A adolescência pode ir até aos 24 anos? Os cientistas dizem que sim

Março 24, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Maria Gralheiro

texto do http://observador.pt/ de 5 de março de 2018.

Rita Porto

Marcar o início e o fim da adolescência tem sido um desafio, mas há quem aponte para uma fase que vai dos 10 aos 24 anos. Alimentação, desenvolvimento cerebral e mudanças sociais são as causas.

“Não consigo imaginar um período do desenvolvimento mais desafiante. Sempre que dou uma palestra e pergunto ao público se alguém quer voltar a passar pela adolescência, ninguém quer.”

J. Casey, neurocientista da Universidade de Yale (“Self, Drugs and Self-Control”, Revista Nature)

É a época do crescimento em altura, mas também do aparecimento das borbulhas. Das emoções assolapadas e das desilusões desmedidas. Dos BFF (Best Friends Forever, ou Melhores Amigos Para Sempre) e da zanga constante com os pais. É o tempo do só se vive uma vez e da constante procura de respostas. Da vontade de explorar o mundo, tendo como pano de fundo a insegurança e as dúvidas.

A adolescência está a anos luz de ser uma época fácil na vida dos seres humanos, mas todos, feliz ou infelizmente, passam por ela. É inevitável, mas não dura para sempre. Eventualmente chega ao fim. É capaz é de demorar mais tempo do que o desejado. 14 anos parece-lhe muito? Não é o que pensam os investigadores australianos que defendem que a adolescência é um período compreendido entre os 10 e os 24 anos.

Há várias décadas que se tenta balizar esta fase marcada pelo fim da infância e pela entrada na vida adulta, mas não tem sido tarefa fácil. Este foi o tema de um dos artigos publicado numa edição da revista Nature totalmente dedicada à complexidade da adolescência.

“É muito difícil delimitar-se algo que, no fundo, é uma transformação. Pôr limites é tornar redutora a complexidade humana e a complexidade do desenvolvimento”, diz a psicóloga Patrícia Câmara ao Observador. “Pode servir como baliza para a organização do pensamento, mas não para limitá-lo.”

Definir uma idade para quê?

A verdade é que impôr uma idade-limite na adolescência não é uma ciência exata. Para Bernardo Barahona, psiquiatra e investigador na área da neuropsiquiatria na Fundação Champalimaud, a definição dos limites de idade “depende do objetivo da definição”. Pode ter-se em conta a “maturação do aparelho reprodutor” e o fim desta maturação. Ou usar “um critério baseado em fenómenos fisiológicos” e de “maturação do sistema nervoso central”, que tem por base os desenvolvimentos a nível cerebral.

Pode ainda definir-se do ponto de vista social: um “período” em que se permite ao adolescente ter “comportamentos diferentes”, mas em que também “se exige mais” do jovem até se chegar a um ponto de “total autonomia” em que ele “sai de casa para construir a sua própria família”. A adolescência é também um período da vida em que há “uma janela de oportunidade para aparecerem problemas de saúde mental” como a ansiedade e a depressão.

Stanley Hall, psicólogo norte-americano e autor da obra “Adolescence: Its Psychology and Its Relation to Physiology, Anthropology, Sociology, Sex, Crime, Religion, and Education”, definiu, em 1904, que a adolescência começava aos 14 anos e terminava aos 24. Uma época de turbulência por culpa dos “mass media” e das “atividades imorais” como a dança e o alcoolismo. Mais tarde, no início dos anos 70, um detalhado estudo elaborado pelo pediatra James Tanner sobre o desenvolvimento físico das crianças até à idade adulta definiu que a puberdade começava aos 11 anospara as raparigas, nos rapazes cerca de seis meses mais tarde, e terminava para ambos os sexos pelos 15 anos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, considerou que a adolescência começava aos 10 e terminava aos 19 anos. Já no mês passado, foi publicado na revista Lancet Child & Adolescent um estudo de uma equipa de investigadores da Austrália que considera que, tendo em conta o desenvolvimento dos adolescentes nos dias que correm, esta fase deve ser considerada dos 10 anos aos 24 anos.

Alimentação influencia início da puberdade

De acordo com o artigo da Nature, os dados mais recentes dão conta de que o início da puberdade — que define a entrada na adolescência — se regista mais cedo, em particular em países como os Estados Unidos e a China. E aquilo que se definia como a entrada na idade adulta — e o fim da adolescência — é feito já na casa dos 20, devido às recentes descobertas ligadas ao desenvolvimento cerebral e às mudanças a nível social.

O facto de a puberdade começar cada vez mais cedo — em particular nas raparigas — está, em alguns países, ligado ao excesso de peso e à obesidade nas crianças. Quando Tanner fez o seu estudo numa casa de acolhimento de crianças em Londres, entre 1949 e 1971, a alimentação era escassa e à base de batata e pouca carne. O próprio investigador considerou que uma melhoria na nutrição podia levar a um aparecimento mais precoce da menstruação, por exemplo.

Sara Monteiro, especialista em psicologia clínica e da saúde e em psicologia da educação, sublinha ao Observador o “papel importante da nutrição” e do “acesso à alimentação” na “forma como o corpo se desenvolve” na fase inicial da adolescência.

O que acontece é que tem havido um decréscimo na idade em que a puberdade se inicia. Há meninas com 8, 9 e 10 anos que estão de forma notória na puberdade, com o desenvolvimento mamário e a menstruação em alguns casos”, afirma a investigadora do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde.

O pediatra Frank Biro, especialista em medicina da adolescência no Cincinnati Children’s Hospital (EUA), faz a mesma análise, mas deixa uma pergunta: “Será que elas já são adolescentes?”. Vários estudos demonstram que algumas jovens que entraram mais cedo na puberdade apresentam comportamentos de risco típicos dos adolescentes. Revelaram também, através de exames feitos aos cérebros dos jovens, que o desenvolvimento das amígdalas cerebelosas, zona do cérebro ligada ao processamento das emoções, é influenciado tanto pela idade como pelo início da puberdade, lê-se no artigo da Nature.

