Confirma-se: a gravidez muda o cérebro das mulheres

Janeiro 4, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 20 de dezembro de 2016.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Pregnancy leads to long-lasting changes in human brain structure

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Reduções, do laranja para amarelo, de volume de matéria cinzenta no cérebro (em várias perspectivas) durante a gravidez Oscar Vilarroya

A estrutura do cérebro das mulheres é alterada com a gravidez, talvez de forma irreversível. Investigadores registaram uma adaptação dos circuitos neuronais que parece servir para optimizar funções necessárias à maternidade. Nos homens nada parece mudar.

Andrea Cunha Freitas Qualquer mulher que tenha estado grávida sabe que o seu organismo passou por uma revolução. As mudanças hormonais, a transformação física e todas as adaptações biológicas no corpo que gera um novo ser. E o cérebro? Também muda, assegura uma equipa de cientistas que avaliou, pela primeira vez, a estrutura cerebral de um grupo de mulheres antes e depois da primeira gravidez. Não se sabe ainda se as alterações são irreversíveis, só se sabe que, passados dois anos, o cérebro de uma mãe não voltou ao que era antes.

Um grupo de investigadores, liderado pela Unidade de Investigação de Neurociência Cognitiva da Universidade Autónoma de Barcelona (Espanha), recolheu dados durante cinco anos e quatro meses de um grupo de 25 mulheres que ficaram grávidas pela primeira vez e 20 mulheres sem filhos. Os investigadores, que publicaram um artigo na revista científica Nature Neuroscience, também analisaram os cérebros de 19 homens que foram pais pela primeira vez (companheiros das mulheres grávidas do estudo) e de 17 sem filhos. Todos os participantes no estudo foram sujeitos a várias ressonâncias magnéticas.

No cérebro dos homens, que parece ser imune à paternidade, não foram registadas alterações. Porém, o estudo revela que, numa primeira gravidez, as mulheres sofrem reduções significativas de matéria cinzenta em regiões que estão associadas à cognição social. O que – espere, antes de fazer conclusões precipitadas – não significa qualquer tipo de declínio das funções mas antes uma “sintonização” e reorganização dos circuitos neuronais que optimizam o cérebro para melhor desempenhar a tarefa de ser mãe.

Nos exames, observou-se uma “redução simétrica no volume da matéria cinzenta na zona medial frontal e posterior do córtex e também em regiões específicas, sobretudo, do córtex pré-frontal e temporal”, refere o comunicado de imprensa sobre o estudo. Os investigadores sublinham que existe uma notável sobreposição das alterações da gravidez com a rede que está associada à teoria da mente, que nos permite perceber o que os outros pensam e sentem.

“Acreditamos que as mudanças observadas concedem uma vantagem adaptativa na transição para a maternidade, por exemplo, facilitando a capacidade da mãe para perceber as necessidades do seu filho”, explica ao PÚBLICO Susanna Carmona, investigadora na Universidade Autónoma de Barcelona e uma das autoras do artigo. Estas mudanças nas mulheres fazem parte, defendem os cientistas, de um processo de adaptação e de especialização funcional para o momento especial da maternidade.

“As mudanças neuroanatómicas localizadas em algumas das regiões do cérebro destas mulheres mostraram, por exemplo, uma resposta neuronal mais forte aos seus filhos no período pós-parto”, refere a investigadora. E aí reside, talvez, uma das mais importantes implicações deste estudo, que, segundo Susanna Carmona, poderá ajudar a perceber melhor “a fisiologia patológica de distúrbios como a depressão pós-parto, podendo ajudar a prevenir e tratar esta desordem no momento certo”.

Adolescência, outra vez

Esta capacidade de sintonizar o cérebro para novos desafios, tornando-o mais apto, não é exclusiva do momento da maternidade. Nos cérebros destas mulheres, “as sinapses fracas são eliminadas abrindo caminho para redes neuronais mais especializadas e eficientes”, refere a investigadora, adiantando que este “mecanismo de ‘poda sináptica’ também ocorre durante a adolescência”. Assim, a reorganização – visível nas reduções de volume de algumas regiões do cérebro – acontece na fase de adolescência quando o cérebro apura as suas funções cognitivas e também, como se prova agora, com a maternidade.

“Sabe-se que as hormonas sexuais (esteróides) regulam a morfologia neuronal e provocam, nomeadamente na adolescência, alterações no cérebro. Por isso, não é surpreendente que os níveis hormonais sem paralelo da gravidez também o façam”, nota Susanna Carmona.

