A arquitetura escolar e os modelos pedagógicas alternativos

Março 4, 2016 às 6:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Texto do http://uptokids.pt de 16 de fevereiro de 2016.

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A aprendizagem acontece em múltiplos espaços. De facto, as primeiras lições de vida ocorrem nas nossas casas, ao lado das nossas mães, em família; não em salas de aula. A educação também é definida pelo contexto onde ocorre. Aprende-se espontaneamente numa praça, no parque, em casa, etc., o que não quer dizer que muitas vezes não seja necessário um espaço desenhado especialmente para o aprendizado; estes propiciam experiências educativas.

A arquitetura escolar e os modelos pedagógicas alternativos

Não se trata de uma novidade: há mais de um século, pessoas como Maria Montessori, Rudolf Steiner e Loris Malaguzzi questionaram não só a forma de educar, como também o espaço onde se educa.

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É no século XX com o movimento Moderno que se transforma a maneira de ver o espaço escolar. Começa-se a pensar nas formas como o espaço favorece o crescimento, o desenvolvimento e a aprendizagem da criança. É então que se desenvolvem ideias como as de um ambiente que tenha maior contacto com o exterior (com o ar e o sol), maior transparência espacial, maior interação entre os ambientes de dentro e de fora. Começam assim as novas conquistas na arquitetura escolar, em termos sociais e espaciais.

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Maria Montessori, Rudolft Steiner e Loris Malaguzzi incluem nos seus estudos pedagógicos, de uma forma mais concreta, os aspectos relevantes da envolvente.

Maria Montessori propõe no seu método conhecer plenamente as crianças e respeitar o seu desenvolvimento, para que desta forma a educação acompanhe o processo natural da vida. Ao pensar no espaço neste sentido, sugere um ambiente preparado para a criança no qual deve haver elementos proporcionados à sua escala, que permitam dirigir a criança ao conhecimento. Os objetos não devem ser muitos, e sim a quantidade justa e necessária para a aprendizagem. Os elementos e suas formas devem ser simples; o espaço, fácil de manter limpo, sem elementos que se interponham ao fluir do ambiente; de tal forma, várias atividades devem poder ser realizadas simultaneamente.

O arquiteto Herman Hertzberger é um dos que, através do projeto “Escuela Apollo”, interpreta estas ideias do espaço nas teorias de Montessori. As salas de aula têm uns cubos amovíveis que são parte do piso mas ao mesmo tempo são parte do mobiliário da sala. Por sua vez, dá grande importância ao espaço comum onde crianças de todas as idades possam  encontrar-se para desenvolver atividades em conjunto e aprender umas com as outras.

Por outro lado temos Rudolf Steiner, pedagogo e arquiteto, fundador da pedagogia Waldorf, que propõe outra visão da educação baseada na procura da essência do ser humano através da criatividade, da arte, do movimento e do respeito pelos ciclos da vida. Em termos de especialidade, propõe a arquitetura baseada no seu estudo antroposófico. Isto é, a arquitetura orgânica relacionada com a natureza, na qual se utilizam materiais reciclados e acessíveis em cada contexto. Também se refere à possibilidade de adaptar a arquitetura às condições climáticas do ambiente sem utilizar elementos artificiais.

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Um aspecto importante na “particularidade” da pedagogia de Steiner prende-se à não utilização de linhas retas, o que se relaciona com a união da educação e o espiritual. O resultado é um ambiente desenhado segundo a escala dos estudantes, fabricado com materiais rudimentares e evitando tanto as novas tecnologias como as formas monótonas. Nestas escolas se dá muita relevância aos espaços ao ar livre, já que permitem o agrupamento e debate. Neste sentido, os espaços para a agricultura e práticas artísticas e desportivas adquirem um papel de destaque dentro do desenho arquitetónico desta pedagogia.

