos fornecem alimentos não permitidos pelos regulamentos da Direção-Geral da Educação.

Estes dados sugerem, que apesar de existirem recomendações de elevada qualidade a nível nacional e da oferta ser boa, de um modo geral, ainda persistem muitas escolas com excesso de produtos de pastelaria à venda.

As soluções passam por uma maior vigilância e participação ativa dos encarregados de educação, por uma maior proatividade dos diretores e direção das escolas e maior vigilância e capacidade de fiscalização no geral.

Por outro lado, a oferta fora das escolas é muitas vezes de muito má qualidade comparada com a da escola mas a baixo preço, o que torna maior o desafio (colocado a toda a comunidade educativa, encarregados de educação incluídos).

A dissertação académica pode ser consultada aqui. Um trabalho para refletir e agir !

Imagem retirada de Dominic Morel

 

 

 

 

Más notas na escola? A solução pode estar na alimentação

Outubro 16, 2015 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 30 de setembro de 2015.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

A Western Dietary Pattern Is Associated with Poor Academic Performance in Australian Adolescents

Scott Barbour Getty Images

Um estudo científico sugere que os adolescentes com uma alimentação tipicamente ocidental (rica em carnes vermelhas, açúcares e gorduras) têm tendência a ter um desempenho escolar mais fraco.

Marta Gonçalves

Alguma vez pensou que as más notas do seu filho podem estar associadas à alimentação? Pois a solução para um melhor desempenho escolar pode estar no prato. Um estudo divulgado recentemente pela a revista “Nature”, identificou que os adolescentes que ingerem regularmente carnes vermelhas e alimentos ricos em açúcar e gorduras têm um “pobre desempenho académico”.

“Identificámos a dieta ocidental como um fator de risco para um pobre desempenho académico durante a adolescência, um período sensível para o cérebro e uma fase da vida vulnerável no que diz respeito à nutrição”, lê-se nas conclusões do estudo. A dieta ocidental (que de dieta, no sentido mais comum da palavra, não tem nada) é rica em carnes vermelhas, doces, comida com muita gordura, farinhas, bebidas com açúcar e carnes processadas.

Em média, os resultados a matemática, escrita e leitura dos jovens que seguem a dieta ocidental são 7% inferiores aos resultados obtidos pelos adolescentes cuja alimentação é à base de vegetais e cereais integrais. É durante os anos da adolescência que o cérebro atravessa uma fase crítica de alterações e a comida saturada e pobre em nutrientes dificulta esse desenvolvimento.

A investigação teve lugar na Austrália. Ao longo do último ano, os cientistas falaram com centenas de jovens até aos 14 anos, no âmbito do Western Australian Raine Study, um estudo de larga escala sobre gravidez, infância, adolescência e começo da vida adulta. E inclui análises na área da saúde cardiovascular, desenvolvimento muscular, nutrição, sono, saúde mental, etc.

Este estudo australiano, assinado por Anett Nyaradi, Jianghong Li, Siobhan Hickling, Jonathan K. Foster, Angela Jacques, Gina L. Ambrosini e Wendy H. Oddy, não é o primeiro a relacionar a alimentação com o desempenho académico. Em 2008, um estudo canadiano comprovou que comer frutas e vegetais faz com que os jovens alcancem melhores resultados. Mais recentemente, em 2010, uma investigação sueca e islandesa apoiou essa conclusão.

 

 

 

 

 

Desigualdade à hora do jantar

Outubro 2, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem da Visão de 18 de setembro de 2015.

Nunca foi tão clara a associação entre o que se come e o estatuto social. Em Portugal há um milhão de obesos e 31,6% de crianças com peso a mais, que vivem sobretudo no campo e pertencem a famílias desfavorecidas. Paradoxalmente, a pobreza obriga a alargar o cinto

Sónia Calheiros (texto) e José Carlos Carvalho (fotos) – artigo publicado na VISÃO 1175, de 10 de setembro

