A morte na família: como é que as crianças expressam o seu sofrimento?

Março 24, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Artigo de opinião de Carmen Rosa publicado no Público de 12 de fevereiro de 2019.

A maioria dos adultos considera que a morte vai além da compreensão da criança e tenta protegê-la, evitando abordar o assunto.

Quando alguém morre, não podemos deixar de considerar o impacto desse momento no equilíbrio do sistema familiar, especialmente numa perda dolorosa, como quando se perde um dos pais.

A maioria dos adultos considera que a morte vai além da compreensão da criança e tenta protegê-la, evitando abordar o assunto. No entanto, é importante que sejam dadas respostas adequadas ao seu nível de desenvolvimento.

Uma das primeiras preocupações que surge é se a criança deverá estar presente no funeral. A criança deve ter a oportunidade de ir, mas não deve ser obrigada. Também não existe uma idade específica a partir da qual se possa afirmar que pode assistir ao funeral. Deve depender, sobretudo, do facto de isso ajudar, ou não, a criança a compreender e confrontar a experiência de morte.

Pode ser útil explicar antecipadamente o que irá ver, acontecer, ou o porquê de se ir ao funeral. As crianças em luto precisam também de saber que irão ser cuidadas e estimadas, de se sentir importantes e envolvidas e de alguém que oiça as suas dúvidas.

As crianças expressam o seu sofrimento de formas diferentes, através de mudanças emocionais, físicas ou comportamentais. Mas quais são então esses sintomas? E como devemos lidar com eles?

O estado de choque ou negação surge de forma mais intensa durante seis a oito semanas após a morte e em datas simbólicas. Nessa fase é importante o adulto proteger e apoiar a criança, com uma presença calma e estabilizadora.

Por vezes, a criança não sabe o que pensar ou sentir, mas essa falta de sentimentos deve ser reconhecida como forma de autoprotecção, não devendo punir-se a criança por isso.

Mudanças fisiológicas como cansaço ou fadiga/falta de energia, alterações de sono e apetite, aperto na garganta, falta de ar, nervosismo/tremores, dores de cabeça ou de estômago, são também frequentes. É importante ajudar a criança a entender estes sintomas como uma reacção normal e a expressar melhor o seu sofrimento, podendo ser necessário consultar um médico para despistar causas físicas para os sintomas.

Nalguns casos, surgem comportamentos de regressão, como dependência excessiva do progenitor e incapacidade de se separar dele, seja para brincar, ir à escola ou dormir, pedir ajuda para tarefas que já fazia sozinha ou regredir na linguagem. Deve tranquilizar-se a criança de que o progenitor vivo não a vai deixar.

Nos casos de Síndrome do “Homem grande” ou “Mulher grande”, a criança tende a crescer depressa para substituir o progenitor que perdeu, podendo usar palavras ou comportamentos típicos deste. Aí, devem apenas ser encorajadas as competências que são adequadas para o seu nível de desenvolvimento.

Pode acontecer, também, alguma desorganização e pânico, com comportamentos imprevistos, como sonhos, agitação, irritabilidade ou até dificuldade em concentrar-se. É necessário o reconforto e a presença física de alguém em quem confie.

Quando as emoções se tornam explosivas, com sentimentos de desamparo, frustração e mágoa, a criança sente-se zangada com a pessoa que morreu, o que implica perceber e aceitar que a zanga é parte natural do sofrimento e irá desaparecer.

Pode surgir algum temperamento explosivo, conflitos com os pares, desafio à autoridade, ou diminuição do rendimento escolar. Aqui os sermões são pouco produtivos, embora seja necessário pôr limites, bem como satisfazer as necessidades de afecto e segurança.

A criança pode passar a ter medo de não haver mais ninguém que cuide de si, de ver as outras pessoas sofrerem ou até da sua própria morte, sendo preciso reconhecer a necessidade de aceitação e ter sensibilidade para com os seus medos.

É frequente manifestar um sentimento de culpa. As crianças muitas vezes acham que por terem pensado uma coisa que depois aconteceu a culpa é sua. Deve-se evitar comportamentos que reforcem a ideia de que a morte é uma forma de punição e mostrar que é normal zangarmo-nos com as pessoas que amamos.

Podem ainda surgir sentimentos de perda, vazio e tristeza. A morte de um ente querido pode levar à depressão, à falta de interesse nela própria e nos outros, à incapacidade de vivenciar o prazer e a baixa auto-estima. Nesse caso, reconhecer a necessidade de ajuda profissional é essencial.

Ao longo do processo de aceitação da perda, o ente querido é lembrado e estimado e as memórias deixarão saudades, mas estes sentimentos não devem impedir a criança de descobrir novas formas de lidar com isso e ajustar-se ao seu dia a dia de uma forma adaptativa. O apoio do sistema familiar e escolar é nisso fundamental.

Quando as emoções se tornam explosivas, com sentimentos de desamparo, frustração e mágoa, a criança sente-se zangada com a pessoa que morreu, o que implica perceber e aceitar que a zanga é parte natural do sofrimento e irá desaparecer.

Pode surgir algum temperamento explosivo, conflitos com os pares, desafio à autoridade, ou diminuição do rendimento escolar. Aqui os sermões são pouco produtivos, embora seja necessário pôr limites, bem como satisfazer as necessidades de afecto e segurança.

A criança pode passar a ter medo de não haver mais ninguém que cuide de si, de ver as outras pessoas sofrerem ou até da sua própria morte, sendo preciso reconhecer a necessidade de aceitação e ter sensibilidade para com os seus medos.