Finalmente temos a Loris Malaguzzi, quem desenvolveu a pedagogia de Reggio Emilia, fundada basicamente na ideia de que as crianças têm capacidades, potenciais, e interesse em construir a sua própria aprendizagem. Que se interessam naturalmente pelas interações sociais e em relacionar-se com tudo o que o ambiente lhes oferece. A proposta em termos de especialidade aponta que as escolas possuam zonas contíguas, oficinas de arte ou atelies com grande quantidade de materiais e recursos para todas as crianças: uma aula de música; uma área para o desenvolvimento motor, expressivo e criativo do corpo; espaços verdes para a utilização da envolvente (cidade, campo, montanha, etc.) como elemento didático. Dentro da sala de aula, as paredes costumam ser brancas, o que transfere à criança paz em seus processos de aprendizado. Por sua vez, estão previstas para a realização de exposições curtas ou permanentes das crianças e familiares.

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Estes pensadores permitiram abrir um novo caminho ao desenho do espaço escolar. Hoje em dia podemos encontrar uma grande variedade de projetos arquitetónicos desta índole, baseados em muitas das teorias pedagógicas inovadoras que buscam construir escolas que transformem o espaço onde ocorre o milagre da educação. Por exemplo, na Suécia, as escolas “Vittra”: simplesmente, escolas sem aulas, com ambientes que facilitam e permitem a aprendizagem plena na sua forma natural.

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Outro exemplo são as escolas do arquiteto Giancarlo Mazzanti na Colômbia, que refletem uma arquitetura pensada e realizada para as crianças.

O mundo continua em mudança… A forma de comunicarmos, de aprendermos, de nos movermos evoluem… A educação não fica atrás. Responde a este movimento contínuo de transformações. A arquitetura tem de acompanhar; gerar espaços propícios para a educação, espaços capazes de transmitir emoções, capazes de gerar sentimentos de pertença de forma a facilitar e possibilitar uma aprendizagem mais simples e mais natural para as crianças.

Por Sabine Beyer, para Reevo, publicado no Archdaily Brasil

Adaptado por Up To Kids® Todos os direitos reservados

O artigo original do site http://www.archdaily.com.br/br é o seguinte:

Uma Introdução à Arquitetura nas Pedagogias Alternativas

 

 

 

Esta é a escola portuguesa que os ingleses copiaram

Abril 23, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 21 de abril de 2015.

Fernando Pereira Global Imagem

por Ana Bela Ferreira

A Escola Básica da Ponte nasceu há 39 anos para promover uma aprendizagem mais autónoma e democrática. Não existem turmas, nem testes e os resultados são acima do esperado.

O grupo de visitantes entra na sala de aula. O olhar de curiosidade de quem chega contrasta com a indiferença de quem está sentado nas mesas de trabalho. Sentados em grupos, não há quadro na parede nem o professor está de pé a debitar a matéria. Há três professores na sala e cada um está sentado ao lado de um aluno que naquele momento precisa de ajuda e ninguém está distraído a conversar com o colega do lado.

Alunos e professores já estão habituados às excursões que se deslocam de vários países para ver in loco a Escola Básica da Ponte a funcionar. Finlandeses, brasileiros, italianos, holandeses ou ingleses, são muitos os grupos ligados à Educação que procuram alternativas aos modelos dos seus países e vêm à Vila das Aves, concelho de Santo Tirso, conhecer a escola pública fundada em 1976 com base no Movimento Escola Moderna e que é tida como um exemplo de sucesso.

A visita do DN às instalações é partilhada com a pedagoga brasileira Márcia Taborda, que estando de visita a Portugal, “não podia deixar de conhecer uma escola que é estudada no Brasil”. Vem acompanhada pelo marido que foi arrastado para o Portugal profundo atrás da escola modelo. Ao mesmo tempo, na sala de entrada da escola, onde os visitantes são convidados a ler os seus direitos e deveres, a coordenadora do projeto debate uma tese de doutoramento sobre a escola com um aluno conterrâneo de Márcia. Um trabalho que é discutido com a representante dos pais, outra particularidade desta escola.