A psicóloga Patrícia Câmara propõe um olhar mais social para o início mais precoce da adolescência. “Parece-me que existe maior quantidade de informação e acesso a conteúdos que habitualmente não estavam acessíveis tão cedo — pelo menos não para a maioria dos miúdos — o que acelera, talvez, o início desta etapa de transição entre a infância e a vida adulta. Por outro lado, isso permite que a transição seja menos abrupta, que a entrada na adolescência seja mais progressiva e menos assustadora.”

Fim da adolescência: uma construção social?

Determinar o fim da adolescência, que é marcado pela entrada na idade adulta, é mais complexo, já que não há indicadores físicos como há para o início da adolescência. “Não temos uma definição física equivalente para o fim da adolescência. Não há uma definição clara, porque combina fatores de desenvolvimento físico e social”, refere John Coleman, psicólogo na Universidade de Oxford (Reino Unido), à Nature.

Sarah-Jayne Blakemore, neurocientista da University College London, vai mais longe, ao considerar que o fim da adolescência não passa de uma construção social, variável de cultura para cultura.

A verdade é que, atualmente, a entrada na vida adulta faz-se cada vez mais tarde devido a “alterações demográficas”: “Os marcadores sociais típicos da entrada na vida adulta não existem atualmente”, defende a psicóloga Sara Monteiro, sublinhando que o timing do casamento e da parentalidade se alterou, houve um alargamento da escolaridade obrigatória (além de os jovens ficarem a estudar até mais tarde), e há uma maior dificuldade no acesso ao mercado de trabalho e no acesso à habitação própria.

“Há algumas décadas, as pessoas tinham logo emprego quando terminavam os cursos — e as que não estudavam, também tinham os seus empregos. A partir daí, passavam para desafios como casamento e filhos. A vida de quase todos nós acontecia desta forma e hoje em dia não acontece. Existe uma enorme variabilidade demográfica”, afirma a docente da Universidade de Aveiro.

Atualmente, continua a investigadora do CINTESIS, as pessoas “com 30 e 40 anos não têm empregos estáveis”, não casaram ou não têm relacionamentos amorosos duradouros e “muito menos” têm filhos. “Mesmo as mulheres que quisessem ser mães aos 22 anos, não podem fazê-lo nas mesmas condições que as mães e as avós fizeram. Não têm estabilidade profissional, autonomia habitacional. Até podem ter estabilidade afetiva, mas têm uma maior dificuldade na estabilidade económica.”

Patrícia Câmara destaca ainda o facto de as pessoas, hoje em dia, viverem mais anos, o que permite aos adolescentes “consolidarem” questões identitárias, financeiras e profissionais. “O aumento da longevidade permite o prolongamento das etapas de vida. Não sei se é a barreira final da adolescência que se estendeu, se é a possibilidade de se adquirir mais ferramentas de vida ‘com as costas aquecidas’ que se expandiu.”

Ainda assim, acrescenta a especialista, pode servir para “perpetuar uma situação de autocentração e de dependência [dos pais]”, isto é, de o adolescente perpetuar de forma indefinida o salto para a vida adulta. “Aí estaremos a falar de uma adolescência ou início de vida adulta não com ‘as costas aquecidas’, mas sim ‘com as costas quentes’, o que é bem diferente e tem mais a ver com a dinâmica que se estabelece do que com as alterações do ‘novo mundo’”.

O apuramento da “máquina”

O avanço da ciência permitiu perceber que o cérebro continua a desenvolver-se até mais tarde do que se imaginava. Bernardo Barahona explica que a maturação do cérebro começa a partir dos 10/11 anos, altura em que se dá início a um processo através do qual “as ligações entre os neurónios vão sendo purificadas”, isto é, “são reforçadas as relevantes e aquelas associadas à aprendizagem, e são eliminadas as redundantes”.

A máquina vai ficando mais afinada de maneira a produzir sinais de informação mais limpos de ruído. Isto decorre durante a adolescência e fica concluído na idade adulta”, diz o psiquiatra.

“O desenvolvimento do cérebro vai dos 12/13 anos até aos 25/26 anos nas mulheres e 28/30 anos nos homens, mas não podemos considerar a adolescência esse período todo”, defende Teresa Summavielle, neurocientista e investigadora no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto.

Para a neurocientista, a adolescência é a fase do desenvolvimento “em que há um desequilíbrio entre a maturação da parte racional [do cérebro] e a parte emocional”. O cortex pré-frontal, responsável pelo controlo dos impulsos, pelo controlo das emoções, pela capacidade de planear e pelo adiamento da gratificação, é a última fase do cérebro a ganhar maturidade.

“O lado emocional amadurece mais rapidamente que o racional e isso provoca, num período entre os 16 e os 18 anos, um desequilíbrio em que o comportamento é mais emocional do que racional. Por volta dos 19/20 anos, deve estar terminado e entramos no jovem adulto. Não quer dizer que o cérebro não continue a maturar até mais tarde, mas já não há este desequilíbrio”, adianta Teresa Summavielle.

“O adolescente acaba por ser adolescente biologicamente até mais tarde do que os 17, 18 anos”, acrescenta a psicóloga Sara Monteiro, professora auxiliar convidada da Universidade de Aveiro.

Sim, eles correm riscos. E ainda bem

Bernardo Barahona, docente na Nova Medical School, explica ainda que é o facto de a parte racional do cérebro amadurecer mais lentamente — atingindo um ponto de maturação já depois do 20 anos — do que a que está ligada às emoções que leva os adolescentes a ter comportamentos de maior risco.

