Nasceram menos sete crianças por dia em 2017

Fevereiro 8, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 10 de janeiro de 2018.

Dados do Ministério da Justiça registam que há menos 2702 crianças em 2017 do que em 2016, uma diferença de, em média, menos 7,3 bebés por dia

António nasceu em dezembro e, não fossem as cólicas, seria sempre um anjinho, do tipo “come e dorme”. Não foi planeado, até porque os pais nem este ano dariam esse passo. “Melhor assim, foi a melhor coisa do mundo e preparámos tudo durante a gravidez”, diz a mãe, Madalena, de 31 anos. E já fazem contas ao segundo filho. O bebé, agora com um mês e uma semana, nasceu num ano em que Portugal voltou a ter menos crianças, recuando, aproximadamente, até aos números de 2015 (85 500 nascimentos).

Dados do Ministério da Justiça registam que há menos 2702 crianças em 2017 do que em 2016. Os registos e notariado indicam 88 150 nascimentos no ano passado, quando no período anterior eram 90 852, uma diferença de, em média, menos 7,3 bebés por dia. E, apurou o DN, os testes do pezinho revelam também uma descida, informação que deverá ser hoje disponibilizada pelo Instituto Nacional Ricardo Jorge.

As duas fontes de informação chegam à mesma conclusão: depois de dois anos em que a taxa de natalidade aumentou, os portugueses voltaram a ter menos crianças. Diferenças na ordem dos dois/três mil nados-vivos, o que para os especialistas são naturais na evolução demográfica da sociedade portuguesa (ver entrevista).

Acrescentam que a subida nos anos anteriores correspondem à recuperação das crianças “adiadas” nos anos da crise. A realidade deste ano é consequência do adiar da maternidade, do facto de haver menos mulheres em idade fértil, de uma migração negativa, da não divisão de tarefas domésticas e da falta de apoio à 1. ª infância.

Madalena Vilela sempre quis ter filhos e disse que seria mãe aos 30. “Quase, fui aos 31, mas ultimamente até dizia que seria mais tarde ao ver o exemplo das minhas amigas.” Só que a vida sentimental deu uma volta de 360 graus, precisamente quando em 2016 foi de férias à Madeira, berço da sua família materna. Conheceu o António Morgado, 32 anos, que até é de Aveiro, apaixonaram-se e ela trocou Lisboa pelo Funchal.

“Namorávamos há três meses quando soubemos que estava grávida, conversámos e decidimos ter a criança. E preparámo-nos para a sua chegada, por exemplo, o Tozé (o diminutivo do companheiro) deixou de fumar, fazíamos programas mais calmos que se adaptassem à minha situação de grávida e ao novo membro da família, tudo muito tranquilo e assim tem continuado”, conta Madalena.

Ajuda a sua atividade profissional, a comunicação digital de uma startup portuguesa para a qual já trabalhava em Lisboa. Tinha, entretanto, acumulado com outro emprego na ilha, que deixou. O companheiro é chefe de sala de um grande grupo hoteleiro, trabalha perto de casa, o que permite estar mais vezes com o filho. A mãe irá tirar 120 dias de licença de parto, o pai vai ficar o último mês com o António. Nome que o bebé herdou do avô paterno e que se repete nas gerações seguintes.

O casal entende que os irmãos não devem ter uma grande diferença de idades e querem o segundo filho. “Gostaríamos que nascesse dentro de um ano e meio”, explica Madalena. E ficam por aqui? “Eu teria o terceiro, o quarto e o quinto, mas ficaremos por aqui na primeira ronda, depois logo se vê.”

Portugal tem vindo a registar grandes quebras de natalidade desde 1976 (ver gráfico), quando havia mais do dobro de nascimentos do que atualmente. A taxa de natalidade recuperou um pouco nos últimos cinco anos da década de 90 do século passado, sendo a partir daí que se verifica o maior declínio. Mas o grande salto negativo aconteceu nos anos da crise económica, registando quase menos 20 mil nascimentos entre 2010 e 2013. É em 1982 que deixa de haver substituição de gerações em Portugal, ou seja, 2,1 nascimentos por mulher em idade fértil. É o índice sintético de fecundidade e que em 2017 volta ao 1,3, o mais baixo da UE, média também de Espanha, Grécia, Chipre e Polónia.

