A morte vivida por uma criança

Novembro 12, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Vera Ramalho publicado no Público de 29 de outubro de 2019.

A morte de alguém que nos é querido assume-se como uma das experiências mais profundas de dor emocional que uma pessoa pode viver. Sim, vive-se a morte. E cada um vai viver a morte de cada pessoa que ama de uma forma distinta, como uma experiência singular, porque isto advém do contexto geral da sua vida e da relação única que tinha com aquela pessoa que morreu. Com as crianças não é diferente.

A morte tem sido um tabu na nossa sociedade, no entanto, falar sobre a morte nunca foi tão necessário. A dificuldade em abordar este assunto com as crianças está, muitas vezes, relacionada com a dificuldade que os adultos têm eles próprios em lidar com a morte.

Tal como acontece no adulto, o luto da criança é um processo de reconstrução de significados que, com a perda, foram postos à prova. Para a criança, os seus pais, avós, tios e outros entes queridos vão morrer muito velhinhos, ou seja, quando ela já for bem adulta. Até porque, quando tudo está bem na família, não se fala com as crianças na possibilidade de morte prematura e inesperada de alguém, e ainda bem, caso contrário, elas andariam sempre em sobressalto.

Como ajudar a criança a caminhar para a adaptação? Aquando do infortúnio da morte de uma pessoa que lhe é próxima, a criança terá de encontrar sentido para algo que não tem sentido, e, gradualmente, dar lugar à adaptação. Adaptar é ter de reorganizar a sua vida sem a presença física da pessoa que morreu, podendo falar e ouvir falar dela sem a ilusão de que não falar vai doer menos, porque deixar de falar em quem se ama é um pedido cruel e que não faz sentido algum; adaptar é ouvir dos adultos que ficaram a tomar conta dela que aquilo que sente é natural, não sendo vergonha senti-lo nem dizê-lo; adaptar é ter espaço no seu desenvolvimento para encontrar um novo “eu” sem aquela pessoa.

Com o tempo, a dor vai apaziguar e a criança, numa espécie de redefinição de si mesma, vai regular-se, reconstruir ligações com os outros e descobrir novas formas de satisfação e de alegria, mesmo perante a morte. Tudo isso custa muito e tanto a criança como quem está a tomar conta dela pode sentir medo, sobretudo quando se perdeu um conjugue. Medo de largar e ficar sem aquela pessoa para sempre: sem memórias, sem a sua voz, sem o seu cheiro e sem qualquer marca sua. Sem amor. O amor também morre? Não, mas gradualmente vai mudar, porque amar em vida é diferente de amar depois da morte. A criança vai aprender a continuar a amar aquela pessoa numa fase inicial, com uma imensa vontade de estar novamente com ela; depois, através do pesar e da saudade. Com o passar do tempo, desejavelmente, vai caminhar para a construção de um espaço próprio para aquela pessoa no seu coração.

Como ajudar a criança?

Ao invés de fazer um esforço para acabar com o sofrimento da criança, tarefa inexequível, poderá ser mais funcional acompanhá-la na expressão dos seus sentimentos, mostrar que os compreende e que a sua dor pode ser vivida livremente.

Tudo isto quer dizer que quem está à volta da criança tem um papel fundamental na sua adaptação. A forma como a criança suportará a morte de alguém importante para si estará ligada ao apoio que sente dos que lhe são próximos. Esforçar-se para ignorar e evitar qualquer lembrança da perda, ou deixar de falar sobre a pessoa que morreu ou mesmo deixar de vê-la em fotografias só vai tornar tudo mais penoso.

Quando surgem dificuldades de adaptação num membro da família, os outros podem ser induzidos ao mesmo. O isolamento e a culpa podem reduzir as suas vidas a um processo inadaptado, havendo um sério risco de se supor que se criarmos novos laços com outras pessoas ou nos divertirmos estamos a trair a pessoa que morreu.

Dê tempo à criança.

Todos nós temos o nosso tempo. Se hoje não apetecer à criança falar, pode apenas ouvir, sem obrigação de responder. Também pode acontecer haver dias em que não se vai calar com perguntas e outros em que vai parecer que não perdeu ninguém tão importante para si. Isto é frequente nas crianças, porque elas não estão a lidar com a morte através dos pensamentos, mas sim com as emoções. Muitas vezes, as pessoas ficam preocupadas e até chocadas porque no dia do funeral não chorou uma lágrima, ou não quer ir ao cemitério visitar o pai ou a mãe. Nada disso significa que a criança não esteja a viver a morte, mas simplesmente que é criança e na sua esfera desenvolvimental tudo pode ser diferente e ter outros tempos. Ela até pode rir e chorar no mesmo momento, pode ficar birrenta ou queixosa ou pode dormir tranquilamente sem qualquer problema. A crítica a estes comportamentos e à suposta ausência de lamento nunca é bem-vinda e pode simplesmente contribuir para a desadaptação da criança.

Deixe a criança sentir e chorar.

Num momento inicial, que irá ser diferente de criança para criança, os sentimentos predominantes são a tristeza e o medo. Além disso, sendo o luto um período de emoções à flor da pele, as reações podem, numa fase inicial, apresentar-se desreguladas, passando, gradualmente, a uma oscilação em que ora se está bem ora mal, até acontecer a regulação. A criança poderá passar rapidamente da tristeza para a apatia ou o isolamento ou mesmo para a alegria, bem como adoptar comportamentos que fazem parecer que a morte é-lhes indiferente. Todos estes comportamentos e sentimentos são naturais e a criança não deve ser pressionada a sentir tristeza. Respeite a escolha e o tempo da criança.