Os circuitos neurais e a ligação às emoções amadurecem primeiro. Há um súbito desenvolvimento das emoções e da preocupação com as próprias emoções e com as dos outros. A zanga, o amor, a raiva são mais intensos, a autoestima é muito mais frágil, o impulso de prazer é muito mais difícil de controlar. O adolescente quer a coisa agora, não há travão.”

“Acaba por provocar uma dificuldade na avaliação do risco e como fazem essa avaliação menos cuidada, têm mais problemas”, acrescenta Teresa Summavielle.

Um artigo da Nature, intitulado “Sexo, Drogas e Auto-Controlo”, refere precisamente que os neurocientistas compararam o cérebro de um adolescente ao de um carro com um excelente acelerador, mas com travões defeituosos.

É um facto que os adolescentes correm mais riscos que os adultos. A mortalidade nos jovens entre os 15 e os 19 anos é 35% superior àqueles que têm entre 10 e 14 anos. A maior causa de morte nos adolescentes são os acidentes de viação, mas a automutilação e outras formas de violência também se destacam no ranking.

A influência dos pares no comportamento de risco é igualmente destacada neste artigo. Um estudo de 2009 pôs adolescentes a jogar um jogo, em que lhes era dito que tinham de conduzir um carro que tinha de passar por 20 semáforos em apenas seis minutos. Quando jogavam sozinhos, corriam os mesmo riscos que um adulto — passar um sinal vermelho, por exemplo, arriscando-se a chocar contra um outro carro. Contudo, quando eram informados de que os amigos estavam a assistir, corriam muitos mais riscos. E quando lhes era dito que estavam a ser observados pela mãe tinham o comportamento inverso: arriscavam menos.

Estes dois factores de influência no comportamento dos adolescentes ativaram também áreas distintas no cérebro: quando lhes era dito que estavam os amigos a assistir, a área do cérebro ligada à recompensa era ativada, enquanto que a presença da mãe ativava a área do cortex pré-frontal (ligada ao controlo).

Mas nem todos se comportam desta maneira, sublinha Teresa Summavielle. “Os adolescentes correm mais riscos quando sabem que os amigos estão a ver, e alguns adolescentes, sobretudos os mais provocativos, escolhem fazer aquilo que vai contra o que os pais desejam, mas não todos.”

Estudar o funcionamento do cérebro de um adolescente, e de que forma isso influencia o seu comportamento de risco, pode ajudar na criação de normas e leis relacionadas com a condução nos jovens e as punições aplicadas àqueles que praticam crimes violentos — isso já está a acontecer nos Estados Unidos, com os investigadores a partilharem informações com o sistema de Justiça.

Para Teresa Summavielle, uma vez que é “claro que o período de reformatação cerebral se prolonga até bastante mais tarde que os 18 anos”, isto deveria ser tido em conta “nas políticas de apoio à adolescência”. “Continuamos a ter os adolescentes que estão ao cuidado do Estado a serem ‘expulsos’ do sistema quando completam 18 anos, o que é claramente demasiado cedo.

A Nova Zelândia, por exemplo, fez uma revisão na política de proteção das crianças no ano passado. Relatórios davam conta de que os adolescentes não estavam a lidar bem com o facto de deixarem de se tornar independentes a partir dos 18 anos, por isso o governo neo-zelandês decidiu prolongar o apoio estatal entre os 18 e os 25 anos.

Este desenvolvimento mais tardio do cortex pré-frontal também influencia a forma como “valorizam a recompensa” e o que estão “dispostos a fazer” para obtê-la, explica a neurocientista. “Aquilo que para um adulto não é atrativo, para eles é muito atrativo. O risco que estão dispostos a correr para ter determinada recompensa é muito mais elevado do que um adulto.” A forma como lidam com a decepção também é muito própria desta idade. “Quando têm expectativa de determinada recompensa, a decepção é muito mais intensa do que nos adultos. Têm reações mais violentas, menos pensadas. É uma coisa que se vê muito na sala de aula.”

A falta de noção dos riscos leva também os adolescentes a terem comportamentos que podem pôr em causa a sua saúde na vida adulta, como o consumo de álcool, tabaco, drogas e até um estilo de vida mais sedentário. Mas nem todos os riscos são negativos: os adolescentes consideram que defender um amigo ou convidar alguém para sair é um risco, mas positivo — um risco social. Aliás, o artigo refere que aquilo que, a nível cerebral, estimula o jovem a correr riscos mais negativos para a sua saúde também os impulsiona para os riscos positivos.

Ainda assim, os especialistas sublinham a importância destes comportamentos para o desenvolvimento dos adolescentes. “Eu não diria que queremos que as pessoas deixem de correr riscos. Muitos deles fazem com que eles se tornem adultos em situações seguras”, considera B. J. Casey, neurocientista da Universidade de Yale.  Teresa Summavielle faz a mesma ressalva. “Os adolescentes que não correm riscos provavelmente não vão ser adultos saudáveis. O importante está mesmo nas ferramentas de que estão munidos para poder fazer uma correcta avaliação do risco. Esse é um dos papéis dos adultos, dar-lhes essas ferramentas.”

“Terreno fértil” para conceitos como igualdade de género

A adolescência, em particular entre os 10 e os 14 anos, é também a altura ideal para começar a introduzir conceitos e normas ligados à igualdade de género, graças às várias mudanças pelas quais o cérebro passa durante esta fase da vida. Um outro artigo publicado pela Natureexplica que entre os 9 e os 12 anos, os jovens começam a ter um pensamento mais abstrato, algo que não acontecia quando eram crianças — o pensamento era mais concreto — além de se dar início ao desenvolvimento do cortex pré-frontal.

“É nesta idade que começa a reformatação na forma como os neurónios comunicam uns com os outros”, explica Teresa Summavielle, tal como já tinha dito Bernardo Barahona: fazem-se muitas ligações entre os neurónios, sendo que algumas são reforçadas e outras eliminadas.