É frequente manifestar um sentimento de culpa. As crianças muitas vezes acham que por terem pensado uma coisa que depois aconteceu a culpa é sua. Deve-se evitar comportamentos que reforcem a ideia de que a morte é uma forma de punição e mostrar que é normal zangarmo-nos com as pessoas que amamos.

Podem ainda surgir sentimentos de perda, vazio e tristeza. A morte de um ente querido pode levar à depressão, à falta de interesse nela própria e nos outros, à incapacidade de vivenciar o prazer e a baixa auto-estima. Nesse caso, reconhecer a necessidade de ajuda profissional é essencial.

Ao longo do processo de aceitação da perda, o ente querido é lembrado e estimado e as memórias deixarão saudades, mas estes sentimentos não devem impedir a criança de descobrir novas formas de lidar com isso e ajustar-se ao seu dia a dia de uma forma adaptativa. O apoio do sistema familiar e escolar é nisso fundamental.

 

 

Justiça alemã garante acesso dos pais à conta de Facebook da filha morta

Julho 24, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Notícia e imagem do Euronews de 12 de julho de 2018.

De  Antonio Oliveira E Silva  com AFP

O Tribunal de Justiça Federal da Alemanha ( Bundesgerichtshof), com sede em Karlsruhe, deu a conhecer uma sentença relacionada com o que pode ser definido como a herança digital dos cidadãos e o acesso aos perfis nas redes sociais dos consumidores, uma vez falecidos.

A Justiça decidiu a favor de um casal que exigia à rede social Facebook o acesso à conta da filha, morta em circunstâncias ainda por explicar, no sistema de metropolitano de Berlim.

A mãe da adolescente, que morreu com 15 anos, em 2012, tentou recuperar conteúdos do perfil da filha, o que foi recusado pela empresa, com sede em Palo Alto, Califórnia.

Ao aceder à conta, o casal esperava compreender melhor, através de possíveis pistas, se a filha teria ou não cometido suicídio.

Mas a empresa rejeitou o pedido, argumentando que o acesso aos dados da adolescente da parte dos pais constituia uma violação do que definiu como conteúdos privados, já que o casal passaria a ter acesso a conteúdos de outros utilizadores – nomeadamente no chat.

O casal argumentava que o acesso ao perfil de Facebook da filha seria semelhante ao acesso a um diário ou a cartas que ela tivesse escrito.

O Tribunal de Justiça Federal concordou: “O contrato de utilizador de uma pessoa com uma rede social obedece à sucessão universal dos herdeiros do titular da conta,” diz a sentença.

Para os juizes, o que está em causa é uma conta de utilizador e não uma pessoa específica e que é normal que terceiros tenham acesso a essa conta com ou sem o acordo do proprietário inicial.

Um drama jurídico de três anos

Em 2015, a justiça deu razão aos pais, em primeira instância. Mas, dois anos mais tarde, o Tribunal de Recurso reverteu a sentença e defendeu, como dizia o Facebook, que “o segredo das comunicações estava protegido pela Lei fundamental da Alemanha”.

No entanto, o Tribunal de Justiça Federal estimou, ao dar a razão ao casal, que a confidencialidade dos dados não seria afetada, já que a Lei apenas protege as pessoas vivas.

Quando um utilizador do Facebook morre, existem duas opções:

A conta pode ser transformada num perfil em memória dessa pessoa, o que permite partilhar conteúdo produzido pelo utilizador em vida.

A segunda opção contempla a eliminação da conta, sendo preenchido um formulário em linha para o efeito.

A questão da herança digital constitui um problema de ordem ética e legal complexo, com o qual se deparam regularmente os ordenamentos jurídicos de vários países.

 

 

As crianças e a morte

Março 6, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 13 de fevereiro de 2018.

Mário Cordeiro

Os efeitos da morte inesperada e súbita de uma pessoa querida da criança causam uma dor quase insuportável, um grande sentimento de vazio e de ausência… e de insegurança.

Amanhã é Quarta-Feira de Cinzas. Enterra-se hoje o Carnaval. Morre o Entrudo e abre-se caminho a um período de reflexão e de quaresma (que significa sofrimento e penitência), que culminará com a morte… e a ressurreição. É este o entendimento da moral judaico-cristã e a simbologia destes dias, seja-se crente ou não. E quando a morte é real e surge no seio de uma família onde há crianças? Como agir?

“A morte da avó da Teresa foi de repente. Provavelmente um enfarte, disse o médico. Mas a explicação em nada adiantou ao sofrimento da família, designadamente dos pais da Teresa. Para além do seu drama pessoal, ficaram apreensivos com outra coisa: como dizer à Teresa, de quatro anos, que a avó tinha morrido. A avó para casa de quem ela ia todos os dias, quando saía da escola, e com quem brincava até os pais a irem ‘pescar’, lá pelas oito da noite. A avó que lhe preparava o lanche e conversava com ela. A avó que a Teresa dizia ser “a pessoa mais querida do mundo”, para orgulho e também algum ciúme dos pais.

Como dizer à Teresa? Ou não dizer? Ou inventar um novo esquema de ATL e fingir que a avó, agora, não tinha tempo para a Teresa. Ou contar tudo e estar preparados para tudo?”