Cabe aos adultos que a acompanham tornar natural os sentimentos de saudade e pesar e encontrar o que fazer para os expressar e afagar, como ver fotografias ou falar sobre a pessoa que morreu. Vai doer? Sim, vai, e a criança vai chorar. Não diga “Não chores mais”. Porque é que a criança não pode lamentar a ausência de quem tanto amou? Chorar é tão simplesmente a expressão do amor que se transforma em saudade.

A autocompaixão pode ter um papel importante, dando lugar à expressão de sentimentos e ao direito de os sentir e de lamentar por si própria.

Mostre à criança que pode ser feliz com outras pessoas.

Por vezes, nós, os adultos, podemos ter dificuldade em seguir com a nossa vida porque pode parecer que estamos a relegar a pessoa que morreu para segundo plano e que esquecemos o que aconteceu, ou seja, que o nosso amor por ela acabou.

Aos adultos que acompanham a criança pede-se que manifestem os seus sentimentos de forma equilibrada, que os partilhem com as crianças e que sirvam de modelos de relacionamento, indo buscar apoio e conforto noutras pessoas.

Estar presente à medida que a nova história da criança se desenrola é uma forma de trazer a pessoa enlutada à vida, sem medo de falar e com bons ouvidos a escutar.

Rituais fúnebres.

Quando se trata de uma criança que perde alguém importante na sua vida tudo pode tomar uma proporção aumentada porque quem está à sua volta, perante a sua própria dor, pode, por simples preocupação, sentir-se inseguro sobre, por exemplo, levar ou não a criança aos rituais fúnebres.

O adulto deve poupar a criança aos detalhes duros sobre a morte para a sua compreensão e para o seu coração. De resto, dependendo da idade e compreensão da criança, tanto o velório como o funeral podem ter um papel fundamental na forma como se despede do seu ente querido e inicia o seu processo de luto. A presença nesses rituais pode ajudar a criança a tomar a verdadeira consciência de que a pessoa morreu e permite despedir-se dela. Assim, a criança, se tiver idade para tal, deve ser envolvida na tomada de decisão de assistir ou não ao funeral, havendo a possibilidade de não ficar até ao fim. Uma explicação simples e adequada à maturidade da criança sobre os rituais da cerimónia, o que irá acontecer antes e durante o velório e o funeral pode ajudar na decisão, além de preparar a criança para as diferentes respostas emocionais e comportamentais das outras pessoas presentes (choro, gritos, tristeza, silêncio).

Psicóloga Clínica

ONU diz que imagem trágica de pai e filha afogados deve impulsionar prevenção

Junho 27, 2019 às 4:02 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 26 de junho de 2019.

Fotografia mostra os corpos de dois migrantes de El Salvador nas margens do Rio Grande; Agência da ONU para Refugiados diz que “circunstâncias que levaram a essa tragédia são inaceitáveis”.

A Agência da ONU para Refugiados, Acnur, disse esta quarta-feira que ficou “profundamente chocada” após ver a fotografia dos corpos afogados de Oscar Alberto Martinez Ramirez e sua filha de 23 meses, Valeria.

A fotografia mostra os dois migrantes de El Salvador nas margens do Rio Grande. Pai e filha morreram afogados quando tentavam passar a fronteira para o México.

Imagens

Em nota, o Acnur afirma que “embora os detalhes permaneçam incertos, o que está claro é que as circunstâncias que levaram a essa tragédia são inaceitáveis.”

A fotografia está sendo partilhada nas redes sociais menos de quatro anos depois de ter sido divulgada a foto do corpo sem vida de Alan Kurdi, uma criança refugiada síria, nas praias do Mediterrâneo.

O Acnur diz que o mundo é “novamente confrontado com poderosas provas visuais de pessoas morrendo durante suas perigosas viagens cruzando fronteiras.”

Perigo

O alto comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, disse que “as mortes de Oscar e Valeria representam um fracasso em lidar com a violência e o desespero que empurram as pessoas a fazerem uma jornada de perigo para alcançar uma vida com segurança e dignidade.”

Para Grandi, a situação “é agravada pela ausência de caminhos seguros para as pessoas buscarem proteção, deixando as pessoas sem outra opção senão arriscar suas vidas.”

O Acnur continua a pedir a todos os países da região que tomem medidas imediatas e coordenadas para evitar que novas tragédias como esta ocorram.

A agência também ofereceu propostas sobre maneiras de melhorar e fortalecer o processamento de requerentes de asilo nos Estados Unidos, incluindo as condições de detenção.

O Acnur afirma ainda que continua “pronto para apoiar todos os governos da região a garantir que qualquer pessoa que necessite de proteção internacional a receba prontamente e sem obstruções.”

A morte na família: como é que as crianças expressam o seu sofrimento?

Março 24, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Carmen Rosa publicado no Público de 12 de fevereiro de 2019.

A maioria dos adultos considera que a morte vai além da compreensão da criança e tenta protegê-la, evitando abordar o assunto.

Quando alguém morre, não podemos deixar de considerar o impacto desse momento no equilíbrio do sistema familiar, especialmente numa perda dolorosa, como quando se perde um dos pais.