Durante a adolescência, assiste-se a um fortalecimento do raciocínio e a um desenvolvimento da criatividade. Os jovens começam a pensar sozinhos e a ter opiniões e crenças próprias. É esse pensamento crítico que se forma nesta fase da vida que permite ao jovem pôr em causa normas de género desiguais, refere o artigo da Nature, que destaca a importância de os adolescentes participarem em discussões sobre a temática da igualdade de género.

Para Teresa Summavielle, os 12 anos são “seguramente” uma boa idade para “‘semear’ valores que permitam um desenvolvimento mais equilibrado, como os que estão associados à interiorização da igualdade entre géneros”. “Aos 10 anos depende muito de criança para criança”, afirma a investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto.

Este tipo de conceitos implicam um arcabouço intelectual que não existe numa criança de sete anos, por exemplo. Eles têm dificuldade em entender coisas abstratas, precisam de referências claras e um bocadinho estereotipadas”, afirma o psiquiatra Bernardo Barahona. “Só na entrada da adolescência é que há maturidade para entender. Além de que é uma fase que se caracteriza por uma enorme curiosidade, pelo pôr em causa as coisas. É um terreno fértil para mudar mentalidades.”

Patrícia Câmara, contudo, não acredita que “haja uma idade propícia para se falar sobre estes temas”. “Efectivamente a plasticidade neuronal da adolescência e as novas competências psiconeuroimunológicas da pré-puberdade e puberdade facilitam a desconstrução de conceitos e viabilizam a discussão reflexiva dos papéis de género. Faz sentido conversar de um ponto de vista crítico que permite pôr em causa estas temáticas, mas não poria a tónica nesta idade. A possibilidade está lá desde sempre, há um processamento inconsciente das coisas”, afirma a psicóloga.

A promoção da igualdade de género, contudo, deve ser promovida desde a infância. O que deve ocorrer na adolescência é uma intensificação destas ideias. A verdade é que esta diferenciação entre o género masculino e feminino começa desde cedo e não tem um fundamento apenas biológico. Prova disso são as causas de mortalidade infantil. Se, em 2016, as causas mais comuns para as crianças entre os cinco e os nove anos eram as mesmas — infeções respiratórias e doenças diarreicas –, isso começa a mudar a partir do início da adolescência. As causas de morte nas raparigas mantêm-se entre os 10 e os 14 anos, mas nos rapazes elas passam a ser acidentes de viação e afogamento. Ainda na adolescência, entre os 15 e os 19 anos, as patologias associadas à maternidade e o auto-flagelo passam as ser as maiores causas de morte nas raparigas e nos rapazes são, mais uma vez, os acidentes na estrada e a violência interpessoal.

A psicóloga Sara Monteiro também sublinha que “todos os estudos” indicam que a prevenção de comportamentos de risco em relação, por exemplo, ao álcool e à violência no namoro “deve ser feito muito precocemente”, mas antes da adolescência é “difícil” porque “não têm esses conceitos”. Ainda assim,  a professora da Universidade de Aveiro acredita que isto pode ser feito “de forma indireta”. “Ainda hoje há muito a separação de brincadeira: são os meninos que brincam com bolas e as meninas com bonecas”.

Este trabalho na forma como se vê o género pode ser feito através da “formação parental” e ao nível das escolas e da comunicação social. “Estas questões de género são promovidas de forma muito subtil e, por vezes, são difíceis de alterar porque estão enraizadas nos pais, nos professores e na forma como atuam”, refere Sara Monteiro. “Para promover essa mudança, a intervenção terá de ser feita em vários níveis e em simultâneo. Queremos atuar nestes pré-adolescentes que ainda estão permeáveis à aprendizagem, que ainda não têm ideias pré-formadas.”

A formação dos pais é particularmente importante nesta questão, uma vez que transmitem estas ideias de género, seja através de uma comunicação explícita, seja através de comportamentos que os próprios pais adotam em casa, lê-se no artigo da Nature. “Se uma criança crescer num ambiente em que não há co-responsabilização das tarefas domésticas, na responsabilidade dos filhos e assistir a isto todos os dias, continua a haver uma perpetuação neste papel de género”, defende a psicóloga.

Os pares, por sua vez, também desempenham um papel essencial, já que é através destes relacionamentos que os adolescentes moldam a forma como vêem o mundo e reconhecem, não só os seus papéis enquanto rapaz e rapariga, mas também as expectativas da sociedade em relação a eles. A relação entre pares tem um lado negativo e positivo: pode exercer alguma pressão social, mas é também fonte de apoio social e emocional.

No que toca aos média e às escolas, ambos por norma dão mais destaque aos homens e tendem a caracterizá-los como mais prestigiados do que as mulheres, que costumam ficar relegadas para papéis secundários, dependentes dos homens e ligadas a tarefas domésticas. “Há uma sexualização do corpo feminino constante e de forma muito notória, o que contribui para que as crianças e as meninas cresçam muito julgadas pelas questões de aparência física, o que é uma questão fundamental quando se fala na questão de género.”

“A igualdade de género (respeito pela diferença entre aquilo que ainda é atribuído aos géneros), no fundo, a possibilidade de não se coarctar uma parte da experiência da vida apenas pela atribuição biológica do sexo, está na verdadeira paridade, na igualdade de possibilidades e não na anulação das diferenças individuais. O terreno biológico não deve ser impeditivo do acesso a qualquer tipo de desempenho”, conclui Patrícia Câmara.

ilustração de Maria Gralheiro.

 

 

 

Adolescentes: um carro sem travões com uma vida social online

Março 18, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

Notícia do https://www.publico.pt/ de 26 de fevereiro de 2018.

A revista Nature dedicou esta semana uma edição especial à ciência da adolescência. Em vários artigos e em várias revistas do grupo, fala-se desta fase crítica de um ser humano onde existem tantas oportunidades como vulnerabilidades.

