Pais que “mimam” os filhos estão a criar uma geração de adultos deslocados e incapazes de lidar com frustração

Fevereiro 15, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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À mesa do restaurante, o João faz uma fita a exigir o telemóvel da mãe para se distrair durante o almoço. A Maria atira-se para o chão da loja de brinquedos porque quer que o pai lhe compre aquela boneca, agora. E, sentado no sofá de casa, o Pedro irrita-se com os pais porque quer uma resposta urgente sobre poder ou não ir à festa dos amigos no sábado à noite. Todos eles, independentemente da idade, têm algo em comum: vão tornar-se adultos “mimados”, incapazes de lidar com as frustrações do mundo.

A culpa do destino destes três, João, Maria e Pedro, é do imediatismo que rege as relações atualmente. Temos, enquanto pais, dito muitos “sim” aos filhos quando na verdade, o ideal seria dizer mais “não sei” ou “vou pensar”. Como explica a psicóloga e educadora Rosely Sayão, essa atitude traz como maior prejuízo uma alienação em relação à realidade.

— O adulto que tem o culto do imediatismo, em vez de ser uma pessoa controlada, tem dificuldade em aceitar as situações e inserir-se no mundo.

Pressionados a responder às demandas dos filhos imediatamente, os pais acabam por soltar as respostas impensadas, e a consequência, na visão da coach de vida e carreira Ana Raia, é a criação de jovens pouco preparados para lidar com a vida.

Os pais atualmente não aguentam não ceder ao imediatismo. No passados os pais permitiam-se em deixar os filhos insatisfeitos por muito tempo. Hoje em dia, com o stress, acabam por ceder à pressão rapidamente, criando assim um dos maiores desafios na educação das crianças e jovens: o imediatismo.

Ana Raia acredita que a tecnologia contribui para o imediatismo, uma vez que, ao toque de um dedo no ecrã, a resposta para qualquer pergunta ou busca de informação podem ser obtidas em pouquíssimos segundos. Temos o mundo dentro de nossa casa, dentro da nossa carteira, dos nossos bolsos.

Não conseguimos sustentar uma dúvida por muito tempo, um incómodo, uma pulga atrás da orelha. Não sabemos lidar com um mal-estar num mundo onde a felicidade é imperativa.

E a dúvida, explica Rosely Sayão, é preciosa, assim como a espera e o pensamento porque ajudam a criança a crescer e a amadurecer. Crianças que não têm momentos de “mente vazia”, por exemplo, poderão sofrer graves consequências na vida adulta.

Alguém que está sempre entretido terá para sempre a necessidade de entretenimento constante, alerta o médico Daniel Becker, criador do projeto Pediatria Integral. Defende que, para ser criativo, o cérebro humano precisa da criatividade.

— São necessários momentos de engajamento externo e momentos  de ócio em estado de contemplação. Quando uma criança tem o seu tempo completamente controlado com atividades como escola, inglês, natação, Facebook, Instagram, WhatsApp, etc, acaba por ficar incapacitada de desenvolver processos interiores profundos e importantes.

Becker acrescenta que crianças que não interagem com os seus pares ou mesmo com adultos porque passam o dia com gadgets na mão, desenvolverão menos a inteligência emocional, a empatia e a capacidade de comunicação quando crescerem.

Se este não fosse já um bom argumento, ainda haveria a opinião de outros especialistas, que encaram o hábito dos pais entregarem telemóveis e tablets às crianças, como algo benéfico apenas para os adultos.

Na opinião de Rosely Sayão, dar um gadget à criança em momentos onde seria suposto sociabilizar com a família e os amigos, não é um carinho, mas sim, um comodismo.

— O telemóvel e o tablet nestas situações têm a função do “fica sossegado”, e nada mais.

Mas, então, o que devemos fazer quando estamos a almoçar com amigos ou em família, e os miúdos não param de chatear para irmos embora?

O pediatra Daniel Becker diz que:

“As pessoas esquecem-se que as crianças sabem conversar e que podem fazer pequenas conversas. Mesmo as mais pequenas têm esta capacidade de compreensão. Basta dizer ao filho que, nos momentos em que estiverem a conversar em família, ele não terá o tablet, mas que, quando os pais estiverem a falar só com os seus amigos, ele poderá jogar por 15 minutos. Assim, alcança-se um equilíbrio.

Soluções como esta são recursos para que os pais lidem não só com o imediatismo das crianças, mas também o deles que, de forma não intencional pode servir de exemplo negativo aos filhos, que acabam por copiar as atitudes da família.

Para o pediatra presidente do Congresso Brasileiro de Urgências e Emergências Pediátricas, Hany Simon, a ansiedade e a angústia na adolescência e na vida adulta podem ser resultados do imediatismo paterno presenciado na infância. E, como reforça Rosely Sayão, viver de forma “urgente” só traz impactos emocionais negativos nas crianças.

— Somos escravos do imediato desde que nascemos. Choramos para mostrar rapidamente que estamos vivos, somos atendidos e temos as nossas necessidades básicas saciadas. Com isto, vem também uma sensação de prazer, que vamos desejar para sempre. No entanto, não é o princípio do prazer que vai reger a nossa vida mas sim o princípio da realidade. O papel dos pais é mostrar aos filhos a realidade do mundo.

imagem@umcomo.com

Publicado em R7, adapatado por Up To Kids®

 

Niños narcisitas: epílogo de la malcriadez

Dezembro 25, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://www.psyciencia.com/ de 31 de maio de 2017.

Por Rita Arosemena P.

Malcriar a un niño en tiempos modernos se ha convertido en una tarea exageradamente fácil.

Para la psicóloga María Jesús Álava Reyes, muchos padres han caído en la trampa de aquel viejo estilo de crianza disfuncional según el cual a los niños hay que darles todo lo que pidan porque, sino, no se les quiere.

Con mayor frecuencia de lo que pensamos, un par de adultos ya formados termina convirtiéndose en esclavo de infantes menores de dos años y, lo que es peor, con el paso de los años, el niño resulta convertirse en esclavo de sí mismo. De sus demandas, de sus miedos, de sus expectativas irracionales y de su propia agresividad.

Consentir demasiado a los niños no los convierte en personas más decentes o sanas, de hecho, les genera más daño que beneficio en tanto hace de ellos individuos incapaces de lidiar con la frustración o manejar adecuadamente sus emociones. Los niños que ven satisfechas todas sus exigencias terminan por desconocer el significado de una negativa y aprenden a medir las consecuencias de sus actos únicamente en términos de “alcance de objetivos”.

El niño aprende que: “Si una pataleta hace que mamá o papá me den lo que quiero, entonces está bien que haga una pataleta”, una conducta que los padres refuerzan incluso sin darse cuenta al momento de ceder inmediatamente ante las exigencias de sus hijos.

La apoteosis de la malcriadez, desafortunadamente, no deriva en un efecto inmediato de corta duración sino en toda una cadena de comportamientos disfuncionales a escala colectiva. Los niños excesivamente consentidos de hoy pasan a ser los adultos narcisistas de mañana y de pronto un individuo común se descubre víctima de las demandas irracionales de otro que parece no darse cuenta de que su forma de ver el mundo y desenvolverse en sus relaciones interpersonales es denigrante para los demás.

Pero ¿cómo ocurre la transformación de un niño común en un niño narcisita?

Trastorno Narcisista: cómo surge y por qué

El Trastorno Narciscista puede durar años o toda la vida y, aunque la causa exacta no se conoce, se presume que implica una serie de factores tanto ambientales como genéticos.

Las personas narcisista se caracterizan principalmente por exhibir una necesidad exagerada de admiración, indiferencia con respecto a los sentimientos de los otros, intolerancia a la crítica y una percepción subjetiva de que los demás están en deuda con ellos.

Para la psicóloga Elinor Greenberg, los factores ambientales que actúan como marcadores para el desarrollo del Trastorno Narcicista comienzan a actuar desde la infancia impulsados por el hecho de que todos los niños buscan atención y aprobación por parte de sus padres, lo cual puede llevar a la creación de escenarios en los cuales una conducta narcisista se convierte en algo natural.

Los escenarios que describe Greenberg son:

Escenario 1: Valores parentales narcisistas

En esta situación, el niño es criado en una familia que es muy competitiva y sólo recompensa logros altos. Uno o ambos padres son narcisistas exhibicionistas. El lema de la familia es: “Si no puedes ser el mejor, ¿para qué lo intentas?”

El amor es condicional. Si ganas un partido de fútbol o la feria de ciencias, o eres estrella en el espectáculo de la escuela, entonces te rodea la alabanza y la atención

Pero si no lo haces, eres una decepción para tus padres. Todo el mundo en la familia se supone que es especial y lo prueban una y otra vez; no importa cuánto logres, la presión nunca termina.

Los niños de estas familias no se sienten amados de forma estable. Es difícil para ellos disfrutar de cualquier cosa si no confiere una condición de estatus. En lugar de ser apoyados por sus padres para explorar lo que les gusta, sólo reciben apoyo para alcanzar logros altos. Sus padres no están interesados ​​en el “yo real” de sus hijos, sino en cómo pueden hacer que la familia se vea bien para poder presumir a sus vecinos: “¡Mira lo que hizo mi hijo!”

Los niños que crecen en hogares como éste sólo se sienten seguros y valiosos cuando son exitosos y reconocidos como los “mejores”. El amor condicional de su niñez y la evaluación excesiva del alto estatus y el éxito en su hogar pone en marcha un patrón que puede durar toda la vida y según el cual deben perseguir el éxito y confundirlo con la felicidad.

Escenario 2: La Devaluación del Padre Narcisista

En este escenario hay un padre muy dominante y devaluador que siempre está presionando al niño. El padre es generalmente irritable y tiene expectativas irracionalmente altas. Si hay dos o más hijos, el padre alaba uno y menosprecia a los demás. El “bueno” puede convertirse rápidamente en el “malo” y de repente un hermano diferente se convierte en el mejor hijo. Nadie en la familia se siente seguro y todos pasan su tiempo tratando de pacificar al explosivo padre narcisista.