A maioria dos adultos considera que a morte vai além da compreensão da criança e tenta protegê-la, evitando abordar o assunto. No entanto, é importante que sejam dadas respostas adequadas ao seu nível de desenvolvimento.

Uma das primeiras preocupações que surge é se a criança deverá estar presente no funeral. A criança deve ter a oportunidade de ir, mas não deve ser obrigada. Também não existe uma idade específica a partir da qual se possa afirmar que pode assistir ao funeral. Deve depender, sobretudo, do facto de isso ajudar, ou não, a criança a compreender e confrontar a experiência de morte.

Pode ser útil explicar antecipadamente o que irá ver, acontecer, ou o porquê de se ir ao funeral. As crianças em luto precisam também de saber que irão ser cuidadas e estimadas, de se sentir importantes e envolvidas e de alguém que oiça as suas dúvidas.

As crianças expressam o seu sofrimento de formas diferentes, através de mudanças emocionais, físicas ou comportamentais. Mas quais são então esses sintomas? E como devemos lidar com eles?

O estado de choque ou negação surge de forma mais intensa durante seis a oito semanas após a morte e em datas simbólicas. Nessa fase é importante o adulto proteger e apoiar a criança, com uma presença calma e estabilizadora.

Por vezes, a criança não sabe o que pensar ou sentir, mas essa falta de sentimentos deve ser reconhecida como forma de autoprotecção, não devendo punir-se a criança por isso.

Mudanças fisiológicas como cansaço ou fadiga/falta de energia, alterações de sono e apetite, aperto na garganta, falta de ar, nervosismo/tremores, dores de cabeça ou de estômago, são também frequentes. É importante ajudar a criança a entender estes sintomas como uma reacção normal e a expressar melhor o seu sofrimento, podendo ser necessário consultar um médico para despistar causas físicas para os sintomas.

Nalguns casos, surgem comportamentos de regressão, como dependência excessiva do progenitor e incapacidade de se separar dele, seja para brincar, ir à escola ou dormir, pedir ajuda para tarefas que já fazia sozinha ou regredir na linguagem. Deve tranquilizar-se a criança de que o progenitor vivo não a vai deixar.

Nos casos de Síndrome do “Homem grande” ou “Mulher grande”, a criança tende a crescer depressa para substituir o progenitor que perdeu, podendo usar palavras ou comportamentos típicos deste. Aí, devem apenas ser encorajadas as competências que são adequadas para o seu nível de desenvolvimento.

Pode acontecer, também, alguma desorganização e pânico, com comportamentos imprevistos, como sonhos, agitação, irritabilidade ou até dificuldade em concentrar-se. É necessário o reconforto e a presença física de alguém em quem confie.

Quando as emoções se tornam explosivas, com sentimentos de desamparo, frustração e mágoa, a criança sente-se zangada com a pessoa que morreu, o que implica perceber e aceitar que a zanga é parte natural do sofrimento e irá desaparecer.

Pode surgir algum temperamento explosivo, conflitos com os pares, desafio à autoridade, ou diminuição do rendimento escolar. Aqui os sermões são pouco produtivos, embora seja necessário pôr limites, bem como satisfazer as necessidades de afecto e segurança.

A criança pode passar a ter medo de não haver mais ninguém que cuide de si, de ver as outras pessoas sofrerem ou até da sua própria morte, sendo preciso reconhecer a necessidade de aceitação e ter sensibilidade para com os seus medos.

É frequente manifestar um sentimento de culpa. As crianças muitas vezes acham que por terem pensado uma coisa que depois aconteceu a culpa é sua. Deve-se evitar comportamentos que reforcem a ideia de que a morte é uma forma de punição e mostrar que é normal zangarmo-nos com as pessoas que amamos.

Podem ainda surgir sentimentos de perda, vazio e tristeza. A morte de um ente querido pode levar à depressão, à falta de interesse nela própria e nos outros, à incapacidade de vivenciar o prazer e a baixa auto-estima. Nesse caso, reconhecer a necessidade de ajuda profissional é essencial.

Ao longo do processo de aceitação da perda, o ente querido é lembrado e estimado e as memórias deixarão saudades, mas estes sentimentos não devem impedir a criança de descobrir novas formas de lidar com isso e ajustar-se ao seu dia a dia de uma forma adaptativa. O apoio do sistema familiar e escolar é nisso fundamental.

Quando as emoções se tornam explosivas, com sentimentos de desamparo, frustração e mágoa, a criança sente-se zangada com a pessoa que morreu, o que implica perceber e aceitar que a zanga é parte natural do sofrimento e irá desaparecer.

Pode surgir algum temperamento explosivo, conflitos com os pares, desafio à autoridade, ou diminuição do rendimento escolar. Aqui os sermões são pouco produtivos, embora seja necessário pôr limites, bem como satisfazer as necessidades de afecto e segurança.

A criança pode passar a ter medo de não haver mais ninguém que cuide de si, de ver as outras pessoas sofrerem ou até da sua própria morte, sendo preciso reconhecer a necessidade de aceitação e ter sensibilidade para com os seus medos.

É frequente manifestar um sentimento de culpa. As crianças muitas vezes acham que por terem pensado uma coisa que depois aconteceu a culpa é sua. Deve-se evitar comportamentos que reforcem a ideia de que a morte é uma forma de punição e mostrar que é normal zangarmo-nos com as pessoas que amamos.