Mas afinal o que é que esta escola pública tem de diferente para só no ano passado ter recebido quase 900 visitantes? Aqui não há turmas, os alunos decidem o que estudam no seu dia-a-dia, os professores não estão sozinhos numa sala e os únicos testes que se fazem são os exames nacionais. Uma forma de ensinar muito semelhante ao que a Finlândia (estudar por fenómenos e não disciplinas) ou a França (aprender por trabalhos de grupo e dar autonomia aos alunos) pretendem implementar. Júlio, que está no 7.º ano, acredita que tem mais responsabilidades que numa escola normal, mas também mais confiança nas suas capacidades e autonomia.

O aluno faz parte do grupo de estudantes encarregado das visitas guiadas à escola. É ele que, acompanhado pelo colega mais novo, Rúben, mostra aos visitantes os cantos da sua escola e como esta funciona. Júlio entrou para a Ponte, quando esta ainda estava na Vila das Aves. Agora partilha o recinto em São Tomé de Negrelos com a escola básica local, que pertence ao Agrupamento do Ave. A Ponte não está integrada em nenhum agrupamento e funciona com contrato de autonomia. Não existe outra escola pública igual.

As instalações são novas e preenchidas por cores vivas. Nas diferentes salas funcionam núcleos de estudo de acordo com o nível de cada um. E apenas o primeiro ano do ensino básico tem turmas mais tradicionais: aqui há um professor que coordena a aula, mas os alunos já estão reunidos em grupos de trabalho, explica Júlio à porta da sala de aula, onde os que frequentam “a primeira vez” (assim se chama a primeira classe) estão empenhados em acompanhar o professor.

Objetivos definidos à quinzena

O guia mais jovem, Rúben, mostra como funciona o núcleo de iniciação, onde estão 99 alunos normalmente do 2.º ao 4.º ano, mas essa divisão não é estanque, explica mais tarde a coordenadora do projeto Ana Moreira. Nesta sala, as paredes também estão repletas de cartolinas, mas em vez dos tradicionais desenhos, aqui estas têm tarefas. Afixados estão os planos da quinzena e do dia para cada um dos alunos. E à frente das tarefas existem bolinhas que só são pintadas quando esta é cumprida. Rúben dá um exemplo: “A primeira coisa que se faz de manhã é ver o plano do dia. Se quero começar por estudar o sistema solar vou buscar os livros dessa matéria e quando acabar de estudar pinto a bolinha dessa tarefa.” Depois de aprender tudo sobre o sistema solar, Rúben coloca essa indicação na tabela que diz “Já sei” e que indica ao professor que o aluno está pronto para ser avaliado.

Os objetivos de aprendizagem são definidos à quinzena pelo aluno e o seu respetivo professor-tutor (uma espécie de diretor de turma individual). O aluno deve ser avaliado a todos os itens nesse período, “se deixar alguma coisa para trás já é preocupante”, aponta Júlio. Os pais são informados e convidados a responder às avaliações dos professores, assim como os alunos.

Na Escola da Ponte, que tem atualmente 230 alunos do pré-escolar ao 9.º ano, não há testes como nas outras escolas, e um dos entraves à implementação total deste modelo “são os exames nacionais”, aponta Ana Moreira. A escola “não tem estado mal. No ano passado baixámos a Português, mas há dois anos estivemos bem”. O número de exames realizados não é muito expressivo, mas a posição da escola nos rankings oscila entre o lugar 214 no 4.º ano e o 1147 no 9.º ano. Os alunos são preparados tendo aulas mais tradicionais onde se explica a estrutura do exame.

Na última avaliação externa, levada a cabo pela Inspeção-Geral da Educação (IGEC), a escola foi avaliada com Muito Bom em todos os parâmetros. Os técnicos do Ministério da Educação e Ciência (MEC) sublinham que a escola comparada com outras do mesmo contexto tem valores acima dos esperados e elogiam a ausência de problemas disciplinares e de abandono.

Alunos combatem indisciplina

“Os alunos desta escola gostam de cá andar”, sintetizam pais e funcionários. Mais cautelosa, Ana Moreira recorda: “Somos uma escola pública temos casos de sucesso e de insucesso, como em todo o lado.” O que “não obsta a que tentemos fazer melhor”. Os problemas são essencialmente a falta de estabilidade dos professores: dos 29 docentes, aqui orientadores educativos, apenas sete são do quadro; e de pessoal auxiliar, onde três são do quadro e dez têm contrato temporário através do centro de emprego.