La madre o el padre acompañante es tratado a menudo exactamente igual que el resto de sus hijos. Cuando él o ella no está de acuerdo con el padre narcisista, también son devaluados.

Los niños que crecen en estos hogares acumulan resentimiento y humillación. Es probable que reaccionen a este estilo de crianza de distintas maneras:

Una depresión autoagresiva basada en la vergüenza

Una rebeldía que busca demostrar que sus padres estaban equivocados

Un sentimiento de ira permanente que hace de ellos individuos narcisistas y tóxicos que sienten alivio destruyendo la vida de los demás. 

Escenario 3: “El niño de oro”

Estos padres suelen ser narcisistas introvertidos que se sienten incómodos siendo el centro de atención. En cambio, se jactan de su hijo talentoso. A menudo, el niño es habilidoso y merece elogios, pero estos padres a veces lo llevan al extremo de la ridiculez convirtiendo a sus hijos en el objeto de una idealización excesiva, la imagen de un niño impecable y especial que termina haciendo de él un individuo narcicista en el futuro.

De acuerdo con Greenberg, esto crea niños narcisistas porque “todo el mundo quiere ser amado incondicionalmente”“si los niños creen que sus padres sólo los valoran porque son especiales, esto puede contribuir a una inseguridad subyacente”

Con el tiempo, la forma que los niños adoptan para combatir esta inseguridad es una visión desequilibrada del yo. El niño comienza a percibir cualquier defecto como algo inaceptable y, no solo persiguen desesperadamente el perfeccionismo, sino que también luchan por conservar su rol de “Niños de Oro”.

Cuando no reciben elogios por parte de los demás, se sienten insatisfechos y agobiados porque piensan que están haciendo algo mal, que decepcionan a su familia.

Escenario 4: El admirador del exhibicionista

Algunos niños crecen en hogares donde hay un padre narcisista exhibicionista que los recompensa con elogios y atención mientras que los admiren y permanezcan subordinados a él. A estos niños se les enseñan valores narcisistas, pero se les cohíbe a la hora de aprender a recibir elogios desinteresados por parte de los demás. En lugar de esto, se les inculca que su papel en la familia es adorar sin crítica la grandeza del padre narcisista, sin intentar nunca igualar o superar los logros de este.

En la edad adulta, estos niños se sienten incómodos siendo el centro de atención así que pasan a ser narcisitas introvertidos o encubiertos. Sus problemas de narcisismo y autoestima son menos evidentes para cualquiera que no los conozca bien. Algunos se adaptan a este papel muy bien y llevan vidas productivas en un trabajo que implica el apoyo a un narcisista exhibicionista de alto rendimiento que ellos admiran y que viene a representar la figura del padre.

Para Greenberg, lo más triste de la crianza disfuncional que deriva en niños y adultos narcisistas es que deriva de ambientes domésticos donde esta parece ser la única opción posible, donde convertirse en narcicista es “la única solución sana”.

Fuente: Psychology Today

 

 

 

Mário Cordeiro: “O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar”

Setembro 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://visao.sapo.pt/ a Mário cordeiro no dia 19 de dezembro de 2016.

Teresa Campos

Entrevista publicada na VISÃO 1240 de 8 de dezembro

“Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo ‘lado negro da força’, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior”, diz o pediatra, em entrevista à VISÃO

Sentado num cadeirão do seu consultório, em Lisboa, o conhecido médico segura, orgulhoso, o seu mais recente livro: “Os nossos adolescentes e a droga”. É o 35º, contabilizando os que partilhou a autoria, em mais de 30 anos de dedicação às crianças e à promoção da saúde uma produção num ritmo alucinante, associada aos cinco filhos e à atividade médica. Aos 61 anos, não é a primeira vez que Mário Cordeiro escreve a pensar na segunda década de vida dos mais novos, a fase em que se desenvolvem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro com mais segurança e resiliência. Desta vez, quis fazer uma espécie de manual para pais, com contexto, glossário e experiências contadas na primeira pessoa para esclarecer dúvidas que possam surgir sobre as diversas drogas, álcool incluído.

O objetivo, sempre, é informar. Porque mais vale prevenir do que tratar.

Já tinha escrito sobre adolescentes. O que o fez voltar ao tema?

Achei que valia a pena revisitar este tema porque deixou de se falar nele. Mas [o problema] existe. Há uns anos, verifiquei que o consumo comparado entre alunos da escola privada e da pública eram similares, o que contraria a ideia de que uns estão mais protegidos de determinadas experiências. O que faz sentido, se pensarmos bem nisso: um dealer vai investir mais junto de um público que tem mais dinheiro, certo?

A dada altura, lê-se: “Educar não é difícil, é ter momentos terríveis.” É isso que os pais de adolescentes devem esperar?

Os adolescentes trazem muitas alegrias e muitas dores de cabeça, no sentido de termos muitas dúvidas. Mas isso acontece a nós e a eles, porque o processo tem dois lados. O mais comum é, a partir de um sentimento de frustração, haver birras e não saber geri-las. E isso, claro, também acontece na adolescência. Um filho dá–nos recompensas extraordinárias, mas também imensas dores de cabeça. Além disso, idealizamos sempre os nossos filhos, e às vezes esquecemos que eles têm de fazer o percurso de vida deles.

Eles não são nossos. Podemos ser uma espécie de polícias-sinaleiros a indicar o melhor caminho, mas o automobilista é que decide se vai por ali ou não. E às vezes os filhos desiludem-nos, fazem escolhas que não faríamos e nem sempre é fácil lidar com isso. Tantas vezes oiço de alguns pais: “Mas nós demos a melhor educação, o máximo de carinho…”, quando descobrem que o filho anda a mentir ou a consumir tabaco e álcool e tem só 13 anos. Ao que respondo sempre que isso não é um passaporte para tudo. Há diferenças tremendas até entre irmãos. O melhor é dar o exemplo do que é o respeito, a ética e a disciplina, em vez de andarmos a dar sermões.

Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo “lado negro da força”, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior do que se não tiver azimutes nenhuns.

Isso leva-nos à ideia da criança-rei que se torna o adolescente tirano. As questões que se levantam na adolescência têm sempre a génese na infância?

O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar. É uma fase que a criança começa aos 15 meses, quando já tem uma imensa autonomia e percebe que os outros podem ser manipulados, e passa a agir de acordo com a ideia do “quero tudo já”. Só com limites é que vai perceber que terá de trabalhar para conseguir o que quer. Há depois uma terceira fase, quando percebem que não são deuses e passam à condição humana, em que agradecem não ter tudo, para assim apreciarem melhor a conquista. A liberdade, a verdadeira liberdade, reside na escolha, em ter de escolher.

É por isso que a superproteção leva a excessos?

Claro, porque não se permitem as escolhas. Cada um precisa de saber os seus limites. Muito importante também é estar informado, porque isso pode ajudar a escolha. Reparamos hoje que há overdose de informação mas, ao mesmo tempo, falta de conhecimento. Outro problema deste viver muito fugaz é a falta de sabedoria. Porque a sabedoria exige tempo, reflexão, e esse processo é muito lento, não pode ser tudo no calor do momento. Se queremos tudo já, saber tudo já, isso muitas vezes armadilha-nos.

É isso que acontece com a superproteção: os pais tem a informação mas não têm sabedoria?

Sim. Querem respostas rápidas. Sou o maior fã da tecnologia, mas a forma como a usamos tem de ser adequada. É preciso ainda ouvir outros, porque nem sempre o que nos chega é o todo.

Ouvir relatos e experiências muitas vezes ultrapassa a pura informação. Quantas vezes em manuais se escreve “faça-se assim”, mas depois a experiência diz-nos algo mais. Veja-se os livros de dietas e afins a prometerem “seja feliz em três dias”. Dá-me vontade de rir, porque os próprios títulos matam logo o prazo.

E isso cria ansiedade, claro.

É aquilo a que chamo a “urgentificação de tudo”, e vê-se nas idas às urgências, para resolver qualquer problema. Recebo imensas mensagens e percebo que os pais estejam preocupados, mas em muitos casos é preciso saber esperar.

Hoje, sentimos que, seja o que for que queiramos saber, basta fazer clique.

Temos de aprender a abrandar. Este “quero tudo já” pode estragar tudo e não nos deixa apreciar momentos bons.

É o que, depois, na adolescência leva a uma insatisfação imensa…

É. A geração de jovens de que falo no livro nasceu e cresceu com esta ânsia de comunicação e de estar presente, que muitas vezes funde os fusíveis às pessoas, porque faz com que deixemos de saber conviver com a solidão, e isso é indispensável. A realidade ser tão voraz leva a doenças físicas, ao ataque à nossa imunidade, ao aumento do cancro, tudo também muito relacionado com o nosso modo de vida. Tornámo-nos escravos do telefone e deste modo de estarmos sempre contactáveis. Se não tivermos cuidado, deixamo-nos massacrar, e isso vai levar à falta de espaços privados, nossos. Esta invasão constante do telefone, durante as refeições e em qualquer conversa, é o exemplo maior da má educação. É uma fuga ao momento presente. É também isso que leva ao consumo de droga, que começa por não se saber encarar a realidade, não saber apreciar o que há de bom, subvalorizar o que não corre tão bem. Perante uma realidade que se acha horrível, e sem armas para dar a volta, o nosso desejo é de nos eclipsarmos. Se tivermos ao alcance uma substância, seja droga ou álcool, que nos permite fazê-lo, isso é muito tentador.

Quando é suposto falarmos com os nossos filhos sobre droga?