Podem ainda surgir sentimentos de perda, vazio e tristeza. A morte de um ente querido pode levar à depressão, à falta de interesse nela própria e nos outros, à incapacidade de vivenciar o prazer e a baixa auto-estima. Nesse caso, reconhecer a necessidade de ajuda profissional é essencial.

Ao longo do processo de aceitação da perda, o ente querido é lembrado e estimado e as memórias deixarão saudades, mas estes sentimentos não devem impedir a criança de descobrir novas formas de lidar com isso e ajustar-se ao seu dia a dia de uma forma adaptativa. O apoio do sistema familiar e escolar é nisso fundamental.

 

 

Justiça alemã garante acesso dos pais à conta de Facebook da filha morta

Julho 24, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Euronews de 12 de julho de 2018.

De  Antonio Oliveira E Silva  com AFP

O Tribunal de Justiça Federal da Alemanha ( Bundesgerichtshof), com sede em Karlsruhe, deu a conhecer uma sentença relacionada com o que pode ser definido como a herança digital dos cidadãos e o acesso aos perfis nas redes sociais dos consumidores, uma vez falecidos.

A Justiça decidiu a favor de um casal que exigia à rede social Facebook o acesso à conta da filha, morta em circunstâncias ainda por explicar, no sistema de metropolitano de Berlim.

A mãe da adolescente, que morreu com 15 anos, em 2012, tentou recuperar conteúdos do perfil da filha, o que foi recusado pela empresa, com sede em Palo Alto, Califórnia.

Ao aceder à conta, o casal esperava compreender melhor, através de possíveis pistas, se a filha teria ou não cometido suicídio.

Mas a empresa rejeitou o pedido, argumentando que o acesso aos dados da adolescente da parte dos pais constituia uma violação do que definiu como conteúdos privados, já que o casal passaria a ter acesso a conteúdos de outros utilizadores – nomeadamente no chat.

O casal argumentava que o acesso ao perfil de Facebook da filha seria semelhante ao acesso a um diário ou a cartas que ela tivesse escrito.

O Tribunal de Justiça Federal concordou: “O contrato de utilizador de uma pessoa com uma rede social obedece à sucessão universal dos herdeiros do titular da conta,” diz a sentença.

Para os juizes, o que está em causa é uma conta de utilizador e não uma pessoa específica e que é normal que terceiros tenham acesso a essa conta com ou sem o acordo do proprietário inicial.

Um drama jurídico de três anos

Em 2015, a justiça deu razão aos pais, em primeira instância. Mas, dois anos mais tarde, o Tribunal de Recurso reverteu a sentença e defendeu, como dizia o Facebook, que “o segredo das comunicações estava protegido pela Lei fundamental da Alemanha”.

No entanto, o Tribunal de Justiça Federal estimou, ao dar a razão ao casal, que a confidencialidade dos dados não seria afetada, já que a Lei apenas protege as pessoas vivas.

Quando um utilizador do Facebook morre, existem duas opções:

A conta pode ser transformada num perfil em memória dessa pessoa, o que permite partilhar conteúdo produzido pelo utilizador em vida.

A segunda opção contempla a eliminação da conta, sendo preenchido um formulário em linha para o efeito.

A questão da herança digital constitui um problema de ordem ética e legal complexo, com o qual se deparam regularmente os ordenamentos jurídicos de vários países.

 

 

As crianças e a morte

Março 6, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no https://ionline.sapo.pt/ de 13 de fevereiro de 2018.

Mário Cordeiro

Os efeitos da morte inesperada e súbita de uma pessoa querida da criança causam uma dor quase insuportável, um grande sentimento de vazio e de ausência… e de insegurança.

Amanhã é Quarta-Feira de Cinzas. Enterra-se hoje o Carnaval. Morre o Entrudo e abre-se caminho a um período de reflexão e de quaresma (que significa sofrimento e penitência), que culminará com a morte… e a ressurreição. É este o entendimento da moral judaico-cristã e a simbologia destes dias, seja-se crente ou não. E quando a morte é real e surge no seio de uma família onde há crianças? Como agir?

“A morte da avó da Teresa foi de repente. Provavelmente um enfarte, disse o médico. Mas a explicação em nada adiantou ao sofrimento da família, designadamente dos pais da Teresa. Para além do seu drama pessoal, ficaram apreensivos com outra coisa: como dizer à Teresa, de quatro anos, que a avó tinha morrido. A avó para casa de quem ela ia todos os dias, quando saía da escola, e com quem brincava até os pais a irem ‘pescar’, lá pelas oito da noite. A avó que lhe preparava o lanche e conversava com ela. A avó que a Teresa dizia ser “a pessoa mais querida do mundo”, para orgulho e também algum ciúme dos pais.

Como dizer à Teresa? Ou não dizer? Ou inventar um novo esquema de ATL e fingir que a avó, agora, não tinha tempo para a Teresa. Ou contar tudo e estar preparados para tudo?”

Acontecimentos destes são frequentes. Os efeitos de uma morte inesperada e súbita de uma pessoa querida da criança causam uma dor quase insuportável, e um grande sentimento de vazio, de ausência… e de insegurança – “se aconteceu isto, que nada fazia prever e que eu não queria, tudo o mais pode agora surgir”. A criança sente-se atraiçoada sem saber por quem ou porquê, talvez até pelo destino, sente que não consegue controlar tudo como desejaria, sente que a vida também tem cambiantes de tristeza e de luto, e perde alguma da sua inocência. Pode também pensar que os pais, que supostamente controlam tudo e tudo podem, falharam ou serão incapazes de a proteger, já que não protegeram a pessoa que morreu; para as crianças, os pais – nós – são super-heróis, mesmo que por vezes nos desafiem e façam a vida negra, num salutar processo de autonomia. Somos os seus ídolos, os seus gurus e os seus santos protetores, disso não tenhamos dúvidas.