Acontecimentos destes são frequentes. Os efeitos de uma morte inesperada e súbita de uma pessoa querida da criança causam uma dor quase insuportável, e um grande sentimento de vazio, de ausência… e de insegurança – “se aconteceu isto, que nada fazia prever e que eu não queria, tudo o mais pode agora surgir”. A criança sente-se atraiçoada sem saber por quem ou porquê, talvez até pelo destino, sente que não consegue controlar tudo como desejaria, sente que a vida também tem cambiantes de tristeza e de luto, e perde alguma da sua inocência. Pode também pensar que os pais, que supostamente controlam tudo e tudo podem, falharam ou serão incapazes de a proteger, já que não protegeram a pessoa que morreu; para as crianças, os pais – nós – são super-heróis, mesmo que por vezes nos desafiem e façam a vida negra, num salutar processo de autonomia. Somos os seus ídolos, os seus gurus e os seus santos protetores, disso não tenhamos dúvidas.

As crianças vivem a morte, pelo que desiluda-se quem pense que a morte de alguém querido lhes pode passar ao lado. Obviamente que não têm uma conceção filosófica e abstrata como os mais crescidos e os adultos, designadamente no que toca à irreversibilidade do fenómeno – definem-se os seis anos como a altura em que há, em média, uma clara noção de que não se regressa da morte, mas isso depende muito da criança, não apenas do seu desenvolvimento como das experiências que já teve, seja com pessoas, seja com animais ou até em histórias e filmes, por exemplo.

Em todo o caso, os sentimentos que as crianças têm são similares: tristeza, incompreensão, raiva, culpa, ansiedade, desespero. Podem ficar perplexas e descrentes, inquietas e com problemas de sono. A estes estados de alma acresce verem os pais e restantes familiares, também eles, tristes e a chorar (e devem fazê-lo e não tentar esconder o que lhes vai na alma, mesmo que possam ter algum pudor e tentem evitar cenas mais “histéricas”, mas é indispensável não disfarçar os sentimentos). As crianças vivem, pois, uma dupla carga, por vezes muito traumática, e é comum os adultos preocuparem-se em tentar poupar a criança ao sofrimento, o que, repito, é inútil, porque ela sabe e sente, e acaba por se ver arredada do processo de luto familiar, o que acontecerá menos se os pais tentarem falar com ela, percebê-la, acompanhá-la, assumindo que ela sofre. Como se fosse um adulto, mas de forma diferente – sem mentiras, com a verdade, mas a verdade suficiente e não mais do que ela, poupando pormenores escusados e mórbidos, ou incompreensíveis, e com a doçura, mimo e ternura que funcionam como garante de proteção.

Mal estarão os pais que não assumam a condução do processo e deixem o tempo andar, mesmo que estejam, eles próprios, em sofrimento. Por muito que custe ou que se queira poupar a criança ao sofrimento, e o nosso próprio sofrimento ao ver a criança triste e revoltada, vale a pena relembrar alguns dos aspetos que estão em causa:

  • A vida não é um mar de rosas, e às vezes é um mar de espinhos – aprende–se isso mais cedo ou mais tarde, seja em que idade for, na vivência de acontecimentos como este;
  • As crianças não podem nem devem ser poupadas aos problemas, muito menos os desta dimensão, e têm o direito (sim, é um direito!) de sentir tristeza e de a sofrer;
  • A verdade deve ser sempre dita, e preferencialmente pelos pais. Mentir ou fingir só serve para que, quando ela a souber (e pode intuí-la do próximo telefonema ou nas entrelinhas de qualquer conversa), fique para sempre a pensar que os pais não lha disseram e com a sensação irreparável de que eles falharam no momento mais crítico, deixando de acreditar neles, com a insegurança correspondente;
  • A verdade deve ser dita de modo soft, poupando os pormenores mais mórbidos, e numa linguagem acessível à criança;
  • Deve sempre garantir-se à criança que a avó (ou seja quem for) está bem, que não sofre nem tem frio, sono, fome, enfim, as coisas de que a criança não gosta e com as quais sofre, e que fazem parte da sua vida e da sua maneira objetiva e concreta de ver e viver o mundo;
  • Deve também relativizar-se o facto e “garantir” que ela, criança, bem como os pais e os outros familiares não vão morrer num futuro próximo – pode usar-se um ligeiro humor para suavizar o momento; é grande o medo de um eventual “efeito de dominó”;
  • A avó (ou quem seja!) tem de ser lembrada, por exemplo através das fotografias expostas ou de álbuns, e deve falar–se dela como estando presente, embora fisicamente ausente – mas é bom a criança poder olhar para o céu e adivinhar a avó algures, onde ela quiser. A criança escolherá se é numa flor ou numa estrela – um qualquer “código secreto”. Há que se insistir, de igual modo, que a avó estará a acompanhá-la e que rirá com o seu riso e ficará triste com o seu sofrimento. E que a protege.
  • A avó deverá ser recordada com as suas virtudes, mas também com outras características da personalidade, nomeadamente os seus defeitos. Para que se mantenha “viva”, humana e de carne e osso. Não um mito ou um deus. Não um ser perfeito, distante. Só assim a criança fará o luto de maneira tranquila e matura. Caso contrário, duvidará sempre da morte – os mitos e os deuses são imortais – e permanecerá sempre numa constante regressão, e assombrada pelos fantasmas e fixações.

É um momento duro, a morte de uma pessoa querida. Para quem começa a entender as regras da existência, a confusão de sentimentos, revolta, perplexidade, ignorância e receio são grandes. Cabe-nos a nós, adultos, suavizar (que não aplainar) esta tempestade, até que o quotidiano traga a tranquilidade, o entendimento e a sabedoria.

Pediatra
Escreve à terça-feira

 

O que dizer aos mais novos quando há um atentado em que morrem crianças e adolescentes?