Não pode ser como antigamente, em que os pais sentavam os filhos e lhes diziam que precisavam de ter uma conversa. Não pode ser assim porque não surte efeito é por isso que sou contra a disciplina de Educação Sexual, porque é ridículo que se trate do assunto à terça-feira, das 11 à uma. Pode aproveitar-se um texto de Língua Portuguesa, ou a estatística, na Matemática, para falar de demografia, ou em Ciências, para falar da nossa biologia, ou em História, que é em si um repositório imenso de casos para todos os gostos. O mesmo se aplica às drogas: pode-se falar em vários momentos. Os pais têm de saber comunicar os filhos e têm de estar informados e não podem ficar-se pelo “Ele, ou ela, não fala comigo”. Tem é de ser numa linguagem que não seja desconfortável para nenhum dos dois, e tem de ser crível.

Podíamos resumir tudo a duas ideias: “Não vale a pena dizer que a droga mata” e “se experimentares é natural que gostes, mas deixa-me falar do resto.” É isso?

Não vale a pena dizer que mata porque, em si, é uma mentira, ou só é verdade a longo prazo. É como os maços de tabaco trazerem inscrito que fumar mata. A frase que mais gosto, mesmo, é “Os fumadores morrem prematuramente”, quando o que devia dizer é “Os fumadores têm maior probabilidade de morrerem prematuramente”. Aí já não há quem possa argumentar com o tio-avô que fumou cinco maços por dia e viveu até aos cem anos. Já é mesmo preciso pensar se quero aumentar a probabilidade de morrer mais cedo. É o mesmo com a droga. Por isso elenquei no livro os efeitos de cada uma e incluí depoimentos que não procuram julgar pessoas quem sou eu para julgar as pessoas? Às vezes, quem caiu naquele buraco pode ser só alguém que não encontrou na sua rede o suporte para dar a volta aos problemas e encontrar a felicidade em outro lado.

É também a forma de lhes dizer que há um dia seguinte, porque, como vivemos na tal voracidade, falamos demasiadas vezes apenas do hoje. Temos de lhes dizer que o que construímos, no amanhã, depende do que acontecer hoje. É essa pedagogia que muitas vezes falta. Quando falo com os meus filhos para cultivarem a excelência, não é pelas notas em si, mas porque ficam mais bem posicionados para, no futuro, poderem escolher à vontade o que querem.

Fala no desporto, no voluntariado, na cultura. Isso também lhes dá ferramentas para lidar com as adversidades?

Dá-lhes uma experiência de vida muito mais variada. Estas atividades, feitas com gozo, libertam endorfinas, que são as nossas morfinas. Pensar que temos essa possibilidade de nos “drogarmos” sem droga, e que a esquecemos… Quem faz desporto, ou se dedica às artes, ou outras atividades, tem uma probabilidade muito menor de cair nas drogas. E isso faz uma diferença abissal.

Que sinais de risco é que a família deve saber reconhecer para pedir ajuda?

É preciso dizer que não é por se encontrar papel de prata no quarto de um filho que se vai concluir que ele anda a queimar heroína. Se calhar, andou apenas a comer uma tablete de chocolate. Temos de ter noção de que os nossos filhos adolescentes precisam do seu espaço e de refletirem sobre a sua vida. Às vezes há pais que falam com uma ansiedade… “Ele/ela vai entrar na adolescência, não é?!”. Costumo dizer que eles não caíram na chaminé, atirados pelo Pai Natal, na véspera. Foram educados por aqueles pais, eles conhecem-nos.

Se fizeram um bom trabalho, podem aceitar esta fase com um mínimo de segurança. Há que acreditar nos filhos, permitir que tenham a sua identidade, e que não pensem exatamente como os pais pensam. Agora, quando o isolamento é exagerado, quando há uma vida seca, amarga, desistente das atividades que são boas, quando as notas caem sem razão aparente (às vezes podem só estar apaixonadíssimos!), aí os pais devem pedir ajuda. E aqui ressalvo: o álcool, e o seu consumo excessivo e prematuro, também é uma droga.

Os consumos dos adultos podem passar mensagens erradas?

Beber um copo por dia, à refeição, não é ter um comportamento de risco.

O problema é o consumo fora de horas, em excesso, e sobretudo para esconder alguma coisa. Uma coisa é beber um copo para acompanhar a refeição, outra é, sozinho, engolir uma garrafa inteira. Falar das coisas com verdade não é torná-las banal. Um pai uma vez disse-me que sentia que não tinha autoridade para falar com os filhos sobre os malefícios do tabaco porque ele também fumava.

Disse-lhe logo que não estava nada de acordo: se a verdade científica é que não faz bem à saúde, se acha que o seu filho não devia fumar, diga-lhe. Diga-lhe até porque começou, mostre-lhe até algumas das suas fraquezas. Queira ou não deixar de fumar, pode na mesma achar que aquilo é errado para o filho e que, se ele o fizer, pode dar cabo da sua saúde. Um pai tem tanta liberdade de escolher como um filho e aí está a dar-lhe armas para escolher. Isso é perfeitamente legítimo.

E isso também se aplica em relação à droga?

Um dos casos que relata no livro é de uma mulher de 50 anos que conta os seus consumos.

Sim, sem dúvida. A essa mulher, as anfetaminas não só lhe permitiam estudar horas a fio, sem dormir, como ainda a faziam emagrecer. Não é por acaso que tinham nomes como Libriu ou Valium, que fazem lembrar liberdade ou valor… Parece que sempre andámos à procura da felicidade sem esforço, não é? Mas digo também que este esforço e trabalho, que é necessário, não devem ser vistos como um calvário, como nos diz a nossa tradição galaico-cristã. Isto não é a via sacra. Trata-se de aprender a gerir a nossa liberdade de escolha. Falamos também muito de litigância (“porque tu não fizeste, não ligaste…”) mas dizemos pouco “gosto de ti”. Precisamos de fazê–lo com urgência, e sobretudo com os nossos filhos, que não são estranhos. Às vezes, o que se passa é que o filho gosta tanto dos pais que, para se diferenciar, arranja um pretexto qualquer para entrar em conflito. Os pais não podem ceder a essa pressão.

 

 

 

Mário Cordeiro: “Na escola primária há menos tempo de recreio do que numa prisão a sério”

Setembro 16, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://ionline.sapo.pt/ a Mário Cordeiro no dia 30 de agosto de 2017.

Marta F. Reis

Pediatra admite-se apreensivo com as gerações mais novas e com a sociedade do agora. Para a rentrée, prescreve mais filosofia.

Aos 61 anos, Mário Cordeiro mantém o consultório na Av. Guerra Junqueiro, mas são variados os interesses. Dos projetos editoriais aos passeios com a Tenrinha, passando pela paixão pela história de arte, conversar é outras das coisas que gosta de fazer. Foi assim, ao sabor do tempo, numa manhã de verão em Lisboa.

Pai de cinco filhos, três a passar pela adolescência, o pediatra admite que a pedalada é diferente e os desafios também, mas a idade trouxe-lhe mais calma e sabedoria. Nos últimos tempos, sente-se um bocado pessimista com o rumo da sociedade e um certo umbiguismo dos mais novos. Disciplina-se desde cedo, avisa, sob pena de estarmos a criar uma geração de narcisistas.

É médico pediatra há mais de 30 anos. Tem cinco filhos, cinco netos. Ainda se surpreende com as saídas das crianças?

Acho que sim. Surpreendo-me sempre com o ser humano e com a sociedade, em constante mutação, com coisas inimagináveis há meia dúzia de anos. Como as pessoas resultam muito da sua interação com o contexto em que vivem, é natural que acabem por mudar.

Com toda a informação e estímulos, podemos dizer que hoje os miúdos estão mais espertos?

Não acho que isso seja verdade. Se calhar, para os nossos avós que só tinham uma telefonia, sabermos agarrar num comando de televisão e mudar de canal, mesmo antes desta parafernália de canais, era capaz de gerar a mesma reação de espanto que hoje temos com as coisas que os miúdos são capazes de fazer. Mas não acho que os miúdos sejam mais inteligentes. Têm um enorme acesso a informação, muitas vezes de mais. Uma informação que não chega a pouco e pouco, vem em catadupa. Coisas de menor de dimensão, não digo um acidente na Madeira, mas algumas coisas que hoje chegam na hora demorariam uma semana a ser conhecidas.

E isso traz consigo o quê?

Há um apelo maior a estarem informados, a procurar informação. Agora perceber o que se está a passar, saber relativizar, aí é que falha e isso não mudou. Mesma a relação com a tecnologia não terá nada de especial. Muitas vezes ouvimos dizer que o cérebro funciona como o computador… É o computador que funciona como cérebro. É uma extensão do cérebro em termos de funcionamento e isso leva a que quando estamos a pensar em alguma coisa, se pudermos materializar esse raciocínio puxando o rato para um lado ou deslizando o dedo, vamos fazê-lo. É intuitivo, os nossos avós e bisavós é que não o tiveram.

Ainda assim, uma das constatações dos mais velhos é que hoje os recém-nascidos até abrem os olhos mais cedo.

As pessoas é que não estavam despertas para que um bebé pudesse abrir os olhos tão cedo. Há pais que me perguntam: “Quando é que o nosso bebé começa a ver?” Vê ainda antes de ter nascido. É um dado cientifico irrefutável. Os bebés não mudaram, as pessoas é que não lhes ligavam como ligam hoje. O conceito era: o bebé come e dorme, interessa que esteja quentinho, mudar a fralda e dar-se uns miminhos, mas nos primeiros tempos era um sujeito passivo do amor dos pais. Só mais tarde, quando sua excelência começava a barafustar, ali a partir dos seis meses, é que se dizia que o bebé espevitava, isto quando desde o início vê, ouve, tem competências. A sociedade hoje dá mais atenção às crianças e, com isso, elas começam cedo a apreender tudo. Um bebé está aqui e olha para esta lata de Coca-Cola. Se nunca lhe disser o que é, não sabe. Se convive com os pais, se vê o pai pedir uma cola, vai identificando a lata, ligando as coisas. As crianças hoje têm esta excelente oportunidade de conviver com o mundo adulto, os pais falam mais com elas e elas vão pescando mais informação. Antes ninguém lhes explicava nada, é só essa a diferença.