As crianças vivem a morte, pelo que desiluda-se quem pense que a morte de alguém querido lhes pode passar ao lado. Obviamente que não têm uma conceção filosófica e abstrata como os mais crescidos e os adultos, designadamente no que toca à irreversibilidade do fenómeno – definem-se os seis anos como a altura em que há, em média, uma clara noção de que não se regressa da morte, mas isso depende muito da criança, não apenas do seu desenvolvimento como das experiências que já teve, seja com pessoas, seja com animais ou até em histórias e filmes, por exemplo.

Em todo o caso, os sentimentos que as crianças têm são similares: tristeza, incompreensão, raiva, culpa, ansiedade, desespero. Podem ficar perplexas e descrentes, inquietas e com problemas de sono. A estes estados de alma acresce verem os pais e restantes familiares, também eles, tristes e a chorar (e devem fazê-lo e não tentar esconder o que lhes vai na alma, mesmo que possam ter algum pudor e tentem evitar cenas mais “histéricas”, mas é indispensável não disfarçar os sentimentos). As crianças vivem, pois, uma dupla carga, por vezes muito traumática, e é comum os adultos preocuparem-se em tentar poupar a criança ao sofrimento, o que, repito, é inútil, porque ela sabe e sente, e acaba por se ver arredada do processo de luto familiar, o que acontecerá menos se os pais tentarem falar com ela, percebê-la, acompanhá-la, assumindo que ela sofre. Como se fosse um adulto, mas de forma diferente – sem mentiras, com a verdade, mas a verdade suficiente e não mais do que ela, poupando pormenores escusados e mórbidos, ou incompreensíveis, e com a doçura, mimo e ternura que funcionam como garante de proteção.

Mal estarão os pais que não assumam a condução do processo e deixem o tempo andar, mesmo que estejam, eles próprios, em sofrimento. Por muito que custe ou que se queira poupar a criança ao sofrimento, e o nosso próprio sofrimento ao ver a criança triste e revoltada, vale a pena relembrar alguns dos aspetos que estão em causa:

  • A vida não é um mar de rosas, e às vezes é um mar de espinhos – aprende–se isso mais cedo ou mais tarde, seja em que idade for, na vivência de acontecimentos como este;
  • As crianças não podem nem devem ser poupadas aos problemas, muito menos os desta dimensão, e têm o direito (sim, é um direito!) de sentir tristeza e de a sofrer;
  • A verdade deve ser sempre dita, e preferencialmente pelos pais. Mentir ou fingir só serve para que, quando ela a souber (e pode intuí-la do próximo telefonema ou nas entrelinhas de qualquer conversa), fique para sempre a pensar que os pais não lha disseram e com a sensação irreparável de que eles falharam no momento mais crítico, deixando de acreditar neles, com a insegurança correspondente;
  • A verdade deve ser dita de modo soft, poupando os pormenores mais mórbidos, e numa linguagem acessível à criança;
  • Deve sempre garantir-se à criança que a avó (ou seja quem for) está bem, que não sofre nem tem frio, sono, fome, enfim, as coisas de que a criança não gosta e com as quais sofre, e que fazem parte da sua vida e da sua maneira objetiva e concreta de ver e viver o mundo;
  • Deve também relativizar-se o facto e “garantir” que ela, criança, bem como os pais e os outros familiares não vão morrer num futuro próximo – pode usar-se um ligeiro humor para suavizar o momento; é grande o medo de um eventual “efeito de dominó”;
  • A avó (ou quem seja!) tem de ser lembrada, por exemplo através das fotografias expostas ou de álbuns, e deve falar–se dela como estando presente, embora fisicamente ausente – mas é bom a criança poder olhar para o céu e adivinhar a avó algures, onde ela quiser. A criança escolherá se é numa flor ou numa estrela – um qualquer “código secreto”. Há que se insistir, de igual modo, que a avó estará a acompanhá-la e que rirá com o seu riso e ficará triste com o seu sofrimento. E que a protege.
  • A avó deverá ser recordada com as suas virtudes, mas também com outras características da personalidade, nomeadamente os seus defeitos. Para que se mantenha “viva”, humana e de carne e osso. Não um mito ou um deus. Não um ser perfeito, distante. Só assim a criança fará o luto de maneira tranquila e matura. Caso contrário, duvidará sempre da morte – os mitos e os deuses são imortais – e permanecerá sempre numa constante regressão, e assombrada pelos fantasmas e fixações.

É um momento duro, a morte de uma pessoa querida. Para quem começa a entender as regras da existência, a confusão de sentimentos, revolta, perplexidade, ignorância e receio são grandes. Cabe-nos a nós, adultos, suavizar (que não aplainar) esta tempestade, até que o quotidiano traga a tranquilidade, o entendimento e a sabedoria.

Pediatra
Escreve à terça-feira

 

O que dizer aos mais novos quando há um atentado em que morrem crianças e adolescentes?

Maio 26, 2017 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://lifestyle.publico.pt/ de 23 de maio de 2017.

Bárbara Wong

Atentado em Manchester fez pelo menos 22 mortos, entre eles crianças.