Maio 26, 2017 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Texto do http://lifestyle.publico.pt/ de 23 de maio de 2017.

Bárbara Wong

Atentado em Manchester fez pelo menos 22 mortos, entre eles crianças.

Era uma festa sobretudo para crianças e adolescentes, que são o público que segue e assiste aos concertos de Ariana Grande. A Arena de Manchester tornou-se notícia devido ao já reivindicado atentado em que morreram, pelo menos, 22 pessoas e dezenas ficaram feridas. Entre estas estão crianças e jovens.

É inevitável que os mais novos vejam a notícia, seja num site, na televisão ou numa rede social. Eles gostam e acompanham a carreira de Ariana Grande — esperavam que a cantora viesse a Lisboa proximamente, mas entretanto todos os concertos foram cancelados — e não há como lhes esconder o que se passa no mundo. Assim, o que dizer-lhes?

Informar, mas sem ir muito longe
José Morgado, professor no ISPA — Instituto Universitário, defende que os pais devem falar sobre o tema e responder a todas as perguntas que forem feitas. Contudo, “não dar mais informação do que a que eles pedem”, aconselha, alertando para que os filhos não vejam as imagens sozinhos, mas sempre com mediação dos pais, para que expliquem o que se passa.

“Se não perguntarem mais, não dizemos mais para não instalar a dúvida”, defende.

E é importante “desconstruir”, diz por seu lado o pedagogo Renato Paiva, autor do livro Queridos Pais, Odeio-vos, editado recentemente pela Esfera dos Livros. Dizer aos filhos que nem todas as pessoas de determinada etnia ou religião são terroristas, para que os filhos não façam generalizações.

Falar sobre a morte
Não é fácil falar sobre a morte de crianças com outras crianças, reconhece José Morgado. “É algo que não se prevê, que é pontual, que é residual”, acrescenta Renato Paiva. Por isso, mais uma vez, é preciso não entrar em generalizações, porque as crianças e os jovens morrem e noutras circunstâncias que não num atentado, sublinha o pedagogo.

Mais uma vez, para José Morgado, falar da morte é responder às perguntas que são feitas, contextualizando-as, explicando porque aconteceu. “Começamos por introduzir uma leitura do mundo, porque é tão importante a morte de uma criança síria por causa das armas químicas como a morte de uma criança em Manchester”, defende Morgado.

Transmitir segurança
Situações como esta devem servir para falar também sobre segurança, considera Renato Paiva. Os pais devem aproveitar para falar sobre as preocupações que os jovens devem ter quando vão a um concerto. “O que podes evitar? O que podes fazer se ouvires um estrondo?”, exemplifica. “O esmagamento [devido às pessoas que estão em fuga] pode ser mais preocupante do que o atentado em si”, acrescenta.

Ao falar disso, os pais não estão a incutir o medo nas crianças e nos jovens? “Não, estão a incutir-lhes cuidado e atenção”, responde, dando outros exemplos, como pedir aos filhos para terem cuidado quando andam na rua e vão atravesssar uma estrada; ou os cuidados a terem para não serem assaltados.

Crescer para a paz
Situações como estas podem gerar incompreensão, revolta, vontade de responder na mesma moeda. No entanto, devem servir para “aprender a crescer e a não magoar os outros”, defende José Morgado.

É preciso explicar aos mais novos que há pessoas que estão a ser educadas para uma forma de viver violenta, para a autodestruição e o extermínio, mas que “a pior coisa que podemos fazer é responder com ódio”, declara Helena Marujo, psicóloga e professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa.

Helena Marujo defende que é preciso “criar uma nova geração crítica” e para isso é preciso centrar menos a educação nos conteúdos escolares e mais em aspectos humanistas, nas expressões artísticas, na filosofia, na possibilidade de debater ideias, continua a professora, precursora da Psicologia para a Felicidade.

A investigadora lembra que quem estava no concerto estava a celebrar e que o ataque terrorista tem como objectivo destruir a alegria. “Os bombistas foram treinados para dar sentido à morte, nós temos de ensinar as novas gerações a dar sentido à vida”, conclui.

 

 

Texto final sobre educação sexual será apresentado em Janeiro

Dezembro 30, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do https://www.publico.pt/ de 22 de dezembro de 2016.

O novo referencial da Educação para a Saúde está a ser contestado por prever que a Interrupção Voluntária da Gravidez seja abordada no 2.º ciclo de escolaridade, frequentado por crianças entre os 10 e os 12 anos.

Clara Viana

O novo referencial da Educação para a Saúde, que integra domínios como a alimentação, a violência ou a educação sexual, entre muitos outros, só será apresentado em Janeiro, depois de terem sido analisadas as “centenas de contribuições” feitas durante o período de discussão pública que terminou na segunda-feira, Informou o Ministério da Educação (ME) em resposta a questões do PÚBLICO.

Só então se saberá se o ME vai manter no documento a referência à Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), um dos temas propostos para o 2.º ciclo de escolaridade, ou se cederá à petição, já assinada por cerca de 8300 pessoas, com vista à retirada daquele tópico. “É um verdadeiro absurdo ensinar crianças que é legítimo e justo matar bebés no ventre materno”, proclama-se naquele texto.