Sente que já existe essa perceção generalizada da mais valia dos estímulos? Às vezes até aquela pressão do “se não fizer isto o meu filho vai ser um burro”?

Cada vez mais, às vezes em excesso. Poderá haver exceções, mas acho que a maior parte dos pais já sabe que uma criança tem bastante para dar e se, puxar por ela, terá mais hipóteses. Como um jogador de futebol ou qualquer talento: é preciso treino para dar alguma coisa.

A partir de que idade é que uma criança começa a ser manipuladora?

Desde cedo, mas isso é o normal. Em qualquer situação, uma pessoa tenta ver como conseguir o melhor para si. Um bebé a partir dos nove meses, um ano – quando já passou à história aquela angústia de saber se vai comer ou não, se estão garantidas as suas necessidades básicas – começa a sentir maior autoestima. Começa a perceber que consegue fazer muitas coisas em termos corporais, que consegue comunicar mesmo que atabalhoadamente. De repente sente: “Afinal não sou um suplente da equipa B, estou em campo na equipa A”, e isso dá-lhe uma pujança ao ego incrível. Numa fase em que uma criança se vê a partir de si, em que acredita que o seu umbigo é o centro de tudo e que é a pessoa mais importante do universo, começa essa manipulação. E depois quando os adultos pedem uma gracinha, para bater palminhas, o artista sente-se ainda mais no centro do palco e vai tentando fazer o que quer. Percebe que há um caminho a percorrer, coisas a conquistar e começa a ver os trunfos que tem. Aquele arzinho, o choro, a tossezinha para interromper o pai e a mãe quando sente que não é o centro das atenções, os guinchos. É tudo para testar até que ponto é capaz de manipular. Vê-se muito quando caem e reforçam a situação de fragilidade com aquele “dói dói dói”.

Educa-se a partir dessa idade ou é deixar passar essas primeiras fitas?

Acho que deve haver traços de educação coerente e consistente ao longo do tempo. Não é por acaso que uma pessoa aos 18, 20 ou 30 anos se revela ou se constitui uma pessoa narcisista, sem empatia.

Mas esse traço de personalidade já nasce em parte connosco, não? Qual é o peso da educação?

Toda a gente pode ser um narcisista. Claro que há fatores intrínsecos ou extrínsecos que podem levar isso a agravar-se ou não, mas vem sobretudo da falta de limitação externa. Todos nós somos candidatos, uns mais ou menos, mas todos preenchemos o papel de candidatura para sermos tiranos. Felizmente, depois, os nossos pais, a sociedade e até o nosso superego, o nosso polícia interno, intervêm: as pessoas aprendem que não é caminho e percebem que, além disso, não se iam sentir muito felizes. Agora isto reprime-se desde cedo.

Como?

O tal bebé que comeu, que está bem disposto no chão a brincar. Os pais finalmente vão para a mesa jantar e estão descansados. O bebé vê aquela cena e pensa qualquer coisa do género: “Olha-me aqueles meus dois escravos a libertarem-se” e começa numa guincharia. Aí não há hipótese: os pais têm de dizer “xiu, caluda. Agora estou a falar com a mãe e tu estás calado”. E mesmo que a criança continue a chorar, naquela vitimização de que ninguém gosta dela, os pais devem continuar a conversar sem dar muita atenção, sem se enervarem muito nem entrarem também naquelas grandes explicações: “não vês que eu tive um dia muito difícil no trabalho, etc..”

Não é pedagógico? Às vezes há essa tentação de falar com eles como se fossem mais crescidos.

Entrar nessas explicações que a criança não percebe não é muito produtivo, não percebe.

Depois, quando os pais são mais assertivos em público, acabam por surgir uns olhares recriminadores. Por exemplo, se uma criança desata aos berros no supermercado e se tenta dizer “parou”. É como se estivesse instalada uma certa vigilância…

Há uma certa vigilância que me parece idiota. Lá estão as mudanças na sociedade. Passou-se de um país onde se podia bater, zurzir e queimar crianças que ninguém se metia – e os vizinhos até sabiam mas “era lá com eles” – para um país onde há leis e regras contra os maus tratos infantis mas as pessoas estão muito mais indignadas e intrometidas. Exagerou-se. Passou-se de ver um pai espancar um filho e ninguém intervir para ver-se um pai que fala mais rispidamente e meterem-se logo na conversa a perguntar se aquele pai não esta a ser demasiado duro com o filho.

De onde vem essa inversão?

De uma certa vontade de fazer o bem, certamente, mas também de protagonismo e de necessidade de censurar o outro.

Acha que as redes sociais, tendo dado microfone a toda a gente, acabaram por alimentar essa imiscuição na vida dos outros?

Também. As pessoas gostam de ser justiceiras. Apanham ali uma cena que nem viram desde o início mas fazem logo o seu statement e depois voltam as costas com ar de Lucky Luke.

Há uma tentativa maior de proteção das crianças do que havia no passado. Tem o efeito desejado?

Acho que com a voragem do tempo e com a autonomia que conquistam nas redes sociais está a haver um certo paradoxo: têm muita informação mas esquecem-se de que a informação, só por si, não vale nada. Precisam de experiência e sabedoria. E depois acham que sabem muito, e como sabem muito, podem atuar pensando pela sua cabeça, mas não podem porque não têm maturidade. Há crianças de 12 anos que são mais altas do que a Marta. Porque não podem conduzir um automóvel? Se calhar usavam melhor toda a tecnologia. Não podem porque não têm uma visão sistémica: esqueciam-se da pessoa que vai atravessar a estrada, do semáforo. Essa visão de ecossistema não é algo que um adolescente possa ter. E, de facto, eles conseguem fazer tudo nos computadores, mas depois falta-lhes essa visão e esse filtro. A autonomia a navegar não é acompanhada de uma autonomia no pensar, no estruturar ideias e na tomada decisões. Resultado: temos bebezolas enormes convencidos de que sabem tudo e que vivem muito no hoje, no agora. É levantarem-se de manhã, aguentar uns “stôres” pelo caminho e depois dominar nas redes sociais e as mensagens.

E os pais?

Muitos pais deixam andar e vai faltando uma visão mais a médio prazo. É importante um jovem ter noção de que o seu percurso escolar se dirige algures e o que é que pretende desse algures. Tomar decisões, pensar a médio prazo não é compatível com querer viver só o hoje.

Os adolescentes não foram sempre um bocado inconsequentes?

Não tanto, parece-me. Os pais acabavam por estar mais disponíveis para coisas tão simples como ensinar a mudar um pneu de um carro ou a construir um móvel e aplicar bondex. Há coisas que se perderam.

Mas não será também porque hoje os sonhos parecem mais difíceis de concretizar, maior precariedade no trabalho.

Não creio. O que acho é que se contemporiza hoje mais com a falta de rigor e com o “tanto faz como fez”. Em coisas pequenas. Ali perto de casa há uma zona de calçada portuguesa que tinha um desenho simétrico. Quando vieram arranjar umas caixas e foi preciso calcetar de novo, puseram tudo à balda. Nem é uma questão de esforço, porque pôr as pedras de uma maneira ou de outra ia dar ao mesmo, mas é uma questão de brio e de perceber que havia ali um desenho que era importante completar. Mesmo que isso não interessasse nada ao calceteiro.

De onde acha que vem essa erosão do brio da sociedade?

Odeio generalizações, mas vem muito da família, da escola e da sociedade, deste viver apenas o hoje. É uma sociedade que se está a demitir de reconhecer o brio, desde miúdos. Limita-se a estas coisas dos rankings, dos quadros de honra, que são sempre instrumentos muito enviesados dependentes de duas ou três disciplinas e que não avaliam o estudante como pessoa.

Vive perto de uma escola pública que este ano esteve no centro de uma polémica na altura de inscrições, com suspeitas de moradas falsas. Como vê esta corrida ao Liceu D. Filipa de Lencastre?

Há outros casos assim em Lisboa, no Porto ou em Coimbra. São escolas que atingiram patamares de excelência educativa, mesmo que os alunos digam sempre que há “stôres” horríveis. O facto é que há escolas e escolas e esta é uma boa escola. Conheço bem, os meus filhos estudaram lá.

Percebe os pais que sentem a tentação de apresentar uma morada falsa?

Percebo que exista uma tentação de pensar em fazê-lo. Sobretudo se uma pessoa até vive perto e vai demorar mais tempo no trânsito para pôr o filho na escola dele e que nem tem tantas atividades. Se o critério é a morada, deixa-me cá arranjar… As pessoas obviamente fazem-no. Não é legal, mas como toda a gente faz… E sobretudo porque há uma sensação de injustiça: se morar naquela rua pode e naquela outra já não pode.

Não é preocupante que se formem depois estes guetos de bons alunos, escolas muito concorridas e outras que ficam com os alunos que sobram?

Acho que não se formou um gueto. Estive na associação de pais durante nove anos e o que conseguimos foi desenvolver muitas atividades extracurriculares em conjunto e ir além das disciplinas centrais.

E isso é replicável em todas as escolas, mesmo em bairros mais problemáticos? Esta é uma zona de Lisboa com maiores rendimentos.

Creio que aqui mais de 90% dos pais têm licenciatura, mas acredito que é possível. Não é uma licenciatura que dá capacidade de empatia, de solidariedade. É preciso olhar mais para os alunos, perceber de que é que eles precisam, repensar a forma como se dá aulas. Parece-me que a imaginação dos professores tem de melhorar um bocadinho em muitos casos. E depois os pais podem formar associações, mobilizar-se. Em Lisboa há protocolos com as câmaras para financiar as atividades extracurriculares. Se a escola não tiver ninguém disponível para fazer esse trabalho, vai contratá-lo a uma empresa, que cobra x por esse serviço. Se a associação de pais gerir esse dossiê já sobra mais dinheiro para aplicar nas atividades.