Era uma festa sobretudo para crianças e adolescentes, que são o público que segue e assiste aos concertos de Ariana Grande. A Arena de Manchester tornou-se notícia devido ao já reivindicado atentado em que morreram, pelo menos, 22 pessoas e dezenas ficaram feridas. Entre estas estão crianças e jovens.

É inevitável que os mais novos vejam a notícia, seja num site, na televisão ou numa rede social. Eles gostam e acompanham a carreira de Ariana Grande — esperavam que a cantora viesse a Lisboa proximamente, mas entretanto todos os concertos foram cancelados — e não há como lhes esconder o que se passa no mundo. Assim, o que dizer-lhes?

Informar, mas sem ir muito longe
José Morgado, professor no ISPA — Instituto Universitário, defende que os pais devem falar sobre o tema e responder a todas as perguntas que forem feitas. Contudo, “não dar mais informação do que a que eles pedem”, aconselha, alertando para que os filhos não vejam as imagens sozinhos, mas sempre com mediação dos pais, para que expliquem o que se passa.

“Se não perguntarem mais, não dizemos mais para não instalar a dúvida”, defende.

E é importante “desconstruir”, diz por seu lado o pedagogo Renato Paiva, autor do livro Queridos Pais, Odeio-vos, editado recentemente pela Esfera dos Livros. Dizer aos filhos que nem todas as pessoas de determinada etnia ou religião são terroristas, para que os filhos não façam generalizações.

Falar sobre a morte
Não é fácil falar sobre a morte de crianças com outras crianças, reconhece José Morgado. “É algo que não se prevê, que é pontual, que é residual”, acrescenta Renato Paiva. Por isso, mais uma vez, é preciso não entrar em generalizações, porque as crianças e os jovens morrem e noutras circunstâncias que não num atentado, sublinha o pedagogo.

Mais uma vez, para José Morgado, falar da morte é responder às perguntas que são feitas, contextualizando-as, explicando porque aconteceu. “Começamos por introduzir uma leitura do mundo, porque é tão importante a morte de uma criança síria por causa das armas químicas como a morte de uma criança em Manchester”, defende Morgado.

Transmitir segurança
Situações como esta devem servir para falar também sobre segurança, considera Renato Paiva. Os pais devem aproveitar para falar sobre as preocupações que os jovens devem ter quando vão a um concerto. “O que podes evitar? O que podes fazer se ouvires um estrondo?”, exemplifica. “O esmagamento [devido às pessoas que estão em fuga] pode ser mais preocupante do que o atentado em si”, acrescenta.

Ao falar disso, os pais não estão a incutir o medo nas crianças e nos jovens? “Não, estão a incutir-lhes cuidado e atenção”, responde, dando outros exemplos, como pedir aos filhos para terem cuidado quando andam na rua e vão atravesssar uma estrada; ou os cuidados a terem para não serem assaltados.

Crescer para a paz
Situações como estas podem gerar incompreensão, revolta, vontade de responder na mesma moeda. No entanto, devem servir para “aprender a crescer e a não magoar os outros”, defende José Morgado.

É preciso explicar aos mais novos que há pessoas que estão a ser educadas para uma forma de viver violenta, para a autodestruição e o extermínio, mas que “a pior coisa que podemos fazer é responder com ódio”, declara Helena Marujo, psicóloga e professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa.

Helena Marujo defende que é preciso “criar uma nova geração crítica” e para isso é preciso centrar menos a educação nos conteúdos escolares e mais em aspectos humanistas, nas expressões artísticas, na filosofia, na possibilidade de debater ideias, continua a professora, precursora da Psicologia para a Felicidade.

A investigadora lembra que quem estava no concerto estava a celebrar e que o ataque terrorista tem como objectivo destruir a alegria. “Os bombistas foram treinados para dar sentido à morte, nós temos de ensinar as novas gerações a dar sentido à vida”, conclui.

 

 

Texto final sobre educação sexual será apresentado em Janeiro

Dezembro 30, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 22 de dezembro de 2016.

O novo referencial da Educação para a Saúde está a ser contestado por prever que a Interrupção Voluntária da Gravidez seja abordada no 2.º ciclo de escolaridade, frequentado por crianças entre os 10 e os 12 anos.

Clara Viana

O novo referencial da Educação para a Saúde, que integra domínios como a alimentação, a violência ou a educação sexual, entre muitos outros, só será apresentado em Janeiro, depois de terem sido analisadas as “centenas de contribuições” feitas durante o período de discussão pública que terminou na segunda-feira, Informou o Ministério da Educação (ME) em resposta a questões do PÚBLICO.

Só então se saberá se o ME vai manter no documento a referência à Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), um dos temas propostos para o 2.º ciclo de escolaridade, ou se cederá à petição, já assinada por cerca de 8300 pessoas, com vista à retirada daquele tópico. “É um verdadeiro absurdo ensinar crianças que é legítimo e justo matar bebés no ventre materno”, proclama-se naquele texto.

“Temos uma sociedade muito contraditória. As pessoas indignam-se por se falar da IVG no 2.º ciclo, mas não se incomodam que o tema da morte venha a ser abordado no pré-escolar, como está previsto no referencial”, comenta a investigadora da Universidade do Minho, Zélia Anastácio, que tem trabalhado com as escolas no âmbito da educação para a sexualidade

No referencial sugere-se que no 2.º ciclo, frequentado por crianças entre os 10 e os 12 anos, os alunos identifiquem métodos contraceptivos e a sua importância na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de uma gravidez indesejada, bem como que aprendam a distinguir uma interrupção voluntária da gravidez de uma interrupção involuntária.