ANDREA CUNHA FREITAS

Desde o smartphone que não largam da mão até às sinapses e outras mudanças que ocorrem no cérebro, passando pelos riscos que se atrevem a correr e ainda pelo debate actual sobre quando começa e quando acaba esta fase entre a infância e a idade adulta. A edição especial desta semana da revista Nature, que inclui vários artigos científicos e reportagens dispersos por diferentes revistas científicas do grupo editorial, é dedicada à ciência da adolescência. Só para início de conversa fica, desde já, um aviso: há uma mudança em curso e, ao que parece, agora a adolescência pode começar aos dez anos e só acabar aos 24 anos.

Um dos artigos desta edição alerta para um dado importante que pode ajudar a contextualizar os vários trabalhos sobre o mesmo tema: 90% dos adolescentes vivem em países pobres, mas os que são envolvidos nos estudos dos cientistas pertencem à minoritária fatia dos 10% dos países mais desenvolvidos, com acesso a saúde, educação, tecnologias, entre outras experiências que os separam e os afectam em todos os sentidos. E o retrato do adolescente que vive no nosso moderno mundo cheio de oportunidades e tentações pode ter muitas diferenças mas terá, pelo menos, uma coisa em comum: um smartphone na mão.

“Smartphones são maus para alguns adolescentes mas não para todos” é o título de um artigo de opinião que faz parte do “pacote” da ciência da adolescência da Nature. O texto nota que mais do que fazer parte das forças do bem ou do mal, as actividades online dos adolescentes podem é reflectir ou mesmo agravar vulnerabilidades que já existem.

O artigo reforça que a vida social dos adolescentes faz-se sobretudo online e apresenta uma série de dados sobre a saúde mental dos miúdos que se apoiam neste convívio à distância.Uma revisão de 36 estudos publicados entre 2002 e 2017 concluiu que os adolescentes usam a comunicação digital para fortalecer as suas relações, partilhar detalhes íntimos, manifestar afectos e combinar encontros. E isso é mau? Depende. “Os adolescentes que enfrentam mais adversidade offline parecem estar mais vulneráveis aos efeitos negativos do uso dos smartphones”, apontam os investigadores, especificando ainda que um historial de vitimização fora das redes sociais fará com que sejam alvo de bullying e outras agressões também online. Fica ainda um alerta para uma vigilância da actividade online que pode revelar pistas sobre saúde mental, acrescentando-se que cientistas da área da computação já demonstraram que é possível prever um cenário de depressão através da análise dos padrões de envolvimento e das publicações nas redes sociais.

“Sexo, drogas e autocontrolo”

Uma vida social online pode ter os seus perigos, mas há mais perigos na estrada da adolescência. “Sexo, drogas e autocontrolo” é outro dos artigos e, desta vez, o tema é a já muito investigada propensão dos adolescentes para correr riscos. Kerri Smith assina a reportagem na Nature com testemunhos de vários especialistas na matéria. A repórter lembra, por exemplo, que os neurocientistas associaram a imagem do cérebro de um adolescente a um carro com um motor acelerado e falhas nos travões. A propósito de carros, cérebros e riscos, Kerri Smith fala sobre os curiosos resultados de uma experiência em laboratório com adolescentes que relacionou os perigos com a influência dos pares. O teste era uma espécie de jogo de corrida com o objectivo de percorrer um trajecto com 20 semáforos em seis minutos.

Os resultados dispensam qualquer comentário. Quando jogaram sozinhos, os adolescentes correram tantos riscos (passar sinais vermelhos enfrentando o perigo de colidir com outro carro) como um adulto a jogar o mesmo jogo. Quando souberam que os seus amigos os estavam a observar “correram significativamente mais riscos”. E quando sabiam que as mães os estavam a observar “correram menos riscos”. Nas experiências, os cientistas observaram os padrões de actividade cerebral e detectaram, por exemplo, uma activação de áreas associadas à recompensa quando os amigos estavam a observar e uma activação da região do córtex pré-frontal (associada ao controlo cognitivo) quando os observadores eram as progenitoras.

Mas, se a influência dos pares foi negativa neste jogo de corrida, os cientistas também sabem que esta é uma rua com dois sentidos. Os amigos dos adolescentes também podem ser uma influência positiva nas suas vidas. Um aplauso ou simples incentivo para uma boa acção (também houve jogos em laboratórios com donativos e outros exercícios) funciona como um estímulo para mais coisas boas.

Depois há riscos e riscos. O artigo jornalístico lembra, por exemplo, que convidar alguém para sair à noite pode ser encarado como um acto arrojado (um risco social, portanto). Aliás, sublinhe-se, que os cientistas já perceberam também que os circuitos cerebrais usados para correr riscos “negativos”, que ponham em causa a sua integridade física, são os mesmos que ajudam os adolescentes a enfrentar “riscos positivos”. E os receptores de dopamina, um mensageiro químico no cérebro, aumentam em ambos os casos.

Porém, há uma importante ressalva a fazer. Tudo isto são conclusões retiradas de estudos em laboratório, ou seja, adolescentes num ambiente controlado. “Como é que conseguimos imitar num frio laboratório numa quinta-feira à tarde o que se passa num sábado à noite?””, questiona a neurocientista Adriana Galván, da Universidade de Califórnia em Los Angeles (EUA), citada na reportagem.

O que sabemos do que salta da rua, longe dos laboratórios, é que os primeiros lugares na lista de causas de morte entre os dez e os 19 anos são ocupados por comportamentos de riscos. Os rapazes (sobretudo entre os 15 e 19) morrem em acidentes na estrada, por causa de episódios de violência e por ferimentos causados pelos próprios (suicídio). As raparigas entre os 15 e 19 anos morrem da sequência de complicações durante uma gravidez, ferimentos causados por si e acidentes na estrada. Por esta ordem.