Mas pais de uma boa escola se calhar estão mais motivados.

Isso tem muito que se lhe diga. Quando estava na associação de pais da EB1 eram 400 alunos, 800 pais e mães, e apareciam à roda de 10 a 15 pessoas. E digo-lhe, muitas vezes era angustiante. Éramos mais da associação do que os pais a aparecer. Os pais nunca foram muito às reuniões. Gostam que se faça, mas não aparecem. Claro que às vezes a pessoa pensa: para que estou aqui em vez de ir para casa? É o tal espírito de missão. E quando há ideias giras e isso tem algum eco na direção das escolas, mais motivação ainda.

No fim do ano letivo, uma das suas crónicas no i condenava a postura de Mário Nogueira e da FENPROF por terem feito greve num dia com exames. Vê nos professores um dos problemas do ensino?

Conheço professores excelentes e professores horríveis. Acho que a posição do sindicato é constantemente de defesa de uma série de coisas que compreendo que precisem de ser defendidas, mas se calhar devia haver uma Ordem dos Professores, para se focar mais na parte pedagógica e académica, para ver como os alunos poderiam aprender mais.

São, ainda assim, uma profissão um pouco maltratada. Suportar grandes deslocações, estarem até a última sem saber onde ou se vão ser colocados.

Isso sem dúvida, relatos como vemos de professores que se levantam às 5 da madrugada para ir dar aulas são inacreditáveis. E não percebo como é que estamos para começar as aulas e nem os professores sabiam onde iam estar colocados, nem os pais sabem os horários. Sendo o número de alunos algo bastante previsível, tirando uma criança ou outra que emigra ou muda de escola, em abril devia-se fazer logo tudo para que as pessoas, quando fossem de férias, soubessem mais ou menos com o que contar.

Esta instabilidade não contribuirá para uma depreciação do papel do professor?

Parece-me que contribui para uma certa desvalorização. Mas há muitas coisas que deviam mudar. Em primeiro lugar é errado que continue a chamar-se Ministério da Educação e que não seja Ministério do Ensino e da Aprendizagem. Isso fazia logo a diferença. Educar remete para uma relação paternalista quando não é isso que se pretende. Depois creio que as matérias deveriam ser reduzidas no sentido de perceber o que interessa saber. Multiplicar potências: para que é que isso serve em termos práticos?

Podemos sempre argumentar para que servem outras matérias em termos práticos, a História…

É diferente. A História serve de contexto, mostra como o ser humano interage em sociedade. Agora, multiplicar potências… Depois é preciso acabar com aquelas aulas de hora e meia em que os alunos, coitados… Quando vou às reuniões de pais sento-me naquelas cadeiras e, passado uma hora, é uma sova de cadeira.

Quanto tempo é que um miúdo está concentrado?

Uns 16 a 18 minutos.

Isso também não dava para nada.

Não era preciso acabar a aula, mas fazer uma pausa ali ao fim de um quarto de hora, dizer agora vamos lá espreguiçar-nos, falar de outra coisa qualquer. Um bom professor não tem de ter medo de estar a falar de matemática e parar para comentar um golo do Ronaldo no dia anterior, o atentado em Barcelona.

Tem um professor que o marcou?

Tive vários. Tive o Rómulo de Carvalho no Pedro Nunes, que fazia as coisas assim. O Jaime Leote a Matemática.

Porquê esses e não outros?

Íamos para as aulas deles com gozo. Íamos aprender.

Hoje os miúdos conseguirão ter esse sentimento? Conseguem ir à internet ver tudo.

A internet não ensina. Permite saber tudo, mas não fornece as ligações. Antes o professor era a fonte principal de informação. Uma pessoa que soubesse ler, escrever e contar tinha mais hipóteses de passar de uma profissão no campo para outra com melhores perspetivas. Bastava. Isso hoje é um dado adquirido, o ensino tem de mudar. O que é preciso é dar competências, potenciar os talentos. Porque é que os alunos têm todos as mesmas matérias? Porque é que não há mais aulas interligadas? Não fazia mais sentido as Invasões Francesas serem dadas pelos professores de História, Português e Francês em conjunto? Creio que é necessário interligar mais as coisas. Porque se é só para despejar a informação, é como diz, há a internet. E depois acho que seria preciso refletir sobre onde é que estes miúdos que têm hoje 15, 16, 17 anos vão estar daqui a 20 anos e de que é eles vão precisar.

As profissões do futuro?

Sim. Podemos falhar nessa análise, mas já temos alguma noção. Tivemos alguma disrupção, mas mesmo na tecnologia ultimamente não tem havido nada de muito novo. E mais assustador para mim: há décadas que não há uma ideia filosófica nova. Produzem-se teorias económicas, produzem-se vipes do “morte ao estrangeiro/venha o estrangeiro”…

Como a turismofobia em Lisboa.

Sim. Esta discussão do “és pró ou contra” turistas é um disparate.

Não se deixa contaminar?

Não, pelo contrário. Pois se eu adoro ser turista, não havia de gostar que os turistas viessem ao meu país? Na minha rua já há oito alojamentos locais. A passear a Tenrinha à noite era o deserto total e agora é menos, sinto uma maior segurança. Mas o que queria dizer é que temos estas reações umas atrás das outras e menos reflexões de fundo sobre quem somos, para onde vamos. Está-se a viver o dia a dia sem pensar globalmente. Era preciso mais Eduardos Lourenços.

O que mudou?

As pessoas distraíam-se menos.

Não eram tão forçadas a pensar sobre os casos que se sucedem, sobre o debate do momento.

Às tantas cansa.

Vivemos este verão o drama dos incêndios. Perdeu um familiar bombeiro.

Vivi-o de perto e sinto que muitas vezes a discussão devia ser mais contida. Como no terrorismo. Mesmo antes de Barcelona todos os dias havia uma notícia de fulano que esfaqueou, atropelou. À boleia do terrorismo noticia-se tudo e questões como a violência doméstica, que continua a existir, ficam para um segundo plano.

A discussão mediática diz alguma coisa às famílias enlutadas?

São esferas diferentes. É evidente que tem de se perceber tudo o que se passou para que não se repita, como em qualquer coisa que corre mal, mas isto evidentemente demora tempo. O timing das famílias não é nem podia ser o timing da investigação. Para a família, a dor é tão grande que a pessoa tenta arranjar explicações, responsabilidades, como quando se tem um cancro e se pensa se o médico não podia ter visto mais cedo a massa. Mas é demais. Veja-se o caso do avião que aterrou na praia. No próprio dia passados minutos já havia especialistas em brevês a dizer tudo e mais alguma coisa, como se pudessem saber ao certo o que se passou.

Esta discussão piora o luto das famílias?

Piora, sem dúvida. Para não falar de quando dá ideias, basta ver os casos em que pessoas com problemas mentais copiam ataques com facas e carros, mesmo sem uma intenção terrorista. Ou a transmissão dos fogos nos casos dos pirómanos. Uma vez vi um pirómano falar do prazer de ver as labaredas. Ele não via a floresta a ser destruída, falava do cheiro da lenha a queimar, daquele crepitar, uma experiência sensorial que lhe dava prazer. A televisão ao transmitir isto, na minha opinião, potencia novos casos. E há outros efeitos colaterais. As pessoas ficam assustadas e até se sentem quase complexadas de estar a desfrutar das férias. E depois tudo o que é em overdose dessensibiliza. O nosso sistema imunológico funciona assim. As pessoas estão muito alérgicas aos ácaros fazem vacinas até saturar o mecanismos de resposta. Aqui acontece exatamente o mesmo.

Qual é o perigo da dessensibilização?

É a banalização do mal de que falava Hannah Arendt. Um certo alheamento. Esta repetição até exaustão das mesmas imagens não faz nada bem. Andamos a dizer aos pais que deve haver poucos estímulos antes de ir dormir, uma história para adormecer e depois os adultos vão para a cama assustadíssimos à espera que rebente a bomba. Dormem mal, andam irritáveis. Isto é acentuado no meio urbano. No meio rural, acha que aquelas pessoas estiveram a noite toda a ver os debates na televisão quando têm de acordar cedo para ir para o campo?

Estamos a terminar o período de férias. Parece um paradoxo, mas para muitas famílias são um período de stress.

São. As férias não deviam ser uma repetição da vida do dia a dia. Deviam ser um polo endorfínico, de calma, para quem tem um polo adrenalínico no dia a dia. Ou o contrário, para quem tem um dia a dia mais tranquilo. O que se passa é que as pessoas organizam muito mal as férias. Planeiam tudo, o hotel, a praia, o sítio, mas não pensam naquilo de que estão a precisar física e psicologicamente. Parece que há uma vergonha de dizer não fui ao Algarve, não fiz uma viagem, não fui às Seychelles. E depois esgotam-se nisso, mais no dinheiro que têm de arranjar. Como vivemos numa época de muito show off, de selfies, de mostrar nas redes sociais onde estamos, dizer que estou no Gerês tem menos sucesso do que dizer que estou nas Seychelles. Então se a pessoa puser que ficou em casa a dormir ou foi passear o cão…

Pensam que está deprimida.

Possivelmente. E depois, como as pessoas vão ver o número de likes e comentários, o “ah que lindo”, “que inveja”, com não sei quantos “eeee”, é uma ditadura terrível. As pessoas não são verdadeiramente livres: só sabem o que foi bom ou mau consoante os likes que têm.

Perde muito tempo com as redes sociais?

Zero. Tenho uma página de Facebook onde não meto nada, as pessoas é que de vez em quando metem lá coisas.

Nem a seguir os seus filhos?

Os mais velhos não metem grandes coisas, os mais novos menos. É mais o Instagram, gostam de fotografia.

Os mais novos já têm telemóvel?

Os mais novos têm 14, já têm. Mas tento passar-lhes que há mais coisas a fazer, nomeadamente ler, ir passear o cão, conversar. Interagir.