 

 

Ter um filho sim, partilhar casa não

Janeiro 6, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 29 de dezembro de 2017.

Natália Faria

Mais de 17% dos bebés que nasceram no ano passado não tinham os pais a viver sob o mesmo tecto. Mais do que efeito da emigração forçada pela crise, esta percentagem traduz uma nova realidade: a dos casais que, mantendo relações estáveis e duradouras, preferem viver cada um na sua casa.

É uma tendência muito pouco estudada, que leva os cientistas sociais a coçar a cabeça: que novas realidades se escondem por detrás dos 17,1% dos bebés que, no ano passado, nasceram de pais que não vivem juntos? Podem ser filhos de casais cujo marido foi empurrado pela crise para o estrangeiro ou de mulheres que decidem avançar sozinhas no projecto de ser mães. E podem, inclina-se mais a demógrafa Maria João Valente Rosa, ser expressão de uma nova forma de viver a conjugalidade e a parentalidade que já não passa por partilhar a mesma casa.

“Quando engravidei a primeira vez, estava numa relação bastante superficial em que nunca tínhamos equacionado a coabitação. Decidi avançar e perguntei ao pai se ele queria ou não ser pai dessa criança. Disse-me que sim, mas nunca se pôs a questão de vivermos juntos, porque o mais certo era que a história da minha filha ficasse marcada por discussões e muito provavelmente abandono”, conta Ana (nome fictício), uma professora, de 43 anos. “Preferi criar uma relação de segurança e estabilidade com ela naquilo que podia garantir que era o meu empenho no meu papel de mãe.”

Não fosse ter-se dado o caso de a relação amorosa ter-se entretanto esvaído, esta professora aproximar-se-ia muito nas suas circunstâncias daquilo que Maria João Valente Rosa qualifica como “famílias solitaristas”. “Estamos perante um novo fenómeno em que a parentalidade não só já não pressupõe o casamento — e note-se que mais de 52% dos bebés já nascem fora do casamento —, como também já não pressupõe a coabitação”, precisa a investigadora.

É o chamado living apart together: um modelo já muito disseminado em vários países em que as pessoas mantêm relações afectivas estáveis e duradouras sem, contudo, viverem na mesma casa. “É algo estranho para a maioria de nós, mas, em França, por exemplo, é muito comum as pessoas terem relações permanentes com cada um no seu sítio”, acrescenta Valente Rosa. Em Portugal, diz, começam agora a emergir estas “famílias solitaristas”, cujos pressupostos não incluem a coabitação.

Se recuarmos uma década, em 2006, dos 105.449 bebés nascidos com vida, 33.331, ou seja, 31,6%, nasceram fora do casamento — os pais não estavam casado. Mas apenas 6,3% das crianças não os tinham a viver sob o mesmo tecto.

No ano passado, a percentagem aumentou para os referidos 17,1%, o que equivale a dizer que, dos 87.440 bebés que as estatísticas contabilizam, 14.920 nasceram sem coabitação dos pais.

“Evolução consistente”

“Em Portugal, estas mudanças, no caso dos comportamentos face à parentalidade, costumam ocorrer com uma aceleração incrível”, sublinha Valente Rosa, enquadrando o que admite ser uma nova tendência com uma nova forma de partilhar, espaços incluídos, “sem estarmos fisicamente presentes”.

Quando este fenómeno começou a ser notado, a crise e, consequentemente, a emigração, foram as explicações imediatamente encontradas. E que, de resto, continuam a ser válidas, na opinião de especialistas como Vanessa Cunha. “Este aumento de nados vivos que nasceram sem a coabitação dos pais acentuou-se em contraciclo com a queda dos nascimentos. Se falássemos de um contexto de prosperidade económica, admitiria que pudessem estar aqui muitas mulheres que chegaram a uma certa idade e decidiram ter filhos, ainda que sem parceiro. Não rejeitando que estas situações ocorram, não me parece que expliquem o todo”, introduz a socióloga para concluir que, sendo o contexto fortemente marcado pela emigração masculina, “e de homens em idade de ter filhos, o mais provável é que a falta de coabitação destes pais não seja voluntária mas forçada”. Forçada “pela emigração e pela incapacidade dos casais em emanciparem-se dos pais e arranjarem domicílio conjunto”.