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Mas a conclusão de que o cérebro muda com a gravidez pode apenas significar a confirmação de uma suspeita para muitas mães. Muitas mulheres, admite a investigadora ao PÚBLICO, queixam-se de um aumento da distracção e défices de memória durante a gravidez. E Susanna Carmona sabe bem do que estas mulheres falam. A cientista e outras duas das principais autoras do artigo engravidaram durante esta investigação. Porém, e apesar de partilhar este sentimento, sublinha que os estudos que associam a gravidez a alterações na memória ou outras funções cognitivas são inconsistentes.

“No nosso estudo, não observámos qualquer impacto cognitivo nas medições que fizemos.” Aliás, sublinha a cientista, nas investigações em modelos animais (ratinhos, por exemplo) o impacto hormonal da gravidez no cérebro conduz a uma emergência dos comportamentos maternais mas também a melhorias persistentes da memória espacial, para encontrar comida e capturar as presas. Ainda assim, Susanna Carmona considera que seria interessante estudar “até que ponto estes problemas não são causados por reduções de memória, mas antes por uma mudança da atenção da futura mãe para estímulos e pensamentos sobre o bebé em prejuízo de outras coisas externas, que não têm a ver com a maternidade”.

Por fim e não menos importante: as mudanças observadas no cérebro das mães são irreversíveis? Além dos exames feitos antes e depois da gravidez, os investigadores fizeram mais uma sessão de ressonâncias magnéticas dois anos depois do parto. “Vimos que, nessa altura, as mudanças ainda continuavam lá”, diz a investigadora, que conclui: “Neste momento, não sabemos se os cérebros destas mães vão algum dia regressar ao seu estado original, o que é altamente improvável, mas para saber isso será necessário vigiar os seus cérebros nos próximos anos.”

 

 

Como a pobreza afeta o crescimento do cérebro

Junho 25, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 22 de junho de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Family income, parental education and brain structure in children and adolescents

D.R.

Se havia indícios nesse sentido, agora sabe-se com certeza científica: as crianças em condição de pobreza têm o cérebro 6% mais pequeno do que as restantes. Agora é preciso apurar as causas.

TEXTO LUCIANA LEIDERFARB

Era conhecido que as crianças sujeitas ao chamado ‘risco ambiental’ — lares desestruturados, contexto socioeconómico desfavorável, fraca intervenção do adulto — podiam apresentar sinais de atraso cognitivo. Sabia-se também que as deficiências nutricionais se faziam sentir nos resultados escolares e nos comportamentos. O que não se sabia era que a pobreza tem efeitos diretos no cérebro desde a primeira infância, senão desde o útero materno.

Em março, um estudo publicado pela revista “Nature Neuroscience” veio demonstrar, sem margem para dúvidas, que as crianças nascidas em famílias com rendimentos muito baixos possuem uma superfície cerebral 6% mais pequena do que as vindas de meios economicamente mais favorecidos.

A descoberta é arrepiante e deve fazer-nos tremer: não abrange apenas o lado do mundo ao qual se costuma colar a etiqueta de ‘miséria’ — África, Ásia ou América do Sul. Abrange também Portugal, onde a pobreza atinge uma em cada cinco pessoas, ou seja, dois milhões de seres humanos.

O estudo, o maior alguma vez realizado neste campo, juntou durante três anos investigadores de nove hospitais e universidades americanas e incidiu sobre um grupo de 1.100 crianças e adolescentes dos 3 aos 20 anos. Estes foram submetidos a testes de ADN e a ressonâncias magnéticas, além de serem considerados os rendimentos das famílias e o seu nível de educação.

Analisado o córtex — a camada exterior do cérebro que controla as funções cognitivas mais sofisticadas, como a linguagem, a leitura ou a capacidade de decisão — e o tamanho do hipocampo — a ‘casa’ das memórias de curto prazo —, concluiu-se que o cérebro das crianças cujas famílias auferiam menos de 25 mil dólares anuais (22 mil euros) era não só mais pequeno, como o seu hipocampo também se afigurava menor.

O contexto molda-nos

“O cérebro é o produto da genética e da experiência, e a experiência é particularmente poderosa para moldar o seu desenvolvimento durante a infância”, disse Kimberly Noble, da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e autora principal do estudo, ao “The Guardian”, continuando:

“Intervenções para melhorar as condições socioeconómicas, a vida em família e as oportunidades em termos de educação podem fazer uma enorme diferença.”

Outra das autoras, Elizabeth Sowell, que dirige o laboratório de imagiologia neurológica e desenvolvimento cognitivo do Children’s Hospital de Los Angeles, comentou no mesmo sentido: “A mensagem não é: ‘se és pobre, o teu cérebro será menor e não há nada a fazer sobre isso’. Melhorar o acesso a recursos que enriqueçam o contexto de desenvolvimento pode mudar as trajetórias do desenvolvimento cerebral, mesmo em crianças e adolescentes da faixa etária que estivemos a estudar.”