“Temos uma sociedade muito contraditória. As pessoas indignam-se por se falar da IVG no 2.º ciclo, mas não se incomodam que o tema da morte venha a ser abordado no pré-escolar, como está previsto no referencial”, comenta a investigadora da Universidade do Minho, Zélia Anastácio, que tem trabalhado com as escolas no âmbito da educação para a sexualidade

No referencial sugere-se que no 2.º ciclo, frequentado por crianças entre os 10 e os 12 anos, os alunos identifiquem métodos contraceptivos e a sua importância na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de uma gravidez indesejada, bem como que aprendam a distinguir uma interrupção voluntária da gravidez de uma interrupção involuntária.

Para Zélia Anastácio, está é a altura certa para se iniciar a abordagem de temas como estes, já que é naquelas idades que “os alunos começam a colocar questões sobre o aborto”. “ E se objectivo é também prevenir a gravidez na adolescência, então a abordagem tem de começar antes”, acrescenta.

A investigadora lamenta, contudo, o que chama de “eufemismos”, provavelmente destinados a evitar novos choques com a opinião pública. Por exemplo, aponta, no referencial nunca se refere explicitamente a homossexualidade, em vez disso fala-se de respeito pela “diversidade na sexualidade e orientação sexual”.

Zélia Anastácio tem ainda dois outros reparos ao texto que esteve em discussão pública: defende que a temática do abuso sexual deve ser abordada logo desde o pré-escolar, e não apenas a partir do 2.º ciclo, como previsto; e que pelo contrário o tópico morte seja apresentado mais tarde. No referencial propõe-se que se dê a compreender aos alunos do pré-escolar que “a morte é o fim de um ciclo”. “São muito pequenos para interiorizarem este conceito. Nestas idades precisam é de ter mensagens positivas, de vida, de felicidade e não de morte”, diz.

consultar o Referencial de Educação para a Saúde

 

 

Terrorismo, morte ou sexo. Falar com as crianças, mas sem detalhes

Dezembro 27, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Texto do http://www.dn.pt/de 21 de dezembro de 2016.

Orlando Almeida / Global Imagens

Orlando Almeida / Global Imagens

 

Joana Capucho

Pais devem abordar os assuntos só quando são questionados pelos filhos e sem pormenores que os deixem ansiosos

Aos 9 anos, Filipa começou a falar sobre a morte. Ficava triste, porque imaginava que o pai ou a mãe podiam morrer. “Percebeu que somos finitos, que não duramos para sempre”. Depois veio a público a foto do corpo de uma criança síria encontrada numa praia turca. Luís e Lúcia, pais de quatro raparigas – Maria, de 16 anos, Daniela, de 15, Filipa, agora com 10 e Ana, de 6 – falaram então sobre refugiados. “Tentamos mostrar a realidade com uma linguagem que entendam”, conta Luís.

Dois meses depois, os atentados em Paris, onde vive uma prima. “Mesmo com as mais novas, tivemos de falar sobre o terrorismo. Queremos que saibam o que se passa, mas há imagens e pormenores que não acrescentam nada ao que têm de saber sobre o assunto, porque só as vai assustar mais”, frisa. Responder às perguntas das crianças sobre sexo ou explicar-lhes temas como o terrorismo ou a morte não são tarefas fáceis para muitos pais. Haverá uma idade indicada para falar sobre cada um? O que dizer? Os especialistas contactados pelo DN recomendam que só sejam abordados a pedido das crianças e sempre de acordo com as idades. Regra geral, primeiro surgem questões sobre a gravidez, a morte e as doenças e só mais tarde sobre o terrorismo ou o aborto.

“Não devemos evitar falar destes assuntos às crianças. Devemos sim é ter contenção sobre o que dizemos e como o dizemos. Contudo, não devem ser os pais a trazer o assunto para a discussão”, sugere Renato Paiva, diretor da Clínica da Educação. A ideia é responder às solicitações das crianças e adequar o discurso à idade. “Não falaremos da morte com uma criança de 4 anos do mesmo modo que falamos com uma de 10. A sua maturidade ainda não compreende conceitos abstratos”.

O pediatra Hugo Rodrigues reforça que “o princípio geral para temas difíceis é que sejam abordados a pedido da criança”. “Sempre que pergunta, deve esclarecer-se de uma forma correta e com linguagem adequada”. No 3.º ano de escolaridade, “já falam sobre o sistema reprodutor, os óvulos, a gestação”, portanto a gravidez é “provavelmente o tema mais fácil, mais visível” e um dos que aparece primeiro. “Até porque muitas crianças têm irmãos.” Aos 6 anos, diz o pediatra, começam a ter medo de morrer e que os pais morram.

Recentemente, as direções-gerais da Educação e da Saúde emitiram um documento com novas sugestões para as aulas de educação sexual, no qual há um tópico que gerou uma enorme polémica: a possibilidade de falar da interrupção voluntária e involuntária da gravidez no 2.º ciclo. Na opinião de Hugo Rodrigues, como rapazes e raparigas não amadurecem da mesma forma, “se calhar não faz muito sentido falar deste tema antes dos 12 anos”. Segundo o pediatra “será um assunto para introduzir mais tarde”. “Não tenho muita pressa em tornar as crianças adultas”. O mesmo é válido para o terrorismo. “Não podem fazer nada para mudar, portanto não deve ser uma preocupação das crianças”.

Para Cátia Teixeira, psicóloga da área infantojuvenil da Oficina de Psicologia, não há uma idade certa para falar sobre cada assunto. “As crianças têm fases de desenvolvimento diferentes e também precisam de respostas diferentes”, justifica, acrescentando que “uma criança de 10 anos pode estar preparada para falar de terrorismo, mas uma de 12 pode não estar”. O caminho, prossegue, é perceber o que é que ela quer saber. “Se pergunta o que é o terrorismo, devemos perguntar o que ela acha que é. É importante perceber o entendimento da criança e só depois dar a resposta. Por vezes, ela não tem as dúvidas que o adulto pensa que tem e não está preparada para certas respostas”. Se os temas não forem abordados de forma correta, “a criança pode ficar ansiosa, preocupada.”