Porque é que Valente Rosa privilegia o solitarismo mais do que o peso da emigração masculina? “Porque, se assim fosse, teríamos oscilações e picos nos piores anos da crise, e não esta evolução consistente”, responde. De facto, mesmo com o garrote da crise a abrandar e a emigração a diminuir, a percentagem de crianças nascidas fora do casamento e sem coabitação dos pais continuou a aumentar: de 15,8% em 2014 para 16,3% do ano seguinte e para 17,1% no ano passado.

É, concordam as duas especialistas, uma tendência à espera de ser mais bem escrutinada, e que, provavelmente, os censos de 2021 ajudarão a desvendar melhor. Enquanto estes não chegam, a presidente da Associação Portuguesa de Demografia, Maria Filomena Mendes, também tende a dissociar esta nova tendência da crise económica. “É verdade que o último inquérito à fecundidade feito em 2013 mostra que os portugueses querem ter, pelo menos, um filho e o facto de a crise os ter apanhado no limite da fertilidade levou muitos casais a optarem por ter esse filho — mesmo que, nesse momento, não estivessem a coabitar.”

Mas, passada a turbulência económica, e os piores anos de desemprego e precariedade laboral, a demógrafa considera que estes 17,1% podem indiciar uma abertura da sociedade a “novos comportamentos face à parentalidade”. Alguns, eventualmente, desencadeados pela própria crise. “As pessoas podem ter-se habituado a determinadas circunstâncias e a uma nova autonomia para que foram empurradas pela crise”, admite.

Romantismo e pragmatismo

Por outro lado, o facto de 66,6% dos 14.920 bebés que no ano passado nasceram sem coabitação dos pais serem primeiros filhos pode encerrar algumas pistas importantes. “O inquérito mostrou-nos que, no momento de se avançar para o segundo filho, a presença do pai é importante e reivindicada, muito mais do que no primeiro”, lembra Maria Filomena Mendes.

“O primeiro filho pode nascer mesmo que as circunstâncias estejam longe de ser as tidas como ideais”, prossegue a especialista. “Uma pessoa pode ter o companheiro a trabalhar e a viver longe ou no estrangeiro que não deixa de ter um filho por causa disso.”

Mas, quando se trata do segundo filho, “as mães tendem a reivindicar mais a presença dos pais, porque a conciliação trabalho-família torna-se mais difícil, a gestão do tempo também e as tarefas têm de passar a ser mais divididas”, continua, para lembrar que este reforço da importância atribuída ao papel e à presença do pai é reivindicado também pelo lado masculino da equação, a partir do segundo filho.

A história de Ana parece dar-lhe razão. Depois de ter decidido ter a primeira filha sozinha, sem a presença quotidiana do pai, optou por não repetir a experiência quando, uns anos depois e já numa nova relação igualmente sem coabitação, teve a segunda filha. “Ter uma criança de oito anos e um bebé sozinha significaria que não ia conseguir tomar banho, nem comer, nem dormir. Já tinha passado pela experiência. E, meio a brincar, costumava dizer à minha mãe: ‘Não volto a dar banho a uma criança sozinha.’”

Assim, apesar de, por opção, Ana ter voltado a passar pela gravidez sem coabitar com o pai da sua segunda filha, quando saiu da maternidade com o segundo bebé nos braços decidiram, ela e o companheiro, passar a partilhar o mesmo tecto. Desta coabitação, nasceu entretanto outra bebé, a terceira filha de Ana e a segunda do seu actual companheiro. “A relação em casas separadas”, recua, “era vivida de forma mais intensa, quando estávamos juntos, dedicávamo-nos inteiramente um ao outro.” Uma casa partilhada e duas filhas depois, como é? “Passamos mais de 90% do nosso tempo a discutir questões logísticas”, ri-se, sem problemas em declarar que a coabitação “foi decidida pelo nascimento das filhas e pela logística” que lhes está associada.

