Uma escola de maioria africana ficou entre as dez melhores a Português

Dezembro 31, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 17 de dezembro de 2016.

A primeira escola pública no ranking do secundário surge na posição 35. É a secundária da Infanta D. Maria, em Coimbra, que volta, assim, à liderança das estatais. O Colégio de Nossa Senhora do Rosário, no Porto, é o primeiro da lista

Clara Viana e Bárbara Wong

A Escola Dr. Azevedo Neves, na Damaia, arredores de Lisboa, é descrita pelos seus alunos como “a mais africana da Europa”, já que a maioria é descendente de imigrantes oriundos de África. Os resultados dos seus estudantes no exame de Português do 12.º ano em 2015/2016 colocam-na entre as dez melhores a nível nacional nesta disciplina. Neste “top 10” só há outra escola pública.

Esta é uma das revelações do ranking de 2016, uma ordenação que no PÚBLICO é feita com base na média das classificações dos alunos nos oito exames com mais inscritos. Só é atribuído um lugar às escolas onde se realizaram 50 ou mais provas, que são a maioria

Nesta listagem geral, a Azevedo Neves ficou na posição 239.º em 590 estabelecimentos de ensino secundário ordenados pelo PÚBLICO, num ranking que volta a ser dominado pelos colégios e que este ano, pela primeira vez, também contabiliza os resultados de parte dos alunos que foram a exame como autopropostos (aqueles que frequentaram a escola quase todo o ano lectivo). Já no ranking que ordena as escolas apenas pelas notas a Português (e que inclui todas as escolas onde se fizeram pelo menos 15 exames nesta “cadeira”), a Azevedo Neves brilha bem mais.

A primeira escola pública no ranking geral dos oito exames do secundário surge na posição 35, sete lugares abaixo do registado em 2015. A secundária da Infanta D. Maria, em Coimbra, volta este ano à liderança das estatais, uma posição que no ano passado tinha sido ocupada pela secundária Clara Resende, no Porto. No 3.º ciclo básico, na liderança deste grupo está uma escola de Beja, a D. Manuel I, que geralmente está afastada dos lugares cimeiros dos rankings e que ficou agora em 32.º.

Tal como acontece no secundário, também no básico o topo da lista é dominado pelo privado e o fundo pelo público. Os colégios do Norte dominam os primeiros dez lugares da lista. A excepção é o Colégio dos Plátanos, em Sintra (5.ª posição), e o de Nossa Senhora de Fátima, em Leiria (6.ª). Este último é um colégio com contrato de associação, ou seja, que deve funcionar como uma escola pública, recebendo todos os alunos, sem selecção. De resto, há 73 colégios com contrato de associação que integram o ranking das escolas básicas feito pelo PÚBLICO: 66 têm uma média a Português e Matemática acima dos 2,5 (numa escala de 1 a 5), 12 estão entre os 100 primeiros.

A estratégia do chumbo

O Colégio de Nossa Senhora do Rosário, no Porto, volta a estar em primeiro lugar na ordenação das escolas do secundário. No básico fica o Colégio Novo da Maia. O Rosário distingue-se também num novo indicador disponibilizado pelo Ministério da Educação (ME), o dos percursos directos do sucesso, que avalia a percentagem por escola de alunos que não reprovam nem no 10.º nem no 11.º e têm positiva nos exames do 12.º ano realizados em 2015/2016. Com base nestes resultados, que em 2015 já existiam para o 3.º ciclo, o PÚBLICO volta a apresentar um “ranking alternativo”.

O colégio do Porto está em segundo lugar nesta forma de ordenar as escolas. A percentagem de percursos directos de sucesso no secundário foi ali de quase 90%, quando era expectável, tendo em conta o desempenho de alunos semelhantes no resto do país, que estivesse cerca de 20 pontos abaixo.

Do cruzamento entre o novo indicador de percursos de sucesso e as médias obtidas nos exames do secundário sobressaem alertas que devem ser tidos em conta pelo ME, defende a investigadora Conceição Portela, da Católica Porto Business School, num artigo que assina neste suplemento. A investigadora verificou na sua análise que “as estratégias das escolas secundárias passam bastante pela retenção dos alunos”. “Os alunos que fazem exame são apenas os mais aptos”, escreve.