Estas dificuldades técnicas não impedem os pais de elogiar o projeto. Isabel Moreira procurava um projeto educativo diferente no sistema público para os três filhos. Cruzou-se com uma “mãe da Escola da Ponte” e apaixonou-se pelo projeto. Mudou-se da Maia para Vila das Aves e não se arrepende. A mãe de três alunos (do 9.º, 8.º e 6.º anos) considera que esta escola lhes deu “sobretudo capacidade de usar a criatividade e capacidade pensante nas suas ações. Muitas vezes eles são críticos e apontam pontos de vista válidos com os quais podemos não concordar mas temos de dar o braço a torcer”.

Estes alunos são também um desafio para quem trabalha na escola. Helena Alves é natural da Vila das Aves, trabalha na escola há 10 anos, e apesar de morar quase ao lado das instalações originais, quando os filhos chegaram à idade escolar não foi aí que os inscreveu: “Era vista como uma escola onde os miúdos faziam o que queriam e não estudavam”, recorda. Hoje defende o projeto com unhas e dentes. “Foi na catequese que percebi que havia meninos diferentes e que eram os meninos da Ponte.”

Os meninos da Ponte são responsáveis por organizarem a escola no início de cada ano. Candidatam-se e votam numa assembleia de escola que é chamada a decidir sobre o dia-a-dia. “É mais fácil ter sucesso num projeto que eles se comprometeram a fazer”, justifica Ana Moreira. Constituem também uma comissão de ajuda que é a primeira linha no combate à indisciplina. “São os primeiros a intervir e os outros respeitam”, aponta Helena Alves.

 

 

 

 

Doutoramento Honoris Causa de Sérgio Niza

Abril 20, 2015 às 10:46 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Universidade de Lisboa irá atribuir o título de Doutor Honoris Causa a Sérgio Niza, sócio fundador do Instituto de Apoio à Criança, no dia 23 de abril de 2015 na Aula Magna da Universidade de Lisboa pelas 18.oo h.

mais informações sobre Sérgio Niza e a cerimónia no link:

http://www.ie.ulisboa.pt/portal/page?_pageid=406%2C1864965&_dad=portal&_schema=PORTAL

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Escolas que questionam o sistema e dão a cada aluno o seu tempo

Dezembro 3, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Público de 24 de novembro de 2014.

Miguel Manso

Maria João Lopes

Há escolas que não têm manuais, nem aulas expositivas. Em algumas são os alunos que escolhem o que estudar e quando querem ser avaliados. Noutras, as notas não contam mais do que aprender a conhecer-se e a ser feliz.

O dia começa com uma roda. De mãos dadas, cantam, saltam à corda, dizem poemas. A professora toca flauta, fala do vento, eles rodopiam. Só depois vão para a aula. A Casa da Floresta Verdes Anos, colégio em Lisboa onde não há computadores nem quadros interactivos, não é a única a seguir uma via menos convencional.

N’Os Aprendizes, em Cascais, além do edifício onde decorrem as aulas, há uma casa, o Reino dos Sentidos, dedicada sobretudo à arte-terapia: não é só para meninos com necessidades educativas especiais, qualquer criança pode ir lá e tentar ultrapassar uma dificuldade através da pintura, música, neuroterapia, entre outras hipóteses.

Estes colégios são privados, mas a Escola da Ponte, Santo Tirso, do pré-escolar ao 3.º ciclo, é pública. Sem aulas expositivas, são os alunos que escolhem as matérias e quando querem ser avaliados.

São três exemplos, entre outros que não encaixam no sistema convencional. Não se vangloriam de serem os melhores nos rankings, mas garantem que as crianças aprendem e trabalham a criatividade, o espírito crítico, a cidadania, a liberdade, a responsabilidade.