Pode parecer “pouco romântico”, reconhece Ana, mas os dois lidam muito bem com isso: “Não exclui em nada todo o afecto que temos um pelo outro. Mas sabemos das nossas diferenças. Os dois precisamos de espaço. Tudo isto poderia ter-se tornado um problema, se não tivéssemos sabido resolvê-lo.” Com a necessária dose de pragmatismo.

 

 

 

Como o mês em que nasceu influencia as doenças que pode vir a desenvolver

Agosto 3, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da http://visao.sapo.pt/ de 24 de junho de 2017.

Um estudo recente espanhol alega ter descoberto quais são as doenças crónicas que estão mais associadas a cada mês de nascimento

O estudo, realizado na Universidade de Alicante em Espanha, tinha como objetivo avaliar a associação entre o mês de nascimento de um indivíduo e o surgimento de 27 doenças crónicas a longo prazo. Liderado por Jose Antonio Quesada, o grupo de investigadores, analisou o mês de nascimento de cerca de 30 mil pessoas para perceber se a altura em que nasceram influenciou o desenvolvimento de doenças crónicas na fase adulta.

Publicado no jornal Medicina Clinica, o estudo descobriu, por exemplo, que os bebés que nasceram em agosto têm o dobro do risco de terem asma do que aqueles que nasceram no início do ano. Já os homens que nasceram em junho têm menos 34% de probabilidade de desenvolverem uma depressão e menos 22% de probabilidade de vir a sofrer de dores lombares.

Mas, segundo esta investigação, o melhor mês para nascer é mesmo setembro: os bebés que nasceram neste mês são os que têm a menor hipótese de desenvolver qualquer tipo de doença crónica.

Os investigadores acreditam que uma possível explicação está na exposição à luz solar. Enquanto a luz solar estimula a produção de vitamina D, a sua falta, nos primeiros meses de vida, pode ter efeitos prolongados na saúde física e mental. Em Portugal, os pais são aconselhados a dar vitamina D (que ajuda a regular milhares de genes durante o desenvolvimento) ao longo dos primeiros 12 meses de vida dos bebés.

“O mês de nascimento pode funcionar como um indicador de períodos de exposição precoce a vários fatores, como raios ultravioletas, vitamina D, temperatura, exposição sazonal a vírus e alergias que podem afetar o desenvolvimento no útero e do recém-nascido nos primeiros meses de vida”, explica o Quesada.

Segue-se a lista completa das doenças crónicas mais prováveis, consoante o mês de nascimento, segundo este estudo:

Janeiro

Homens: prisão de ventre, úlcera de estômago, dor lombar

Mulheres: enxaqueca, problemas de menopausa, ataque cardíaco

Fevereiro

Homens: problemas de tiróide, doenças cardíacas, osteoartrite

Mulheres: osteoartrite, problemas de tiróide, coágulo de sangue

Março

Homens: cataratas, doenças cardíacas, asma

Mulheres: artrite, reumatismo, prisão de ventre

Abril

Homens: asma, osteoporose, problemas de tiróide

Mulheres: osteoporose, tumor, bronquite

Maio

Homens: depressão, asma, diabetes

Mulheres: alergias crônicas, osteoporose, prisão de ventre

Junho

Homens: problemas cardíacos, cataratas, bronquite crónica

Mulheres: incontinência, artrite, reumatismo

Julho

Homens: artrite, asma, tumores

Mulheres: dor de pescoço crónica, asma, tumores

Agosto

Homens: asma, osteoporose, problemas de tiróide

Mulheres: coágulos sanguíneos, artrite, reumatismo

Setembro

Homens: asma, osteoporose, problemas de tiróide

Mulheres: osteoporose, problemas de tiróide, tumores malignos

Outubro

Homens: problemas de tiróide, osteoporose, enxaqueca

Mulheres: colesterol alto, osteoporose, anemia

Novembro

Homens: problemas crônicos de pele, doenças cardíacas, problemas de tiróide

Mulheres: prisão de ventre, ataques cardíacos, varizes

Dezembro

Homens: cataratas, depressão, problemas cardíacos

Mulheres: bronquite crónica, asma, coágulos sanguíneos

Os resultados deste estudo, não são, no entanto, consensuais. Robert Cuffe, embaixador da Royal Statistical Society, uma sociedade de estatísticas britânica, fala em “astrologia”, que “nunca foi grande ciência”. “Se procurarmos nos 12 meses cada uma das 27 doenças nos dois géneros (628 combinações possíveis), certamente vamos encontrar padrões de probabilidade que parecem extradordinários”, desvalorizou Cuffe, em declarações ao The Independent.

O especialista nota ainda que muitas das associações encontradas são diferentes das de um estudo semelhante, efetuado há dois anos, o que não aconteceria “se estas fosse associações reais”.

Cuffe refere-se a um estudo de 2015 da Universidade de Columbia, que concluiu que as pessoas que nasceram em maio tinham um menor risco de desenvolver uma doença ao contrário das que nasceram em outubro.

 

 

Uma façanha extraordinária: como a ética fez nascer o bebé-esperança

Julho 28, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Para Gonçalo Cordeiro Ferreira, presidente da Comissão de Ética do Centro Hospitalar de Lisboa Central, a criança que nasceu no São José de uma mãe em morte cerebral não é um bebé-milagre, mas um “bebé-esperança”

Para Gonçalo Cordeiro Ferreira, presidente da Comissão de Ética do Centro Hospitalar de Lisboa Central, a criança que nasceu no São José de uma mãe em morte cerebral não é um bebé-milagre, mas um “bebé-esperança”.

 

A vida é um bem a ser cuidado. A morte é um instrumento para chegar à vida. E a ética tem de servir para ligar a morte e a vida. Foi assim, que, numa manhã de segunda-feira, decidiu-se prolongar a morte de uma mãe para fazer nascer um filho que ela nunca veria. Nem o médico que o salvou. Nem viu, nem vai ver, porque a ética não pode depender da espuma das emoções. É de outro patamar, do distante. A palavra ao pediatra que salvou o bebé que comove Portugal.

Um homem não se separa da circunstância e Gonçalo Cordeiro Ferreira é, antes do mais, um pediatra. É o médico das crianças. É também diretor do Hospital D. Estefânia e presidente da comissão de ética do Centro Hospitalar de Lisboa Central. Naquela sexta-feira, 19 de fevereiro deste ano, quando uma mulher grávida e em coma deu entrada no hospital de S. José, em Lisboa, ele ainda era o vice-presidente do organismo que tomaria uma decisão que entrou para a história da medicina portuguesa e cravou a sua marca na literatura clínica mundial.

Subscreveu a “decisão pró-vida”, uma opção em prol da sobrevivência de um feto de 17 semanas totalmente dependente do corpo de uma mãe que já morrera em consequência de uma hemorragia cerebral. Gonçalo Cordeiro Ferreira nunca viu aquela mulher. Nunca olhou para uma fotografia daquela criança. Um homem que não acredita em milagres, mas que defende a esperança.

Como é que tudo começou?
A 21 de fevereiro, sábado, a comissão de ética encontrava-se em reestruturação porque o anterior presidente, dr. António Santos Castro, estava em vias de se aposentar e ainda não tinha sido nomeada formalmente uma nova comissão. Fui contactado pelo diretor clínico do serviço de Neurocríticos do Hospital de S. José e informado de que havia uma senhora em morte cerebral, grávida, e que a primeira avaliação do bebé mostrava que era um feto que tinha todo o comportamento ecográfico e biomédico bem, assim como a placenta. Não havia lesões visíveis. Era um feto de 17 semanas que, se fosse retirado de dentro da mãe, não teria nenhuma viabilidade. E havia a necessidade de saber o que se iria fazer com esta senhora, que era mantida em suporte de vida. A ‘velha’ comissão de ética reuniu-se então no dia seguinte. Entretanto, informamo-nos do que se passava e recolhemos informação sobre uma situação bastante insólita e rara. Depois de um debate de algumas horas, elaboramos, por unanimidade, um parecer que foi enviado ao conselho de administração.