Também a retenção é muito visível no básico, onde em apenas 21% das escolas metade ou mais de metade dos estudantes consegue atravessar o 3.º ciclo sem retenções e com sucesso nos exames de Português e de Matemática no 9.º ano.

Alunos motivados

Em declarações por escrito, a directora do Colégio do Rosário, Teresa Nogueira, indica que a posição obtida no ranking “alternativo” se deve, sobretudo, “a um trabalho de continuidade”. “A grande maioria, cerca de 90% dos nossos alunos, permanece no colégio num percurso de vários ciclos. Temos o mesmo número de turmas do 5.º ao 12.º ano, pelo que, no secundário, abrimos apenas algumas vagas. A continuidade permite-nos desenvolver ritmos de aprendizagem e de trabalho consistentes”, especifica.

Quanto à continuidade do colégio nos lugares de topo dos rankings, Teresa Nogueira volta a destacar que tal se deve “à conjugação de vários factores, entre os quais um corpo docente estável, com hábitos de reflexão, de investigação e trabalho em equipa; alunos motivados com opções e fasquias de excelência e uma carga lectiva reforçada a várias disciplinas”.

Tanto no ensino básico como no secundário, a Escola da Infanta D. Maria, em Coimbra, consegue percentagens de percursos directos de sucesso que superam o que era esperado dela. Um resultado que vem confirmar, segundo Helena Simões, a directora, uma das apostas deste estabelecimento de ensino: “O número de retenções é residual nesta escola e a incidência das mesmas está perfeitamente identificada, sendo que oferecemos apoios semanais nas diferentes disciplinas, sobretudo nas de exame e onde os resultados fiquem aquém do esperado.”

Como factores que justificam a permanência da escola no primeiro pelotão do ranking, Helena Simões destaca ainda “o contexto sociocultural dos alunos, as elevadas expectativas dos mesmos e respectivos encarregados de educação e a estabilidade do corpo docente”.

E por que estão sempre os colégios em maioria nos lugares cimeiros? “São realidades distintas e dificilmente comparáveis”, afirma, acrescentando que as escolas públicas têm uma autonomia mais reduzida, que obedece aos “princípios de uma sociedade aberta, heterogénea e inclusiva”.

Quando os estudantes mudam

Ao contrário da Infanta D. Maria, que continua a ser uma escola não agrupada, a secundária do Restelo é uma das públicas habitualmente bem colocadas no ranking do secundário que estará agora a sofrer os impactos de se ter tornado sede de um agrupamento que reúne sete outras escolas com características socioeconómicas muito diversas, aponta o seu director, Júlio Santos.

Este ano, a Escola Secundária do Restelo, que costuma figurar entre as melhores públicas, caiu do lugar 31.º para o 60.º. “Esta descida não é uma surpresa para nós. Houve uma alteração da população escolar, que se reflectiu também na evolução da taxa de retenção, que passou de 0% para 14%”, explicou.

Regresso à escola “africana da Europa”. Como conseguiu estar entre as dez melhores a Português? “Por via de um trabalho muito forte de passagem da oral para a escrita, de muita leitura, de muitas visitas de estudo, de uma acção muito próxima dos alunos e das famílias”, sintetiza o seu director, José Biscaia. “Os alunos que estavam no 12.º ano são um extracto dos estudantes que temos, em que 52% são de origem africana”, confirma este responsável, lembrando que, devido a essa “característica”, os alunos do seu agrupamento são, em geral, “recusados” pelas escolas à volta.

Em 2016, a grande maioria das secundária públicas volta a conseguir média positiva nos exames, um feito já alcançado no ano passado e que apenas se repetira em 2008 e 2009. Também no básico a maioria está em terreno positivo.

À semelhança do que tem sucedido desde 2012, o ranking do PÚBLICO, feito em colaboração com a Universidade Católica, e que poderá consultar nestas páginas, inclui, para além das médias dos exames em cada escola, outro tipo de informação, nomeadamente o valor que seria esperado que cada escola obtivesse, tendo em conta o contexto socioeconómico em que se insere. Tanto no secundário (53,5%) como no básico (62%), a maioria das escolas conseguiu ter médias de exames superiores ao que era esperado, o que representa uma evolução positiva em comparação com 2015, em que este valor rondava os 48%.