“Não acreditamos na avaliação quantitativa, mas qualitativa. O professor olha para cada criança e vê se brinca, se come, se resolve um problema na sala, lá fora, se tem dificuldade a Português, a Matemática. Não há um melhor do que outro”, diz Rita Dacosta, directora da Casa da Floresta, colégio até ao 1.º ciclo que segue a pedagogia Waldorf.

Além desta pedagogia, Os Aprendizes cruza o método High Scope e o Movimento Escola Moderna. À fusão chamaram “Pedagogia do Amor”: “Está na moda falar em sucesso, não em amor. Mas preparar os miúdos para a vida não é só prepará-los tecnicamente. Ser bem-sucedido profissionalmente é ser feliz, realizado, trabalhar em algo produtivo, é cada um alcançar o máximo do seu potencial”, diz Sofia Borges, directora deste colégio até ao 2.º ciclo.

A gestora da Escola da Ponte, Eugénia Tavares, frisa que naquele estabelecimento – que funde várias correntes, mas tem forte influência do Movimento Escola Moderna -, “o aluno tem uma atitude mais activa na procura do conhecimento”. A coordenadora de projecto, Ana Moreira, acrescenta: “Nas aulas convencionais, um assunto é dado e quem apanhou, apanhou.”

Sérgio Niza, um dos fundadores do Movimento Escola Moderna e que já fez parte do Conselho Nacional de Educação (CNE), diz que o “método simultâneo” da maioria das escolas “resume-se a ensinar a muitos como se fossem um só”: “A monstruosidade disto é não haver respeito por cada um.”

Ludovina Silva é presidente da Associação de Pais da Escola da Ponte, tem lá dois filhos: “Quando saem da Ponte, são mais interventivos, questionam mais.” Nesta escola, há comissões de ajuda, uma assembleia: os alunos identificam os problemas da escola, debruçam-se sobre as soluções.

Admite que se sentiu “insegura” quando, no fim do 1.º ano, a filha não sabia ler: “Mas ela teve de lidar com a timidez e, na Ponte, trabalharam isso. É uma escola que respeita o tempo de cada aluno. Hoje é excelente aluna.”

Efeito “perverso”

Rita DaCosta assume que a Casa da Floresta é avessa à lógica dos melhores e piores: “Quando uma criança tem um não satisfaz, acha que é ela que não satisfaz. A partir daqui, é muito difícil trabalhar a criatividade e a auto-estima.”

Para o docente da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e do Centro de Investigação e Intervenção Educativas, Rui Trindade, há um “efeito educativo perverso da valorização de um tipo de competitividade que poderá ser adequada para o desporto de alta competição”, mas, na escola, é “um obstáculo educativo” – é uma lógica em que o sucesso não é em função das “aprendizagens”, mas das notas.

No ano passado, a Casa da Floresta não teve exames nacionais. Mas, segundo o ranking do PÚBLICO, que inclui as notas dos alunos internos na 1.ª fase dos exames, n’Os Aprendizes, a média do 4.º foi 2,75 e, na Ponte, 3,67 – a média nacional foi 2,8. Ainda na Ponte, no 6.º foi 3, acima dos 2,71 nacionais e no 9.º foi 2,5, a mesma do país.

Rui Trindade ressalva que “bons resultados nos exames não significam, obrigatoriamente”, alunos “mais inteligentes, cultos e atentos aos outros e ao mundo”. E Sérgio Niza defende mesmo que há “um desvio de sentido” do Governo que, “sob a capa de um suposto rigor, é de um populismo desenfreado”: “Não compreende nada do que é essencial na escola, compreende tudo no plano empresarial. Joga com os alunos como se fossem mercadorias. Os exames sucessivos fazem fugir a escola da cultura e põem-na a repetir, a treinar, como se fosse treino desportivo”, nota, frisando que esse caminho forma pessoas “acéfalas e repetitivas” em vez de “criativas, críticas, imaginativas”.

Rui Trindade levanta outra questão: como se valoriza o erro enquanto forma de aprendizagem? Defende que a “qualidade da formação académica e técnica das pessoas” depende do modo como “se gere o erro como um desafio pedagógico tão inevitável quanto expectável”. E como se promove o autoconhecimento e a criatividade.