Há, no entanto, algumas dicas para prevenir os prováveis desvios. Exemplo? Deixar os adolescentes dormir até mais tarde. “Os adolescentes que não dormem o suficiente são mais propensos a adoptar comportamentos de risco, como fumar e relacionados com a actividade sexual.” Foi baseada em dezenas de estudos publicados sobre este tópico que a Academia Americana de Pediatria divulgou recentemente uma recomendação para que nesta faixa etária as aulas comecem a partir das 8h30 ou mais tarde ainda, se possível.

Adolescência pode durar 14 anos?

A investigação sobre esta parte da viagem para a vida adulta num carro com falhas nos travões tem estado muito apoiada nas tecnologias de imagem que nos permitem ver o cérebro a funcionar. No entanto, e apesar dos muitos avanços nesta área, estas fotografias ou filmes da actividade cerebral ainda têm muito ruído e sinais difíceis de interpretar.

A adolescência é um momento único de sintonização e amadurecimento do cérebro. Hoje, ao contrário do que julgávamos há relativamente pouco tempo, sabemos que o cérebro continua a mudar e a moldar-se durante a adolescência. Neste período, assiste-se, por exemplo, à afinação das sinapses (as ligações entre os neurónios) que se reduzem entre a infância e a idade adulta.

Um comentário assinado por Matthew B. Johnson e Beth Stevens, investigadores no centro de neurobiologia do Hospital de Crianças de Boston e na Escola Médica de Harvard, no Massachusetts, nos EUA relaciona a quebra de sinapses (ou o momento da poda das ligações neuronais, como os neurocientistas lhe chamam) com a probabilidade de sofrer de esquizofrenia. O texto lembra que esta associação foi feita (pela primeira vez) em 1979, mas só foi explorada nos anos mais recentes. As novas tecnologias de imagem, por exemplo, levaram à conclusão de que uma poda excessiva das sinapses aumenta o risco de sofrer deste distúrbio mental. As ferramentas para estudos genéticos permitiram identificar um gene (C4) que não só interfere neste mecanismo cerebral como também apresenta alterações em doentes com esquizofrenia.

Sabia-se que a esquizofrenia tende a manifestar-se no final da adolescência. O que nos leva a outra importante questão: onde é que, afinal, começa e acaba a adolescência? Hoje, baseados na biologia como o aparecimento cada vez mais precoce da menarca e outros sinais de puberdade, muitos cientistas já consideram que a adolescência começa por volta dos dez anos. E se o fim dos teenagers se adivinhava pelos 18 e 19 anos como o próprio estrangeirismo sugere, agora isso está a mudar. Em Janeiro deste ano, foi publicado um estudo na revista Lancet Child & Adolescent que defende que os “teens” podem ir afinal até aos… 24 anos.

Dizem os cientistas que, por um lado, o cérebro continua a desenvolver-se no início dos 20 anos e, por outro lado, que as mudanças sociais mostram que a entrada na vida adulta acontece mais tarde do que no passado. Saem de casa mais tarde, entram no mercado de trabalho mais tarde, casam mais tarde, têm filhos mais tarde.

Na reportagem “Os limites em mudança da adolescência”, a repórter Heidi Ledford mostra que a discussão já chegou a um ponto em que se antevê a necessidade de adaptar a sociedade a estes novos marcos. “Cientistas, médicos e decisores políticos enfrentam um momento em que se debatem com estas fronteiras em mudança”, sublinha o artigo, acrescentando ainda que a comunidade médica e judicial terá de decidir urgentemente quando é que uma pessoa é considerada capaz de tomar decisões adultas. “Uma conceptualização clara da adolescência não é só uma picuinhice semântica”, diz Jay Giedd, neurocientista na Universidade de Califórnia em San Diego. “Tem implicações profundas para os sistemas clínicos, educativos e judiciais.”

Fixar limites é útil para todos, mas a especialista Sarah-Jayne Blakemore avisa, na reportagem, que dificilmente serão os neurocientistas a defini-los. A neurocientista da Universidade College de Londres estuda os adolescentes há vários anos e sabe do que fala. Nota que as diferentes culturas desenham diferentes limites e que a estrutura e funcionamento do cérebro variam tanto de pessoa para pessoa que a tarefa de colocar um ponto final biológico na adolescência parece impossível. “Não existe tal coisa como um adolescente típico.”

A edição especial da Nature explora várias frentes da ciência da adolescência. São uma dúzia de artigos que respondem a algumas questões sobre esta fase entre a infância e a idade adulta, cada vez menos enigmática. Uma altura crítica para prevenir comportamentos ilegais ou criminosos? A adolescência. O momento para “ensinar” as bases de uma sociedade apoiada na igualdade de género? A adolescência. Uma fase em que os media, as redes sociais e outros mecanismos digitais têm um “poder” que pode fazer a diferença entre o bem e o mal? A adolescência. Uma oportunidade para prevenir, tratar, criar problemas ou agravar a saúde mental? A adolescência. O grupo etário com menos acesso à saúde nos países pobres? Os adolescentes.

No pequeno texto que apresenta esta colectânea de trabalhos sobre a adolescência, a Nature fala da sua natureza paradoxal. Um tempo de riscos e vulnerabilidades que coincide com crescimento e oportunidades. E os cientistas parecem finalmente rendidos ao tema. “Não consigo encontrar um período de desenvolvimento mais desafiante”, conclui B.J. Casey, neurocientista da Universidade Yale em New Haven, Connecticut, num dos textos. Porém, acrescenta: “Sempre que dou uma palestra, peço às pessoas que levantem a mão se estivessem dispostos a passar pela adolescência outra vez. E ninguém o faz.”

mais informações no artigo:

Sex and drugs and self-control: how the teen brain navigates risk

 

 

 

 

Fusão de cromossomas aumenta 2700 vezes o risco de subtipo de leucemia infantil

Abril 18, 2014 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia do Público de 8 de abril de 2014.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Constitutional and somatic rearrangement of chromosome 21 in acute lymphoblastic leukaemia

clicar na imagem

Instituto Nacional de Investigação do genoma Humano EUA

Lusa

Equipa internacional com participação portuguesa descobriu que alteração cromossómica pode causar um cancro infantil.