É fácil fazer a gestão enquanto pai?

Tem de ser pelo exemplo. Nem eu nem a minha mulher andamos no Facebook nem agarrados ao telefone à hora das refeições.

Já teve aquela cena de ter pai, mãe e criança de telemóvel na mão na consulta.

Já. Numa das crónicas no i escrevi sobre uma adolescente que não largava o telemóvel.

Foi na crónica em que falava dos pais-multibanco.

Muitas crianças veem os pais assim. É “o pai dá, o pai compra”. Como não sabem a história da família, não têm sequer ideia do custo das coisas. Que o avô ou bisavô nasceu numa aldeia, que ia de bicicleta na neve para a escola. Não lhes interessa sequer saber. “Lá vem a história do pobrezinho”. Acho mesmo que os jovens estão a recuperar uma faceta narcísica do “tenho direito a tudo”.

Não será um gap geracional… está a ficar mais velho, menos tolerante com as falhas das gerações mais novas.

Talvez, mas existem diferenças. Quando éramos miúdos tudo era uma oportunidade para nós. Quando fazíamos InterRail era com pouco, íamos ao supermercado comprar comida, ficamos sentados a conversar, a observar as pessoas. Hoje os miúdos querem mais coisas e ao mesmo tempo são muito mais apegados aos pais.

Sente isso nos seus filhos mais novos?

Sim, talvez. Este ano tentámos mandá-los para campos de férias, fazer coisas diferentes. Se não depois cria-se uma rotina em que eles acomodam-se a este conforto – terem cama e roupa lavada, terem televisão, acesso à internet – e para eles é o status natural da humanidade.

Uma proposta nas suas crónicas era mais trabalhinhos de verão.

Sim, não faz mal a ninguém. Uma das tarefas deles foi andarem a pintar umas paredes lá de casa, a apanhar o lixo. Tem de ser. Podia pagar a alguém, mas havia tinta e, em vez de chamar alguém, fizeram eles. Até para eles perceberem que quando tiverem a sua independência económica não vão ter dinheiro para tudo, a menos que ganhem o euromilhões ou façam algum negócio escuro. É fazê-los perceber de alguma forma que não vão ter um T4 com vista para o Tejo, vão arranjar um T1 ranhoso algures e fazer a sua evolução e isso não tem de os fazer infelizes. Se tiverem uma vida interior intensa, uma vida cultural e relacional, serão felizes na mesma. Mas confesso-lhe que estou apreensivo com as gerações mais novas…

Pessimista?

Sim, um bocado pessimista com o desinteresse e ignorância que se vem instalando.

O que lhe faz mais confusão no consultório?

Às vezes a ignorância de pais e filhos sobre factos ou até palavras da língua portuguesa. Wittgenstein tinha razão quando dizia que o que mostrava a evolução das sociedades era a evolução da palavra. Desde os “grunfes” da pré-história, o ser humano teve necessidade de arranjar designações para as coisas que conhece, de construir frases elaboradas. A escolha da palavra numa sociedade evoluída não é à balda. E hoje muitos adolescentes estão com uma linguagem paupérrima.

Sempre houve o calão, o bué.

Não é o bué, é o que fica para lá disso. E o que fica é um discurso muito pobre. Não há aspetos metafóricos, não há associação a memórias. Acho que antes havia mais imaginação e criatividade.

Os mais pequenos têm-na.

Sim, mas depois perdem. Acabam formatados por uma escola que não estimula a criatividade nem o pensar pela cabeça. E depois diz-se que há muitos miúdos hiperativos: havê-los há, mas há sobretudo muitos miúdos que não conseguem estar ali encerrados naquela prisão, onde há menos recreio do que uma prisão a sério. As horas de recreio numa prisão são superiores às horas de recreio numa escola primária.

Depois das férias, como se desacelera os miúdos?

Muitos estarão com vontade de regressar. As férias para as crianças tornam-se um bocado repetitivas. Para os mais novos são totalmente disruptivas: mudanças de casa, de pessoas, come-se quando se come. E por isso é importante, uns dias antes do regresso, começar a haver um reset, entrar nos ritmos de dormir. E depois eles dizem “mas amanhã não tenho aulas”. É começar a deitar mais cedo, gradualmente. E começar a refrescar a memória sobre as matérias dadas no ano anterior. Não é estudar, mas reler para que haja alguma sequência. Não vai tirar mais que meia hora por dia.

A última vez que falámos com mais vagar há dois anos ia aprender violino para acompanhar um dos filhos mais novos. Conseguiu?

Aprendi, comecei no final desse verão, tenho aulas e tento todos os dias estudar um bocadinho.

É muito diferente ser pai de um adolescente aos 60 do que aos 30?

Começam logo por ser realidades diferentes: os anos 80 são diferentes de 2017. Mas é sempre um desafio. Já não tenho aquela pedalada enorme, mas tenho uma calma e sabedoria maior.

Qual é o projeto para a rentrée?

Vou publicar um livro sobre vacinas. Estou a escrever outro sobre “pais sem pressa”.

O seu estilo?

Sim. Será sobre como contrariar esta corrida para nenhures, uma maratona sem meta à vista que não faz qualquer sentido. E dar dicas para, no dia a dia, viver com mais calma sem ser preciso enfiarmo-nos numa gruta na Serra da Estrela. A nível pessoal tenho dois livros de poesia mas há ideias para peças de teatro, romance. E depois leio livros e livros de História de Arte.

Concluiu há poucos anos o curso.

Sim e muda a perspetiva. Ainda agora em Salamanca… Não é que tenha alguém para impressionar, mas percebendo porque é que há umas igrejas mais escuras e outras mais claras, o porquê dos arcobotantes, tira-se mais das coisas.

Onde gostava de ir?

Itália, é um repositório de arte. Gostava de voltar à Toscana.

E em Lisboa, quais são as suas paragens prediletas?

Em termos de museus, o Museu de Arte Antiga, o Museu do Azulejo e agora quero ver se vou à Cordoaria ver a exposição dos guerreiros. Também queria ver a do Van Gogh. Foi um dos primeiros museus que visitei no InterRail, em Amesterdão. Lembro-me que escrevi um poema muito emotivo sobre a vida dele.

Ter sido um pintor incompreendido.

Sim, estava lá sentado e foi uma reflexão sobre aquela dicotomia de estarmos ali num museu moderno a admirar as obras ignorando o sofrimento da vida dele.

Sente-se mais sensível hoje a essas ironias?

Sempre gostei muito de refletir e de ler compulsivamente o que me faz talvez irónico, às vezes sarcástico. Felizmente a minha mulher partilha essa paixão comigo e os miúdos também vão crescendo nesse ambiente.

Que livro o tocou este verão?

Gostei imenso de um que é em homenagem à minha parceira, um livro sobre um beagle, “Uma Prenda para Bertie”.

Sente que a Tenrinha é como um filho?

Não é… Mas que sinto que faz parte da família sim. E que respeitar os animais e natureza é uma melhor forma de respeitar a humanidade. Não ponho cães aqui e humanos ali, é tudo parte da natureza. Um dia que tivemos de abater uma árvore na Lourinhã quase que chorámos. É um bocado pueril, mas ponho-me a pensar o que é que esta oliveira já viveu, há quantos séculos está aqui. E acho que a natureza faz-nos ver o quão ridículos somos. Entrei na faculdade com 16 anos. É um bocado disto que falo. Os tempos eram outros, mas com a idade dos meus filhos já debatíamos a existência de Deus, as questões metafísicas, a guerra do Vietname e hoje acho que conversam menos sobre estas questões. Não éramos um grupo de contestatários, mas discutir aquelas coisas dava-nos um gozo enorme, exercitar a teorização, filosofar, debruçarmo-nos sobre a vida.

É a prescrição para a rentrée?

Sim, muito mais filosofia, procurar perceber o outro, não rotular logo e olhar mais para a beleza natural e possível à nossa volta, sabendo que o mundo tem coisas más. É bom compensar esse lado agressivo com a beleza, as folhas que começam a cair. Deleitarmo-nos com a nossa existência. Não é no leito de morte que vamos ter tempo para isso

 

 

 

Mário Cordeiro em entrevista: Valores e limites como arma contra “o lado negro da força”

Dezembro 23, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Mário Cordeiro à http://visao.sapo.pt/ de 18 de dezembro de 2016.

jose-caria

“Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo ‘lado negro da força’, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior”, diz o pediatra, em entrevista à VISÃO

Sentado num cadeirão do seu consultório, em Lisboa, o conhecido médico segura, orgulhoso, o seu mais recente livro: “Os nossos adolescentes e a droga”. É o 35º, contabilizando os que partilhou a autoria, em mais de 30 anos de dedicação às crianças e à promoção da saúde uma produção num ritmo alucinante, associada aos cinco filhos e à atividade médica. Aos 61 anos, não é a primeira vez que Mário Cordeiro escreve a pensar na segunda década de vida dos mais novos, a fase em que se desenvolvem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro com mais segurança e resiliência. Desta vez, quis fazer uma espécie de manual para pais, com contexto, glossário e experiências contadas na primeira pessoa para esclarecer dúvidas que possam surgir sobre as diversas drogas, álcool incluído.

O objetivo, sempre, é informar. Porque mais vale prevenir do que tratar.

Já tinha escrito sobre adolescentes. O que o fez voltar ao tema?

Achei que valia a pena revisitar este tema porque deixou de se falar nele. Mas [o problema] existe. Há uns anos, verifiquei que o consumo comparado entre alunos da escola privada e da pública eram similares, o que contraria a ideia de que uns estão mais protegidos de determinadas experiências. O que faz sentido, se pensarmos bem nisso: um dealer vai investir mais junto de um público que tem mais dinheiro, certo?

A dada altura, lê-se: “Educar não é difícil, é ter momentos terríveis.” É isso que os pais de adolescentes devem esperar?