Como aconteceu no passado, o mais mal classificado entre as 590 escolas que realizaram 50 ou mais provas é o Colégio da Torre D. Chama, em Bragança. O PÚBLICO tentou em vão falar com a direcção deste colégio, que é financiado pelo Estado para garantir ensino gratuito aos seus alunos. No final da tabela do ranking do secundário figuram outros seis colégios que têm contrato de associação com o Estado.

Crianças negras tem quase quatro vezes mais probabilidade de viver na pobreza do que as crianças brancas , diz relatório nos EUA

Julho 28, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.washingtonpost.com  de 14 de julho de 2015.

Black children are nearly four times as likely as white children to live in poverty, report says

By Mark Berman

The economy continues to lumber back to life, with unemployment down and the labor force growing in the years since the Great Recession, but worrisome realities remain for some parts of the population.

Case in point: The staggering number of black children living in poverty, and the perpetual existence of so many children in the United States with access to so little.

Black children were nearly four times as likely as white or Asian children to be living in poverty in 2013, according a new Pew Research Center report analyzing Census Bureau data.

The poverty rate fell among Hispanic, white and Asian children in 2013, yet even as this rate declined for them, it remained the same for black children. About four in 10 black children were living in poverty in 2013, compared to about three in 10 Hispanic children and one in 10 white or Asian children.

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Black and Hispanic children are acutely over-represented in terms of child poverty. There are actually more Hispanic children living in poverty than there are black, white or Asian children, but that larger overall number stems from Hispanics being a larger and younger population than any other non-white group, Pew says.

Children make up a disproportionate share of the impoverished population. Nearly a quarter of people in the United States are younger than 18, but such people account for nearly a third of those in poverty.

In 2013, the country’s official poverty rate was 14.5 percent, down from 15 percent the year before, making it the first time the poverty rate fell since 2006, according to the Census Bureau. Among children, the poverty rate declined to 19.9 percent that year from 21.8 percent. The number of children living in poverty also fell to 14.7 million from 16.1 million.

(The poverty threshold is based on various factors like the number of people living in a home, but for the purposes of the Pew report and this post, the Census Bureau defined poverty in 2013 as two related children living in a four-person household with an income of no more than $23,624. You can read more about how the Census Bureau defines this poverty threshold here.)

In 2013, for the first time since the Census began collecting this data in 1974, the number of black children in poverty (4.2 million) actually edged out the number of white children in poverty (4.1 million), Pew reports. While Pew noted that the difference was not statistically significant, it stands out because there are far more white children than black in the country.

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The child poverty rate is a constant, unending pit of sorrow. One in five children in the United States lives in poverty. It has been more than four decades since the poverty rate for children was below 15 percent.

As noted above, children represented 23.5 percent of the total population in 2013, but they made up 32.3 percent of all people in poverty that year. Earlier this year, the Southern Education Foundation reported that more than half of public school students during the 2012-2013 school year were eligible for free and reduced lunches, an indicator of how many come from low-income families.

The United States also does not compare too favorably to other wealthy countries in the world. A report from UNICEF last year studied 41 affluent countries to see how child poverty changed between 2008 and 2012. Based on the child poverty rates in 2012, the United States came in at No. 36.

UNICEF used a different measurement for poverty, determining it based on 60 percent of median income. According to that report, the United States had a child poverty rate of 32.2 percent in 2012, with nearly one in three children deemed impoverished. But this problem is a global one: In more than half the countries studied by UNICEF, at least one in five children lives in poverty. And in 23 of the 41 countries studied — the United States included — the child poverty rate increased between 2008 and 2012.

In addition to measuring different countries, UNICEF also looked at the numbers for each state here. Between 2006 and 2011, otherwise known as a period when a recession chewed through wide swaths of our economy, child poverty increased in more than two-thirds of the states. Some states saw large increases, like New Mexico (rising to a 41.9 percent child poverty rate from 32.8). Others, like Oklahoma, maintained a woeful status quo (with its 36 percent rate barely budging).