Rita Quintela não dá ponto sem nó. Todas as sextas-feiras gasta parte da hora de almoço a elaborar a ementa da semana. Antes, consulta os menus escolares dos quatro filhos de modo a variar entre a carne, o peixe, os ovos e os vegetais. O que nunca muda é a sopa no início e a fruta no fim das refeições, tal como recomenda a Organização Mundial de Saúde: ingestão diária de, pelo menos, 400 gramas de frutas e hortícolas. Segue-se a consulta dos sites e blogues especializados em cupões de descontos. As compras quinzenais feitas online evitam tentações de campanhas desnecessárias ou produtos apelativos. “Com um orçamento mensal para seis pessoas resvés aos dois mil euros esta gestão financeira ajuda-me a ter uma alimentação saudável”, explica enquanto prepara uma lasanha de carne para o jantar. Tenta que nenhuma refeição exceda um euro por cabeça. No final, contas feitas, o tabuleiro de lasanha para seis fica pronto por 3,50 euros.

Legenda: (de cima para baixo) - Família Furtado Rendimento mensal: €700. Na ementa de Isabel, jardineira e guisados alternam com massas e fritos. Os filhos não dispensam os refrigerantes; Família Quintela Rendimento mensal: €2 000. Rita fez um tabuleiro de lasanha por 3,50 euros. Todas as refeições começam com sopa e terminam com fruta; Família Marques Rendimento mensal: > €2 000. Sara cozinhou salmão de aquacultura sustentável no forno com bulgur e salada biológicos

Legenda: (de cima para baixo) – Família Furtado Rendimento mensal: €700. Na ementa de Isabel, jardineira e guisados alternam com massas e fritos. Os filhos não dispensam os refrigerantes; Família Quintela Rendimento mensal: €2 000. Rita fez um tabuleiro de lasanha por 3,50 euros. Todas as refeições começam com sopa e terminam com fruta; Família Marques Rendimento mensal: > €2 000. Sara cozinhou salmão de aquacultura sustentável no forno com bulgur e salada biológicos

É ao domingo, a partir das seis da tarde, que forno e fogão começam a aquecer. Metódica, Rita vai para a cozinha alinhavar o que lhe há de facilitar a confeção das refeições durante a semana. Por seis euros compra três quilos de carne de porco da mais barata e junta-lhe 200 gramas de soja hidratada, cenoura, molho de tomate e um refogado feito com azeite, cebola e alho. “Usar a soja como proteína saudável faz reduzir o consumo de carne”, argumenta. Depois da carne cozinhada divide em seis porções, deixando metade a uso no frigorífico e congelando a outra metade. Nessa noite ainda faz uma das quatro panelas de sopa semanais com legumes vindos da horta de um tio (outra forma de poupar), e um bolo, se tiver tempo, pois lá em casa não entram sobremesas prontas. Costuma fazer comidas de tacho e não abdica das refeições vegetarianas – ora ratatouille ora cuscuz e tofu com legumes salteados. Apesar da variedade, as quatro crianças da família Quintela nunca devem ter comido linguado. “O peixe continua a ser um alimento caro e dentro do meu orçamento só cabem tentáculos de lulas, pescada congelada, filetes para fazer no forno e pastéis de bacalhau”, enumera. Todos os truques que usa para esticar o orçamento foram partilhados, durante alguns anos, no site Mãe Galinha, a que se seguiu o blogue “O Que É o Comer”, por agora em banho-maria.

Este poderá ser o típico exemplo da família de classe média que desde o início da crise, em 2008, tem vindo a apertar o cinto e a fazer cada vez mais ajustes alimentares, procurando não ceder aos alimentos processados e às comidas prontas – quase sempre mais baratas mas cheias de gordura e açúcar

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Legenda (da esquerda para a direita): Família Furtado A sobremesa de maçã do Banco Alimentar partilha o espaço com frango, sopa de lombardo, refrigerantes e margarina; Família Quintela É ao domingo que se prepara a maior parte das refeições da semana. Depois é só escolher uma caixa no frigorífico e aquecer. A sopa nunca falta; Família Marques De forma exímia cada prateleira é dedicada a um grupo de alimentos, na sua maioria biológicos, orgânicos, caseiros, livres de gorduras e açúcar