Uma equipa internacional de investigadores descobriu que uma determinada alteração cromossómica aumenta em 2700 vezes o risco de um subtipo de leucemia linfoblástica aguda, o cancro infantil mais comum. O estudo, publicado recentemente na revista Nature, teve a participação do Serviço de Genética do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto.

A equipa internacional descobriu que os indivíduos que são portadores de uma fusão entre os cromossomas 15 e 21 têm uma predisposição 2700 vezes maior para aquele tipo de leucemia. O estudo descreve os mecanismos cromossómicos que estão subjacentes a este subtipo de leucemia aguda, que tem mau prognóstico.

“Este risco aumentado relaciona-se com o facto de aquele cromossoma alterado ter dois centrómeros, o que faz com que possa ser puxado simultaneamente para as duas células filhas durante a divisão celular. Este processo origina várias quebras cromossómicas que resultam em alterações genéticas mais complexas que depois originam a leucemia”, explicou Manuel Teixeira, director do Serviço de Genética do IPO/Porto.

Esta descoberta “ajuda a perceber que quem tem estas alterações cromossómicas, que são herdadas [dos pais], tem maior predisposição para este tipo de leucemia, permitindo, assim, que as pessoas fiquem mais atentas e possam fazer uma vigilância mais apertada”, disse Manuel Teixeira.

Os portadores dessa anomalia genética, “poderão fazer uma espécie de rastreio (uma análise ao sangue) regularmente para garantir que a doença é detectada o mais cedo possível, permitindo-lhes iniciar o tratamento precocemente”.

O investigador Manuel Teixeira salientou que “não é certo que todos os indivíduos com esta alteração cromossómica venham a sofrer de leucemia, embora o risco seja muito elevado”.

Este trabalho mostra ainda que as pessoas que não têm aquela alteração cromossómica podem também desenvolver leucemia linfoblástica aguda por um mecanismo cromossómico ligeiramente diferente, mas a probabilidade de tal ocorrer é muito inferior.

Este tipo de leucemia é o cancro mais comum em crianças e o subtipo de leucemia associada à fusão do cromossoma 15 com o 21 representa cerca de 2% dos casos.

A leucemia linfoblástica aguda mais comum em crianças está associada a outras alterações cromossómicas identificadas anteriormente e apresenta taxas de sobrevivência acima de 90%, mas o subgrupo estudado agora tem ainda um mau prognóstico.

Por não ser uma alteração muito comum, foi necessário reunir vários casos de países diferentes. Por isso, o trabalho envolveu a participação de laboratórios do Reino Unido, França, Bélgica, EUA e Portugal.

 

 

 

 

Novo estudo associa uso precoce de antibióticos à obesidade

Setembro 25, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia do Jornal de Notícias de 23 de Agosto de 2012.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Antibiotics in early life alter the murine colonic microbiome and adiposity

O uso precoce de antibiótico pode alterar a flora intestinal e desencadear um aumento da obesidade em todo o mundo, segundo um estudo norte-americano publicado na revista “Nature”, que confirma as conclusões divulgadas esta semana no International Journal of Obesity”.

Estes trabalhos demonstraram que uma transformação no ecossistema do tubo digestivo pode levar a defeitos no metabolismo e causar problemas como a doença inflamatória do intestino.

Há mais de meio século que já se sabe que o uso de doses baixas de antibióticos promovem em 15% o peso dos animais de quinta, como os bovinos.

Foi este efeito que fez especialistas de várias universidades norte-americanas a estudar o que acontece quando são administradas doses baixas de antiobióticos precocemente.

Para isso, administraram doses de antibiótico a ratos de laboratório durante sete semanas e observaram o que ocorreu com o seu peso.

Os investigadoras concluíram que os roedores que tomaram os antibióticos tiveram um aumento de 10 a 15% da sua gordura, apresentaram um crescimento da sua densidade óssea e apresentaram uma alteração das hormonas relacionadas com o metabolismo.

“Observámos que ao usar os antibióticos se altera a forma como se metabolizam certos nutrientes”, explicou Ilseung Cho, professor de medicina da Universidade de Nova Iorque e um dos autores do estudo divulgado na revista “Nature”.

Para outro dos autores, Martin Blazer, este trabalho vem mostrar a importância do microbioma humano (o conjunto das bactérias e vírus) nos primeiros anos de vida para patologias como a obesidade.

“O aumento da obesidade em todo o mundo coincide com o uso generalizado de antibióticos. É possível que uma exposição precoce a antibióticos condicione as crianças a serem obesas mais tarde”, referiu, citado pelo jornal espanhol El Mundo.

Um outro estudo, já divulgado esta semana na revista internacional “International Journal of Obesity”, aponta para a mesma ligação.

Depois de analisados dados de 11500 bebés nascidos no Reino Unido desde o nascimento até aos 23 meses, foi concluído que o uso de antibióticos antes dos cinco meses parece implicar um aumento de peso posteriormente.

Filhos de homens mais velhos têm mais mutações no seu genoma

Agosto 29, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , , , ,

Notícia do Público de 23 de Agosto de 2012.

Artigos citados na notícia:

Fathers bequeath more mutations as they age – Notícia da Nature

Rate of de novo mutations and the importance of father’s age to disease risk – Artigo da Nature

Por Nicolau Ferreira

Um estudo na Islândia mostra que, a cada ano que passa, os espermatozóides do pai têm, em média, mais duas mutações novas no seu genoma que transmitem aos filhos. O trabalho é publicado na revista Nature.