Falar com os miúdos sobre violência pode gerar medo. Renato Paiva diz que importa “dar colo ao falar com as crianças nestes assuntos.” “Abordar temas como terrorismo, morte, aborto, fome, doenças, mexe com as emoções de cada um. São assuntos que tradicionalmente são difíceis para todos, para os pais não é exceção.” Segundo o psicopedagogo, “o concreto funciona melhor, assim como a recorrência a exemplos ajuda”. No entanto, adverte, as explicações não devem ser pormenorizadas. Para a criança fazer uma pergunta “é porque contactou com uma realidade que desconhece”, daí que seja essencial os pais perceberem o porquê das suas questões. Dizem os especialistas em educação que dificilmente uma criança faz perguntas sobre um tema com o qual não contactou. Hélder Ramos, professor do primeiro ciclo na Madeira, revela que “o que as crianças perguntam tem a ver com as suas vivências. Não improvisam perguntas sobre coisas abstratas”. Segundo o professor, “falam de alcoolismo, tabaco ou violência quando vivem essas situações”. Nesses casos, os professores não devem mentir, mas é importante abordar os temas com cautela. Relativamente à questão do aborto, Hélder lembra que, atualmente, há crianças no 2.º ciclo com 16 anos. “Não faz sentido generalizar, porque pode despertar curiosidade e não trará benefícios. Mas pode haver situações em que faz sentido”.

Já Odete Santos, professora numa escola de 1.º ciclo na Charneca da Caparica, diz que as perguntas das crianças aos 8 e 9 anos são sobretudo sobre a reprodução. “É a matéria que os cativa mais”. Também falam sobre a fome em África, os refugiados e, por vezes, sobre a morte. “Mas esse é um tema do qual tendem a fugir”. Já trabalhou em zonas carenciadas e, nesses casos, as crianças também falavam muito sobre droga. “Sabiam coisas muito à frente para a idade”.

Na opinião de Jorge Gravanita, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, “o que precisamos hoje em dia é que os assuntos deixem de estar numa zona obscura e possam ser falados”. É o que faz António Rebelo, de 45 anos, com os cinco filhos. “Não há nada tabu. É tudo explicado consoante as idades”. Com filhos dos cinco aos 21 anos, este pai ressalva, no entanto, que há coisas que fala com os mais velhos e que, naturalmente, a filha mais nova não ouve.

António Rebelo é uma das mais de seis mil pessoas que assinaram a petição para que o aborto não seja abordado no 2,º ciclo. Considera que o filho de 11 anos poderá entender do que se trata, se o assunto for abordado por si, mas teme que lhe seja explicado de uma forma que considera errada. Tal como aconteceu com a educação sexual, razão pela qual retirou os filhos da escola pública. Segundo o psicólogo Jorge Gravanita, poderá fazer sentido o tema da IVG ser falado com alunos do 2.º ciclo. “Não como uma transmissão de conteúdo, mas a partir do questionamento das crianças. A ideia é permitir uma discussão entre colegas e professores.” Luís, pai de quatro raparigas, discorda : “É uma comparação grotesca, mas é quase como colocar o assunto da eutanásia nas mãos de uma criança. O tema merece ser falado, mas não aos 10 anos.”

 

 

Oficina – Como abordar a perda e a morte com crianças? 24 de setembro em Leiria

Setembro 13, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

13892040_568541640000916_4224542453284154649_n

mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/576901795822605/

Intervenção com crianças e adolescentes em processo de luto – Formação contínua no ISPA

Junho 8, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

ispa

Objectivos 

Sensibilizar para a perda, processo de luto e suas especificidades nas crianças

Compreender a importância da avaliação e intervenção no luto com crianças e adolescentes

Promover recursos pessoais na relação com o sofrimento e a perda

Conhecer programas e estratégias de intervenção dirigidos a crianças e adolescentes

Competências 

Compreender o processo de luto e as especificidades do luto patológico

Desenvolver o autoconhecimento e a relação com a morte

Promover competências para a intervenção no processo de luto em crianças e adolescentes

Conhecer programas e modelos de intervenção nacionais e internacionais

Programa 

Viver (com) a morte (3h)– Concepção da morte e etapas de desenvolvimento; Perda e desenvolvimento pessoal; Falar da morte – mitos e medos

Compreender o Processo de Luto (4h)– Processo de luto na criança – modelos e definições; Avaliar para intervir – variáveis e indagação; Necessidades Relacionais

Intervir no Processo de luto (7h)– Intervenção clínica com crianças e adolescentes – fala-me da (tua) saudade: Psicoeducação, Estratégias de intervenção clínica; Intervenção com a família – o (desas)sossego do silêncio; Intervir em contexto de grupo – fala-me de ti, para me ouvir melhor; Prática e discussão de casos

Intervir no Luto Patológico (7h)– Especificidades do Luto Complicado; Luto & Trauma – quando a dor transborda a vida; Prática e discussão de casos

Metodologias 

Exposição teórico-prática, discussão de casos

Duração 

21 horas

Calendarização

Sexta, Junho 17, 2016 a Sábado, Junho 25, 2016

mais informações:

http://fa.ispa.pt/formacao/intervencao-com-criancas-e-adolescentes-em-processo-de-luto

Descoberta de 450 bebês em um poço de Atenas evidencia concepção da infância na Grécia Antiga

Agosto 7, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do site http://oglobo.globo.com de 20 de junho de 2015.