This is also a big problem for the youngest age group, those younger than 6. The National Center for Children in Poverty says that half of children in this age range live in low-income or abjectly poor families. About 70 percent of black children younger than 6 live in low-income families, as do about 66 percent of Hispanic children in that age range. And the number of particularly young children living in poverty has increased since 2007, the year the Great Recession began.

This latest report from Pew does not offer explanations for the racial gap. However, in the years since the recession began, there have been numerous indications of how much worse the economic implosion and the ensuing recovery has been for black people and other minorities. Black people disproportionately held subprime mortgages, so they were more likely to face foreclosures when the market collapsed. Black women said they were experiencing greater difficulties paying bills or getting loans. Black families who spent decades climbing into the middle class saw their financial foundations torn apart.

And even as the recovery has picked up, some Americans benefited more than others. Black and Hispanic working families are now twice as likely as white or Asian ones to be poor or low-income, according to one report, a gulf that grew since the recession. The racial wealth gap only grew since the recession, too: While the wealth of white people leveled off during the recovery, it continued to fall for black and Hispanic people.

To put it another way: White households essentially had 13 times the median wealth of black households, and 10 times the wealth of Hispanic households, as Pew researchers put it last December. This is the largest gap between black and white people since 1989.

As the National Center for Children in Poverty explains, most of the children living in poverty have parents who do work, but a combination of low wages and unsteady job employment lead to financial instability. A report earlier this year from the NAACP found that black and Latino workers are more likely to work in retail, which comes with stagnant or low pay, part-time schedules and unsteady schedules.

Meanwhile, nationwide, between 2012 and 2013, the poverty rate fell for men, women, Hispanics, children, people born outside the United States and families, according to the Census Bureau. It remained steady for black people.

Related:

The $15 minimum wage fight goes national

The great and shattered American dream

 

Mark Berman is a reporter on the National staff. He runs Post Nation, a destination for breaking news and developing stories from around the country.

 

 

 

Conheça o drama das crianças arrancadas das famílias em experimento social na Dinamarca

Junho 23, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://g1.globo.com/  de 14 de junho de 2015

arquivo pessoal

Meninos e meninas foram levados da Groelândia para virar cidadãos-modelo nos anos 50; muitos acabaram se tornando alcoólatras ou entraram em crise de identidade.

Ellen Otzen Da BBC News

Em 1950, um grupo de crianças da etnia inuit (anteriormente chamadas de esquimós) foi retirado de suas famílias na Groenlândia e levados à Dinamarca para serem educados como “cidadãos dinamarqueses”.

O programa “Witness”, da BBC, conversou com uma das vítimas deste polêmico experimento social.

“Era um dia lindo de verão quando dois distintos senhores dinamarqueses apareceram na nossa casa”, lembra Helene Thiesen. Era 1951, ela vivia com sua família em Nuuk, a capital da Groenlândia.

“Estavam com um intérprete e com a minha irmã mais velha. ‘O que eles estão fazendo aqui?’, pensei. Estávamos bastante curiosos. Pediram que a gente saísse de casa enquanto minha mãe conversava com eles”.

“Perguntaram à minha mãe se ela estava disposta a me mandar para a Dinamarca. Aprenderia a falar dinamarquês e teria uma boa educação. Disseram que seria uma grande oportunidade para mim”, prosseguiu.

Helene conta que a mãe negou o ‘convite’ duas vezes. Mas os dinamarqueses seguiram pressionando. “Diziam que era só por seis meses e que eu teria a oportunidade de um futuro promissor.”

BBC

‘Novo groenlandês’

A Dinamarca estava decidida a melhorar as condições de vida da sua colônia ártica. Muitos deles, porém, viviam da caça às focas, poucos falavam dinamarquês e a tuberculose estava disseminada pela região.

As autoridades dinamarquesas decidiram que a melhor maneira de modernizar a ilha era criar um novo tipo de groenlandês.

Elas enviaram telegramas a diretores de escolas e padres pedindo que identificassem as crianças mais inteligentes entre 6 e 10 anos. O plano, idealizado em conjunto com a fundação “Save the Children” da Dinamarca, era enviá-los a famílias dinamarquesas para que fossem reeducados como “crianças dinamarquesas”.