Para Zélia Anastácio, está é a altura certa para se iniciar a abordagem de temas como estes, já que é naquelas idades que “os alunos começam a colocar questões sobre o aborto”. “ E se objectivo é também prevenir a gravidez na adolescência, então a abordagem tem de começar antes”, acrescenta.

A investigadora lamenta, contudo, o que chama de “eufemismos”, provavelmente destinados a evitar novos choques com a opinião pública. Por exemplo, aponta, no referencial nunca se refere explicitamente a homossexualidade, em vez disso fala-se de respeito pela “diversidade na sexualidade e orientação sexual”.

Zélia Anastácio tem ainda dois outros reparos ao texto que esteve em discussão pública: defende que a temática do abuso sexual deve ser abordada logo desde o pré-escolar, e não apenas a partir do 2.º ciclo, como previsto; e que pelo contrário o tópico morte seja apresentado mais tarde. No referencial propõe-se que se dê a compreender aos alunos do pré-escolar que “a morte é o fim de um ciclo”. “São muito pequenos para interiorizarem este conceito. Nestas idades precisam é de ter mensagens positivas, de vida, de felicidade e não de morte”, diz.

consultar o Referencial de Educação para a Saúde

 

 

Terrorismo, morte ou sexo. Falar com as crianças, mas sem detalhes

Dezembro 27, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.dn.pt/de 21 de dezembro de 2016.

Orlando Almeida / Global Imagens

Orlando Almeida / Global Imagens

 

Joana Capucho

Pais devem abordar os assuntos só quando são questionados pelos filhos e sem pormenores que os deixem ansiosos

Aos 9 anos, Filipa começou a falar sobre a morte. Ficava triste, porque imaginava que o pai ou a mãe podiam morrer. “Percebeu que somos finitos, que não duramos para sempre”. Depois veio a público a foto do corpo de uma criança síria encontrada numa praia turca. Luís e Lúcia, pais de quatro raparigas – Maria, de 16 anos, Daniela, de 15, Filipa, agora com 10 e Ana, de 6 – falaram então sobre refugiados. “Tentamos mostrar a realidade com uma linguagem que entendam”, conta Luís.

Dois meses depois, os atentados em Paris, onde vive uma prima. “Mesmo com as mais novas, tivemos de falar sobre o terrorismo. Queremos que saibam o que se passa, mas há imagens e pormenores que não acrescentam nada ao que têm de saber sobre o assunto, porque só as vai assustar mais”, frisa. Responder às perguntas das crianças sobre sexo ou explicar-lhes temas como o terrorismo ou a morte não são tarefas fáceis para muitos pais. Haverá uma idade indicada para falar sobre cada um? O que dizer? Os especialistas contactados pelo DN recomendam que só sejam abordados a pedido das crianças e sempre de acordo com as idades. Regra geral, primeiro surgem questões sobre a gravidez, a morte e as doenças e só mais tarde sobre o terrorismo ou o aborto.

“Não devemos evitar falar destes assuntos às crianças. Devemos sim é ter contenção sobre o que dizemos e como o dizemos. Contudo, não devem ser os pais a trazer o assunto para a discussão”, sugere Renato Paiva, diretor da Clínica da Educação. A ideia é responder às solicitações das crianças e adequar o discurso à idade. “Não falaremos da morte com uma criança de 4 anos do mesmo modo que falamos com uma de 10. A sua maturidade ainda não compreende conceitos abstratos”.

O pediatra Hugo Rodrigues reforça que “o princípio geral para temas difíceis é que sejam abordados a pedido da criança”. “Sempre que pergunta, deve esclarecer-se de uma forma correta e com linguagem adequada”. No 3.º ano de escolaridade, “já falam sobre o sistema reprodutor, os óvulos, a gestação”, portanto a gravidez é “provavelmente o tema mais fácil, mais visível” e um dos que aparece primeiro. “Até porque muitas crianças têm irmãos.” Aos 6 anos, diz o pediatra, começam a ter medo de morrer e que os pais morram.

Recentemente, as direções-gerais da Educação e da Saúde emitiram um documento com novas sugestões para as aulas de educação sexual, no qual há um tópico que gerou uma enorme polémica: a possibilidade de falar da interrupção voluntária e involuntária da gravidez no 2.º ciclo. Na opinião de Hugo Rodrigues, como rapazes e raparigas não amadurecem da mesma forma, “se calhar não faz muito sentido falar deste tema antes dos 12 anos”. Segundo o pediatra “será um assunto para introduzir mais tarde”. “Não tenho muita pressa em tornar as crianças adultas”. O mesmo é válido para o terrorismo. “Não podem fazer nada para mudar, portanto não deve ser uma preocupação das crianças”.

Para Cátia Teixeira, psicóloga da área infantojuvenil da Oficina de Psicologia, não há uma idade certa para falar sobre cada assunto. “As crianças têm fases de desenvolvimento diferentes e também precisam de respostas diferentes”, justifica, acrescentando que “uma criança de 10 anos pode estar preparada para falar de terrorismo, mas uma de 12 pode não estar”. O caminho, prossegue, é perceber o que é que ela quer saber. “Se pergunta o que é o terrorismo, devemos perguntar o que ela acha que é. É importante perceber o entendimento da criança e só depois dar a resposta. Por vezes, ela não tem as dúvidas que o adulto pensa que tem e não está preparada para certas respostas”. Se os temas não forem abordados de forma correta, “a criança pode ficar ansiosa, preocupada.”