Os adolescentes trazem muitas alegrias e muitas dores de cabeça, no sentido de termos muitas dúvidas. Mas isso acontece a nós e a eles, porque o processo tem dois lados. O mais comum é, a partir de um sentimento de frustração, haver birras e não saber geri-las. E isso, claro, também acontece na adolescência. Um filho dá–nos recompensas extraordinárias, mas também imensas dores de cabeça. Além disso, idealizamos sempre os nossos filhos, e às vezes esquecemos que eles têm de fazer o percurso de vida deles.

Eles não são nossos. Podemos ser uma espécie de polícias-sinaleiros a indicar o melhor caminho, mas o automobilista é que decide se vai por ali ou não. E às vezes os filhos desiludem-nos, fazem escolhas que não faríamos e nem sempre é fácil lidar com isso. Tantas vezes oiço de alguns pais: “Mas nós demos a melhor educação, o máximo de carinho…”, quando descobrem que o filho anda a mentir ou a consumir tabaco e álcool e tem só 13 anos. Ao que respondo sempre que isso não é um passaporte para tudo. Há diferenças tremendas até entre irmãos. O melhor é dar o exemplo do que é o respeito, a ética e a disciplina, em vez de andarmos a dar sermões.

Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo “lado negro da força”, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior do que se não tiver azimutes nenhuns.

Isso leva-nos à ideia da criança-rei que se torna o adolescente tirano. As questões que se levantam na adolescência têm sempre a génese na infância?

O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar. É uma fase que a criança começa aos 15 meses, quando já tem uma imensa autonomia e percebe que os outros podem ser manipulados, e passa a agir de acordo com a ideia do “quero tudo já”. Só com limites é que vai perceber que terá de trabalhar para conseguir o que quer. Há depois uma terceira fase, quando percebem que não são deuses e passam à condição humana, em que agradecem não ter tudo, para assim apreciarem melhor a conquista. A liberdade, a verdadeira liberdade, reside na escolha, em ter de escolher.

É por isso que a superproteção leva a excessos?

Claro, porque não se permitem as escolhas. Cada um precisa de saber os seus limites. Muito importante também é estar informado, porque isso pode ajudar a escolha. Reparamos hoje que há overdose de informação mas, ao mesmo tempo, falta de conhecimento. Outro problema deste viver muito fugaz é a falta de sabedoria. Porque a sabedoria exige tempo, reflexão, e esse processo é muito lento, não pode ser tudo no calor do momento. Se queremos tudo já, saber tudo já, isso muitas vezes armadilha-nos.

É isso que acontece com a superproteção: os pais tem a informação mas não têm sabedoria?

Sim. Querem respostas rápidas. Sou o maior fã da tecnologia, mas a forma como a usamos tem de ser adequada. É preciso ainda ouvir outros, porque nem sempre o que nos chega é o todo.

Ouvir relatos e experiências muitas vezes ultrapassa a pura informação. Quantas vezes em manuais se escreve “faça-se assim”, mas depois a experiência diz-nos algo mais. Veja-se os livros de dietas e afins a prometerem “seja feliz em três dias”. Dá-me vontade de rir, porque os próprios títulos matam logo o prazo.

E isso cria ansiedade, claro.

É aquilo a que chamo a “urgentificação de tudo”, e vê-se nas idas às urgências, para resolver qualquer problema. Recebo imensas mensagens e percebo que os pais estejam preocupados, mas em muitos casos é preciso saber esperar.

Hoje, sentimos que, seja o que for que queiramos saber, basta fazer clique.

Temos de aprender a abrandar. Este “quero tudo já” pode estragar tudo e não nos deixa apreciar momentos bons.

É o que, depois, na adolescência leva a uma insatisfação imensa…

É. A geração de jovens de que falo no livro nasceu e cresceu com esta ânsia de comunicação e de estar presente, que muitas vezes funde os fusíveis às pessoas, porque faz com que deixemos de saber conviver com a solidão, e isso é indispensável. A realidade ser tão voraz leva a doenças físicas, ao ataque à nossa imunidade, ao aumento do cancro, tudo também muito relacionado com o nosso modo de vida. Tornámo-nos escravos do telefone e deste modo de estarmos sempre contactáveis. Se não tivermos cuidado, deixamo-nos massacrar, e isso vai levar à falta de espaços privados, nossos. Esta invasão constante do telefone, durante as refeições e em qualquer conversa, é o exemplo maior da má educação. É uma fuga ao momento presente. É também isso que leva ao consumo de droga, que começa por não se saber encarar a realidade, não saber apreciar o que há de bom, subvalorizar o que não corre tão bem. Perante uma realidade que se acha horrível, e sem armas para dar a volta, o nosso desejo é de nos eclipsarmos. Se tivermos ao alcance uma substância, seja droga ou álcool, que nos permite fazê-lo, isso é muito tentador.

Quando é suposto falarmos com os nossos filhos sobre droga?

Não pode ser como antigamente, em que os pais sentavam os filhos e lhes diziam que precisavam de ter uma conversa. Não pode ser assim porque não surte efeito é por isso que sou contra a disciplina de Educação Sexual, porque é ridículo que se trate do assunto à terça-feira, das 11 à uma. Pode aproveitar-se um texto de Língua Portuguesa, ou a estatística, na Matemática, para falar de demografia, ou em Ciências, para falar da nossa biologia, ou em História, que é em si um repositório imenso de casos para todos os gostos. O mesmo se aplica às drogas: pode-se falar em vários momentos. Os pais têm de saber comunicar os filhos e têm de estar informados e não podem ficar-se pelo “Ele, ou ela, não fala comigo”. Tem é de ser numa linguagem que não seja desconfortável para nenhum dos dois, e tem de ser crível.

Podíamos resumir tudo a duas ideias: “Não vale a pena dizer que a droga mata” e “se experimentares é natural que gostes, mas deixa-me falar do resto.” É isso?

Não vale a pena dizer que mata porque, em si, é uma mentira, ou só é verdade a longo prazo. É como os maços de tabaco trazerem inscrito que fumar mata. A frase que mais gosto, mesmo, é “Os fumadores morrem prematuramente”, quando o que devia dizer é “Os fumadores têm maior probabilidade de morrerem prematuramente”. Aí já não há quem possa argumentar com o tio-avô que fumou cinco maços por dia e viveu até aos cem anos. Já é mesmo preciso pensar se quero aumentar a probabilidade de morrer mais cedo. É o mesmo com a droga. Por isso elenquei no livro os efeitos de cada uma e incluí depoimentos que não procuram julgar pessoas quem sou eu para julgar as pessoas? Às vezes, quem caiu naquele buraco pode ser só alguém que não encontrou na sua rede o suporte para dar a volta aos problemas e encontrar a felicidade em outro lado.

É também a forma de lhes dizer que há um dia seguinte, porque, como vivemos na tal voracidade, falamos demasiadas vezes apenas do hoje. Temos de lhes dizer que o que construímos, no amanhã, depende do que acontecer hoje. É essa pedagogia que muitas vezes falta. Quando falo com os meus filhos para cultivarem a excelência, não é pelas notas em si, mas porque ficam mais bem posicionados para, no futuro, poderem escolher à vontade o que querem.

Fala no desporto, no voluntariado, na cultura. Isso também lhes dá ferramentas para lidar com as adversidades?

Dá-lhes uma experiência de vida muito mais variada. Estas atividades, feitas com gozo, libertam endorfinas, que são as nossas morfinas. Pensar que temos essa possibilidade de nos “drogarmos” sem droga, e que a esquecemos… Quem faz desporto, ou se dedica às artes, ou outras atividades, tem uma probabilidade muito menor de cair nas drogas. E isso faz uma diferença abissal.

Que sinais de risco é que a família deve saber reconhecer para pedir ajuda?

É preciso dizer que não é por se encontrar papel de prata no quarto de um filho que se vai concluir que ele anda a queimar heroína. Se calhar, andou apenas a comer uma tablete de chocolate. Temos de ter noção de que os nossos filhos adolescentes precisam do seu espaço e de refletirem sobre a sua vida. Às vezes há pais que falam com uma ansiedade… “Ele/ela vai entrar na adolescência, não é?!”. Costumo dizer que eles não caíram na chaminé, atirados pelo Pai Natal, na véspera. Foram educados por aqueles pais, eles conhecem-nos.

Se fizeram um bom trabalho, podem aceitar esta fase com um mínimo de segurança. Há que acreditar nos filhos, permitir que tenham a sua identidade, e que não pensem exatamente como os pais pensam. Agora, quando o isolamento é exagerado, quando há uma vida seca, amarga, desistente das atividades que são boas, quando as notas caem sem razão aparente (às vezes podem só estar apaixonadíssimos!), aí os pais devem pedir ajuda. E aqui ressalvo: o álcool, e o seu consumo excessivo e prematuro, também é uma droga.

Os consumos dos adultos podem passar mensagens erradas?

Beber um copo por dia, à refeição, não é ter um comportamento de risco.

O problema é o consumo fora de horas, em excesso, e sobretudo para esconder alguma coisa. Uma coisa é beber um copo para acompanhar a refeição, outra é, sozinho, engolir uma garrafa inteira. Falar das coisas com verdade não é torná-las banal. Um pai uma vez disse-me que sentia que não tinha autoridade para falar com os filhos sobre os malefícios do tabaco porque ele também fumava.

Disse-lhe logo que não estava nada de acordo: se a verdade científica é que não faz bem à saúde, se acha que o seu filho não devia fumar, diga-lhe. Diga-lhe até porque começou, mostre-lhe até algumas das suas fraquezas. Queira ou não deixar de fumar, pode na mesma achar que aquilo é errado para o filho e que, se ele o fizer, pode dar cabo da sua saúde. Um pai tem tanta liberdade de escolher como um filho e aí está a dar-lhe armas para escolher. Isso é perfeitamente legítimo.

E isso também se aplica em relação à droga?