Nunca se gastou tão pouco com a alimentação. Segundo o Inquérito às Despesas Familiares, do INE, em 1995 os portugueses gastavam 21,5% do seu orçamento em alimentação, valor que baixou para 13,3%, em 2011. Desde o último Inquérito Alimentar Nacional já passaram 35 anos e nesse tempo muitos hábitos se alteraram. Até ao início dos anos 80, o paradigma era os ricos serem gordos. “Nessa altura o peso a mais e a opulência eram fatores sociais diferenciadores, bem vistos pela sociedade”, nota Pedro Graça, diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável. Havia a ideia de que as populações com mais capacidade económica, de um modo geral, tinham acesso a produtos mais calóricos. Até que a indústria alimentar começou a produzir calorias baratas. “Com o aumento do número de hipermercados, mudou a forma de consumo. Passou a comprar-se com menos regularidade e isso fez com que os produtos tivessem de ser conservados à custa de dois ingredientes: gordura e açúcar”, explica o nutricionista. Só em 1995 se fala, pela primeira vez, da relação entre o estatuto social e a obesidade. É o pediatra William H. Dietz que afirma que “a fome e a obesidade ocorrem com uma frequência aumentada nas populações pobres”. E isso pode parecer, à primeira vista, estranho, como nota Pedro Graça: “Como é que uma pessoa que não tem dinheiro para comprar comida acaba por engordar?” Os dados hoje são inequívocos, como ficou bem expresso no final do Ciclo de Conferências da Gulbenkian, o Futuro da Alimentação, que aconteceu em 2012: a incidência de obesidade é cinco vezes maior no estrato socioprofissional mais baixo, sobretudo em famílias de maior vulnerabilidade económica, com horários irregulares, trabalhando até muito tarde ou por turnos, desfasados do resto da família. As crianças, estando sozinhas, acabam por fazer escolhas piores, preferindo alimentos muito calóricos, ricos em gorduras e açúcares.

Engordar em frente à tv

Portugal tem a taxa mais elevada de mães trabalhadoras da União Europeia e, segundo um estudo da OCDE, de 2011, é também o país onde os filhos passam menos tempo com os pais (100 minutos/dia, contra os 400 da Irlanda, que lidera a lista). A televisão depressa passa a baby-sitter, o que também aumenta o risco de obesidade e de tensão arterial alta. E quanto menor é o grau de ensino, maior é o valor de obesidade, concluiu-se ainda num estudo sociodemográfico para avaliar a alteração dos valores de obesidade infantil da população portuguesa, de 2002 a 2009, liderado por Cristina Padez, investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Foram inquiridas 17 424 crianças, dos 3 aos 11 anos, de várias regiões do País, e a percentagem que passa mais de duas horas a ver televisão, ultrapassando os limites considerados de referência pela Academia Americana de Pediatria, dá que pensar: 28% de meninos e 26% de meninas, durante a semana. Ao sábado e domingo os valores disparam para 75 e 74 por cento. “Ver televisão tem maior impacto no excesso de peso pois as crianças ingerem comida menos saudável, ao contrário de quando usam o computador ou jogos eletrónicos, que exigem mais concentração e interação”, explica a investigadora Cristina Padez. Quarenta por cento destas crianças permanecerão obesas na idade adulta. As que conseguirem estabilizar o peso terão, ainda assim, maior risco de doenças cardiovasculares.

No mesmo sentido vai o estudo publicado por Elisabete Ramos, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, na revista científica Nutrition, onde se comprova que o sedentarismo tem efeito nas escolhas alimentares dos jovens. Dos 1 436 participantes com 13 anos, 52% gasta, em média, mais de duas horas por dia a ver televisão, ficando mais propensos a consumir alimentos com altos teores de gordura e de açúcar, em detrimento de frutas e de hortícolas

O cenário não melhora na adolescência, apesar de os jovens ganharem autonomia para praticarem exercício fora de casa e depois das aulas. O problema é mais acentuado no meio rural, onde vivem os rapazes e as raparigas entre os 13 e os 16 anos que menos se mexem. Apesar dos espaços em liberdade, durante o ano letivo os miúdos dos meios rurais passam mais tempo a ver televisão do que os das cidades, que têm uma maior oferta de atividades extra curriculares, como o desporto ou a música, concluiu um estudo da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra que, entre 2007 e 2012, analisou o comportamento de 500 adolescentes da região Centro (Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Leiria e Viseu). No campo, a média semanal nos rapazes é de 3 horas e 24 minutos em frente à televisão, enquanto os da cidade estão 2 horas e 48 minutos. Nas raparigas, o valor desce para 2 horas e 48 minutos e 2 horas e 24 minutos, respetivamente.