Para este investigador, “o problema” da escola convencional não é só “marginalizar” as disciplinas artísticas, mas “não aproveitar” as potencialidades do Português ou da Matemática. Incluir Os Maias ou as equações de 2.º grau nos programas não garante que os alunos cresçam de forma “significativa”: “É a relação que estabelecem com Os Maias ou as equações e o modo como tal relação é apoiada e gerida que pode constituir-se como oportunidade.”

Já o professor coordenador principal da Escola Superior de Santarém e membro do CNE, Ramiro Marques, é a favor dos exames no fim de cada ciclo: “Criam uma pressão adicional no desempenho de professores e escolas. Como as classificações podem ser comparadas entre escolas, permitem um sistema mais competitivo e permitem aos pais um conhecimento das escolas.”

Ramiro Marques considera que a pedagogia Waldorf ou o Movimento Escola Moderna são propostas pedagógicas que podem ter “resultados favoráveis”: “Mas necessitam de uma militância muito grande dos professores. Se aplicadas a escolas sem liderança muito forte, não atingem os resultados esperados. Não são propostas facilmente generalizáveis a todo o país”, nota, ressalvando ser “a favor da diversidade metodológica” desde que haja metas curriculares nacionais.

Trepar às árvores

Na Casa da Floresta, letras e números andam lado a lado com ecologia e criação. Não há bonecos que não sejam feitos pelas crianças, professores ou artesãos. Os miúdos não levam telemóveis nem ipads. Nas aulas, “estão três semanas a trabalhar Português, três semanas a trabalhar Matemática, sempre com a componente artística presente”. E vão muito lá para fora: “Temos uma horta de 600 metros quadrados, para onde eles vão com galochas, enxadas, ancinhos. Fazem actividades de Matemática e Português no meio das árvores, da natureza.” Têm Música, Inglês, Costura, Capoeira, Carpintaria. Não têm manuais nem trabalhos de casa.

Na pedagogia Waldorf, valoriza-se a época do ano: “O equinócio de Outono, o solstício de Inverno, o equinócio da Primavera, o solstício de Verão. Falamos sobre as colheitas nos problemas de Matemática. Toda a actividade vai beber a estes ritmos da terra”, diz Rita DaCosta.

Estarão as crianças demasiado protegidas, afastadas das exigências de uma sociedade cada vez mais competitiva? Pelo contrário, diz a directora, para quem esta dimensão onírica é “uma semente” que os alunos transportarão pela vida fora e que os ajudará a enfrentar as adversidades de outra forma.

Também n’Os Aprendizes foram buscar à pedagogia Waldorf a “educação pela arte” e o “desenvolvimento espiritual”. Do método High Scope retiraram a “aprendizagem activa”: “É aprender agindo sobre o mundo que me rodeia, com workshops, experiências”, diz Sofia Borges. Quando no 3.º ano se deu a Rosa dos Ventos, os meninos foram para rua e “perderam-se”: “Claro que o professor sabia onde estavam, mas era para perceberem onde era o Norte, o Sul, o Este e o Oeste.” Já ao Movimento Escola Moderna foram buscar a vertente comunitária que faz, por exemplo, com que as crianças participem na definição das regras.

Nesta escola também se respeita a “individualidade de cada um”. Não estão à espera que aprendam todos ao mesmo tempo. E defende-se que não é só na sala de aula que se incentiva a aprendizagem: “Uma criança que trepa às árvores está a desenvolver-se, a ultrapassar conflitos. Se não consegue trepar, vai ter de vencer uma frustração. É tão importante como o problema de Matemática. E, se calhar, com essa aprendizagem da árvore, vai olhar para o problema de Matemática de outra forma”, diz Sofia Borges.

Ali, antes das aulas, os miúdos fazem o brain gym, “pequenos exercícios físicos que predispõem o cérebro para as aprendizagens”. Depois, sentam-se em mesas redondas e podem ir circulando pelas actividades propostas pelo docente. “Há regras discutidas com as crianças, mas os adultos são os orientadores. Há um horário, uma estrutura, mas dentro dela há liberdade”, explica a directora.