Falar com os miúdos sobre violência pode gerar medo. Renato Paiva diz que importa “dar colo ao falar com as crianças nestes assuntos.” “Abordar temas como terrorismo, morte, aborto, fome, doenças, mexe com as emoções de cada um. São assuntos que tradicionalmente são difíceis para todos, para os pais não é exceção.” Segundo o psicopedagogo, “o concreto funciona melhor, assim como a recorrência a exemplos ajuda”. No entanto, adverte, as explicações não devem ser pormenorizadas. Para a criança fazer uma pergunta “é porque contactou com uma realidade que desconhece”, daí que seja essencial os pais perceberem o porquê das suas questões. Dizem os especialistas em educação que dificilmente uma criança faz perguntas sobre um tema com o qual não contactou. Hélder Ramos, professor do primeiro ciclo na Madeira, revela que “o que as crianças perguntam tem a ver com as suas vivências. Não improvisam perguntas sobre coisas abstratas”. Segundo o professor, “falam de alcoolismo, tabaco ou violência quando vivem essas situações”. Nesses casos, os professores não devem mentir, mas é importante abordar os temas com cautela. Relativamente à questão do aborto, Hélder lembra que, atualmente, há crianças no 2.º ciclo com 16 anos. “Não faz sentido generalizar, porque pode despertar curiosidade e não trará benefícios. Mas pode haver situações em que faz sentido”.

Já Odete Santos, professora numa escola de 1.º ciclo na Charneca da Caparica, diz que as perguntas das crianças aos 8 e 9 anos são sobretudo sobre a reprodução. “É a matéria que os cativa mais”. Também falam sobre a fome em África, os refugiados e, por vezes, sobre a morte. “Mas esse é um tema do qual tendem a fugir”. Já trabalhou em zonas carenciadas e, nesses casos, as crianças também falavam muito sobre droga. “Sabiam coisas muito à frente para a idade”.

Na opinião de Jorge Gravanita, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, “o que precisamos hoje em dia é que os assuntos deixem de estar numa zona obscura e possam ser falados”. É o que faz António Rebelo, de 45 anos, com os cinco filhos. “Não há nada tabu. É tudo explicado consoante as idades”. Com filhos dos cinco aos 21 anos, este pai ressalva, no entanto, que há coisas que fala com os mais velhos e que, naturalmente, a filha mais nova não ouve.

António Rebelo é uma das mais de seis mil pessoas que assinaram a petição para que o aborto não seja abordado no 2,º ciclo. Considera que o filho de 11 anos poderá entender do que se trata, se o assunto for abordado por si, mas teme que lhe seja explicado de uma forma que considera errada. Tal como aconteceu com a educação sexual, razão pela qual retirou os filhos da escola pública. Segundo o psicólogo Jorge Gravanita, poderá fazer sentido o tema da IVG ser falado com alunos do 2.º ciclo. “Não como uma transmissão de conteúdo, mas a partir do questionamento das crianças. A ideia é permitir uma discussão entre colegas e professores.” Luís, pai de quatro raparigas, discorda : “É uma comparação grotesca, mas é quase como colocar o assunto da eutanásia nas mãos de uma criança. O tema merece ser falado, mas não aos 10 anos.”

 

 

Oficina – Como abordar a perda e a morte com crianças? 24 de setembro em Leiria

Setembro 13, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/576901795822605/

Intervenção com crianças e adolescentes em processo de luto – Formação contínua no ISPA

Junho 8, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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ispa

Objectivos 

Sensibilizar para a perda, processo de luto e suas especificidades nas crianças

Compreender a importância da avaliação e intervenção no luto com crianças e adolescentes

Promover recursos pessoais na relação com o sofrimento e a perda

Conhecer programas e estratégias de intervenção dirigidos a crianças e adolescentes

Competências 

Compreender o processo de luto e as especificidades do luto patológico

Desenvolver o autoconhecimento e a relação com a morte

Promover competências para a intervenção no processo de luto em crianças e adolescentes

Conhecer programas e modelos de intervenção nacionais e internacionais

Programa 

Viver (com) a morte (3h)– Concepção da morte e etapas de desenvolvimento; Perda e desenvolvimento pessoal; Falar da morte – mitos e medos

Compreender o Processo de Luto (4h)– Processo de luto na criança – modelos e definições; Avaliar para intervir – variáveis e indagação; Necessidades Relacionais

Intervir no Processo de luto (7h)– Intervenção clínica com crianças e adolescentes – fala-me da (tua) saudade: Psicoeducação, Estratégias de intervenção clínica; Intervenção com a família – o (desas)sossego do silêncio; Intervir em contexto de grupo – fala-me de ti, para me ouvir melhor; Prática e discussão de casos

Intervir no Luto Patológico (7h)– Especificidades do Luto Complicado; Luto & Trauma – quando a dor transborda a vida; Prática e discussão de casos

Metodologias 

Exposição teórico-prática, discussão de casos

Duração 

21 horas

Calendarização

Sexta, Junho 17, 2016 a Sábado, Junho 25, 2016

mais informações:

http://fa.ispa.pt/formacao/intervencao-com-criancas-e-adolescentes-em-processo-de-luto

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