“Os de 15 e 16 anos são menos ativos do que os de 13 e 14. Há um decréscimo da atividade ao longo da adolescência, mais visível nas raparigas, que nestas idades privilegiam o convívio social em detrimento do exercício físico. Os rapazes têm sempre um campo de brita para jogar à bola”, diz  o autor do estudo, Aristides Machado-Rodrigues. “Quem mora em zonas seguras, bem iluminadas, perto de jardins com sombras e bebedouros, com bons acessos propícios para se deslocarem a pé, tem um comportamento mais ativo. Além da escola, também as famílias, as autarquias e outros agentes sociais devem organizar e promover hábitos de exercício físico entre os jovens.”

Sopa, mas só às vezes

No frigorífico de Isabel Furtado, 54 anos, há sopa de lombardo, mas depois de andar desde manhã na rua a jogar à bola, o seu neto Max prefere, às cinco da tarde, almoçar restos de frango assado e comer depois um gelado cheio de corantes e açúcar. Falta uma hora e meia para o rapaz de 14 anos ir jantar e encher três vezes o prato com frango guisado e esparguete. Enquanto o ano letivo não começa é ainda mais difícil impor-lhe regras e horários, queixa-se Isabel, que sai de casa às sete da manhã e até regressar, à uma e meia da tarde, não consegue controlar quem já almoçou nem o que comeu.

Só ao fim de semana é que consegue juntar à mesa os sete inquilinos da casa alugada há 24 anos no bairro Sá Carneiro, em Caxias (o casal com os três filhos de 27, 23 e 18 anos, e dois netos de 14 e 5 anos).

Com o marido desempregado há mais de dois anos e sem receber subsídio de desemprego desde maio, Isabel tem cerca de 700 euros mensais para gerir, arrecadados entre os 460 euros que traz para casa das limpezas, mais uns pozinhos de dois filhos. O baixo rendimento familiar faz com que precisem de apoio social. Uma vez por mês, recolhem os cabazes do Banco Alimentar, um de secos, outro de frescos. Nunca fez contas ao que gasta todos os meses em alimentação, o que sabe é que consegue “dar conta do recado” e pôr comida na mesa para todos. Como anda sempre atenta às promoções dos supermercados nunca lhe falta proteína no congelador. Nem feijão demolhado, nem rissóis de carne ou panadinhos de salmão, opções mais baratas para as refeições familiares. E o dinheiro ainda estica para refrigerantes e gelados. A matriarca costuma fazer sopa mas reconhece que às vezes tem de deitá-la fora. Os filhos e netos nem sempre querem… e ela não consegue obrigá-los.

Comemos mais do que precisamos

Diz-me o teu peso, dir-te-ei o que comes. O padrão de alimentação saudável recomenda a ingestão diária de 2 000 a 2 500 calorias, consoante se é mulher ou homem, e as proteínas devem ser repartidas entre 40% animal e 60% vegetal. Estes valores são largamente desrespeitados na maioria da população – e nem sempre por questões económicas. Dados da Balança Alimentar Portuguesa (BAP) 2008-2012 revelam que atingimos, em média, 3 963 calorias per capita, um aumento de 2,1% face aos números da BAP 2003-2008. O suficiente para saciar não um mas dois adultos. Desde os anos 1990 que os portugueses têm vindo a afastar-se da combinação saudável, consumindo 62,8% de proteína animal e 37,2% de vegetais.