A toxicidade da pobreza

Mas como é que a pobreza altera o cérebro? Quais as verdadeiras causas para que tal aconteça? O estudo não fornece uma resposta cabal, mas há anos que é procurada por diversos investigadores, apontando-se a nutrição deficiente ou os altos índices de stress como fatores capazes de deixar marcas severas mesmo antes do nascimento. Patt Levitt, neurocientista que no passado estudou as sequelas da exposição à cocaína em fetos e recém-nascidos, hoje debruça-se sobre os efeitos biológicos da pobreza. E descobriu que situações como “sobrelotação, barulho, más condições de alojamento, violência ou tumulto familiar”, enquanto formas extremas de stress, podem ser tóxicas para o cérebro em fase de crescimento, tal como o são as drogas ou o álcool.

Hoje diretor do National Scientific Council of the Developing Child, Levitt constatou que essas circunstâncias fazem disparar o cortisol, hormona benéfica quando presente em pequenas quantidades, mas cujo descontrolo pode ser desastroso. Na mulher grávida, por exemplo, esta hormona “entra na placenta, influenciando o cérebro do bebé e adulterando os seus circuitos”, disse este mês à revista “The New Yorker”. Mais tarde, esse mesmo bebé continua a ser afetado pelo cortisol produzido pelo seu próprio corpo.

Inverter a marcha

A descoberta de que as condições económicas incidem sobre o tamanho do cérebro é um primeiro passo num caminho de correlações que necessitam de uma causa para se poder agir. Kimberly Noble assim o reconhece:

“Correlação não é causa. Podemos falar de elos entre a educação dos pais, o rendimento familiar e a estrutura do cérebro das crianças, mas não podemos dizer com certeza que essas diferenças são a causa das modificações na estrutura cerebral.”

Por esta razão, a cientista vai agora dar início a uma nova investigação que visa afinar os resultados da anterior. Recrutando 1.000 mães americanas com rendimentos baixos, a ideia é dar a metade uma soma de 333 dólares mensais (293 euros), enquanto as restantes recebem apenas 20 dólares (17 euros), durante três anos. No fim, procurar-se-á aferir em que medida essa mudança influencia o desenvolvimento dos seus filhos nos primeiros três anos de vida. Aquilo que norteia este projeto é a certeza de “nada é imutável” e que “o cérebro é incrivelmente plástico e capaz de ser moldado pela experiência”. E os seus resultados “podem informar diretamente a política pública sobre as vantagens de beneficiar famílias de baixos rendimentos com filhos pequenos”.

 

 

 

 

‘Memories’ pass between generations

Dezembro 17, 2013 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da BBC News de 1 de Dezembro de 2013.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Parental olfactory experience influences behavior and neural structure in subsequent generations

SPL

By James Gallagher

Behaviour can be affected by events in previous generations which have been passed on through a form of genetic memory, animal studies suggest.

Experiments showed that a traumatic event could affect the DNA in sperm and alter the brains and behaviour of subsequent generations. A Nature Neuroscience study shows mice trained to avoid a smell passed their aversion on to their “grandchildren”.

Experts said the results were important for phobia and anxiety research.

The animals were trained to fear a smell similar to cherry blossom.

The team at the Emory University School of Medicine, in the US, then looked at what was happening inside the sperm.

They showed a section of DNA responsible for sensitivity to the cherry blossom scent was made more active in the mice’s sperm.

Both the mice’s offspring, and their offspring, were “extremely sensitive” to cherry blossom and would avoid the scent, despite never having experiencing it in their lives.

Changes in brain structure were also found.

“The experiences of a parent, even before conceiving, markedly influence both structure and function in the nervous system of subsequent generations,” the report concluded.

Family affair

The findings provide evidence of “transgenerational epigenetic inheritance” – that the environment can affect an individual’s genetics, which can in turn be passed on.

One of the researchers Dr Brian Dias told the BBC: “This might be one mechanism that descendants show imprints of their ancestor.

“There is absolutely no doubt that what happens to the sperm and egg will affect subsequent generations.”

Prof Marcus Pembrey, from University College London, said the findings were “highly relevant to phobias, anxiety and post-traumatic stress disorders” and provided “compelling evidence” that a form of memory could be passed between generations.

He commented: “It is high time public health researchers took human transgenerational responses seriously.

“I suspect we will not understand the rise in neuropsychiatric disorders or obesity, diabetes and metabolic disruptions generally without taking a multigenerational approach.”

In the smell-aversion study, is it thought that either some of the odour ends up in the bloodstream which affected sperm production or that a signal from the brain was sent to the sperm to alter DNA.


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