O que dizia o parecer?
Em primeiro lugar, que se tratava de um feto de 17 semanas que não pode sobreviver fora da barriga da mãe. De uma mãe que tinha reiteradamente afirmado que queria manter a gravidez, apesar de ter uma doença. Em segundo lugar, foi uma decisão classificada ‘pró-vida’ que nos fez decidir pelo feto. Porque se uma pessoa em morte cerebral é mantida viva em nome de um milagre, é claramente um processo de futilidade terapêutica, porque sabemos que não terá qualquer recuperação. A consulta da literatura mostrou que, embora não haja muitos casos, é possível ter sucesso em casos como este. Até às dez semanas, o feto fica à disposição da mãe, que pode decidir ou não o prosseguimento da gravidez. A partir daí, só pode interrompê-la se houver malformações ou perigo para a saúde da mãe reconhecido por uma comissão científica. O terceiro ponto pedia que o feto fosse monitorizado constantemente para detetar quaisquer indícios de que o momento do acidente cerebral que custou a vida à mãe pudesse ter afetado o bebé e que este pudesse desenvolver malformações. Finalmente, também se sublinhava que o caso tinha de ser entregue ao Ministério Público, que poderia ter de tomar uma medida cautelar em relação ao feto.

Tinham alternativas do ponto de vista legal?
Existe aqui um grande vazio legal. Para todos os efeitos, esta senhora tinha um óbito declarado. O problema é que o feto não tem personalidade jurídica.

Esse argumento não foi invocado?
Não, o bebé foi considerado um bem jurídico. A vida é um bem e era uma vida que já estava além do período em que poderia ser disposta pela mãe. Não temos muitas opções. É evidente que havia risco. Daí a continuada monitorização do feto para perceber se surgiam anomalias incompatíveis com uma vida em qualidade. Imaginemos que a mãe desenvolvia uma infeção e o bebé morria. O que se tinha perdido? Tempo, a utilização de uma máquina. A colheita de órgãos só poderia ser feita se houvesse condições. Há sempre que equilibrar o certo e o incerto e o certo era aquela vida. Não foi um aventureirismo.

Não foi inédito?
Em Portugal foi, e em termos mundiais não é muito frequente, só há uma referência na Arábia Saudita, onde o bebé nasceu uma semana antes deste.

Foi uma experiência médica?
A comissão de ética não se baseia nesses raciocínios. É uma terapêutica experimental, o que não quer dizer que seja uma experiência, porque se houvesse deteção de anomalias poderia invocar-se a interrupção da gravidez por motivos de malformações fetais. Esta salvaguarda estava assegurada.

Então porquê pedir a intervenção do Ministério Público (MP)?
As informações que tínhamos na altura eram escassas em relação à família, que estava em choque e sabíamos pela equipa médica que tratava da mãe, que a relação com o pai era recente, não sabíamos se era estruturada. Perante a possibilidade de haver uma contradição com a opinião da família, o que se decidiu – e esta é a decisão que reputo mais ousada – foi equiparar este feto a um menor em risco e dar disso conhecimento ao MP. A fundamentação é de que quem protege o feto é a mãe e esta mãe está morta, não pode proteger o seu bebé. Mas também a equipa médica precisava de uma tutela superior, que teria de ser o Estado, se não houvesse acordo com a família. Daí ter-se dito ao MP que não se trataria de uma personalidade jurídica mas de um bem jurídico. Uma vida que não está protegida. Entretanto, a família mostrou ter vontade que a gravidez fosse para frente, mesmo sendo uma situação muito complicada.

A família não deveria ter assinado um consentimento informado?
Não concordo, porque a senhora estava morta. E o bebé não é propriedade de ninguém. Está tutelado pela família enquanto menor e pode ser retirado da família se esta não exercer corretamente a sua missão. O feto não é do pai. Seria da mãe, com reservas até às dez semanas. Felizmente, todos concordaram, mas mesmo que não o tivessem feito, a gravidez poderia continuar.