Giovanni Dall Orto

Estudo foi feito com restos mortais de crianças encontradas junto com bebês

por Raphael Kapa

RIO – Em uma pequena depressão em um solo na cidade de Atenas, na Grécia, um pinheiro retorcido, quase que no formato de um ponto de interrogação, aponta o local de um mistério de 85 anos, mas que remete a tempos muito mais longínquos. Em 1930, um grupo de arqueólogos iniciou uma escavação na Ágora, principal mercado público da cidade, e, entre monumentos e outros prédios, encontrou um poço com 450 esqueletos de bebês e centenas de ossadas de cachorros. O grande número de recém-nascidos intrigou os pesquisadores por décadas. Na última semana, uma pesquisa colocou um ponto final nesse enigma e ajudou na compreensão sobre a infância e o espaço público na Grécia Helenística.

— O estudo deste poço nos ajuda a entender a alta taxa de mortalidade infantil da Antiguidade. Em nossa era da medicina moderna, é difícil imaginar quantas pessoas morreram nos primeiros dias de vida em épocas anteriores. A pesquisa também ilustra as práticas funerárias alternativas para aqueles que não eram considerados membros de pleno direito na sociedade — afirma Susan Rotroff, pesquisadora do departamento de estudos clássicos na Universidade de Washington e uma das coordenadoras do projeto.

As revelações das escavações mostram como a concepção de infância e até mesmo a visão sobre o espaço público se modificaram através dos tempos.

— A infância não era algo tão idealizado quanto é em nossa sociedade. A pesquisa também mostra a relação desses atenienses não só com a morte, mas com o próprio espaço público. Esse poço estava no centro cívico, perto de residências e do comércio. Isso mostra que essas crianças não eram vistas como pessoas, propriamente, uma vez que não passaram pelos mecanismos de integração à família e à cidade — analisa Mariana Virgolino, doutora em História Antiga pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

O fato de os bebês terem morrido muito cedo fez com que eles não fossem vistos como recém-nascidos que chegaram a integrar, em algum momento, a sociedade ateniense.

— A maioria dos bebês morreu logo após o nascimento, antes que a cerimônia que os aceitava na sociedade tivesse ocorrido. Portanto, eles não tinham sido ainda integrados na comunidade, e por essa razão não conseguiram um enterro formal — afirma Susan.

A cerimônia em questão acontecia, geralmente, dez dias depois do nascimento. Nesse momento, o bebê recebia um nome e era aceito — ou não — pelo chefe da família.

MORTE NATURAL

Por meio da investigação dos restos mortais se descobriu que a maioria dos bebês teve morte natural. Na pesquisa, foi levantado que um terço morreu de meningite bacteriana, causada geralmente pelo corte do cordão umbilical com um objeto não esterilizado, além de doenças como diarreia e desidratação. Dentre as centenas que tiveram dias de vida, um bebê chamou a atenção dos pesquisadores por ter conseguido viver 18 meses antes de ser jogado no poço e apresentar, em suas ossadas, sinais de fraturas e maus-tratos. Sem alarde, os pesquisadores apontam que este pode ser o exemplar mais antigo de criança maltratada já encontrada.

Universal History Archive

— Tanto por meio de exames macroscópicos quanto microscópicos, foram identificadas as patologias que causaram a morte de muitas das crianças — afirma Susan.

Mariana afirma que a descoberta está relacionada às péssimas condições a que os recém-nascidos eram expostos:

— Pode parecer horrível para nossa atual sensibilidade que os corpos desses bebês não recebessem sepultura, mas a mortalidade infantil era muito alta no mundo antigo, especialmente de recém-nascidos. As famílias não deviam se apegar a essas crianças tão cedo, pois as chances de morte eram grandes.

Aos que sobreviviam para o ritual de aceitação, o futuro também poderia não ser promissor. A negação e o abandono de crianças eram práticas comuns no mundo grego.

globo

— Muito além da relação de nascimento e morte, tais descobertas nos permitem refletir sobre outras esferas, como a questão religiosa relacionada aos ritos mortuários ou aos ideais vinculados ao nascimento de um futuro guerreiro que defenderá sua pólis (cidade-Estado) — afirma Camila Jourdan, doutora em História Antiga pela UFF.

Ou seja, para fazer parte da sociedade ateniense era necessário ter uma função nela.

CÃES:USADOS EM LIMPEZA ESPIRITUAL

Os bebês abandonados não iam para o poço, mas eram deixados em estradas ou bosques para que, com sorte, pudessem ser resgatados e criados por outra família.

Tal atitude se reflete na própria mitologia grega. Segundo o mito, quando Laio, rei de Tebas, foi alertado por um oráculo de que seu filho o mataria e se casaria com sua mulher, ele abandonou a criança (Édipo) no monte Citerão com um prego em cada pé para tentar matá-la. Resgatado e criado por outra família de reis, Édipo acabou cumprindo o destino narrado pelo oráculo.

— Para compreender tal prática, que parece ser um ato puramente violento e bárbaro, é necessário nos desapegarmos dos valores de nossa sociedade atual. Em uma pólis como Esparta, por exemplo, o nascimento de um bebê saudável era fundamental, tanto para a manutenção do ideal de guerreiro que defende sua cidade, quanto para as condições de sobrevivência da própria criança em um mundo onde uma pessoa dependente geraria grandes dificuldades — afirma Camila.