Muitos se mostravam receosos a mandar seus filhos, mas finalmente 21 famílias cederam. O pai de Helene Thiesen havia morrido de tuberculose três meses antes e sua mãe ficou sozinha com três filhos pequenos.

“Minha mãe me explicou: ‘Você vai para a Dinamarca’. ‘O que é a Dinamarca?’, perguntei a ela”.

“‘É um país muito longe, mas bonito, é como o paraíso. Você não tem que ficar triste’, disse a minha mãe.”

Em maio de 1951, o barco MS Disko saiu de Nuuk com 22 crianças a bordo.

“No barco, olhei para a minha mãe e não consegui nem dizer ‘tchau’ com a mão. Estava enjoada: ‘Por que você está me deixando ir?’, pensei. Não entendíamos por que estavam nos mandando para um lugar tão distante. O que encontraríamos lá? Era tudo muito incerto.”

Arquivo pessoal2

“Eu me lembro quando chegamos a Copenhagen. Estava anoitecendo e havia um porto muito grande”, contou Helene.

Após chegarem, as crianças foram enviadas às suas famílias adotivas. Mas, primeiro, passaram o verão em um “acampamento”, conhecido como Fedgaarden. “Depois, soubemos que, na realidade, eles estavam nos mantendo isolados, em quarentena”, disse.

“Nos colocaram em quarentena porque éramos o primeiro grupo de crianças que chegava da Groenlândia à Dinamarca. Eles temiam que tivéssemos algo contagioso.”

“Continuei me perguntando o que faria quando voltasse para casa. Tinha saudades de minha mãe e ainda sentia muito a morte de meu pai.”

A visita da rainha

A chegada das crianças inuítes era um projeto de tanto prestígio que até a rainha quis visitar o acampamento.

Mas, na foto que tiraram das crianças com a rainha, nenhuma delas sorri.

“Claro que houve momentos mais alegres, como quando íamos à praia. Mas quando nos mandavam dormir, chorávamos em silêncio. Eu me sentia muito triste e insegura”.

Em dezembro de 1951, uma revista dinamarquesa publicou uma reportagem descrevendo a experiência como um “sucesso”.

“O modo de vida aqui na Dinamarca é muito diferente do que esses meninos estavam acostumados, mas a habilidade que eles tiveram para se adaptar é impressiomante. Não é comum ver nenhum problema provocado por sua reação à civilização”, dizia a publicação.

“As crianças da Groenlândia já falam dinamarquês muito bem, mas quando a alegria ou a raiva os agitam, uma chuva de palavras groenlandesas aparece de repente, e sons sem sentido podem ser ouvidos.”

“Helene nunca disse uma palavra a seus pais adotivos, mas conversa com sua irmã adotiva, Marianne, que está lhe ensinando a costurar.”

Helene Thiesen desenvolveu um eczema em Fedgaarden e decidiram que ela deveria morar com um médico. Para tratar sua inflamação, cobriram seus cotovelos e calcanhares com uma pomada preta e proibiram-na de entrar na sala de estar para não danificar os móveis.

“Nunca me senti bem-vinda nessa família. Era uma estranha. A mãe tinha problemas mentais e ficava deitada o tempo todo.”

Helene conta que não confiava nos adultos na Dinamarca e, quando alguém lhe dirigia a palavra, apenas “assentia ou negava com a cabeça” porque não queria responder. Alguns meses depois, quando seu problema de pele melhorou, a garota foi transferida para uma família diferente.

“A segunda família me acolheu de maneira totalmente diferente. Era como um conto de fadas em comparação com a primeira. Eram pessoas muito calorosas”, disse.

BBC2

 

De volta à Groenlândia

No ano seguinte, 16 dos 22 inuítes, incluindo Thiesen, foram enviados de volta à Groenlândia. A organização “Save the Children” deixou os seis restantes na Dinamarca – eles foram adotados por suas famílias de origem dinamarquesa.

“Quando o barco atracou em Nuuk, segurei minha mala e corri pela ponte para os braços da minha mãe”, disse Helene.

“E contei tudo o que havia visto. Mas ela não respondeu. Eu olhei para ela confusa. Depois de um tempo, ela me disse algo, mas não entendi. Nem uma palavra. Aí pensei: ‘Que coisa horrível! Não consiguirei falar com a minha mãe nunca mais!’. Falávamos idiomas diferentes.”