Mesmo quem está informado cede aos apelos do marketing. “Mais do que identificar o inimigo é preciso criar opções saudáveis e baratas”, refere Pedro Graça. Vivemos numa sociedade obesogénica, um “palavrão” que a OMS usa para falar de um conjunto de alterações que interfere com as escolhas. “Costumo dizer aos meus alunos do 4.º ano de Nutrição, talvez as pessoas que mais sabem do tema em Portugal, que basta marcar-lhes aulas ou um exame entre as 11 e as duas da tarde para desregularem a sua alimentação”, exemplifica o professor

Como Sara Marques dos Santos não trabalha fora de casa, pode dedicar-se à pesquisa e leitura sobre alimentos orgânicos, gastar tempo na ida às compras a diversos supermercados, dar um salto à praça e ao mercado de biológicos, onde por mês gasta perto de 600 euros só em comida para o casal, duas empregadas (uma delas interna) e três filhos com 7, 4 e 1 ano e meio.

O conhecimento existe mas o tempo é fundamental para esta ex-advogada, 39 anos, pôr em prática tudo o que aprendeu no curso online de “health coach”, uma espécie de treinadora de bem-estar, do americano Institute for Integrative Nutrition.

Foi há sete anos, com o nascimento do primeiro filho, que se intensificou a preocupação com o que a família come. “Abria-se um caminho para ingerirmos cada vez menos químicos”, explica. Quico nasceu com paralisia cerebral e Sara viu na alimentação saudável a maneira mais fácil de potenciar a aptidão cognitiva do filho. Anda sempre a pesquisar quais os alimentos que tratam problemas, aumentam capacidades e mudam o estado de espírito. “Sou realmente diferente do tradicional, uso muitos produtos biológicos, cereais integrais, presto mais atenção aos rótulos e à tabela de ingredientes.”

Na casa de Sara e Miguel Marques dos Santos o frigorífico organizado é digno de uma revista de decoração. Nas gavetas inferiores arrumam-se os frescos da estação do Prove, um cabaz semanal com seis quilos que Sara compra por dez euros. Nas prateleiras superiores há pasta de amêndoa (para barrar o pão ou usar em batidos), manteiga clarificada indiana (ghee), hummus (pasta de grão), doces de abóbora e de marmelo feitos com açúcar de coco (o único que entra lá em casa), potes com queijo quark (0% de gordura e fermentos lácteos), puré de fruta e granula caseira feita com cereais, sementes, frutos secos e mel. Um caso sério de sucesso entre os amigos que leva Sara a ponderar a sua venda. Já anda, aliás, a testar embalagens e logótipos – quem sabe não aproveita a imagem do seu blogue “S de Salada”. Para aqueles momentos de fome antes das refeições existem umas “bolinhas energéticas” de amendoim, coco, manteiga de coco, manteiga de amêndoa, levedura de cerveja e tâmaras. Na porta há chocolate preto (70% cacau), iogurtes artesanais, picle caseiro de cenoura, leite de coco, pasta de sésamo, leite caseiro de aveia e espelta. No congelador, os gelados feitos com fruta fresca são “um mimo” para os filhos.

A cada refeição, preocupa-se em servir depois da sopa um prato com proteína, hidratos e vegetais. A fruta vem em sumo ou como sobremesa. Para o jantar, entre frango biológico ou lombo de salmão de aquacultura sustentável optou por fazer no forno o peixe com citrinos e molho de arando, acompanhado de bulgur (um substituto do arroz) e salada. De tudo o que Sara faz a única coisa que Miguel rejeita são os sumos com legumes. Apesar de ter sido atleta de alta competição de ski aquático e de sempre ter tido cuidado com o que comia, o advogado não consegue beber o “sumo do Hulk”, como lhe chama Duarte, de 4 anos. E, de vez em quando, também jantam fora, sem fundamentalismos, e até comem pizza e batatas fritas. Em casa, Miguel gosta de cozinhar massas (o único senão é que a mãe só come as versões integrais). Divergências ultrapassadas com muito sabor – mas também sem a preocupação de olhar para o preço dos melhores produtos, na hora de decidir o que será o jantar.

 

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Novembro 11, 2013 às 2:14 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Portugal – Alimentação Saudável em números – 2013

Outubro 25, 2013 às 1:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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O documento contém dados sobre crianças e adolescentes:

2.3. Hábitos alimentares em crianças até aos 36 meses na região Norte pág. 17

2.4. Hábitos alimentares em adolescentes pág. 21

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