Hesperia  universidade de washington

Já os animais no poço, segundo a pesquisa, foram provavelmente utilizados em sacrifícios. Os cachorros eram vistos como bons animais para aliviar a “poluição” daquele local considerado sujo pela morte prematura de crianças.

— A presença dos cachorros sacrificados mostra uma preocupação e uma precaução para que essas mortes precoces não abalassem a harmonia da família e da cidade. Essas almas nem nome receberam, mas é preciso pedir aos deuses que elas não atrapalhem a ordem estabelecida — diz Camila.

 

 

 

Entenda as reações das crianças diante da morte

Junho 24, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Texto do site http://www.ebc.com.br  de 15 de junho de 2015.

1

Por Compreendendo a Infância

As crianças têm respostas diferentes em relação ao processo de falecimento e à morte, de acordo com suas idades e experiências interiores. Não existem estágios definidos, nenhuma sequência correta, nenhum tempo determinado para a duração do sofrimento. Portanto, não tente pensar a respeito do assunto em termos de “o modo adequado” de sofrer.

A idade da criança afeta as maneiras pelas quais ela provavelmente irá expressar seus sentimentos e o tipo de apoio que irá necessitar dos adultos que a circundam. É importante para as crianças não se sentirem sob pressão para demonstrar sinais mais convencionais de sofrimento, e que lhes seja permitido sofrer de sua própria maneira e no seu próprio tempo.

Os pais precisam estar preparados para ver as crianças menores alternando estados de sofrimento de uma maneira tal que pode transtorná-los e ser mesmo um choque para os adultos entristecidos.

  • Elas podem alternar as lágrimas e a tristeza sentida em um momento com a necessidade de alimento e guloseimas em outro – algo muito difícil de um adulto entender ou empatizar.
  • Elas podem solicitar coisas de formas que um adulto pode considerar insensíveis – “Já que a vovó morreu, posso ficar com o seu colar azul?”; “Posso dormir no quarto do João, já que ele morreu?”

É de ajuda conhecermos algumas reações típicas que podem ser observadas nas crianças:

Crianças pequenas e bebês

Quando alguém querido falece e temos uma criança com menos de dois anos passando por essa experiência,ela não terá vocabulário suficiente para expressar sua perda. No entanto, mesmo crianças muito pequenas e bebês estão cientes de que pessoas que lhes eram caras se foram e experimentam a nítida sensação de que elas não mais voltarão, de que a morte é permanente.

Para as crianças muito pequenas, que ainda não falam, a morte pode ser descrita como um receio ou apreensão sem definição. Você sabe como uma criança que se sente insegura pode chorar inconsolavelmente quando um dos pais sai do quarto e a deixa lá por um período mais longo do que ela pode suportar. Se o ser amado não retorna, as crianças pequenas podem acabar por sentir temor por sua própria sobrevivência.

Geralmente os adultos podem consolar as crianças quando eles próprios não estão por demais tristes. Mesmo os bebês serão afetados pelo estado emocional de seus pais. Uma morte na família pode perturbar os cuidados com as crianças e daí surgirem efeitos  colaterais. Tente minimizar as perturbações e mudanças. Com o tempo, com uma atmosfera estável e amorosa ao redor, a perda pode até certo ponto ser reparada.

É importante que a criança e aqueles que cuidam dela mantenham vivas as lembranças da pessoa que se foi. Ao crescer, a criança terá muitas oportunidades para entender melhor o que sentiu antes de que pudesse se expressar com palavras.

Crianças entre 2 e 5 anos

As crianças com idade entre dois e cinco anos têm uma vaga noção de que a morte é permanente e que a pessoa falecida não voltará mais. É difícil para elas reconhecer isto na sua totalidade, pois ameaça a segurança de seu mundo familiar, tão bem estruturado. No fundo, qualquer separação por tempo prolongado demais deixa um sentimento de receio pela própria sobrevivência.

Durante esses anos, as crianças construirão diversas ligações muito importantes com adultos e outras crianças. Um desenvolvimento normal lhes dará uma imagem razoavelmente segura daqueles a quem ama – um tipo de “mamãe e papai em sua mente” -, que lhes fornecerá consolo durante as separações.

Se a perda não é de um parente próximo, elas podem ficar curiosas e serem afetadas pelo evento, mas, provavelmente, conseguirão absorver tudo em suas brincadeiras e atividades diárias. Se, tragicamente, se tratar do falecimento de alguém importante para elas, passarão por um processo de sofrimento similar ao dos adultos.

Crianças de 6 a 12 anos

As crianças nessa faixa etária começam a desenvolver uma compreensão mais madura da vida e da morte, a se conscientizar de que um dia todos morrem, e que isso também vai ocorrer com elas. Elas querem saber mais a respeito da real causa da morte – “Por que câncer?”, “Por que suicídio?”.

Elas podem apelar para a negação, tornando-se incapazes de demonstrar seus sentimentos. Caso dêem a impressão de estarem estagnadas, sem capacidade de expressar a dor, talvez precisem da ajuda de um profissional – alguém que possa aceitar a sua negação -, principalmente se os adultos importantes em sua vida também estiverem sofrendo.

* Para saber mais sobre o assunto, acesse o folheto “Perdas” do projeto Compreendendo a Infância do Instituto de Psicologia da Usp.

Saiba mais:

Saiba como ajudar a criança a lidar com a perda de um ente querido

 

 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.