Nesta escola, entre outras disciplinas, têm Filosofia, Expressão Plástica, Expressão Dramática, Música, Educação Física, Ioga, Meditação. À sexta-feira, é dia de Trabalhos Manuais, Horta e Culinária, de visitar lares de idosos. Manuais, só a História e Inglês. São os alunos que vão “construindo o conhecimento”: “No fim do ano têm um manual feito por eles. Os manuais [instituídos] afunilam a aprendizagem. Todas as crianças têm de ler os mesmos textos? Aqui vão à biblioteca e escolhem. O que me interessa é que desenvolvam gosto pela leitura”, nota Sofia Borges.

Mas os modelos alternativos funcionam do ponto de vista da aprendizagem das matérias? É evidente, diz Rui Trindade, que são “projectos onde o nível de risco pedagógico é maior”, mas “é inevitável que assim seja, tendo em conta o espaço de diálogo, de descoberta e de interpelação” que os caracteriza.

Ressalvando que só fala do que conhece – Movimento da Escola Moderna, Escola da Ponte, projecto OSMOPE e colégio Tangerina, no Porto -, Rui Trindade diz que são espaços que geram “aprendizagens significativas” e contribuem para que os alunos se tornem, através do currículo, “mais inteligentes, cultos e humanamente mais capazes.”

“Raios de luz”

Sendo um dos casos mais conhecidos, a Escola da Ponte recebe inúmeros visitantes. São os alunos que fazem as visitas. Rafaela Oliveira, 16 anos, no 9.º, já esteve noutra escola, prefere a Ponte: “Quando cheguei era a aluna mais envergonhada, era impossível estar a falar com uma visita. Foram os professores, principalmente o meu tutor, que me incentivaram a fazer estas visitas. Agora, de vez em quando, até recebo elogios.”

Rafaela Oliveira e David Braga, 10 anos, 5.º ano, vão explicando que a escola funciona em três níveis de projecto: iniciação, consolidação e aprofundamento. Os miúdos vão passando de um nível para o outro, mas não todos ao mesmo tempo. Não há testes; notas, só no 3.º período.

Nas salas, sentam-se em mesas redondas, em grupos de várias idades. Estudam as matérias que definiriam, no chamado plano do dia e da quinzena, e orientadores e colegas ajudam. Para a professora Alexandra Ferreira, coordenadora do núcleo de aprofundamento, o maior desafio é ser abordada por alunos de anos diferentes: “Há um tipo de ajuda para um, outro para outro.”

Ana Moreira defende que o ensino convencional assenta numa “perspectiva fechada” sobre a educação: “Mas há pequenos raios de luz como a Ponte. E uma discussão grande na comunidade académica, em várias partes do mundo, sobre o rumo da educação e vontade de o mudar.”

Para Sérgio Niza, é “por preguiça mental e medo” que os governantes em Portugal não avançam “para novas formas de encarar a escola”, que sai “empobrecida” ao tentar satisfazer “a eficácia da sociedade de mercado”. Ao contrário da “acelerada lógica do lucro”, diz, “o tempo de nos formarmos como cidadãos, aprendermos, sermos pessoas que amam a cultura, é longo”. No fundo, não se pode confundir ortografia com escrita: “A ortografia é uma coisa mínima, ridícula, em relação à escrita. É a escrita, como discurso crítico, que pode mudar as pessoas e o mundo.”

 

 

Texto de Dulce Rocha sobre o lançamento do livro de Sérgio Niza “Escritos sobre Educação” durante o 34º Congresso do Movimento da Escola Moderna

Julho 20, 2012 às 8:52 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Veja aqui pormenores sobre o livro

Congresso Aqui

Lançamento do livro de Sérgio Niza – Escritos de Educação

Julho 17, 2012 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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34º Congresso do Movimento de Escola Moderna

Julho 15, 2012 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações Aqui

Reportagem da SIC que ilustra as diferenças entre três modelo de ensino em Portugal, nomeadamente o Ensino Tradicional, o João de Deus e o Movimento da Escola Moderna

Março 18, 2010 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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