O reservatório do genoma está em cada pessoa na Terra. A cada geração, misturam-se cromossomas de mulheres e homens – onde estão os genes para construir um ser humano – e uma nova fornada de pessoas é concebida. Mas não sem um preço. Um estudo que analisou genomas de islandeses mostra que os filhos de homens mais velhos recebem um genoma paterno com mais mutações, que surgiram entretanto, do que os filhos de homens mais novos. Estas mutações podem estar associadas a doenças mentais, como o autismo e a esquizofrenia, defendem os autores num artigo hoje na revista Nature.

A idade da reprodução é uma condicionante na mulher: está limitada a ter filhos até à menopausa e há um risco acrescido de ter crianças com deficiências depois dos 35 anos. O homem mantém-se fértil até perto do final da vida, mas há um custo.

Para que todos os dias tenha espermatozóides novos, as células progenitoras dos espermatozóides têm de estar a dividir-se continuamente. Em cada divisão, todo o genoma é copiado: a célula utiliza uma enorme maquinaria para copiar, tijolo a tijolo, a molécula de ADN que forma os 23 pares de cromossomas humanos e que contêm todos os genes. A evolução arranjou muitas formas de assegurar que esta replicação do ADN fosse perfeita. Mas, de vez em quando, há tijolos que são mal copiados e, no fim, obtém-se um genoma quase igual mas com mutações.

No caso das células sexuais femininas, esta divisão celular dá-se só no desenvolvimento embrionário. Quando as mulheres nascem, já têm todos os ovócitos de que precisam. A partir da puberdade, em cada mês, uma célula perde metade dos cromossomas para poder ser fecundada. Quanto mais velho for esse ovócito, maior é a probabilidade de haver alterações graves no ADN que provocam deficiências no embrião.

No caso dos homens, a divisão das células que vão dar origem aos espermatozóides mantém-se e as mutações no ADN podem assim acumular-se nessas células, de uma divisão para outra. “A maioria destas mutações são neutras, algumas são nocivas e, muito raramente, uma delas é benéfica”, diz Kari Stefansson, ao PÚBLICO, líder da equipa da investigação da empresa deCODE, com sede em Reiquejavique, na Islândia, que estuda o genoma humano.

Estudos epidemiológicos tinham mostrado que homens que tinham filhos em idades mais avançadas transmitiam-lhes mais mutações associadas ao autismo. A equipa de Stefansson conseguiu, pela primeira vez, quantificar este aumento de mutações que eram inexistentes na geração anterior. “Existem duas mutações novas por ano, à medida que o homem envelhece”, refere.

A equipa estudou o genoma de 78 filhos de casais que foram pais em diferentes idades. A grande maioria destes filhos tem autismo ou esquizofrenia. Procuraram por mutações nos tijolos de ADN que não existiam nem nos pais, nem nas mães, e que por isso teriam de ter sido originadas nas células sexuais de um dos pais. Depois, identificaram se tinham ocorrido no pai ou na mãe.

Descobriram que, em média, cada pessoa tem 60 mutações novas que não existiam na geração anterior. Quinze são da mãe e as restantes do pai, mas em função da sua idade. Um homem com 20 anos passa 25 mutações novas à descendência, enquanto um homem com 40 anos transmite 65. “É graças às mutações que vai surgindo nova diversidade no genoma humano e 97% dessa variação está relacionada com a idade do pai”, explica o investigador.

A equipa estima que apenas 10% destas mutações novas tenham efeitos negativos e verificou que algumas estão associadas à esquizofrenia ou ao autismo. Uma das mutações identificada foi no gene NRXN1 – que comanda o fabrico de uma proteína que funciona no sistema nervoso – e que foi associado à esquizofrenia. A nova mutação faz parar a produção da proteína a metade.

Ainda não se sabe quais serão os efeitos deste fenómeno na saúde. “Apesar de a maioria destas mutações serem benignas do ponto de vista individual, colectivamente poderão ter um impacte sério na saúde”, defende Alexey Kondrashov, investigador da Universidade de Michigan, nos EUA, num comentário da Nature. Uma idade para ser pai?

Kondrashov lembra que a diminuição da mortalidade infantil está a atenuar a selecção natural. De geração em geração, a população pode estar a acumular mutações negativas e uma das consequências pode já estar a sentir-se. “São usados mais genes no cérebro do que noutro órgão, o que significa que a fracção de mutações que o afectam é maior. O aumento da prevalência do autismo em muitas populações humanas pode ser, em parte, devido ao acumular de mutações”, diz o cientista.

Para Isabel Alonso, investigadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto, a importância deste estudo centra-se na quantificação deste fenómeno. “Ainda não podemos tirar grandes ilações. Tem sempre que se replicar a experiência noutras populações, porque a taxa de mutações pode ser diferente na população brasileira, francesa ou na nossa”, refere a especialista em genética humana.

No último século, a Islândia sofreu mudanças sociais como a migração do campo para a cidade, que diminuiu a idade média dos homens na altura de serem pais. Entretanto, a tendência já se inverteu. Este estudo leva a reflectir sobre a paternidade. “Confirma que não é saudável ser-se pai a partir de uma certa idade”, considera Miguel Oliveira da Silva, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. “O genoma pode ser alterado pelo ambiente, não é estático.”

Darren Griffin, professor de genética na Universidade de Kent, no Reino Unido, discorda: “Não é necessário os futuros pais mais velhos ficarem preocupados. Há 3000 milhões de letras no ADN, o estudo detectou mutações só nalgumas dúzias”, diz.

Mas Kari Stefansson não tem dúvidas sobre as implicações das mutações: “Quando aparecem, vão manter-se na população e ter efeitos na diversidade humana.”

 

 


Entries e comentários feeds.