Um dos casos que relata no livro é de uma mulher de 50 anos que conta os seus consumos.

Sim, sem dúvida. A essa mulher, as anfetaminas não só lhe permitiam estudar horas a fio, sem dormir, como ainda a faziam emagrecer. Não é por acaso que tinham nomes como Libriu ou Valium, que fazem lembrar liberdade ou valor… Parece que sempre andámos à procura da felicidade sem esforço, não é? Mas digo também que este esforço e trabalho, que é necessário, não devem ser vistos como um calvário, como nos diz a nossa tradição galaico-cristã. Isto não é a via sacra. Trata-se de aprender a gerir a nossa liberdade de escolha. Falamos também muito de litigância (“porque tu não fizeste, não ligaste…”) mas dizemos pouco “gosto de ti”. Precisamos de fazê–lo com urgência, e sobretudo com os nossos filhos, que não são estranhos. Às vezes, o que se passa é que o filho gosta tanto dos pais que, para se diferenciar, arranja um pretexto qualquer para entrar em conflito. Os pais não podem ceder a essa pressão.

 

 

 

Origem do narcisismo aponta para excesso de elogios dos pais

Março 14, 2015 às 7:13 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do Público de 10 de março de 2015.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Origins of narcissism in children

DR

Nicolau Ferreira

Estudo em famílias holandesas sugere que a demonstração de amor dos pais ajuda as crianças a ter auto-estima, mas a sua glorificação pode contribuir para uma ideia desproporcionada do valor de si próprias.

Diz-se que uma pessoa centrada em si própria de forma doentia é narcísica. Esta é a definição de narcisismo na entrada deste tema na Enciclopédia Britannica online. E é também uma explicação perfeita sobre o Narciso – o rapaz tão belo que, segundo a mitologia grega, quando se viu reflectido num espelho de água, se enamorou de si próprio. Narciso morreu a olhar para si e nesse lugar nasceu uma flor que ganhou o seu nome.

Ainda não há uma explicação definitiva para a origem desta perturbação da personalidade que tem o nome daquele mito. As duas hipóteses mais importantes sobre este problema levam-nos até ao desenvolvimento psicológico das crianças, mas divergem na explicação. Segundo uma das hipóteses, o narcisismo surge quando os pais valorizam de mais as crianças, e elas acabam por ter uma ideia desproporcionada de si próprias: vêem-se como pessoas privilegiadas. A outra hipótese defende que a causa está em pais que não demonstram amor e não valorizam suficientemente os filhos. As crianças, por sua vez, tentam colocar-se num pedestal para terem a aprovação de terceiros, que não receberam dos pais.

Uma equipa a trabalhar na Holanda analisou o desenvolvimento das crianças à procura da origem do narcisismo, testando as duas hipóteses. Os investigadores observaram uma associação entre a glorificação dos filhos e a existência e manutenção dos traços narcísicos, conclui um artigo publicado nesta segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences dos Estados Unidos.

Nas últimas décadas, mais especificamente nas camadas mais jovens das sociedades ocidentais, o narcisismo tem aumentado, adianta o artigo. As características do narcisismo vão para lá do enamoramento por nós próprios. Podem passar por usar terceiros para ganhos próprios, por acharmos que somos melhores e que temos mais direitos do que os outros, e pela constante procura de aprovação e elogio.

As consequências desta perturbação não são benignas, descrevem os autores no artigo: “Quando os narcisistas se sentem humilhados, tendem a responder com agressividade, ou até mesmo violentamente. Os narcisistas também têm um risco acrescido de problemas de saúde mental, como dependências de drogas, depressão e ansiedade.”

Agora, o estudo de Eddie Brummelman, na Universidade de Utrecht, na Holanda, e colegas analisou 565 crianças entre os 7 e os 11 anos. A cada uma foi feito um inquérito de seis em seis meses, durante dois anos, para aferir se tinham traços de personalidade narcísica e para avaliar a sua auto-estima. Frases no inquérito como “Miúdos como eu merecem algo extra” destinaram-se a permitir avaliar o narcisismo. Enquanto frases como “Miúdos como eu estão felizes consigo próprios como pessoas” avaliaram a auto-estima.

Os autores explicam a dimensão destes dois aspectos. “Apesar de os narcisistas se sentirem superiores aos outros e que têm direito a ter privilégios, não estão necessariamente satisfeitos consigo próprios como pessoas. Ou seja, o narcisismo e a auto-estima captam duas dimensões diferentes do eu. Como dizem os peritos: ‘Uma auto-estima elevada significa pensar-se bem de si mesmo, enquanto o narcisismo envolve uma vontade apaixonada de se pensar bem de si próprio.’ Além disso, ao contrário do narcisismo, a auto-estima elevada é indicativo de níveis mais baixos de ansiedade e de depressão ao longo do tempo.”

O inquérito tinha ainda perguntas sobre o relacionamento que as crianças tinham com o pai e a mãe: “O meu pai/a minha mãe dizem-me que me amam.” Os autores também fizeram inquéritos a 415 mães e a 290 pais destas crianças. Por um lado, quiseram saber se os pais consideravam os filhos mais especiais do que as outras crianças. Por outro, perguntaram aos pais se diziam aos filhos que os amavam.

Com todas estas perguntas, os cientistas puderam distinguir se os traços de narcisismo estavam ligados a uma sobrevalorização dos pais ou à falta de amor. Além disso, também analisaram o papel do amor dos pais na auto-estima das crianças.

Os resultados mostraram que os traços de narcisismo estão associados à sobrevalorização dos filhos ao longo do tempo. “Quando os pais dizem às crianças que elas são mais especiais do que os outros, elas acreditam nisso. Isso poderá não ser bom nem para as crianças nem para a sociedade”, defende Brad Bushman, co-autor do estudo, investigador da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos. Este cientista explica que os pais poderão ter este tipo de atitude com o objectivo de aumentar auto-estima dos filhos. “Mais do que aumentar a auto-estima, as práticas de sobrevalorização podem estar inadvertidamente a aumentar os níveis de narcisismo.”

A equipa não encontrou uma associação entre a falta de demonstração de amor de pais para filhos e o narcisismo. Mas descobriu que quando os filhos diziam, no questionário, que sentiam o amor dos pais, isto permitia prever que a auto-estima seria elevada ao longo do tempo.

Apesar de os cientistas explicarem que a educação será só um dos factores que contribui para o desenvolvimento de uma personalidade narcísica, defendem que “um esforço colectivo para reduzir a sobrevalorização dos pais poderá ajudar a travar o aumento do narcisismo na sociedade”.

 

 

Scientists Link Selfies To Narcissism, Addiction & Mental Illness

Abril 24, 2014 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do site http://www.whydontyoutrythis.com  de 2 de abril de 2014.

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The growing trend of taking smartphone selfies is linked to mental health conditions that focus on a person’s obsession with looks. According to psychiatrist Dr. David Veal: “Two out of three of all the patients who come to see me with Body Dysmorphic Disorder since the rise of camera phones have a compulsion to repeatedly take and post selfies on social media sites.” “Cognitive behavioural therapy is used to help a patient to recognise the reasons for his or her compulsive behaviour and then to learn how to moderate it”, he told the Sunday Mirror.

A British male teenager tried to commit suicide after he failed to take the perfect selfie. Danny Bowman became so obsessed with capturing the perfect shot that he spent 10 hours a day taking up to 200 selfies. The 19-year-old lost nearly 30 pounds, dropped out of school and did not leave the house for six months in his quest to get the right picture. He would take 10 pictures immediately after waking up. Frustrated at his attempts to take the one image he wanted, Bowman eventually tried to take his own life by overdosing, but was saved by his mom. “I was constantly in search of taking the perfect selfie and when I realized I couldn’t, I wanted to die. I lost my friends, my education, my health and almost my life”, he told The Mirror. The teenager is believed to be the UK’s first selfie addict and has had therapy to treat his technology addiction as well as OCD and Body Dysmorphic Disorder.

Part of his treatment at the Maudsley Hospital in London included taking away his iPhone for intervals of 10 minutes, which increased to 30 minutes and then an hour. “It was excruciating to begin with but I knew I had to do it if I wanted to go on living”, he told the Sunday Mirror. Public health officials in the UK announced that addiction to social media such as Facebook and Twitter is an illness and more than 100 patients sought treatment every year. “Selfies frequently trigger perceptions of self-indulgence or attention-seeking social dependence that raises the damned-if-you-do and damned-if-you-don’t spectre of either narcissism or very low self-esteem”, said Pamela Rutledge in Psychology Today.

The big problem with the rise of digital narcissism is that it puts enormous pressure on people to achieve unfeasible goals, without making them hungrier. Wanting to be Beyoncé, Jay Z or a model is hard enough already, but when you are not prepared to work hard to achieve it, you are better off just lowering your aspirations. Few things are more self-destructive than a combination of high entitlement and a lazy work ethic.

Ultimately, online manifestations of narcissism may be little more than a self-presentational strategy to compensate for a very low and fragile self-esteem. Yet when these efforts are reinforced and rewarded by others, they perpetuate the distortion of reality and consolidate narcissistic delusions. The addiction to selfies has also alarmed health professionals in Thailand. “To pay close attention to published photos, controlling who sees or who likes or comments them, hoping to reach the greatest number of likes is a symptom that ‘selfies’ are causing problems”, said Panpimol Wipulakorn, of the Thai Mental Health Department.

The doctor believed that behaviours could generate brain problems in the future, especially those related to lack of confidence. The word “selfie” was elected “Word of the Year 2013” by the Oxford English Dictionary and is defined as “a photograph that one has taken of oneself, typically with a smartphone or webcam and uploaded to a social media website.”

1. The Gym Selfie (Because the checking isn’t enough.)

selfie

visualizar as 16 selfies do artigo no link:

http://www.whydontyoutrythis.com/2014/04/scientists-link-selfies-to-narcissism-addiction-and-mental-illness.html?m=1

 


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