Esta decisão é única?
Vou falar transcendendo o papel na comissão de ética, porque sou pediatra e uma pessoa não se pode desligar da sua condição. Este caso foi uma façanha extraordinária. A equipa de neurocríticos fez um trabalho tecnicamente perfeito, em condições muito complicadas, sem experiência. Compreendo que esta seja uma decisão muito complicada, porque as equipas médicas lutam para salvar vidas e não para manter mortos. E neste caso só lutaram para manter esta morta em situação de vida temporária porque sabiam que estava lá uma vida a crescer. Só fazia sentido se o bebé nascesse bem. Se não tem acontecido, teria sido uma enorme deceção. Uma sensação de tempo gasto porque o que aconteceu foi ao arrepio da prática médica. Ficaram muito aliviados quando viram o até então invisível bebé. Foi fantástico. Foi possível manter o bebé com o que ele necessitava para crescer, mas havia coisas que faltavam. Acordar, dormir, estar dentro de casa, comer e estar em jejum, estados emocionais que não se transmitem, mas são modulados pela libertação de hormonas que ali não havia. E há a fala, a música, que os bebés ouvem na barriga da mãe. Neste caso isso não existiu, com que consequências, não sabemos. Mas a equipa, sobretudo de enfermagem, fez um papel de comaternidade.

Sem nenhum protocolo?
Sem nenhum protocolo. Primeiro porque isso não vem nos manuais técnicos. Iam ao quarto, falavam com o bebé, levavam música, faziam festinhas na barriga da mãe. Mostra-nos que a maternidade não é uma ação individual, é de toda uma comunidade. Aqui, começou na fase pré-natal. A ética repousa nos bons princípios do homem como animal social. E essa equipa mostra isso, na vontade de o homem fazer bem ao seu semelhante.

Nunca se arrependeu da decisão?
Nunca.

Fica aborrecido quando chamam à criança “bebé-milagre”?
Não há milagres, mas que o bebé é um grande marco, é. Preferia chamar-lhe bebé-esperança. Foi fruto de uma esperança que não foi aventureira, foi baseada em indicações concretas.

Alguma vez foi visitar a mãe?
Não.

Visitou o bebé?
Não.

Vai?
Não.

Porquê?
A comissão de ética precisa de estar distante do que é esta espuma das emoções. Tem de estar noutro patamar, em que as deliberações têm de ser mais tranquilas apesar da urgência da situação.

Ele não vai ser seu doente?
Não.

 

Expresso em 15 de junho de 2016

Pais já podem assistir a partos por cesariana

Abril 28, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 19 de abril de 2016.

Natacha cardoso

TSF

A lei em vigor até agora permitia interpretações diferentes dependendo da unidade de saúde. O despacho publicado esta terça-feira clarifica o acompanhamento de grávidas durante o parto.

Os pais ou outros acompanhantes vão poder assistir aos nascimentos por cesariana. O despacho n.º 5344-A/2016, publicado esta terça-feira em Diário da República, esclarece que “estão reunidas as condições para que se assegure o acompanhamento à parturiente e o envolvimento do pai, ou outra pessoa significativa, em todas as fases do trabalho de parto, mesmo quando seja efetuada uma cesariana”.

Esta nova portaria estabelece os procedimentos no acompanhamento de grávidas durante o parto. A mulher só não poderá ser acompanhada em situações clínicas graves, “que deverão ser explicadas aos/às interessados/as e registadas no processo clínico”.

Em fevereiro o parlamento tinha aprovado uma recomendação ao Governo, proposta pelo PS, para que fosse clarificada através de portaria o direito de as grávidas a serem acompanhadas por alguém da sua escolha durante o parto.

A lei já previa o acompanhamento, mas deixava algumas questões por clarificar, o que permitia interpretações diferentes nas unidades hospitalares do Serviço Nacional de Saúde. Alguns hospitais impediam por isso a presença de acompanhante em partos por cesariana realizados no bloco operatório.

 

 

 

 


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