Teve, então, outra surpresa. Enquanto Thiesen estava ausente, outra fundação, a Cruz Vermelha Dinamarquesa, havia construído um lar para crianças em Nuuk.

Segundo a instituição, as crianças que haviam se hospedado em casas dinamarquesas não deveriam viver com suas próprias famílias “em condições piores”.

“Nossa nova ‘mãe’ – a diretora do lar – me tocou o ombro e disse: ‘Vamos, suba no ônibus, você vai para o orfanato’. Por que eu estava sendo enviada a um lar para crianças? Ninguém me respondeu. Observei a cidade por entre minhas lágrimas.”

No lar de crianças, os garotos e garotas queriam reaprender o groenlandês para se comunicar com seus pais de novo. Muitos dos empregados, que falavam o idioma local, começaram a ajudá-los.

“Mas então o diretor dinamarquês apareceu. ‘O que estão fazendo? Não podem ensinar groenlandês. Essas crianças precisam ser educadas para chegarem ao topo da sociedade. Portanto elas só falarão dinamarquês’.”

A relação de Helene com sua mãe nunca voltou a ser a mesma. “Me sentia muito triste pela decisão de me mandar para longe. Eu ficava realmente irritada porque ela não só me deixou ir, como também permitiu que eu voltasse a viver em um orfanato, apesar de morarmos na mesma cidade”.

“Eram tempos em que os dinamarqueses eram os senhores coloniais da Groenlândia. Eram ‘mestres’ no pior sentido da palavra. Eles controlavam tudo e ninguém poderia contradizer um dinamarquês.”

Somente em 1996, quando tinha 52 anos, Helene descobriu por que havia sido afastada de sua mãe.

E a notícia não veio do governo dinamarquês e sim de uma escritora que encontrou uma coleção de documentos no Arquivo Nacional da Dinamarca.

“Ela me ligou e disse: ‘Você está sentada? Você foi parte de um experimento.’ Me sentei no chão e a única coisa que fiz foi chorar.”

Experimento falido

Longe de servir como modelo para o intercâmbio cultural na Groenlândia, as crianças terminaram como um pequeno grupo sem raízes e marginalizados na periferia de sua própria sociedade. Vários deles se tornaram alcoólatras e morreram jovens.

“Alguns deles se tornaram mendigos, outros simplesmente ficaram marcados para sempre. Perderam sua identidade e a capacidade de falar sua língua materna e, com isso, perderam seu propósito de vida”, disse Helene.

BBC3

Ela recebeu uma carta da Cruz Vermelha Dinamarquesa em 1998 “lamentando” o episódio. Finalmente, em 2009, a Save the Children da Dinamarca também se desculpou. Mas uma investigação interna descobriu que alguns dos documentos que detalham a participação da Save the Children podem ter sido destruídos propositalmente.

“O que aconteceu foi uma clara violação dos direitos fundamentais das crianças”, disse Mimi Jacobsen, secretária geral da Save the Children Dinamarca.

“Tinham boas intenções, mas tudo foi feito de uma forma terrível supondo que o pensamento nesse momento era que queriam educar e melhorar os groenlandeses para dar a eles um futuro melhor.” Em 2010, as autoridades da Groenlândia reivindicaram uma desculpa ao governo dinamarquês.

O Partido Democrata Social dinamarquês, então oposição, pediu uma investigação independente. Mas logo que eles assumiram o governo em 2011, reinou o silêncio sobre o tema. Helene disse que a experiência teve alguns resultados positivos.

“Apesar de ter jurado que nunca me casaria com um dinamarquês, porque estava revoltada com o poder colonial, acabei com um marido de lá. Junto com ele e meus filhos, temos uma vida feliz na Dinamarca.”

Helene Thiesen dedicou sua vida a cuidar dos filhos. Hoje tem 71 anos e está aposentada. Vive no sul da Dinamarca. “Em relação às autoridades dinamarquesas, minha mágoa é grande. É simplesmente incompreensível. O que vivi me magoará para sempre até o dia da minha morte.”

 

 

Acção de Sensibilização “Tráfico de Seres Humanos e Minorias Étnicas”

Janeiro 6, 2011 às 9:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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